sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Planetas e os Mitos - Uma relação de corpos celestes ligados aos Mitos Ancestrais


Por John Beal. Traduzido por Frater AhaZeD, retirado da página Morte Súbita http://mortesubita.org/

Segundo L. Sprague, Lovecraft era um “astrônomo” afiado, cujos primeiros interesses estavam relacionados à criação dos mitos associando as constelações. As historias de Lovecraft e outros escritores do Mito de Cthulhu que mencionam frequentemente os papeis das estrelas nas conexões dos eventos, em rituais. Um determinado número desses planetas e estrelas era ficção, por exemplo, o planeta Sharnoth, morada de Nyarlathotep além deste universo, que pode ser denominado universo B. Outros corpos celestes são reais, daí surgiu o interesse de investigar a conexão com a mitologia.

Os Planetas
Interessante listar cada planeta seguido de seus mitos associados, veremos a seguir a sinopse de alguns que parecem particularmente interessantes. Nas historias de Lovecraft e Sterling - "In the Walls of Eryx" – se passa em Vênus coberta pela selva, onde o narrador procura por um cristal adorado por venuzianos homens-lagartos, uma possível referência aos povos da serpente de "The Haunter of the Dark" e outras histórias. Vênus é mencionada, assim como Jupiter em "The Shadow out of Time" em que Lovecraft escreve "There was a mind from Venus, which would live incalculable epochs to come, and one from an outer moon of Jupiter six million years in the past." – Muitas das histórias de Clark Ashton Smith são baseadas em planetas, ‘The Door to Saturn’ por exemplo ‘The Vaults of Yoh-Vombis’ que se passa em Marte.
A maioria dos trabalhos de Smith concerne planetas de outros sistemas, por exemplo, em ‘example The Planet of the Dead’ o planeta mencionado ficaria na constelação de Andrômeda. Os planetas que mencionarei no final, parecem ser os pivôs centrais dos mitos de Cthulhu – Yuggoth é sinônimo de Plutão - morada das criaturas fungol que fazem viagens interplanetárias, criaturas que resistem ao Ether.

Kenneth Grant usa Yuggoth como símbolo do limite entre as dimensões, uma idéia expressa pelo poema Beyond de Lin Carter.

"I have seen Yith, and Yuggoth on the Rim,
And black Carcosa in the Hyades.

"É interessante que Carter menciona Carcosa (a invenção de Ambrose Bierce em sua história “An inhabitant of Carcosa”) como se encontrando nas sete estrelas irmãs de Hyades, porque esta área do céu é comentada repetida vezes nos mitos de Cthulhu.

FOMALHAUT (Alpha Pisces Australis)

Este nome como qualquer outro se deriva do árabe. Origina-se de Fum Al Hiiit, que significaria ‘a boca dos peixes’. Não sendo nenhuma surpresa uma vez que essa estrela está localizada em peixes. Interessante que é uma das únicas estrelas nomeadas dessa constelação e pode ser vista da Grã-Bretanha O fato de magnitude inicial nos relatos dos Mitos de Cthulhu é Cthugga com quem é conectada. Cthugga é descrita como uma massa ardente que varia continuamente na forma.

ALDEBARAN (Alpha Tauri)

Aldebaran é geralmente conhecido como “O olho do touro” por causa de sua distinta coloração de cor laranja. Seu nome vem outra vez do árabe, al Dabaran, significando ‘o seguidor '. Isto era devido à opinião dos gregos que a estrela seguiu a Pleiades. Esta estrela é ligada aos mitos de Cthulhu de uma maneira extremamente interessante. A ligação original era com as histórias de Robert William, onde é a estrela do repouso de Hastur.

É considerada por August Derleth a estrela da emanação de algumas forças relacionadas à Cthulhu. Com respeito a isto é interessante citar - The Whisperer in Darkness: “Nyarlathotep, mensageiro poderoso que revela todas as coisas, revelará todas as mascaras e vestes escondidas quando estiverem abaixo dos sete sois... – Robert Graves no livro The Greek Myths Os mitos indicam que o Pleiades e o Hyades eram as sete filhas do Atlas de Titan, fazendo os equivalentes em termos mitológicos. A indicação " The Whisperer in Darkness " mostra claramente um alinhamento com os sete sóis, assim conectando Nyarlathotep à área de influência de Aldebaran. – podendo até comentar que Hastur, o rei amarelo, é uma das formas de Nyarlathotep e de outros. Na história "The Dream-Quest of Unknown Kadath" Nyarlathotep é descrito como o portador da“mascara amarela”.

A historia "The Crawling Chaos" escrito por Lovecraft e Elizabeth Berkeley comenta a destruição da terra através dos Sete sóis, conectando assim Nyarlathotep, como o caos rastejando, como o castigo merecido da terra. Outra observação é que Aldebaran estava uma vez na constelação de Mihras; que consistiu em Tauros e Perseus. Isto conecta a estrela Algol, outra estrela mencionada em "Beyond the Walls of Sleep" escrito por Lovecraft.
ALGOL (Beta Persei)

Esta era uma das primeiras estrelas binárias a serem descobertas: Montanan, um astrônomo italiano, foi o primeiro europeu a criar estudos a cerca das estrelas que piscam. Em árabe o nome é Al Ghtil que significa “O Demônio” mais precisamente “O Ghoul” e em inglês “the demon star”. Originalmente o Algol era uma estrela protetora de Mithras, mas depois veio a representar o olho piscando da malévola Medusa na constelação de Perseus.

BETELGEUSE (Alpha Orion)
A estrela é vermelha, e seu nome deriva de Yad al Jauzah que significa ‘mão do gigante’. Aparentemente o nome deve ser Yedelgeuse, mas soletrados devido à tradução pobre do árabe no latin que se leu errada. Esta estrela encontra-se uns 650 anos luz ausentes de nós e é uma estrela de períodos variáveis, alterando sua luminescência e esvanecendo-se em um ciclo anual. Nos mitos de Cthulhu é considerada como a estrela em que os Antigos governaram.
POLARIS (Alfa Ursae Minoris)
Obviamente o nome demonstra ser a estrela do pólo, e está de fato dentro do pólo norte celestial. Entretanto no grego seu nome é Cynosura, e significa a cauda do cão. Um nome grego mais adiantado uniforme era Phoenice, relacionada possivelmente a Phoenissa, (cujo o nome no masculino é Phoenix). Phoenissa significa “o vermelho”, ou o “sangrento”. Os estudos de Robert indicam-na como interligada com Demeter e Astarte; Phoenix é indicado de forma interessante como o rebatismo da terra de Canaan como Phoenicia, assim produzindo uma outra ligação possível.

A estrela polar estará no seu ponto mais próximo ao norte celestial no ano 2100 e será sucedida então gradualmente pela estrela Vega. Esta procissão parece ser comentada na história de Lovecraft, no poema “polaris”:

"Slumber, watcher, till the spheres,
Six and twenty thousand years
Have revolv’d, and I return
To the spot where now I burn.
Other stars anon shall rise
To the axis of the skies;
Stars that soothe and stars that bless
With a sweet forgetfulness;
Only when my round is o’er
Shall the past disturb thy door."

O uso de termo ‘the axis of the skies’ – a linha central dos céus - no poema é interessante pelo conectar da estrela ao nome árabe Al Kutb al Shamaliyy que significa ‘O eixo do norte’. O texto comenta, também, a cerca de ARCTURUS e SIRIUS. O interessante do texto é a especificação dos sete sóis que dentro do Círculo Iniciático dos Sete Caos são representados por sete alto-sacerdotes capacitados a trabalhar com as forças contidas no Núcleo do Caos. – considerado como sóis negros.

O termo Sol Negro é usado pelo Círculo Iniciático para qualquer pessoa que seja capaz de, através de técnicas relacionadas à projeção astral e através dos Antigos, se projetar e ir de encontro ao Núcleo do Caos, onde não há forma, mas que é a essência da vida; e este é o ponto complicado no processo, mas que uma vez conquistado, o iniciado poderá trabalhar com essa força contida neste Núcleo Caótico, pois em resumo... Ele se torna uma face do Chaos.

O interesse de Lovecraft pela Astronomia

O texto a seguir fez parte da seção de cartas da Revista Scientific American publicada em Agosto de 1906.
"Ao Editor da Scientific American,

Nesses tempos de grandes telescópios e inovadores métodos astronômicos, me parece estranho que nenhum esforço relevante esteja sendo feito para a descoberta de novos planetas além da órbita de Netuno, que nesse momento é considerado o limite mais distante do Sistema Solar. Foi noticiado recentemtne que sete cometas tiveram sua trajetória alterada pela influência orbital de um planeta que estaria a uma distãncia estimada do sol de 100 unidades astronômicas (9,300,000,000 milhas).

Muitos acreditam que tal planeta existe e que ele tenha capturado esses cometas através de sua atração orbital. Isso é possível, uma vez que Jupiter e muitos outros são capazes de alterar as trajetórias de corpos celestiais dessa forma. O escritor comentou a existência de um grande cluster a cerca de 50 unidades, onde pode existir um grande corpo. Se os grandes matemáticos tentarem computar a trajetórias de cometas seu sucesso seria duvidoso, contudo se os observatórios equipados com câmeras celestiais se unissem em um esforço comum para fotografar evidências, assim como fazem os observadores de asteóides, sem dúvida registrariam descobertas em suas chapas. Mesmo que nenhuma descoberta seja feita, as acuradas fotografias obtidas compensariam o tempo e trabalho da despendidos".

A carta é assinada por um certo H.P. Lovecraft de Providence R.I. em Julho de 1906.

O interessante é que esse texto foi possivelmente a primeira carta publicada e assinada por Lovecraft de que se tem notícia. Considerando que ele tenha escrito mais de 100.000 ao longo de sua carreira, não é pouca coisa.

Nessa época, o autor tinha apenas 16 anos de idade e já demonstrava um profundo interesse em astronomia. Segundo biógrafos, Lovecraft ponderou seguir carreira como astrônomo, contudo seus planos esbarraram em três obstáculos intransponíveis: sua pouca intimidade com a matemática, a saúde debilitada (ele lamentava ser incapaz de fazer observações matutinas em virtude do ar frio de Providence) e finalmente a falta de recursos financeiros já que para essa carreira ele teria de se mudar para perto de uma instituição de ensino que oferecesse o curso.

Isso, no entanto, não impediu Lovecraft de obter noções básicas de Astronomia, tendo como tutor o Professor Upton, estudioso que lhe apresentou expoentes no campo como Percival Lowell. Apesar de jovem, Lovecraft, foi contratado para escrever artigos em jornais de Providence a respeito de astronomia.

O interesse de Lovecraft por Astronomia se manifestou mais tarde na sua obra literária. Usando de referências astronômicas, ele apontou o local de onde teriam se originado entidades dos Mitos. Cthulhu por exemplo teria vindo da estrela dupla de Xoth, Cthugha de Formalhaul e assim por diante. "Colour out of Space" também é um conto que demonstra o interesse de Lovecraft na Ciência astronômica. Do ponto de vista técnico, "Colour" possui linguagem e informações astronômicas corretas.

Em "Whisperer in Darkness" (1931), Plutão é apontado como a base de onde viriam os Fungos de Yuggoth (Mi-Go). As estranhas criaturas fungóides, na estória, seriam formas de vida estranhas à nossa realidade, que teriam colonizado o planeta anão e estabelecido lá sua base para propagar-se através do Sistema Solar. Elas chamavam Plutão de Yuggoth, nome recorrente na mitologia lovecraftiana.

Vale a pena lembrar que Plutão havia sido descoberto formalmente apenas em 1930, embora sua existência já tivesse sido proposta por vários observadores entre os quais o próprio Percival Lowell cujas teorias sobre planetas além de Netuno exerceram tanto fascínio sobre Lovecraft.

Na carta que escreveu à Scientific American, ele cobrava uma busca sistemática por planetas além de Netuno, é de se imaginar que a confirmação da existência de Plutão, 24 anos depois, tenha feito Lovecraft se recordar dessa carta escrita ainda em sua adolescência.

De uma forma ou de outra, ele imediatamente incorporou Plutão ao conto "Whisperer in Darkness" demonstrando que seu interesse sobre o tema não havia diminuído.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O Lobisomen - Resenha do filme em cartaz


O Lobisomem é remake do clássico de 1941. Não uma sequência, uma prequel, reimaginação ou transposição para os dias atuais - é um remake no sentido mais puro da palavra. Quase uma homenagem. Muito do que acontece na tela remonta ao filme original, e se você, assim como eu, assistir o primeiro exemplar pouco antes, vai sentir um baita deja-vu.

O filme se passa em Blackmoor, no interior da Inglaterra em 1891. Benicio Del Toro é Lawrence Talbot um ator shakesperiano criado na América, que retorna à casa onde cresceu e à família por ele abandonada. Talbot sempre viveu as turras com o pai, Sir John, interpretado por Anthony Hopkins, e o reencontro abre dolorosas cicatrizes e reaviva trágicas memórias. O retorno de Lawrence é motivado por um pedido de ajuda da noiva de seu irmão, Gwen (Emily Blunt). O irmão desapareceu em uma noite de lua cheia, há cerca de duas semanas, e ela espera que Lawrence possa ajudar a descobrir seu paradeiro.

Logo no início do filme, a platéia já fica sabendo qual foi o destino do sujeito, atacado na floresta por uma besta sedenta de sangue. A sequência de abertura é excelente e já prepara o público para o que está por vir.

O corpo horrivelmente mutilado do irmão não demora a ser encontrado e os boatos sobre uma besta selvagem circulam pelo vilarejo local. Lawrence determinado a descobrir quem ou o que matou seu irmão resolve ficar na propriedade da família. A suspeita principal recai sobre um bando de ciganos acampados na região e seu urso dançarino. As investigações de Lawrence eventualmente o levarão a confrontar os ciganos e a líder deles, Geraldine Chaplin, em busca de respostas.

Não é segredo para ninguém (de modo que não se pode considerar Spoiler) que Lawrence acaba sendo vítima do lobisomem. Também não é segredo qual a sina dos infelizes que são feridos por esse monstro e sobrevivem. Como ocorre no filme original, Lawrence lentamente começa a compreender o que aconteceu e se vê dividido entre o desejo de viver e a vontade de destruir aquilo em que se tornou.

Um dos méritos do filme é encarar a licantropia como uma maldição. Não há nada na condição de Lawrence que lhe seja benéfica. mesmo a descoberta de que desenvolveu sentidos sobre-humanos ocorre com um incômodo. Seu sofrimento só não é maior que seu repúdio pela selvageria que o domina quado surge a lua.

Os camponeses, conhecedores das lendas sobre lobisomens, passam a temer Lawrence, que fica sob os cuidados do misterioso pai e de Gwen por quem desenvolve uma crescente atração. Para investigar as horríveis mortes, chega a Blackmoor o meticuloso detetive Abberline, da Scotland Yard (Hugo Weaving). Se o nome pareceu familiar, é porque se trata do detetive que na vida real foi responsável pela investigação dos crimes de Jack, o estripador (e que foi recentemente interpretado por Johnny Depp em Do Inferno).

Abberline, um homem prático e acima de tudo cético, recusa as explicações dos camponeses e não acredita no sobrenatural, para ele as mortes são o trabalho de um maníaco que precisa ser capturado e tratado por especialistas.

Em meio aos acontecimentos, a ação do filme acaba sendo transferida das escuras florestas do interior da Inglaterra para as ruas (ainda mais escuras) da Londres Victoriana. No final, porém, o atormentado Lawrence será guiado de volta ao berço de sua família onde revelações chocantes sobre o passado dos Talbot o aguardam.

O filme é dirigido por Joe Johnston que tem no currículo como obras mais expressivas Jumanji e a terceira parte de Jurassic Park. Mas não resta dúvida que ele fez um bom trabalho de resgate da essência dos filmes de Horror Gótico. Se o seu objetivo era homenagear o filme original e os clássicos de terror da Universal, ele conseguiu. Fosse o filme em preto e branco seria possível até convencer como um filme de época (exceto é claro pelos efeitos especiais muito superiores).

O elenco ajuda a dar credibilidade ao filme. Del Toro tem uma boa atuação pautada em cima do horror experimentado pelo personagem a medida que ele vai sofrendo sua transformação. Emily Blunt também tem um desempenho sólido, embora o puritanismo da época tenha sido ignorado para transformá-la no interesse romântico do protagonista antes do corpo de seu noivo esfriar.

Confesso que esperava bem mais de Anthony Hopkins, como o patriarca dos Talbot. Ele parece no piloto automático e mesmo nas cenas mais dramáticas, deixa a desejar em motivação. Quem espera uma atuação marcante, semelhante ao Van Helsing de Dracula de Bran Stoker, pode sair um pouco decepcionado. Com, Hopkins meio sonolento, Hugo Weaving (para sempre o Agente Smith de Matrix) aproveita para roubar a cena. Seu detetive Abberline, não cai na armadilha de tentar ser mais mal do que o monstro. Ele não é movido pela vingança ou obceção e sim pelo desejo de compreender o que está acontecendo e provar a si mesmo que tudo tem uma explicação lógica.


Quando se fala em filmes de Lobisomem, imediatamente o que vem à mente é o monstro. Dizem que Benício Del Toro, um fã incodicional do clássico, lutou com unhas e dentes para que a maquiagem do filme se espelhasse na que Lon Channey utilizou originalmente. E realmente o resultado está muito mais para o filme da década de 40, do que para os lobisomens vitaminados de Van Helsing ou da série Underworld.

A equipe de maquiagem foi chefiada por Rick Baker, um dos maiores craques no que diz respeito a criar monstros apavorantes e que tem em sua prateleira um Oscar por outro filme de homens que viram lobos, o cultuado "Um Lobisomem Americano em Londres". A longa e dolorosa sequência de transformação do personagem de humano para monstro, é um dos pontos altos do filme. O mérito de Baker é recorrer muito mais a truques do que a animação de CGI. O resultado consegue ser igualmente apavorante e realista.
Embora um tanto picadas e escuras, as cenas de ação empolgam, mesmo quando recorrem ao clichê de mostrar a câmera como se fosse os olhos da criatura caçando. As cenas de caçada na floresta e depois nas ruas e nos telhados de Londres, fazem contraponto com as sequências mais lentas entre uma transformação e outra. O uivo da criatura, usado repetidas vezes também é um trunfo muito bem explorado pelo diretor.

Mas nem tudo são flores: eu senti falta de sustos legítimos. Do tipo que coloca você na ponta da poltrona e faz com que você olhe para o lado preocupado. São poucas as cenas dessa natureza, o que é meio frustrante, sobretudo em um filme de horror gótico.

Já quem gosta de sanguinolência não vai ficar decepcionado, não faltam mutilações e decapitações providenciadas pelas afiadas garras e presas da criatura. Um dos meus temores era que o filme pouparia a platéia dessas cenas a fim de se encaixar numa faixa etária mais juvenil. Felizmente, não é esse o caso, quando o lobisomem ataca, o resultado não é nada bonito. E não poderia deixar de ser assim... afinal lobisomem é sinônimo de ferocidade.

Da mesma forma não é bonita a transformação do homem em besta. Desde o já citado "Lobisomem americano" não se via uma cena de transformação tão impactante (com destaque para as mãos se convertendo em garras).
O Lobisomem é um filme muito bem feito, divertido e sem compromisso. Ótimo programa para um sábado chuvoso. Ele não consegue repetir o espetáculo que é Drácula de Bran Stoker, mas não comete os enganos de Frankenstein de Mary Shelley, ambos filmes realizados no mesmo espírito de render tributo aos clássicos em preto e branco da Universal.

Em uma época em que bobagens para adolescentes, tentam reconstruir os mitos dos monstros clássicos, o Lobisomem aparece disposto a lutar ferozmente para manter o gênero vivo.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Dagon - A Transição de Deus Semítico a Horror Lovecraftiano

Dagon foi um Deus Semítico, uma entidade citada no Velho Testamento devotada ao plantio e agricultura, de particular importância para o povo conhecido como filisteus. É claro, Dagon assumiu uma face bem mais sinistra de acordo com a mitologia de Lovecraft. A nefasta entidade figura em duas estórias clássicas: Dagon e A Sombra sobre Innsmouth. Ele é o Senhor dos Deep Ones, uma raça de criaturas meio-homem, meio-peixe. Criaturas que veneram o Grande Cthulhu e que habitam as profundezas dos mares e que tem o incômodo hábito de sequestrar humanos e submeter fêmeas a miscigenação.

Mas como se deu a transição de Dagon, de Deus dos Filisteus para Horror Lovecraftiano?

O Dagon histórico era uma das principais divindades dos filisteus, povo cujos ancestrais migraram de Creta para a costa da Palestina. Ele era um deus da fertilidade, da abundância e das colheitas. Quando ele estava satisfeito contemplava seus seguidores com colheitas abundantes que mantinham longe as privações. Dagon também figurava em conceitos de vida após a morte.

Os Filisteus eram originalmente devotos da Grande Mãe, mas adotaram o culto de Dagon após a invasão de Canaan em 1137 AC. No panteão cananita, Dagon era o pai de Baal e só estava abaixo de El, o Deus Supremo daquele povo. Há registros de seu nome datando da terceira dinastia de Ur, cerca de 25 séculos antes de Cristo.

A iconografia, representa Dagon como uma entidade marinha tendo a parte superior do corpo de homem e da cintura para baixo, sendo peixe. Em outras representações ele é um homem com o corpo coberto de escamas, capaz de respirar, e assim viver no fundo do mar.

Mas porque uma divindade ligada aos campos e plantio seria associada ao mar?

Sempre houve muita controvérsia sobre esse tema. Historiadores acreditam que a associação se deu pelo nome Dagon derivar da palavra hebraica dâg, que significa peixe. A partir de seu nome, Dagon teria ganho o status de entidade marinha.

Alguns estudiosos, no entanto, defendem que Dagon só ganhou uma representação aquática, a partir do momento em que ele passou a ser intimamente associado a deusa Derceto, esta uma entidade que reinava sobre os rios e lagos e que era retratada com o corpo de peixe. Quando Dagon se tornou consorte de Derceto, ele também passou a ter feições marinhas e teria ganho recebido o domínio sobre os mares.

A imagem de Dagon na forma de homem-peixe, porém não é unânime. Existem moedas e documentos em que Dagon é representado como uma divindade terrestre, sem qualquer conotação marinha.

Outra possibilidade é que Dagon tenha sido associado ao mar pelos Fenícios, um povo com longa tradição náutica, que passou a adorar o deus na época em que se lançaram em incursões pelo Mediterrâneo. Os fenícios, teriam transformado a entidade no patrono de suas viagens através de águas desconhecidas e mares perigosos. Há registros que citam os fenícios realizando sacrifícios de animais atirados ao mar para garantir assim a benção de Dagon.

A adoração de Dagon foi bastante evidente na antiga Palestina. A religião era a proeminente em cidades como Azotus, Gaza e Ashkelon. Os filisteus dependiam de Dagon para o sucesso em suas colheitas, mas rendiam a ele homenagens também em tempos de guerra. Para agradá-lo, ofereciam sacrifícios de animais e orações em seus grandes templos. Seus sacerdotes usavam trajes cerimoniais com escamas prateadas e grandes mitras na cabeça. Para seus deveres sagrados usavam bacias de metal e facas curvas empregadas nos sacrifícios.

O culto de Dagon permaneceu ativo até o século segundo da era cristã quando o templo de Azotus foi destruído pelos macabeus. A partir de então a religião de Dagon começou a ser substituída por outras crenças introduzidas pelos povos conquistadores.

Os filisteus são citados em várias oportunidades na Bíblia, retratados como inimigos mortais do povo hebreu e uma constante ameaça à Israel. Segundo o Livro de Samuel, a vitória sobre os Fariseus era essencial para o estabelecimento do povo de Deus. Não é estranho portanto que essa religião tenha motivado severas críticas da parte dos autores bíblicos.

Lovecraft escreveu Dagon logo no início de sua carreira, no ano de 1917. A inspiração, segundo ele, veio de um sonho: "Eu sonhei com algo repulsivo, e ainda posso sentir aquela coisa me puxando para baixo da superfície". Lovecraft pode ter se inspirado também no conto "Fishead" de Irving Cobb que trata de seres míticos metade homem, metade peixe.

Em "Dagon", Lovecraft não deixa claro se o monstro é realmente a entidade semítica venerada pelos filisteus. Não há alusão alguma nesse sentido, além da coincidência dos nomes.

Na mitologia Lovecraftiana, entretanto, existe a idéia que muitos deuses e entidades da antiguidade seriam na verdade criaturas dos Mitos. Nesse contexto, Dagon, o monstro marinho, seria a verdadeira face do Deus semítico.

Contudo, também existe a possibilidade de Dagon ser uma entidade inteiramente diferente do mito filisteu. Uma abominação como tantas outras com um nome impronunciável conhecido apenas pelos Deep Ones.

O nome Dagon nesse caso teria surgido apenas quando cultistas humanos passaram a venerá-lo e buscaram na antiguidade algum personagem mítico com o qual pudessem identificá-lo. A figura de Dagon então se encaixaria perfeitamente como entidade análoga por ser uma divindade dos mares meio homem, meio-peixe.

Essa teoria ganha força quando lembramos dos cultistas de Innsmouth em "A Sombra sobre Innsmouth" (1936), a segunda obra a citar Dagon. Nesse conto, os membros da decrépita Família Marsh e da Ordem Esotérica de Dagon, usavam a indumentária de culto, composta de manto e mitra, que remontava aos trajes dos sacerdotes do mundo antigo, com suas bacias metálicas e adagas curvas. É possível que toda a Ordem Esotérica tenha baseado seus rituais no velho culto filisteu.

Lovecraft jamais deixou clara a origem de Dagon ou qual seria a sua intenção ao nomear a criatura um homônimo da divindade semítica. Como muito de sua obra, os Mitos, em mais de um aspecto, permanecem como um mistério. Insondável, inumano, imutável.

E assim para sempre devem continuar.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Tatters of the King - Bastidores da Campanha

Bom, a campanha Tatters of the King, que eu vinha mestrando no último ano e meio finalmente chegou ao fim.

O Mundo foi salvo, os investigadores frustraram os planos macabros dos cultistas do Rei Amarelo na Grã-Bretanha e na India, derrotaram um complô que ameaçava a humanidade, mataram os líderes e tiveram até de lidar com a aparição de divindades.

Tudo isso com um grande sacrifício por parte do grupo de investigadores: morte, insanidade e horrores estiveram presentes ao longo de toda campanha. Nessa última aventura então, a coisa quase degringolou: tivemos nada menos que seis mortes de personagens (sorte que cada um do grupo possuía dois investigadores).

Três deles foram massacrados por uma horda de Tcho-Tchos (armados com machadinhas, zarabatanas e lanças), um foi rasgado por uma magia chamada Eviscerate que literalmente expôs suas entranhas, um foi envolvido (e consumido) no manto do próprio Rei Amarelo, impaciente com a indecisão do grupo e o último acabou aceitando se sacrificar para salvar a Terra, afastando a ameaça amarela das escadas de Leng.

Mas como foram os bastidores da Campanha?

As fotos abaixo dão uma idéia do que aconteceu durante a campanha iniciada em Agosto de 2008 e concluída em Novembro de 2009 (eu sei, só agora tive tempo de organizar as coisas)
Pouco antes do pessoal chegar para a derradeira sessão. A mesa de jogo arrumadinha aguardando as vítimas... quer dizer, os valorosos investigadores.
Enquanto o grupo não chega, o Keeper vai se preparando, recebendo algumas sugestões e conselhos de última hora de uma fonte confiável.
Vamos ouvir em primeira mão o que ele tem a dizer:
TOTAL PARTY KILL!!!! ("Mate o grupo todo"). Esse Cthulhu é um fanfarrão...
Na primeira sessão de Tatters of the King, em Agosto de 2008. O grupo ainda animado: cheio de sanidade, esperança e saúde se prepara para comparecer a estréia da peça "A Rainha e o Estranho" que dará início ao pesadelo.
Alguns meses depois. Keeper que é keeper veste o uniforme do time que está ganhando ainda mais quando joga em casa. Na ocasião, os investigadores iam explorar Carcosa. Em Tatters of the King, amarelo é a cor do terror.
Na mesma sessão, o grupo confabula a respeito de qual seria a melhor maneira de explorar a mítica cidade de Carcosa. Esse foi o cenário que fechou a primeira parte da campanha.
O grupo depois de um desagradável pesadelo envolvendo o Rei Amarelo, logo na aventura inicial da Segunda Parte do Livro.

Cthulhu como sempre estava presente. (Devore as almas deles, devore a alma deles...)
Um momento de descontração pouco antes do grupo topar com um Dark Young of Shub-Niggurath nas escuras florestas do Severn Valley. "Corram para a cidade!", e alguém responde em tom apavorado: "Putz... para Goatswood?!? Tá brincando?"

Os valentes investigadores lêem os Handouts e se preparam para prosseguir na investigação na India. Nessa sessão, Carolyn Elizabeth Saunders (personagem da minha amada esposa, Laura), morreu atacada por uma cria da Deusa Aranha Atlach-Nacha... e eu quase tive de dormir no sofá da sala.
A vida é dura para o Keeper...
O grupo se empenha em invadir as Ruínas de Kanheri onde os diabólicos Tcho-Tcho aguardam.

Melhor frase da sessão: "India, é? Cacete, todo mundo lá deve ser cultista!".

Segundo melhor diálogo: "Vamos deixar esse indiano esquisito ficar sozinho com os outros?"
"Eu sou indiano!" responde o jogador de Arjuna Singh Prajarayaran
"Tudo bem mas você é o nosso indiano!"
O grupo finalmente recupera os importantes documentos de Prana Gundaki que fornecem informações vitais sobre os planos de Malcolm Quarrie e o envolvimento da temida tribo Tcho-Tcho. A expressão sombria do Rodrigo enquanto a Laura lê o Handout demonstra que a coisa vai ficar feia.

O que ele estaria pensando?

a) Essa não, Tcho-Tchos....
b) Porque Deus? Porque?
c) Ferrou, além de Hastur ainda tem Atlach-Nacha e cultistas Tcho-Tcho.
d) Não pense no nome Hastur, não pense no nome Hastur, não pense...
e) Quanto será que está o jogo do Vasco?
Em um momento inusitado na última sessão, os Tcho-Tcho em número muito superior cercam o acampamento dos investigadores. O grupo reage de forma valente, lutando sem parar... é então que os Tcho-Tcho dão uma de criança que nao sabe brincar e invocam criaturas dos Mitos.

Um certo traíra do grupo não perde a chance:

"Eu me rendo! Viva Hastur! Salve Hastur!"

Pouco depois, o personagem, William Murdoch (que já havia sofrido a atrofia no braço e perna esquerdos) morreria vítima dos sanguinários feiticeiros Tcho-Tcho.

Ao menos sua segunda personagem, a psiquiatra Sarah Sterne sobreviveu. Embora ele próprio tenha dito que pensou no suicídio da personagem quando ela caiu prisioneira da tribo selvagem.
Após a captura pela tribo Tcho-Tcho, Paulo, percebe que a dieta dos selvagens é rica em proteínas e que sua personagem, a repórter Lydia Barker, morta durante o ataque ainda terá a chance de participar do jantar... como prato principal!
O mágico Alan Morrison teve que fazer milagre para escapar da ira do Rei Amarelo. Ainda mais depois que ele adquiriu uma obsessão pela entidade e o desejo de servi-lo. Morrison sobreviveu aos horrores do Plateau de Leng, mas é possível que ele mesmo em um futuro próximo se torne um cultista.
E agora, Max? Pietro Albertinni vai discutir a questão dos trabalhadores oprimidos pelo Império Britânico com Malcolm Quarrie?

Contrariando todos os prognósticos, o revolucionário anarquista italiano (com fortes tendências piromaníacas) acabou sobrevivendo à Campanha. O que é impressionante, visto que o próprio grupo cogitou matá-lo em mais de uma oportunidade.

Enquanto isso o autor Audrey Howard teve sua alma drenada pelo próprio Rei Amarelo após um caloroso abraço em seu manto amarelo.

Durante a sessão os jogadores coocaram à prova rituais de proteção e superstições com o intuito de sobreviver à terrível provação.

Infelizmente o guarda chuvas não se mostrou um amuleto de proteção muito adequado para os personagens do Job.

O pianista irlandês Patrick O´Malley conseguiu sobreviver, mas o encontro com o Rei Amarelo terminou por drenar seus últimos pontos de sanidade.

Já o Diletante indiano, Arjuna Singh Prajarayaran desapareceu depois de aceitar escoltar o Rei Amarelo para longe da Escadaria dos 300 degraus que liga o famigerado Plateau de Leng ao nosso Mundo. Ao menos assim o mundo foi salvo...

Bem, feito, quem manda fazer personagem com nome impronunciável!
A derradeira sessão deu a oportunidade ao keeper de fazer rolamentos bem interessantes. Não é todo o dia que a gente pode, afinal de contas, rolar o dano para magias tão destruidoras quanto Explode Heart ou Eviscerate. Com tantas opções me senti uma criança na loja de doces.

Repare no olhar sádico antes de rolar o dado e decidir quem receberia a sórdida magia.

Durante o combate final, a medida que o grupo ia sofrendo baixas, os jogadores sentiam que as coisas ficavam cada vez mais desesperadoras.

O destino da Campanha nas mãos dos jogadores.

Laura estava controlando o detetive particular Nathaniel "Nate" Davemport, morto pela magia Eviscerate e o poeta Noah Linner, assassinado por uma machadinha Tcho-Tcho nas costas.
Desculpe Icarus, próxima vez não falte a sessão final!

Observem a esperança da Laura ao consultar o dano do Rifle que seu novo personagem, o soldado Gurkha Dewan Bahadur, causava: "Nossa! 2d6 +4, é isso mesmo?"

E vejam a expressão da pobrezinha ao descobrir que nem mesmo esse dano era capaz de arranhar as escamas de uma criatura dos Mitos que ameaçava o grupo.

Depois dessa carinha triste eu cheguei a ficar com pena...
...mas não por muito tempo!

Monstros bizarros, criaturas de pesadelos, entidades de poder incalculável, aranhas gigantes, cultistas sedentos de sangue, feiticeiros maníacos... não faltaram desafios para o grupo em Tatters of the King.
Foi uma campanha longa mas muito divertida.
Espero que o grupo tenha se divertido tanto quanto eu.


Até a próxima campanha, pessoal.