domingo, 13 de agosto de 2017

Mutilações em nome da Fé - Os estranhos rituais de uma Seita bizarra na Rússia


Quais os limites entre fé e loucura? Onde se estabelece a fronteira entre o fanatismo e o simples acreditar no divino? Em que momento o fundamentalismo se torna perigoso e prejudicial às pessoas?

Na Rússia Imperial a crença cega e o desejo de atingir um nível superior de iluminação, convergiram para a criação de uma das seitas mais bizarras de que se tem notícia. Uma que estimulava a auto-mutilação como forma de atingir um estado de pureza que diferenciava seus membros de todos os outros homens e mulheres. 

"Eu não sou pai do pecado: aceite meu ato e vou reconhecê-lo como meu filho.

Reza a lenda que foram exatamente essas palavras ditas pelo camponês Kondráti Selivanov, líder da seita mística Skoptsy, ao então Tsar Pavel I. O encontro ocorreu quando o Tsar, preocupado com os rumores sobre o surgimento de uma seita de fanáticos que castravam a si mesmos, ordenou que o líder deles fosse trazido à sua presença.

Selivanov afirmava ser a reencarnação de Jesus Cristo e dizia que através de seus ensinamentos o mundo seria salvo e todos seus seguidores herdariam a Terra. Para isso, entretanto, precisavam aceitá-lo como messias e adotar sua confusa doutrina religiosa. 

O Imperador, não ficou muito impressionado com os ensinamentos de Selivanov, tomou o camponês como um simples louco e o enviou para um mosteiro que acolhia os insanos. Contudo, o Tsar subestimou o poder do auto-proclamado salvador: a seita dele arregimentaria mais de 200 mil adeptos na Rússia nos anos seguintes. 

A Skoptsk surgiu em Oryol, uma região a 300 quilômetros de Moscou, entre camponeses iletrados que viviam em um estado de pobreza e desespero lastimáveis. Um aldeão chamado Andrei Ivanov, tido como curandeiro e homem santo foi o fundador do movimento. Vagando de aldeia em aldeia ele condenava a luxúria em discursos eloquentes. Para Ivanov o mundo estava fadado a destruição graças ao desejo dos homens e mulheres que, segundo ele, eram responsáveis por todas as desgraças e sofrimentos. Ivanov teria convencido mais de 30 pessoas a se auto-mutilar, amputando seus genitais em demonstrações públicas nas quais "abdicavam da impureza e abraçavam a moralidade".


Ivanov foi preso por fomentar comportamento inadequado, mas um de seus assistentes Kondráti Selivanov assumiu seu lugar com fervor redobrado. As reuniões ocorriam publicamente nas praças e nos mercados, Selivanov e seus seguidores relatavam seus pecados e condenavam a luxúria em que viviam até adotar a castração. Ao fim da reunião, Selivanov perguntava aos presentes quais deles desejavam ser livres e sempre havia alguém disposto a acreditar nas promessas. Estes recebiam uma navalha ou lâmina afiada e eram convencidos a se castrar ali mesmo, sem nenhuma anestesia e diante das testemunhas, muitas das quais chocadas com o sangrento espetáculo.

O nome da seita derivava do termo arcaico "oskopit", que significa literalmente "castrados", porém, os membros do culto optavam por epítetos românticos, tais como "Cordeiros de Deus" ou "Pombas Brancas". Muitos deles vestiam aventais brancos como indumentária para identificar sua condição de devoto. Aqueles que aceitavam o Ritual de Purificação, ou a "Prova de Fogo", como chamavam, podiam usar o avental com manchas de sangue que mostrava sua opção pela castração. 

O princípio mais importante da Skoptsy, teria surgido de uma passagem no Evangelho segundo Mateus que diz: "Há castrados que foram castrados por outros, e há castrados que se castraram para atingir o Reino de Deus". 

Os sectários acreditavam que esse trecho conclamava as pessoas a renunciar a vida carnal e ao pecado como uma forma de garantir seu lugar no Paraíso. Mais tarde, os líderes da Seita começaram a interpretar até mesmo trechos menores da Bíblia em seu favor: alegando, por exemplo, que Cristo, após lavar os pés de seus apóstolos, também teria os castrado para torná-los imunes ao pecado.

A Skoptsk não parou por aí. Seus membros passaram a condenar todo tipo de beleza e vaidade como sinal inequívoco de pecado, que eles chamavam de "lepost". Passaram então a mutilar a si mesmos, implorando por surras com o propósito de se deformarem fisicamente. A feiura passou a ser desejável. Mulheres usavam cacos de vidro para retalhar a própria face, raspavam os cabelos, cortavam o nariz, lábios e as orelhas - sobretudo aquelas que um dia usaram brincos ou adornos. Alguns usavam ferro em brasa para marcar sua pele produzindo cicatrizes medonhas. Os horrores não paravam por aí, crianças não escapavam da loucura dos pais e mesmo bebês recebiam marcas grotescas. A devoção cega fez incontáveis mulheres removerem os próprios seios, tidos como uma fonte perigosa de luxúria.

As reuniões da Seita tornaram-se espetáculos grotescos em que pessoas se auto-mutilavam açoitando as costas com chicotes de couro, cortando a carne e se depreciando histericamente. Quando membros da Seita chegavam a uma aldeia os camponeses corriam para recolher as crianças e se trancar em casa até que os gritos parassem. Testemunhos da época davam conta do quanto essas reuniões podiam ser aterrorizantes e traumáticas para quem as assistia. A catarse emocional era tamanha que cada um tentava impor a si o maior sofrimento como prova de devoção.

Apesar da excentricidade, seitas como a Skoptsk começaram a ganhar popularidade graças a um período de degradação da Igreja Ortodoxa, tida como muito burocrática e elitista pelos camponeses.


Em 1772, o Tsar ordenou que a Seita fosse desarticulada e seus membros enviados para a Sibéria. A perseguição foi grande, mas no fim isso só beneficiou o autoproclamado mártir Selivanov. Vinte anos se passaram e os seguidores continuavam a se multiplicar, agindo clandestinamente. Na mesma época Selivanov conseguiu retornar de seu exílio, se estabelecendo em São Petersburgo como uma autoridade mística fantasiada de monge. Lá ele converteu dezenas de pessoas à sua fé.

Na década de 1790, começaram a surgir adeptos da Skoptsk entre a classe média com comerciantes e soldados adotando suas práticas. Em 1802, o grupo aceitou seu primeiro aristocrata, Aleksêi Ielenski, que havia absorvido seus princípios durante o exílio na Sibéria. Dois anos depois, Ielenski enviou uma proposta para entregar a Rússia à Skoptsk, o que resultou em um segundo exílio.

Selivanov, preferia não se intrometer com política, ao invés disso, começava a ganhar espaço entre os decadentes e boêmios da capital – na época, o misticismo estava na moda como algo exótico. Seitas se multiplicavam com uma velocidade estarrecedora, cada qual com seus salvadores e doutrinas bizarras.

Um oficial militar que atendia pelo nome de Lubianóvski chegou a contar que o Tsar Aleksandr I se consultou com Kondráti Selivanov antes da batalha de Austerlitz, em 1805. O líder da Skoptsy era tido com uma espécie de Profeta e segundo alguns podia ver o futuro. Na ocasião ele teria implorado ao imperador para não "entrar em guerra contra os amaldiçoados franceses", além de ter previsto a derrota da Rússia diante de Napoleão - o que, de fato, aconteceu.

Em 1817, a Seita foi declarada ilegal após boatos de que pessoas haviam sido capturadas e coagidas a se castrar. Alguns acreditam que os rumores foram meramente plantados pela polícia imperial que recebeu ordem de acabar com o movimento depois que membros da Guarda Branca se uniram a ele. Selivanov foi preso novamente e mandado para a Sibéria onde morreu. Mas a seita tinha se espalhado por várias cidades e voltara a agir em segredo.

Na segunda metade do século XIX, Skoptsk ainda era um fenômeno comum na Rússia: "Os skopets que possuem lojas geralmente se abrigam no andar de cima ou nos porões onde dançam e cantam seus hinos", escreveu Dostoiévski em seu romance "O Idiota".

Os seguidores haviam adotado uma postura mais discreta abdicando por completo das estranhas reuniões e da castração em público. Ao contrário do que muitos supunham, os membros da seita não eram contrários ao matrimônio. A intimidade do casal com o propósito meramente reprodutivo era permitida e até incentivada ainda que a castração fosse sugerida depois do quarto filho. As celebrações envolviam danças frenéticas que lembravam os ritos sufistas, com homens e mulheres usando saias compridas. 


A introdução de elementos no folclore e o "caráter popular" da seita continuava a converter os camponeses e algumas pessoas de maior poder aquisitivo. A seita foi acumulando grandes riquezas, que eram usadas para converter os locais, seja comprando presentes para os camponeses, criando abrigos para órfãos, ou dando suporte aos necessitados. Alguns dizem que em seu auge centenas de milhares ou até mesmo um milhão de pessoas seguiam a seita em meados de 1900.

Mas então, veio a Revolução Russa.

Antes da Ascensão Comunista, o Governo Imperial não lutava de maneira efetiva contra as seitas e preferia olhar para o outro lado, coibindo apenas algumas manifestações. Os movimentos de cunho religioso eram muito populares em todas camadas sociais. Até mesmo a esposa do Tsar Nicolau II se aconselhava com uma figura messiânica, o Monge louco Rasputin que tinha enorme prestígio dentro da Família Real.

Tudo mudou quando os bolcheviques tomaram o poder: Stálin assumiu uma postura de repressão contra a Skoptsk, jurando desmantelar por inteiro a Seita que ele via como decadente, subversiva e perigosa. Agentes da polícia secreta se infiltraram e realizaram incontáveis prisões. Os membros eram colocados em trens e mandados para a Sibéria aos montes. Nos gulags, aqueles que ainda professavam sua fé eram fuzilados ou mortos com golpes de baioneta. Algumas dessas fazendas coletivas teriam sido usadas como protótipos de campos de extermínio.

Em poucos anos a Skoptsk desapareceu, afogada na maré rubra de brutalidade estatal. Algumas fontes sugerem, no entanto, que ainda existem membros ativos até hoje, embora não haja comprovações. A ideia é que os seguidores modernos da seita possam, ser chamados de "antissexuais" e que adotam a castração livremente.

Nota - Pessoal, eu preferi não incluir na postagem fotografias tiradas na época que mostram detalhes das mutilações feitas pelos membros da Skoptsky. Não se trata de censura, mas de uma questão de respeito para com alguns membros que preferem não ver esse tipo de coisa. Gostaria d epedir que essa postura seja atendida e que os interessados em compartilhar essas imagens o façam em caráter privado. O interesse pelo tema diz respeito a traçar paralelos entre essa Seita e suas práticas incomuns com as Seitas da ficção, em especial da ficção dos Mythos de Cthulhu.

Um comentário:

  1. bom post, fazia tempo que nao víamos as esquisitices da Rússia

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