quinta-feira, 12 de junho de 2014

Cinema Tentacular: Sob a Pele - Scarlet Johanson em filme muito, muito, muito estranho.


Olá para todos, fazia um tempo que o Cinema Tentacular não dava as caras aqui no blog.

Francamente, em parte porque não têm entrado em cartaz muitos filmes de horror decentes ultimamente, ou pelo menos, produções que se enquadrem na proposta de poderem ser de alguma forma adaptadas para nossas mesas de jogo ou discutidas de um ponto de vista Lovecraftiano (sempre essa palavra!).

Recentemente, estreou nos cinemas um filme que aparentemente cumpriria essas duas condições e que me parece interessante debater.

O nome é "Sob a Pele" (Under the Skin/GB/2014).

O título não deve dizer muito para a maioria dos leitores, mas é provável que alguns tenham ouvido falar a respeito dessa pequena produção independente britânica. Afinal, é o tal filme estrelado pela super-linda-mega-maravilhosa atriz Scarlet Johanson, com cenas bastante generosas no que diz respeito a nudez. (Aqui eu abro um parenteses, essa mulher fica linda seja como for, loira, ruiva, morena, careca... MEU DEUS!)


Aham... Mas não se enganem por esses atrativos, Sob a Pele, é um filme de horror/ficção estranho, muito, muito, muito estranho...

É tão esquisito que eu realmente não consigo definir meu posicionamento a respeito dele. Não sei nem dizer ao certo se gostei ou achei uma tremenda bomba. É um daqueles filmes que você assiste, fica furioso, tenta entender, desiste, mas que não consegue tirar da cabeça por algum tempo. Ele fica martelando insistentemente, ainda que você queira simplesmente esquecer que o assistiu. Acredito que todos já viram um filme desse tipo. Bom, desculpem a analogia escatológica, mas Sob a Pele é como uma casca de ferida que você sabe não deve cutucar, mas que sem perceber acaba metendo a unha para arrancar.

É engraçado, porque muitos críticos respeitados consideraram esse filme complexo, curioso, genial e incomum.

Francamente eu concordo com o último adjetivo: ele é incomum. Mas na minha opinião é preciso muito mais do que estranheza para considerar um filme desses genial. Sob a Pele está longe de ser uma obra prima, como muitos querem fazer parecer, o diretor não é "um herdeiro de Stanley Kubrik" como li em uma resenha cujo autor se rasgava em elogios. Sob a Pele meramente bebe da fonte de produções intrincadas que eram mais frequentes nos cinemas há 15 ou 20 anos atrás. Filmes cujo roteiro se mostrava quase inacessível, mas que justamente por essa razão, se tornaram cultuados pelos fãs, produções como Eraserhead, Pi, Veludo Azul, Estrada Perdida, Donnie Darko, Cidade dos Sonhos...


Será que alguém ficou curioso? Acho que então está na hora de falar do maldito filme. Senão vejamos, sem entregar demais o roteiro.

Em Sob a Pele, Scarlet Johanson é uma criatura extraterrestre que assume uma aparência humana extremamente desejável para assim andar livremente pelas ruas da cidade de Glasgow, na Escócia. Seu objetivo é muito simples, ela se aproxima de espécimes humanos do sexo masculino e busca atraí-los com promessas implícitas de sexo, para seu esconderijo (coisa que não é muito difícil, haja vista). Uma vez que eles são convencidos a seguir com ela até um apartamento no centro da cidade as coisas começaram a ficar esquisitas. O apartamento em si é uma espécie de covil alienígena, com chão esponjoso e paredes cobertas de uma substância escura gotejante. Lá, a sedutora acaba fazendo com que sua vítima seja engolido por um inexplicável vórtex espacial e desapareça para sempre. Um sujeito em uma moto monitora as suas ações e limpa tudo depois que ela passa.

E é basicamente isso aí.

Isso acontece uma, duas, três, vezes... com poucas variações. Entre uma dessas caçadas e outra, a alienígena come um pedaço de torta e decide que não gosta do sabor. Ela vai até um shopping, olha as vitrines e lojas e não entende o que significa o consumismo. Ela parece interessada em assistir pequenos dramas do dia a dia, sem realmente demonstrar qualquer grau de empatia além de interesse momentâneo. 
Realmente tudo parece incrivelmente sem graça ou sem sentido. Em uma cena especialmente estranha, ela assiste impassível uma situação de risco envolvendo uma mulher, um bebê e um cachorro, e quando uma pessoa tenta interferir na situação para ajudar, ela simplesmente o impede, esmagando-o como uma barata. 


Se o espectador espera alguma motivação, algum sentido, alguma explicação detalhada, vá tirando o proverbial cavalinho da chuva. Não há nada disso. Sob a Pele é um filme de situações, filmado de uma maneira que criou controvérsia, já que os caras que "interpretam" os "sortudos" escolhidos pela bela alienígena são caras normais, e não atores. Eles eram filmados em segredo sendo abordados pela atraente alien em bares e boites da cidade. E só quando a acompanhavam até o apartamento, ficavam sabendo que estavam sendo filmados e que aquilo era uma simulação para um filme. A seguir, o diretor conversava a respeito da produção e perguntava se eles aceitavam fazer mais algumas cenas e permitiam o uso das imagens gravadas.

Sob a Pele é uma adaptação da novela de Michael Faber, uma sátira bem mais acessível a respeito de uma criatura alienígena chamada Isserley que procura humanos do sexo masculino porque sua carne é considerada deliciosa, sobretudo quando eles estão excitados. Enquanto busca vítimas, Isserley vai conhecendo alguns detalhes estranhos a respeito da humanidade e no fim assume que seus "assassinatos" não são "nada de mais".


O filme prefere esquecer esse roteiro e se concentrar nas abordagens da alienígena e nos seus resultados.

A única coisa que quebra um pouco o ritmo é quando a personagem encontra um homem com uma grave deformidade facial e por alguma razão decide poupá-lo. A partir desse ponto a personagem começa a agir de uma maneira diferente, como se tentasse com mais afinco compreender os meandros do comportamento humano.  

Digo novamente, "Sob a Pele" não é um filme para todos. O final abrupto e absolutamente inesperado sem dúvida vai deixar muitas pessoas furiosas e com aquela expressão desorientada de "que diabos foi isso que acabei de assistir"? Por essas e outras, eu não indico esse filme, mas se você não estiver fazendo nada melhor e tiver um gosto por coisas incomuns, talvez consiga absorver algo interessante. Em último caso, talvez valha a pena para confirmar que Scarlet Johanson é uma das mais lindas atrizes da atualidade (embora suas escolhas profissionais sejam pra lá de questionáveis).


Ah sim, não poderia deixar de mencionar... lá pelas tantas eu resolvi deixar de lado qualquer interesse pelo roteiro e passei a ver o filme como se o alienígena fosse um agente da Grande Raça de Yith habitando o corpo de Scarlet Johanson. Acreditem ou não, nesse contexto, as coisas funcionam incrivelmente melhor, embora eu tenha consciência de que essa não é a proposta do filme. 

Contudo, em se tratando de adaptação, ou nesse caso sobreposição, é possível encarar o roteiro perfeitamente sob essa ótica. Um agente da Grande Raça, ainda se adaptando ao corpo de seu hospedeiro, vaga por aí fazendo testes e explorando a sociedade humana, sem realmente ser capaz de compreender as coisas que está vendo ou entender o comportamento da simplória raça dominante nessa época em especial. Em se tratando de alienígenas sem qualquer fiapo de empatia, a personagem é um ótimo referencial.

Eu sei, pode ser meio demais sobrepor o clássico "Shadow out of Time" de H.P. Lovecraft (meu conto favorito em todos os tempos) a esse filme, mas de certa maneira para mim funcionou. Ao menos, deu algum sentido a uma trama que não faz muito sentido.

Trailer:



7 comentários:

  1. Luciano, muito obrigado por escrever sobre esse filme. Foi o suficiente para eu não vê-lo hahahah pela sua descrição, me parece uma bomba atômica !!! rsss

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  2. Haha! Se eu tivesse lido essa resenha provavelmente iria querer assistir, só de curioso... e provavelmente não ia gostar.

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  3. Outro filme bastante interessante que remete de forma bem sutil ao universo dos Mythos se chama "Picnic at Hanging Rock". Tem uma boa ambientação e vale a pena conferir.

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  4. Cara... Parabéns!

    Principalmente por não soar como 90% dessas críticas que são bem como você citou, e tentam soar inteligentes e superiores só para serem pretensiosos. Isso de falar de Kubrick e tudo mais, é só papo, é pra querer soar inteligente. Acho que com um filme desses, é muito mais honesto mesmo chamar de estranho, dizer que não é pra todo mundo, do que querer classificar quem não gosta como "desentendido".

    Eu provavelmente só vou ver na TV msm =P

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. King In Yellow, conheci seu blog essa semana procurando por resenhas de Numenéra e tô lendo tudo quanto é matéria desenfreadamente! rs

    Eu particularmente adorei o filme e vi muito de 2001 - Uma Odisseia no Espaço nele, mas aí é questão de gosto e opinião mesmo. Pra mim o filme funciona muito bem como um questionamento do que é, realmente, aquilo que entendemos por "humanidade"; o que essa palavrinha cheia de contextos subjetivos significa, além de trabalhar as ideias de senciência e empatia.

    Indo pro lado do RPG, acho que dá pra dar uma leve forçada e adaptar o filme pro contexto de Changeling: Os Perdidos do novo Mundo das Trevas, fica bem legal também.

    De qualquer forma, parabéns pelo trabalho. Seu blog é excelente, já tá nos favoritos do meu navegador!

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  7. Muito bom esse filme, mas como vc disse, não é pra qualquer um. Abç.

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