domingo, 25 de março de 2018

A morte onde menos se espera - Um crime macabro a bordo de um ônibus


Existem crimes, e existem CRIMES.

No caso de Tim McLean, um jovem que foi vítima de uma chocante violência enquanto viajava de ônibus a caminho da cidade canadense de Winnipeg, os detalhes vão muito além de um crime convencional. O assassinato, horrível e grotesco deixou uma marca impossível de ser apagada na mente das testemunhas e desafiou o eficiente sistema de justiça do Canadá. Esta viagem de ônibus ao inferno não apenas custou a vida de um jovem de 22 anos, mas expôs de uma maneira até então inimaginável a realidade do que pode acontecer quando uma pessoa atormentada por uma grave doença mental perde o controle. 

Quando Vincent Li, um paciente diagnosticado com esquizofrenia, decidiu embarcar em um ônibus naquele dia, ninguém podia imaginar as consequências de seus atos e o terror que as vozes em sua mente desencadeariam. Mais tarde, chamado de "Matador do Ônibus Greyhound", Li cometeu um dos mais perturbadores e inacreditáveis assassinatos da década. Ele se tornou referência de horror, medo e choque em todo mundo. O que faz esse caso ser especialmente perturbador, aterrorizante não são os macabros detalhes, mas o fato de que poderia ter acontecido com qualquer um que estivesse no lugar errado, na hora errada.

Foi por volta das 18 horas, do dia 30 de julho de 2008 que Vince Li, um sujeito alto e forte de origem asiática, embarcou em um ônibus da Empresa Greyhound que seguia da Colúmbia Britânica para Winnipeg. Com quase 1.90 m e mais de 110 quilos, Li era uma figura fácil de ser percebida. Quando subiu no ônibus ele parecia confuso e agitado, alguns passageiros lembram que ele subiu e desceu duas vezes, supostamente para buscar alguma coisa em sua bolsa de viagem no compartimento de bagagens. Apesar disso, ele não parecia ameaçador. 

Li escolheu uma poltrona bem na frente do veículo, não falou com ninguém, e eventualmente desceu do ônibus rapidamente em uma parada para fumar um cigarro. Quando voltou para seguir viagem ele decidiu mudar de assento, escolheu um bem no fundo perto do banheiro, ao lado de Tim McLean que estava viajando sozinho.

Com apenas 22 anos de idade, McLean era um atleta e filho modelo, amado por sua família e amigos. Ele tinha uma família numerosa e estava voltando para Winnipeg, depois de conseguir uma folga em seu emprego como animador numa firma de entretenimento. Ele embarcou no ônibus 1170 passando por Saskatchewan e esperava chegar a tempo de encontrar seu irmão e sobrinho.


Quando Li mudou de assento, ele não disse nada, apenas removeu a mochila que estava ao seu lado sobre a poltrona e a acomodou na parte de cima. Segundo testemunhas Tim havia dormido encostado na janela ouvindo música no fone de ouvido. Não há razão para acreditar que ele tenha suspeitado do que estava para acontecer.

Vince Li não era um sujeito simpático. Antes de embarcar no ônibus naquela tarde, ele já vinha demonstrando alguns sinais de que estava perto de um surto mental. Ele passou a tarde inteira na estação rodoviária esperando a hora da partida. As câmeras de vigilância o filmaram sentado com o olhar fixo no vazio por várias horas. Em um determinado momento ele apanhou o celular e postou uma mensagem em um site de vendas: "Laptop à venda, 300 dólares". Em seguida apanhou a bolsa de viagem abriu, conferiu as coisas dentro e se deteve em algo embrulhado em uma camisa de flanela vermelha. Guardou a mochila entre as pernas e voltou a olhar o vazio com a mesma expressão distante. Por mais de seis horas ele permaneceu assim, vez ou outra repetia o ritual de abrir a mochila cuidadosamente e verificar o que levava embrulhado na camisa.

Li recebeu uma confirmação de venda do laptop enquanto ainda estava na estação. O aparelho foi comprado por um estudante, mas a polícia o confiscou após os acontecimentos. Quando os auto-falantes anunciaram a chegada do ônibus 1170, Vince levantou do banco, se espreguiçou e andou calmamente até ele. Uma fila já se formava e ele foi o quarto a embarcar.

Vince Li tinha 44 anos de idade e havia imigrado da China para o Canadá em 2001. Desde sua chegada havia encontrado dificuldades em se estabelecer, trabalhava em uma lanchonetes num Wallmart como funcionário de meio expediente. Dizia que tinha um outro emprego, mas na verdade dormia a manhã toda, às vezes com o auxílio de remédios controlados. As drogas eram para bloquear as vozes e os ruídos que ele afirmava escutar. O som, em seus delírios, era produzido por uma espécie de aparelho que havia sido implantado cirurgicamente por alienígenas na sua cabeça. Li dizia que havia sido abduzido por alienígenas e que eles o monitoravam constantemente, plantando pensamentos e tentando controlar suas ações.

Fazia duas semanas que Vincent Li havia cedido a outro delírio, o de que Deus havia dado a ele a missão de se livrar destes extraterrestres. Deus o instruiu a parar de tomar os remédios e jogá-los fora, Naquela manhã, ele havia feito um corte fundo com uma faca ao lado da orelha esquerda procurando o implante. Quando não o achou, decidiu cauterizar o corte com um ferro quente de passar roupa. Frustrado fez também cortes nos braços e pernas com a lâmina afiada. Os ferimentos auto infligidos ainda doíam, mas ele os disfarçou com um cachecol e roupas de manga comprida. Li costumava ficar diante de espelhos procurando transmissores sob a pele, em certa ocasião havia perdido o emprego depois de ser flagrado nu em um vestiário coletivo.

As vozes, é claro, eram um sintoma da esquizofrenia profunda que ele sofria. Li acreditava que aquele dia seria especial: Deus havia falado com ele e dito para que ele viajasse para Winnipeg onde encontraria os alienígenas que deveriam ser destruídos. De acordo com Deus, ele estava fazendo aquilo que era correto e necessário para salvar a humanidade.


Cerca de 40 minutos depois do ônibus continuar viagem, ele respirou fundo e falou sozinho em um tom enérgico. As pessoas que estavam próximas lembram que a voz soou nervosa em meio ao silêncio geral. Ele disse algo como "Está bem, está bem! Eu vou fazer". Mas todos imaginaram que ele estivesse simplesmente falando em um celular, não houve alarde. McLean com os fones no ouvido nem se deu conta.

Li então desembrulhou o objeto envolvo na camisa de flanela vermelha que estava escondido no seu casaco. Era uma faca de caça que ele havia comprado dias antes, a mesma lâmina que ele usou para se ferir. Calmamente, Li segurou a faca com a ponta para baixo e se inclinou sobre McLean que estava dormindo. O primeiro golpe atingiu violentamente o pescoço do rapaz que abriu os olhos com o susto. A faca foi removida e seguiram-se mais dois ataques, ambos no peito, antes que ele pudesse entender o que estava acontecendo e gritar em desespero. Os gritos alertaram os demais passageiros que perceberam uma agitação no assento dos fundo.

A essa altura Li já havia desferido mais dois ataques brutais e a vítima não mais reagira As testemunhas que se depararam com a cena dizem que o agressor parecia calmo e seus movimentos eram quase robóticos. Ele não demonstrava nenhuma emoção. A faca continuava entrando e saindo do corpo de McLean e o sangue escorria em profusão.

Com os gritos e correria, o motorista encostou urgentemente na estrada. Imediatamente os passageiros começaram a descer do veículo, alguns caindo e levantando. Logo todos haviam saído e muitos telefonavam em celulares para reportar aquele horror à polícia.

Enquanto isso, no fundo do ônibus Li continuava a esfaquear o corpo já sem vida de McLean, produzindo um total de 62 estocadas distribuídas pelo pescoço, face, tórax e estômago. Alguns golpes foram tão fortes que quebraram o osso da face enquanto outros fraturaram costelas e perfuraram os pulmões. McLean morreu depois da quinta investida.


Os passageiros do lado de fora gritavam e tentavam parar algum carro. Finalmente o motorista e dois bravos passageiros decidiram entrar no veículo para tentar ajudar a vítima. Li percebeu o grupo e os perseguiu para fora, com a faca em punho e coberto de sangue. A visão era simplesmente apavorante!

Assim que o primeiro carro de polícia apareceu com as luzes da sirene piscando, cerca de 15 minutos haviam se passado. Li apareceu então na porta do ônibus e gritou algumas palavras sem sentido. Em seguida apanhou alguma coisa dentro do ônibus e atirou na direção da viatura. Era a cabeça de Tim McLean que havia sido decepada com a faca de caça. Ele voltou para o interior do veículo e se deitou entre os bancos empapados com o sangue pegajoso.

O policial enviou uma mensagem por rádio solicitando que outras viaturas fossem despachadas imediatamente. Havia a possibilidade de algum passageiro ainda estar lá dentro com o maníaco e se configurar numa situação com reféns. A Polícia Montada Real Canadense respondeu ao chamado e chegou ao local cercando a área e interrompendo o tráfego. Também tiveram o cuidado de desligar os cabos de ignição do motor.

Três policiais se prepararam então para abordar o ônibus e verificar a situação. Nenhum deles estava preparado para o que iriam ver. A cena no interior da cabine dos passageiros era de completa desordem, havia sangue para todo canto acumulando em poças e pegadas no chão, escorrendo nas paredes, nas janelas e poltronas. O cheiro era horrível já que o ambiente estava todo fechado. Algumas bolsas, malas e jornais estavam jogados pelo corredor central. No fundo do ônibus eles ouviram alguém xingando em uma língua estranha, mas estava muito escuro. 

Então, repentinamente viram um homem grande que estava escondido entre os assentos levantar. O sujeito estava coberto de sangue a ponto de seus cabelos ficarem emplastados. Ele segurava uma faca de caça e gritava alguma coisa fazendo menção de avançar. Um dos policiais armado com um taser disparou uma carga de eletricidade. O homem continuou avançando e outro taser foi acionado crepitando com uma luz azulada. O sujeito diminuiu o ímpeto, mas ainda foi preciso que o terceiro policial disparasse, com isso, finalmente, ele caiu inconsciente. 

Os policiais carregaram o assassino para o lado de fora onde ele foi imediatamente algemado e colocado em uma ambulância para ser levado a um hospital. Os paramédicos correram para socorrer a vítima, mas encontraram apenas uma cena dantesca. Nos quinze minutos em que ficou sozinho com McLean, o assassino se dedicou a mutilar o corpo e desmembrá-lo. Mais tarde ele explicou que em seus delírios via o rapaz como um dos alienígenas que o perseguiam e que ele regenerava os ferimentos e ainda parecia estar vivo.


Ainda mais chocante, em sua fúria, Li havia mordido e arrancado pedaços da vítima que foram mastigados e engolidos. Em determinado momento ele vomitou, mas então voltou a morder e lacerar. A polícia encontrou o nariz e a língua do rapaz dentro do bolso da calça do assassino, ambos foram arrancados a mordidas. O corpo mutilado e decapitado também não tinha o coração, supostamente este foi removido e devorado.

Embora Li fosse obviamento o único responsável pelo horrendo crime, a lei canadense concedia um tratamento relaxado para casos envolvendo doença mental. Li se recusava a aceitar um advogado e teve de ser colocado sob efeitos de tranquilizantes nas duas vezes em que foi apresentado a defensores públicos. Por fim, decidiram que ele deveria ser primeiro medicado até que seu surto diminuísse. Eventualmente ele acabou se acalmando e ofereceu completa cooperação com os médicos psiquiatras e autoridades.

Li abriu mão de se defender e reconheceu sua participação naqueles acontecimentos medonhos pelos quais pediu perdão. Ele aceitou se internar no Centro Selkirk de Saúde Mental em Manitoba onde foi mantido sob vigilância constante. Durante o tratamento para o quadro agudo de esquizofrenia ele se mostrou um paciente cooperativo e com o tempo ganhou o privilégio de receber visitantes e de sair de sua cela. Li adotou o nome Will Baker.

A família de Tim McLean preferiu não se manifestar a respeito do ocorrido, embora "Baker" tenha enviado a eles repetidos pedidos de perdão por conta de toda dor e sofrimento que ele havia causado. Através de uma entrevista em um jornal, os pais de McLean disseram que não queriam encontrar com o assassino de seu filho e que não estavam prontos para perdoá-lo pelo que havia acontecido. Eles afirmaram compreender que na ocasião o assassino não tinha controle sobre seus atos, mas que ainda assim, não teriam condições de encontrá-lo.

Muitas testemunhas daquela viagem de horrores também nunca se recobraram por completo do trauma. Alguns desenvolveram sintomas semelhantes a SPT (stress pós-traumático) e experimentavam pesadelos, crises de ansiedade e pavor em espaços confinados ou ao ouvir sons altos. A coisa que a maioria dos passageiros dizia se lembrar com perfeita clareza era o som dos gritos desesperados da vítima e acordar em meio aquele terror. Muitos afirmam que jamais conseguiram esquecer daquele som aterrorizante.

Em fevereiro de 2017 a corte de justiça do Canadá decidiu que Will Baker não representava mais uma ameaça significativa a segurança pública e para a comunidade. Por isso decidiram liberá-lo para a vida em sociedade, treinando-o em uma ocupação, garantindo a ele total reintegração. Entre as condições para sua soltura, ele deve tomar remédios regularmente e reportar a um médico toda semana. 

O Crime no Ônibus Greyhound é considerado ainda hoje um dos casos mais terríveis ocorridos no Canadá, um país seguro e com uma taxa de homicídios muito baixa. Uma pesquisa realizada em 2014 apurou que o incidente no ônibus 1170 se encontra no topo de uma lista de medos mais profundos entre a população.

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