sábado, 6 de janeiro de 2018

As Bruxas de Salem - A infame Caça às Bruxas na América Colonial


Em algum momento perto do final de janeiro de 1692, Betty Parris, a filha de nove anos do Reverendo Samuel Parris, ficou doente. Ela sofria de convulsões que faziam com que seu corpo inteiro de contorcesse de maneira assustadora. Às vezes ela soltava urros medonhos, babava, virava os olhos e então se encolhia em baixo de cadeiras, mesas e da cama como se estivesse apavorada com ela mesma. Ou com alguma coisa que só ela podia ver. Aos olhos de seus pais, aquilo não podia ser algo natural.

O Reverendo e sua esposa não conseguiam reconhecer a doença que afligia sua filhinha. Chamaram vários médicos para tentar curar aquela estranha aflição. Os médicos a examinavam e não encontravam nenhum problema físico.

Logo, uma jovem órfã de treze anos, chamada Abigail começou a manifestar os mesmos sintomas alarmantes. A menina era uma prima e morava na mesma casa, dormia no mesmo quarto e era a melhor amiga de Betty. Aos olhos dos pais horrorizados, a verdade estava clara! As crianças estavam sob o ataque de forças demoníacas que tencionavam matá-las e reclamar suas almas. A suspeita foi corroborada pelo emérito Dr. William Griggs que após examinar as crianças declarou que a condição delas não era médica e sim espiritual: "o mal está com as mãos sobre essas crianças".

Como um rastilho de pólvora, o rumor se espalhou pelo pequeno Vilarejo de Salem: "O demônio foi conjurado e bruxas eram as culpadas por esse ato vil!".

Os eventos que se seguiram em Salem, Massachusetts ainda são chocantes e controversos, mesmo nos dias atuais. Antes que a loucura despertada pela Caça às Bruxas terminasse 19 pessoas seriam enforcadas, muitas outras seriam atiradas na cadeia, várias sofreriam tortura, sendo que ao menos uma morreria dessa maneira. O procedimento legal dividiria famílias, faria aflorar desconfiança entre vizinhos e deixaria uma mácula na história do Estado de  Massachusetts, uma das mais antigas e orgulhosas colônias da América. O constrangimento seria tamanho que 300 anos depois, o governo da Nova Inglaterra emitiria um pedido formal de desculpas pelos horrores que sancionou. Enquanto os motivos para o que aconteceu em Salem continuam sendo assunto de debate até hoje, os fatos são bastante claros.


Em 1692, Salem era uma pequena comunidade rural, pobre e isolada, com uma população de aproximadamente 550 pessoas. Ela era um sentamento próximo a Cidade de Salem, um porto movimentado e muito maior que recebia um fluxo de colonos interessados em tentar a sorte no Novo Mundo. Os habitantes do vilarejo eram quase em sua totalidade puritanos. Esse secto da fé protestante havia surgido na Inglaterra e desde o início era alvo de desconfiança e dura perseguição religiosa. Os severos costumes dos puritanos e seu estrito senso de moral eram vistos com reservas na melhor das hipóteses e na pior, abominados. Após sofrerem dura repressão e serem perseguidos na Inglaterra, muitos puritanos decidiram deixar seu lar e se aventurar além mar. Nessa nova terra selvagem, esperavam achar sua Terra Prometida, local onde poderiam se fixar e reverenciar Deus da maneira que desejavam. Ironicamente, mesmo tendo sido forçados a deixar suas casas por motivos religiosos, os puritanos eram um grupo muito fechado e extremamente intolerante com qualquer um que não adotasse seus códigos morais.

Mas a existência em Salem era exasperante, muito diferente do paraíso que os puritanos buscavam. 

Os invernos eram muito frios e destruíam as plantações, os curtos períodos de clima ameno tornavam necessário trabalhar pesado na lavoura. O contato com os nativos americanos, embora celebrado com o Dia de Ação de Graças, havia se tornado amargo e perigoso. Não era raro que índios atacassem as fazendas, roubassem comida e animais ou pior, matassem e escalpelassem os colonos. O medo e a paranoia andavam de braços dados. Como qualquer grupo de pessoas vivendo em uma terra estranha, os puritanos procuravam se manter muito próximos uns dos outros. Essa proximidade fazia com que todos seguissem os mesmos costumes e tradições. Qualquer um que se desviasse dos costumes consagrados era visto com reservas: exílio e banimento eram algo frequente. Em um ambiente tão rígido, intrigas, fofocas e disputas por terra também costumavam ocorrer. A possibilidade de epidemias de doenças que na época eram mortais, como sarampo e varíola, constituía uma preocupação constante. 

O grande fator de união entre os colonos puritanos, sem dúvida era sua fé comum. A Igreja era o local onde a comunidade podia se encontrar e reafirmar sua unidade. Entretanto, na época, alguns aldeões estavam pouco satisfeitos com seu líder espiritual, o Reverendo Parris, que era considerado por muitos um forasteiro, já que não era nativo de Salem. Alguns duvidavam da capacidade de Parris e circulavam rumores de que ele havia passado por uma profunda crise de fé. Como um Reverendo que tinha dúvidas a respeito de Deus poderia guiar aquele povo sofrido? Essa era uma questão perguntada pelos colonos quando se reuniam.   


Diante de todos esses elementos aviltantes, o medo fazia parte da existência dos camponeses de Salem. Medo de morrer, medo de punições, medo dos nativos, medo de doenças, medo de falhar com Deus, medo, medo, medo... quando um novo e explosivo elemento foi acrescentado a esse caldeirão de temores, o vilarejo literalmente se incendiou. Bruxaria era o ingrediente que faltava para que a fervura atingissem o grau de ebulição e transbordasse numa onda de paranoia e violência.

Quatro anos antes uma mulher chamada Goody Glover havia sido acusada de bruxaria e enforcada. Na ocasião algumas pessoas guardavam dúvidas a respeito da sentença imposta pelo xerife do vilarejo. A mulher conhecia ervas e o ofício de preparação de unguentos e salvas curativas. Ela também havia auxiliado algumas mães nas agruras do parto, uma vez que sabia trazer crianças ao mundo. Quando foi acusada de usar a placenta dos bebês em feitiços, as pessoas do vilarejo ficaram chocadas. Mas devia ser verdade... afinal, quem inventaria algo assim? 

Nas semanas seguintes, seja lá o que estivesse acontecendo com Betty e Abigail, parecia se espalhar para outras meninas na comunidade. Para quem observava o fenômeno, aquilo estava muito além de algo que simples crianças poderiam inventar por conta própria. O Reverendo John Hale, foi chamado para prestar testemunho a respeito do que estava sucedendo. Ele escreveu: "Essas crianças estavam sendo mordidas e beliscadas por agentes invisíveis; seus braços, pescoço, e as costas se torciam de uma maneira inacreditável. Aquilo estava muito além de ataques epiléticos ou qualquer doença de natureza convencional. Era trabalho diabólico, disso não resta dúvida!"

Logo, as meninas afligidas pela condição somavam sete, com idades entre nove e vinte. Betty, a mais jovem, foi mandada para fora do vilarejo e poupada do que se seguiu. As outras continuaram a agir de maneira estranha e a certeza de que elas estavam sob o feitiço de uma bruxa só cresceu. Finalmente, a tia de uma das meninas afligidas, Mary Stibley, forçou a escrava que servia ao Reverendo Parris, Tituba a fazer uma espécie de feitiço branco de natureza protetora para ajudar as crianças. Tituba era uma mulher negra, trazida da Ilha de Barbados e versada em curas e mandingas. Ela assou um bolo que foi compartilhado pelas meninas e que serviria para cortar os vínculos malignos que pesavam sobre elas. 


Quando ficou sabendo do ocorrido, o Reverendo ficou furioso. Naquele dia ele subiu ao púlpito e fez um sermão no qual disse não existir diferença entre "magia branca" e "magia negra". Toda forma de magia era maligna e uma anátema aos olhos de Deus. Aqueles que usavam de tais artifícios eram os responsáveis por aquela tragédia que havia atraído a atenção do demônio para o vilarejo. Parris conclamou qualquer um que testemunhasse a realização de malefícios a denunciar a transgressão e foi claro: "Qualquer pessoa poderia ser culpada".

Quando fevereiro se aproximou, a pressão continuava a crescer e uma das meninas revelou o nome da suposta bruxa responsável por tudo aquilo. Elizabeth Hubbard de dezessete anos apontou Tituba como a feiticeira que havia lançado magias e sortilégios sobre as crianças. Pouco se sabe a respeito de Tituba, mas é certo que a escrava servia como babá e empregada na casa de várias famílias em Salem e que costumava entreter as crianças com histórias de sua terra natal, músicas e costumes típicos de Barbados. Uma das brincadeiras favoritas envolvia cantar e dançar ao redor de uma fogueira e então adivinhar o nome dos futuros maridos com quem as meninas se casariam.

As acusações não pararam por aí: diziam que Tituba havia conjurado espectros que saíam da fogueira para dançar com elas na floresta, contaram que sapos eram cozidos no caldeirão para criar sortilégios, que sangue de bebês não batizados era bebido à luz da lua cheia e até que a escrava voava nua sobre os telhados do vilarejo.


Tituba foi levada diante do Reverendo Parris e da Congregação. Ser acusada de feitiçaria naquela época era um assunto grave. Em 1641 a Lei Britânica havia tornado a ofensa um crime capital. As pessoas acreditam que bruxas e feiticeiros, eram os servos fiéis de Satã, com quem haviam firmado um pacto para receber poderes em troca. Um dos poderes mais conhecidos era a habilidade de amaldiçoar e lançar o temido mau agouro. Uma bruxa podia amaldiçoar suas vítimas e causar os mais detestáveis efeitos; doenças, azar, perda de colheita, morte de animais e ferimentos, contudo, uma bruxa realmente poderosa podia matar com um olhar fulminante de pura perversidade.

Tituba tentou se defender, mas quando as acusações se tornaram mais e mais vilipendiosas ela acabou concordando em "entregar suas comparsas", a única forma de salvar a si mesma. Ela apontou Sarah Good e Sarah Osborn, duas mulheres que não tinham boa fama no vilarejo, a primeira considerada de mau temperamento, a segunda uma mulher que faltava regularmente aos cultos. Sob interrogatório e agressão, Tituba confessou que Good e Osborn eram suas irmãs de bruxaria e que as três formavam um cabal. Sua confissão mencionava vôos de vassouras pelo céu noturno e conversas com o Homem Negro (uma clássica imagem do Diabo) que vinha visitá-las durante os sabás.

Outras acusações se seguiram: Rebecca Nurse, Martha Cory, Sarah Cloyce, e Elizabeth Proctor foram presas em março e abril. Em 11 de abril, John Proctor, marido de Elizabeth, tornou-se o primeiro homem acusado de bruxaria depois que ele protestou contra a acusação imputada à sua esposa. Mary Warren, uma serviçal dos Proctor e uma das "crianças afligidas", deu voz às acusações depois que seus patrões afirmaram que as meninas provavelmente estavam fingindo e inventando tudo aquilo. 

Em 27 de maio o novo governador eleito da Nova Inglaterra, William Phipps, ordenou que uma corte fosse despachada para Salem a fim de tratar do caso. As meninas eram tratadas como testemunhas e sem dúvida adoravam a importância que lhes era dispensada. A corte decidiu que durante o inquérito "evidências espectrais" seriam aceitas, o que significava que as meninas - que supostamente conseguiam enxergar entidades invisíveis, poderiam afirmar se demônios estavam presentes na sala soprando informações no ouvido dos acusados. 


Durante o inquérito, ocorrido no salão paroquial, as meninas inventaram todo tipo de história bizarra a respeito de supostas bruxas que viviam em Salem. Algumas gritavam e desmaiavam, outras se levantavam e caíam no chão afirmando terem sido derrubadas por entidades invisíveis que as empurravam. Uma das crianças mordeu a própria língua e disse que uma das bruxas havia lançado contra ela um feitiço. Quando um acusado era chamado para se defender, as crianças interrompiam aos gritos afirmando que diabretes invisíveis estavam em seus ombros. Quando Elizabeth Proctor subiu a tribuna, as meninas simularam um desmaio coletivo, afirmando que as palavras dela estavam disfarçando maus agouros e maldições contra os juízes. Como resultado ela foi amordaçada e conduzida para fora da Igreja, impedida de se defender.

Em 2 de junho de 1692, Bridget Bishop se tornou a primeira das acusadas a ser julgada e condenada por praticar bruxaria. Oito dias depois, ela foi enforcada em Gallows Hill diante de toda comunidade. Em 19 de julho a segunda rodada de julgamentos teve início e em apenas dois dias mais cinco mulheres foram consideradas culpadas e executadas. Outro julgamento teve lugar em 19 de agosto e mais cinco foram sentenciados à morte, em sua maioria homens. John Proctor estava entre estes. Sua esposa Elizabeth escapou da forca por estar grávida.  

Antes que a caça às bruxas perdesse o folego, 141 pessoas haviam sido presas e processadas por feitiçaria. É irônico que apenas as pessoas honestas tenham sido executadas.  Se um acusado estivesse disposto a reconhecer a sua culpa e confessasse seu conluio demoníaco, era eventualmente perdoado. De fato, muitos dos acusados de participar de missas negras e sabás, tinham apenas que reconhecer sua culpa e implorar pelo perdão. Muitos sequer eram julgados, ainda mais se a sua confissão fosse precedida de mais delações. O efeito era uma verdadeira bola de neve de acusações infundadas em que qualquer nome podia ser sugerido. Disputas e desavenças acabavam sendo resolvidas com acusações absurdas.

Aqueles que não confessavam sua culpa ou que não apontavam outros nomes eram vistos como bruxos e punidos com severidade. Alguns sofriam torturas, pedras eram colocadas sobre seus corpos que eram lentamente esmagados. Outros eram obrigados a segurar tijolos ou metal em brasa para testar se Satã lhes concedia resistência ao calor e ao fogo. Aqueles que pareciam estar fingindo eram apontados como feiticeiros. Os métodos eram tão absurdos e desonestos que era impossível passar nos testes impostos. Um deles envolvia decorar passagens inteiras da Bíblia e repetir de cor as palavras sem cometer um único erro. Outro teste envolvia colocar na boca um carvão em brasa e recitar uma oração.


As "meninas afligidas", que eram órfãs, serviçais e de certo modo as pessoas mais humildes e frágeis da sociedade, repentinamente haviam percebido que tinham um grande poder. Elas conseguiam causar medo nas famílias mais poderosas e ricas do vilarejo. Bastava uma palavra delas para que alguém fosse arrastado pelos soldados e interrogado. Os nomes delas estavam nos lábios de todos em Boston e outras cidades importantes. Elas eram convidadas a visitar estas cidades e apontar bruxas. De um momento para outro, elas haviam se tornado muito importantes. A histeria não parecia ter fim em Massachusetts e a loucura continuava na ordem do dia.

É difícil dizer quanto tempo mais isso poderia durar se a própria esposa do Governador não tivesse também sido acusada de bruxaria. Isso fez com que ele tomasse uma medida para controlar a situação. Em 8 de outubro ele ordenou que a evidência espectral não fosse mais permitida nos julgamentos. No final do mesmo mês, ele proibiu prisões sem uma justificativa e mandou soltar várias pessoas. Em seguida, a corte foi dissolvida. O último prisioneiro formalmente acusado de bruxaria foi libertado da prisão em maio de 1693.

O que aconteceu em Salem continuou como uma ferida aberta na colônia de Massachusetts por muitos anos. Em 1697 a Corte geral do estado ordenou um dia de luto pelas almas dos injustiçados que pereceram em Salem. Samuel Sewall, que foi um dos juizes durante o auge da Caça às Bruxas, confessou publicamente ter cometido erros que levaram a condenação de inocentes. Nove anos depois, Ann Putnam Jr., uma das garotas afligidas, pediu desculpas publicamente por ter tomado parte na tragédia. O vilarejo de Salem para se livrar da sombra dos julgamentos decidiu mudar seu nome para Danvers em 1752. Finalmente, em 1957, O Estado Soberano de Massachusetts formalmente pediu desculpas pelos eventos em 1692.


Hoje em dia, a próspera Cidade de Salem incorporou a sórdida história do vilarejo de mesmo nome e promove convenções e feiras anuais em homenagem ao ocorrido. Visitantes podem ir até o memorial dedicado aos que sofreram com a perseguição ou que morreram durante aqueles dias negros. Museus, centros históricos e excursões recebem milhares de turistas anualmente. 

A questão que ainda nos assombra hoje em dia é como tudo aconteceu? O que fez com que um grupo de crianças se comportasse de maneira tão estranha e acusassem seus vizinhos? Ninguém realmente acredita que bruxas foram realmente as responsáveis pelo ocorrido. Mas se o diabo não foi a fonte de toda essa tragédia, é lamentável reconhecer que a culpa recai justamente sobre aqueles que se diziam do lado correto.

4 comentários:

  1. Estudar história , muitas vezes , significa conhecer o pior que a humanidade pode fazer a si mesma .

    ResponderExcluir
  2. Nada há ver, ou tudo há ver???

    Quando indagado sobre como chegou aos suspeitos, o delegado disse, em diversas ocasiões, que foi por meio de uma revelação que chegou a ele por dois profetas. "Uma dessas pessoas estava comigo no carro, quando teve a revelação, e a outra me ligou e me pediu para levar um caderno [onde seriam anotadas as revelações]".

    https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/sete-suspeitos-de-ritual-satanico-com-morte-de-criancas-no-rs-tem-prisao-preventiva-decretada.ghtml

    ResponderExcluir
  3. os puritanos não fugiram de perseguição religiosa https://www.prageru.com/videos/whats-truth-about-first-thanksgiving.

    ResponderExcluir