terça-feira, 20 de julho de 2010

The Midnight Meat Train - Resenha do Filme baseado no conto de Clive Barker

The Midnight Meat Train é um daqueles filmes que se propõem ser uma "jornada rumo ao inferno".

A estória se passa em Nova York onde o fotógrafo freelance Leon Kauffman (Bradley Cooper) vive com sua namorada a garçonete Maya Jones (Leslie Bibb). Leon ganha a vida tirando e vendendo fotos escabrosas de crimes violentos e acidentes ocorridos nas ruas da cidade. Ele é apresentado a uma influente artista (Brooke Shields) que se mostra pouco impressionada pelo seu trabalho. Provocado a encontrar algo verdadeiramente chocante que justifique uma exposição, Leon passa a buscar alguma inspiração. Sua busca eventualmente o leva até o sistema de metrô de Nova York onde uma modelo desapareceu sem deixar vestígios. Investigando os eventos por trás do desaparecimento, o fotógrafo descobre apavorantes assassinatos cometidos por um serial killer (Vinnie Jones) que usa o metrô nos violentos crimes.

Dirigido pelo cineasta japonês Ryuhei Kitamura, Trem da Carne da Meia-Noite é baseado em uma estória curta de mesmo nome escrita pelo britânico Clive Barker. O conto foi publicado originalmente em 1984 no primeiro dos seis volumes da coleção Livros de Sangue. Quem leu o conto original (publicado aqui no Brasil na década de 90 pela Editora Civilização Brasileira) sabe que existem diferenças entre o enredo acima e o conto original. Mas isso é até justificável já que o roteirista teve de preencher uma hora e quarenta minutos a partir de uma estória de 20 e poucas páginas.

No conto Nova York é atormentada por uma série de assassinatos e um infeliz acaba sendo arrastado para o meio deles inadvertidamente ao cochilar no trem. Já no filme, o fotógrafo encontra o que estava procurando, uma estória, embora jamais pudesse imaginar no que realmente estava se metendo. Em comum a reviravolta final que explica qual o verdadeiro propósito do assassino e para onde vai o misterioso trem da carne qe transporta suas vítimas.

Sem estragar a diversão de quem não viu o filme ou leu o conto, o que posso dizer é que existe algo levemente Lovecraftiano no final, ainda que nem o conto e menos ainda o filme se refiram diretamente aos mitos ancestrais. Quando li o conto achei bastante interessante e fiz algumas anotações para transformar a estrutura central da trama em um cenário de Call of Cthulhu, mas infelizmente ele nunca saiu do papel. Uma pena, pois agora que meu grupo assistiu o filme as chances de trasformar ele em uma aventura são quase nulas. Ainda assim é interessante assistir o filme para tirar umas idéias nem que seja para inspirar algumas descrições sanguinárias.

Qualquer um que assistir ao trailer terá uma boa idéia do que trata o filme: um serial killer com uma marreta matando gente no metrô. Até aí, grande novidade! O que realmente vale a pena são os 20 minutos finais que inserem um novo e dantesco significado ao sanguinário trabalho do solitário personagem de Vinnie Jones. Curiosamente muita gente se queixou justamente do final atípico que foge ao padrão de filme de matador psicótico. Quem é familiarizado com os horrores de Lovecraft, vai entender e aceitar melhor algumas coisas que ficam em aberto no transcorrer do filme. Eu pessoalmente gostei, ainda que na versão literária as coisas sejam conduzidas de uma forma mais satisfatória.

O filme têm um bom ritmo e os elementos de mistério são suficientes para manter quem assiste intrigado e curioso para saber o que virá em seguida e como as coisas vão terminar. Não se trata de um clássico, mas para uma tarde de chuva o filme cumpre seu propósito sobretudopara quem for assisti-lo sem muita espectatíva (como eu!).

Ah sim, aqui vai um justo aviso. Trem da Carne possui algumas cenas bastante chocantes que vão agradar ao pessoal do quanto mais sangue melhor, mas que podem incomodar quem é mais sensível. Francamente, quem aluga ou compra um filme com esse título deveria estar preparado para ver sangue, morte e mutilação. As cenas dos assassinatos são extremamente gráficas e executadas com um estilo perturbador recorrendo a ótimo enquadramento e ângulos. Eu chamo a atenção para a cena em que um infeliz leva uma martelada na parte de trás da cabeça e os olhos literalmente pulam fora. Fora isso ainda existe espaço para sangue correndo em profusão, ganchos de carne usados para pendurar cadáveres, um tiro no olho, empalamentos, facadas, línguas arrancadas e outras cenas brutais executadas com equipamento de matadouro.

Com um orçamento estimado em US$15 milhões, The Midnight Meat Train não chegou a ser apresentado em cinemas, tendo sido lançado diretamente no mercado de DVD. Não deixa de ser uma pena, pois embora seja um filme de horror menor, recheado de gore, a trama é bem razoável e as atuações seguras com destaque para o matador interpretado por Vinnie Jones.

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As criaturas no final do conto, os canibais Patriarcas que incumbem Mahogany de trazer-lhes carne ao meu ver tem uma clara inspiração lovecraftiana. Não sei até que ponto Barker se inspirou nos ghouls ao escrever esse conto mas a representação daqueles humanóides canibais vivendo nos túneis do metrô remetem quase que imediatamente a esses monstros.

Ausente no filme, mas presente no conto, os Patriarcas serviam a uma entidade tenebrosa e bizarra que vivia nas profundezas da cidade. As mortes (e a carne) das vítimas segundo o conto eram usadas como sacrifício para que essa aberração (um Great Old One???) não destruísse a cidade e permitisse que Nova York se progredisse. Eu até entendo que essa parte tenha sido limada do filme (afinal, colocar um monstro no final deixaria as coisas ainda mais bizarras) contudo no livro a explicação da tarefa do assassino e da razão de ser dos Patriarcas ficou muito bem explicada.

O filme é até legal, o conto no entanto é bem melhor. Barker sabe como ninguém descrever coisas estranhas, bizarras e perturbadoras.

Trailer:



sábado, 17 de julho de 2010

L´Empire de la Mort - As Catacumbas de Paris

por Jeff Belanger
traduzido e comentado por LP Giehl

"Avez-vous vu un fantôme?" eu perguntei ao homem na entrada no meu melhor francês, se ele já havia visto um fantasma. "Je ne sais pas," ele respondeu. O sujeito sorriu e deu de ombros. Na semana passada, passei três dias em Paris, e tive a chance de visitar as Catacumbas. Eu sabia que existiam ossos guardados em túneis abaixo da cidade, mas eu não estava preparado para descobrir quantos. Eu estava pronto para ouvir relatos a respeito de sombras se movendo e vozes fantasmagóricas se erguendo das entranhas de Paris, mas eu não preparado para a forma como a experiência fez com que eu me sentisse.

As Catacumbas de Paris são uma rede de túneis e cavernas que se estendem por mais de 300 quilômetros sob a cidade. Para construir uma cidade, você precisa de material. Os romanos foram os primeiros a retirar pedras do subsolo em meados de 60 A.C. A medida que a cidade crescia e cobria a paisagem de casas e ruas, mais e mais matéria prima se fazia necessária. Em 1180, Philippe-Auguste se tornou o Rei. Ele foi um dos maiores defensores da exploração de pedreiras na área subterrânea de Paris. Foi em seu reinado que o complexo realmente nasceu.

Nota 1 - O Monarca desejava construir muros cercando a cidade para protegê-la de invasores. Esses muros construídos com o material retirado dos subterrâneos ainda existe no entorno da parte histórica de Paris e praticamente todo o material foi retirado do subsolo de Paris.

As pedreiras subterrâneas cresceram em tamanho e complexidade produzindo material usado nas construções ao longo dos séculos vindouros. A retirada de material prosseguiu sem maiores cuidados até que os primeiros problemas começaram a surgir. No século XVIII, Paris continuava crescendo e o peso das construções passou a constituir um grave perigo uma vez que elas estavam edificadas sobre cavernas ocas.

Alguns prédios começaram a ruir e desabar nas cavernas que existiam abaixo deles. Em 4 de Abril de 1777, a Inspection Générale des Carrières foi formada para lidar com o problema, preencher ou lacrar os trechos onde havia maior risco de desabamento.

Foi mais ou menos nessa época que um segundo problema começou a atormentar os parisienses -- os cemitérios da cidade estavam lotados... realmente lotados. O Cimetière des Innocents (Cemitérios dos Inocentes) sozinho comportava trinta gerações de restos humanos. Taara, é a responsável pelo Web Site a respeito das Catacumbas. Ela contou que, "Familias costumavam pagar aos párocos para enterrar seus mortos no terreno das igrejas. Os padres aceitavam o dinheiro, mas logo não havia mais espaço para colocar os corpos. Então os religiosos decidiram criar um a espécie de depósito para os mortos que ficaram conhecidos como "charnier' [mass grave = cova comum]. Os cadáveres eram ali colocados, todos juntos num único e grande buraco cavado."

Nota 2 - Na época, poucos corpos eram colocados em caixões, pois poucos podiam arcar com esse luxo. A maioria dos cadáveres eram envolvidos em um saco de tecido cru que era então costurado. Sob os corpos era aplicada uma camada de cal virgem para ajudar na desintegração da carne fazendo com que restasse apenas os ossos.

"A medida que a cidade emergente cercava os cemitérios, não havia mais lugar para enterrar os mortos senão uns por cima dos outros. Em Cemitérios como o dos Inocentes, que continuavam recebendo cadáveres, o chão se elevava a até três metros de altura com a quantidade absurda de corpos ali depositados. O fedor era um tormento para aqueles que viviam nas proximidades. Em tempos de chuvas, as coisas eram ainda piores: as enchentes arrastavam corpos apodrecidos para as ruas. Doença e pestilência proliferavam entre os residentes dessas regiões".

Nota 3 - Paris é abastecida por rios subterrâneos e fontes de água naturais. O material depositado nos cemitérios contaminava o suprimento de água e era responsável por inúmeras doenças além da prolieração de ratos.

A decisão de esvaziar os cemitérios não foi muito popular, mas foi a medida necessária para salvar Paris de seus mortos. O local escolhido para depositar os restos foi o sistema de túneis que também constituía uma ameaça para a cidade. A medida resolveria ambos os problemas. Em 1785, os ossos começaram a ser movidos para os subterrâneos em massa, as velhas pedreiras se tornaram seu local de descanso.

Nota 4 - Encontrei uma descrição bastante mórbida sobre como os ossos eram transportados do cemitério para as catacumbas. Eles eram levados em grandes carroças cobertas com uma lona preta, sempre à noite, pois ninguém queria topar com essas carroças e seu conteúdo assustador. Os Parisienses acreditavam que se uma dessas carroças parasse ou quebrasse em frente a uma casa, era sinal de que alguém ali morreria em breve.

A primeira pedreira que recebeu os ossos ganhou o nome de 'Carrière de la Tombe Issoire.' Perturbar os mortos é um tabu universal. Muitas culturas acreditam que os mortos devem ser deixados em paz, e muitas religiões prestam rituais e cerimônias visando garantir um lugar de descanso para seus entes queridos. Entretanto, os vivos tem preferência.

Nota 5 - Antes dos restos começarem a ser transportados, seis padres responsáveis por paróquias próximas foram convocados para rezar uma missa coletiva no local onde os ossos seriam depositados. As passagens das cavernas foram abençoadas e até mesmo uma carta do Bispo de Paris foi escrita para tranquilizar as pessoas de que o trânsito dos ossos não importava em heresia. Os mais supersticiosos temiam que o Paris fosse amaldiçoada pelos mortos e muitos habitantes se mudaram da cidade.

Em um ensolarado dia de outono, eu visitei o museu da Catacumba localizado em Denfert-Rochereau na seção Montparnasse de Paris. Por cinco Euros, eu pude descer e explorar as catacumbas. Desci 130 degraus e uma rampa em espiral que me conduziu à 20 metros abaixo da superfície. Primeiro encontrei duas salas cheias de fotografias com imagens de antigos rabiscos deixados nas paredes desde a criação dos túneis.

Nota 6 - Esses rabiscos e pichações são bastante curiosas e algumas fazem parte da exposição do museu. Ao longo de sua existência esses túneis foram usados como esconderijo de bandidos e como morada de vagabundos. No romance de Victor Hugo, "Les Misérables" o complexo é citado, o escritor teria visitado os túneis várias vezes.

Após passar pelas duas pequenas salas, eu realmente adentrei as Catacumbas. O teto nos túneis é rebaixado variando entre 1,80 e 3,20 de altura. A iluminação é bem fraca, mas meus olhos se ajustaram rapidamente. Poucas pessoas visitavam o lugar na ocasião. Eu passei por um jovem casal que carregava uma lanterna elétrica e lançava a luz para apreciar os cantos. Eu observei a textura e contornos das paredes e ouvi o som do cascalho sob a sola de meus sapatos. O único som ocasional era o drip-drip vindo de algum lugar ao meu redor -- parte do teto coleta água, e quando o acúmulo se torna pesado acaba pingando no chão.

Vi alguns entalhes e graffiti cobrindo as paredes mas não consegui ler, mesmo assim segui em frente. O túnel fez uma curva de 90-graus para a direita, e resolvi andar mais rápido. Parecia que eu estava em um túnel normal, nada mais. Comecei a imaginar se estava no lugar certo. Depois de mais alguns túneis, para a direita e esquerda, eu me aproximei de um pilar pintado emoldurando uma estreita abertura. Ali havia uma placa onde se lê: Arrete! C'est ici L'Empire de la Mort -- "Pare! Este é o Império dos Mortos."

Nota 7 - Essa placa foi colocada pelas autoridades de Paris para afastar os curiosos antes do complexo ser aberto para a visitação pública. O local se tornou uma "atração turística" a partir de 1867, mas mesmo antes disso ele era procurado por curiosos. A morte e as vissicitudes da condição humana sempre atraíram público. O complexo fechou temporariamente em 2009, após um incidente de vandalismo, mas foi reaberto no mesmo ano por clamor da população.

Em virtude da diferença entre a luminosidade do túnel onde eu estava e da câmara adiante eu não conseguia enxergar direito o lugar. Fiz uma pausa e lentamente entrei no Ossuary of Denfert-Rochereaux.

Nota 8: O nome original da entrada para as Catacumbas era "Porte d'Enfer" (Ou Portão do Inferno), ele foi mudado no século XVIII. O nome é curiosamente anterior a utilização dos túneis como ossuáro.

A passagem do corredor tem algo entre 1,80m e 2,30m de largura e as paredes possuem pilhas de ossos e crânios. Na entrada essas pilhas de ossos chegam a 1,20 de altura. As órbitas vazias dos crânios saúdam quem entra. Já dentro da sala eu parei para olhar ao meu redor. Ossos recobriam toda a superfície da câmara, nada a não ser ossos e crânios até onde a escuridão do túnel, permitia a vista alcançar. Dentro da Catacumba inteira, existem mais de seis milhões de cadáveres -- apenas os ossos. Não sei dizer ao certo quantas milhares de pessoas estao depositadas no trecho de 1,7 quilômetros abertos a visitação pública. Em diferentes seções, os crânios formam padrões de cruzes feitas de crânios, corações, arcadas, e outras formas geométricas.

Nota 9 - Além dos restos mortais, os primeiros arquitetos da cripta usaram as lápides dos cemitérios para guarnecer as paredes e o piso, mas estas foram retiradas na época da Revolução Francesa (1789) para serem reutilizadas. Casos de roubos nas catacumbas são relativamente raros, embora ossos tenham sido alegadamente surrupiados por estudantes de medicina no século XVIII e XIX.

As pilhas de ossos são intrincadas, simétricas e extremamente macabras. Eu tentei imaginar como as pessoas que empilharam aqueles ossos devem ter se sentido. Despejar milhões de restos humanos em um túnel 20 metros abaixo do chão não me parece algo muito respeitoso. Talvez o trabalho meticuloso em arranjar os restos em um padrão quase artístico tenha sido a maneira com a qual os operários concederam alguma dignidade e beleza aos mortos.

Nota 10 - Muitos dos operários que trabalharam nas Catacumbas, tiveram garantido o direito de serem enterrados em cemitérios normais. Alguns poucos, no entanto, pediram que seus restos fossem colocados nas catacumbas. Os últimos cadáveres transferidos para o subterrâneo de Paris foram os indivíduos mortos nos distúrbios da Place de Grève em 1788.

O lugar que eu visitei era o Museu oficial da Catacumba -- os túneis mais adiante estão fora da rota de visitas, pois os turistas podem se perder ali dentro. Os 1.7-quilômetros que se estendem a partir do museu oferecem uma visão de apenas uma pequena fração do que é o sistema de túneis. Há ossos depositados em outras seções também. Taara contou que, "nas catacumbas fechadas, os ossos não se encontram depositados como nos túneis abertos à visitação. Eles não são tão organizados. Os ossos são simplesmente acumulados ao longo das galerias. Então você tem que rastejar e andar sobre eles. É uma sensação muito estranha, mas depois que você se acostuma, não é muito diferente de andar sobre pedras." Taara quando era mais jovem explorou esses túneis várias vezes. Mesmo com seu trabalho e família, ela ainda visita as catacumbas pelo menos uma vez por mês.

Nota 11 - Os túneis fora do circuito do tour são proibidos para o público, contudo isso não impede que curiosos desçam com o objetivo de explorar o lugar. A polícia parisiense prende e multa em média 100 pessoas anualmente invadindo esses corredores.

Em diferentes trechos dos túneis, existem placas que sinalizam de qual cemitério vieram aqueles restos, junto com a data em que eles ali foram colocados. O processo teve início em 1785, e a seção mais recente que encontrei é de 1859. O processo de transporte dos corpos para as catacumbas foi incessante, e durou pelo menos 70 anos para ser concluído.

Nota 12 - Um dos planos era usar os túneis para receber um fluxo constante de restos mortais, mas a expansão acelerada da cidade permitiu a criação de novos Cemitérios mais afastados do centro que sanaram o problema.

Taara comentou, "Você pode encontrar ossos em praticamente todo o complexo de túneis. A coisa mais interessante a respeito das pedreiras é que elas são testemunhas de grande parte da história de Paris. Por exemplo, você ainda pode ver vestígios da Revolução ou de períodos importantes como a Segunda Guerra Mundial. Você pode encontrar vários lugares com arquitetura fabulosa, o tipo de coisa que marcou cada época e que não se encontra mais. Portanto é realmente um lugar especial, e ficamos orgulhosos de saber que ele está logo abaixo de nossos pés. Muitas pessoas, franceses inclusive, não desconfiam que existe outra Paris sob Paris".

Nota 13 - Durante a Revolução o complexo subterrâneo serviu de esconderijo e rota de fuga para nobres que tentavam escapar da perseguição. Mendigos que viviam no local ficaram ricos escoltando nobres através dos túneis e para longe da plebe sanguinária. Na Segunda Guerra, membros da Resistência que enfrentava a ocupação nazista também usavam os túneis como ponto de encontro. Os alemães por sua vez construíram um bunker subterrâeo abaixo do Lycee Montaigne que era usado como depósito de armas e munições.

Eu encontrei outros americanos visitando o museu e perguntei a eles o que acharam: "É impressionante, todos esses ossos nas paredes" disse Julie Hardman de Tempe, Arizona. Hardman estava lá com sua filha, Megan. Um guarda de segurança que pediu para não ser identificado comentou, "Algumas pessoas vem aqui em baixo e ficam muito assustadas depois de ver os ossos. Alguns dizem que ouvem coisas. Vozes".

Nota 14 - Até a década de 70, a visita das Catacumbas era vedada a menores de 14 anos pois considerava-se que o conteúdo poderia ser chocante para crianças. A visitação hoje é aberta, desde que menores estejam acompanhados ou sob a supervisão de um adulto.

Próximo do fim da visita, parei novamente para lembrar a mim mesmo que todas aquelas pessoas um dia tiveram nome. Cada um deles era uma pessoa, um indivíduo. Eu não conseguia pensar em nada que pudesse fazer para reconhecê-los dessa forma. Não havia nada que eu pudesse dar em sinal de respeito. Eu rezei em silêncio e retornei para a rampa em espiral em direção à saída. Enquanto examinava minhas anotações, gravações e fotografias, percebi que tudo o que eu podia fazer era contar essa estória.

Aqueles seis milhões de indivíduos sacrificaram seu descanso eterno para que Paris pudesse prosperar. Os ossos de nobres estão misturados aos de camponeses, famílias inteiras se reencontraram com os ossos de seus ancestrais, e eu andei em meio a eles. Trinta gerações falando para cada visitantes em uma única e coletiva voz.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Servo de Cthulhu - O Oráculo de Oito Braços


Ok, era inevitável...

Recebi mensagens perguntando porque o Mundo Tentacular estava deliberadamente ignorando as incríveis profecias do mais famoso vidente da atualidade, o Polvo Paul. Depois de refletir um pouco cheguei a conclusão de que tamanhas capacidades divinitórias não poderiam passar em brancas nuvens.

Não ao menos em um Blog com "Tentacular" no nome...

Então eis aí um justo tributo a incrível, notável, impressionante sensação da Copa do Mundo 2010, o Polvo Paul. Que se bobear saiu da competição como a figura mais popular e comentada. Agitando seus pseudópodes ele deixou a tranquila vida de atração menor do aquário da pequena cidade de Oberhausen, na Alemanha para ganhar fama e prestígio mundial.

Paul não apenas apontou o time vencedor na final da Copa do Mundo. Não... o elástico Oráculo de oito braços deixou milhões ao redor do mundo sem fôlego ao escolher corretamente a vitória da Alemanha sobre a Argentina, Inglaterra, Gana e a inesperada derrota do país pela Sérvia. Correndo o risco de se transformar em uma Paella ele teve a coragem de anunciar a derrota da Alemanha para a Espanha. E também a vitória da Alemanha sobre o Uruguai na decisão do terceiro lugar. O que poucos sabem é que as habilidades de Paul já eram conhecidas, durante a Euro Copa de 2008, quando ele acertou corretamente o resultado de 5 entre 6 jogos da seleção alemã.

Após ganhar fama pelos seus prognósticos, o Aquário de Oberhausen recebeu ofertas para vender o invertebrado de dois anos e meio por 30 mil euros. Enquanto estuda propostas e revisa seu Facebook (sim, ele têm isso!), o simpático cefalópode se prepara para viajar. Ele recebeu um convite para participar do Festival do Polvo, promovido em uma cidade da Espanha onde ele será o convidado de honra.

Seus tratadores afirmam que Paul está lidando bem com a fama e que ela não mudou em nada seu modo de vida.

* * *

Mas aparentemente alguns já descobriram qual o segredo por trás das profecias de Paul.



Nyarly disse tudo: "Milhões de cultistas hipnotizados usando flautas blasfemas, grandiosos templos, cerimônias impressionantes. Talvez esteja na hora de arranjar um novo chefe".

All Hail the New Sultan!!!!

terça-feira, 13 de julho de 2010

A Lenda do Corpo de Sangue - As Profecias dos Ghouls

"E do corpo do homem tirei o sustento para minha vida:
De sua carne me fartei,
Seu sangue saciou a minha sede,
Sua pele serviu para me proteger da noite fria,
Com seus órgãos e ossos fiz apetrechos e ferramentas,
E assim vivi a vida de um ghoul".

Cultes des Ghouls - Capítulo Primeiro - A Respeito dos Devoradores de Mortos

Com base no livro The Realm of Shadows por John W. Crowe.

O Cultes des Goules possui em suas páginas uma infinidade de informações a respeito dos ghouls e de suas atividades. Contudo o livro se mostra ainda mais valioso para magos e estudiosos dos Mythos de Cthulhu que conhecem os segredos encerrados nele.

Acredita-se que o Cultes des Goules possui uma série de segredos ocultos em seus textos que podem ser decodificados através de um código críptico conhecido por poucos. Se o código correto for empregado, o leitor encontra aquilo que os ghouls convencionaram chamar de o Corpo de Sangue.

Estas profecias preditas na época em que o livro foi escrito faz parte da sabedria compartilhada oralmente pelos ghouls e diz respeito a acontecimentos importantes da humanidade preditos no início do século XVIII. Assim como as Centúrias de Nostradamus, o Corpo de Sangue foi escrito sem revelar exatamente a natureza dos acontecimentos, ainda que estudiosos tenham interpretado vários trechos correlacionando as profecias com momentos marcantes da história humana.

O "Corpo de Sangue" é uma metáfora que usa o corpo humano -- seus órgãos e partes -- relacionando-os com eventos de suma importância. Abaixo as Profecias:

"Venha. Eu lhe contarei a fábula do CORPO DE SANGUE. O Corpo é hoje uma criança. Ele irá atingir sua maturidade daqui a trezentos anos. Até lá, ele crescerá parte por parte. Eu lhe contarei a respeito de cada uma de suas partes.

Os TESTÍCULOS irão inchar com o leite do Deus Carpinteiro que irá semear terras e atravessar mares. Mas uma vez gasto, ele irá secar e se retrair como um cadáver de três meses.
[Refere-se ao declínio da Igreja Cristã na Europa]

O PÊNIS atravessará os mares para chegar até novas terras. Mas ele também irá secar e retrair. Este será o último grande ato da religião do Deus Carpinteiro.
[O fim do Puritanismo no Novo Mundo]

A GARGANTA será cortada e os Homens Coroados cairão de seus tronos no chão frio. A plebe irá se rejubilar e por um instante o mundo ficará em suspense.
[A Revolução Francesa]

Os OLHOS sabiamente verão tudo isso, e irão recair sobre noções de justiça, liberdade e tolerância. Eles irão abraçar esses valores, e abrir as portas para uma época de tolerância.
[A Democracia nas nações]

A PELE será lacerada pela lâmina atroz. A morte excitará meu povo como a muito não fazia, a neve será manchada de sangue no Leste, os campos ficarão negros e os mares revoltos pelas tropas a marchar.
[As Guerras Napoleônicas]

O OUVIDO irá escutar o tropéu do cavalo pelo campo de batalha. O grande líder terá retornado! Ele será ensurdecido pelo brado dos homens a caminho da guerra, pelo troar de poderosas armas e pelo lamento dos feridos.
[O Retorno de Napoleão]

O PULMÃO irá absorver a fumaça ocre que ascenderá aos céus nublando o sol. Os homens serão sufocados pelo vapor escuro da ganância e da cobiça. Muitos sofrerão com essa situação enquanto a fortuna se apresentará para uns poucos.
[A Revolução Industrial]

O NARIZ irá se tornar encurvado e cruel procurando qualquer sinal de contágio e corrupção. Ele irá se torcer em desdém, ainda que ele mesmo seja corrupto. Sifilítico, ele irá apodrecer e cair.
[A Ascenção e queda da Sociedade Victoriana]

A BOCA irá se abrir para o derradeiro banquete. Os campos e fazendas se transformarão em cemitérios repletos de cadáveres insepultos. Meu povo irá se fartar como nunca.
[A Grande Guerra]

Os PÉS irão fugir do banquete e marchar para casa. Eles irão seguir em massa aqueles que hão de destruir e reconstruir a grande nação. Darão as boas vindas a repressão e controle em nome de uma nova doutrina.
[A Ascenção do Bolchevismo na Rússia]

O FÍGADO será saciado. O que ele não puder ter pelo direito será obtido pela força. Ele irá crescer gordo e pustulento com a riqueza e corrupção.
[Os Anos 20 e a Proibição]

Os DENTES baterão à noite pelo frio e durante o dia rangerão de fome. Eles irão apodrecer por dentro e serão arrancados em meio a tumultos, caos e desordem.
[A Crise de 29]

MÃOS agarrarão a garganta da Europa e clamarão a vida das nações para si. Elas irão apertar até esmagar qualquer resistência e por anos governarão.
[O surgimento do Fascismo na Alemanha e Itália]

A FACE ficará marcada pela cobiça e será ferida pela violência. Um segundo grande banquete será servido e os OLHOS e MÃOS lutarão sem parar.
[A Segunda Guerra Mundial]

A LÍNGUA irá lamber toda a vida em meros segundos. Ela irá destruir nações com uma torrente de fogo destrutivo. Após sua passagem o mundo será coberto por medo e paranóia.
[O Terror Atômico]

O SOPRO não será quente, mesmo assim será longo e nauseante. Os OLHOS e os PÉS se encontram em diferentes extremos do Corpo de Sangue e um não poderá tolerar o outro.
[A Guerra Fria]

As UNHAS irão arranhar linhas em um mapa. Elas irão dividir nações e criar novas fronteiras contestadas e disputadas por povos irmãos.
[As Guerras da Coréia e Vietnã]

A BARRIGA irá roncar reclamando das privações impostas e dos vermes que crescem em seu interior. As entranhas serão abertas e expostas para que todos possam ver a podridão de seu interior.
[Escândalos e mudanças nos anos 60]

Os JOELHOS irão se dobrar trêz vezes ao dia para que o homem venere seus falsos deuses. Eles serão feridos mas nem isso impedirá que se arqueiem em fanática adoração.
[A Revolução Islâmica]

Os BRAÇOS serão estendidos e um acordo será obtido. O SOPRO irá cessar quando os PÉS não puderem mais sustentar aquilo que criaram. Os instrumentos de repressão e controle irão apodrecer e não haverá pecado.
[O Fim do Comunismo]

O grande CORAÇÃO negro irá bater cada vez mais rápido. A humanidade crescerá livre e selvagem além do bem e do mal, com leis e moral colocadas de lado. Homens irão gritar nomes esquecidos e aos poucos suas batidas irão silenciar.
[O Fim dos Tempos]

Mais do que isso eu não poderei dizer, o Corpo de Sangue tem muitas partes, e essa fábula ainda não terminou. Minha parte, contudo está concluída.

domingo, 11 de julho de 2010

Páginas dos Malditos - Folheando o Cultes des Goules


"Alguns irão rotular meu trabalho de blasfêmia; eu apenas escolhi explicar certas ações e crenças, que Deus seja o Juiz de todos nós e decida se eu estava certo ou errado".

François-Honoré-Balfour, 1703

O Cultes des Goules surgiu em Paris em meados de 1680. Seu autor, Antoine-Marie Augustin de Montmorency-les-Roches, Conde d´Erlette, foi um nobre francês versado no estudo do ocultismo e envolvido no Escândalo dos Envenenadores, no qual nobres de grande reputação se viram acusados de assassinato e magia negra. O livro versava sobre um culto secreto no submundo parisiense. O conde nunca foi acusado formalmente, mas segundo rumores ele desapareceu por ordens do próprio Rei. O Culte des Goules escrito por Antoine-Marie circulou na forma de manuscrito em círculos de estudiosos em Paris, mas jamais foi publicado.

Um Conde da mesma linhagem chamado François Honoré-Balfour, herdeiro de Antoine-Marie descobriu o manuscrito original na biblioteca do Chateau Montmorency em 1701. Balfour também era um estudioso do oculto e teria acrescentado novos capítulos ao livro publicado em 1703, em uma tiragem de 400 exemplares.

Logo após ter sido concluído, autoridades clericais denunciaram o conteúdo profano do livro e exigiram o recolhimento de todos os exemplares. A gráfica onde o livro foi impresso foi incendiada e várias cópias destruídas. Um pequeno número de exemplares entretanto sobreviveu ao fogo chegando às mãos de colecionadores. O status aristocrático de Balfour o eximiu de julgamento ou punição. Até onde se sabe, Balfour jamais escreveu novamente e passou os vinte anos finais de sua vida em isolamento.

No manuscrito original, Antoine-Marie descreve sua participação em um culto secreto que agia nos subterrâneos de Paris. O trabalho se refere também a aspectos da necromancia e necrofilia praticados na França. Embora a prática de roubo a sepulturas não fosse incomum na época, Antoine-Marie descreve o culto como uma congregação de ladrões e violadores de túmulos, que ele identifica como "goules".

Os Goules, segundo o livro habitavam as antigas catacumbas da cidade e praticavam rituais onde glorificavam a morte e a corrupção. Práticas e cerimônias envolvendo necrofagia, necrofilia e leitura do futuro usando partes de cadáveres são descritas no livro. A iniciação da sociedade secreta envolvia atos repulsivos como copular com cadáveres, vestir sua pele e beber sangue humano. Cerimônias igualmente medonhas são descritas, tais como o ritual que busca reanimar partes de cadáveres ou fazer com que espíritos revelem segredos do além. Embora as descrições contidas no livro sejam vívidas e ricas em detalhes, evidências que comprovassem de fato a existência do Culto nunca foram encontradas.

Informações sobre cabais de feitiçaria, magia negra e licantropia também fazem parte do livro. Os capítulos que versam sobre esses temas parecem ter sido adicionados por Honoré-Balfour que tomou cuidado de censurar seu envolvimento direto com essas práticas. O livro menciona Nyogtha, Shub-Niggurath, Mordiggian e obviamente os ghouls.

Para muitos estudiosos dos Mythos de Cthulhu, o Cultes des Goules é a obra mais completa a respeito dos ghouls, constituíndo um verdadeiro tratado sobre essas criaturas nefastas. Após a morte de Honoré-Balfour uma edição expurgada chegou a ser publicada em Rouen em 1737. Cópias manuscritas em italiano e espanhol também são conhecidas, contudo essas versões são bastante incompletas ou censuradas.

Sabe-se da existência de pelo menos quatorze cópias do Cultes des Goules impresso em francês. A acusção de que Honoré-Balfour possuía três volumes encadernados com pele humana jamais foi provada. Uma dessas cópias pode ser achada na Biblioteca da Universidade Miskatonic, outra existe na coleção do Starry Wisdom Cult em Providence e uma terceira se encontra na Biblioteca particular de Titus Crow (embora esta tenha sido supostamente destruída). Um certo estudioso chamado Lazarus Garvey teria feito a tradução de trechos do livro para a língua inglesa, antes de desaparecer no Himalaia.

Há rumores de que um volume pertenceu a Donatien Alphonse François, o notório Marquês de Sade e que o texto teria causado uma forte impressão no nobre. Para alguns, o Cultes des Goules foi responsável pela obsessão de Sade por torturas e perversões.

François-Honoré Balfour, le troisième Comte d´Erlette (1678-1724)

Pouco se sabe a respeito da vida de François-Honoré Balfour, o terceiro Conde d'Erlette. As poucas informações que se tem a respeito, o descrevem como um nobre excêntrico que visitava seu vilarejo natal de Erlette próximo de Vyones em Averoigne.

Rumores sobre relacionamentos do Conde e estórias de alcova afirmam que François era um verdadeiro devasso que visitava Paris em busca de prazeres obscenos nos mais sórdidos bordéis. Embora o Conde publicamente negasse seu envolvimento direto com o culto descrito no Cultes de Goules, a maioria dos especialistas crê que ele era um membro ativo da sociedade e que havia passado pelas mesmas iniciações que ele próprio chamava de bestiais.

D´Erlette se afastou após a publicação do livro e dali em diante passou a viver como eremita nos arredores de Erlette. No início de 1724, o Conde desapareceu, quatro dias depois seu filho encontrou seu corpo desmembrado e parcialmente devorado na propriedade da família. Em seu testamento, foi estipulado que o corpo deveria ser depositado em um caixão de bronze e enterrado em uma cripta de pedra. Honoré dizia que isso livraria seus restos mortais do vilipêndio daqueles que tinham motivo para detestar seu trabalho. Tudo indica que seus detratores o alcançaram ainda em vida.