terça-feira, 20 de março de 2018

Por que Aniquilação é um filme absolutamente lovecraftiano?


Atenção: O artigo a seguir contém grandes SPOILERS a respeito do filme Aniquilação. Se você não quer saber detalhes a respeito da trama recomendo não ler adiante. E se você não viu o filme, vá ver agora! Sério! Vale a pena!

Eu assisti Aniquilação semana passada no dia em que ele entrou na grade de programação do Netflix e desde que vi o filme ele não saiu da minha cabeça. A razão para não conseguir tirar ele da minha mente tem a ver com os temas centrais de isolamento e mudanças e com o assustador final. Assustador não em função de sustos fáceis de filmes de terror ou monstros babões, ou mesmo a estranheza do interior do "Brilho", mas pelas implicações da trama central.

No filme, uma forma de vida alienígena começa a transformar o ecossistema do planeta gerando algo bizarramente diferente. Assim como a protagonista Lena (Natalie Portman) nós, os espectadores, somos incapazes de sondar um universo tão alienígena para nossa razão. Não temos nem ideia do que se esconde em nosso próprio planeta, que representa um grão de areia no universo, que dirá fora dele.

Com essa abordagem, o diretor Alex Garland conseguiu criar um filme legitimamente lovecraftiano, bebendo da fonte de algumas das melhores histórias do autor. Aniquilação não é uma adaptação de algum conto ou novela, mas mesmo assim, é difícil pensar em um filme tão inserido nos conceitos criados por H.P. Lovecraft em sua obra. Imagino que o Cavalheiro de Providence aprovaria esse esforço e a interpretação.

Até então, os melhores filmes baseados na literatura de Lovecraft, adaptados para o cinema, haviam sido produzidos por John Carpenter. "O Enigma do Outro Mundo" (The Thing - 1982) é uma gloriosa história de horror que remete a Montanhas da Loucura, enquanto "A Beira da Loucura" (In the Mouth of Madness - 1993) explora a noção de loucura, caos e de cultos devotados a Horrores Ancestrais. Embora o filme de Garland seja baseado nas novelas de Jeff VanderMeer, já ouvi falar de quem leu esses livros, que a versão guarda poucas semelhanças com o material original. Eu infelizmente não li os livros de VanderMeer, mas ao assistir o filme, a única coisa que veio na minha cabeça era um conto curto de H.P. Lovecraft escrito em 1927 chamado "A Cor que caiu do Espaço".


Nesse conto clássico, considerado como um dos melhores de Lovecraft, um narrador sem nome relata os acontecimentos tétricos ocorridos na "Blasted Heath" um lugar selvagem e afastado na porção oeste de Arkham, Massachusetts. O narrador descreve um evento cósmico menor, a queda de um meteorito vindo do espaço exterior que se choca com o solo. A estranha pedra logo contamina todo o local e lentamente macula a própria natureza: a vegetação cresce viçosa porém estranha, os frutos são enormes mas tem um gosto repugnante, os animais enlouquecem, sofrem mutações e assumem formas grotescas. Quanto aos humanos, eles também são afetados pela loucura que os conduz a ruína.

 A estranha rocha espacial carrega em seu interior uma forma de vida diferente de tudo que existe em nosso planeta. Não é um ser vivo, ao menos como podemos entender a vida em nossa pequena esfera; trata-se tão somente de uma cor desconhecida e indescritível para nossos sentidos. Ela não possui nenhuma qualidade física, mas seu brilho uma vez irradiado produz uma influência maligna e daninha. A terrível cor busca refúgio no interior de um poço na propriedade de um fazendeiro chamado Nahum Gardner e então o horror se espalha de modo alucinante.

É fácil perceber as similaridades entre o conto de Lovecraft e o filme de garland; o Brilho é uma espécie de véu púrpura iridescente e de cor indefinida. Uma vez em seu interior, todas as formas de vida se veem afetadas passando por uma mudança não apenas física, mas mental. A cientista Josie Radek (Tessa Thompson) explica que o Brilho é como um prisma que não filtra apenas a luz passando através dele, mas também as células vivas. As linhas fronteiriças entre plantas e animais, morte e vida, que são bem definidas em nosso planeta, começam a ser alteradas, a medida que o Brilho, assim como a Cor, incidem sobre a área onde eles se instalam. O resultado são profundas alterações da própria matéria constitutiva dos seres vivos.


Além disso, existe o fator isolamento. Um elemento que Lovecraft explorava como ninguém em seus contos e que pontuava suas histórias. O isolamento vai além de estar sozinho, é a sensação esmagadora de que o mundo que nos cerca é abrasivo, assustador e incompreensível. Pior ainda, é a noção de que tudo conspira para que você morra e não existe nada disposto a ajudá-lo. Não há bem maior zelando por nós, inexiste uma força benevolente ou a própria divina providência.

Nem é preciso dizer que Aniquilação aposta pesado nesse mesmo elemento. Quando as mulheres da expedição deixam a relativa segurança de sua base e se embrenham no Brilho, elas não sabem o que irão encontrar mas já esperam pelo pior. No discurso fatalista de uma das personagens, ao afirmar que nenhuma delas tem muito à perder encarando a missão, temos o supra sumo do isolamento.

Mas estas são semelhanças óbvias, o maior significado surge quando examinamos o final das duas histórias.

Diferente de muitos autores, nós sabemos muito bem o que Lovecraft pretendia com seus contos. Ele deixou claro quais eram os seus objetivos através de sua farta correspondência estabelecida com outros escritores e nas páginas de seu ensaio "O Horror Sobrenatural na Literatura". Lovecraft dizia aos seus companheiros autores de ficção e horror que eles não precisavam ser claros e explicar tudo que acontecia nos seus contos. Para ele, o mais assustador era deixar as respostas encobertas e as explicações em aberto. Na sua concepção, a coisa mais aterrorizante em um encontro com o horror era não ter certeza de nada a respeito dele. O que vimos? O que percebemos? Quais conclusões podemos tirar da experiência? Quanto mais confusas as respostas para essas questões quintessenciais, melhor!

Tanto isso é verdade na obra de Lovecraft que ele descreve textualmente o que pretendia construir com seus contos: "A mais antiga e forte emoção da humanidade é o medo, e o mais antigo e forte tipo de medo é o medo do desconhecido".


Lovecraft criava em sua obra a noção de que o Universo é inconcebivelmente vasto e desconhecido. O homem, em sua arrogância acredita ser o senhor da criação e o detentor por direito dos segredos mais íntimos do Universo... a obra de Lovecraft desfaz essa ilusão e coloca a humanidade em seu devido lugar. O homem nada sabe dos segredos do cosmos e nada suspeita de sua grandeza. Ele é mera poeira cósmica que se dissipa em um piscar de olhos, enquanto estrelas dançam e planetas giram no vazio pela eternidade. A sensação que ele quer passar em suas histórias é de impotência, ignorância e de infinitesimal inferioridade. Esse soco no estômago é a essência da literatura concebida por Lovecraft.

Bem vindo ao Horror Cósmico!

O grande Horror da mitologia de Lovecraft não são os monstros medonhos ou as criaturas tentaculares com bocarras repletas de dentes afiados. Tudo isso é meramente incidental. Quando você fala a respeito de Horror Cósmico, você se vê confrontado com verdades que o cérebro humano não é capaz de aceitar. A frágil razão dos homens se despedaça por completo quando os segredos do Universo começam a ser descortinados diante de seus olhos. Essa é a razão pela qual os personagens na obra de Lovecraft tendem a enlouquecer e terminar seus dias regurgitando incoerências em um asilo para insanos.

Muitas histórias escritas por Lovecraft e seu círculo de seguidores envolvem revelações devastadoras e impossíveis de ser processada. Os personagens acabam descobrindo que tudo o que presumiam entender a respeito do universo e de si mesmos, é uma mentira. Existem entidades verdadeiramente poderosas cuja influência nossa espécie não é sequer capaz de imaginar. As leis da física, a linguagem absoluta da matemática, as noções da geometria, os conceitos do próprio universo não se aplicam e quando as verdades universais são esfaceladas nada resta além da loucura, o esquecimento, a obliteração... e é claro, a Aniquilação!


Essa é a razão pela qual as personagens no filme enlouquecem lá pela metade da história. Logo que elas adentram o Brilho, a loucura começa a se manifestar fazendo com que elas percam a noção do tempo e a memória do que ocorreu. Seus suprimentos foram consumidos, elas não teriam abandonado os alimentos, portanto é razoável assumir que elas passaram algum tempo no interior do Brilho apesar de não lembrar do que aconteceu. O que houve? Teria sido a razão tentando reprimir coisas que elas viram ou experimentaram, ou seria apenas um efeito causado pelo deslocamento da vida através do "prisma alienígena" capaz de filtrar a vida? Não se sabe...

Em determinado momento o grupo encontra uma gravação feita por uma expedição anterior e descobrem aterrorizadas não apenas o que aconteceu com eles, mas o que está prestes a acontecer com elas mesmas. A personagem de Anya (Gina Rodriguez) não consegue lidar com essa verdade e inventa explicações mirabolantes para o que ela viu. E quando essas falham em oferecer algum conforto, ela passa a acreditar que a sua própria equipe planeja algo contra ela.

Temos então a Paranóia!

Outro elemento muito presente na obra lovecraftiana se apresenta. Gina tenta criar explicações e racionalizar aquilo que a mente humana não foi projetada para aceitar. Como resultado ela é a primeira a enlouquecer e se voltar contra suas colegas. O roteiro de Aniquilação trabalha muito bem essa noção que poderia soar forçada em outras obras. O escorregão da razão para a insanidade é gradual, mas progride de uma forma que aceitamos a loucura que se apossa dos personagens. Quem não ficaria louco vendo tudo aquilo?


Em um dos seus contos mais importantes, "O Chamado de Cthulhu" de 1926, Lovecraft expõe outro de seus conceitos mais incômodos, o de que a Ignorância diante dos mistérios do universo é a única coisa que nos protege, enquanto espécie, da Loucura e do Caos que existe lá fora.

Ele escreveu no parágrafo inicial desse conto seminal:

“A coisa mais misericordiosa do mundo, creio eu, é a incapacidade da mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo. Vivemos numa plácida ilha de ignorância em meio a negros mares de infinito, e não está escrito pela Providência que devemos viajar longe. As ciências, cada uma progredindo em sua própria direção, têm até agora nos causado pouco dano; mas um dia a junção do conhecimento dissociado abrirá visões tão terríveis da realidade e de nossa apavorante situação nela, que provavelmente ficaremos loucos por causa dessa revelação ou fugiremos dessa luz mortal rumo à paz e à segurança de uma nova Idade das Trevas.”

O final de Aniquilação resume muito bem essa mentalidade.

No ato final, Lena consegue chegar até o marco zero do Brilho, o Farol onde o meteoro que despencou do espaço se enterrou. Nesse ponto, assim como muitos personagens lovecraftianos, ela experimenta a revelação que destrói sua razão, no caso a de que seu marido morreu com a detonação de uma granada de fósforo branco, enquanto que o homem que apareceu em sua casa, aquele que está morrendo em um hospital de campo, é outra coisa. Algo que sequer é humano.


Indo mais fundo no interior do Farol, metaforicamente mergulhando no saber proibido, ela encontra uma série de túneis e a Dra. Ventress (Jennifer Jason Leigh) comungando com a coisa alienígena, talvez aprendendo alguns dos seus segredos - lembrem-se, ela disse que "precisava entender o que era o Brilho". De repente uma série de raios de luz explodem a consumindo e seu corpo se dissipa como se jamais tivesse existido. Lena fica sem ação, olhando para o vazio sem entender o que aconteceu ou o que destruiu Ventress. Nós estamos no mesmo barco, a cena não tem explicação, ela é simplesmente uma causa e efeito muito além de nossa compreensão. Trata-se de algo alienígena, algo que nós não fomos projetados para entender.

Talvez Ventress tenha, através de seu contato íntimo com a força alienígena, recebido a informação que tanto procurava, algo que se mostra letal e a consome por inteiro: física e mentalmente. Eu gosto de usar a comparação de que o conhecimento dos Mythos é como radiação, deteriora tudo o que toca, transforma tudo sobre o qual incide.

A seguir na mesma sequência, uma gota do sangue de Lena é sugada pelo vazio e usada como matriz para a construção de um humanoide, uma criatura alienígena, que aos poucos vai mudando até replicar as características de Lena à perfeição.

O mestre Lovecraft escreveu:

"Nem a morte, nem a fatalidade, nem a ansiedade, podem causar o insuportável desespero que resulta de perder a própria identidade".

Entretanto, diferente dessa linha de pensamento, cuja xenofobia inerente obriga os personagens a jamais aceitar uma realidade diversa da humana, em Aniquilação temos um final dúbio. É bem verdade que Lena mata a sua cópia e no processo extingue o Brilho, mas no fim, ela acaba abraçando a mudança. Ao retornar para a Base ela não denuncia a verdade a respeito da criatura que duplicou seu marido, e decide manter essa informação apenas entre eles. 

Outra interpretação, mais niilista pode ser que o contato de Lena com a coisa alienígena foi suficiente para operar nela a mudança que a transformou em algo que não é mais um ser humano. O brilho nos olhos dela quando enfim a personagem reencontra seu "marido" aponta nesse sentido. E se assim for, o desfecho se torna ainda mais lovecraftiano já que outro elemento presente na obra diz respeito a inevitável extinção da humanidade. 

No dogma lovecraftiano, não importa o quanto se lute, o quanto se deseje, no fim a humanidade será extinta em um piscar de olhos por algo que ela sequer será capaz de perceber como uma ameaça a sua existência. Que formiga, afinal de contas, percebe a passagem de um tufão ou de um vendaval que destrói seu formigueiro? Seja a explosão de uma estrela, a formação de um buraco negro, o despertar de um Deus Ancestral que representa um conceito cósmico (Caos, Destruição, tempo...) um dia a humanidade será varrida da existência. E o Universo não verterá lágrimas pela nossa passagem.

Se Lena foi realmente alterada pelo Brilho ou se ela resolveu aceitar a força transformadora que recriou seu marido não faz diferença. A influência do Brilho logo se fará sentir novamente.


Entretanto, ao contrário de muitas adaptações e das visões distorcidas de John Carpenter, Garland oferece outro diferencial. Ainda que absurda e aterrorizante, as forças alienígenas tem uma aura de beleza. O Brilho destrói, mas também recria o mundo sob a sua perspectiva, seja através de jacarés albinos com dentes de tubarão, ursos que caçam usando a voz de suas vítimas ou ainda plantas cristalinas de uma beleza inigualável. O mundo é reconfigurado de acordo com sua interpretação. Se em Lovecraft o resultado seria bizarro, medonho e grotesco, em Aniquilação ele pode ser tudo isso, mas ainda assim guardar um pouco do belo.

Há ainda mais a encontrar, mas acho que por enquanto está de bom tamanho...

Talvez por todos estes fatores Aniquilação tenha estabelecido um novo nível de excelência para produções Lovecraftianas. Um que será difícil alcançar, mas que eu adoraria ver outros cineastas tentando.

11 comentários:

  1. Adorei o comentário, espero ver logo a adaptação dos próximos livros da trilogia (Autoridade e Aceitação) :)

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  2. Realmente guarda pouquissima coisa em relação ao livro. Mas se fosse como livro seria chato ! O livro descreve a loucura e a transformação da biologa lentamente! E com flash-backs!

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  3. Para quem não leu o livro, existem algumas diferenças interessantes que vale a pena pontuar: 1) no filme eles concluem que a causa da Área X é alienígena, mas no livro eles nunca descobrem o que é, se é algo natural, alienígena (e, se é alienígena, eles não sabem se é orgânico ou artificial) ou sobrenatural; 2) a Área X não refrata apenas ondas de rádio e o DNA dos seres vivos, mas também tecnologia e até mesmo estruturas linguísticas, por motivos incompreensíveis (semelhante a uma ave que mistura todo tipo de material, até mesmo os criados pelo homem, para construir seu ninho, a Área X absorve e recombina tudo); por essa razão, o governo não permitia que as equipes levassem aparelhos complexos lá para dentro, porque eles não sabiam como a Área X iria se apropriar desses aparelhos; 3) no final a Área X some, mas no livro a Área X se expande e engole tudo; 4) a Lane nunca volta para casa, mas uma cópia dela vai para o laboratório e ela se transforma em algo inconcebível dentro da Área X, uma espécie de monstro (aquele urso, por exemplo, é um dos membros da equipe do marido dela que virou aquilo ali).

    Lembrando que o Jeff VanderMeer é um dos pioneiros do chamado gênero New Weird, que busca relativizar as fronteiras entre o horror, a ficção científica e a fantasia, além dele ser um amante do mundo natural.

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  4. Excelente resenha!
    O filme é muito bom.
    Muitas coisas pra pensar ali. Horror Cósmico define.

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  5. Assisti e adorei. Excelente filme. Está entre os 3 filmes desse genero que mais gosto: the void , spectral, e agora aniquilaçao. Espero uma resenha de spectral.

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  6. Elas nao lembram de certas coisas por que todas sofreram sugestões hipnoticas da lider da expedição. Isso tem no livro...

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  7. Adorei o filme, mesmo que no inicio parecia sem sentido!

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  8. O filme dá uma indicação que a Lena que volta não e a mesma que entra. A que está contando a história tem uma tatuagem no braço igual à da anta. Mas voltando aos poucos momentos que deu pra ver o braço da Lena ( porque na maior parte do tempo ela ta com mangas longas) dá pra ver que ela não tem tatuagem.

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  9. Revendo agora pela terceira vez, o soldado que e aberto no vídeo e que vira decoração de parede também tem a mesma tatuagem (um símbolo de infinito)

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