quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Mais Lugares Malditos e Malignos na Austrália: O Rio de Sangue

 

Dando continuidade a nossa série sobre lugares assustadores da Austrália.

Outro lugar supostamente amaldiçoado na Austrália é um rio discreto que à princípio não parece nada de mais. 

Serpenteando por 708 km através dos distritos de Northern Tablelands e North West Slopes, na Nova Gales do Sul, encontra-se o Rio Namoi, que passa pelas cidades de Gunnedah, Boggabri, Narrabri, Wee Waa e Walgett ao longo de seu curso. Nos mapas ele parece apenas uma linha azulada cruzando um grande trecho castanho, mas na prática trata-se de um dos maiores rios da região, responsável por irrigar toda Nova Gales. 

Embora a maior parte do percurso do rio seja marcada por paisagens pitorescas, essa fachada cênica esconde uma série de casos de estranheza única e com um inegável toque maligno. Foi aqui que no ano de 1908, às margens do rio Namoi, perto de Wee Waa, que um crime aterrorizante teve lugar. Dois amigos, Harry Johnson e Stanley Williams, decidiram acampar para passar a noite em um local pitoresco, conhecido como um dos mais bonitos ao longo do rio. O banco era bastante popular entre os campistas da época. 

Mas aquela excursão estava fadada a se tornar memorável pelo horror já que apenas um dos homens retornaria com vida. Depois de ter sumido por quase uma semana, Stanley Williams foi encontrado vagando pela margem do rio à cerca de 25 quilômetros de onde sua barraca havia sido descoberta. O sujeito parecia incoerente, subnutrido e não falava coisa com coisa. Além disso haviam manchas de sangue em sua roupa, ainda que ele não tivesse ferimentos, o que levantava suspeitas do que poderia ter acontecido com seu colega ainda desaparecido. 

Após uma busca massiva pelo paradeiro de Harry Johnson, um corpo foi retirado do fundo do rio, onde havia sido ancorado intencionalmente. Williams foi detido sob suspeita de assassinar seu amigo naquele local isolado. Ele próprio alegava não conseguir se recordar do que havia acontecido. O julgamento subsequente revelaria a brutalidade do crime em que o crânio da vítima foi completamente esmagado por golpes sucessivos. Em depoimento publicado no The Sydney Morning Herald de 11 de janeiro de 1909, o legista do condado, Dr. Harold Willis, dizia:

O corpo de Harry Johnson ficou exposto aos elementos por provavelmente quatro ou cinco dias, e portanto se encontrava em avançado estado de decomposição. Ao que tudo indica em dado momento um animal - provavelmente um jacaré de água salgada, deve tê-lo arrastado para o fundo do rio onde o devorou parcialmente. Quanto a causa da morte, é de minha opinião ter havido crime. O Sargento Sheridan (responsável pelo inquérito) recuperou um martelo no acampamento e minha avaliação é que ele pode ter sido usado para produzir os ferimentos no crânio da vítima.


Williams negou veementemente qualquer envolvimento na morte, mesmo diante dessas acusações condenatórias e do fato de ter sido a última a ver Johnson com vida. No entanto, nenhum motivo claro pôde ser apurado e o máximo que as autoridades conseguiram foi acusá-lo de homicídio culposo, pelo qual foi condenado a 10 anos de prisão. Com Williams condenado parecia que todo o trágico caso havia chegado ao fim, mas foi aí que as coisas estranhas começaram, e ficou evidente que algum tipo de força desconhecida continuava assombrando o rio.

Cerca de um ano após o julgamento, Charles Davies, um correspondente do Border Morning Mail decidiu investigar por conta própria o misterioso caso e tentar determinar o que havia acontecido. Ele não estava convencido de que Williams era o responsável pelo assassinato e este, dizia ter lampejos da noite em questão, visões perturbadoras de alguém (ou alguma coisa) atacando o acampamento e matando seu amigo. Seja coo for, a condenação dividia a opinião pública e muitos acreditavam na inocência de Williams.

Em suas andanças pelo trecho ribeirinho, Davies conheceu um sujeito chamado Thomas Underwood que morava perto do local do assassinato. O Sr. Underwood tinha vários relatos de acontecimentos estranhos ocorridos nas imediações - segundo ele, aquele trecho em especial era maldito. 

Seu relato peculiar envolvia o que os aborígenes consideravam como um espírito assassino. Essa presença nefasta, uma força de origem primal, estava de alguma forma presa a aquela área e segundo as lendas costumava tomar o corpo de pessoas para cometer atos de violência indescritível. Underwood contou que era cético à respeito dessas superstições, ao menos até ele próprio experimentar um acontecimento inexplicável naquele local. Alguns meses antes do assassinato, Underwood havia acampado naquele mesmo trecho acompanhado de seus dois filhos. No meio da madrugada ele contou que um dos rapazes de 21 anos, havia despertado gritando e que precisou ser contido pois parecia tomado por um tipo de loucura repentina. O rapaz tentava atacar e ferir o pai e o irmão mais novo, tentou apanhar uma arma e quando os outros dois conseguiram dominá-lo , tentava morder como um animal selvagem. Ele jamais havia manifestado aquele tipo de comportamento que perdurou até o amanhecer. Depois disso ele alegava não ter memória alguma do ocorrido e negava ser capaz de tal coisa. Entretanto Underwood afirmou categoricamente que, se não tivessem contido o rapaz, este teria matado o pai e o irmão num frenesi assassino.


Underwood disse que conversou com Aborígenes que habitavam os arredores e que eles contaram sobre o espírito que vagava pelas margens do rio. Era um espírito sanguinolento, a névoa vermelha, uma entidade que dominava pessoas e as forçava a matar com uma selvageria inacreditável. Os nativos relataram que em sua tradição oral, haviam vários casos semelhantes e que por conta disso evitavam dormir ao longo do Rio Namoi.

Embora estivesse impressionado com a história, o correspondente não estava exatamente convencido e por isso decidiu ir até lá e visitar o local. Ele foi acompanhado do Sr. Underwood e dois capatazes. Ao chegar ao banco onde o crime havia acontecido ele ficou chocado com a aura que parecia sufocar o local, uma sensação desagradável partilhada pelos demais. Davies escreveu mais tarde:

"Era como estar em um lugar maligno. Não tenho como colocar em palavras.... era simplesmente um lugar ruim que nos afetava física e mentalmente. Sentia arrepios, as mãos ficavam suadas e a boca seca. Era como se alguma coisa estivesse ali conosco: algo invisível e predatório. Podíamos sentir essa presença nos observando! Eu não passaria uma noite naquele lugar por dinheiro algum no mundo".

Enquanto faziam uma exploração do banco, o grupo percebeu que os cães que os acompanhavam estavam apavorados. Os animais se negavam a chegar perto do local do assassinato e em dado momento começaram a latir e rosnar, isso antes de fugirem em disparada como se tivessem sentido uma presença que seus sentidos aguçados revelava. Seja lá o que fosse, o grupo resolveu deixar o banco e voltar para a fazenda.

Posteriormente Davies coletou várias lendas locais e outras narrativas se referindo ao Rio Noroi. Sua investigação revelou ao menos uma dúzia de estranhos relatos de moradores das cercanias e de pessoas que estavam de passagem e que sentiram aquela mesma presença ameaçadora permeando o recanto convidativo marcado pelo homicídio. Ao saber das histórias Williams, que estava cumprindo pena na prisão, se recordou dele e do amigo terem sentido a mesma coisa que Davies descreveu ao visitar o banco. Seus sonhos febris também se tornaram mais e mais claros, pesadelos sanguinários em que ele sentia uma presença maligna que o forçava a matar. Williams cumpriu 5 dos 10 anos a que foi condenado e acabou sendo liberado após um clamor público que exigia sua liberdade. No pedido oficial entregue às autoridades foram incluídos os relatos obtidos por Davies que serviram para convencer um juiz a reconhecer que "possivelmente os atos cometidos por Williams foram executados além de sua vontade". 


Em 1918, Charles Davies publicou um livro intitulado "A Tragédia do Rio Namoi: Fatos Estranhos e Aterrorizantes" no qual fazia um apanhado dos acontecimentos que havia investigado. O livro incluía casos de ataques de pânico ou "paroxismos de terror", estranha atividade fantasmagóricas, vozes descarnadas sussurrando ameaças, alucinações extremamente poderosas, tanto visuais quanto auditivas, e, claro, um profundo pavor que permeava a área. Ele chegou a encontrar a história de um explorador que em 1880 havia sido enviado para um asilo após dormir na região e ser acometido de uma fúria homicida. 

Tudo isso já é suficientemente estranho, mas o Rio Namoi já tinha certa fama mesmo antes do assassinato marcante e dos fenômenos fantasmagóricos apurados por Davies. Fazia tempo que era considerado o local preferido de um animal mitológico aterrorizante, o Bunyip. Geralmente descrito como uma espécie de monstro anfíbio propenso a grande agressividade, o Bunyip é um tipo de "bicho papão" do folclore aborígene, uma fera que ataca pessoas que se aproximam do seu território. 

Um relato notável sobre o Bunyip do rio Namoi data da década de 1830, quando um fora da lei que se tornou bosquímano, chamado George Clarke, veio viver ali como fugitivo na região remota, entre a tribo local Gamilaraay. Quando um grupo de policiais passou pela região em busca de Clarke, em 1832, um ancião da tribo explicou ao capitão John Forbes que o rio era habitado por uma criatura perigosa conhecida por eles como "Wawee". Essa criatura aquática era descrita como enorme, com nadadeiras, dentes formidáveis ​​e enormes presas afiadas. Dizia-se que, ocasionalmente, soltava um lamento horripilante que paralisava as pessoas com um medo profundo. Mais tarde, Forbes escreveria em seu diário sobre o rio Wawee: "Todos os aborígenes temem o tal Bunyip e dizem que ele os devorará se conseguir pegá-los perto da água".

Outros mistérios e fenômenos inexplicáveis ​​seriam relatados no rio Namoi nos anos seguintes. Em 1934, o rio seria palco de um desaparecimento intrigante e jamais solucionado. Um artigo na edição de sexta-feira, 23 de abril de 1934, do Sydney Morning Herald, relata o desaparecimento de um agente pecuário chamado George Knott, da vila de Pilliga, Nova Gales do Sul. O homem havia saído para um passeio ao longo do rio Namoi e simplesmente desapareceu, sendo visto pela última vez às 10h da manhã. Após uma semana de buscas, o cavalo de Knott foi encontrado morto no rio.


Pistas bizarras encontradas no que parecia um acampamento improvisado deixaram a polícia perplexa. Cápsulas de espingarda, todas de calibre .12 foram descobertas numa clareira, a munição batia com a arma que Knott, um ávido caçador e esportista, levava consigo. Marcas de chumbo foram encontradas em árvores perto do acampamento, como se Knott tivesse realizado vários disparos à esmo. Aborígenes entrevistados pela polícia informaram ter ouvido tiros na noite em questão e muitos gritos.

A polícia montou um acampamento às margens do rio Namoi e vasculhou sistematicamente o fundo por cerca de um quilômetro e meio, mas o corpo nunca foi encontrado. Entrevistas com dezenas de moradores locais que viviam em propriedades rurais na região não revelaram nada, pois ninguém relatou ter ouvido ou visto nada suspeito ou estranho. O misterioso desaparecimento de George Knott nunca foi solucionado e seu corpo nunca foi encontrado.

Além de histórias de Bunyips, assassinatos misteriosos, atividades fantasmagóricas, a nuvem de pavor pairando sobre o local do crime e desaparecimentos inexplicáveis, o rio Namoi também é associado a outros contos bizarros. Um artigo do mesmo Sydney Morning Herald, datado de 23 de março de 1973, relata o aparecimento misterioso e repentino de uma grande quantidade de peixes mortos no rio, próximo à comunidade agrícola de Wee Waa, conhecida por suas plantações de algodão. Nesse caso, os peixes mortos apareceram continuamente por mais de uma semana, e qualquer ave que se alimentasse deles também teria morrido. Embora as autoridades sanitárias tenham investigado o caso, nenhuma causa discernível para as mortes foi encontrada, nem qualquer explicação para a morte das aves após comerem os peixes. Finalmente, especulou-se que o fenômeno poderia estar ligado ao uso excessivo de inseticidas em decorrência de uma praga de lagartas que devastava as plantações de algodão da região na mesma época, mas essa hipótese não foi conclusiva. 

Não está claro se essa mortandade repentina de peixes tem alguma relação com os outros fenômenos estranhos no rio, mas certamente é algo peculiar. Será que algum desses estranhos acontecimentos está relacionado, ou trata-se apenas de uma série de casos isolados de estranheza que por acaso ocorreram ao longo do mesmo rio? O fenômeno fantasmagórico relatado aqui está relacionado ao assassinato de Harry Johnson e seu fantasma, ou é indicativo de alguma força malévola impregnada na própria terra, tornando-a um lugar amaldiçoado ou maligno que está causando esses eventos trágicos? 

É difícil dizer.


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