terça-feira, 30 de outubro de 2018

A Casa dos 200 Demônios - A história real da Casa mais assombrada de Indiana


A noção de possessão demoníaca está entre nós há séculos, e a ideia de que nós possamos nos tornar veículos para forças sinistras e diabólicas tem nos assombrado e assustado desde eras passadas.

Mas seria possível que um lugar se tornasse o portão de entrada para algo maligno? Seria possível que algo inanimado fosse tomado por uma força sobrenatural de tal maneira que ela inteira fosse compelida pelo mal? Nesse contexto, pode uma família inteira ser afligida por essas forças?

Em um caso recente, uma família alegou que seu lar estava sob a influência de entidades malignas, inteiramente infiltrada por demônios e presenças aterrorizantes. Assim, surgiu a lenda da Casa Demoníaca. O local se localiza no estado norte-americano de Indiana e se tornou rapidamente um dos endereços mais macabros e aterrorizantes do país. Alvo de muita especulação e histórias inacreditáveis.

Em novembro de 2011, uma jovem mulher chamada Latoya Ammons, sua mãe, Rosa Campbell, e três crianças com idades de 7, 9 e 12, chegaram a cidade de Gary, Indiana e se mudaram para uma modesta e tranquila vizinhança. Eles passaram a residir no número 3860 da Rua Carolina, um lugar aparentemente como qualquer outro. No início eles estavam felizes lá, e embora a casa fosse apenas um lugar como outro qualquer, ela se tornou sua Casa dos Sonhos. Entretanto, tão logo a família Ammons chegou e começou a se estabelecer, estranhos e curiosos fenômenos também tiveram início. Como uma praga invisível, algo começou a se manifestar e agir contra os novos moradores fazendo com que eles temessem pela sua sanidade e mesmo, pelas suas vidas. 


A primeira coisa estranha que a família percebeu, aconteceu em meados de dezembro, quando um número assombroso de moscas começaram a ser atraídas para o terreno da casa. Enormes moscas varejeiras apareciam zumbindo e zunindo, como se algo na casa estivesse chamando pelos insetos. Paredes e janelas ficavam escuras com centenas delas pousadas, produzindo um ruído incômodo. Os moradores perceberam que elas apareciam em maior número no final da tarde, concentradas em grande quantidade no alpendre que levava à porta de entrada ou na janela do sótão. Era muito estranho, ainda mais que se tratava de um mês frio, no auge do inverno. O pior é que essas moscas se juntavam em verdadeiras nuvens grossas e barulhentas. Sempre no mesmo local, nunca nas casas vizinhas, sempre ali, por razões impossíveis de compreender.

A família tentou lidar com o problema da maneira tradicional. Contrataram exterminadores para liquidar com a profusão de insetos, mas não importava o método usado, o problema era resolvido apenas por alguns dias e retornava logo em seguida, ainda pior. Por mais que matassem insetos eles continuavam se acumulando, entrando na casa, nos quartos e na cozinha.

Infelizmente, a praga de moscas acabaria sendo a menor das preocupações. Mais ou menos na mesma época, os moradores da casa começaram a se queixar de estranhos ruídos ouvidos no meio da madrugada. Como se alguém pesado estivesse andando pelo assoalho, produzindo passos na escada e no sótão. Portas também se abriam misteriosamente, tanto a dos quartos, quanto dos armários. Da mesma forma gavetas apareciam escancaradas e o interior revirado, mesmo depois destas serem trancadas e a chave removida. Certa noite, a família foi surpreendida por um forte estrondo, compatível com algo pesado caindo e rolando as escadas. Todos estavam dormindo, mas acordados pelo barulho, correram para ver do que se tratava: não encontraram ninguém estranho na casa. As portas estavam trancadas e as janelas fechadas, contudo, ao revistar a cozinha se depararam com pegadas enlameadas aparentemente deixadas por botas. Essas pegadas seguiam da sala para a cozinha e desapareciam misteriosamente perto da porta de saída que permanecia trancada com chave e uma corrente de segurança.

Após esse estranho incidente, numerosos casos de atividade poltergeist começaram a se manifestar a qualquer hora do dia ou da noite. Portas batiam, quadros caiam da parede, objetos eram arremessados e se moviam de um lugar para o outro. A atividade era tão forte que certa vez um copo de água foi arrancado da mão de Rosa Campbell e lançado contra a parede se despedaçando. Uma imagem santa também foi arrancada da parede e desapareceu por dias, sendo encontrada posteriormente do lado de fora, quebrada em pedaços. Em um incidente ainda mais apavorante, a Sra. Campbell certa noite percebeu um vulto escuro no corredor da casa, como uma sombra negra espreitando. A coisa literalmente sumiu em um piscar de olhos. Toda essa intensa atividade paranormal continuou crescendo, e as crianças da Família Ammons começaram a perder aulas pois ficavam acordadas a noite inteira aterrorizadas pelas estranhas ocorrências.    


A escalada de ataques sobrenaturais apenas piorou a partir desse ponto. Vários membros da família reclamavam que uma presença invisível os empurrava ou cutucava com força. Uma das crianças chegou a dizer que foi violentamente agarrada e sacudida por "mãos invisíveis". Em outra ocasião, um dos meninos, de 12 anos foi jogado pelo quarto como se fosse um boneco de pano, vindo a se chocar com uma mesa. Nada disso se comparava com o incidente ocorrido em 13 de março, quando uma das crianças, foi encontrada levitando acima de sua cama, em um estado de transe. De acordo com a versão de Latoya Ammons e Rosa Campbell as duas encontraram a menina flutuando a cerca de um metro de altura, com o corpo rígido sobre a cama. As duas gritaram aterrorizadas e então a criança despertou e caiu. Ao acordar, alegava não ter qualquer lembrança do que havia ocorrido, como se a sua mente tivesse sido apagada. 

Após este aterrorizante evento, as crianças começaram a manifestar uma série de comportamentos e surtos que sugeriam a influência de uma força sobrenatural externa. Os olhos por vezes rolavam deixando apenas o branco à mostra, elas sibilavam e rosnavam como animais, chegavam a latir e uivar durante a noite, e quando despertavam desse estado pareciam perfeitamente normais, sem memória do que havia acontecido segundos antes. Certa noite, Latoya afirmou ter acordado com um estranho som vindo do quarto de sua filha mais nova de apenas 7 anos. A menina estava em pé, diante da cama, seus olhos brancos e seu corpo rígido. A cabeça virada para trás enquanto ela pronunciava palavras sem sentido em uma língua que ninguém foi capaz de compreender. Quando percebeu que não estava sozinha, a menina irrompeu em uma série de gritos estridentes que terminaram em ameaças de "vou te matar" e "vocês todos vão morrer", com uma voz que não pertencia a criança. O surto durou alguns minutos e quando terminou, a menina precisou ser levada para um hospital, pois havia deslocado o ombro por ter se batido violentamente contra a parede.

Desesperada com tudo isso, Ammons foi aconselhada a procurar ajuda da igreja. Os padres foram bastante solícitos e entrevistaram membros da família para tentar compreender o que estava acontecendo. Chegaram a enviar um observador até a casa para testemunhar os incidentes. Nos primeiros três dias em que ele ficou como hóspede na casa, não houve nenhum incidente, mas no quarto dia, a atividade demoníaca retornou com força. Luzes piscava, objetos se moviam e uma garrafa alegadamente flutuou no ar. O observador da Igreja aconselhou a família a realizar uma limpeza espiritual no ambiente e espalhar crucifixos pela casa. Mas infelizmente nada disso surtiu efeito. Eles decidiram então contatar um médium, recomendado por um vizinho, para tentar entender que manifestação era aquela que os perturbava. 

O especialista, um senhor de meia idade conhecido pela sua seriedade, visitou a casa e andou pelos cômodos, concentrando-se. Em mais de um aposento ele parou e fechou os olhos como se estivesse incomodado com alguma coisa que apenas ele podia sentir. Seu prognóstico não foi nada bom. Segundo, o médium a casa estava "infestada" por presenças demoníacas, nada menos do que 200 entidades diferentes, todas elas malignas. Ele aconselhou a "limpar" a casa com ervas e erguer um altar religioso no sótão, que segundo ele, era o lugar mais afligido pelas presenças. Finalmente, disse que os Ammons deveriam considerar deixar a casa para sempre. Infelizmente, a família era muito pobre para simplesmente se mudar, e havia investido suas economias na compra do imóvel não tendo para onde ir.


Eventualmente o Departamento de Assistência Social acabou se envolvendo no caso. Uma agente social chamada Valerie Washington foi enviada para verificar se as crianças estavam sendo bem tratadas, uma vez que um professor denunciou que uma das meninas apresentava estranhas marcas nos braços. A agente foi testemunha então de uma das mais impressionantes manifestações na casa. Ela viu aterrorizada um dos meninos andar na parede, agarrado a ela desafiando a gravidade. A agente ficou tão aterrorizada que mais tarde deu uma entrevista relatando o que havia visto: "Ele estava agarrado na parede, passou correndo pelo teto, agachado de quatro. Era impossível! Simplesmente impossível que pudesse ser um truque. Não havia como tal coisa ser encenada. Eu acredito que alguma coisa fora do reino da normalidade está acontecendo com essa pobre família. Eles estão enfrentando uma situação terrível!".

Outras autoridades também se manifestaram a respeito dos bizarros acontecimentos na propriedade. O Capitão de Polícia Charles Austin afirmou que acreditava na explicação de que uma força sobrenatural estava atacando a Família Ammons. Ele próprio testemunhou mais de um incidente inexplicável ao ser chamado por vizinhos que se queixavam de gritos e perturbação da ordem vindos da casa. O Capitão teria inclusive, com a permissão da família,  tirado fotografias com seu iPhone, capturando em imagem estranhas formas sombrias e sons misteriosos. A despeito de tudo isso, o Departamento de Apoio a Crianças acabou preenchendo uma queixa contra Latoya Ammons acusando-a de maus tratos. As crianças foram afastadas e colocadas em um lar temporário por seis meses até serem devolvidas a sua guardiã legal.    

A essa altura, a imprensa já havia tomado conhecimento de todos os terríveis acontecimentos na vizinhança. O local foi apelidado de "A Casa dos 200 Demônios" e apareceu em várias reportagens de televisão e jornais de costa a costa. Um artigo de 2014 no Indianapolis Star afirmava que a casa era o lugar mais assombrado do estado e que fotografias tiradas pelos jornalistas enviados para cobrir o caso haviam registrado estranhas sombras nas janelas. A cobertura da mídia propeliu o caso até a estratosfera, e a terrível história de uma família tendo de lidar com a presença de demônios capturou a imaginação do público e se tornou sensação na mídia. 

Em meio a toda repercussão, o Padre Católico, Reverendo Michael Maginot se ofereceu para ajudar a família, desde que seu envolvimento e o da igreja fosse tratado com discrição. Nas palavras do padre, eles não queriam que a situação se transformasse em um espetáculo para a mídia. Maginot recomendou que fossem realizados três exorcismos consecutivos na casa e nas vítimas. O Padre descreveu o lugar como um tipo de "portal para a entrada de demônios" em nossa realidade.


Especialistas no sobrenatural e investigadores do paranormal levantaram histórias a respeito do endereço. Descobriram que a casa havia sido erguida em 1990, mas que antes disso, no terreno havia uma outra casa que segundo rumores havia servido como sede para o que foi chamado de "um culto diabólico" nos anos 1960. Supostamente, uma congregação diabólica se encontrava no local realizando rituais de invocação que tencionavam trazer entidades demoníacas e deles obter favores. Segundo rumores, a tal congregação teria encerrado suas atividades em 1970, depois que a casa foi parcialmente incendiada. Apesar de não haver registros do caso, uma senhora que preferiu não se identificar, afirmou que teria participado do culto que usou o endereço como base de seus rituais. Essa senhora, que afirmava ser uma cristã renascida, arrependida de seus maus feitos, contou que reconheceu imediatamente o endereço quando o caso ganhou notoriedade.

Ela relatou que a propriedade era usada como centro para a realização dos rituais e que no período em que participou dessas reuniões testemunhou muitas coisas inexplicáveis. Segundo ela, entidades eram frequentemente chamadas para se apoderar dos corpos de membros da congregação, falar através deles e presidir os rituais. A casa original teria sido posteriormente vendida e derrubada para a construção de outra casa, que por sua vez também foi demolida para que a atual fosse erguida. Uma reportagem completa, que incluía uma entrevista com essa testemunha foi publicada no Daily Indianapolis e obteve enorme repercussão. 

Com tudo que aconteceu, a família Ammons que estava no centro do debate recebeu a ajuda de pessoas sensibilizadas com seu drama. Eles ganharam uma casa bem afastada e puderam deixar a Casa dos 200 Demônios.  

Mas a história do endereço assombrado não terminou nesse ponto. Em 2016 a casa foi alugada pela produção do programa Ghost Adventures do Travel Channel que pretendia fazer um documentário e programa especial com base nos acontecimentos. Zak Bagans, apresentador do programa aceitou se mudar para o endereço que foi equipado com câmeras, sensores de movimento, microfones de captação e outros dispositivos tecnológicos para registrar qualquer manifestação. O programa que recebeu o título "Demon House" não poupou despesas, entrevistando testemunhas, contratando atores para encenar os acontecimentos e até convencendo o Padre Maginot a relatar o que viu na casa. Apenas a Família Ammons decidiu manter distância do caso, preferindo não ter qualquer ligação com a produção.


Logo ficou claro que a manifestação demoníaca na casa e sua influência não ficariam tímidas diante do aparato montado pela produção do programa. Bagans registrou alguns discretos sons e imagens no interior da casa - muitos dos quais considerados como encenados por contra-regras interessados em criar um ambiente assustador. O Padre Maginot implorou para que Bagans e sua equipe de filmagem desistissem da empreitada, ou que ao menos fizessem uma preparação espiritual antes de permanecer na casa. Pediu ainda que eles usassem crucifixos e outras proteções religiosas, mas Bagans alegou que desejavam exatamente registrar os efeitos sobrenaturais, se estes se manifestassem. 

De acordo com o diário de produção, desde o início houveram muitas dificuldades técnicas, acidentes esquisitos com membros da equipe e acontecimentos inexplicáveis. Objetos sumiam e depois apareciam em lugares diferentes, trechos de filmagem simplesmente eram apagados e misteriosos odores podiam ser sentidos. Alguns membros da equipe desistiram do trabalho, alegando que não se sentiam a vontade para prosseguir, outros diziam que a aura da casa estava cobrando um pesado preço para quem ficava lá por tempo demais. Alguns afirmavam sentir desconforto, dores de cabeça, náusea e outros efeitos. 

A situação chegou ao limite quando o próprio apresentador se ausentou por quatro dias, tendo de ser hospitalizado em caráter de emergência em decorrência de uma repentina infecção intestinal. No hospital ele teria dito que "A filmagem estava amaldiçoada" e que tinha medo de prosseguir no trabalho, embora o Canal quisesse que ele completasse as filmagens. Os custos haviam sido elevados e era preciso cumprir o contrato. Bagans declarou posteriormente que temia que qualquer pessoa assistindo as filmagens corria perigo. Segundo ele, a casa era um "gatilho" para ampliar a aflição das pessoas, fazer com que se sentissem amarguradas e especialmente oprimidas. Dois dos membros da equipe de "Demon House" alegavam estar passando por um quadro agudo de depressão. 

Após finalizar as filmagens em 2016, Bagans, que havia comprado a casa, decidiu contratar uma empresa de demolição para derrubá-la de uma vez por todas. Sua decisão era que a propriedade deveria ser destruída e o terreno deixado vazio para sempre. De acordo com o Padre Maginot tal medida não resultaria em benefício já que nenhuma limpeza havia sido realizada previamente e o mal se manteria ali. Na sua opinião, o tal portal demoníaco se manteria aberto a despeito de haver sobre ele uma casa ou não. Maginot escreveu em uma carta aberta quando consultado a respeito:

"Eu sempre fui contrário a usar a casa em um programa de televisão. É algo extremamente perigoso usar o sobrenatural como mera forma de entretenimento. Isso não é um parque de diversões. Há perigos e não há como controlar a situação. Derrubar a casa, não trará nenhum benefício. O ideal é que ela fosse mantida no lugar e gradualmente limpa de qualquer presença maligna que a habita através do Sagrado Ritual Romano de Exorcismo. Derrubar as paredes não irá encerrar a questão. Como religioso, eu gostaria que chegássemos a um final feliz, que a casa não mais representasse um mal e que as presenças malignas fossem expulsas. Ao invés disso, com ela sendo derrubada, parece apenas que Satã obteve algum tipo de vitória"


Atualmente a casa não passa de um terreno vazio, com mato e ervas daninhas crescendo em meio aos restos. Uma cerca de arame foi erguida ao redor dela, mas isso não impede que pessoas pulem sobre ela e explorem o local em busca de algum souvenir macabro nas suas fundações. Alguns vizinhos afirmam ouvir sons estranhos e perceber sombras vagando por ali, mas compreensivamente poucos gostam de falar a respeito. Também há aqueles que afirmam que o terreno vazio se tornou um imã para curiosos e satanistas que convergem para o lugar para buscar o "Portal Demoníaco".

Os estranhos acontecimentos no local continuam sendo matéria de grande debate. Há muito ceticismo quanto a veracidade do que a Família Ammon relatou ter experimentado enquanto vivia no lugar e não faltam aqueles que consideram todo incidente como uma fraude grosseira. Mediuns e especialistas em desvendar fraudes sobrenaturais afirmaram que não captaram nada de estranho na propriedade em visitas posteriores e que o caso inteiro foi manipulado para ganhar a atenção do público. Muitas das testemunhas segundo esses céticos seriam propensos a acreditar em superstições sobrenaturais, inclusive o Capitão de Polícia e a Assistente Social que testemunharam "manifestações inexplicáveis". Segundo alguns estudiosos, o caso foi hiperdimensionado pelo sensacionalismo. Nem mesmo o Padre Maginot foi poupado de críticas, já que segundo um famoso debunker ele teria escrito três livros a respeito de sua participação na investigação da Casa dos 200 Demônios.    

A despeito de todo o ceticismo, o caso permanece como um dos mais famosos registros de atividade paranormal e o mais conhecido incidente da história de Indiana. A Família Ammons jamais quis se manifestar a respeito dos acontecimentos e se negou a dar entrevistas sobre o caso, considerando que sua participação nos eventos está finalizada. O Padre Michael Maginot realmente escreveu três livros sobre o caso, e posteriormente mais dois sobre exorcismos e a presença do mal em nosso mundo. Ele é tratado como uma espécie de celebridade em seu campo de estudo. Zak Bagans, apresentador do Ghost Adventures liberou uma versão (supostamente) editada de seu programa "Demon House" em 2018 que foi exibida em um especial de 6 partes no Travel Channel. Ele não trabalha mais com o programa e se dedica a outros trabalhos atualmente.

A Casa Assombrada da Rua Carolina continua cativando a imaginação das pessoas, apesar de não existir mais. Ela é considerada como um dos casos mais sensacionais de lugares assombrados da última década e ainda rende muita discussão quando abordado. No fim das contas, é difícil dizer se algo realmente aconteceu com a família que viveu ali e se existia uma força sinistra habitando sob o mesmo teto que ela.

sábado, 27 de outubro de 2018

Bibliomania - A Loucura por Livros Raros que infectou a Europa do século XIX


Ainda que não seja uma doença psicológica, colecionadores de livros e bibliófilos descrevem a "bibliomania" como uma condição médica.

Dr. Alois Pichler estava quase sempre cercado por livros. Em 1869, Pichler, originalmente da Bavaria, se tornou o que na época era chamado "Bibliotecário Extraordinário" da Biblioteca Publica de St. Petersburg, na Russia, uma posição de prestigio que deu a ele um salário três vezes maior do que o de um bibliotecário comum: aproximadamente 3,000 rublos.

Enquanto muitos bibliotecários possuem uma profunda admiração por livros, Pichler sofria de uma estranha condição. Poucos meses depois que Pichler assumiu a posição na Biblioteca, a equipe descobriu que uma alarmante quantidade de livros haviam desaparecido da coleção. Eles começaram a suspeitar que pudesse estar havendo algum tipo de roubo. Os guardas contratados para vigiar todos os funcionários, perceberam que Pichler estava agindo de maneira estranha - deixando livros em lugares curiosos, retornando volumes para o lugar errado e se recusando a deixar seu grande sobretudo no armário. Também perceberam que ele vinha saindo repetidas vezes da biblioteca, mesmo durante seu horário de trabalho. Começaram então a prestar atenção em suas ações.

Em março de 1871, um dos guardas decidiu seguir o bibliotecário e percebeu que ele carregava um volume em seu casaco. Ele contratou um rapaz para esbarrar no sujeito e tentar descobrir o que ele estava carregando escondido. Eram livros, e quando o Bibliotecário percebeu que estava sendo vigiado imediatamente tentou escapar, sendo capturado pelo guarda que lhe deu voz de prisão.

Na casa do Bibliotecário, a polícia encontrou nada menos do que 4,500 livros sobre os mais variados tópicos, desde criação de perfumes até teologia, que pertenciam a biblioteca e que haviam sido surrupiados. Pichler vinha retirando ao menos três livros ao dia e havia cometido o que foi chamado de o maior roubo a uma biblioteca na história. 


Pichler foi levado a julgamento, e durante o processo, seu advogado alegou que o bibliotecário não era capaz de controlar o seu impulso de se aproprar dos livros que caiam em suas mãos. Ele era influenciado por uma "peculiar condição mental, uma mania que não existia na historiografia média, mas que se manifestava como uma irresistível, irrefreável e incontrolável de subtrair livros". 

Sua defesa tentava mitigar a punição e apelar para a boa vontade dos jurados. 

Não funcionou! Pichler foi considerado culpado e acabou sendo exilado para a Sibéria onde passou 10 anos cumprido pena de trabalhos forçados.

O bibliotecário talvez tenha sido a primeira vítima de Bibliomania, uma condição psicológica obscura que varreu as classes altas da Europa e da Inglaterra durante os anos de 1800. Os sintomas incluíam um frenesi por encontrar, adquirir e caçar livros raros, de preferência as primeiras edições de diferentes obras. A "doença"! também se manifestava fazendo com que a pessoa afetada se dedicasse a determinados temas, tipos de livro, encadernação e papel. 

"Qualquer forma de obsessão pode se tornar uma doença", diz David Fernandez, um bibliotecário especializado em livros raros e obras selecionadas que trabalha na Biblioteca Fisher na Universidade de Toronto. "Um dos aspectos interessantes é que a pessoa afligida muitas vezes não escolhe livros especialmente caros. Não se trata de uma questão financeira, ele deseja livros raros"


A primeira definição de Bibliomaia; ou Loucura por Livros foi publicada em 1809 e era uma análise da condição feita por Thomas Dribdin. 

A elite social formada por estudiosos e pesquisadores fazia de tudo para obter e coletar livros - sem se importar muitas vezes com o preço, ou com o fato de que eles muitas vezes, não estavam a venda. Alguns colecionadores gastavam verdadeiras fortunas para construir suas bibliotecas particulares. Ainda que jamais tenha sido considerada como uma aflição mental, as pessoas na época realmente temiam vir a sofrer de bibliomania. Existiam várias descrições, fictícias e reais, de pessoas sofrendo de bibliomania. Para os cavalheiros do período, o roubo era considerada uma transgressão capaz de arruinar uma reputação por inteiro. Ser acusado de subtrair qualquer coisa, mesmo um livro, era tido como algo imperdoável.

Um dos casos mais conhecidos e que possui farta documentação envolve o Reverendo Thomas Frognell Dibdin, um amante de livros britânico e vítima dessa estranha neurose. Em 1809 ele publicou um livro a respeito de Bibliomania na qual descrevia as estranhas, curiosas e peculiares reações de colecionadores de livros que Dibdin havia conhecido.

"Acredito que uma das melhores palavras para descrever essa situação é "bizarro", diz Fernández, que teve acesso ao texto escrito pelo bibliotecário no século XIX. "Era um produto de sua geração ao que tudo indica".

Uma das imagens dentro do texto mostra o que o autor chama de "Tolo por Livros", um indivíduo descrito como um sujeito que não vê limites para sua coleção, que precisa sempre expandir seu acervo e que não se importa em gastar dinheiro, tempo e recursos nessa atividade", descreve Fernandez. 

O "Tolo por Livros" 

De acordo com o Reverendo Dibdin, a "praga dos livros" teria atingido o seu ápice em grandes metrópoles como Paris e Londres em 1789. Após a Revolução Francesa em 1799, aristocratas franceses venderam boa parte de suas bibliotecas para fugir de seu país natal e muitas bibliotecas foram esvaziadas de títulos raros que mudaram de mãos por toda Europa. Da mesma forma, várias bibliotecas públicas foram destruídas na Revolução e muitos livros acabaram sendo roubados e vendidos em um mercado negro que movimentava enormes fortunas. Catálogos de Casas de leilão do século XVIII e XIX trazem uma grande quantidade de livros franceses. O preço de um volume raro poderia ser quadruplicado nesse período e a disputa por livros raros causava uma disputa que às vezes envolvia persuasão, coação, intimidação e até mesmo violência.

Muitos homens e mulheres que negociavam livros raros os compravam secretamente. As cifras eram enormes e agentes à serviço destes colecionadores tinham liberdade para fazer propostas e negociar. Por vezes, agentes a serviço de colecionadores inescrupulosos podiam chegar ao ponto de contratar rufiões e planejar roubos a bibliotecas, tudo para conseguir o volume que completaria uma coleção privativa. Não por acaso, companhias de seguro ofereciam proteção para livros raros e guardas eram contratados para proteger esses bens.

Não apenas as bibliotecas particulares estavam na mira dos colecionadores. Acervos de Universidades e Bibliotecas Públicas mundo afora poderiam ser vítimas desses ladrões. Além de livros, pergaminhos, mapas, documentos, cartas e outros papéis raros acabavam sendo subtraídos. 

Certos livros eram desejados por razões específicas, como os que tinham encadernação rara, notas de rodapé deixadas por pessoas ilustres ou que eram citados como verdadeiras obras de arte de tipografia. Nessa categoria os "Black Letter" (Letras Negras), eram considerados especialmente desejáveis pela sua excelência na impressão. 

O poeta e escritor escocês Robert Pearse Gillies escreveu em suas memórias em 1851: "Houve um período de minha vida em que sofri de uma mania incontrolável de adquirir volumes com black letter. Não posso descrever o que sentia, mas era uma necessidade de ter em minhas mãos tais livros, possuí-los... o mais estranho é que eu queria apenas tê-los, não necessariamente lê-los. É possível que mesmo aqueles mais raros, que foram mais difíceis de conseguir, eu não tenha lido mais do que 50 páginas".


Thomas Frognall Dibdin, Bibliófilo britânico e bibliomaníaco. 

Isso não era exatamente algo raro. Havia um grupo muito grande de colecionadores que desejavam ter os livros em sua posse pelo mero desejo de possuí-los. Driblin descreve em seu texto a condição equiparando-a realmente a uma doença, usando para isso termos médicos consagrados no período. Ele destacava haver oito tipos de livros em especial que os colecionadores bibliomaníacos desejam ter acima de qualquer outros: primeiras edições, edições únicas, livros impressos com black letter, volumes em formato incomum, livros cujas margens haviam sido cortadas à mão, volumes com iluminuras, cópias com anotações, cópias encadernadas em veludo e em seda.

Além de escrever a respeito de livros e seus colecionadores, o Reverendo fundou o Clube de Apreciadores de Livros Raros de Roxburghe, que se tornou conhecido como uma sociedade que trocava livros e oferecia a chance de adquirir ou se desfazer de volumes raros. A sociedade contou com inúmeros bibliófilos famosos e é claro, com bibliomaníacos. Em determinado momento, o Clube teve mais de 2000 membros, sendo que muitos destes eram estrangeiros.

Dibdin não foi o único a escrever a respeito da bibliomania, Gustave Flaubert também devotou artigos inteiros para relatar suas disputas com um rival na aquisição d elivros raros, um negociante espanhol que ele chamava de "O Monge Espanhol". Flaubert chegou ao ponto de afirmar temer pela sua vida, uma vez que em mais de uma ocasião esse rival o ameaçou através de agentes que buscaram dissuadi-lo de comprar certos volumes.


Uma ilustração de Gustave Flaubert para seu artigo Bibliomanie, uma obra a respeito da loucura por livros raros. 

Flaubert escreveu um ensaio a respeito de um personagem fictício (mas provavelmente baseado em alguém de carne e osso) chamado Lisardo. Um homem rico, sem família e fanático por colecionar livros raros. Quando ele é apresentado a um outro colecionador que o leva até sua biblioteca ele acaba sucumbindo à mania: 

"Lisardo correu na direção das prateleiras e armários. Ele observava com grande velocidade cada volume, suas mãos gananciosas agindo com velocidade, virando páginas, consultando e avaliando cada volume de folios e quartos, então os octavos. Seus dedos deslizando sobre as páginas eram capazes de sentir a textura do papel e calcular a idade e o tipo d eimpressão. Ele não deixava de lado os duodecimos, alguns deles com cuidadosas ilustrações e iluminuras. Suas mãos calejadas verificavam a encadernação, o material da linha e a condição geral da seda usada, se havia deterioração ou qualquer condição adversa". 

No conto de Flaubert, o pobre Sr. Lisardo acaba enlouquecendo e tem que ser colocado em um manicômio depois de se desesperar por não ser o doo daquela coleção magnífica. 

Embora a história fosse uma ficção, é bem provável que bibliomaníacos do período se comportassem de maneira semelhante. "Boa parte daqueles colecionadores eram indivíduos de classe social elevada e não estavam acostumados a terem um desejo frustrado. Alguns iam até as últimas consequências para ter o livro que tanto desejavam. E quando não conseguiam, acabavam enlouquecidos", explica Fernandez. 

Tomemos por exemplo o colecionador de livros britânico Richard Heber que chegou a ter oito casas completamente tomadas por volumes que chegavam a 146,000 volumes. Ao longo de sua vida, Heber gastou 100 mil libras, uma enorme fortuna para construir a sua coleção em 1804. Enquanto isso, outro colecionador Sir Thomas Phillipps levou a sua família a ruína financeira ao gastar quase toda a sua fortuna em livros raros. Phillipps era obcecado por manuscritos em veludo, e teria dito certa vez que estava em uma campanha para adquirir todos os livros quepudesse encadernados dessa forma, não importando o custo. 

Um dos contemporâneos de Phillips relatou que sua casa era um verdadeiro pântano dilapidado recoberto por livros de todos os tipos, tamanhos, e formas; "O estado das coisas era realmente inacreditável. Lady Phillips estava ausente, não havia suportado as excentricidades do marido. Ele, pouco se importava, estava satisfeito com sua vasta coleção". O homem continuou escrevendo: "Cada sala, cada aposento, cada pequeno espaço encontra-se abarrotado com pilhas de papéis, manuscritos, livros, mapas, pacotes ainda fechados e volumes empoeirados: mesas, camas, cadeiras, escadas". 


Um bibliofilo cuidando de sua coleção, pintura de Carl Spitzweg de 1850 

Hoje em dia, um comportamento semelhante pode facilmente ser enquadrado em alguma das condições de transtorno obsessivo compulsivo (TOC) ou como o mal dos acumuladores. De fato, alguns estudiosos contemporâneos ligam a bibliomania, com uma desordem mental: "Parece bastante claro que essa condição não é normal e que algumas pessoas levam sua obsessão por livros até um patamar que beira o extremo. O prazer que acumuladores sentem ao colecionar é profundo e reflete na auto-estima e em sua imagem pessoal. O desejo por acumular mais e mais livros se torna o sentido e propósito de sua existência".

Dibdin acreditava que a cura da bibliomania só poderia ser alcançada quando o próprio indivíduo aceitava se desfazer de sua coleção. Ele próprio, reconheceu ser um bibliomaníaco em meados de 1820 e fez de tudo para se desfazer de sua coleção, vendendo a maioria de seus livros. Eventualmente ele conseguiu se desfazer de sua biblioteca, mas seu alerta a respeito da obsessão continua sendo um válido mesmo nos dias atuais.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Necromancia - A mais macabra das Ciências Ocultas


Há milênios, humanos demonstram uma verdade obsessão com a ideia da morte: como adiar a sua chegada, como se preparar para o que vem depois, como entender o nosso destino… e, é claro, como retornar de lá. 

Necromancia é a prática de comunicação com aqueles que habitam o além, que ultrapassaram a fronteira da vida e penetraram nos domínios da morte e que possuem um conhecimento único de algo que transcende nosso saber terreno. Ele é o saber da tumba, compartilhado pelos espíritos e fantasmas que tem sido estudado, testado e ensinado ao longo da história humana.

Robert Masello, um jornalista premiado e autor, conta a história da Necromancia em seu livro "Erguendo o Inferno: Uma História Concisa das Artes Negras e das Pessoas que ousavam praticá-la" (Raising Hell: A Concise History of the Black Arts and Those Who Dared to Practice Them). Nele, o autor deixa claro que os indivíduos adeptos desta modalidade da feitiçaria fazem bem mais do que procurar cadávres e entoar palavras mágicas, embora tal coisa também aconteça.

Necromantes reais possuem um código de conduta muito severo que lhes impõe uma série de limitações. Por exemplo, eles devem se restringir de consumir sal ou carne, também não devem se render aos prazeres mundanos e promover um estilo de vida celibatário. Necromantes não vestem roupas claras, mas não são obrigados a trajar preto como muitos pensam. Uma vez que suas atividades são basicamente noturnas, muitos deles escolhem trocar o dia pela noite, horário em que suas atividades são mais propícias.

Na Espanha Medieval, pré-reconquista, o estudo da Necromancia atingiu o seu ápice como uma disciplina ensinada por professores e aprendida por alunos. As salas de aula eram construídas em catacumbas de cemitério ou no anexo de mausoléus onde os estudantes podiam ter acesso ao material de seu estudo e com ele se familiarizar: a morte. Há indícios de que célebres universidades espanholas, como a famosa Salamanca, possuíam Cursos de Necromancia, embora estes não fossem abertos a qualquer pessoa interessada. Havia uma rede de informantes dentro de disciplinas como filosofia, medicina e mesmo teologia, que descobria possíveis interessados e os convidava para atender a esse curso. Nele, os adeptos aprendiam noções de anatomia, alquimia e ocultismo, e mais importante, os fundamentos das artes negras.


É curioso, mas a necromancia sempre considerou a si mesma a mais neutra das ciências ocultas. Ela não se inclinava para o bem ou para o mal, visto que seu foco se referia a todos, sem distinção de alinhamento social. A morte chegava a todos, era um visitante inevitável para o Rei ou para o servo, para o nobre e o plebeu, para o rico e para o pobre. Necromantes consideravam a si mesmos uma espécie de canal através do qual, os segredos poderiam ser compartilhados e desvendados. Ainda que certos rituais pudessem parecer sinistros e suas atividades soassem macabras, os verdadeiros necromantes não eram praticantes de sacrifícios ou de atrocidades.    

Não obstante, a prática foi transformada em uma anátema da fé cristã. A Necromancia passou a ser intimamente associada ao satanismo e como tal, perseguida pelos inquisidores. A morte era um território exclusivo para a cristandade e o envolvimento com seu saber se tornou reprovável. Mas isso não significa que a prática desapareceu nos séculos seguintes. De fato, ela continuou entranhada nas sociedades despertando o mesmo interesse e fascínio que sempre teve.

Um dos princípios da Necromancia clássica é que os rituais são extremamente complexos e demandam enormes preparativos. Outro princípio é que os segredos do além não são entregues gratuitamente e o envolvido em sua exploração, por vezes, tende a se expor a riscos. Fantasmas e espíritos, na maioria das vezes, não se mostram cooperativos e não ficam satisfeitos ao serem invocados.

Por que então incomodá-los?

Segundo a tradição da necromancia, existem várias razões para ingressar no estudo dessa arte, alguns mais puros do que outros.


Espíritos conjurados, são por vezes invocados por afeição, o feiticeiro sente falta de um ente querido ou age como uma ponte para aliviar o sofrimento e preocupação de alguma pessoa em profundo luto. Algumas vezes, os espíritos são assim invocados para confortar os vivos e reduzir seu lamento.

Outras vezes, os espíritos são invocados por serem eles, uma fonte de conhecimento secreto. Um adágio da arte diz que "mesmo o fantasma menos informado sabe mais a respeito do além que a maioria dos necromantes". Além disso, eles conhecem todos segredos que carrearam consigo para o outro lado - a localização de tesouros, o nome de assassinos e criminosos, segredos que não podiam ser divulgados em vida, que após a morte finalmente podem vir à tona. Um necromante não sabe apenas como se comunicar com os mortos, mas aprende a persuadir os espíritos, por vezes através de agrados e promessas, em outros casos, por intermédio de coação e intimidação.

De acordo com o folclore, os espíritos podem ser acessados perto de seu descanso final por cerca de um ano após sua morte. Não é por acaso que necromantes eram famosos por rondar cemitérios e saber quando cada pessoa morreu. Nesse período, a invocação do morto se tornava mais fácil, uma vez que ele ainda não entendia sua condição de desencarnado. Com o passar do tempo, se tornava mais difícil, em alguns casos, impossível alcançar o falecido o que podia demandar um longo ritual.

Esses rituais tinham requisitos e careciam de total seriedade e comprometimento por parte do necromante. Antes de sua realização, o necromante fazia uma série de preparativos para se limpar espiritualmente: jejuava e evitava certos tipos de comida, não bebia nada fermentado, se eximia de sexo e da companhia de entes queridos, além de que, passava parte de seu tempo em meditação. Também era comum um preparativo que envolvia lavar o corpo em frequentes abluções purificadoras no mesmo horário e seguindo o mesmo ritual. Não apenas a parte exterior era foco de sua atenção, mas por dentro também. Por isso, consumiam ervas purgativas que induziam ao vômito e diarreia. A ideia é que quanto mais limpo estivesse o organismo, melhor.

O período compreendido pela maioria dos estudiosos do assunto envolve um tempo de preparação de no mínimo nove dias. Nesse período simbólico de vazio, eles tentam se harmonizar com o mundo que planejam explorar. Todos esses preparativos visam criar uma espécie de elo complacente entre o necromante e as almas daqueles que ele espera conjurar.


Os rituais deviam também obedecer a várias diretrizes. Primeiro o lugar escolhido é de extrema importância para a realização do ritual mágico. Os locais mais favoráveis para estabelecer contato com os mortos são câmaras subterrâneas, catacumbas de cemitérios, mausoléus e outros lugares em que a morte esteja próxima. Encruzilhadas também são considerados como lugares propícios, talvez pela crença de que elas funcionavam como um eixo para o trânsito dos vivos, e também dos mortos. Uma representação terrena de que os caminhos se cruzam e convergem. Além destes lugares consagrados segundo a crença, outros cenários podem ser ruínas, casas abandonadas, igrejas fechadas, monastérios e cavernas isoladas. O ideal é que o realizador tivesse paz e quietude, que não fosse interrompido após iniciada a sua exploração e que nada pudesse desviar sua atenção. 

Assim como fazia com seu corpo, preparando-o para a cerimônia, o local escolhida deveria passar por uma purificação. Velas negras e incensos almiscarados podiam ser queimados para abrir os caminhos através do uso de fragrâncias e substâncias específicas como losna, cicuta, açafrão, aloés, sândalo, mandrágora e ópio. Alguns acreditavam que um pequeno sacrifício é necessário, por isso ofereciam pombos ou coelhos que eram cerimonialmente mortos por decapitação. Outros sacrifícios podiam ser o sangue do realizador coletado em um cálice, bem como sua urina, o sangue menstrual de virgens ou bile. Uma coroa de louros, terra de cemitério, a crina de um cavalo, as penas de corvos e uma infinidade de outras coisas dependendo da crença do realizador também poderiam fazer parte do preparativo.  

A imagem que se faz dos necromantes condiz com o figurino adotado por eles quando praticam seus rituais. Ao contrário das bruxas e dos feiticeiros pagãos, o necromante raramente conduz seus rituais nu. O manto negro de tecido rústico dotado de capuz é a vestimenta mais propícia para seus rituais. Mas apenas ele é usado, o necromante não veste nada além desse traje simples. Por vezes próximo ao local ele deixa uma adaga, seus livros, velas e qualquer amuleto que ele tenha consagrado e que possa lhe ser útil.

O melhor momento para se realizar o contato com o mundo dos mortos, como é de se esperar, é entre a meia-noite e uma da manhã. Se a lua estiver cheia e cilhante, as condições se mostram ideais. A chuva torrencial ou o granizo, além de outras manifestações da natureza, como raios, também oferecem portentos. Existe a crença de que tempestades podem ajudar no contato com o além uma vez que eles causariam um tipo de ruptura nos tecidos que separam os mundos.

Dentre os rituais mais importantes dentro da Necromancia, nenhum é mais conhecido que a comunicação com os mortos.


Para realizar tal façanha, o Necromante e seus associados precisam cumprir uma última formalidade: eles precisam do cadáver da pessoa que desejam invocar. E é nisso que talvez resida a parte mais mórbida de seu ofício e a que concede a esta atividade o caráter mais medonho, já que Necromantes são em essência ladrões de sepultura.

Segundo os preceitos, o corpo deve ser removido de seu lugar de descanso durante a madrugada. Um círculo de proteção é desenhado ao redor da sepultura que será escavada. Após a exumação do ataúde, este é aberto e o corpo removido com um cuidado que beira a reverência. No passado ele era envolto por um saco de tecido escuro para ser mais facilmente carregado até o local escolhido para hospedar o ritual.   

O cadáver é posicionado sobre uma superfície semelhante a um altar (que pode ser de madeira ou pedra) e no qual são desenhados símbolos de proteção para afugentar maus espíritos. Tochas queimam ervas e substâncias que acrescentam ao ambiente um elemento odorífero particular. A posição do cadáver é importante segundo as convenções, sua cabeça deve estar voltada para o oriente (na direção do nascer do sol) e suas pernas devem ser dispostas com a direita sobre a esquerda. Próximo da mão direita, o necromante coloca um pequeno prato ou bacia, onde deve queimar uma mistura de vinho, betume e óleo essencial. O corpo deve ser tocado três vezes com uma vara de visco, enquanto o necromante repete palavras de seu Grimório repetindo então o nome do morto. Em uma pequena variação, se o morto cometeu suicídio, este deve ser tocado com a vara nove vezes, invocando outros nomes para que o cadáver seja liberado dos sofrimentos a ele impostos.

Ao fim, o necromante diz algo como "através de minha arte, eu te ordeno (filano de tal) que se manifeste e responda as perguntas que eu lhe dirigir".

Se tudo tiver sido realizado corretamente, o espírito será invocado e retornará ao seu velho corpo. Com um tom de voz pesaroso e sepulcral, o falecido irá responder todas as perguntas que o necromante fizer - o que existe além do mundo das lágrimas, que demônios estão lhe afligindo, onde um tesouro se encontra, qualquer coisa. Quando o interrogatório termina, o feiticeiro recompensa o espírito pela sua cooperação assegurando que ele não será perturbado no futuro. Os restos são queimados ou enterrados para que não sejam perturbados novamente. A destruição do corpo é uma maneira de impedir que ele seja sujeito novamente a ocupar seus restos.


Um famoso necromante da antiguidade, Sextus, filho de Pompeu, o Grande, teria aprendido o ritual com uma bruxa. Ele desejava saber como havia transcorrido uma determinada batalha em que seu pai estava envolvido durante a campanha para conquistar Roma. Ele teria ordenado a exumação de um soldado próximo de seu pai que havia morrido na batalha, mas o resultado do ritual obteve apenas respostas confusas. De acordo com Lucano, que relatou a história em sua obra Farsália, Sextus ficou enojado pelas descrições da batalha feitas pelo cadáver. 

Ele teria então buscado o aconselhamento de uma bruxa chamada Erichto.

Essa bruxa seria uma criatura assustadora, que tinha fama de não apenas se comunicar com os mortos, mas usá-los como seus guardiões e escravos. Para facilitar sa comunicação com os mortos, ela vivia em um cemitério, dormindo em uma tumba, cercada de ossos e relíquias funerárias. Quando Sextus pediu a ela que invocasse os mortos para que eles revelassem os augúrios, ela explicou que primeiro era necessário trazer diante dela um cadáver fresco.

Por sorte, havia ali perto um campo de batalha, e depois de buscarem por uma sepultura recente encontraram o cadáver de um soldado que havia acabado de ser enterrado. Erichto examinou o cadáver e aprovou seu uso, uma vez que nem bem havia esfriado. Ele não havia sido ferido na boca, nem nos pulmões ou na garganta, então não haveria problemas de responder às suas questões.

A gruta usada por Erichto era consagrada em nome dos deuses do submundo. Erichto havia preparado um nauseante cozido com a carne de hienas que por sua vez haviam devorado a carne de homens mortos, a pele de cobras, a espuma da boca de cães ferozes, e todo tipo de erva daninha de odor repulsivo. Quando a horrível mistura entrou em ebulição, a bruxa ordenou que Sextus fizesse um corte no peito do cadáver, exatamente acima de seu coração, para que ali fosse inserido uma cânula. O líquido foi então derramado para que se tornasse uma espécie de substituto de seu sangue.

Erichto começou então a proferir encantamentos, chamando por Hermes, para que guiasse o morto, e Caronte, que transporta as almas através das águas escuras do Rio Styx. Ela apelou a Hecate e Proserpina, a Rainha do Submundo, e a Caos, o senhor obscuro cujo objetivo é espalhar a destruição e a discórdia entre os homens. Ela lembrou a todos eles que sempre foi fiel discípula deles e que havia repetido os seus nomes em altares. Enquanto tais nomes eram proferidos, uma tempestade irrompeu, com raios e trovões. Sextus ouvia à distância o uivo de lobos e das serpentes sibilando.


Gradualmente Sextus percebeu uma forma transparente surgir flutuando sobre o cadáver do soldado. Erichto ordenou que o espírito entrasse no corpo desmazelado, mas ele se negou; ela ordenou mais uma vez ameaçando condená-lo ao submundo e aos seus tormentos. Mas o espírito novamente disse que não faria conforme ela ordenava. A bruxa então tentou uma nova abordagem: se o espírito fizesse conforme ela dizia, ela prometeu que destruiria seu corpo e dessa maneira não seria possível invocá-lo novamente por aquele horrível ritual. 

O cadáver acabou concordando; e reentrou em seu corpo. O sangue voltou a circular em suas veias e seu corpo decrépito se ergueu de maneira solene do altar. Com palavras carregadas de maus agouros, ele se voltou para Sextus quando este perguntou qual seria o destino da Campanha Militar que seu pai havia iniciado. "A Batalha será perdida: teu pai, teus parentes e você mesmo, não viverão para ver a próxima estação do ano. Tua campanha está fadada a ruína. Logo tua carne irá apodrecer em uma tumba e nada restará de ti além de ossos. Isso é o que te aguarda".

Diante da resposta decepcionante, Sextus dispensou o espírito. Ele e Erichto mantiveram sua promessa, montaram uma pira funerária e incineraram o cadáver. Conta a história que Sextus tentou convencer o pai do que havia acontecido, mas que Pompeu não desistiu de seu plano de reinar sobre o Império romano. Plano este que foi frustrado e resultou na sua morte. Fiel ao pai, Sextus ficou ao seu lado até o fim. Ele também não viveu para ver a estação seguinte.

Verdadeira, falsa, mero charlatanismo ou superstição, a Necromancia persiste como parte indissociável do mundo oculto e uma das tradições mais misteriosas, dividindo opiniões há séculos.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Scholomance - A verdadeira Escola de Magia do Leste Europeu


Nas Montanhas cinzentas dos Cárpatos, nas profundezas do Leste Europeu, existe uma lenda a respeito de uma Ordem de Feiticeiros. Eles estudam os meandros das Magias Ritualísticas, tentam desvendar os mistérios da Alquimia, os segredos da Necromancia e da Magia Negra. Eles se reúnem para compartilhar seu saber uns com os outros, e assim um elo entre mestres e discípulos se forma, inquebrável há séculos.

O nome dessa Ordem é Scholomance ou a Escola de Salomão.

Muito antes de ser o nome escolhido para uma Cidade de Feiticeiros em um popular jogo de MMORPG, Scholomance era um nome temido e raramente pronunciado abertamente. No Leste Europeu, ele era tido como uma lenda, mas muitos tinham motivos para acreditar na sua existência e temer a sua influência como algo vil e perigoso. Membros da Scholomance teriam encomendado ou eles mesmo perpetrado assassinatos, eliminado desafetos, manipulado pessoas importantes e até apoiado a queda ou surgimento de regimes. Mais do que sua influência política e econômica, a Scholomance era capaz de coisas muito piores, já que seus associados eram mestres nas artes místicas.

Na Europa Oriental e em qualquer outro lugar do mundo, o Rei Bíblico Salomão não é visto apenas como um homem sábio, mas também como um mestre nas artes da magia e alquimia. Salomão era capaz de operar verdadeiros milagres, alterar a realidade, prender demônios e compelir forças malignas a se submeter a ele. Hoje em dia, não são todos os estudiosos da Bíblia que reconhecem essa faceta do Rei Hebreu, mas basta apanhar o bom livro para descobrir que ele é descrito como um poderoso utilizador de magia.

Não é por acaso, portanto, que o Rei Salomão é uma espécie de patrono da Ordem.


A Scholomance surgiu como uma Ordem, mas em algum momento de sua longa história, que supostamente pode ser traçada até antes do Império Romano, ela se converteu em algo que poderia ser compreendido como uma Escola de Magia.

As classes da escola eram compostas por dez alunos que ficavam sob a tutela de magos instrutores que tinham vasto conhecimento em misticismo, alquimia e em outros ramos das Ciências Proibidas. Não se sabe quanto tempo durava o período letivo, mas é provável que ele compreendesse pelo menos cinco anos, tempo em que cada aprendiz era testado, recebia treinamento em diferentes técnicas, aprendia idiomas esquecidos e tinha acesso a um saber restrito. 

As instalações da Escola, localizada encravada em algum lugar quase inacessível das Montanhas da Romênia, no território fantasmagórico da Transilvânia, escondiam sua verdadeira natureza. Dizem que ela se apresentava como uma Ordem Monástica que se organizava num sistema asceta muito parecido com o cristão. Seus membros tinham regras muito rígidas, e horários severos que deviam ser respeitados sob pena de expulsão. Havia um voto de silêncio a respeito do propósito da Escola. Quebrar a promessa de jamais revelar o que acontecia atrás dos altos muros do Mosteiro podia dar ensejo a punições e até à morte. Recorrendo a esse sigilo, a Scholamance sobreviveu por incontáveis séculos, mesmo durante o período mais perigoso das perseguições religiosas. 

No interior do mosteiro haviam diferentes salas de aula, cada qual destinada a transmitir uma disciplina. Elas eram conhecidas como Capelas (ou Chantrias) e cada qual tinha um mestre responsável por cuidar de todos aspectos relacionados ao seu funcionamento. Uma Chantria podia se devotar a ensinar os princípios da Alquimia, contando com um vasto laboratório, ingredientes raros e material para criação de fórmulas. Outra Chantria se destinava a ensinar Necromancia e portanto possuía um laboratório de dissecção e um estoque de cadáveres frescos comprados no mercado negro. Outras Chantrias tratavam de magia enoquiana, magia planetar, astronomia, demonologia e assim por diante. Não se sabe os detalhes a respeito do que era ensinado, mas é razoável supor que a maioria das tradições místicas clássicas estavam à disposição dos alunos.


Mais famosa do que as Disciplinas ensinadas nas Chantrias, talvez fosse a renomada Biblioteca de Magia da Scholomance. Famosa em várias partes do mundo, motivo de curiosidade para ocultistas e feiticeiros ao longo da Idade Média, o acervo era tido como dos mais completos. Além de possuir tomos raríssimos e Grimórios famosos, a Biblioteca tinha a fama de reunir algumas edições únicas. Estariam nas suas prateleiras obras vindas do oriente distante, escritas em árabe, aramaico, sânscrito e até chinês. As coleções não reuniam apenas obras de magia, mas também uma fartura de material a respeito de filosofia, teologia, medicina, alquimia e ciências em geral. Haviam ainda manuscritos únicos extremamente valiosos, pergaminhos escritos por mestres e textos talhados em tábuas de barro cozido que haviam sobrevivido a passagem dos séculos. Supostamente, todos os magos que vinham de longe para visitar a Scholomance tinham de fazer a doação de alguma obra, para assim ganhar acesso ao acervo como um todo. Os vetustos bibliotecários, tinham como prerrogativa avaliar os livros oferecidos e julgar se ele teria lugar na coleção. Baseado em seu julgamento, o acesso podia ser vedado ou garantido.

Nenhum livro jamais deixava a biblioteca depois de incorporado ao acervo. Eles podiam ser consultados nas mesas e laboriosamente copiados, mas a regra da Scholomace era que nenhum trabalho veria o exterior dos muros. Essa regra pétrea, garantiu que a Biblioteca do Mosteiro se tornasse uma das mais completas e invejáveis da era das trevas.

Era tradição que nove aspirantes a magos, após aprender o suficiente, eram dispensados e podiam voltar para seus lugares de origem. Eles não tinham permissão para ensinar o que haviam aprendido na Scholomance, mas podiam indicar novos aprendizes quando julgassem adequado. Depois de receber seu treinamento estes voltavam, em geral para o mago que os havia indicado, para se tornarem discípulos.  

Um dos aspirantes, no entanto, era escolhido para ficar na Escola em caráter perpétuo. Aqueles que se destacavam eram convidados a assumirem o posto de  Dragão; um membro efetivo da Scholomance, escolhido para se tornar instrutor, mestre ou bibliotecário. Os Dragões eram os defensores de vanguarda da Escola, escolhidos à dedo para receber um conhecimento secreto que ia muito além daquele ensinado para os demais. Este recebia um livro onde suas magias e rituais eram copiados para posteriormente serem incorporados à biblioteca. Os Dragões dominavam técnicas superiores, aprimoravam seu repertório místico e aprendiam magias que lhes permitiam entre outras coisas se comunicar com animais, invocar demônios, controlar o clima, mudar de forma e em alguns casos, alcançar a imortalidade.


Supostamente, alguns agentes da Scholomance vagavam pela Europa em busca de candidatos para a escola. Se ouviam falar de algum feiticeiro ou bruxa, os procuravam, tencionando transformá-lo em um recurso valioso para a Ordem.  Os agentes também prestavam atenção a alguns detalhes: cabelos ruivos era uma marca distinta de estudantes em potencial. Crianças nascidas com polidactilia ou caudas vestigiais também eram tidos como bons candidatos.

Muitos falavam da influência da Scholomance na Europa e no poder que seus membros possuíam sobre as casas reais em várias nações. Acredita-se que Reis e Rainhas da Idade Média se aconselhavam com indivíduos que haviam recebido instrução da Scholomance e que estes os auxiliavam a governar recorrendo sempre que necessários às suas habilidades místicas. Uma vez que a Ordem se esforçava para ter um de seus alunos em cada corte importante da Europa, não é exagero dizer que ela era capaz de manipular decisões políticas e escolher o que lhe seria mais vantajoso. Em um jogo de intrigas, a Scholamance estava sempre disposta a tirar vantagem de suas conexões. Também era mencionada a habilidade dos magos de matar à distância e eliminar obstáculos recorrendo sempre a magia para alcançar seus objetivos. Um recurso valioso para os monarcas da Europa.

Um elemento bizarro frequentemente associado a Scholomance e seus membros diz respeito ao vampirismo. Em muitas histórias, membros da Ordem milenar seriam vampiros. As ideias de alquimia, dragões e vampirismo acabaram sendo unificadas na lenda da Família Tepes, ninguém menos do que o próprio Dracula. Vlad, o terceiro, o nobre que seria a inspiração para a criação do Drácula de Bram Stoker era um membro de uma Ordem de Cavalaria conhecida como Ordem do Dragão. Seria possível que esta fosse uma face pública da Scholomance?

 O que devemos nos perguntar é sobre a origem da escola. Em geral os historiadores acreditam que no final da Idade das Trevas, no início da Primeira Cruzada, dois cavaleiros, possivelmente templários, descobriram a biblioteca secreta do Rei Salomão em Jerusalém. Os cavaleiros retornaram a sua terra natal, a Wallachia e começaram a estudar os curiosos livros que haviam trazido consigo como espólios. Entre estes haviam importantes tomos a respeito de magia e alquimia. Um dos cavaleiros se devotou ao estudo da Cabala e eventualmente desenvolveu um sistema de magia similar ao que é descrito na Chave de Salomão. O outro cavaleiro, dizem, reviveu as tradições a respeito do culto do Dragão de seus ancestrais em um sistema de magia que combinava elementos de magia cerimonial e pagã com a figura do Dragão como uma divindade simbólica. Em algumas lendas, este dragão seria ligado a Chernebog, Deus da Noite, do inverno e do eclipse do Sol.


As imagens recorrentes de dragões indicam que o símbolo da Scholamance era possivelmente baseado na bandeira da Dacia, um Dragão com cabeça de lobo e um corpo de cobra formando um oroborus. Alguns supõem que o cavaleiro que acolheu o caminho da cabala teria seguido para o ocidente e mais tarde teria dado início a Ordem chamada Illuminati. A tradição do outro cavaleiro teria dado origem ao que é comumente chamado de Caminho da Mão Esquerda.

Digno de nota, novamente, são as similaridades entre esta lenda e o saber de Set e Sutekh, do Egito Antigo. Sutekh teria os cabelos vermelhos e favorecia os ruivos com o dom para a magia; como Chernebog, Sutekh era o Deus da noite e dos eclipses. As duas divindades divergem no fato de que Chernebog é um deus de frio e do inverno, enquanto Sutekh favorece o calor e o verão. No geral, essa diferença parece muito grande, mas é preciso levar em conta o ambiente de cada cultura, ambos atendem a mesma corrente de destruição e entropia.   

No final dos anos 1980, a lenda da Scholamance foi cooptada por um grupo de ocultistas com ligações na Europa Oriental. Em 4 de maio de 1990 (a Noite do Dragão segundo a tradição romena), este grupo composto por nove homens fundaram uma ordem baseada em sua interpretação da lenda da Scholamance. Relacionando Chernebog e Sutekh com os dogmas da Ordem, eles conceberam a noção de que vampirismo e a existência de um Deus da Noite, estavam de alguma forma ligadas. Eles acreditavam que a Scholomance havia sido fundada por indivíduos que tiveram contato direto com vampiros que por sua vez faziam parte de uma raça chamada Upyreshi. Essa Sociedade havia se espalhado pelo mundo, carregando seu conhecimento, o que explicava como o vampirismo estava presente em várias culturas. 

Os excêntricos membros da Nova Scholamance afirmavam ser estudiosos de várias tradições místicas e ocultismo e que também dominavam a alquimia e inúmeras modalidades de magia ritualística. A Scholamance passou a oferecer instrução mística em cinco disciplinas: Magia Ritual, Feitiçaria, Taumaturgia, Arcanismo e finalmente a Ciência dos Pactos. Cada membro da Ordem conhecia as disciplinas, mas se especializava em apenas uma ou duas, tornando-se assim mestres. O Vampirismo continuava tendo grande importância, visto que cada membro acreditava possuir uma descendência entre os Upyreshi. Esse revival da Scholamance tencionava se converter em uma nova e poderosa Ordem de Magia, que abriria aos seus interessados a chance de alcançar a iluminação.


Apesar de seus grandes sonhos, a Ordem durou apenas alguns anos e se separou após brigas e disputas internas entre os seus associados. Com o fim da Nova Scholamance, nos anos 1990, surgiu uma nova sociedade que atendia pelo nome Ordo Tenebri Astrum, ou O,T.A. Hoje ela é uma das Ordens Herméticas mais respeitadas da Europa, dedicada ao estudo do ocultismo.

Para alguns a Scholamance original continua ativa, alguns teóricos da conspiração acham que ela nunca deixou de existir. Ela permaneceria instruindo feiticeiros, criando novos magos e agindo nas sombras como os regentes ocultos do mundo de um mundo secreto.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Cinema Tentacular: Apóstolo - Fanatismo e Sangue em uma produção da Netflix


Apóstolo acaba de estrear na grade de programação do Netflix, agora dia 12 de outubro. A produção original do canal estava sendo aguardada por todos que assistiram o trailer que vinha sendo divulgado faz mais ou menos um mês. Ele gerou uma baita expectativa nos fãs de horror que gostam de apimentar o gênero com cultos religiosos e seitas fanáticas.

Empolgante e difícil de escrever a respeito sem revelar detalhes da trama (mas fiquem tranquilos, não teremos SPOILERS), Apóstolo é daqueles filmes que pegam a gente de surpresa oferecendo algo além do esperado. Assim como ocorreu com Aniquilação, que oferecia um horror fora do convencional, repleto de plot twists que desconstruíam a própria realidade da trama, Apóstolo envereda em um caminho similar. Com um suspense enervante que vai crescendo a cada cena, o roteiro investe em insanidade borbulhante e em violência escancarada. Toda vez que o espectador acredita ter entendido que tipo de história de horror está assistindo, algo bizarro ocorre, demonstrando que no universo caótico de Apóstolo, tudo pode acontecer. e de fato, acontece um pouco de tudo.


O diretor Gareth Evans constrói passo a passo um pesadelo alucinante, disfarçado em um ambiente com paisagem idílica. A natureza selvagem da ilha isolada na costa de Gales, onde se passa o filme, traduz um senso de urgência e ameaça ocultos. A qualquer momento parece que tudo vai desmoronar pela ação dos personagens e de fato, isso acaba acontecendo em uma conclusão desconcertante.  

A primeira hora de Apóstolo parece render uma homenagem ao clássico filme britânico "O Homem de Palha" (Wicker Man, 1973), mas o ambiente da Ilha que se torna refúgio de uma estranha seita logo se mostra muito mais abominável do que qualquer sociedade de neo-pagãos. Os fanáticos em Apóstolo são muito mais perigosos, brutais e dispostos a tudo para controlar o destino de seu rebanho. Em uma espécie de microcosmo da Santa Inquisição, os líderes do Culto não admitem nenhum pensamento individual e estão dispostos a tudo para impor a sua vontade, inclusive perseguir, oprimir e torturar.

Apóstolo se passa na virada do século XX, em meados de 1905, e acompanha a jornada de um sujeito chamado Thomas Richardson (Dan Stevens, ator de Dowton Abbey) que aceita a missão de se infiltrar em uma ilha remota onde se estabeleceu um Culto. Richardson não é exatamente um bom sujeito: ele é a ovelha negra de uma família rica, consumidor contumaz de láudano e atormentado por pesadelos aterradores. A razão para ele aceitar a tarefa é simples, a tal seita sequestrou sua irmã Jennifer (Lucy Boynton) e exige um resgate. Qualquer tentativa de contatar as autoridades irá resultar na morte da garota e Thomas é a única esperança de verificar que ela está viva e se é possível salvá-la. Para isso ele terá de se disfarçar como um seguidor da religião, enganar os verdadeiros cultistas sem levantar suspeitas de suas intenções.


Mas é claro, a situação é muito mais séria do que ele poderia imaginar, afinal ele não está lidando com simples criminosos, mas com zelotes. O líder da comunidade é um auto-proclamado Profeta chamado Malcolm (Michael Sheen) que detém poder de vida e de morte sobre o seu séquito. O discurso maníaco dele já dá a entender que a crença professada na ilha está alinhada com uma postura "fogo e enxofre" ao invés de amor e paz. Além do mais, o objeto de adoração da Seita, é um mistério que Thomas sequer imagina. Algo que vai muito além de uma adaptação da fé cristã, e que parece enraizado em coisas mais obscuras, envolvendo sacrifício, sangue e obediência cega.

No início, o filme parece aderir ao roteiro esperado. É um mistério no qual o protagonista mergulha de cabeça, tentando descobrir o paradeiro de sua irmã e entender o que está acontecendo na comunidade. As escapadas noturnas para explorar os arredores e a comprovação de costumes cada vez mais excêntricos dos habitantes locais se traduzem em uma dúvida que acompanha o espectador até o final: será que o tal culto está envolvido com alguma entidade sobrenatural ou Malcolm não passa de um charlatão? Aos poucos essa dúvida vai sendo respondida, a medida que ficamos sabendo que o paraíso dos fanáticos está impregnado por algo muito ruim.

A investigação de Richardson acaba resultando em uma reação extrema dos fanáticos quando estes descobrem que há um invasor em seu meio e é aí que o filme dá uma guinada para um segundo ato brutal. O diretor não economiza na barbárie, apostando em cenas de tortura com direito a mutilações, crânios sendo arrebentados, colunas fraturadas e dedos dilacerados. A medida que a violência toma conta da tela, baldes de sangue escorrem em profusão e as lutas se tornam mais e mais desesperadas.

    
Há algumas tramas paralelas concentradas na filha do vigário que duvida da santidade do pai e em um romance proibido entre dois aldeões que acaba descambando em ainda mais loucura. Apesar de quase derrapar perigosamente na estética gore e a longa duração, o filme consegue se manter nos trilhos até o clímax em uma nova explosão de sangue, sangue e mais sangue. 

Visualmente o filme é notável, com uma paisagem de natureza exuberante fazendo o contraponto com toda miséria humana. As filmagens panorâmicas, com tomadas aéreas de lagos, florestas e do litoral chamam a atenção, assim como a reconstituição de época, obedecendo a uma estética barroca que remete aos filmes de horror góticos. Tudo parece em perfeito lugar e tecnicamente a produção é muito caprichada.


Em um primeiro momento o protagonista do filme poderia parecer deslocado na trama, afinal Dan Stevens se tornou conhecido como o perfeito cavalheiro educado e simpático de Dowton Abbey, que morre tragicamente na segunda temporada. Quando o vemos barbado, sujo e coberto de sangue, após ter enfrentado todo tipo de situação escabrosa, é difícil lembrar dele como o par ideal de um dama. Seus olhos azuis parecem constantemente assombrados por visões aterrorizantes e pela loucura da ilha que não demora a contaminá-lo. Michael Sheen também defende o papel do pastor fanático com eficiência, sendo teatral e exagerado na medida certa, enquanto recita seus discursos frenéticos.

Apóstolo é uma exploração de como a fé cega e a perversão das crenças podem conduzir à tragédias e desembocar em um rio de loucura e fatalidade. Com certeza ele deve dividir opiniões, mas para a platéia certa ele será um banquete memorável. 

O resultado é um filme contundente que assombra em muitos níveis.


Trailer:




sábado, 13 de outubro de 2018

Greg Stafford - A despedida do Grande Xamã dos Jogos (1948-2018)



Notícias tristes para a comunidade de RPG mundial, sobretudo para os fãs de Call of Cthulhu. 

A Chaosium anunciou o falecimento de Greg Stafford um dos fundadores da editora.

O anúncio segue abaixo:

Foi com choque e luto que a família Chaosium recebeu as notícias sobre o falecimento de nosso amado e querido co-fundador Greg Stafford. Uma perda que não pode ser mensurada. Greg morreu ontem (quinta feira 11 de outubro) em sua casa na cidade de Arcata, Califórnia. Sua morte, ao menos foi indolor e rápida. Ele parte como viveu, em uma busca constante por conhecimento.

Como um dos maiores designers de jogos de todos os tempos, vencedor de uma infinidade de premiações para serem contados, Greg foi também um amigo, mentor, guia e inspiração para jogadores, apelidado de "O Grande Xamã dos Jogos", ele influenciou o universo dos jogos de tabuleiro enormemente.

Greg foi um dos fundadores da Chaosium no ano de 1975, e desde o início (para citar suas palavra), "nunca se limitou a imitar, mas criar e publicar jogos originais em estilo, conteúdo e formato". Sob sua liderança, a companhia rapidamente se tornou conhecida pela sua originalidade e criatividade, e foi responsável por introduzir muitas inovações em nosso hobby que permanecem até os dias atuais.
Como disse John Wick (autor de 7th Sea, Legend of the Five Rings), "Quanto mais velho eu ficava, mais eu ouvia os jovens criadores de RPG dizer 'Isso nunca foi feito antes!’ E então, eu simplesmente apontava para algo que Greg Stafford havia feito décadas antes".

O trabalho de Greg com roleplaying games, board games, e ficção foi aclamado como um dos mais inovadores de todos os tempos. Não resta dúvida que sua mensagem foi ouvida por incontáveis pessoas, que foram inspiradas e entusiasmadas, por seus interesses e paixões - como Glorantha, Oaxaca, Rei Arthur, xamanismo, mitologia e muito mais.

Ele esteve presente na Premiação do Ennies Awards 2018 e discursou para o público presente em nome da Chaosium. Greg estava imensamente orgulhoso do que seu trabalho na Chaosium havia se transformado nos últimos tempos, particularmente depois de seu retorno ao conselho em 2015. Ele reconheceu que o sucesso na empresa de jogos se deve ao apoio e suporte dos fãs. Nós da Chaosium reconhecemos que incontáveis fãs de RPG, apenas o são por conta de Greg Stafford e de tudo que ele alcançou.

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Eu vi essa notícia com muita tristeza...

Um grande mestre e criador de universos se foi e deixando muitos fãs órfãos e com saudades que dificilmente poderão ser aplacadas.

Os fundadores da Chaosium em seus primórdios
Greg Stafford era um monstro sagrado, um daqueles caras que quando rolava os dados conseguia vários críticos.

Glorantha, GhostBusters, HeroQuest, Príncipe Valente e para mim o maior de todos trabalhos em que ele esteve à frente... King's Arthur Pendradon, são parte da essência do RPG. Ele produziu jogos incrivelmente importantes e que fizeram a alegria de incontáveis pessoas.

Se por um lado a tristeza de sua despedida é grande, por outro só podemos imaginar como será épica a mesa em que ele está se juntando no Valhala dos Grandes do RPG com Gary Gygax, Dave Arneson, John Dever, Keith Heber...

Essa mesa está começando a ficar boa.