quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Lugares Malditos e Malignos na Austrália: A Montanha Negra


Um tema recorrente que abordamos em diversos artigos aqui no Mundo Tentacular é a questão de se um lugar pode ou não ser puramente maligno. Será que existem forças malévolas que permeiam um local a ponto de torná-lo amaldiçoado? Muitos lugares no mundo abrigam tais sítios, e aqui vamos analisar uma seleção desses locais sinistros localizados na Austrália.

Um dos lugares amaldiçoados mais conhecidos da Austrália é a lendária Montanha Negra (Black Mountain). Erguendo-se imponente no trecho mais selvagem de Queensland, na Austrália central, ela é uma visão assustadora que contrasta fortemente com a vegetação rasteira de eucaliptos ao seu redor, sendo um amontoado rochoso colossal e enegrecido que parece menos uma formação natural do que uma muralha erguida por mãos gigantes. 

Há muito associada a fenômenos bizarros e inexplicáveis, e envolta em folclore sombrio, a Montanha Negra é um lugar estranho, há muito evitado e temido pelos povos aborígenes. A região se torna ainda mais sinistra devido aos frequentes relatos sobre criaturas estranhas, luzes inexplicáveis ​​e inúmeras pessoas que vieram para cá e nunca mais voltaram. Um verdadeiro repositório de lendas e fenômenos estranhos, este não é o tipo do lugar que você gostaria de visitar.

A Montanha Negra está localizada no Parque Nacional da Montanha Negra, em Queensland, a cerca de 25 km ao sul de Cooktown. A natureza peculiar do monte certamente contribui para a origem de histórias e mitos sombrios. De longe, a Montanha Negra parece um sólido monólito negro que se ergue sobre a floresta primitiva ao redor, mas, em uma inspeção mais detalhada, percebe-se que é composta por gigantescos blocos de granito, muitos dos quais medindo até seis metros de comprimento. Ela se eleva num platô a 275 metros acima da paisagem circundante. Essas rochas foram formadas a partir da solidificação do magma há cerca de 250 milhões de anos, não apresentam qualquer vestígio de solo superficial e possuem uma coloração negra distinta, causada por uma fina camada de óxidos de ferro e manganês, além de uma película de algas verde-azuladas que cobre as superfícies expostas.

Essa coloração escura confere às rochas uma aparência sinistra e ameaçadora, como se tivessem sido queimadas pelas chamas do próprio inferno. As rochas estão amontoadas umas sobre as outras, formando labirintos de passagens que penetram na montanha, expelindo rajadas de ar quente acumulado pelo calor do dia. Esse calor confere às estruturas propriedades peculiares. As rochas aquecem-se ao sol e, quando a chuva fria cai sobre elas, fraturam-se e desintegram-se lentamente ao longo do tempo, ocasionalmente de forma violenta e explosiva, o que apenas contribui para a atmosfera sinistra e intimidante que permeia o local. Explosões são relatadas desde o início da presença humana na região, tanto que os aborígenes nômades que passavam pela área se referiam ao local como "Montanhas Trovejantes". Além disso, o ar quente que se move pelas passagens subterrâneas e abismos cria sons estranhos que foram descritos como gemidos, gritos, choros, lamentos e assobios profundos. Um odor fétido e sulfuroso também emana, de tempos em tempos, de algum lugar muito abaixo da superfície.


Com uma aparência e comportamento tão arrepiantes, talvez não seja surpresa que a Montanha Negra tenha uma longa história de lendas e mitos assustadores. O povo Kuku Nyungkal da região há muito tempo evita a montanha, chamando-a de Kallkajaka, que significa "o lugar da lança" e às vezes é traduzido simplesmente como "A Montanha da Morte". Contos aborígenes falam da montanha como um lugar assombrado, lar de vários espíritos malignos e demônios que espreitam em seu interior, os quais, dizem, anseiam por almas humanas, entre os quais o espírito de um curandeiro perverso chamado Devorador de Carne.

Essa lenda, especialmente aterrorizante relata como um xamã aceitou barganhar com os seres malignos que habitam o interior da montanha. Em troca de poderes sobrenaturais ele aceitou se tornar uma espécie de Guardião de Kallkajaka, barrando a exploração do lugar por outras pessoas. O Devorador de Carne seria mais um espírito do que um ser vivo, embora ainda se agarrasse a seu corpo mortal. Ele se assemelha a um gigante esquelético, com a pele esticada se agarrando aos ossos e uma face selvagem. O Devorador vaga pelas montanhas, invisível, agarrando os invasores e arrastando-os para o interior de seu covil. A lenda se assemelha ao mito dos Mimi, seres aterradores do folclore aborígene - criaturas que habitam o Alcheringa, o mundo dos sonhos e que caçam nas regiões isoladas do mundo desperto.  

Histórias contam que toda sorte de fantasma é frequentemente visto ali. As lendas mencionam um massacre brutal de aborígenes ocorrido pelas mãos dos primeiros colonizadores europeus. A tragédia supostamente ocorreu em uma ravina próxima chamada "Ponta do Salto". Os nativos acusados de ter atacado uma família de colonos foram levados até a beirada da ravina para serem interrogados. Quando um deles foi enforcado e pendurado no vazio, os demais se desesperaram e saltaram do alto, conferindo ao lugar seu nome. Mais de uma dezena de homens se atiraram na garganta de cinquenta metros. Mais tarde descobriu-se que eles eram inocentes e que os verdadeiros culpados eram guias inescrupulosos que mataram seus contratantes. Os fantasmas desses nativos ainda habitam o local, clamando por vingança segundo as lendas.

Embora várias outras rochas e cavernas nas proximidades possuam significado religioso e sejam consideradas sagradas pelos aborígenes, até hoje eles se recusam a se aproximar de Kallkajaka. O lugar é tabu para as tribos que evitam caçar nesse território maldito.


De fato, até os tempos modernos, a Montanha Negra tem sido o epicentro de uma grande variedade de fenômenos estranhos. Diz-se que os animais se assustam com a montanha e que ela exala alguma força maligna que, segundo relatos, interfere nos equipamentos de navegação de aviões que sobrevoam a região. Os aviões geralmente evitam voar perto da montanha devido a essas anomalias inexplicáveis, bem como à estranha turbulência atmosférica que ocorre nas proximidades. Um levantamento aéreo realizado em 1991 pelo Departamento de Recursos Minerais para testar distúrbios magnéticos e níveis de radiação na montanha não encontrou nada de incomum, mas os relatos desses fenômenos por pilotos persistem. Talvez não seja tão surpreendente que a Montanha Negra também seja palco de uma quantidade considerável de atividade OVNI e relatos de luzes estranhas.

Diz-se também que a Montanha Negra possui câmaras subterrâneas cavernosas que supostamente abrigam de tudo, desde bases alienígenas a civilizações perdidas, tumbas antigas e tesouros inestimáveis. Alguns dos tesouros que se acredita estarem nas profundezas das inúmeras cavernas são depósitos perdidos de ouro, artefatos históricos e textos antigos. Uma das coisas mais estranhas que se diz existir sob a montanha é uma base alienígena secreta de onde emergem OVNIs e que é habitada por uma raça de humanoides alienígenas reptilianos que mantêm humanos como escravos. Os que acreditam nessa ideia mirabolante explicam ainda que a disposição das rochas é obviamente artificial e que toda a montanha foi construída pelos próprios alienígenas. Outros especulam que as rochas foram colocadas por alguma civilização antiga perdida há milênios, e que essa sociedade prosperou nas profundezas da montanha em um enorme domínio oco. Alguns acreditam que tal civilização ainda exista lá.

Outras histórias bizarras giram em torno das estranhas criaturas que supostamente habitam a montanha. Embora a área seja de fato lar de muitas espécies únicas, existem relatos de criaturas que espreitam ali, muito mais estranhas do que se pode imaginar. Diz-se que, dentro do labirinto rochoso de rochas entrelaçadas, vivem enormes pítons que não hesitam em atacar seres humanos. Há também um predador enigmático, grande e felino, conhecido como Tigre de Queensland, que supostamente ronda a área e já foi responsabilizado por ataques e mutilações de gado ocorridos nos arredores. Relatos ocasionais de grandes humanoides reptilianos emergindo de túneis e fendas subterrâneas também surgiram na montanha. Além disso, existem inúmeras histórias de formas sombrias e fugazes que rondam a montanha, mas não está claro se representam algum tipo de animal real, um fenômeno sobrenatural ou apenas um truque de luz e sombra nas rochas negras.


Talvez o fenômeno mais conhecido e, de fato, mais assustador relacionado à Montanha Negra seja a infinidade de desaparecimentos misteriosos que ocorreram ali e que seguem acontecendo mesmo nos dias atuais. Há inúmeras histórias de cavalos e até mesmo rebanhos inteiros de gado que desapareceram, como se engolidos pela própria montanha. Contudo, ainda mais ameaçadoras são as histórias das muitas pessoas que supostamente vieram para cá e desapareceram sem deixar vestígios.

Embora os aborígenes tenham histórias de desaparecimentos de seu povo na montanha desde muito antes da chegada dos europeus, o primeiro relato moderno de um desaparecimento inexplicável data de 1877, quando um mensageiro chamado John Grayner saiu a cavalo em busca de um bezerro perdido, mas o homem, o cavalo e o bezerro nunca mais voltaram. Buscas extensivas pela montanha não encontraram nenhum vestígio dos animais ou do mensageiro, e presumiu-se que eles tivessem caído em um dos muitos desfiladeiros irregulares entre as rochas.

Alguns anos depois, um criminoso notório e ladrão de bancos conhecido como Sugarfoot Jack e alguns de seus cúmplices fugiram para a Montanha Negra após um tiroteio. A ideia dos criminosos era usar o ambiente inóspito ao seu favor e se esconder ali até baixar a poeira. Ocorre que o bando nunca mais foi visto e, apesar da busca policial exaustiva que se seguiu, não se encontrou qualquer evidência que indicasse para onde tinham ido. Simplesmente desapareceram.


Os desaparecimentos só aumentaram em número e estranheza ao longo dos anos. Uma das histórias mais conhecidas teria ocorrido 13 anos após o desaparecimento de Sugarfoot Jack. O policial James Ryan, que estava lotado na cidade vizinha de Cooktown, perseguiu um fugitivo até as Black Mountains junto com outros rastreadores, mas a trilha terminou abruptamente na entrada de uma das cavernas como se o criminoso tivesse simplesmente desaparecido da face da Terra. Ryan entrou na caverna para ver se o fugitivo poderia estar escondido lá dentro, mas, segundo os presentes, ele nunca mais saiu, e ninguém mais se arriscou a entrar atrás dele. Nem o criminoso nem o policial Ryan foram vistos novamente.

Em outro caso, um morador local chamado Harry Owens estava procurando gado perdido e, como não retornou, seu parceiro, George Hawkins, informou a polícia e saiu à sua procura. Quando Hawkins também não retornou, a polícia iniciou uma busca na montanha pelos dois homens desaparecidos. Segundo o relato, dois policiais se aventuraram em uma das cavernas e apenas um deles emergiu. Quando o policial solitário saiu da escuridão, ele estava, segundo relatos, completamente desorientado e tão aterrorizado com o que quer que tivesse visto que não conseguiu dar um relato coerente do ocorrido. Na década de 1920, dois espeleólogos profissionais que viajaram até a montanha para tentar solucionar o enigma desses desaparecimentos também desapareceram, assim como alguns rastreadores que foram procurá-los. Mais recentemente, em 1932, um mochileiro chamado Harry Page desapareceu enquanto fazia uma trilha na Montanha Negra e foi encontrado morto posteriormente por causas desconhecidas. A lista continua.

Em todos os casos, exceto no caso do corpo de Page, nenhuma evidência foi encontrada que indicasse o que havia acontecido com essas pessoas, e extensas investigações policiais nunca conseguiram chegar a uma conclusão sobre as causas de seus desaparecimentos. É como se a própria montanha os tivesse devorado, o que não está longe da teoria oficial sobre os desaparecimentos. Acredita-se que essas pessoas provavelmente caíram nas inúmeras cavernas, fendas e abismos da montanha ou se perderam irremediavelmente ao tentar se aventurar nas passagens impenetráveis ​​e escuras. Se foi isso que aconteceu, permanece um mistério. 

Além disso, pouquíssimas pessoas se aventuraram pelas cavernas da montanha e voltaram para contar a história. Um explorador experiente chamado Nigel Guthridge penetrou na montanha armado com uma pistola e uma lanterna em 1933. Ele conseguiu sobreviver e ressurgiu com um relato angustiante de sua experiência dentro de uma caverna:

“Entrei na abertura, que, como outras cavernas da Montanha Negra, descia abruptamente, estreitando-se à medida que avançava. De repente, me vi diante de uma sólida parede de rocha, mas à direita havia uma passagem estreita o suficiente para eu entrar, curvado. Avancei cuidadosamente por alguns metros. O chão era relativamente plano, as paredes de granito muito liso. A passagem serpenteava para um lado e para o outro, sempre mergulhando mais fundo na terra. Logo comecei a me sentir inquieto. Um enorme morcego bateu as asas contra mim ao passar, mas me forcei a continuar, a avançar.

Em pouco tempo, minhas narinas se encheram de um odor nauseabundo e mofado. Então, minha lanterna se apagou. Estava na escuridão total. De algum lugar, que parecia ser o interior da terra, eu podia ouvir um gemido fraco, seguido pelo bater de asas de milhares de morcegos. Comecei a entrar em pânico enquanto tateava e me debatia de volta pelo caminho que pensava ter vindo. Meus braços e pernas sangravam por causa dos golpes em rochas invisíveis. Meus braços estendidos. Com as mãos, agarrava o vazio, esperando encontrar paredes e piso sólido, mas não os encontrava. Em certo momento, ao me perder em uma passagem lateral, cheguei à beira do que, sem dúvida, era um precipício — a julgar pelos ecos. O ar estava fétido e eu sentia uma tontura crescente.

Pensamentos aterrorizantes sobre pítons-de-pedra que eu vira ao redor desta montanha me invadiam a mente. Enquanto rastejava, cada vez mais fraco e perdendo a esperança de sair vivo, vi um pequeno raio de luz. Ele me deu força para me espremer até a entrada de uma pequena caverna a cerca de oitocentos metros daquela em que eu havia entrado. Ao alcançar o ar livre, respirei fundo e caí exausto. Mais tarde, descobri que havia ficado no subsolo por cinco horas, a maior parte do tempo de quatro. Nada nesse mundo me faria entrar naquelas cavernas novamente. Elas são o próprio inferno!"


Essa narrativa é um um vislumbre bastante intimidador do que pode acontecer àqueles que ousam se aventurar nas cavernas fétidas e sibilantes da Montanha Negra, e talvez uma pista sobre as últimas coisas que aqueles que desapareceram ali encontraram. Certamente deveria ser o suficiente para dissuadir a maioria de tentar desvendar seus segredos.

Será que essas almas infelizes simplesmente se perderam e morreram sozinhas nas profundezas escuras das cavernas da montanha? Ou haveria algo mais sinistro em jogo? Fendas perigosas, demônios, fantasmas vingativos, cobras gigantes, OVNIs, alienígenas, senhores escravizadores reptilianos, felinos predadores desconhecidos; a lista de supostos culpados é vasta. Poucos estão dispostos a investigar mais a fundo, e muitos daqueles que tentaram descreveram sentir-se irremediavelmente confusos, perdidos e assolados por uma sensação sufocante de pavor e pânico intangíveis ao explorar o local. As cavernas são descritas como complexas e altamente imprevisíveis, repletas de quedas repentinas e traiçoeiras, abismos profundos, rochas e pedregulhos que se movem, caem ou até explodem, terreno instável e paredes irregulares e afiadas.

O calor brutal que permeia os confins das passagens também é um inimigo mortal. Com temperaturas que podem atingir facilmente os 55 graus, a desidratação e a extrema claridade são um perigo constante para os exploradores. O odor fétido intermitente também constitui uma ameaça sempre presente, já que intoxicação pelos gases das profundezas pode ser uma das causas da desorientação que muitos mencionam na região. Já os lamentos e gemidos que emanam da escuridão fizeram com que exploradores se perdessem, perseguindo sons fantasmagóricos que os atraíam até a própria perdição. E isso sem falar dos imensos morcegos que voam por toda parte apenas intensificando a sensação aterrorizante inerente a este lugar.

Muitos exploradores de cavernas descreveram a exploração das cavernas da Montanha Negra como uma experiência singularmente desagradável que ninguém deseja repetir. A maioria dos turistas que visitam o Parque Nacional da Montanha Negra se contenta em observar a montanha sinistra a uma distância segura. Os guardas florestais locais desencorajam aos visitantes se aproximar do lugar, mesmo aqueles que alegam ter experiência com a vida natural. A estes dizem de forma resoluta: "A Montanha Negra não é algo natural, ela foge à normalidade".

Independentemente de se acreditar em qualquer lenda ou história assustadora que envolva a Montanha Negra, este é com certeza um lugar hostil que instila uma certa sensação de inquietação e pavor em quem o vê. Há uma sensação de que este imponente amontoado de pedras no meio dos sertões selvagens da Austrália seja um lugar evitado pelo resto do mundo natural. Um lugar enigmático de maravilha natural, mistério e medo intangível, a Montanha Negra de Queensland continua a erguer-se majestosa sobre o terreno, talvez apenas um amontoado de pedras inofensivo, talvez convidando mais almas a se juntarem aos seus mistérios insondáveis.

Mas esse é apenas um dos lugares aterrorizantes da Austrália, breve exploraremos outros... fiquem conosco para a continuação.

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