sexta-feira, 15 de maio de 2020

As Sinistras Salas Vermelhas - Lenda Urbana ou Realidade da Deep Web?


Nós vivemos em uma era de acesso às informações sem precedentes na história humana. A Internet nos levou a um ponto em que podemos comunicar e obter dados imediatos sobre qualquer coisa que quisermos saber, sem deixar o conforto de nossos lares. Embora isso seja visto como um enorme avanço, existe é claro, um lado negro. É impossível algo tão amplo e poderoso se ver livre da presença de indivíduos inescrupulosos, interessados em perverter as informações. De fato, a internet se tornou fonte de toda sorte de lendas obscuras e maliciosas, a fronteira final de narrativas estranhas e rumores perturbadores. E o local onde tais coisas ficam ancoradas, esperando serem descobertas, são as chamadas Salas Vermelhas.      

Para compreender a sinistra origem das Salas Vermelhas, é preciso entender o conceito daquilo que se convencionou chamar Deep Web (também conhecida como Dark Web ou Darknet). Esse é um reino na internet que existe abaixo da superfície do que os browsers de pesquisa e busca convencionais conseguem encontrar. Em termos comprativos, a internet seria um oceano no qual as informações acessíveis ficam mais próximo da superfície, enquanto que o material proibido, reside em abismos insondáveis. Nesses lugares escuros do abismo digital das informações encontram-se arquivos que carecem de senhas especiais para serem abertos, ferramentas adequadas para serem vistos e convites expressos para compartilhamento.

Seriam verdadeiros depositários de bizarrice e estranheza, além de servirem como antessalas para negociações escusas, barganhas sórdidas e contratos criminosos. O pior do pior, o mais repulsivo, o mais degradante e reprovável da Internet, e da raça humana, transita nesses canais ocultos, sem que a maioria das pessoas sequer suspeite.


Nesse lugar pode ser encontrado todo tipo de negociação ilícita: de tráfico de drogas a tráfico humano, prostituição, venda de órgãos e de armamento clandestino, pornografia infantil, atividades de espionagem, segredos industriais, confecção de explosivos caseiros e muito mais. Se a Internet é um oceano, a Deep Web é o seu abismo. E nessas latitudes negras habitam monstros da pior espécie.

Assim como as trincheiras marinhas possuem diferentes profundezas, a Deep Web possui áreas em que o acesso é quase impossível. Estes são os domínios de indivíduos depravados que falam abertamente de canibalismo, de assassinato e abuso sexual. É também o reduto dos que vendem informações sigilosas a quem pagar mais. Aqueles que desejam mergulhar nessa área obscura precisam recorrer a meios especiais e ferramentas avançadas, servidores conhecidos como Tor. Esses recursos de busca agem como redes de pesca agregando informações ocultas que não podem ser acessadas pelos servidores normais. Estima-se que nas profundezas da Deep Web exista 500 vezes mais websites do que aqueles que temos livre acesso. 

É nesse reino escuro que se encontram as Salas Vermelhas, lugares perigosos e perturbadores no qual não se deve ir impunemente. O termo aparentemente foi cunhado no filme de horror de 1983 Videodrome, no qual um canal de televisão fazia transmissões clandestinas de tortura em uma sala pintada de vermelho. Da ficção para a realidade, as Salas Vermelhas da Darknet oferecem muito mais do que um único canal para extravasar a perversão de indivíduos perturbados. Ela é toda uma rede de canais e salas onde não há limites ético ou morais. Tortura, estupro, assassinato, horror sem precedente apresentado em tempo real, 24 horas por dia, para uma platéia com apetites extremos e gosto pelo que há de mais inusitado. 

Por um valor de assinatura o interessado pode desfrutar dessa seleção inenarrável. E mais, não apenas ser um voyeur passivo dos acontecimentos, mas - mediante um pagamento adicional, participar ativamente do que está acontecendo, interagindo e instigando os eventos. Essa participação toma a forma de comandos que são transmitidos em tempo real. Acredita-se que snuff films (produções ultra violentas que incluem morte) sejam transmitidos ao vivo para assinantes em todo mundo. Os interessados pagam em moeda virtual (Bitcoin) para promover a realização dessas sessões de tortura que assistem do conforto de suas casas.


Para aqueles que almejam prazeres e emoções ainda mais extremas, há boatos de agências capazes de reservar a participação de interessados nesses filmes. Mediante um pagamento previamente acertado, os agenciadores estão dispostos a cumprir sua parte, proporcionando as condições ideais para que indivíduos tomem parte nas produções. Esses eventos seguem a chocante fórmula do que é visto nos filmes da série "O Albergue". Nele, os interessados celebram um contrato no qual viajam para uma localização secreta onde tem à sua disposição um verdadeiro "parque de diversões" de perversões, com as ferramentas, local e vítimas já pré-selecionadas.
   
Tudo isso parece extremamente sinistro, ameaçador e talvez alarmante. Por isso, há muito debate se todos esses rumores não seriam exagerados e quem sabe, apenas lendas urbanas. Para muitos, as Salas Vermelhas não passam de uma estranha história da Internet, mera ficção alimentada por disse me disse e descrições fictícias. Entretanto, a quantidade de histórias afirmando que as Salas Vermelhas não apenas existem, mas que continuam surgindo em alarmante velocidade é assombrosa.

Uma história terrível sobre Salas Vermelhas envolve um indivíduo sórdido chamado Peter Scully, que atualmente se encontra preso nas Filipinas. Scully responde por inúmeras acusações de pornografia infantil, estupro e assassinato naquele país e decidiu cooperar com as autoridades entregando várias informações desde então. A história teria ocorrido em 2011, quando o sujeito residindo então na Ilha de Mindanao, coordenava uma imensa rede internacional de pedofilia. Segundo a polícia Scully usava um endereço na Deep Web para reunir seus clientes degenerados permitindo que eles compartilhassem material criminoso e dividissem informações. A Sala Vermelha também funcionava para negociações, troca de vítimas e até leilões virtuais de menores. Os associados pagavam uma mensalidade para ter acesso a esse conteúdo de revirar o estômago. Quando Scully foi preso em 2015, a polícia investigou seus passos até uma menina chamada Rosie que havia desaparecido. Informações anônimas levaram a confirmação de que a criança havia aparecido em vídeos na Sala Vermelha mantida pelo criminoso. Eventualmente as autoridades filipinas conseguiram provar o envolvimento de Scully na morte de Rosie e ele acabou levando os detetives até o lugar onde ela havia sido enterrada. A Red Room no entanto, foi desligada e os arquivos com o nome dos envolvidos, se perderam nas profundezas da Darkweb.

Outro exemplo medonho de atividade criminosa na Deep Web envolvia um grupo conhecido como "O Círculo". Segundo rumores, os membros dele eram pessoas de várias partes do mundo que mensalmente pagavam para receber transmissões ao vivo de sessões de tortura. Em 2017, o grupo teria ganho projeção com o boato de que haviam capturado cinco guerrilheiros do ISIS. A proposta era oferecer a interessados a oportunidade de não apenas assistir como participar de uma sessão de tortura virtual na qual poderiam indicar o que seria feito com cada um. A Interpol se envolveu na investigação desse rumor, mas no fim das contas jamais foram encontradas provas de que tal coisa realmente aconteceu.   


Certamente, não parece estar além dos reinos da possibilidade que vídeos contendo assassinatos e suicídios filmados ao vivo sejam postados na internet. A possibilidade é perfeitamente plausível ainda mais se verificarmos que existe um número considerável de pessoas interessadas nesse tipo de material. Ainda assim, alguns especialistas afirmam que a Dark Web e os sistemas Tor são demasiadamente lentos e instáveis para transmissões ao vivo de vídeos. Apesar do cerco de agências policiais no mundo inteiro e forças tarefas que investigam atividades criminosas na Darkweb, raramente surgem evidências dessas operações. De fato, o número de filmagens capturadas e apresentadas como prova em processos legais é praticamente nula.

Para outros, no entanto, Red Rooms existem e estão em operação nesse exato momento. Elas não apenas possuem os requisitos técnicos para operar e congregar pessoas com segurança, como possuem medidas que eliminam o conteúdo em caso de invasão. Para alguns técnicos esse é justamente o problema! As Red Rooms possuem contra-medidas que deletam arquivos inteiros de forma que não reste nada de sua existência tão logo alguém tente copiar os arquivos sem autorização. 

O conceito das Salas Vermelhas, pode também estar relacionado a uma lenda urbana bastante popular no Japão no início dos anos 1990. Ele envolve um anúncio pop up que surgia na tela quando uma pessoa visitava a Deep Web. O anúncio perguntava diretamente: "Você quer conhecer uma Red Room"? com uma estranha voz sintetizada de criança. Se a pessoa clicava no pop up, acessava uma página com conteúdo macabro no qual surgiam vídeos extremos de tortura, desmembramento e depravação. No final do vídeo que durava cerca de 20 minutos, surgia uma lista de nomes de pessoas que supostamente haviam acessado a página e assistido o material. O rumor afirmava que assistir ao vídeo era um convite à loucura, morte e todo tipo de influência negativa. Alguns até sugerem que o vídeo havia sido gravado no próprio inferno e que ele mostrava uma sessão de tortura nos recessos do submundo.  

Há várias versões para essa lenda urbana. Na mais comum, a pessoa que assistia ao vídeo acabava cometendo suicídio por força das imagens traumatizantes. Mas em outra versão as pessoas se tornavam viciadas naquelas cenas medonhas e não conseguiam esquecê-las. A compulsão de ver aquilo novamente acabava levando ao desejo de participar e realizar algo semelhante o que dava vazão a crimes hediondos. Numa terceira versão, os nomes que apareciam no final do vídeo pertenciam a pessoas que acabavam desaparecendo, supostamente, pessoas cuja imagem apareciam em versões do vídeo. É claro, essa história é considerada pela maioria como uma simples lenda urbana que teria sido responsável por popularizar as histórias sobre as Salas Vermelhas da Deep Web.


Embora exista a chance dessas histórias não passarem de invenção, não há como negar que existem muitos sites que informam e concedem instruções de como acessar a Deep Web. Não cabe a esse artigo listas páginas que promovem tal coisa, mas aparentemente não e difícil encontrá-los, embora entrar na Deep Web não seja algo simples para quem não dispõem do know-how ou do equipamento necessário.

No fim das contas, ficamos na incerteza a respeito de até que ponto as Salas Vermelhas são reais. Existem realmente círculos fechados de sádicos e pervertidos operando nos recessos da internet. Há de fato monstros coordenando a troca de informações entre indivíduos sórdidos? Ou tudo isso não passa de boatos que jamais foram corroborados? Seria possível que todas as provas simplesmente evaporassem sem deixar vestígio? Nós podemos apenas torcer para que sejam apenas histórias infundadas, mas as narrativas continuam aparecendo e pelo visto as lendas da Dark Web continuarão sendo material de pesadelo por um bom tempo.

Um comentário:

  1. Depois que vi muita coisa sobre o Pizzagate, não duvido de mais nada.

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