segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Love and Witch Craft - As Bruxas e a Feitiçaria na obra de Lovecraft


A Nova Inglaterra essa região antiga dos tempos coloniais da America produziu três dos mais conhecidos autores do Horror: Edgar Allan Poe, Stephen King, e H.P. Lovecraft. Todos eles, grandes a seu próprio modo, são celebrados e admirados por fãs mundo afora.

Dentre eles Lovecraft talvez seja o menos famoso, contudo ele é o mais representativo para os escritores que exploram exaustivamente seu estilo, suas criações e seus conceitos. Talvez seja por conta da sua prosa, talvez seja pela mitologia particular que se desdobra em centenas de entidades e criaturas abomináveis, mas é bem possível que muito de sua obra se deva a tradição da Nova Inglaterra de ser um lugar único quando o assunto é folclore, paisagens sinistras e história doentia. Todos esses fatores, aliás, reverberam com força na obra de Lovecraft.

E claro, um passado marcado por paranoia, bruxaria e magia negra não poderia ficar de fora.

Na célebre novela "O Caso de Charles Dexter Ward" (The Case of Charles Dexter Ward), um jovem estudante de Providence investiga sua árvore genealógica e descobre a existência de um ancestral maligno que escapou da Caça às Bruxas de Salem em 1692. Mas ao contrário dos inocentes enforcados no vilarejo, o alquimista Joseph Curwen, vilão da história, é tudo, menos inocente. Curwen é um feiticeiro que comunga com as trevas e reverencia Yog-Sothoth, que lhe ensina várias magias úteis em sua busca por poder. Entre os feitiços, o "Ritual de Ressurreição através dos Sais Essenciais" é o mais tenebroso, uma vez que permite trazer outros bruxos de volta à vida. O próprio Curwen se beneficia do feitiço quando é revivido pelo seu descendente e decide tomar seu lugar. 

A multidão de camponeses que frusta os planos de Curwen no século XVII, parece muito com os colonos furiosos que exigem providência para a questão das "meninas afligidas" de Salem. Aliás, o método de lidar com o feiticeiro, enforcando-o, incendiando sua casa e salgando suas terras parece condizente com o procedimento de justiça do período.  

Em "A Casa Proibida" (The Shunned House) um homem na Providence nos tempos coloniais é suspeito de praticar bruxaria:

“O filho de Etienne, Paul, um sujeito amargo cuja conduta errática provavelmente provocou os tumultos que erradicaram toda sua família, era uma fonte de especulação; e embora Providence jamais tenha compartilhado do pânico por bruxaria de seus vizinhos puritanos, era sabido através de rumores que as orações dele não eram sussurradas no momento correto e nem voltadas para as entidades adequadas".


Na mesma história existe a suspeita de que a criatura enterrada no porão e que enseja o surgimento de uma detestável matéria fungóide, seja um vampiro. A Nova Inglaterra colonial teve seu período de temor de vampiros, tanto que por força de lei, algumas pessoas suspeitas chegaram a ser sepultadas em ataúdes lacrados, enquanto outras, no auge do pânico tiveram o coração trespassado por estacas ou a cabeça decepada. Tudo para evitar seu ressurgimento na forma de mortos vivos.

Em outro conto intitulado "O Inominável" (The Unnamable), dois amigos (sendo um deles o alter ego de Lovecraft, o intrépido Randolph Carter) exploram um antigo cemitério colonial, e entre lápides e tumbas do período encontram uma monstruosidade lendária que habita uma velha casa decrépita. O horror embora não possa ser compreendido através dos sentidos humanos - sendo portanto inominável, possui uma aparência que remete aos antigos mitos dos demônios servidos pelas bruxas - uma entidade dotada de chifre e cascos fendidos.

O mesmo Randolph Carter se vê às voltas com um horror sobrenatural em um ambiente semelhante no conto curto "O Relato de Randolph Carter" (The Statement of Randolph Carter). Dessa vez, Carter permanece na superfície enquanto um colega se aventura nas profundezas de túneis construídos na época colonial. Enquanto o colega relata os horrores que encontra nesses corredores abandonados Carter tenta manter o controle, mas este enfim é arruinado quando algo não humano responde suas perguntas.

Já em "O Horror de Dunwich" (The Dunwich Horror) existe toda uma alusão aos rituais e sinistras missas negras realizadas em homenagem a entidades das trevas que aos olhos dos caçadores de bruxas puritanos, seriam encarados como manifestações do próprio demônio. Da mesma maneira, o cabal do pequeno vilarejo de Dunwich sugere ser bastante similar aos grupos de feiticeiras tão temidas pela boa população de Salem.


E é claro, temos "Sonhos na Casa da Bruxa" (Dreams in the Witch House) que é de longe a história de Lovecraft mais influenciada pela caça às bruxas. O conto relata como o estudante de matemática Walter Gilman aluga um quarto em uma velha casa que um dia foi o lar da bruxa Keziah Mason. Mason, se evadiu dos julgamentos de Salem desenhando estranhos símbolos na parede de sua cela que abriram um portão pelo qual ela escapou da sentença de morte.

A mulher é descrita em detalhes como um clássico estereótipo das bruxas coloniais: velha, carcomida, sinistra e absurdamente maligna. Seus modos são perversos e sua alma nefasta se reflete na aparência.   

“A expressão na sua face era de horrenda maldade e exultação, e quando ele despertou conseguia lembrar daquela voz coaxante; persuasiva e ameaçadora". 

Mais do que a mera aparência, Keziah Mason possuía um rato que lhe servia como animal familiar. A crença de que bruxas possuíam animais mágicos que as auxiliavam nos malefícios é muito antiga e encontra eco nas crenças dos puritanos coloniais. Algumas mulheres no auge da Caça às bruxas foram acusadas de serem feiticeiras apenas porque eram donas de gatos pretos, ou ainda porque próximo de suas moradias foram vistos sapos cobertos de verrugas, corujas ou ratos de pelo negro. O familiar de Keziah, o rato com face humana que atende por Brown Jenkin também encontra correlato na literatura do período que atestava serem esses familiares tão próximos de suas senhoras que recebiam nomes, afagos e presentes em troca de sua lealdade.

Finalmente, temos mais dois elementos medonhos que são condizentes com as lendas de bruxaria de Salem: o Homem Negro e um suposto Livro de Assinaturas.


O Homem Negro é uma das representações favoritas dos puritanos para o demônio. A figura do homem de pele negra - não de raça negra, visto que não tinha traços negros, mas de pele tão escura quanto o piche, era aterrorizante nos tempos coloniais. Visto como um padroeiro dos sabás e dos círculos de bruxaria, o Homem Negro em alguns casos vestia um manto comprido que escondia seu corpo - e os supostos cascos fendidos no lugar dos pés. Quando ele se movia, entretanto, o som de cascos podia ser ouvido. Em outras representações surgia nu, símbolo máximo da transgressão sexual puritana, com o membro ereto, pronto para a cópula com as feiticeiras. O Homem Negro era um patrono da magia, ele surgia para oficializar os rituais, para ensinar sua doutrina e para receber os tributos pelo seu auxílio.

Já o temido livro, aludido por vários Doutores Coloniais especialistas em Feitiçaria, era um enorme tomo encadernado com capa preta e cheio de páginas carcomidas - uma alusão perversa da Santa Bíblia. Nele, as bruxas coletavam a assinatura escrita com sangue daqueles que firmavam com as trevas os tão temidos pactos. Ter o nome compilado nesse livro validava o contrato firmado com o demônio, uma confirmação da mais infame das barganhas.

Mas apesar de ser identificada como uma bruxa, Lovecraft logo traçou uma clara distinção entre Keziah Mason e as mulheres acusadas de conluio diabólico. A personagem do conto utiliza noções de hipermatemática para abrir portais e assim viajar entre planos e mesmo através do tempo. Ela não é nem de longe uma mulher ignorante que professa superstições, mas sim uma brilhante cultista das trevas.   

Além disso, ela não venera o Demônio da mitologia judaico-cristã, mas Deuses de Mundos Distantes e criaturas alienígenas de um passado remoto. O fato de uma dessas entidades ser chamada de "O Homem Negro" e ter a aparência similar ao demônio puritano, parece uma daquelas piadas cósmicas que Lovecraft gosta de citar. O tipo de zombaria que uma entidade sardônica como Nyarlathotep, o Caos Rastejante, poderia cometer. Lovecraft não vai muito além nesse tema, ele não explica exatamente quem, ou  que, é o Homem Negro, mas deixa claro que ele não é o odiado "Inimigo de Deus".

Da mesma maneira, o Tomo Negro, o vil Livro do Demônio se torna o Livro de Azathoth:

"Ele deveria encontrar o Homem Negro, e os acompanhar diante do Trono de Azathoth no Centro do Caos Primordial. Isso foi o que ela disse. Ele devia assinar com seu próprio sangue o Livro de Azathoth e assumir um novo nome secreto…"


Lovecraft compara o Mal Supremo ao Sultão Demoníaco Azathoth, sua criação mais apocalíptica que habita os recônditos do universo. Curiosamente o Caos Primordial não é maligno, sendo obtuso e totalmente acéfalo, conforme ele próprio definiu. Qual o interesse dele ter a alma de seres humanos, se é que tal conceito existe, permanece em aberto. Novamente, me parece uma simples piada, o tipo de travessura do Caos Rastejante.

Lovecraft incorporou muitas das lendas sobre Bruxaria da Nova Inglaterra aos seus contos, o que não chega a ser surpreendente. Como autor de horror, seria um desperdício ignorar o rico folclore de sua terra natal.  O que pode ser surpreendente para muitos é que Lovecraft acreditava que bruxas fossem reais - ao menos até certo ponto.

Para todos os efeitos, Lovecraft se definia como um ateu materialista. Não, ele não acreditava em céu ou inferno, em entidades sobrenaturais travando uma luta pelas almas humanas ou em magia negra. Contudo, ele acreditava que havia um fundo de verdade por trás das lendas a respeito de feitiçaria.

Em uma de suas cartas para um de seus muitos correspondentes, ele escreveu:   

"Alguma coisa, de fato, ocorria abaixo da superfície, eventualmente, pessoas podem realmente ter tropeçado em experiências concretas que confirmavam tudo o que eles haviam ouvido a respeito de bruxas. Em resumo, estudiosos reconhecem que através da história, um Culto Secreto de degenerados devotos da natureza, existiu na Europa Ocidental e recrutou furtivamente aldeões e indivíduos decadentes de origem mais seleta, para compor suas fileiras…” (H.P. Lovecraft, Selected Letters, 1929 – 1931, 1971, p. 178, edited by August Derleth and Donald Wandrei)


De acordo com Lovecraft, este culto pagão um dia constituiu a religião dominante na Europa, mas ele foi forçado a desaparecer quando grupos "mais refinados, introduziram noções de um politeísmo mais poético". Povos como os gregos, os romanos e os nórdicos introduziram seus deuses e desarticularam o que existia antes, cultos baseado na natureza e nos elementos. Finalmente, quando esses povos também cederam espaço para outro conjunto de dogmas - dessa vez o cristão, foi a vez desses deuses desapareceram. 

A fé cristã logo se tornou dominante e veio substituir todas as crenças antigas, taxando os cultos pagãos e os deuses clássicos como entidades malignas que deveriam ser evitadas. Quanto aos seus praticantes, a eles cabia a alcunha pejorativa de bruxas e feiticeiros.

Lovecraft não acreditava que esses antigos praticantes de rituais pagãos, as bruxas, vieram para a Nova Inglaterra acompanhando os colonos que se fixaram no Novo Mundo. Mas ele acreditava que certos conhecimentos pagãos transmitidos ao longo dos séculos poderiam ter feito seu caminho e viajado para a colônia e se fixado especificamente em Salem:

"Da minha parte - eu duvido da existência de uma cabala, mas com certeza penso que certas pessoas que viviam em Salem, podiam ter um conhecimento pessoal desse culto, e talvez até fossem iniciados. Suponho que alguns de seus rituais e fórmulas tenham sido discutidos em segredo, e talvez até praticados por alguns poucos degenerados envolvidos… A maioria das pessoas enforcadas provavelmente de nada sabiam, ainda assim acredito que existisse algo sórdido que não esteve presente em nenhum outro caso de bruxaria na Nova Inglaterra." (H.P. Lovecraft, Selected Letters, 1929 – 1931, 1971, p. 181, edited by August Derleth and Donald Wandrei)

Embora essa teoria possa parecer estranha hoje em dia, Lovecraft não era a única pessoa a acreditar nessas ideias. Elas eram muito debatidas no início do século XX. Lovecraft citava os trabalhos de Margaret Murray para embasar esse ponto de vista.


Murray foi uma proeminente arqueóloga e egitologista britânica com um profundo interesse em folclore e bruxaria. Seu importante livro "The Witch Cult in Western Europe", publicado em 1921 afirmava que pessoas acusadas de bruxaria na Europa Medieval e também nas Colônias do Novo Mundo, eram de fato indivíduos que guardavam conhecimento das religiões pagãs e que sobreviveram a Cristianização da Europa.

O livro de Murray recebeu diferentes avaliações quando ele foi publicado. Os críticos achavam que ela havia interpretado as narrativas de alegadas bruxas e distorcido registros históricos para encaixar suas teorias. O público em geral, no entanto, apreciou o seu ponto de vista e a própria Enciclopédia Britânica pediu que ela escrevesse um ensaio a respeito de bruxaria. Lovecraft parecia corresponder a teoria. Com certeza, um estudioso como ele, teve acesso ao livro.

Historiadores contemporâneos aceitam algumas teorias, entre as quais a existência de conhecimentos ancestrais impregnados e difundidos em várias culturas, mas a maioria dos estudiosos é contrário a noção de que realmente existissem cultos de bruxas atuando na Europa ou na Colônia de Salem.

E mesmo que um culto dessa natureza jamais tenha existido, Lovecraft achou a ideia perfeita para seus planos de relacionar o conhecimento pagão ancestral com o Mythos de Cthulhu. Isso apenas acrescentou uma dose extra de estranheza ao já estranho folclore da Nova Inglaterra.

2 comentários:

  1. Lovecraft era um gênio!! Belo texto King 👊

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  2. Ótimo texto. Só se esqueceu de falar sobre os contos "A Coisa na Soleira da Porta" e "O Alquimista", que também possuem essa temática de bruxaria.

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