quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Robert E. Howard - O Homem que inventava Bárbaros

Com base no texto de Glenn Lord

Aquele que viria a ser o criador de Conan, Robert Erwin Howard, nasceu no dia 22 de janeiro de 1906, na pequena cidadezinha de Peaster, próxima de Fort Worth, no Texas. O pai, um médico do interior, fez a família se mudar por todo o Texas, durante anos até finalmente se estabelecer em Cross Plains, outro vilarejo no interior do estado em meados de 1919.

Quando ainda era criança, o jovem Howard vagava pelo deserto brincando de cowboy ou espadachim, atirando em indios imaginários e trespassando inimigos com sua espada feita de madeira. Dono de uma imaginação vibrante Howard começou a redigir contos a partir dos 15 anos para tentar vender às revistas da época. Uma lista de seus trabalhos iniciais, indica que a primeira estória oferecida foi "Bill Smiley and the power of Human Eye", rejeitada por duas editoras em 1921. Howard conseguiu a sua primeira venda em 1924, quando a revista Weird Tales aceitou "Spear & Fang" (Lança e Presa), um conto sobre homens das cavernas em uma caçada na pré-história, comprada por 18 dólares, pagos quando a estória foi publicada.

Já adulto tornara-se um leitor compulsivo e intelectual, ainda que a aparência física sugerisse um sujeito bruto e grosseiro, bem ao estilo dos homens do oeste. Com mais de 1,85 de altura e com uma constituição robusta, rosto quadrado e queixo largo, era um fã de boxe, de história militar e de armas - não por acaso tinha o apelido Bob Cano-Duplo. Era um historiador amador; vagava pelas cidades dos pioneiros entrevistando agentes da lei (os Texas Rangers), veteranos da Guerra Civil e ex-escravos em busca de relatos verdadeiros do passado. Em mais de uma oportunidade cruzou a fronteira com o México vestindo um sobrero como disfarce para beber em bares decadentes de Tijuana. Arranjava brigas com os valentões locais para testar sua força e habilidade como pugilista e colecionava desafetos e amigos fiéis.

Robert arrumou vários tipos de emprego depois de se formar no colegial. Trabalhou em um escritório de advocacia como secretário particular, carregou mira topográfica para um geólogo, escreveu notícias nos campos petrolíferos, foi estenógrafo, atendente de farmácia e até carteiro. Nos intervalos de seus vários trabalhos seguia escrevendo as estranhas narrativas que afloravam em sua mente criativa.

Depois de ter sua primeira estória publicada, Howard se convenceu que poderia se tornar um escritor profissional. Largou o emprego de estenógrafo e começou a escrever diariamente em um ritmo febril de produção literária. Escrevia trancado em seu escritório, datilografando ruidosamente em sua máquina Underwood enquanto gritava as falas de seus personagens pela casa como se estivesse encenando as violentas cenas de seus contos de sabre em punho. Seus pais, e os vizinhos tiveram de se acostumar com os gritos e maldições do rapaz.

Solomon Kane, o severo espadachim duelista e puritano, foi o primeiro de uma série de personagens a serem publicados regularmente pela Weird Tales. Suas estórias envolviam misticismo, feitiçaria e ruínas africanas abandonadas desde os primórdios. O ano seguinte viu o advento de Kull, o selvagem atlante que usurpava o trono da fabulosa Valusia na Era Pré-Cataclísmica - isto é, antes da Atlântida afundar.

Em 1930, Howard tinha se tornado uma presença regular na Weird Tales e também já havia chegado a outras publicações como a Fight Tales através das narrativas de outro personagem, o marinheiro Steve Costigan.

Howard também obteve grande sucesso com as estórias de horror e suspense. Ele escreveu a respeito de lobisomens e monstros marinhos, maldições de zumbis e casas assombradas, mas influenciado por outros autores como H.P. Lovecraft (de quem se tornou fiel correspondente) e Clark Ashton Smith, mergulhou de cabeça no horror cósmico. Escreveu contos a respeito de deuses antigos, criaturas da aurora da humanidade, ruínas abandonadas e cidadelas proibidas. Com um talento impar, colocou seu nome ao lado da primeira geração de autores do Círculo Lovecraftiano com clássicos como "The Black Stone" e "Worms of the Earth". Seu estilo mesmo imerso no terror privilegiava a ação e seus personagens eram exploradores, aventureiros e caçadores de tesouros.

A Grande Depressão, como não podia deixar de ser teve um efeito devastador na indústria editorial. Durante algum tempo, a Weird Tales diminuiu a sua frequência de publicação de mensal para bimestral, e mesmo depois de voltar a programação mensal se viu afundada em dívidas. Howard teve de se adaptar a essa nova realidade, buscando outros gêneros e públicos. Escreveu sobre detetives particulares, pugilistas, caçadores africanos, soldados na Grande Guerra, pistoleiros no Oeste Selvagem, espadachins na França dos mosqueteiros...

Em 1932 trabalhando novamente para a Weird Tales apresentou um novo personagem, Bran Mak Morn, o chefe picto cujas batalhas com as legiões romanas se tornaram muito populares. O público parecia gostar da idéia original de Howard a respeito de povos selvagens e primitivos, bárbaros que colocavam de joelhos inimigos mais civilizados. Nessa época ele cunhou uma famosa frase: "Barbárie é o estado natural da humanidade. A civilização não é algo natural. É um capricho de circunstância. O barbarismo há de triunfar sempre no final".

A edição do mês seguinte, revelou um herói que acreditava piamente nisso e que iria sobrepujar todos os outros. Ele seria a sua criação mais famosa: Conan, o Bárbaro. A primeira aventura de Conan, "A Fênix na Espada", era na verdade uma versão de um conto estrelado pelo Rei Kull, chamada "By This Axe I Rule!" e apresentava um Conan mais velho e experiente enfrentando questões d eestado no trono da Aquilônia.

Os leitores reagiram positivamente a este personagem e Howard começou a se dedicar quase que inteiramente a ele. Definiu em seguida um ambiente rico em detalhes, um vasto mega-continente onde as aventuras de Conan aconteceriam, uma terra exótica e pitoresca que correspondia a uma época anterior à história registrada. Howard batizou essa época de Era Hiboriana e a populou com toda sorte de reinos, deuses, magia e povos. O fascínio que sentia por história foi bem aproveitado para construir um ambiente que encontrava eco em várias civilizações da antiguidade.

Conan ganhou vida a partir desse cenário inusitado e começou a protagonizar estórias selvagens onde a tônica eram as intrigas políticas, a violência, o horror diante do desconhecido e a sensualidade de belas mulheres semi-nuas. Howard lançou nesse caldeirão elementos de misticismo e sobrenatural, cunhando assim um gênero que ficaria conhecido como Sword & Sorcery.

Entre 1932 e 1936, a Weird Tales comprou dezessete estórias de Conan transformando o personagem no mais popular da revista. A cada edição, o Bárbaro transportava o leitor para um mundo de selvageria e ação, que nenhum outro escritor era capaz de conjurar. Em 1936, Howard atravessava uma excelente fase, vendendo estórias para a Weird Tales e trabalhando também para a Action Stories, Street and Smith e para a revista Spicy (essa dedicada a contos mais picantes, escritos sob pseudônimo). Sua produção continuava em ritmo vertiginoso, ele trabalhava por horas à fio e sua fonte de idéias parecia inesgotável.

Todavia as cartas de Howard enviava aos seus colegas de correspondência indicavam sua crescente preocupação com o estado de saúde de sua mãe. Em 1935, a sra Howard havia sofrido uma cirurgia e nunca mais recuperou a saúde. Dali em diante, iria exigir visitas periódicas e cuidados intensivos de enfermagem. Howard foi acometido de uma profunda depressão da qual não conseguia se recuperar e que parecia consumi-lo de tal maneira que nem a paixão pelo trabalho conseguia superar.

Na manhã de 11 de junho de 1936,a enfermeira responsável respondeu negativamente quando Robert perguntou se sua mãe algum dia sairia do coma em que se encontrava. Ao ouvir a resposta, ele caminhou até seu carro, estacionado nos fundos de sua casa nos subúrbios de Cross Plains, entrou e disparou um tiro na cabeça. Howard morreu oito horas depois. Sua mãe expirou cerca de trinta horas mais tarde. Os dois foram sepultados no Cemitério de Brownwood.

Howard nunca chegou a se casar, seu relacionamento romântico mais longo foi com a professora Novalyne Price. Cheio de altos e baixos o namoro não foi adiante ainda que os dois tenham continuado bons amigos até a sua morte. Novalyne escreveu uma biografia a respeito da vida de Howard intitulada "The One who Walk alone", que foi usado como base para o filme de 1996, "Um Amor do Tamanho do Mundo" (A Whole Wide World)

A morte trágica e prematura não apagou o legado de Robert E. Howard. Nos anos seguintes as suas estórias, tanto as publicadas quanto as por publicar encontraram seu caminho até os leitores que avidamente devoraram sua literatura e elevaram suas criações ao mais alto patamar do gênero fantástico. Sua obra influenciou autores como J.R.R. Tolkien e George Martin.

Publicado em mais de 40 idiomas, com personagens reconhecidos nos quatro cantos do mundo, Howard é hoje cultuado por uma multidão de fãs que chegaram até ele não apenas pela literatura, mas através de outras mídias como quadrinhos, filmes e games.

Sua carreira, foi brilhante e ruidosa, assim como as façanhas de seu mais famoso personagem. Se os dois se encontrassem, com certeza teriam muito a agradecer um ao outro.


9 comentários:

  1. Um gênio. Tive o prazer de ler a sua obra, lançada em dois volumes aqui no Brasil pela Conrad.

    E pra variar, um triste final.

    Mamedes

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    1. Infelizmente a Conrad não chegou a publicar o terceiro volume da coleção, que é muito bem editada e ilustrada.

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  2. Alguem sabe se as histórios e o cenário do Conan e da Era Hiboriana são domínio público? Se eu quizer escrever algo profissional neste universo tenho de pedir permissão para alguem?

    E os contos e histórios do Cimério, existem em meio eletrônico na rede ou só pelos dois livros lançados aqui no Brasil, que já são díficeis de encontrar pra comprar?

    Max

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Já existem alguns textos de Howard no site do Project Gutenberg. Além das duas edições da Conrad, já fora de catálogo, já foi lançado "Conan, o Bárbaro" (Generale), com histórias inéditas no Brasil.
      Outras obras de Howard como "A Sombra do Abutre" (Arte & Letra) e "O Rosto da Caveira, Os Filhos da Noite e Outros Contos" (Martin Claret).
      As últimas três obras citadas estão em catálogo atualmente (2016).

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  3. Realmente, Howard tinha um estilo de escrita brilhante e descrevia as batalhas de maneira tão empolgante que o leitor conseguia se sentir dentro da luta. Imerso pelo calor da batalha, pelo som de espadas se chocando, pelos gritos de dor e fúria e detectando o cheiro ocre de sangue no ar.

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  4. Max,

    Eu *acho* que o personagem ainda não caiu em domínio público, mas suponho que não deve demorar muito para que isso aconteça. Se não me engano existe uma Conan Society que cuida da liberação do personagem para adaptação.

    Na internet é possível encontrar muita coisa disponível em português. Publicados existem os dois livros supra citados (da Conrad) e mais o novo livro da editora Generale.

    Sobre as coletâneas do personagem aguarde um dos próximos artigos.

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  5. Achei algo:

    http://www.archive.org/details/TheConanStories-RobertE.Howard

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  6. Recomendo aos nobres leitores que tambem deem uma checada no material de Lord Dunsany.

    Howard realmente foi um grande escritor e deixou um grande legado.

    Este artigo conta o longo processo que o conto "Black Stranger" levou para ser finalmente publicado, decadas apos a morte do autor:

    http://gamobranco.wordpress.com/2012/09/21/a-jornada-de-um-conto/

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