segunda-feira, 15 de junho de 2026

Peter Niers - O maior assassino em série da Idade Média


Uma pergunta filosófica sobre a maldade é se o Mal pode ser quantificado?

Existe alguma escala que define o que é o mal em seu estado mais terrível?

Talvez não, mas se uma pessoa pudesse ser usada como parâmetro do mais alto grau de maldade e perversidade, este alguém poderia ser o alemão Peter Niers.

Se sua própria confissão que antecedeu a sua brutal execução for verdadeira, esse obscuro cidadão que viveu na Alemanha do Século XVI assassinou nada menos do que 544 pessoas — 24 das quais mulheres grávidas que ele matou para obter seus fetos.

As histórias sobre Peter Niers podem ser menos conhecidas do que as de Vlad, o Empalador, Elizabeth Bathory, ou mesmo Jack, o Estripador mas não são menos horripilantes. Niers foi por muito tempo uma espécie de Bicho Papão na Europa Medieval e sua fama (ou melhor dizendo infâmia) atravessava fronteiras se espalhando por territórios, reinos e povos distantes. De certa maneira ele pode ter sido o primeiro exemplo de um fenômeno que muitos julgam recente, um sinal da decadência da nossa civilização moderna - o assassino alçado ao posto de celebridade.

No século XVI era possível viajar de Kievan Rus, nos limites da Rússia Europeia até Lisboa e escutar histórias sobre o assassino Peter Niers. Também era possível visitar os limites da Escandinávia até o Norte da África e ouvir relatos de pessoas que haviam ouvido falar através de conhecidos ou por intermédio de viajantes sobre os horríveis atos desse monstro. O caso de Niers foi discutido nos corredores da Universidade de Cambridge na Inglaterra, foi debatido em Salamanca na Espanha e chegou a ser tratado nas altas cortes de justiça de Veneza.

Dizia-se que Niers era um mestre da magia negra que podia se tornar invisível, assumir a forma de um gato, um cachorro ou uma cabra uma vez que dominava a arte da transformação. Ele ainda podia alterar sua aparência física, se fazer passar por um velho, por um noviço, por um nobre e por uma mocinha virginal para despistar seus perseguidores. Niers conseguia usar seu "olhar aterrorizante" para encantar pessoas: seus olhos transmitiam uma descarga de energia maligna que cegava, causava convulsões e podia matar em instantes. Seu sopro carregava um veneno similar ao do Basilisco. As pessoas que ele matava podiam ser transformadas em mortos vivos tamanho seu mal. A lista de poderes era enorme.

 
Não havia consenso, mas alguns estudiosos que se debruçaram sobre a lenda suspeitavam que a origem dos poderes profanos de Niers provinham de um pacto que ele firmara com o diabo em um cemitério na noite de Walpurgisnacht. Niers teria oferecido as almas e o sangue de sua esposa, de três filhos e da própria mãe em um ritual profano. Mais medonho ainda, sua esposa estaria grávida, e o Diabo sugeriu que ele seria ainda mais poderoso se arrancasse o filho não nascido do ventre da mulher e o devorasse. Há vertentes que afirmavam que ele seria um monge que descobriu um segredo do demônio em um pergaminho num monastério e que chantageou o próprio Diabo para que ele o tornasse seu comensal, com direito a toda sorte de poderes. Finalmente, alguns afirmavam que os poderes do maníaco eram de berço e que ele teria os descoberto ao longo dos anos, junto com o conhecimento de que ele próprio era descendente de sangue de Judas Iscariotes, do Imperador Nero ou ainda de Atila, o Huno.  

Um elemento recorrente indicava que a maioria de suas incríveis habilidades e poderes místicos decorriam do canibalismo, especialmente aquele que envolvia bebês humanos, uma fonte de energia que era frequentemente reabastecida pelo maníaco em suas orgias sanguinárias. Peter Niers supostamente guardava as mãos e os pés decepados de bebês em uma bolsa de couro o tempo todo. Mantinha-a perto de si pois dela extraía a energia que alimentava suas façanhas sobrenaturais. Se alguém tocasse essa bolsa feita de pele humana, uma maldição transformaria o pobre infeliz em um escravo do próprio feiticeiro.

Com todas essas lendas e mitos bizarros ao seu redor, não é de se admirar, que o assassino tenha se convertido num dos piores vilões da história. Mas o que é verdade e o que não passa de lenda quando se procura fatos à respeito de Peter Niers? Seria ele meramente a soma de incontáveis boatos infundados e de exageros? Ou haveria um fundo de verdade em tudo que se contava sobre ele? Seria o sujeito nada mais do que uma fraude de seu período histórico? Ou esse monstro com forma de homem realmente existiu?  

Vamos examinar o que temos sobre esse terrível sujeito.

Peter Niers emergiu em meio a um período conturbado da Alemanha, na época uma colcha de retalhos de pequenos reinos e cidades estado não muito diferentes dos feudos que existiam no alto medievo. Ele nasceu em uma família camponesa nos arredores de Nuremberg em meados de 1540. Durante o auge da servidão, Niers testemunhou em primeira mão as lutas de classe. Sem dúvida, as condições de vida desumanas e o tratamento dispensado à classe camponesa foram um catalisador para sua posterior sociopatia. Os boatos apontam que ele já tinha a marca do assassino, uma ferida rosácea que lhe marcava a bochecha direita.   

A onda de assassinatos de Niers começou quando ele e sua família se envolveu nas revoltas camponesas que tomaram conta do país após 1525. Também conhecida como Guerra dos Camponeses Alemães, essa revolta foi a maior da Europa até a Revolução Francesa. Os camponeses se organizavam em bandos que viajavam pelas estradas invadindo castelos, mosteiros e cidades. Eles odiavam os ricos Senhores de Terras e durante suas incursões os matavam sem a menor piedade. 


Essa revolta na Alemanha levou a um longo período de agitação e caos. 

Os grupos de camponeses miseráveis, transformados em salteadores itinerantes, se espalhavam pelas estradas e faziam vítimas em toda parte. As turbas podiam arregimentar algo entre 50 a até mil indivíduos. Eles matavam mercadores sufocando assim o comércio e foram responsáveis por uma crise de desabastecimento nas grandes cidades. Nenhum mercador queria correr o risco de percorrer o interior da Alemanha e como resultado havia fome e carestia. Os índices de criminalidade dispararam de tal forma que o país se tornou o mais perigoso de toda Europa. Registros da época revelam que os assassinatos representaram de 11% a 15% dos crimes na Alemanha entre as décadas de 1570 e 1590.

Foi nesse contexto de violência que Peter Niers surgiu depois de ser libertado das glebas por um bando de salteadores. Não demorou para ele próprio formar seu bando na Alsácia, Fronteira com a França, uma cidade situada no epicentro do conflito. Acredita-se que Niers tenha sido inspirado por Martin Stier, um pastor e assassino que organizou 500 pessoas em um temido bando de saqueadores. Stier e seus homens viajavam longe, chegando até a Holanda. Após 22 anos de crimes, Stier foi executado em 1572, mas não antes de orientar Niers e torná-lo um mito.

Niers liderava um grupo rotativo composto por algo entre 100 e 200 bandidos, um bando relativamente pequeno mas que aterrorizou o coração da Europa por anos, roubando e assassinando viajantes em estradas remotas. O grupo se dividia para realizar ataques menores e se reunia com comparsas ocasionais para ações maiores. Eles teriam invadido e ateado fogo em vilarejos num frenesi de violência poucas vezes visto. Os rufiões de Peter Niers, que vestiam trajes escarlates (para disfarçar o sangue) atacavam castelos deixando ruínas fumegantes após sua passagem. Nem mesmo monastérios eram poupados, especialmente ordens de freiras que eles adoravam violar. Eventualmente, o bando se tornou ousado o suficiente para atacar cidades grandes como Strasbourg e Landau afim de assassinar, estuprar e atacar cidadãos, roubando seus bens.

O bando de Niers percorreu centenas de quilômetros pelo sul da Alemanha, oeste da França, Renânia e Baviera. A extensa rede de crimes do bando espalhou as histórias de seus delitos por toda a Europa e provavelmente reforçou o folclore em torno de Peter Nier e seus crimes. As autoridades conheciam bem o nome de Niers como o chefe do bando, mas não havia uma descrição de sua aparência e de seu paradeiro. De fato, o bando era praticante nômade e não fazia planos para se estabelecer em lugar algum - tiravam tudo o que podiam de uma determinada província e quando esta começava a se exaurir, seguiam adiante. Além disso, ele contava com uma rede de informantes e olheiros que forneciam dicas sobre lugares vulneráveis onde a guarda era menos rígida. Tudo isso dificultava sua captura.


Nesse período há relatos sobre atrocidades cometidas por Peter Niers e seus homens. Crimes hediondos não eram algo raro no período, mas de alguma forma ele parecia se esmerar no terror o que conferiu aos Escarlates grande fama e uma aura de medo que os acompanhava. Niers teria liderado a destruição de um mosteiro franciscano, o assassinato de toda família de um Barão em Rheins e o incêndio de um celeiro com mulheres e crianças dentro, perto de Koblenz. 

Em 1577, Niers e membros de seu bando foram capturados após 11 anos de andanças e muito terror. Um dos cúmplices de Niers os denunciou e, consequentemente, ele foi torturado para confessar seus muitos crimes. Ele teria confessado 75 assassinatos, alguns dos quais explicavam diversos casos de mulheres desaparecidas na região. O assassino contou que em cada cidade que visitava matava uma mulher - de preferência uma jovem e virgem. 

Após passar cinco dias na masmorra local, Niers conseguiu escapar e evitar a inevitável execução. Dizem que o assistente do torturador achou que o prisioneiro estava morto e mandou seu corpo ser preparado para o esquartejamento, mas ele ainda estava forte o bastante para escapar. A fuga se tornou famosa incluindo relatos sobre o uso de magia negra e invisibilidade. Depois disso, as histórias sobre Peter Niers atingiram níveis folclóricos. Panfletos, livros e canções sobre ele circulavam pela Alemanha apresentando seus atos de canibalismo, os rituais de magia negra e suas habilidades sobrenaturais.

De acordo com uma coleção de panfletos redigidos por Johann Wick, possivelmente o primeiro repórter criminal da história, o assassino invocou o Diabo na floresta perto de Pflazburg, na França, e recorreu a esses poderes para cometer seus crimes. As histórias também afirmavam que, antes de sua execução, Stier treinou Niers na arte da magia negra. Wick, que acompanhou de perto os crimes publicou mais três panfletos sobre o criminoso entre 1577 e 1583 revelando a extensão da sua depravação. 

Historiadores relatam que praticantes de magia negra alemães dessa época acreditavam que velas feitas com pele e gordura de fetos conferiam invisibilidade e outros poderes sobrenaturais. A lenda também afirmava que o canibalismo poderia dar a alguém a capacidade de se transformar em árvore, pedra ou animal. Como necromante, acreditava-se que Niers havia adquirido um gosto por infanticídio.


Após a sua fuga, Niers supostamente mudou de aparência para evitar sua captura. Por algum tempo ele usou o disfarce de leproso e assim conseguiu chegar até a fronteira da França onde ficou escondido. Em seu mandado de prisão, emitido no ano de 1579, o criminoso era descrito como "grisalho, enrugado e com dentes podres", ele também tinha dedos tortos e uma cicatriz facial causada por um ferro em brasa empunhado pelo seu torturador. A Bolsa de Pele humana contendo pés e mãos de fetos também era citada, com a advertência expressa para que ninguém a tocasse.

Finalmente, em 1581, a carreira de Niers como assassino em série chegaria a um fim apropriadamente perturbador. A essa altura, ele já era bem conhecido em todo o país. Ele tentou se esconder em uma hospedaria em Neumarkt chamada "Os Sete Sinos". Ele pediu ao dono do estabelecimento que guardasse uma peculiar bolsa de couro para que pudesse visitar a casa de banhos local.

Enquanto Niers tomava banho, clientes da estalagem confrontaram o estalajadeiro para que ele abrisse a bolsa de couro. Dentro dela estavam corações e mãos ressecados de fetos. Percebendo que se tratava de pertences de um necromante, os moradores o denunciaram ao Condestável. Niers foi capturado na casa de banhos sem qualquer resistência.  Muitos acreditavam que ele foi preso com tanta facilidade porque havia sido separado de sua bolsa mágica. Ele se entregou mas tentou manter sua identidade em segredo.

Os eméritos juízes de Neumarkt não tinham ideia que estavam com o infame Peter Niels em suas mãos mas quando se deram conta se apressaram para realizar o julgamento. Eles queriam ser reconhecidos como os responsáveis pela captura do maior vilão da Alemanha. Durante o processo deram a ele uma amostra de seu próprio veneno, infligindo-lhe uma tortura particularmente violenta para que contasse tudo que havia feito em sua vil existência. Funcionou já que reconheceu a autoria de mais de 500 mortes.

Com a confissão decidiram que ele seria executado com um longo e elaborado processo dividido em três etapas. No primeiro dia, a pele de suas costas foi arrancada com pinças incandescentes e óleo quente foi derramado sobre as feridas. No segundo dia, seus pés foram untados com óleo e colocados sobre brasas até se incendiarem, numa tentativa de assá-lo vivo. No terceiro dia, um domingo, Niers foi amarrado à Roda do Despedaçamento. Este infame instrumento de tortura medieval era uma grande peça redonda de madeira projetada para quebrar ossos e esmagar a pessoa até a morte.


De alguma forma, talvez devido a um de seus supostos Pactos com o Diabo, Niers ainda não havia morrido após a roda esmagar boa parte de seu corpo. As pessoas que vieram de longe para assistir a execução ficaram chocadas com esse fato. O carrasco teve que decapitar Peter Niers para finalmente concluir a execução já que ele simplesmente não morria. Em uma versão da época, ele só realmente morreu quando sua bolsa foi incinerada em um forno.

A combinação do folclore popular contemporâneo com a passagem do tempo tornou os detalhes da vida e dos crimes de Niers um tanto quanto imprecisos. Seus crimes e o número de vítimas provavelmente foram exagerados. Separar fato de ficção é ainda mais complicado graças aos relatos de dois criminosos contemporâneos, os assassinos em série Christman Genipperteinga e Peter Stumpp. De uma forma bizarra, os crimes dos três assassinos parecem ter sido combinados em uma mesma pessoa - no caso a mais famosa: Peter Niers. Genipperteinga teria assassinado 964 pessoas e também foi executado na roda da morte enquanto Stumpp acreditava ser um lobisomem e teria devorado 14 crianças. Ele também era conhecido, assim como Niers, por ter feito um pacto com o Diabo.

Como não existem relatos que afirmem que Niers era uma farsa, os registros do seu interrogatório, obtidos sob tortura, são considerados peças legítimas do Processo Criminal. Nele estão reunidos vários nomes e descrições de pessoas que o assassino teria elencado e dos quais ainda se recordava. Com o número de suas vítimas na casa das centenas, esse bicho-papão medieval pode muito bem ser considerado um dos assassinos em série mais prolíficos de todos os tempos.

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