Dentre os três cenários contidos na antologia No Time to Scream, Bits & Pieces talvez seja aquele que mais descaradamente abraça o horror pulp. Escrito por C. L. Werner, com contribuições de Mike Mason e James Coquillat, o cenário abandona por um momento o horror cósmico mais tradicional de Call of Cthulhu para mergulhar em uma história de cadáveres, experimentos médicos e horror corporal de fazer inveja para o antigo programa Cine Trash. A proposta original é simples e direta: os investigadores são chamados para ajudar um médico em uma situação desesperadora e, quando chegam ao local, descobrem que algo saiu terrivelmente errado. A partir daí, o cenário transforma uma situação aparentemente convencional em uma noite de puro caos.
A estrutura foi pensada para funcionar em pouco tempo, seguindo a filosofia de No Time to Scream: uma história compacta, com poucos personagens, uma situação imediatamente compreensível e uma ameaça que não permite aos investigadores perderem tempo. A aventura se passa em Arkham e concentra boa parte de sua ação em um necrotério, criando um espaço perfeito para o tipo de horror que pretende apresentar. Não há uma grande conspiração para desvendar ou uma investigação que se estenda por semanas. O objetivo é colocar os personagens diante de uma situação absurda e perigosa e observar como eles conseguem sobreviver a ela antes que seja tarde demais.
Muita loucura! Muito sangue! Muitas mortes!
Mas o grande diferencial está justamente na natureza da ameaça. Bits & Pieces é uma aventura de terror físico, um Body Horror total! É uma pequena homenagem às produções de terror grotesco que fizeram sucesso no cinema. Há sangue, cadáveres, mutilações e uma boa dose de humor negro, mas principalmente uma ideia que pode ser resumida em uma pergunta bastante simples: o que acontece quando um cadáver deixa de se comportar como um cadáver? A partir dessa premissa, o cenário cria uma espécie de jogo de gato e rato, no qual os investigadores precisam lidar com algo que está se movimentando onde definitivamente não deveria haver movimento algum.
Isso também faz com que Bits & Pieces seja diferente de muitas aventuras de Call of Cthulhu. Aqui, não há necessariamente a intenção de construir uma sensação permanente de impotência diante do Mythos. O cenário é mais rápido, físico e propositalmente exagerado. Eu tinha uma ideia de que essa aventura funcionaria bem numa convenção, mas não fazia ideia do quanto! Ela é divertida e curta o bastante para isso. A proposta é coerente dentro do próprio No Time to Scream, cuja estrutura foi desenvolvida para aventuras de aproximadamente duas horas e com uma pressão constante sobre os investigadores.
Há, porém, uma consequência interessante dessa abordagem: dependendo da condução do Guardião, o cenário pode facilmente escorregar do horror para o non sense. Há um componente quase cartunesco que remete a meu ver a filmes como Evil Dead, Zumbilândia e é claro, Re-animator. Ela pode ser grotesca, bizarra, mas também, muito engraçada. Essa característica, longe de ser um problema, faz de Bits & Pieces um clássico instantâneo.
A MINHA INTERPRETAÇÃO
Mas embora a história seja boa do jeito que está, eu queria ir mais longe na homenagem a Re-Animator e por isso dediquei um tempo para tornar a história um pastiche do filme que tanto amo. Eu queria dar justamente essa chancela na história e adaptá-la da melhor maneira possível para que: 1) ela conservasse a pegada original e 2) Tivesse as digitais pegajosas de Re-animator em todo canto.
Precisei fazer algumas alterações, mas o DNA de Re-Animator a meu ver está ali. A combinação de medicina, cientistas malucos, cadáveres, experimentos de reanimação e horror corporal remete imediatamente ao filme de Stuart Gordon de 1985, inspirado por sua vez na obra de H. P. Lovecraft. A própria premissa da aventura parece brincar com esse imaginário, ainda que Bits & Pieces não dependa do conhecimento prévio do filme para funcionar. É justamente essa conexão que torna a aventura particularmente interessante como ponto de partida para uma adaptação.
Foi a partir dessa ideia que elaborei a coisa toda. Em vez de simplesmente apresentar os acontecimentos no necrotério, a aventura começou com o envolvimento dos investigadores com o médico respeitado que se vê envolvido em uma situação que rapidamente escapa de seu controle. A descoberta de um antigo diário associado a Herbert West fornece uma ligação direta com a tradição lovecraftiana da reanimação e permite transformar aquilo que poderia ser apenas uma sequência de acontecimentos grotescos em uma história sobre experimentação, ambição científica e as consequências de tentar ultrapassar os limites da morte.
A minha versão deu mais peso ao que existe por trás dos acontecimentos. Criei uma longa cena num laboratório clandestino onde pistas sobre os experimentos, espécimes e evidências deixadas para trás pudessem ser encontradas. Estes ajudaram a construir a sensação de que os investigadores embarcavam em uma história que começou antes mesmo deles chegarem. O trabalho de West - o infame Soro verde fosforescente, a fórmula Re-animator, se tornou parte central da minha história e o catalizador de tudo que viria em seguida.
Também modifiquei um bocado a forma do horror corporal contido na aventura original. Em vez de tratar as partes do cadáver que precisam ser encontradas e destruídas, transformei cada pedaço em um organismo único tentando sobreviver. E aqui roubei a ideia de outro dos meus filmes favoritos The Thing. O horror deixa de ser apenas encontrar partes mortas que voltaram à vida, passa a ser descobrir que esses fragmentos estão se transformando, regenerando e desenvolvendo novas formas de existir. É uma pequena mudança de perspectiva, mas que aproxima a aventura do espírito de Re-Animator.
No fim, Bits & Pieces funcionou do jeito que eu queria. Narrei a história no evento Lendas da Taverna, uma chance de apresentar Cthulhu a novos jogadores e de encarnar o bom e velho Dr. West. Como resultado, a aventura ficou curta, grotesca e deliberadamente exagerada, construída para colocar os investigadores diante de uma situação que exige respostas rápidas e que lança contra eles obstáculos letais.
Horror aos pedaços, diversão por inteiro!
Abaixo algumas fotos do evento Lendas da Taverna em Porto Alegre onde narrei a aventura e do material que fiz para o cenário:








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