segunda-feira, 15 de junho de 2026

Peter Niers - O maior assassino em série da Idade Média


Uma pergunta filosófica sobre a maldade é se o Mal pode ser quantificado?

Existe alguma escala que define o que é o mal em seu estado mais terrível?

Talvez não, mas se uma pessoa pudesse ser usada como parâmetro do mais alto grau de maldade e perversidade, este alguém poderia ser o alemão Peter Niers.

Se sua própria confissão que antecedeu a sua brutal execução for verdadeira, esse obscuro cidadão que viveu na Alemanha do Século XVI assassinou nada menos do que 544 pessoas — 24 das quais mulheres grávidas que ele matou para obter seus fetos.

As histórias sobre Peter Niers podem ser menos conhecidas do que as de Vlad, o Empalador, Elizabeth Bathory, ou mesmo Jack, o Estripador mas não são menos horripilantes. Niers foi por muito tempo uma espécie de Bicho Papão na Europa Medieval e sua fama (ou melhor dizendo infâmia) atravessava fronteiras se espalhando por territórios, reinos e povos distantes. De certa maneira ele pode ter sido o primeiro exemplo de um fenômeno que muitos julgam recente, um sinal da decadência da nossa civilização moderna - o assassino alçado ao posto de celebridade.

No século XVI era possível viajar de Kievan Rus, nos limites da Rússia Europeia até Lisboa e escutar histórias sobre o assassino Peter Niers. Também era possível visitar os limites da Escandinávia até o Norte da África e ouvir relatos de pessoas que haviam ouvido falar através de conhecidos ou por intermédio de viajantes sobre os horríveis atos desse monstro. O caso de Niers foi discutido nos corredores da Universidade de Cambridge na Inglaterra, foi debatido em Salamanca na Espanha e chegou a ser tratado nas altas cortes de justiça de Veneza.

Dizia-se que Niers era um mestre da magia negra que podia se tornar invisível, assumir a forma de um gato, um cachorro ou uma cabra uma vez que dominava a arte da transformação. Ele ainda podia alterar sua aparência física, se fazer passar por um velho, por um noviço, por um nobre e por uma mocinha virginal para despistar seus perseguidores. Niers conseguia usar seu "olhar aterrorizante" para encantar pessoas: seus olhos transmitiam uma descarga de energia maligna que cegava, causava convulsões e podia matar em instantes. Seu sopro carregava um veneno similar ao do Basilisco. As pessoas que ele matava podiam ser transformadas em mortos vivos tamanho seu mal. A lista de poderes era enorme.

 
Não havia consenso, mas alguns estudiosos que se debruçaram sobre a lenda suspeitavam que a origem dos poderes profanos de Niers provinham de um pacto que ele firmara com o diabo em um cemitério na noite de Walpurgisnacht. Niers teria oferecido as almas e o sangue de sua esposa, de três filhos e da própria mãe em um ritual profano. Mais medonho ainda, sua esposa estaria grávida, e o Diabo sugeriu que ele seria ainda mais poderoso se arrancasse o filho não nascido do ventre da mulher e o devorasse. Há vertentes que afirmavam que ele seria um monge que descobriu um segredo do demônio em um pergaminho num monastério e que chantageou o próprio Diabo para que ele o tornasse seu comensal, com direito a toda sorte de poderes. Finalmente, alguns afirmavam que os poderes do maníaco eram de berço e que ele teria os descoberto ao longo dos anos, junto com o conhecimento de que ele próprio era descendente de sangue de Judas Iscariotes, do Imperador Nero ou ainda de Atila, o Huno.  

Um elemento recorrente indicava que a maioria de suas incríveis habilidades e poderes místicos decorriam do canibalismo, especialmente aquele que envolvia bebês humanos, uma fonte de energia que era frequentemente reabastecida pelo maníaco em suas orgias sanguinárias. Peter Niers supostamente guardava as mãos e os pés decepados de bebês em uma bolsa de couro o tempo todo. Mantinha-a perto de si pois dela extraía a energia que alimentava suas façanhas sobrenaturais. Se alguém tocasse essa bolsa feita de pele humana, uma maldição transformaria o pobre infeliz em um escravo do próprio feiticeiro.

Com todas essas lendas e mitos bizarros ao seu redor, não é de se admirar, que o assassino tenha se convertido num dos piores vilões da história. Mas o que é verdade e o que não passa de lenda quando se procura fatos à respeito de Peter Niers? Seria ele meramente a soma de incontáveis boatos infundados e de exageros? Ou haveria um fundo de verdade em tudo que se contava sobre ele? Seria o sujeito nada mais do que uma fraude de seu período histórico? Ou esse monstro com forma de homem realmente existiu?  

Vamos examinar o que temos sobre esse terrível sujeito.

Peter Niers emergiu em meio a um período conturbado da Alemanha, na época uma colcha de retalhos de pequenos reinos e cidades estado não muito diferentes dos feudos que existiam no alto medievo. Ele nasceu em uma família camponesa nos arredores de Nuremberg em meados de 1540. Durante o auge da servidão, Niers testemunhou em primeira mão as lutas de classe. Sem dúvida, as condições de vida desumanas e o tratamento dispensado à classe camponesa foram um catalisador para sua posterior sociopatia. Os boatos apontam que ele já tinha a marca do assassino, uma ferida rosácea que lhe marcava a bochecha direita.   

A onda de assassinatos de Niers começou quando ele e sua família se envolveu nas revoltas camponesas que tomaram conta do país após 1525. Também conhecida como Guerra dos Camponeses Alemães, essa revolta foi a maior da Europa até a Revolução Francesa. Os camponeses se organizavam em bandos que viajavam pelas estradas invadindo castelos, mosteiros e cidades. Eles odiavam os ricos Senhores de Terras e durante suas incursões os matavam sem a menor piedade. 


Essa revolta na Alemanha levou a um longo período de agitação e caos. 

Os grupos de camponeses miseráveis, transformados em salteadores itinerantes, se espalhavam pelas estradas e faziam vítimas em toda parte. As turbas podiam arregimentar algo entre 50 a até mil indivíduos. Eles matavam mercadores sufocando assim o comércio e foram responsáveis por uma crise de desabastecimento nas grandes cidades. Nenhum mercador queria correr o risco de percorrer o interior da Alemanha e como resultado havia fome e carestia. Os índices de criminalidade dispararam de tal forma que o país se tornou o mais perigoso de toda Europa. Registros da época revelam que os assassinatos representaram de 11% a 15% dos crimes na Alemanha entre as décadas de 1570 e 1590.

Foi nesse contexto de violência que Peter Niers surgiu depois de ser libertado das glebas por um bando de salteadores. Não demorou para ele próprio formar seu bando na Alsácia, Fronteira com a França, uma cidade situada no epicentro do conflito. Acredita-se que Niers tenha sido inspirado por Martin Stier, um pastor e assassino que organizou 500 pessoas em um temido bando de saqueadores. Stier e seus homens viajavam longe, chegando até a Holanda. Após 22 anos de crimes, Stier foi executado em 1572, mas não antes de orientar Niers e torná-lo um mito.

Niers liderava um grupo rotativo composto por algo entre 100 e 200 bandidos, um bando relativamente pequeno mas que aterrorizou o coração da Europa por anos, roubando e assassinando viajantes em estradas remotas. O grupo se dividia para realizar ataques menores e se reunia com comparsas ocasionais para ações maiores. Eles teriam invadido e ateado fogo em vilarejos num frenesi de violência poucas vezes visto. Os rufiões de Peter Niers, que vestiam trajes escarlates (para disfarçar o sangue) atacavam castelos deixando ruínas fumegantes após sua passagem. Nem mesmo monastérios eram poupados, especialmente ordens de freiras que eles adoravam violar. Eventualmente, o bando se tornou ousado o suficiente para atacar cidades grandes como Strasbourg e Landau afim de assassinar, estuprar e atacar cidadãos, roubando seus bens.

O bando de Niers percorreu centenas de quilômetros pelo sul da Alemanha, oeste da França, Renânia e Baviera. A extensa rede de crimes do bando espalhou as histórias de seus delitos por toda a Europa e provavelmente reforçou o folclore em torno de Peter Nier e seus crimes. As autoridades conheciam bem o nome de Niers como o chefe do bando, mas não havia uma descrição de sua aparência e de seu paradeiro. De fato, o bando era praticante nômade e não fazia planos para se estabelecer em lugar algum - tiravam tudo o que podiam de uma determinada província e quando esta começava a se exaurir, seguiam adiante. Além disso, ele contava com uma rede de informantes e olheiros que forneciam dicas sobre lugares vulneráveis onde a guarda era menos rígida. Tudo isso dificultava sua captura.


Nesse período há relatos sobre atrocidades cometidas por Peter Niers e seus homens. Crimes hediondos não eram algo raro no período, mas de alguma forma ele parecia se esmerar no terror o que conferiu aos Escarlates grande fama e uma aura de medo que os acompanhava. Niers teria liderado a destruição de um mosteiro franciscano, o assassinato de toda família de um Barão em Rheins e o incêndio de um celeiro com mulheres e crianças dentro, perto de Koblenz. 

Em 1577, Niers e membros de seu bando foram capturados após 11 anos de andanças e muito terror. Um dos cúmplices de Niers os denunciou e, consequentemente, ele foi torturado para confessar seus muitos crimes. Ele teria confessado 75 assassinatos, alguns dos quais explicavam diversos casos de mulheres desaparecidas na região. O assassino contou que em cada cidade que visitava matava uma mulher - de preferência uma jovem e virgem. 

Após passar cinco dias na masmorra local, Niers conseguiu escapar e evitar a inevitável execução. Dizem que o assistente do torturador achou que o prisioneiro estava morto e mandou seu corpo ser preparado para o esquartejamento, mas ele ainda estava forte o bastante para escapar. A fuga se tornou famosa incluindo relatos sobre o uso de magia negra e invisibilidade. Depois disso, as histórias sobre Peter Niers atingiram níveis folclóricos. Panfletos, livros e canções sobre ele circulavam pela Alemanha apresentando seus atos de canibalismo, os rituais de magia negra e suas habilidades sobrenaturais.

De acordo com uma coleção de panfletos redigidos por Johann Wick, possivelmente o primeiro repórter criminal da história, o assassino invocou o Diabo na floresta perto de Pflazburg, na França, e recorreu a esses poderes para cometer seus crimes. As histórias também afirmavam que, antes de sua execução, Stier treinou Niers na arte da magia negra. Wick, que acompanhou de perto os crimes publicou mais três panfletos sobre o criminoso entre 1577 e 1583 revelando a extensão da sua depravação. 

Historiadores relatam que praticantes de magia negra alemães dessa época acreditavam que velas feitas com pele e gordura de fetos conferiam invisibilidade e outros poderes sobrenaturais. A lenda também afirmava que o canibalismo poderia dar a alguém a capacidade de se transformar em árvore, pedra ou animal. Como necromante, acreditava-se que Niers havia adquirido um gosto por infanticídio.


Após a sua fuga, Niers supostamente mudou de aparência para evitar sua captura. Por algum tempo ele usou o disfarce de leproso e assim conseguiu chegar até a fronteira da França onde ficou escondido. Em seu mandado de prisão, emitido no ano de 1579, o criminoso era descrito como "grisalho, enrugado e com dentes podres", ele também tinha dedos tortos e uma cicatriz facial causada por um ferro em brasa empunhado pelo seu torturador. A Bolsa de Pele humana contendo pés e mãos de fetos também era citada, com a advertência expressa para que ninguém a tocasse.

Finalmente, em 1581, a carreira de Niers como assassino em série chegaria a um fim apropriadamente perturbador. A essa altura, ele já era bem conhecido em todo o país. Ele tentou se esconder em uma hospedaria em Neumarkt chamada "Os Sete Sinos". Ele pediu ao dono do estabelecimento que guardasse uma peculiar bolsa de couro para que pudesse visitar a casa de banhos local.

Enquanto Niers tomava banho, clientes da estalagem confrontaram o estalajadeiro para que ele abrisse a bolsa de couro. Dentro dela estavam corações e mãos ressecados de fetos. Percebendo que se tratava de pertences de um necromante, os moradores o denunciaram ao Condestável. Niers foi capturado na casa de banhos sem qualquer resistência.  Muitos acreditavam que ele foi preso com tanta facilidade porque havia sido separado de sua bolsa mágica. Ele se entregou mas tentou manter sua identidade em segredo.

Os eméritos juízes de Neumarkt não tinham ideia que estavam com o infame Peter Niels em suas mãos mas quando se deram conta se apressaram para realizar o julgamento. Eles queriam ser reconhecidos como os responsáveis pela captura do maior vilão da Alemanha. Durante o processo deram a ele uma amostra de seu próprio veneno, infligindo-lhe uma tortura particularmente violenta para que contasse tudo que havia feito em sua vil existência. Funcionou já que reconheceu a autoria de mais de 500 mortes.

Com a confissão decidiram que ele seria executado com um longo e elaborado processo dividido em três etapas. No primeiro dia, a pele de suas costas foi arrancada com pinças incandescentes e óleo quente foi derramado sobre as feridas. No segundo dia, seus pés foram untados com óleo e colocados sobre brasas até se incendiarem, numa tentativa de assá-lo vivo. No terceiro dia, um domingo, Niers foi amarrado à Roda do Despedaçamento. Este infame instrumento de tortura medieval era uma grande peça redonda de madeira projetada para quebrar ossos e esmagar a pessoa até a morte.


De alguma forma, talvez devido a um de seus supostos Pactos com o Diabo, Niers ainda não havia morrido após a roda esmagar boa parte de seu corpo. As pessoas que vieram de longe para assistir a execução ficaram chocadas com esse fato. O carrasco teve que decapitar Peter Niers para finalmente concluir a execução já que ele simplesmente não morria. Em uma versão da época, ele só realmente morreu quando sua bolsa foi incinerada em um forno.

A combinação do folclore popular contemporâneo com a passagem do tempo tornou os detalhes da vida e dos crimes de Niers um tanto quanto imprecisos. Seus crimes e o número de vítimas provavelmente foram exagerados. Separar fato de ficção é ainda mais complicado graças aos relatos de dois criminosos contemporâneos, os assassinos em série Christman Genipperteinga e Peter Stumpp. De uma forma bizarra, os crimes dos três assassinos parecem ter sido combinados em uma mesma pessoa - no caso a mais famosa: Peter Niers. Genipperteinga teria assassinado 964 pessoas e também foi executado na roda da morte enquanto Stumpp acreditava ser um lobisomem e teria devorado 14 crianças. Ele também era conhecido, assim como Niers, por ter feito um pacto com o Diabo.

Como não existem relatos que afirmem que Niers era uma farsa, os registros do seu interrogatório, obtidos sob tortura, são considerados peças legítimas do Processo Criminal. Nele estão reunidos vários nomes e descrições de pessoas que o assassino teria elencado e dos quais ainda se recordava. Com o número de suas vítimas na casa das centenas, esse bicho-papão medieval pode muito bem ser considerado um dos assassinos em série mais prolíficos de todos os tempos.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O Infernal Major Weir - A Confissão de um Feiticeiro que abalou Edimburgo

 

Em 1599, viveu na Escócia um homem chamado Thomas Weir

Seu pai, um funcionário público, não gozava da melhor reputação em termos de probidade, era suspeito de desfalques nos cofres públicos, dinheiro usado para alimentar o vício em jogo. Teria cometido suicídio, nunca confirmado. Sua mãe era suspeita de praticar feitiçaria. Parte de uma família tradicional, ela era versada na leitura do tarô, alegava conhecer feitiços e ser capaz tanto de curar quanto de matar usando maldições. Seus irmãos, quatro no total, também tinham uma vida conturbada, envolvendo acusações de traição, prisões e desconfiança geral. Sua irmã mais nova era especialmente difícil sendo suspeita de várias atividades ilícitas como veremos mais adiante.

Thomas se alistou no exército para escapar dessa família problemática, e com a Revolta Puritana ele começou a ganhar reconhecimento na forma de promoções. Alcançou o posto de Major em 1641, após servir com destaque em campanhas contra os monarquistas. Em 1649, aposentou-se do serviço ativo e, a partir de então, foi empossado como Comandante da Guarda da Cidade de Edimburgo.

Seu mandato foi notável pela rígida devoção aos princípios militares, aliada a um zelo correspondente na perseguição aos inimigos monarquistas. Um relato da época descreveu Weir como "muito ativo na descoberta e captura de traidores, levando-os a serem julgados e sempre buscando condenações capitais". Dizem que o Major Weir era especialmente cruel e criativo no emprego de tortura física e psicológica para que seus cativos apontassem colegas conspiradores. Ele mantinha seus prisioneiros em uma masmorra escura e sufocante, sob rígida vigilância e constante brutalidade. Utilizava instrumentos de tortura: açoite e ferros em brasa nos interrogatórios e participava ativamente de cada sessão. Ele ficou famoso pelo tratamento que dispensou ao Marquês de Montrose, que ele próprio processou, acusou e sentenciou.

Após vários anos no cargo, Weir deixou o posto — não se sabe ao certo se foi por demissão ou renúncia voluntária —, ficando livre para se dedicar mais plenamente à vida religiosa. Sua ardente devoção ao presbiterianismo, aliada ao seu vasto conhecimento das Escrituras e à sua impressionante eloquência na oração, fizeram com que o povo de Edimburgo o considerasse praticamente um santo vivo. “Feliz era o homem com quem ele conversava”, dizem, “e bendita era a família na qual ele se dignava a orar”. Sua fama se espalhou a tal ponto que as pessoas viajavam dezenas de quilômetros apenas para ouvir seus sermões improvisados.


A sociedade tinha conhecimento de apenas uma controvérsia envolvendo esse estimado cidadão. Um ministro, John Nave, foi informado por uma de suas paroquianas que ela havia visto o Major Weir na companhia de pessoas suspeitas em um campo certa vez. Nesse episódio ele estaria presidindo uma estranha reunião noturna com direito a uma fogueira e entoações misteriosas. A alegação foi rejeitada por falta de provas, e a acusadora de Weir foi açoitada pelo carrasco local "por caluniar um homem santo tão eminente".

Em 1642, Weir casou-se com uma viúva chamada Isobel Mein. Foi após a morte dela e o casamento de sua enteada que a vida do Major tomou um rumo mais estranho. Depois de ficar sozinho, ele permitiu que sua irmã solteira, Jean (ou Grizel, em alguns relatos), fosse morar com ele como governanta. A irmã tinha péssima fama, alguns diziam que havia se envolvido em escândalos com homens casados. Mas havia rumores muito mais graves! Alguns diziam que Jean era praticante bruxaria, versada nas artes negras e que adorava o Demônio.

Como os eventos revelariam, a relação entre os dois pode muito bem ter sido — para dizer o mínimo — mais íntima do que a sociedade aceitava no que diz respeito a irmão e irmã. É provável que o peso psicológico esmagador dessa violação específica do tabu tenha levado à tragédia final.

A queda de Weir foi tão inesperada quanto dramática. Rumores circulavam em Edimburgo, embora ninguém falasse abertamente. Criados mencionavam estranhas celebrações no porão da casa do Major, reuniões soturnas com conhecidos criminosos e mulheres acusadas de má conduta. Diziam que algo havia corrompido aquela casa e que Weir mantinha uma vida dupla secreta: de dia um homem religioso e justo, à noite um devasso praticante de satanismo.


Em um certo dia da primavera de 1670, houve um grande encontro religioso em Edimburgo no qual o Major Weir seria um dos convidados. Em determinado momento da cerimônia, ele se levantou para discursar aos fiéis. Contudo, em vez das usuais “frases entusiasmadas, êxtases e arrebatamentos”, ele ofereceu à sua plateia algo completamente diferente. Weir, na verdade, cometeu suicídio diante dos olhos cada vez mais horrorizados de todos.

Ele começou a relatar seus muitos pecados — pecados que deixaram os irmãos atônitos e revoltados. Aquele homem que, por tantos anos, fora visto como o epítome da piedade e da virtude, estava, por sua própria vontade, revelando-se um monstro. Contou sobre atos de incesto (com sua irmã e sua enteada), bestialidade, inúmeros encontros sexuais com criadas e o pior de tudo, confirmou a Adoração ao Diabo. “Diante de Deus”, exclamou, “não lhes contei nem a centésima parte dos pecados que cometi, e do que sou culpado!

Ele já havia contado o suficiente. O primeiro instinto de seus ouvintes foi encobrir tudo. Seria péssimo ter esse “escândalo desconcertante” dentro de sua igreja tornado público. Isso poderia muito bem destruir a reputação de todos eles.

Como explicação para quaisquer relatos desse incidente chocante que pudessem ter vazado, os irmãos anunciaram que Weir havia adoecido gravemente. Durante vários meses, pareceu que a terrível verdade sobre o que a igreja abrigava em seu seio poderia ser mantida em segredo. No entanto, um dos ministros confidenciou ao Lorde Prefeito de Edimburgo, Sir Andrew Ramsay, o que havia acontecido. Sir Andrew, supondo que “crimes tão horríveis quanto os que o ministro lhe disse que o Major havia confessado” fossem simplesmente terríveis demais para serem verdade, enviou vários médicos à casa de Weir para “examinar seu cérebro perturbado”. Os médicos relataram que Weir parecia “livre de hipocondria” e estava perfeitamente são. Seu único mal, julgaram, era “uma consciência excruciada que o forçava a confessar tudo o que tomou parte”. Weir queria ser levado à justiça e, na opinião dos médicos, seu desejo deveria ser atendido. Alguns “ministros” que o prefeito enviou para interrogar o Major concordaram com esse diagnóstico. “Os terrores de Deus”, disseram eles, “o impeliram a confessar e se acusar”.

E que confissões eram aquelas! Bombásticas para dizer o mínimo! Weir relatou ter sido iniciado na Igreja de Satanás e que tinha a marca do diabo tatuada em sua virilha. Disse que renunciou a Deus e as Escrituras e que escreveu seu nome com sangue no Livro do próprio Demônio. Firmou com este um pacto diabólico recebendo riqueza e saúde em troca de sua alma imortal. Disse ainda que realizou toda sorte de sortilégio e malefício na companhia de sua irmã, uma feiticeira com quem dividia a cama. Weir confessou ter conduzido missas negras nas quais crianças foram sacrificadas em altares, que manteve um diabrete familiar e que aprendeu magia negra para afetar inimigos. Seus crimes eram tantos e tão variados que ele deveria pagar por eles.


As autoridades da cidade se desesperaram. Era impossível acobertar o escândalo público já que muitos na cidade já comentavam o teor blasfemo das confissões. Por fim, admitiram que não havia outra alternativa senão levar o Major a julgamento. Weir e sua irmã — a quem ele havia incriminado profundamente em sua confissão e que posteriormente reconheceu seus pecados — foram enviados para a prisão. Quando os irmãos foram detidos, Jean disse aos policiais para confiscar um "Cajado Mágico" pertencente a Weir que estava na casa. Esse objeto maligno tinha poderes e poderia ser usado contra os dois por membros da cabala em uma vingança. 

Observou-se que esse "Cajado" era feito de espinheiro e decorado com imagens de centauros e uma carranca na extremidade. Jean Weir disse que seu irmão "o recebeu do Diabo e fez coisas impossíveis com ele". As autoridades também descobriram em sua casa um pano contendo "uma certa raiz". Quando esse objeto foi jogado no fogo, as chamas "circularam e brilharam como pólvora e, passando pela chaminé, deram um estalo como um pequeno canhão, para espanto de todos os presentes". Também ficaram sabendo de algumas moedas que Weir possuía, as quais causavam perturbações semelhantes a poltergeist onde quer que fossem guardadas. O porão onde os rituais supostamente ocorriam foi misteriosamente destruído, alegadamente por membros da cabala que tentaram ocultar seu envolvimento no caso. Weir garantiu que entre seus asseclas estavam pessoas poderosas e influentes na cidade.

Enquanto aguardava o julgamento, Weir encarava seu destino com indiferença. Rejeitava os apelos ao arrependimento, respondendo que estava irremediavelmente condenado e que qualquer oração seria inútil. Um historiador da época atribuiu a atitude de Weir à astúcia: "já que iria para o Diabo, não o irritaria".


Sua irmã contou às autoridades que herdara da mãe o talento para a magia negra. Jean também exibia uma "marca de bruxa" em forma de ferradura na nádega direita. Segundo Jean, ela e o irmão eram parceiros do Diabo há muitos anos e este os tornou seus comensais. Em 7 de setembro de 1648, ela contou que foram levados de Edimburgo a Musselburgh e de volta por uma carruagem satânica puxada por seis cavalos "que tinham cascos flamejantes". Ela deu detalhes sobre o "cajado encantado" do irmão, que ele usava "para cometer atos indizíveis". O instrumento era um canalizador da força diabólica e podia ser usado para matar inimigos e desafetos.

Em 9 de abril de 1670, os irmãos foram a julgamento com acusações de incesto, fornicação, idolatria, bruxaria e assassinato. Por algum motivo, a acusação contra o Major se concentrou em seus pecados sexuais, enquanto apenas a Jean enfatizaram as acusações de feitiçaria. Nenhum advogado se dispôs a defendê-los. Ambos os réus afirmaram prontamente a veracidade de todas as acusações, e o júri não teve dificuldade alguma em considerá-los culpados. Dois dias depois, o Major foi estrangulado e seu corpo “queimado até virar cinzas” em uma pira montada na praça central de Edimburgo. Seu corpo exalou um fedor de enxofre segundo testemunhas. No dia seguinte à morte de seu irmão, Jane Weir foi enforcada em outra execução medonha. Seus olhos teriam pulado das órbitas e a língua tornou-se preta pendendo para fora da boca. Tamanho era o horror de seu semblante cadavérico que os restos foram removidos da jaula onde eram mantidos e incinerados.

Conta-se que Thomas Weir encontrou seu destino “em desespero, declarando que não tinha esperança de misericórdia”. Enquanto a corda era colocada em seu pescoço, foi encorajado a rezar. "Não vou rezar", respondeu ele secamente. "Vivi como uma Besta e devo morrer como uma Besta." Seu cajado mágico foi queimado com ele, e dizia-se que estalou e chilreou nas chamas como algo vivo.

Ao longo dos anos, muitos mitos macabros e cada vez mais extravagantes foram contados sobre Weir, que permanece o "bruxo" mais notório da Escócia. Essas histórias parecem exagerar a realidade. Certamente, os fatos básicos de sua história já são suficientemente arrepiantes.


Somente um século após a morte de Weir alguém se dispôs a morar em sua casa, um local que os residentes acreditavam firmemente estar impregnado de maldade. O primeiro inquilino intrépido permaneceu por apenas uma noite, alegando ter visto "uma forma semelhante à de um bezerro" aparecer ao lado de sua cama durante a noite. A casa acabou sendo ocupada por diversos estabelecimentos comerciais, mas nunca mais foi usada como residência particular. De acordo com o historiador e folclorista escocês Andrew Lang, os espíritos inquietos de Thomas e Jean Weir foram vistos ainda no início do século XX. Por muitos anos, acreditou-se que a sinistra casa dos Weir havia sido demolida em 1878. No entanto, na edição de fevereiro de 2014 da revista "Fortean Times", Jan Bondeson revelou que suas pesquisas o levaram a descobrir que a casa foi incorporada a um prédio existente, que atualmente abriga a Casa de Reuniões Quaker, no número 7 da Victoria Terrace. E sim, os ocupantes do prédio relataram ter visto coisas estranhas acontecer no local.

A história do Major Weir é estranha, bizarra e cheia de questionamentos. Haveria algum fundo de verdade em suas narrativas aterrorizantes ou seria o resultado de alguma doença mental que o levava a confessar ator indizíveis. 

Talvez nunca venhamos a saber... e provavelmente é melhor ficar desse jeito. 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Encontro de RPG como Antigamente

Todo mundo que joga RPG sabe das dificuldades de formar mesas, encontrar parceiros para jogar, achar um mestre, testar sistemas etc.

Nosso hobby, por mais que hoje em dia esteja menos relegado ao status de nicho, ainda está bem longe de ser mainstream. Embora a gente encontre pessoas jogando, tenha mais acesso a livros e material e consiga reunir o grupo, nem sempre as coisas funcionam ou saem como o esperado. Mas para esses e outros perrengues que atormentam a existência daqueles que amam a nobre arte de jogar dados sobre mesas, existe uma solução:

(rufem tambores e crie-se o suspense pré-revelação)

Trata-se dos Encontros de RPG

Para os grupos carentes de mestres, para os mestres que estão longe de jogadores, para os pobres infelizes que não tem onde jogar, para os que querem jogar e não conseguem, para os que precisam dar aquela saída para conhecer novos grupos, para os que tem curiosidade de testar novos sistemas e ambientações...

Para tudo isso, os Deuses do RPG, criaram os ENCONTROS DE RPG.

O princípio é simples: reunir sob um mesmo teto um grupo heterogêneo de jogadores e entusiastas dispostos a testar os limites de seu hobby em um campo diferente do que estão habituados. 

O resultado disso?

Novas parcerias, novas amizades, novas mesas de jogo e a diversão contagiante que apenas uma história bem contata entre amigos pode proporcionar.

Como legítimo, credenciado e certificado "rato de encontros e eventos de RPG" que sou, não canso de repetir. Os Encontros e Eventos são o fluído essencial que permite ao nosso hobby continuar vivo e se renovar. Sem eles ficamos invariavelmente estagnados.

Toda essa introdução é para falar de um Encontro de RPG que participei recentemente em Santa Cruz do Sul, interior do RS, onde atualmente estou vivendo.

Nada como um Encontro de RPG para revelar como a comunidade de jogadores local não apenas é grande, mas está disposta a engajar e crescer.

O encontro foi organizado pelo Jardel Duarte e Lucas Rodrigues da Joelho de Grilo e aconteceu no Chef Burguer, uma hamburgueria local que disponibilizou o espaço. 

Com apoio de vários patrocinadores locais e da New Order, o encontro reuniu cerca de 70 pessoas dispostas em quase uma dúzia de mesas que jogaram sistemas como Chamado de Cthulhu, Alien, Shadowrun, Pugmire e Pathfinder. As mesas contaram com uma seleção de ótimos mestres, jogadores novos e antigos, experientes e iniciantes.

Entre combates disputados, interpretações dramáticas, heróis, vilões, monstros sanguinários sorteios de brindes, os dados rolaram e a diversão rolou solta. Um belo começo para um evento que mostra que o RPG está muito vivo.

A seguir algumas fotos do evento:

O salão logo que abriu para os jogadores que iam chegando

E o lugar foi lotando até ficar bem cheio
Mesa de Alien


Uma das três mesas de Shadowrun

Mesa de Chamado de Cthulhu

Pugmire teve presença em duas mesas

Minha tradicional Mesa Tentacular de Chamado de Cthulhu



E mais uma mesa de Chamado... Cthulhu veio com tudo nessa edição do evento.

O pessoal da organização

E o material que foi sorteado

Em resumo, um grande encontro de RPG, como aqueles de antigamente, e que venham muitos outros iguais!