terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Os Assassinatos de Kingsbury Run - A história real do notório Açougueiro de Cleveland


A narrativa à seguir é um apanhado sobre os crimes reais que aterrorizaram os habitantes de Cleveland na década de 30. Os assassinatos de Kingsbury marcaram a aparição do primeiro e possivelmente um dos mais sanguinários assassinos em série da história americana.

O caso é examinado no cenário "O Horror de Kingsbury" que serve como introdução para Rastro de Cthulhu. Embora o livro traga as informações necessárias para o mestre narrar o cenário, aqui estão mais alguns detalhes interessantes a respeito desse caso assustador. Esses recursos podem ser úteis se o guardião quiser detalhar um pouco mais a aventura.

Preferi não recorrer a fotografias reais do crime, achei melhor fazer uma auto-censura e evitar colocar imagens chocantes. É possível encontrar essas fotografias na internet, mas sugiro aos guardiões que usem essas fotos apenas se o grupo demonstrar maturidade e discernimento.

Cleveland em 1930 era uma cidade em desenvolvimento.

A população crescia à olhos vistos, abraçando uma mistura de trabalhadores estrangeiros e emigrantes em busca de melhores oportunidades de vida. Os subúrbios não paravam de crescer e pareciam prestes a explodir com o fluxo de pessoas e comércio. Ruas foram abertas ou alargadas e prédios construídos às pressas. A Exposição dos Grandes Lagos e a Convenção Nacional dos Democratas já haviam sido marcadas para 1936, assim como outros importantes eventos. Apesar da Depressão, algumas pessoas estavam se saindo bem.

Foi nesse panorama que um dos mais prolíficos e bestiais Serial Killers de todos os tempos começou a espalhar uma onda de terror que aterrorizou a população de Cleveland. Treze pessoas foram brutalmente assassinadas no decorrer de quatro anos, começando em 1934 - todas as vítimas foram decapitadas, algumas enquanto ainda estavam vivas.

Embora o famoso investigador policial Eliot Ness tenha dito que o caso foi resolvido, nenhum suspeito foi identificado, e ninguém foi trazido à julgamento. Os crimes terminaram tão abruptamente quanto começaram. Até os dias atuais os assassinatos de Kingsbury Run permanencem como um dos mais sensacionais e intrigantes enigmas da história dos Estados Unidos.

Kingsbury Run ficava na cabeceira de um rio que cortava a região metropolitana de Cleveland. Trilhos de trens e uma auto-estrada atualmente passam pelo local, mas nos anos 30 a paisagem era bem diferente. Limitada pela Avenida Woodland ao norte e pela Broadway no sul, Kingsbury Run era uma vizinhança isolada, escura e perigosa naqueles tempos. Famílias que haviam perdido tudo na Depressão viviam em situação deplorável, barracos de madeira e casebres disputavam espaço com pilhas de lixo e sujeira ao longo da Run. Essas pessoas eram em sua maioria miseráveis, muitos deles andarilhos e vagabundos que viajavam clandestinamente em trens e que buscavam qualquer abrigo para escapar do brutal inverno de Cleveland. A leste da Run havia uma área chamada por seus frequentadores de “The Roaring Third”, onde havia todo o tipo de negócio sórdido desde bares e bordéis, até casas de jogo. Nesse ambiente insalubre, aconteceria o mais notório caso de assassinato na história de Cleveland.

Tudo começou em Setembro de 1934, um jovem fez uma descoberta macabra nas margens enlameadas do Lago Erie. Ele encontrou a parte inferior do torso de uma mulher, membros ainda presentes, mas amputadas na altura dos joelhos. O legista do condado, A.J Pierce, descobriu um tipo de composto químico sobre os restos que haviam ficado avermelhados. A busca subsequente revelou algumas partes de corpo. O cadáver pertencia a uma mulher com cerca de 30 anos. A cabeça jamais foi encontrada e a mulher nunca foi identificada. Ela foi chamada pela imprensa de "A Dama do Lago". Apenas dois anos mais tarde essa morte foi incluída na conta do Açougueiro de Cleveland, a primeira vítima oficial do matador.

Apenas um ano mais tarde o caso ganharia fama e começaria oficialmente.

Foto oficial da descoberta do primeiro cadáver em 1935.
Em Setembro de 1935 dois adolecentes encontraram o cadáver decapitado e emasculado de um homem branco, nas cercanias de Jackass Hill, limites de Kingsbury Run. O cadáver nu, exceto por um par de meias, estava limpo e com pouco sangue. Haviam marcas de corda em seus pulsos. O legista após examinar o corpo concluiu que a causa da morte havia sido a decapitação por um instrumento pesado e afiado, possivelmente um machado. Impressões digitais identificaram o indivíduo como sendo Edward Andrassy, um homem branco de vinte e oito anos. Andrasy tinha passagem criminal, era supostamente homosexual e frequentava o Roaring Third. Investigando a área em busca de pistas, a polícia encontrou um segundo corpo, também decapitado e emasculado coberto com o mesmo composto químico preservativo espalhado sobre a "Dama do Lago". Dada a putrefação, o corpo parecia ter sido abandonado ali há pelo menos duas semanas. O homem de quarenta e poucos anos, jamais foi identificado.

Em janeiro de 1936 uma funcionária da Indústria Hart, descobriu o corpo mutilado de uma mulher embrulhado em jornal e disposto em duas grandes cestas de piquenique. As cestas foram deixadas na entrada do prédio da firma, na Central Avenue. Os membros foram encontrados dias mais tarde na Orange Avenue a cerca de 5 quadras dali. A cabeça, no entanto, jamais foi achada.

Da mesma forma que no caso de Edward Andrassy, a causa da morte havia sido decapitação. Por alguma razão, o assassino dessa vez esperou até o rigor mortis se iniciar para desmembrar o cadáver. As impressões digitais ajudaram a identificar a vítima como Florence Polillo, garçonete, atendente de bar e prostituta. Na época de sua morte, ela residia na Roaring Third.

Seis meses depois, dois rapazes vasculhavam o lixo quando fizeram outra descoberta macabra: Encontraram a cabeça de um homem embrulhada cuidadosamente com restos de roupa. O corpo foi achado no dia seguinte próximo do prédio da delegacia de polícia. O cadáver havia sido limpo e o sangue drenado, com exceção da cabeça ausente, ele estava incólume. Mais uma vez o legista determinou que a causa da morte havia sido decapitação. Embora as impresões digitais tenham sido colhidas e a vítima possuísse seis tatuagens distintas, a polícia nunca conseguiu descobrir a identidade do sujeito de vinte e poucos anos. Em um detalhe mórbido, uma máscara facial da vítima foi feita com gesso e as tatuagens fotografadas. Esse material foi apresentado na Exposição dos Grandes Lagos em 1936 e mais de 100 mil pessoas se acotovelaram para ver a máscara e as tatuagens. Enormes filas se formaram, mas ninguém foi capaz de identificar positivamente o "Homem Tatuado".

Detetives e médicos legistas examinam a cena do crime e os restos encontrados. A polícia se mostrava perplexa.

Apenas um mês depois, em Julho, uma garota encontrou os restos de um homem de quarenta e poucos anos na floresta de Big Creek. A vítima estava morta há pelo menos dois meses. Sua cabeça e uma pilha de roupas ensanguentadas foram descobertas parcialmente enterradas perto dali. Pela quantidade de sangue encontrada no solo, o legista confirmou que a vítima havia sido morta no local onde foi encontrada.

Em setembro um vagabundo tropeçou no torso de um homem próxima da linha de trens em Kingsbury Run. A polícia investigou a área e encontrou no fundo de uma lagoa ali perto os restos das pernas da vítima e uma serra que foi usada para desmembrar o cadáver. As autoridades conduziram uma busca no lago, sob o olhar atento de mais de 600 curiosos contagiados pela febre do Assassino do Torso. Ironicamente, o assassino poderia estar no meio dessa multidão, saboreando o momento em que pedaços de sua vítima eram trazidos à superfície.

A vítima número seis tinha cerca de 30 anos, e havia morrido em decorrência de um único golpe no pescoço que lhe arrancou a cabeça. O Legista Pierce concluiu que a ausência de marcas de hesitação nos restos indicavam se tratar de um indivíduo forte e familiarizado com a anatomia humana. O cadáver jamais foi identificado.

Seis mortes haviam ocorrido em um período de um ano e a polícia não tinha pistas ou suspeitos. A imprensa de Cleveland noticiava os horríveis crimes em manchetes sensacionalistas para vender jornais. O assassino ganhou o nome de "Açougueiro Louco" e a histeria começou a se espalhar pela cidade. A tensão chegou a tal ponto, que inocentes apontados como sendo o matador, foram capturados e linchados pela multidão. Grupos de vigilantes se formaram para patrulhar as ruas. Policiais eram hostilizados pela população insatisfeita. A cidade estava à beira do caos.

Cedendo a pressão popular o Prefeito Harold Burton, nomeou Eliot Ness - famoso por ter liderado a força tarefa que condenou o gangster Al Capone em Chicago - para o cargo de Diretor de Segurança. As autoridades e o público esperavam que ele fizesse um milagre. Na apresentação de Ness, o legista Pierce presidiu uma conferência que a imprensa chamou de "Clínica do Torso" onde experts discutiram as motivações e tentaram traçar um perfil do responsável pelos homicídios.

O departamento de polícia de Cleveland colocou os detetives Merylo e Zelewski exclusivamente no caso. Algo precisava ser feito com urgência.

Eliot Ness, um dos mais conhecidos agentes da lei esteve intimamente envolvido na caçada ao Assassino de Cleveland. Sua carreira acabou arranhada por esse caso.

Ness e os detetives começaram a agir diretamente sobre o antro do submundo em Kingsbury Run, o Roaring Third. Policiais disfarçados de vagabundos vagavam pelo local em busca de pistas, conversavam com frequentadores dos bares e buscavam indivíduos conhecidos por violência. Inúmeras pessoas foram entrevistadas e centenas acabaram presas sob suspeita, mas não havia provas concertas.

As eleições de Novembro re-elegeram Burton como prefeito, mas o legista Pierce foi substituído por um jovem progressista, Sam Gerber. A implacável determinação de Gerber, junto com seu conhecimento forense o alçaram como um dos principais investigadores no caso.

Gerber não precisou esperar muito para ser confrontado pelo assassino. Em fevereiro de 1937 um homem encontrou a parte superior de um torso de mulher numa praia em Brahtenahl. Diferente das demais vítimas, a causa da morte não havia sido a decapitação; esta havia acontecido quando ela já estava morta. A parte inferior do cadáver foi encontrada três meses depois por trabalhadores no esgoto. A mulher com cerca de trinta anos nunca foi identifiada.

Em junho de 1937, um rapaz descobriu um crânio humano de baixo da ponte que ligava Lorain e Carnegie nos limites de Kingsbury. Próximo a ele, em um grande saco estavam os restos de uma mulher negra de 40 anos de idade. Empregando dentistas ela foi identificada como Rose Wallace, residente de Carnegie. A polícia não descobriu nenhuma pista que pudesse ser útil.

No mês seguinte, o sindicato dos trabalhadores entrou em conflito nas ruas de Cleveland contra a Guarda Nacional. Um guarda patrulhando as ruas encontrou os restos da vítima número nove boiando no rio. Nos dias seguintes, a plícia recuperou o corpo inteiro, exceto a cabeça, das águas do rio Cuyahoga. O abdomem da vítima havia sido aberto e seu coração arrancado, indicando que o assassino estaria experimentando e evoluindo em seu método. A vítima tinha cerca de 30 anos e não foi identificada.

O detetive Merylo um dos responsáveis pelo caso examina facas em busca de uma arma que pudesse ter causado os ferimentos nas vítimas do Açougueiro.

Quase um ano se passou sem ataques, até que em abril de 1938 um operário avistou o que achava ser um peixe nos bancos do rio Cuyahoga. Ao se aproximar ele percebeu que se tratava da porção inferior da perna de uma mulher, o primeiro pedaço da décima vítima. Buscas na água encontraram outras partes e Gerber conseguiu descobrir traços de drogas no organismo. Seria assimq ue o assassino paralizava suas vítimas ou ela era uma usuária de heroína. A descoberta dos braços poderia lançar uma luz sobre o caso, mas estes nunca foram encontrados.

Meses depois mais um torso de mulher achado em um terreno baldio embrulhado em um cobertor. Junto com a embalagem a polícia descobriu papéis de embrulho e luvas de plástico. A cabeça estava em outro pacote. O legista dessa vez descobriu que os restos pareciam ter ficado em um ambiente refrigerado. Enquanto buscavam por mais pistas, a polícia encontrou um segundo cadáver. Ironicamente, esses dois corpos foram despejados em um lugar a poucas quadras do escritório de Eliot Ness, quase com uma provocação do assassino.

A resposta veio na mesma semana. Ness e um efetivo de trinta oficiais de polícia, decidiram investigar os casebres às margens do rio onde os últimos corpos haviam sido encontrados. A operação de "pente fino" visava encontrar o covil que o assassino supostamente vinha usando para eliminar suas vítimas. Pela manhã, polícia e bombeiros retiraram os moradores e atearam fogo aos casebres.

A imprensa criticou as ações de Ness e sua incapacidade de encontrar o responsável. A ação contra os moradores da beira do rio não ajudaria em nada na caça ao criminoso. O público estava preocupado e frustrado.

Mas então os crimes pararam de maneira tão brusca e inexplicável como quando se iniciaram.

Em julho, o xerife do Condado Martin O’Donnell, que não era da polícia de Cleveland, prendeu um pedreiro de cinquenta e dois anos chamado Frank Dolezal pelo assassinato de Flo Polillo. Dolezal havia tido um caso amoroso com a vítima e investigações posteriores demonstraram que ele conhecia Edward Andrassy e Rose Wallace.

Frank Dolezal acabou sendo o único homem acusado de ser o infame açougueiro de Cleveland. Na foto ao lado ele deixa a delegacia acompanhado do xerife O'Donell.

Após um longo interrogatório ele confessou a autoria dos crimes, mas a confissão era totalmente incoerente e ausente de detalhes, quase como se ele tivesse sido orientado a falar. Antes de ser enviado para o tribunal, Dolezal foi encontrado morto em sua cela, supostamente após cometer suicídio. A imprensa levantou dúvidas a respeito do suicídio afirmando que Dolezal não conseguiria se enforcar tão facilmente. A autópsia de Gerber revelou que o preso tinha seis costelas quebradas e marcas de agressão. Atualmente ninguém acredita que ele fosse o verdadeiro assassino do torso.

Muitos investigadores atuais suspeitam que o verdadeiro assassino do torso fosse o Dr. Francis Sweeney um cirurgião que possuía uma clínica nos arredores de Kingsbury Run. Sweeney trabalhou durante a Grande Guerra em uma unidade médica especializada em amputações. Sabe-se que o médico foi entrevistado pessoalmente por Eliot Ness, mas dispensado. Durante o interrogatório, Sweeney teria sido testado com um polígrafo e teria falhado duas vezes seguidas. Ness, no entanto, achava que apontar o médico como responsável poderia arruinar sua carreira, pois Sweeney era primo de um congressista

Em 1938, pouco depois do último crime conhecido, Sweeney se internou voluntariamente em um sanatório privado que diagnosticou um quadro de perturbação nervosa e esquizofrenia. Ele morreu no hospital dos veteranos em 1964.

Uma coisa é certa, Eliot Ness tinha um suspeito que ele acreditava ser o verdadeiro assassino. Esse suspeito continuou provocando Ness através de cartas, por muitos anos depois que os assassinatos pararam. Ness morreu acreditando que a pessoa que enviava cartas era uma fraude.

Os assassinatos de Kingsbury Run permanecem como um dos mais assustadores casos criminais da história americana, mais assustador pelo simples motivo de que o responsável jamais foi capturado.

6 comentários:

  1. Estava dando uma pesquisada e vi que a estória do Assassino de Cleveland está para se tornar filme. Matt Damon fará o papel de Eliot Ness.

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  2. Com certeza uma história insólita e com um final que deixa a todos com dúvidas. Bem jogado na mesa pode ser sensacional!

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  3. Com esse texto, e essas descriçoes/narração, as fotos não fizeram falta nenhuma.

    Parabéns pelo excelente post.

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  4. Ual essa publicação realmente me intrigou. Estou fazendo uma pesquisa sobre vários assassinos ele realmente é o que mais me chamou atenção e o pior é que ele nunca foi preso

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  5. Post sensacional e minucioso. Parabéns!

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