sábado, 23 de maio de 2020

Carniçais de Cagayan Sulu - O registro de um violento levante de canibais


A Ilha de Mapun, historicamente conhecida como Cagayan Sulu, é um pequeno corpo de terra medindo pouco mais de 276 quilômetros quadrados, localizada entre a Malásia e as Filipinas no Mar de Sulu. Ela é a terra natal de um povo austronésio chamado Jama Mapun (ou Sama Kagayan, uma vez que ele são parte de grupo étnico maior que vive nas ilhas do Mar de Borneo). Nas primeiras décadas do século XX, esse povo se espalhou ao longo do Sudeste Asiático, o que lhes valeu o apelido de "Ciganos do Mar", uma vez que viajam constantemente sem se estabelecer em um local definitivo.

Os Jama Mapun eram uma gente bastante peculiar. Com baixa estatura, raramente atingindo mais de 1,60 de altura e uma constituição física que poderia ser descrita como franzina, eram entretanto, muito resistentes e perseverantes. Tinham pele bronzeada, com olhos e cabelos de um preto acentuado, estes últimos lisos e longos.

Possuíam seus próprios costumes e os carregavam consigo por onde fossem. Falavam entre si num idioma que lhes era próprio e que raramente compartilham com estranhos de fora do grupo. O dialeto soava gutural, com estalos e inflexões complicadas. Viviam da coleta de corais e ostras, mergulhando fundo nas trincheiras oceânicas, atingindo profundezas que fariam os pulmões de outros homens estourarem. Mas não eles! Ao retornar à superfície desses abismos, traziam consigo tesouros valiosos que ofereciam aos mercadores. Recebiam uma ninharia pelo arriscado trabalho, mas não se importavam. Eram um povo resoluto, que se contentava com pouco.

Ah sim... os Jama Mapun também eram conhecidos como carniçais.

As raízes desse macabro apelido e a razão para sua diáspora pelo sudeste asiático remontam ao século XIX quando uma guerra intra-tribal fraturou a sociedade de Cagayan Sulu. O povo residente que vivia nos povoados se dividiu quase que igualmente em duas facções que apoiavam os chefes Hadji Mahomet e Hadji Brahim. A exceção foi um único vilarejo no centro do território, que não se aliou a nenhum dos lados e preferiu se manter neutro. Nenhum dos dois lados se importou muito com a neutralidade daquelas pessoas, pois eles não eram bem vistos por nenhum dos rivais. As lendas diziam que aquela região onde ficava o povoado havia sido no passado o lar dos sobrenaturais Berbalangs, seres que caçavam os vivos e se alimentavam dos mortos. Aqueles que viviam naquela área, justamente os Jama Mapun, teriam sido contaminados pelo mal e eles próprios se transformavam em monstros.


Os Berbalang das lendas eram criaturas humanoides malignas, reconhecidas pelos olhos negros e fundos, pele cinza pálida e corpos muito magros, quase ao ponto de serem confundidos com cadáveres ambulantes. O aspecto mais terrível a respeito desses seres era que eles se alimentavam de cadáveres e através do consumo de carne humana eram capazes de assumir uma forma espiritual. Estes eram semelhantes a felinos selvagens capazes de flutuar no ar com o auxílio de pequenas asas. Como fantasmas imateriais e invisíveis, as criaturas conseguiam entrar nas casas sem serem percebidas para fazer novas vítimas impunemente. Na cultura filipina acredita-se que pessoas que morrem sem uma causa clara, podem ter sido mortas pelos Berbalang que devoram os espíritos deixando cadáveres sem ferimentos aparentes.

A lenda era (e ainda é) muito difundida e as pessoas temiam os Berbalang, cuja presença podia ser detectada pelo ruído de gemidos. Aqueles que ouviam o som e investigar a origem acabavam sendo emboscados e mortos. Segundo as tradições, essas criaturas só podiam ser destruídas com uma Espada Kriss (uma arma típica malaia) coberta com sumo de limão. Se a lâmina fosse enterrada no coração do monstro, ele imediatamente se desmanchava e desaparecia. O sumo do limão impedia que o espírito deixasse o corpo antes deste perecer e assim ele também era destruído.

Apesar de fantástica, boa parte dos habitantes de Cagayan Sulu acreditava em cada detalhe da lenda. E por que não deveriam? Seus pais e avós contavam essas histórias há gerações e também cresceram acreditando nelas. Com efeito, temiam visitar cemitérios depois do anoitecer, pois era onde os Berbalang supostamente se reuniam para escavar sepulturas recentes para devorar as entranhas dos mortos. Para se proteger mantinham os Kriss sempre prontos para serem usados ao menor sinal de aproximação das criaturas.

Um oficial da Marinha Britânica e naturalista Ethelbert Forbes, visitou Cagayan Sulu em 1896 e escreveu a respeito do folclore local, dedicando várias páginas ao Berbalang. Nas anotações feitas é possível obter as seguintes informações:

"O povo da Ilha compartilha da mesma origem étnica, mas costuma se dividir em tribos que por sua vez formam facções diretamente opostas umas às outras. Os clãs se combatem ao menos uma vez a cada geração em sangrentas escaramuças. Os nativos são extremamente supersticiosos, acreditando em lendas sobre seres espirituais, fantasmas e vampiros de toda sorte".


Segundo as anotações no diário, Forbes fica interessado em saber mais a respeito dos Jama Mapun de quem havia ouvido relatos. Ele então buscou um guia que pudesse levá-lo até a tribo, o que não é nada fácil visto que ninguém costuma visitar o lugar por temer os Berbalang. Finalmente, o filho do chefe Hadji Mohomet, Matali, se voluntaria para a tarefa de conduzi-lo através do território até o vilarejo. O britânico escreve em seu diário que o guia tomou a precaução de levar consigo uma espada kriss embebida em sumo de limão e o instrui a não aceitar comida oferecida pelos Jama Mapun, uma vez que esta pode ser envenenada ou ter procedência espúria (vir de uma fonte humana).

Ao chegar perto do povoado a coragem de Matali começou a diminuir. Ele entregou a Forbes sua espada e indicou a direção até o povoado dos Berbalang, uma vez que temia se aproximar além daquele ponto. O militar escreveu em seu diário:

"Recebi de Matali o Kriss e ele tentou me dissuadir de seguir adiante, mas quando afirmei que ficaria bem, ele se limitou a dizer que rezaria por mim. Matali me aguardaria naquele local, mas partiria antes do anoitecer por receio de ficar ali depois do pôr do sol. Ele salientou que de modo algum eu deveria passara  noite no vilarejo. Não demorou muito até eu avistar o assentamento que consistia de uma dúzia de pequenas casas semelhantes às demais na ilha. Com a exceção de uma cabra e de algumas galinhas não parecia haver ninguém para ver ou ser visto. Entrei em algumas casas, mas tudo permanecia quieto e deserto. Em uma habitação encontrei tudo em perfeita ordem, o fogão de barro ainda quente como se os ocupantes tivesse saído às pressas. Chamei por qualquer pessoa e mantive os braços erguidos em sinal de que não desejava fazer mal. Não obtive resposta! É provável que eles tenham detectado minha aproximação e se esconderam". 

"Segui então até o centro comunal do povoado onde encontrei uma espécie de altar feito de barro, argila, pedras e ossos. A estrutura era toda decorada com pedras coloridas, conchas e contas. Havia crânios humanos no topo e ossos pendurados em cordas. No chão, logo abaixo da estrutura encontrei brasas ainda quentes na qual descansava um grande pote fumegante. Me inclinei para ver o que era servido ali e num sobressalto de horror me afastei enojado. O que me causou asco não foram os ossos humanos que boiavam no caldo ou os pedaços de carne cozida lá dentro, mas a cumbuca de barro que havia sido colocada diante do pote. Estava claro que era uma espécie de convite para que eu o visitante desfrutasse daquela refeição".    

Um típico povoado no interior de Cayagan Sulu
Forbes conta que deixou o povoado imediatamente e se encontrou com Matali na clareira. Relatou que o povoado estava deserto e o que havia visto no caldeirão. O guia ficou pálido e implorou para que partissem imediatamente; os Berbalang não aceitariam aquela desfeita do que consideravam uma refeição de "boas vindas".

Enquanto Matali e Forbes se apressavam para se afastar do território, escutaram o som de gemidos. Matali disse que não deveriam prestar atenção ao som pois eram os Berbalang tentando atrair os dois para uma armadilha. Felizmente, o gemido foi diminuindo a medida que a dupla chegou a uma propriedade isolada nos limites do território. O lugar pertencia a um homem chamado Hassan que os recebeu na porta. Hassan ouviu a história e concordou em receber os dois viajantes em sua casa, assegurando a eles que estariam em segurança uma vez que os Berbalang temiam se aproximar do local. Não fazia nem um ano Hassan havia matado um deles e isso serviu para afugentá-los.

Durante a noite, os ocupantes mantiveram vigília e perceberam movimento, tendo ouvido os insistentes gemidos que Forbes descreveu como os lamentos de alguém gravemente ferido. Felizmente ninguém ousou se aproximar, sobretudo depois que o britânico disparou três vezes para o ar com seu Revólver Webley. Logo que amanheceu, os dois partiram após agradecer Hassan pela sua hospitalidade providencial. Ao chegar no vilarejo do pai de Matali a dupla foi congratulada por ter sobrevivido à sua perigosa aventura.

Uma semana mais tarde, Forbes recebeu a visita de um homem do vilarejo enviado pelo Chefe Hadgi Mahomet. Este pedia a presença do Oficial o mais rápido possível e Ethelberg atendeu ao chamamento tão logo possível. O Chefe contou que desde a aventura no território dos Berbalang as coisas haviam saído do controle. Estranhos foram vistos se esgueirando na mata, testemunhas ouviram o ruído dos gemidos rompendo o silêncio da madrugada e mais grave, ao menos três pessoas haviam desaparecido. Os Berbalang estavam cada noite mais próximos. Forbes concordou em se juntar a um grupo de guerreiros para explorar a área e forçar os invasores a retornar. Ele estava especialmente preocupado com Hassan, o homem que gentilmente os acolheu.

Um grupo de doze guerreiros partiu, acompanhado de Forbes e Matali, que conheciam o caminho até a casa de Hassan. O oficial registrou o que foi descoberto no seu diário:

"Meu objetivo era deixar com Hassan uma arma de fogo, para que ele pudesse se defender. Ao chegar na casa não encontramos nenhum sinal de vida. Chamamos várias vezes e como não houve resposta, decidimos então arrombar a porta e descobrir o que havia acontecido. Entrei na casa e fiz uma busca: encolhido em um canto, com as mãos ainda segurando o Kriss, tendo a face distorcida e olhos arregalados pelo horror, jazia meu amigo Hassan - morto. Os Berbalang haviam chegado primeiro e deixaram seu medonho cartão de visitas: devoraram parte das entranhas de Hassan, como era costume daquela tribo sanguinária".

Uma espada kriss de origem malaia

Logo após a descoberta, a mata explodiu com o som de gemidos e gritos de guerra. Os guerreiros se refugiaram na casa, no exato momento em que pedras arremessadas por fundas e lanças embebidas em veneno cortaram o ar. Os Jama Mapun avançaram contra a propriedade furiosamente.

Era uma visão terrível, segundo escreveu Forbes:

"Jamais havia visto homens lutar de tal maneira e de forma tão similar a feras. Eles não temiam as lanças e machados, nem mesmo os disparos que fiz pareciam diminuir seu ímpeto assassino. Eles se atiravam contra a habitação tentando invadir à todo custo. Os gritos e brados selvagens tomaram conta do ar. A luta foi feroz, mas conseguimos repelir a investida e evitar que eles entrassem na casa".

De volta ao Vilarejo do Chefe Hadji Mahomet, Forbes se comprometeu a ajudar, comunicando às autoridades coloniais sobre o levante da tribo canibal. Levou uma semana até que o escritório enviasse alguma ajuda. A essa altura os Berbalang haviam feito ao menos mais duas incursões que evidenciava que eles estavam cada vez mais próximos do povoado. No ataque mais ousado uma mulher e uma criança foram mortas e parcialmente devoradas. Era costume das autoridades britânicas em Cagayan Sulu não se envolver diretamente nas disputas tribais, mas Forbes convenceu o representante colonial a tomar uma providência, escrevendo uma carta eloquente sobre a situação: "Se faz necessário tomar uma providência imediata". Como resposta lhe enviaram uma caixa com oito rifles Henry-Martin, munição e dois fuzileiros. Estes e Forbes fariam as vezes de instrutores de tiro.

Com as armas e as estratégias de combate moderno, os guerreiros de Hadji Mahomet não tiveram dificuldades em expulsar os canibais de seu território. Dispostos a se livrar da tribo dos Berbalangs de uma vez por todas, organizaram um ataque contra o povoado.

O tenente Ethelberg Forbes descreveu o ataque:

"Os homens formaram uma linha dupla de quatro, com rifles posicionados. Um grupo de guerreiros atraiu os Jama Mapun para fora do povoado e quando estes os perseguiram se viram frente à frente com a linha de fogo. As primeiras saraivadas derrubaram vários guerreiros Berbalang que se viram imediatamente em dificuldades. Ainda assim, continuaram avançando por pouco não conseguindo alcançar a barragem de atiradores. Um grupo de bravos, armados com lanças, porretes e espadas kriss especialmente preparadas, deu cabo dos que tentavam avançar, mas logo eles começaram a fugir".


Após o ataque, a aldeia dos Jama Mapun foi incendiada. A vitória foi comemorada pelos homens de Hadji Mahomet e até mesmo seus inimigos declarados, sob a liderança de Hadji Brahmin aceitaram estabelecer uma trégua na sua acirrada disputa. O ataque fez vários prisioneiros, mas outros tantos da tribo Berbalang conseguiram escapar para o interior e se esconderam nas florestas densas de Cagayan Sulu. Ainda hostilizados pelas demais tribos, eles acabaram deixando a ilha, se espalhando gradativamente pelo estreito da Malásia, Filipinas, Vietnã e Sul da China.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Império do Japão conquistou as Filipinas, então sob controle dos Estados Unidos, estabelecendo bases na ilha que serviam de apoio para a conquista do Sudeste Asiático. Os japoneses tiveram de enfrentar uma ferrenha resistência por parte de guerrilheiros nacionalistas e movimentos rebeldes armados pelos Aliados. Um destes grupos era formado justamente por descendentes dos Jama Mapun que operavam nas regiões mais inóspitas das Filipinas. Os soldados japoneses tinham verdadeiro pavor de enfrentar esses guerrilheiros com fama de praticar canibalismo. Invasões comandadas pelos japoneses nessas selvas infestadas de jacarés resultaram em verdadeiros massacres com os poucos sobreviventes deixando a selva feridos, doentes ou delirando sobre estranhos homens que devoravam os mortos.

Após a Segunda Guerra, as tribos remanescentes foram relocadas pelas autoridades americanas que combateram duramente as práticas tribais, em especial o canibalismo. Ainda hoje os Jama Mapun podem ser encontrados ao longo de todo Sudeste Asiático.

O rumor sobre suas atividades canibalescas ainda os acompanha...

8 comentários:

  1. Que porcaria parece uma história super inventada

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    1. Provavelmente foi inventado, mas isso não torna a história menos fantástica e interessante.

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  2. Adoro essas postagens. Me enchem de ideias de aventuras ♡

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  3. Que show mano! Quando sai o teu livro com os melhores contos? Eu compraria na certa! 👏😁

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  4. Nas mãos de um bom roteirista,isto daria uma série de terror do caralho!

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