sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Mito do Causar Medo em uma mesa de RPG

Sejamos sinceros: alguém já sentiu MEDO em uma mesa de RPG?

Muitos mestres gostam de dizer que uma determinada sessão de jogo foi especialmente legal porque seus jogadores ficaram apavorados.

Sinceramente, eu tenho as minhas dúvidas se é possível criar uma real sensação de medo nos jogadores através de uma narrativa de RPG. Notem que não estou falando de desconforto ou de apreensão que são perfeitamente possíveis. Estou falando daquilo que Lovecraft chamava de "o mais antigo e duradouro parceiro da humanidade" o bom e velho medo.

Eu conheço alguns mestres que cismam que uma aventura de Horror não é boa se ele não consegue fazer os jogadores sentirem medo. E alguns que nem querem mestrar aventuras de terror porque não são "bons o bastante" para criar um ambiente de medo.

Já ouvi um amigo se queixar: "Meus jogadores ficam brincando e estragam o clima de horror da aventura, acho que não sou bom para esse tipo de estória".

Ora, vamos... acho que alguns mestres são muito duros consigo mesmos. Não é fácil sentir medo estando na sala de estar da casa de alguém? Sentir terror em uma mesa repleta de salgadinhos e refrigerante? Sentir pavor em um ambiente totalmente controlado e seguro ao lado de vários conhecidos?

Criar medo em uma mesa de RPG deve ser uma coisa difícil, eu sinceramente não sei se já consegui chegar perto disso.

Uma coisa que é plenamente possível é estabelecer um clima. Mas isso depende muitos dos jogadores e do mestre. Jogar à luz de velas, remover distrações do alcance dos jogadores, deixar uma música adequada rolando baixinho, pedir uma maior concentração no roleplay... tudo isso ajuda a criar sensações, embora de modo algum seja obrigatório.

Nada, entretanto, substitui uma boa descrição. Se você, como mestre conseguir ser detalhista e passar para os jogadores o que seus personagens estão sentido, fique satisfeito. E se eles conseguirem se colocar no papel dos personagens que estão sendo afligidos por algo assustador é possível que você obtenha alguns calafrios. Com um pouco de sorte é possível obter um leve gaguejar de indecisão e algumas caretas.

A verdade é que hoje em dia é difícil perturbar as pessoas. Certa vez li uma biografia de Mary Shelley, onde o autor comentava que a leitura de Frankenstein causava desmaios em mocinhas que ouviam o romance sendo lido no começo do século. Certos trechos eram tão evocativos que as pessoas não suportava e desfaleciam. Hoje em dia parece exagero, mas esse grau de sensibilidade um dia existiu entre as pessoas.

Quando o filme "O Exorcista" chegou aos cinemas em 1973, houve certa histeria (alimentado pelos produtores, é bem verdade) de que o filme era tão chocante que pessoas passavam mal e desmaiavam no cinema. Verdade ou mentira, acho que se o Exorcista passar hoje em dia num cinema muita gente vai bocejar.

Cada pessoa tem um certo grau de sensibilidade e além desse ponto começa a surgir a apreensão, o incômodo e só então vem o medo (que depois viria o choque, pavor e terror, mas não queremos ir tão longe, não é?)

Alguns mestres de RPG acham que toda a aventura de horror (não apenas os jogos com temática cthulhiana) precisa ser uma celebração de terror capaz de realmente apavorar os jogadores.

Não é bem assim!

Jogos de RPG devem ser antes de tudo divertidos. Eles devem se traduzir em algo interessante, capaz de estimular a curiosidade, a criatividade e a imaginação.

Se você conseguiu isso como mestre, parabéns. Missão cumprida.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Mitologia do Indizível - Revisitando o Mito de Caribdis e Scylla

Esse artigo contém SPOILERS.

Ele possui algumas informações sobre o cenário "O Horror de Kingsbury" que está no livro básico de Rastro de Cthulhu. Se você pretende jogar ou participar do cenário é interessante parar a leitura nesse ponto a fim de não estragar sua diversão e dos demais envolvidos.

O que diz a Mitologia Grega:

Em tempos antigos, Caribdis era uma lenda regional difundida na Grécia Continental entre os marinheiros e pescadores, como alusão aos perigos da navegação. Segundo eles, Caribdis era uma força natural que gerava turbilhões capazes de afundar embarcações inteiras.

Foi Homero quem transformou-a em entidade mitológica. Segundo a mitologia, Caribdis é um monstro marinho (originalmente uma náiade, ). Homero a chamava de "a divina Caribdis".

Conforme os escritos de Homero, Caribdis era originalmente uma ninfa, filha de Ponto, o protetor dos limites territoriais no mar e de Gaia. Possuidora de um apetite voraz, ela exigia dos viajantes que lhe fosse entregue comida e bebida para aplacar sua fome. Sua caverna era cercada de ossos dos animais que ela conseguia alcançar. Quando Héracles passou perto de Messina, levando os bois de Gerião, ela roubou os animais e devorou-os. Ao investir contra o herói, que tentava recuperar seu gado, Caríbdis foi fulminada por Zeus que interveio com um raio. A ninfa foi fulminada e atirada às profundezas do mar. Mas ela não morreu: ressentida Caribdis nadou para uma caverna submatina para curar suas feridas, lá se transformou em um horrendo monstro marinho.

Caribdis é citada uma vez mais na Odisséia, quando o herói Odisseu cai no mar e é arrastado por um turbilhão, após um naufrágio. Odisseu consegue se salvar agarrando-se ao mastro do navio antes de se afogar. Seus companheiros de tripulação, no entanto, não tiveram a mesma sorte e acabam devorados.

Segundo a lenda Caribdis é descrita como um montro horrendo com a forma de um réptil gigante escamoso. Ela nada velozmente em círculos criando maremotos e redemoinhos que puxam as embarcações para as profundezas.

Na tradição mitológica grega, Caribdis é normalmente relacionada a Scylla, outro monstro marinho tenebroso. As duas habitavam os lados opostos do estreito de Messina, que separa a Itália da Sicília, e personificavam os perigos da navegação perto de rochas e redemoinhos. O próprio nome Sicília deriva de Scylla.

Scylla é uma ninfa de rara beleza, mas da cintura para baixo ela está ligada a inúmeros tentáculos que crescem, cada um terminando em uma cabeça de cachorro que uiva e rosna sem parar. Quando um navio se aproxima, as cabeças caninas ladram alertando Scylla e ela se apressa em investigar o que está acontecendo.
As duas aberrações eram tão temidas nos tempos de Homero que os pescadores faziam sacrifícios de animais antes de sair para o mar. A carcaça das oferendas teoricamente servia para satisfazer os monstros que os deixariam retornar incólumes.

O Mito Grego relacionado ao Mythos de Cthulhu

O cenário de Rastro de Cthulhu "O Horror em Kingsbury" pressupõe que um maníaco está assassinando pessoas para promover a invocação dessas duas horríveis entidades.

Enquanto Caribdis cria um turbilhão de imagens e lapsos temporais que assola a cidade, Scylla aparece no final do cenário como resultado direto dos assassinatos, na forma de uma aberração monstruosa "vestindo" a cabeça das vítimas do Açougueiro.

O autor não deixa claro se Caribdis e Scylla são realmente as criaturas do mito grego ou se são interpretações de horrores ancestrais muito mais antigos. Pessoalmente, prefiro esta segunda hipótese.

Gosto de imaginar que Caribdis, um monstro muito mais destrutivo, estaria de alguma forma relacionado a Yog-Sothoth (possibilidade contemplada na aventura). A relação de Caribdis com distúrbios temporais sugere que ele de alguma forma tenha uma ligação com esse Deus Exterior que rege o tempo. Talvez Caribdis seja um avatar ou uma progêne com alguma outra entidade. Destrutivo o suficiente para varrer Cleveland do mapa, trata-se de uma monstruosiadde de respeito. As ondas de ressonânica de Caribdis são ótimas para criar confusão e a impressão de que se está vivendo entre sonho e realidade.

Scylla também parece uma criatura do Mythos, mas pela sua forma bizarra e apetite extremo, eu diria que ela de alguma forma se relaciona com Shub-Niggurath. Novamente seria um avatar menor ou uma progêne. O fato dela surgir a partir de sacrifícios também reforça a relação com a Deusa Exterior da Fertilidade, uma divindade que aceita sacrifícios.

Há algo de medonho na representação de Scylla. Uma massa translúcida de tentáculos que se agita. No final de cada um desses tentáculos encontra-se uma cabeça humana que murmura e geme. Poucas coisas podem ser mais apavorantes que isso. Descrever essa aberração pode ser um dos grandes momentos do cenário.

Fiz uma pequena mudança cosmética quanto a "Pedra Vermelha", o estranho artefato usado para canalizar o poder das entidades. Assumi que ela é uma estatueta grega. Na minha opinião tem mais a ver, uma pequena obra de arte clássica. Até consegui uma foto de uma estatueta grega representando Scylla e Caribdis que pretendo usar quando for narrar.

Ademais a solução final com os investigadores tendo de destruir a estatueta me parece mais interessante do que eles enfrentando as entidades, dinamitando o local, se sacrificando ou sacrificando alguns pobre diabos.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Os Assassinatos de Kingsbury Run - A história real do notório Açougueiro de Cleveland


A narrativa à seguir é um apanhado sobre os crimes reais que aterrorizaram os habitantes de Cleveland na década de 30. Os assassinatos de Kingsbury marcaram a aparição do primeiro e possivelmente um dos mais sanguinários assassinos em série da história americana.

O caso é examinado no cenário "O Horror de Kingsbury" que serve como introdução para Rastro de Cthulhu. Embora o livro traga as informações necessárias para o mestre narrar o cenário, aqui estão mais alguns detalhes interessantes a respeito desse caso assustador. Esses recursos podem ser úteis se o guardião quiser detalhar um pouco mais a aventura.

Preferi não recorrer a fotografias reais do crime, achei melhor fazer uma autocensura e evitar colocar imagens chocantes. É possível encontrar essas fotografias na internet, mas sugiro aos guardiões que usem essas fotos apenas se o grupo demonstrar maturidade e discernimento.

Cleveland no início da década de 1930 era uma cidade em desenvolvimento.

A população crescia à olhos vistos, abraçando uma mistura de trabalhadores estrangeiros e emigrantes em busca de melhores condições de vida. Os subúrbios não paravam de crescer e pareciam prestes a explodir com o fluxo de pessoas e comércio. Ruas foram abertas ou alargadas e prédios construídos às pressas. A Exposição dos Grandes Lagos e a Convenção Nacional dos Democratas já haviam sido marcadas para 1936, assim como outros importantes eventos. Apesar da Depressão, algumas pessoas estavam se saindo bem.

Foi nesse panorama que um dos mais prolíficos e bestiais Serial Killers de todos os tempos começou a lançar uma sombra de terror que aterrorizou a população de Cleveland. Treze pessoas foram brutalmente assassinadas no decorrer de quatro anos, começando em 1934 - todas as vítimas foram decapitadas, algumas enquanto ainda estavam vivas.

Embora o famoso investigador policial Eliot Ness tenha dito que o caso foi resolvido, nenhum suspeito foi identificado, e ninguém foi trazido à julgamento. Os crimes terminaram tão abruptamente quanto começaram. Até os dias atuais os assassinatos de Kingsbury Run permanecem como um dos mais sensacionais e intrigantes enigmas da história dos Estados Unidos.

Kingsbury Run ficava na cabeceira de um rio que cortava a região metropolitana de Cleveland. Trilhos de trens e uma autoestrada atualmente passam pelo local, mas nos anos 30 a paisagem era bem diferente. Limitada pela Avenida Woodland ao norte e pela Broadway no sul, Kingsbury Run era uma vizinhança isolada, escura e perigosa naqueles tempos. Famílias que haviam perdido tudo na Depressão viviam em situação deplorável, barracos de madeira e casebres disputavam espaço com pilhas de lixo e sujeira ao longo da Run. Essas pessoas eram em sua maioria miseráveis, muitos deles andarilhos e vagabundos que viajavam clandestinamente em trens e que buscavam qualquer abrigo para escapar do brutal inverno de Cleveland. A leste da Run havia uma área chamada por seus frequentadores de “The Roaring Third”, onde havia todo o tipo de negócio sórdido desde bares e bordéis, até casas de jogo. Nesse ambiente insalubre, aconteceria o mais notório caso de assassinato na história de Cleveland.


Foto oficial da descoberta do primeiro cadáver em 1935.

Tudo começou em Setembro de 1934, um jovem fez uma descoberta macabra nas margens enlameadas do Lago Erie. Ele encontrou a parte inferior do torso de uma mulher, membros ainda presentes, mas amputadas na altura dos joelhos. O legista do condado, A.J Pierce, descobriu um tipo de composto químico sobre os restos que haviam ficado avermelhados. A busca subsequente revelou algumas partes de corpo. O cadáver pertencia a uma mulher com cerca de 30 anos. A cabeça jamais foi encontrada e a mulher nunca foi identificada. Ela foi chamada pela imprensa de "A Dama do Lago". Apenas dois anos mais tarde essa morte foi incluída na conta do Açougueiro de Cleveland, a primeira vítima oficial do matador. O caso ganharia fama e a investigação se iniciaria oficialmente cerca de um ano depois da mórbida descoberta.

Em Setembro de 1935 dois adolescentes encontraram o cadáver decapitado e emasculado de um homem branco, nas cercanias de Jackass Hill, limites de Kingsbury Run. O cadáver nu, exceto por um par de meias, estava limpo e com pouco sangue. Haviam marcas de corda em seus pulsos. O legista após examinar o corpo concluiu que a causa da morte havia sido a decapitação por um instrumento pesado e afiado, possivelmente um machado. Impressões digitais identificaram o indivíduo como sendo Edward Andrassy, um homem branco de vinte e oito anos. 

Andrasy tinha passagem criminal, supostamente era homossexual e frequentava o Roaring Third. Investigando a área em busca de pistas, a polícia encontrou um segundo corpo, também decapitado e emasculado coberto com o mesmo composto químico preservativo espalhado sobre a "Dama do Lago". Dado o estado de putrefação, o corpo parecia ter sido abandonado ali há pelo menos duas semanas. O homem de quarenta e poucos anos, jamais foi identificado.

Era apenas o começo do espetáculo de terror que Cleveland assistiria em estupor. 

Em janeiro de 1936 uma funcionária da Indústria Hart, descobriu o corpo mutilado de uma mulher embrulhado em jornal e disposto em duas grandes cestas de piquenique. As cestas foram deixadas na entrada do prédio da firma, na Central Avenue. Os membros foram encontrados dias mais tarde na Orange Avenue a cerca de 5 quadras dali. A cabeça, no entanto, jamais foi achada.



Detetives e médicos legistas examinam a cena do crime e os restos encontrados. A polícia se mostrava perplexa.

Da mesma forma que no caso de Edward Andrassy, a causa da morte havia sido decapitação. Por alguma razão, o assassino dessa vez esperou até o rigor mortis se iniciar para desmembrar o cadáver. As impressões digitais ajudaram a identificar a vítima como Florence Polillo, garçonete, atendente de bar e prostituta ocasional. Na época de sua morte, ela residia na Roaring Third.

Seis meses depois, dois rapazes vasculhavam o lixo quando fizeram outra descoberta macabra: Encontraram a cabeça de um homem embrulhada cuidadosamente com restos de roupa. O corpo foi achado no dia seguinte próximo do prédio da delegacia de polícia. O cadáver havia sido limpo e o sangue drenado, com exceção da cabeça ausente, ele estava incólume. Mais uma vez o legista determinou que a causa da morte havia sido decapitação. Embora as impressões digitais tenham sido colhidas e a vítima possuísse seis tatuagens distintas, a polícia nunca conseguiu descobrir a identidade do sujeito de vinte e poucos anos. Em um detalhe mórbido, uma máscara facial da vítima foi feita com gesso e as tatuagens cuidadosamente fotografadas. Esse material foi apresentado na Exposição dos Grandes Lagos em 1936 e mais de 100 mil pessoas se acotovelaram para ver a máscara e as tatuagens. Enormes filas se formaram, mas ninguém foi capaz de identificar positivamente o sujeito que foi apelidado de "Homem Tatuado".

Apenas um mês depois, em Julho, uma garota encontrou os restos de um homem de quarenta e poucos anos na floresta de Big Creek. A vítima estava morta há pelo menos dois meses e parcialmente enterrada. Sua cabeça e uma pilha de roupas ensanguentadas foram descobertas perto dali em uma cova. Pela quantidade de sangue encontrada no solo, o legista confirmou que a vítima havia sido morta no local onde foi encontrada. O assassino havia sido descuidado, deixando marcas e pegadas, mas nada disso serviu para descobrir sua identidade.

O rastro de cadáveres apenas continuou a crescer. Em setembro um vagabundo tropeçou no torso de um homem próxima da linha de trens em Kingsbury Run, estava largado ao lado de um vagão abandonado. A polícia investigou a área e encontrou no fundo de uma lagoa ali perto as pernas da vítima e uma serra que foi usada para desmembrar o cadáver. As autoridades conduziram uma busca no lago, sob o olhar atento de mais de 600 curiosos contagiados pela febre do Assassino do Torso. Ironicamente, o assassino poderia estar no meio dessa multidão, saboreando o momento em que pedaços de sua vítima eram trazidos à superfície.

A vítima número seis tinha cerca de 30 anos, e havia morrido em decorrência de um único golpe no pescoço que lhe arrancou a cabeça. A arma era extremamente afiada: a lâmina de um machado de lenhador ou então um sabre de cavalaria poderia ser responsável por um corte limpo. O Legista Pierce concluiu que a ausência de marcas de hesitação nos restos indicavam se tratar de um indivíduo forte e familiarizado com a anatomia humana. O cadáver jamais foi identificado.

Seis mortes haviam ocorrido em um período de um ano e a polícia não tinha pistas ou suspeitos. A imprensa de Cleveland noticiava os horríveis crimes em manchetes sensacionalistas para vender jornais. O assassino ganhou o nome de "Açougueiro Louco" e a histeria começou a se espalhar pela cidade. A tensão chegou a tal ponto, que inocentes apontados como sendo o matador, foram capturados e linchados pela multidão. Grupos de vigilantes se formaram para patrulhar as ruas. Policiais eram hostilizados pela população insatisfeita. A cidade estava à beira do caos.


Eliot Ness, um dos mais conhecidos agentes da lei esteve intimamente envolvido na caçada ao Assassino de Cleveland. Sua carreira acabou arranhada por esse caso.

Cedendo a pressão popular o Prefeito Harold Burton, nomeou Eliot Ness - famoso por ter liderado a força tarefa que condenou o gangster Al Capone em Chicago - para o cargo de Diretor de Segurança. As autoridades e o público esperavam que ele fizesse um milagre. Na apresentação de Ness, o legista Pierce presidiu uma conferência que a imprensa chamou de "Clínica do Torso" onde experts discutiram as motivações e tentaram traçar um perfil do responsável pelos homicídios.

O departamento de polícia de Cleveland colocou os detetives Merylo e Zelewski exclusivamente no caso. Algo precisava ser feito com urgência.

Ness e os detetives começaram a agir diretamente sobre o antro do submundo de Kingsbury Run, o Roaring Third. Policiais disfarçados de vagabundos vagavam pelo local em busca de pistas, conversavam com frequentadores dos bares e buscavam indivíduos conhecidos por violência. Inúmeras pessoas foram entrevistadas e centenas acabaram presas sob suspeita, mas não havia provas concretas que indicassem o matador.

As eleições de Novembro reelegeram Burton como prefeito, mas o legista Pierce foi substituído por um jovem progressista, Sam Gerber. A implacável determinação de Gerber, junto com seu conhecimento forense o alçaram como um dos principais investigadores no caso.

Gerber não precisou esperar muito para ser confrontado pelo assassino. Em fevereiro de 1937 um homem encontrou a parte superior de um torso de mulher enterrado na areia de uma praia em Brahtenahl. Diferente das demais vítimas, a causa da morte não havia sido a decapitação; esta havia acontecido quando ela já estava morta. A parte inferior do cadáver foi encontrada três meses depois por trabalhadores no esgoto em uma galeria inundada. A mulher com cerca de trinta anos nunca foi identificada.

Em junho de 1937, um rapaz encontrou um crânio humano de baixo da ponte que ligava Lorain e Carnegie nos limites de Kingsbury. Próximo a ele, em um grande saco estavam os restos de uma mulher negra de 40 anos de idade mutilada e dissecada. Empregando dentistas ela foi identificada como Rose Wallace, residente de Carnegie. A polícia não descobriu nenhuma pista que pudesse ser útil em seu cadáver exceto que a dissecação havia acontecido com grande técnica e perícia.


O detetive Merylo um dos responsáveis pelo caso examina facas em busca de uma arma que pudesse ter causado os ferimentos nas vítimas do Açougueiro.

No mês seguinte, o Sindicato dos Trabalhadores entrou em conflito nas ruas de Cleveland contra a Guarda Nacional após um protesto por melhores condições de serviço. Um guarda patrulhando as ruas após o distúrbio encontrou os restos da vítima número nove boiando no rio. Nos dias seguintes, a polícia recuperou o corpo inteiro, exceto a cabeça, das águas do Rio Cuyahoga. O abdômen da vítima havia sido aberto e seu coração arrancado, indicando que o assassino estaria experimentando e evoluindo em seu método. A vítima tinha cerca de 30 anos e jamais foi identificada.

Quase um ano se passou sem ataques, até que em abril de 1938 um operário avistou o que achava ser um peixe grande nos bancos do rio Cuyahoga. Ao se aproximar ele percebeu que se tratava da porção inferior da perna de uma mulher, o primeiro pedaço da décima vítima. Buscas na água encontraram outras partes e Gerber conseguiu descobrir traços de drogas no organismo dela. Seria assim que o assassino paralisava suas vítimas ou ela era uma usuária de heroína. A descoberta dos braços poderia lançar uma luz sobre o caso, mas estes nunca foram encontrados.

Meses depois mais um torso de mulher foi achado em um terreno baldio embrulhado em um cobertor. Junto com a embalagem a polícia descobriu papéis de embrulho e luvas de plástico sujas de sangue. A cabeça estava em outro pacote ali perto. O legista dessa vez descobriu que os restos pareciam ter ficado em um ambiente refrigerado. Enquanto buscavam por mais pistas, a polícia encontrou um segundo cadáver próximo. Ironicamente, esses dois corpos foram despejados em um lugar a poucas quadras do escritório de Eliot Ness, quase com uma provocação do assassino.

A resposta veio na mesma semana. Ness e um efetivo de trinta oficiais de polícia, decidiram investigar os casebres às margens do rio onde os últimos corpos haviam sido encontrados. A operação de "pente fino" visava encontrar o covil que o assassino supostamente vinha usando para eliminar suas vítimas. Pela manhã, polícia e bombeiros retiraram os moradores e atearam fogo aos casebres.

A imprensa criticou as ações de Ness e sua incapacidade de encontrar o responsável. A ação contra os moradores da beira do rio não ajudaria em nada na caça ao criminoso e apenas aumentou o clima de insegurança. O público estava preocupado e frustrado.

Mas então os crimes pararam de maneira tão brusca e inexplicável como quando se iniciaram.

Em julho, o xerife do Condado Martin O’Donnell, que não era da polícia de Cleveland, prendeu um pedreiro de cinquenta e dois anos chamado Frank Dolezal pelo assassinato de Flo Polillo. Dolezal havia tido um caso amoroso com a vítima e investigações posteriores demonstraram que ele conhecia Edward Andrassy e Rose Wallace.


Frank Dolezal acabou sendo o único homem acusado de ser o infame açougueiro de Cleveland. Na foto ao lado ele deixa a delegacia acompanhado do xerife O'Donell.

Após um longo interrogatório ele confessou a autoria dos crimes, mas a confissão era totalmente incoerente e ausente de detalhes, quase como se ele tivesse sido orientado a falar. Antes de ser enviado para o tribunal, Dolezal foi encontrado morto em sua cela, supostamente havia cometido suicídio. A imprensa levantou dúvidas a respeito da morte, afirmando que Dolezal não conseguiria se enforcar tão facilmente. A autópsia de Gerber revelou que o preso tinha seis costelas quebradas e marcas de agressão. Atualmente ninguém acredita que ele fosse o verdadeiro assassino do torso.

Muitos investigadores atuais suspeitam que o verdadeiro assassino do torso fosse o Dr. Francis Sweeney um cirurgião que possuía uma clínica nos arredores de Kingsbury Run. Sweeney trabalhou durante a Grande Guerra em uma unidade médica especializada em amputações. Sabe-se que o médico foi entrevistado pessoalmente por Eliot Ness, mas dispensado. Durante o interrogatório, Sweeney teria sido testado com um polígrafo e teria falhado duas vezes seguidas. Ness, no entanto, achava que apontar o médico como responsável poderia arruinar sua carreira, pois Sweeney era primo de um congressista e uma pessoa importante na cidade.

Em 1938, pouco depois do último crime conhecido, Sweeney se internou voluntariamente em um sanatório privado que diagnosticou um quadro de perturbação nervosa e esquizofrenia latente. Ele morreu no hospital dos veteranos em 1964.

Uma coisa é certa, Eliot Ness tinha um suspeito que ele acreditava ser o verdadeiro assassino. Esse suspeito continuou provocando Ness através de cartas e cartões postais por muitos e muitos anos depois que os assassinatos pararam. As cartas endereçadas ao investigador continuaram chegando até as suas mãos, mas em dado momento o próprio Ness afirmou ter desistido de lê-las e simplesmente as jogava fora. Não havia digitais ou qualquer pista que pudesse ser usada nas cartas e cartões enviados de centrais de correio de toda Cleveland.

Ness morreu acreditando que a pessoa que enviava cartas era uma fraude.

Quase 100 anos depois dos infames Assassinatos de Kingsbury Run, os crimes permanecem como um dos mais assustadores casos criminais da história americana, mais assustador pelo simples motivo de que o responsável jamais tenha sido capturado.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Cisne Negro - Espiral de Loucura e Insanidade em filme de... ballet?

Ontem fui assistir com a minha esposa o filme Cisne Negro (Black Swan/2010).
Engraçado como são as coisas...

Eu estava tentando escapar desse filme já faz umas semanas, por saber superficialmente que se trata de um filme sobre o mundo do ballet. Vou ser sincero, eu nunca simpatizei com ballet. Nunca entendi o que as pessoas enxergam nesse tipo de arte. Falando como leigo, ballet é tão inconcebível para mim quanto um slash movie é para... digamos, minha avó.

Mas eu estava devendo assistir um filme desse tipo com a minha mulher desde que ela topou ver "Os Mercenários" ano passado. Meio à contragosto fui ver o filme imaginando que sairia dele sofrendo com ondas recorrentes de tédio que só um filme sobre ballet poderia ocasionar. Pensei até que teria de me "desintoxicar" assistindo algo como Comando para Matar ou Hellraiser para ter uma boa noite de sono.

Contudo, surpresa das surpresas... o ballet é apenas o pano de fundo de um filme incrivelmente soturno, esquisito e de certo modo assustador. (claro, se não tivesse algo de assustador eu não falaria dele nesse blog!).

Resumo, eu acabei achando o filme interessante. Minha esposa detestou... possivelmente vou ter de asisstir "Amar, comer e rezar" ou algo que o valha num futuro próximo.

Bem, se você está lendo até aqui é porque deve estar curioso sobre o maldito filme. Então falemos a respeito dele.

Cisne Negro conta a estória da jovem bailarina Nina Sayers, interpretada por Natalie Portman. Ela é bonita, vulnerável, bobinha e cheia de fragilidade. No começo eu detestei a personagem, parece aquele estereótipo de menina moça, cujo sonho é ser bailarina. Mas é aí a coisa começa a degringolar (no bom sentido). Para interpretar o papel de sua vida, o de protagonista em "O Lago dos Cisnes", Nina tem que mergulhar em seus medos e tocar o lado negro de sua alma. Só assim será capaz de interpretar o Cisne Branco (cheio de pureza) e a sua contra-parte, o Cisne Negro (diabólico e maldoso).


A medida que tenta equilibrar a ansiedade e o medo de não estar à altura do papel, Nina começa a experimentar alucinações cada vez mais perturbadoras. Os ensaios se transformam em sessões de tortura, os olhares invejosos das colegas vão se tornando cada vez mais penetrantes, ela se arranha - descontando no corpo suas frustrações - e pior de tudo, o amor pela dança que pontilhava suas ações vai se tornando cada vez mais amargo. Cisne Negro é um filme sobre temores: o medo de não estar à altura de uma tarefa, de sofrer com as falhas, de ser substituído e de ser esquecido. É tensão psicológica de ótima qualidade. Não é terror, mas nem por isso deixa de causar uns arrepios.

Natalie Portman parece ter dado um passo decisivo em sua carreira artística com a interpretação de uma personagem em queda livre na espiral de loucura sem escalas para um colapso nervoso. Nina vive em um quarto de boneca cor de rosa com direito a caixinha de música e toneladas de bichinhos de pelúcia. Super protegida pela mãe que vê nela a chance de realizar o próprio sonho de ser uma bailarina de sucesso.

Quando o filme começa descobrimos que a companhia de ballet está para dispensar a atual estrela (Winona Ryder) que chegou a idade limite. O diretor da companhia, Thomas Leroy (Vincent Cassel) precisa de uma nova estrela para o papel principal do Lago dos Cisnes. O diretor bate o olho nas bailarinas e acaba escolhendo Nina, que executa perfeitamente o papel de Cisne Branco. O desafio para ela é encarnar o Cisne Negro, um personagem vibrante e livre dos pudores que atormentam a vida de Nina.

Thomas encoraja Nina a se espelhar em uma concorrente direta para o papel, sua colega Lily (Mila Kunis) que diferente de Nina demonstra talento justamente quando interpreta o Cisne Negro. A insegurança de Nina causa cada vez mais danos a sua sanidade e ela começa a imaginar que Lily quer tomar o seu lugar.


Como um estudo de loucura (e por isso ele é válido para quem gosta de um jogo que aborda a loucura), Cisne Negro é o que surgiu de melhor desde Repulsa ao Sexo (1965) de Roman Polanski - outro filme barra pesada sobre insanidade. Mas de fato ele se assemelha mesmo ao clássico "O Bebê de Rosemary" também de Polanski. Ao examinar as profundezas da paranóia e da incerteza, o diretor faz com que o público não se tenha certeza se ela está enlouquecendo ou se há realmente uma conspiração. Nina parece perdida, assim como Rosemary, incapaz de despertar de um pesadelo cada vez mais claustrofóbico. Será que alguém está tramando contra a personagem ou as sombras que ela vê, estão apenas na sua mente perturbada?

As alucinações experimentadas por Nina são cada vez mais estranhas, em um momento especialmente bizarro ela imagina que uma ferida nas suas costas que teima em não sarar esconde a plumagem negra da sua fantasia de cisne. Nina começa a perder o contato com a realidade e sua personalidade muda, como se o Cisne Negro estivesse pervertendo sua razão ganhando espaço. Em outro momento inquietante Nina se entrega a uma noitada na companhia de Lily alimentada por drogas e sexo.

Como se pode perceber o ballet é secundário na trama, tenho a impressão de que Cisne Negro poderia ser a respeito de qualquer outra forma de obsessão humana.

O diretor reserva o final do filme para a temida estréia do Lago dos Cisnes quando a loucura de Nina explode tornando o espetáculo uma tragédia.


Bom, o filme é estranho e imprevisível. O tipo da coisa que quando termina divide opiniões entre aqueles que gostaram e aqueles que detestaram. Se me perguntar eu não sei se posso emitir uma opinião sobre o que achei de Cisne Negro, e quando isso acontece a tendência é ter de assistir mais uma ou duas vezes para entender ele em sua totalidade.

É um daqueles filmes difíceis, como quase todos do diretor Darren Aronofsky que fez os igualmente complicados Fonte da Vida e Pi.

Não vou indicar Cisne Negro para todos. É um filme interessante para quem quer ver algo intrincado. Mas aviso logo que nem todo mundo vai gostar, por isso quem ficou curioso com essa resenha e quer se arriscar, vá por sua própria conta e risco.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Evento mensal do Saia da Masmorra no Rio de Janeiro

Com um pouco de atraso, mas aí está.

Na semana passada aconteceu o encontro do pessoal do Saia da Masmorra na galeria da loja Point HQ em Ipanema.

A proposta do Saia da Masmorra é apresentar aos novos jogadores RPG independentes e menos conhecidos. São jogos como Traveler, Deadlands, Cyberpunk 2020, Eclipse Phase, Trinity, Kult, Solomon Kane, 7th Sea e é claro... Call of Cthulhu.

O encontro de sábado passado, dia 12 de Fevereiro foi bem animado com a presença de cerca de 20 jogadores e três mesas bem cheias. Como essa é apenas a segunda edição, a tedência é a coisa ir crescendo a medida que a notícia se espalha.

O Saia da Masmorra é uma boa opção para quem está interessado em fugir um pouco dos jogos convencionais e conhecer em primeira mão sistemas de que só tinha ouvido falar.

Aí estão algumas fotos dessa edição do encontro:

Mesa de Call of Cthulhu Dark Ages do Rodrigo Gonzalez que mestrou um cenário viking.

No meio do jogo: os personagens se preparam para visitar a casa de uma bruxa medonha nas charnecas da Irlanda do século IX.

Segurando a foto da bruxa velha, miserável, lazarenta... claro que meu personagem é que teve de encarar a desgraçada e passar por uma provação que nenhum homem está preparado para sofrer. Não vou dar detalhes...

A mesa vizinha de Traveller, clássico RPG de Ficção Científica com direito a batalhas espaciais, tiroteios em estações orbitais e pistolas laser.

A mesa de Dragon Age, ambientação medieval, inspirada no jogo de computador com o mesmo nome. O boato é que um jogador morreu no primeiro ataque do primeiro combate.

Bom é isso aí, para quem se interessou, todo o mês vai ter uma edição do Saia da Masmorra.

É só aparecer por lá, sentar e deixar os dados rolarem.

O link abaixo leva para o Blog: http://www.saiadamasmorra.blogspot.com/