terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Medo Clássico - H.P. Lovecraft em uma edição incrível da Darkside


Houve um tempo em que a obra de H.P. Lovecraft era quase desconhecida no Brasil e difícil de ser encontrada.

Eu me recordo que meu primeiro contato com as histórias do Cavalheiro de Providence, foi lá pelos anos 1990, e veio através de uma edição da Francisco Alves. Para quem desconhece ou não se lembra, é um volume de capa amarela que ficou conhecida, graças à estranha ilustração frontal, como o livro das "lagostas com asas". A edição era simples, mas jeitosa, trazia algumas das histórias mais clássicas de Lovecraft, entre as quais "Um sussurro nas trevas", "A cor que caiu do céu", "O chamado de Cthulhu" e meu favorito, "Sombras perdidas no tempo".

NOTA: usei os títulos conforme foram traduzidos nessa publicação.

Por muitos anos, essa edição foi a única que eu consegui com os contos originais de Lovecraft. Havia outros dois livros, mas estes, logo fiquei sabendo, estavam esgotados, sem previsão para serem relançados. Por muito tempo então eu permaneci na vontade de ler aquelas outras histórias que eu só podia inferir o tema através dos títulos intrigantes: "The Dunwich Horror", "The Shadow Over Innsmouth", "The Dream Quest of Unknown Kadath"... cada um desses parecia cheio de mistérios e maravilhas, mas que até então se encontravam fora do meu alcance.


Como muitos, eu conheci Lovecraft através do RPG Call of Cthulhu e quando lia a respeito de personagens e monstros pinçados das histórias, minha imaginação voava. Eventualmente eu consegui aprender o suficiente de inglês para ler as histórias e matar a curiosidade que me atormentava. Mas convenhamos, ler essas histórias em seu idioma nativo não é das tarefas mais fáceis. Por mais que me esforçasse, algo sempre se perdia... era preciso ler Lovecraft em português - de preferência com uma tradução de qualidade. 

Vamos pular alguns anos. 

Nesse meio tempo, Lovecraft se tornou cult lá fora, e não demorou até ele ser descoberto por um grupo cada vez maior de interessados em seus contos no Brasil. E eis que num estalar de dedos ele passou do quase completo anonimato, a uma sensível popularização. E com isso, contos até então inéditos desembarcaram por aqui: algumas vezes com uma tradução correta e adequada, outras, nem tanto.


Atualmente não é difícil encontrar a obra de Lovecraft em bom português em qualquer livraria. Há várias edições nacionais que compilam suas principais histórias, volumes que reúnem seus trabalhos mais conhecidos e até mesmo antologias que trazem senão todos, quase toda sua produção literal, com direito a poesias e historietas escritas na infância e juventude.

Então, se livros dedicados a H.P. Lovecraft não são mais exatamente uma novidade por que gastar linhas e mais linhas com mais um lançamento? Vale a pena adquirir outra edição com contos dele? Será que mais uma edição não seria apenas redundante?


Talvez, isso fosse verdade, se essa nova edição não fosse tão incrível.

Antes de seguir adiante, abro um parenteses para falar de uma jovem e ousada editora que aceitou o desafio de se dedicar exclusivamente a publicação do gênero Fantasia e Terror. Desde seu surgimento, a Editora Darkside se converteu numa referência de qualidade dentre os entusiastas da Literatura Fantástica.

Sendo um consumidor contumaz do gênero abordado pela Darkside, estou sempre atento em seus próximos lançamentos, ansioso para saber o que vem por aí. Minha prateleira está abarrotada com as edições deles e não canso de tecer elogios ao material. Não apenas a seleção de títulos é notável, mas a qualidade gráfica de cada edição, faz toda diferença. Os livros da Darkside não oferecem apenas literatura de qualidade, são um deleite, tanto para os candidatos a, quanto para os verdadeiros bibliófilos.


E por isso eu fiquei tão empolgado com a notícia de que a Darkside finalmente publicaria sua versão da obra de H.P. Lovecraft. Sob o selo "Medo Clássico", que já visitou outros expoentes como Edgar Allan Poe e Mary Shelley, o primeiro tomo inteiramente dedicado a Lovecraft é de uma qualidade monumental.

Reunindo ao longo de suas 400 páginas, nove contos desse mestre do terror, Medo Clássico traz ainda uma série de extras que vão fazer a alegria de qualquer fã. É claro, tudo indica que este será apenas o primeiro livro de uma coleção longa e que outros virão para construir gradualmente a bibliografia completa de H.P. Lovecraft. Neste primeiro volume temos uma seleção de clássicos da lavra de "O Chamado de Cthulhu", "Nas Montanhas da Loucura" e "Sombras Perdidas no Tempo" contos essenciais que sedimentaram alguns conceitos centrais do Mythos Cthulhiano e que são obrigatórios. Além destes, temos "Dagon", "O Cão de Caça" e "O Depoimento de Randolph Carter", três histórias curtas, mas igualmente clássicas de um período em que Lovecraft ainda estava sondando a amplitude de sua mitologia particular. Assomando a eles, a lista inclui "A Cidade sem Nome", um dos meus favoritos, frequentemente esquecido e "A História do Necronomicon" um ensaio curto no qual o autor estava trabalhando e que ficou, infelizmente, incompleto. Finalmente, temos "Herbert West - Re-Animator" que estava um tanto sumido dos catálogos nacionais e que ressurge aqui como um curioso exemplo de história em capítulos.


Algumas pessoas estranharam a formação dessa lista, que num primeiro momento parece um tanto aleatória, contudo ela reúne uma seleção de contos para quem está começando a explorar o universo do Mythos. Entre estes títulos encontram-se obras mais acessíveis, o que talvez explique a razão pela qual não temos nenhuma das histórias do intrincado Ciclo dos Sonhos. Os contos escolhidos compõem uma rica coleção cujo objetivo, sem dúvida, é atrair os neófitos e batizá-los nos dogmas Lovecraftianos. Nesse contexto, esse volume é uma ótima opção para aqueles que já ouviram falar do autor, mas que nunca leram um de seus contos. Literalmente uma porta de entrada para o restante de seu repertório profano.

Mas isso quer dizer que o livro vai ter serventia apenas a quem conhece pouco ou nada de Lovecraft?


De modo algum! Medo clássico possui, além dos já referidos contos em uma tradução afiada cortesia de Ramon Mapa, excelente material extra. Esse bônus inclui textos assinados por Fernando Ticon e por Mapa - a respeito da influência de Lovecraft na Cultura Pop, um texto de Robert Bloch analisando a relação entre H.P. e sua influência maior Poe, um ensaio de Clemente Penna, no qual ele relata sua passagem pela cidade natal do homem cujo túmulo está escrito "Eu sou Providence") além de uma série de anotações, trechos escritos à mão ou martelados na máquina pelo próprio Lovecraft que compõem uma curiosa tapeçaria de ideias e conteúdo - material garimpado nos arquivos da Universidade Brown detentora de uma extensa coleção sobre o autor. Uma vez que as histórias já foram publicadas anteriormente, oferecer material adicional na forma de extras exclusivos é uma excelente maneira de entregar algo diverso e cheio de frescor. Imagino que esse deve ser um padrão a ser seguido nos demais volumes.

Se isso não fosse atrativo suficiente, cabe ainda falar da parte visual a cargo da Retina 78, responsável pelo projeto gráfico da maioria dos livros da Darkside. E nesse quesito, Medo Clássico é sensacional. O grau de atenção e zelo com o acabamento final é (para usar uma palavra do vernáculo de Lovecraft) estarrecedor!


A capa possui duas opções de imagem: A primeira chamada de EDIÇÃO MISKATONIC em cinza metalizado, traz uma poderosa imagem de Lovecraft, como uma estátua enredada pelos muitos tentáculos de sua criação mais famosa, Cthulhu. A imagem remete diretamente aos livros de conteúdo proibido que repousam nas prateleiras empoeiradas da assombrada Biblioteca da Universidade Miskatonic. A borda das páginas tem uma coloração verde doentia, que combina com a noção de que seu conteúdo é alienígena e tóxico. A segunda opção de capa é a EDIÇÃO CÓSMICA com um caleidoscópio de cores fosforescentes igualmente doentias nas quais predominam os matizes verde, roxo e preto. A capa foca em Cthulhu, ocupando o centro da imagem e, segundo afirmam alguns, emite um brilho tênue na escuridão (mas essa pode ser apenas a impressão de quem já sofre com alguma insanidade). A borda das páginas é negra. Não adianta debater qual a mais bonita, qual a mais bacana pois, como dizem, beleza está no olho de quem vê. As duas tem o mesmo padrão de qualidade e acabamento; internamente, o conteúdo, é rigorosamente o mesmo.

O que chama atenção no material é o capricho, o bom gosto e o nível de detalhes. Páginas com os textos escritos por Lovecraft, sobrepostos por runas misteriosas e o verde nauseante se sobrepõem em vários trechos. Fotografias, efígies, símbolos cabalísticos e rabiscos - muitos deles feitos pelo autor para descrever suas criaturas também são muito bem aproveitados. O grau de detalhismo inclui até o esmero de usar como fonte no Sumário, letras borradas de uma velha máquina de escrever.


A arte interna ficou à cargo de Walter Pax, ilustrador responsável pela arte da edição nacional de Chamado de Cthulhu (editada pela Terra Incógnita) e pelo livro de arte "Love - A arte que não deveria ser". O traço preto e branco de Pax, cheio de nuances confere texturas aos horrores do Mythos que são apresentados no início dos contos. Há uma versão ampliada de cada ilustração, disposta em duas páginas e tingido pelo onipresente verde (sempre o verde!) e outra menor antecedendo cada capítulo. Eu sou suspeito para falar, gosto bastante do traço do artista e acho que ele tem um talento notável para traduzir em imagens coisas que são em essência indescritíveis. Sua interpretação do Shoggoth que antecede o conto "Nas Montanhas da Loucura" e os detalhes de Dagon no conto de mesmo nome, são incríveis.

"H.P. Lovecraft - Medo Clássico volume 1" é um trabalho primoroso, um tributo a um dos nomes mais influentes no Terror no século XX e que só agora está conquistando seu merecido reconhecimento entre os entusiastas do gênero horror fantástico aqui no Brasil.

Ficamos na torcida para que esse seja apenas o primeiro de uma série que complete com chave de ouro (ou mais adequadamente, de prata) a obra completa do mestre do Horror Cósmico.

2 comentários:

  1. Tenho a Miskatonic edition e é o livro mais lindo que eu já vi!

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  2. Comprei recentemente a Edição Cósmica e, de fato, foi uma das melhores aquisições que fiz no ano. Só conhecia Lovecraft através das recorrentes menções a ele que o Jovem Nerd fazia em alguns Nerdcasts. Agora que me adentrei no universo Lovecraftiano e conheci algumas de susas criaturas e mundos, fico surpreendido por não ter nem sequer pesquisado toda sua obra antes.
    Excelente blog e continue sempre com seu blog. É raro encontrar essa qualidade por aqui.
    Forte abraço e até mais!

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