sábado, 10 de dezembro de 2011

Cinema Tentacular: The Colour from the Dark - Filme italiano baseado em A Cor que Caiu do Espaço

H. P. Lovecraft disse certa vez que dentre as estórias que ele escreveu, “The Colour out of Space” (A Cor que caiu do espaço) estava entre as suas favoritos. Embora eu pessoalmente tenha outros entre meus preferidos, "A Cor" teria lugar em minha lista de cinco melhores.

Aparentemente, a cor também é a favorita de muitos cineastas, já que por três vezes este clássico conto de horror foi adaptado para as telas de cinema.

A primeira vez em 1965 com o filme "Die Monster, Die" (Morra Monstro, morra), estrelado por ninguém menos que Boris Karloff (já com a carreira em franco declínio). Depois em 1987, foi a vez de "The Curse" (A Maldição - Raízes do Terror), estrelado por Wil "não me chame de Wesley Crusher" Wheaton. Nenhum desses dois no entanto conseguiu ser fiel à obra de Lovecraft. Na realidade, esses filmes usam apenas a premissa original do conto em que um meteoro cai na Terra causando estranhas alterações nas formas de vida nativas. Curiosamente, pouco ou quase nada desses dois filmes se refere a criatura alienígena no interior do meteoro, o horror ficava à cargo de plantas e animais modificados.

Eu estava à procura de um filme alemão chamado "Der Farbe" (traduzido como "A Cor") que até onde sei foi lançado ano passado. Algumas pessoas falaram bem à respeito dele e eu queria conferir o resultado. Não consegui encontrar esse filme, no entanto, pesquisando um pouco mais esbarrei em outra versão de "A Cor" que eu sequer conhecida.

Trata-se de uma modesta produção italiana de 2008 intitulada "The Colour from the Dark" (A Cor da Escuridão).


Eu sempre gostei do cinema de horror da Itália. Dario Argento, Mario Bava e Lucio Fulvi, são apenas alguns nomes de peso entre os grandes realizadores do horror na terra do espaguete. Eles conseguiam transmitir mais suspense e apreensão em cenas silenciosas e enquadramentos do que diretores atuais gastando rios de dinheiro em efeitos digitais inócuos.

A escola italiana nos deu grandes mestres e ao que parece, o diretor Ivan Zuccon tentou se espelhar neles para compor sua versão de "Colour out of Space". O filme não chega a ser uma adaptação fiel do conto, mas tem seus méritos sobretudo quando recorre a imagens surreais e incômodas. Uma pena não haver mais sonhos e devaneios oníricos como o do início do filme.

Uma boa sacada do diretor é explorar a fotografia e cores do filme. As cores parecem ser um elemento marcante, da palidez funesta das pessoas lentamente consumidas pela criatura alienígena, passando pelo tom avermelhado que a criatura emite, até o cinza profundo ao retratar em pormenores como um cadáver em lento processo de decomposição pode ser assustador. "Colour from the Dark" possui várias imagens impactantes cujo choque é acentuado pela fotografia incomum.

Ok, visualmente o filme está em ordem, mas como todos os fãs do gênero bem sabem, o roteiro é o grande divisor de águas separando filmes de terror que valem à pena serem assistidos das bobagens que a gente esquece logo depois de ver.

O filme se passa no interior da Itália durante a Segunda Guerra Mundial e foca em uma família de fazendeiros composta por Pietro (Michael Segal) e sua esposa Lucia (Debbie Rochon) que vivem em uma modesta propriedade na companhia de Alice (Marysia Kay) a irmã muda de Lucia. A guerra rolando solta, mas a grande preocupação deles é com sua fazenda e sua própria sobrevivência. Certo dia uma estranha luminosidade emerge do poço de água pouco antes de uma explosão e do surgimento de uma nuvem de fumaça. Estranhamente a partir de então a água adquire propriedades medicinais e os vegetais começam a crescer. Mas como sempre, é questão de tempo até que coisas estranhas aconteçam levando os moradores da fazenda à loucura e desespero.

Em essência, o filme conta a estória de uma força alienígena desconhecida, uma coisa indescritível - apenas uma cor - capaz de consumir a vida à sua volta, e como as pessoas afetadas por esse fenômeno reagem. Nesse aspecto ele tem um clima bastante fiel ao conto no qual se baseia. Há uma aura de corrupção, deterioração e medo permeando todo o filme. A cor é indestrutível e implacável e as pessoas lentamente vão perdendo suas forças e a própria sanidade, algo bem dentro do espírito lovecraftiano.

O elenco faz o possível para representar essa degradação. Se os artistas não são brilhantes, ao menos se esforçam para passar a sensação de medo que seus personagens estão sentindo. Há algumas escorregadas, mas nada que comprometa. Uma coisa interessante é que apesar do filme ter sido filmado e produzido na Itália, todos falam inglês. Muito provavelmente para chegar ao mercado internacional, o diretor optou em trabalhar com artistas fluentes em inglês, o que facilita bastante.

Mas se por um lado, o filme chega perto de ser envolvente, por outro dá longas passadas na direção contrária ao cometer algumas gafes imperdoáveis.

Uma das mudanças mais profundas diz respeito à origem da criatura. No filme, a cor não veio do espaço viajando em um meteoro, mas das profundezas da Terra (por isso o título diferente). Eu realmente adoro o conceito original de que o Cosmos é muito mais vasto que podemos supor e que nessa vastidão existem coisas inexplicáveis, entre as quais formas de vida totalmente incompatíveis com as que estamos habituados. E o contato com essas coisas, sempre será de alguma forma traumático.

De um modo geral, eu não ficaria muito chateado com essa mudança, mas é a implicação filosófica do que significa "vir das profundezas" que me incomoda.

Há uma forte aura religiosa no filme, sobretudo no que diz respeito a criatura e uma possível origem satânica dela. Há algumas cenas em que aparecem crucifixos e outros objetos de iconografia cristã sendo derretidos pelo monstro e uma espécie de possessão demoníaca com toques de luxúria que remete diretamente ao Exorcista. O interesse da criatura por desvirtuar e ridicularizar os valores religiosos dos personagens me leva a crer que ela não é um monstro alienígena que não dá a mínima pela humanidade (um dos dogmas lovecraftianos). A cor se assemelha mais a um tipo de manifestação diabólica disposta a tentar, perverter e destruir os personagens.
Esse tipo de visão pseudo-religiosa quase coloca tudo a perder. Não sei se o diretor resolver incluir esse embate entre "bem e mal" em virtude de suas crenças particulares, mas o fato é que foi uma tremenda besteira. O sempre ateu e materialista Lovecraft deixava claro que as criaturas do Mythos não eram demônios, mas entidades de poder cósmico incalculável. Insistir na explicação religiosa para racionalizar as ações da criatura é remar contra a corrente, ainda mais em se tratando de um filme baseado na obra de Lovecraft.

Lá pela metade do filme eu resolvi esquecer que ele pretende ser uma adaptação de "A Cor que caiu do Céu" e passei a assistir como um filme de terror qualquer. Ajudou bastante.

Para quem conseguir abstrair esses detalhes, encontrará um filme que é apenas diversão descompromissada, com direito a alguns sustos.

Trailer:




quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

La Caja Negra - Edição de Luxo para Call of Cthulhu lançada na Espanha

Em outras oportunidades eu já havia falado (transbordando de inveja) à respeito das edições luxuosas de Call of Cthulhu na França e na Alemanha.

A qualidade desses livros é sem dúvida notável.

A produção costuma primar pelo acabamento luxuoso que inclui papel couché de alta qualidade, farta arte exclusiva totalmente colorida, adições ao texto original americano, regras próprias e opcionais para o sistema, adendos para usar o país natal como ambientação etc...

Não apenas os franceses da Sans Detour e os alemães da Pegasus Spiele investem em material de RPG de primeira. A editora Edge Entertainment da Espanha começou a vender uma Edição Especial de Colecionador comemorando os 30 anos do RPG Call of Cthulhu.

O material é simplesmente sensacional e não fica à dever nada (nadinha mesmo) aos seus colegas europeus.

O pacote recebeu o nome de Caja Negra pois o material vem acondicionado em uma "caixa luva" preta com o Elder Sign em relevo. (Dá para ver no canto esquerdo da imagem acima).

Dentro dela o feliz comprador encontra:

- O Livro Básico de Call of Cthulhu (sexta edição)
- Um Escudo para o Mestre
- Um set completo de dados personalizados para Call of Cthulhu
- Uma Bolsa para guardar os dados
- Um bloco com 80 fichas de personagens para as três épocas principais
- Um Mapa colorido da cidade de Arkham, Massachusetts

O escudo segue a tendência dos novos Screens para Game Masters. Ele tem quatro painéis com uma belíssima arte na parte da frente e informações úteis para o mestre do seu lado.

É um dos Screens mais bonitos que eu vi nos últimos tempos. Algo que fica bonito em cima da mesa e que evoca perfeitamente o estilo abordado pelo jogo.

As fichas de personagem são personalizadas para essa edição especial.

Elas são feitas em papel especial e se referem às três principais eras de jogo (1890, 1920 e Atual). Eu estou procurando um modelo dessa ficha para download, mas até agora infelizmente não encontrei. A diagramação e disposição das informações me parece bem interessante.

Os dados que acompanham a caixa são os dados personalizados em cor verde e preta. Eles vem com uma bolsinha para guarda-los e um elder sign para protegê-los.

O mapa de Arkham me chamou a atenção, especialmente pelo fato dele não ser apenas uma folha de papel, mas um tipo de tabuleiro dobrável feito do mesmo material que o escudo do mestre. Ou seja muito mais resistente e à prova dos eventuais jogadores desastrados que teimam em virar refrigerante na mesa de jogo.

Mas o Livro básico como nãopoderia deixar de ser é o "filé mignon" do pacote.

Capa Dura, papel de qualidade e luva protetora com orelha interna. Arte exclusiva e (incríveis) 350 páginas coloridas.

O livro contém as regras básicas da sexta edição, mas com algumas regras opcionais para o sistema e textos adicionais.

Uma mostra do bestiário das criaturas do Mythos. Esses desenhos em preto e branco parecem rascunhos feitos à mão livre. Eu gosto muito desse estilo que cria a ilusão de serem ilustrações de um caderno de desenhos.

Já as divindades e criaturas de poder cósmico merecem um tratamento diferenciado. Cada criatura recebe duas páginas de informações e arte de cair o queixo.

Acima as páginas relativas a Shub-Niggurath.


E essa é a de Azathoth. Para aqueles que estão achando pos desenhos familiares, eles são os mesmos usados pela editora Fantasy Flight em seus produtos.

Aqui estão as fichas e atributos de personagens clássicos dos contos de H.P. Lovecraft. Henry Armitage, Randolph Carter, Joseph Curwen e Edgard DeLa Poer. Tenho certeza que todos os principais personagens devem ter recebido esse mesmo tratamento.

O livro tem três cenários prontos para o mestre já lançar seus jogadores nas investigações do Mythos de Cthulhu. Ao que parece, os cenários são todos novos e exclusivos.

Bem, como de hábito agora vamos falar da dolorosa...

O livro está à venda na Espanha ao custo de 99,95 Euros. Um pouco mais caro que as edições da França e Alemanha, mas com mais material. Por exemplo os outros não incluem os dados e o mapa.

Para quem sabe espanhol ou tem facilidade para idiomas, vale a pena! Não sei à respeito de frete e se eles despacham para o Brasil, mas se o fizerem deve custar mais uma pequena fortuna.

Mesmo assim, é deveras tentador...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Perturbadores, bizarros e assustadores desenhos de crianças.

Post sugerido por Eduardo Felipe.

Como os desenhos feitos por crianças pareceriam se fossem pintados realisticamente?

Foi a partir dessa pergunta que o artista Dave DeVries teve a idéia para seu livro "The Monster Engine" (O Motor Monstro).

Para conceber as ilustrações, o autor projetou os desenhos de várias crianças com idades variando entre 2 e 6 anos, e usando um projetor opaco traçou cada linha fielmente. Em seguida, aplicando uma combinação de lógica e instinto, ele pintou os desenhos de forma realista.

O resultado é ao mesmo tempo bonito e perturbador.

A proposta ao meu ver é tentar decifrar e representar aquilo que as crianças realmente desejavam colocar no papel e colocariam se tivessem meios para fazê-lo. Alguns destes desenhos ficaram realmente bizarros, parecem coisas saídas de pesadelos. Confira alguns dos trabalhos:

Sr. Cabeça de Batata - Peter - 5 anos

Diana - 5 anos - Esse é especialmente estranho, percebam a menina escondida de baixo do monstro que parece procurar por ela.

Chase - 4 anos. Típico monstro do armário.

Alyson - 3 anos desenha seu gatinho
Chelsea - 3 anos

Dylan - 6 anos

O homem bonzinho - Tammy - 4 anos

Eu sempre gostei da idéia de usar a percepção infantil para representar algum horror inconcebível. E que melhor maneira de representar isso, do que por intermédio de desenhos feitos por crianças.

Há uns anos atrás pedi para meu afilhado que tinha 6 anos para desenhar um monstro do Mythos, no caso o Eihort, para que eu pudesse fazer um handout. Na aventura, o desenho era uma pista de que algo estranho habitava uma casa e essa força era de conhecimento das crianças que ali viviam.

O desenho ficou bem legal e diante da cara dos jogadores, é claro, aumentei o custo de sanidade deles.

Antes que alguém diga que eu traumatizei demais meu afilhado, o sangue e a legenda dos personagens fui eu quem colocou depois que ele terminou o desenho.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O Culto Familiar - Trabalhando Idéias para Clãs de Cultistas

O último artigo sobre a Lenda da Família Lincoln me inspirou a escrever a respeito de Cultos Familiares.

Clãs unidos pelos segredos negros que são cultivados no seio familiar. Tradições antigas que unem indivíduos e tornam o vínculo entre eles mais espesso que o sangue.

Na mitologia lovecraftiana os segredos familiares são frequentemente explorados em contos clássicos. Em "Os Ratos nas Paredes" o protagonista entra em contato com seu legado familiar ao saber que seus antepassados estavam envolvidos com adoração demoníaca e canibalismo. Em "A Sombra sobre Innsmouth" o tenebroso clã Marsh controla com mão de ferro a cidade costeira. Seu segredo é que no passado firmaram um pacto com os Profundos que lhes deu poder e influência sobre toda comunidade ao custo de uma terrível mutação que os torna menos que humanos. Já o pobre Charles Dexter Ward mal têm tempo de se arrepender de pesquisar os segredos de seu ilustre antepassado, o feiticeiro Joseph Curwen antes deste ser trazido de volta dos mortos para tomar seu lugar.

Mas é provável que o melhor exemplo de Culto Familiar na literatura de Lovecraft seja a Família Whateley em "O Horror de Dunwich". Os Whateley compõem um cabal de bruxos extremamente poderosos que vivem nas inóspitas montanhas da Nova Inglaterra. À primeira vista não passam de caipiras excêntricos metidos com magia negra, mas a coisa se prova muito mais séria quando fica claro que o acordo feito com Yog-Sothoth trouxe horríveis frutos.

Há algo de profundamente assustador nesse tipo de culto. Não apenas por ele ser formado por pais e filhos, mas pelo fato de que os próprios pais são os responsáveis por introduzir suas crianças nesse mundo de horrores indescritíveis. O conhecimento oculto transmitido de pai para filho, de avô para neto... magias e rituais incompreensíveis para aqueles de fora do grupo e a cobrança para que tudo seja mantido em segredo.

A estrutura de um culto familiar pode variar bastante. Ele pode existir há séculos com antepassados vindos de terras distantes ou ter sido formado há apenas uma geração com a descoberta de um artefato ou livro. O culto pode ter nascido com um pacto com as forças do Mythos ou uma promessa de fidelidade eterna. Talvez os pais tenham descoberto que cometer sacrifícios em um altar no fundo do quintal é uma maneira de satisfazer Nyogtha e que ele retribui ensinando magias. É possível que o patriarca de uma família tenha feito um acordo com os ghouls que vivem em um cemitério perto de sua casa e em troca de acobertar suas ações lhe é prometida a imortalidade. Para seus filhos, crescendo nesse ambiente pernicioso, canibalismo seria algo totalmente natural. É esse o elemento mais bizarro, o fato de que as crianças vivendo nesse ambiente tomam todo esse horror como algo normal.

Aqui estão algumas idéias para criar Cultos Familiares.

Invente um Segredo Negro:

Qual o terrível segredo que a família esconde?

Em algum momento do passado a família foi tocada pelas trevas. Algum evento macabro desencadeou a ligação com o terror sobrenatural que passou a definir a própria essência de seus membros. Talvez um antepassado tenha participado de uma cerimônia profana, quem sabe um ancestral foi concebido durante um ritual ou um membro da família resgatou um artefato de um templo perdido. Seja lá o que for, esse evento abriu um canal para as forças da loucura e destruição que ainda se mantém ativo. O segredo pode ser a base para a criação de cenários envolvendo a família e de toda uma campanha se ele for negro o bastante.

É possível imaginar qualquer coisa que precise ser mantida em sigilo e cuja exposição traria graves consequências. O segredo de família mais comum em uma ambientação lovecraftiana envolve obviamente a veneração à alguma entidade ou criatura do Mythos, mas há muitos outros segredos que podem ser incorporados.

Talvez a família mantenha um templo de Shub-Niggurath na floresta e de tempos em tempos dance em torno de uma fogueira para que Ela abençoe os campos. Quem sabe, a família tenha feito um acordo com um Lloigor e esse ensine magias em troca de sacrifícios nas noites sem lua. Também é possível que uma família se mantenha unida em torno de uma horrenda verdade: o fato de todos eles serem híbridos dos Profundos prestes a se transformar em homens peixe.

O Segredo Negro é o que torna a família diferente e os obriga a se protegerem a fim de perpertuar esse segredo. Em última análise os membros da família só podem contar com aqueles que tem o mesmo sangue e tanto a perder quanto eles próprios.

Defina quais os seus planos:

O que o culto pretende? Quais os planos de seu líder e o que ele têm em mente à longo prazo?

Em geral cultos familiares têm duas preocupações fundamentais: proteger seu segredo negro e preservar a segurança de seus membros. Muitos cultos familiares tendem a se acomodar com essas duas únicas preocupações e viver isoladas. São as típicas famílias que não se relacionam com seus vizinho e que tendem a ser mal vistos pela comunidade em que vivem. Rumores abundam a respeito deles: teriam realmente feito um pacto com as trevas? Será que eles casam entre si? O que eles escondem em sua casa? Como eles vivem? Quais seus costumes?

Entretanto, nem todo culto familiar têm uma existência estagnada. Alguns passam anos ou mesmo décadas tecendo seus planos, aguardando o momento certo de colocar em curso uma antiga profecia. Talvez eles esperem o nascimento de gêmeos idênticos ou o surgimento de uma criança com uma determinada marca de nascença. Quem sabe eles pretendem restaurar seu poder perdido ou se vingar daqueles que ousaram cruzar seu caminho. Os planos podem estar ligados a uma data específica que se aproxima - as estrelas se alinhando! - ou a um fato previsto séculos antes pelo fundador do culto.

Uma família de cultistas pode se contentar em apenas viver sob o mesmo teto e realizar seus rituais, mas é bem mais interessante imaginar que eles compartilham de um mesmo propósito e que cada um anseia pela sua realização.

Defina o Líder da Família:

Em geral a unidade familiar é mantida por uma figura de autoridade. Essa figura mantém a família na linha, zela pelas suas tradições e dita as ordens. Sua autoridade é total e ele tem poder de vida e morte sobre os outros membros. O líder tende a ser o membro mais velho da unidade familiar, o pai ou a mãe, mas há casos em que estes cedem seu lugar para suas crianças, especialmente se estas forem tocadas pelos deuses.

Em se tratando de um culto, o líder é uma presença ameaçadora que inspira sentimentos conflitantes nos demais. Talvez ele seja amado de forma doentia pelos outros que o consideram mais próximo dos deuses, mas também é possível que ele seja temido a ponto de ser odiado pelos demais que desejam removê-lo do comando. Tente determinar como esse indivíduo se tornou líder do culto. Foi ele o fundador? Ou será que ele recebeu o poder de outra pessoa? Quem o antecedeu? Qual a sua tática para se manter à frente dos demais? E o que os demais esperam dele?

Pense em um professor acima de qualquer suspeita que reúne a família para presidir missas negras honrando Hastur, ocasião em que veste seu manto amarelo com símbolos arcanos bordados. Imagine uma velha matriarca servindo secretamente a Shub-Niggurath, enquanto cuida de um orfanato que só aceita meninas. E o que dizer do patriarca que usa uma máscara cheia de tentáculos para abençoar os pescadores de uma pequena vila costeira antes destes se lançarem ao mar.

O líder do culto é uma figura essencial para o funcionamento do bando. Ele tem presença e carisma suficientes para manter os cultistas em foco apesar da insanidade e delegar as tarefas que julga importante. Ele também é o responsável por comungar com as divindades, de invocar criaturas e presidir os rituais blasfemos.

Em muitas aventuras, o líder do culto será o verdadeiro nêmesis dos investigadores. Uma divindade dos Mythos, é claro, pode ser muito mais poderosa e terrível, mas o líder do culto é uma ameaça bem mais presente e constante.

Construa a Família:

O líder é sem dúvida a figura proeminente no culto familiar, mas não é o único indivíduo. Gravitando ao redor dele estão as pessoas de sua confiança e os seguidores à serviço do culto.

Um culto familiar é composto por pelo menos duas pessoas além do líder: um companheiro e seu herdeiro. Um dos aspectos fundamentais do culto familiar é a preservação de suas tradições e a única maneira de perpetuar o culto é através de filhos que carregarão as tradições após a morte do líder. Os cultos familiares crescem a medida que a família se desenvolve, crianças são portanto um recurso extremamente valioso.

Muitos cultos apocalípticos acreditam que seu líder é uma espécie de messias e que seus filhos herdam uma parecela de seu espírito. Por essa razão, é comum que os líderes possam se casar ou ter relações com vários seguidores a fim de espalhar sua semente e assim gerar várias opções de para lhes susceder. Não é muito difícil imaginar um culto devotado ao obsceno deus obeso Y´Golonac, formado por um líder degenerado e sua comitiva de esposas, cada uma com vários filhos.

É bem provável que alguns cultos familiares sequestrem crianças para aumentar seu número de forma mais rápida. Crianças submetidas desde cedo à lavagem cerebral dos cultistas, acabam crescendo acreditando na mesma doutrina que seus "pais adotivos". Meninas são uma ótima opção para desposar os filhos legítimos da família evitando uniões consanguineas.

É natural que dentro do culto familiar se forme uma estrutura hierarquica. Tente definir quem é o braço direito do líder, em quem ele confia e em quem não confia. Quais os segredos que esses auxiliares detém. Estabeleça qual deles aprendeu magia e quem foi treinado como assassino para eliminar os inimigos. Será que algum destes seguidores do culto familiar recebeu alguma benção dos deuses? Será que algum deles nasceu em meio a um ritual? Será que algum deles é especialmente nefasto? Alguém foi sequestrado quando não passava de uma criança? Defina se alguns deles tem uma vida de fachada com um emprego ou se são simplesmente lunáticos perigosos.

Da mesma maneira que o líder do culto será um oponente presente no seu cenário, os cultistas desempenham o papel de "inimigos comuns" que perseguem os personagens. Embora eles não sejam poderosos como o líder ou aterrorizantes como as criaturas que servem, cultistas são essenciais para um bom cenário lovecraftiano. Não como "bucha de canhão", mas como um exemplo da baixeza e vilania humana.

Detalhe a História do Culto:

Depois de definir os elementos centrais do culto familiar chega o momento de detalhar as coisas um pouco mais.

Será que o culto se formou nos tempos da Caça às Bruxas ou ele é ainda mais antigo, remontando à Idade das Trevas? Os cultistas vieram da Inglaterra ou de uma obscura ilha na costa da África? Será que em algum momento a família foi perseguida pelas suas crenças? Eles foram descobertos? Será que alguns acabaram mortos nas fogueiras da inquisição? Como o culto se formou e se tornou o que é? Por quais mudanças a família passou?

Detalhar o histórico concederá recursos para que o guardião trabalhe as bases do culto familiar e o torne mais verossímel. A imagem de cultistas fanáticos vestindo mantos é clássica, mas se usada repetidamente acaba perdendo a graça. Nem todo culto é igual, nem todo cultista tem a mesma mentalidade.

Busque definir quem são os inimigos do culto. Quem são seus aliados? Quais as suas diretrizes e tradições mais profundas? Um culto familiar que sofreu perseguições no passado pode ser paranóico com sua própria segurança. Uma família que gozou de influência pode almejar retomar esse poder perdido. É possível que um culto tenha chegado perto de realizar seus planos, o que os impediu?

Também é importante descrever quais os recursos à disposição do culto familiar. Será que eles possuem um templo? Onde ele fica? Ele é um grande e imponente templo de pedra com imagens repulsivas de Cthulhu e altares de pedra ou nãopassa de um pequeno templo no porão bolorento da casa. Há guardas que protegem esse templo? Ele dá acesso a um esconderijo onde vivem criaturas trazidas de outras dimensões? Além disso, os cultistas tem à disposição armas? Dinheiro? Influência? Contatos?

Procure definir se a família possui algum tomo profano repousando sobre seu altar. Pior ainda, será que eles possuem uma vasta biblioteca secreta composta de vários livros raros ou tudo se resume a um pergaminho amarelado escrito em sangue. Será que eles possuem um artefato ancestral entregue pelos seus próprios deuses negros? O que ele faz? Como é usado? Qual o seu significado para os cultistas?

Os detalhes que o Guardião puder previamente dispensar ao culto farão diferença no momento de interpretar suas ações. Muitas vezes é aquele pequeno detalhe que torna um culto algo incrivelmente assustador.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Lenda Urbana: A Família Lincoln espalha o medo no Meio-Oeste Americano

Há muitas estórias fantásticas que circulam por aí.

Algumas ganharam o status de "lendas urbanas" - estórias contadas por amigos de amigos, descrevendo incidentes bizarros como o carona na auto-estrada, a quadrilha que remove os rins para vender no mercado negro ou os crocodilos que habitam os esgotos. Outros são acontecimentos baseados em estórias fictícias cuja fonte sequer pode ser traçada e que ganham manchetes em jornais e programas sensacionalistas como se fossem verdadeiras.

Existem também aqueles rumores que circulam em cidades do interior onde as pessoas conhecem bem a vida e os hábitos de seus vizinhos. Estas estórias, limitadas a uma região, um povoado ou a uma comunidade fechada, raramente atingem a popularidade das lendas urbanas, mas nem por isso são menos significativas.

Um desses curiosos rumores é a estranha "Lenda da Família Lincoln".

Trata-se de uma estória com um toque de sobrenatural, à respeito de uma família incomum composta por indivíduos excêntricos e de aparência peculiar, os Lincoln (nenhuma relação com o presidente de mesmo nome) que teriam aterrorizado o meio-oeste dos Estados Unidos pelos idos de 1890-1900.

A estória começou a se espalhar além das fronteiras estaduais em meados dos anos 60, supostamente relatada por pessoas que ouviram-na de seus avós. Não é possível precisar com certeza onde a lenda surgiu ou onde os acontecimentos narrados ocorreram (se é que realmente ocorreram). O que se sabe é puramente baseado em boatos que parecem crescer e diminuir como acontece normalmente com as lendas urbanas.

A Família Lincoln era um clã fechado, gente que possuía segundo os relatos uma aparência perturbadora. Eles teriam partido do Leste, possivelmente de Massachusetts, com o objetivo de se fixar em uma cidadezinha no Meio-Oeste. O pai, a mãe, e três filhos, uma menina e dois rapazes, eram descritos como "estranhos". Eles pareciam atarracados, com olhos saltados e com feições feias que lembravam batráquios. A pele era pálida e de complexão doentia, o pescoço grosso como se sofressem de bócio e a testa ampla. Em algumas versões dizem que seus cabelos eram ruivos de uma coloração semelhante a ferrugem e crespos. Dizem ainda que exalavam um fedor desagradável semelhante a "sangue seco". A personalidade deles espelhava a aparência desagradável. Eles se mantinham distantes, não frequentavam a Igreja e não se preocupavam com as questões centrais da comunidade em que escolheram viver. Viviam em isolamento em uma pequena fazenda na borda de uma floresta, plantavam o que precisavam e raramente visitavam a cidade, salvo para comprar alguma coisa essencial. A propriedade em que viviam era uma fazenda pequena e descuidada, com vegetação crescendo selvagem. Ao longe o casebre parecia abandonado.

Dizem que os rapazes tinham o hábito de vagar à noite pela cidade, espionando seus vizinhos com genuína curiosidade. Eles não conversavam com os moradores locais e quando alguém os encarava, reagiam xingando e ameaçando. Dizem que falavam uma língua própria gutural, rude e desconhecida. Em mais de uma ocasião haviam sido surpreendidos entrando em porões alheios com o intuito de roubar.

Em 1896 ou 1900, um dos rapazes da Família Lincoln, que devia ter algo entre 17 e 19 anos, foi acusado de estuprar e assassinar a filha de um proeminente morador do povoado. O rapaz foi capturado na beira de uma trilha e arrastado até uma árvore onde o lincharam. No funeral do jovem, o patriarca da família declarou que toda a cidade ia se arrepender do que havia acontecido, e atirou um verme ou lesma no pai da garota, gritando: "Aqui está o que lhe espera"!
A lenda afirma que os Lincoln partiram em seguida, suposamente de volta para o leste. Alguns vizinhos viram a carroça que pertencia a eles se afastando. A comunidade respirou aliviada por algum tempo.

Semanas mais tarde o pai e o tio da garota foram encontrados mortos na beira de uma estrada. As circunstâncias das mortes foram consideradas incomuns, os corpos, segundo relatos haviam sido horrivelmente mutilados, membros arrancados e órgãos extirpados. Uma gosma de odor pútrido, "semelhante a pus", cobria os restos. A cena era tão aterrorizante que as duas pessoas que descobriram o lugar do massacre, enlouqueceram por completo.

Um grupo se formou e foi até a propriedade dos Lincoln, lá encontraram o lugar totalmente deserto. Mas algo horrível parecia ter acontecido ali. As paredes estavam cobertas de estranhos desenhos e os animais da fazenda haviam sido mortos de forma bestial. O sangue deles foi usado para fazer os desenhos que deixaram o grupo apreensivo, pois mostravam cenas de morte e mutilação. Aterrorizados os homens resolveram atear fogo ao casebre que ardeu rapidamente.

No mesmo dia descobriram que o cemitério da cidade havia sido profanado. O corpo do rapaz Lincoln fôra exumado e desapareceu da sepultura. O caixão estava aberto e pegadas se espalhavam por toda área. Um sacerdote foi chamado para benzer o lugar, mas o religioso sofreu um acidente à caminho da cidadezinha.

Nos anos que se seguiram, o povoado sofreu uma sucessão de enchentes, secas e tornados. A maldição rogada pelo Patriarca dos Lincoln havia se concretizado e os moradores o abandonaram para tentar a sorte em outras paragens. Ao menos é isso que conta a lenda.

O Professor de Filosofia Raymond Frey (da State University of Ohio) é uma das pessoas que se interessou pela lenda. Ele tomou conhecimento à respeito dela em uma reunião de família ocorrida em Kermit, Virgínia Ocidental. Quem relatou a história foi um médico idoso com uma memória perfeita, apesar de ser um octagenário. Ele afirmava ter conhecido uma testemunha dos eventos originais. Muitos anos antes, o velho médico havia sido chamado para tratar de um paciente que estava delirando. Em seus devaneios, o homem gritava "LINCOLN! LINCOLN!" e gargalhava enlouquecido. No dia seguinte, o paciente apresentou alguma melhora e estava lúcido o bastante para responder algumas perguntas. O médico questionou sobre o significado daquele nome "LINCOLN!" que ele havia gritado.

O paciente então contou a respeito da Lenda dos Lincoln, dizendo que ele era uma das pessoas que havia visitado a fazenda abandonada do clã. O paciente morreu alguns dias depois, mas o médico disse que o relato do paciente foi corroborado por um parente próximo a ele. Frey acredita que a lenda é nativa da Virgínia Ocidental, mas pesquisando em arquivos e bibliotecas não encontrou nenhuma menção aos Lincoln ou sua maldição macabra.

A dupla de historiadores Peter Park e Chris Perridas também demonstrou grande interesse em lançar uma luz sobre a lenda e determinar sua veracidade ou não. Por anos eles buscaram registros históricos sobre os Lincoln, mas não encontraram nada significativo. Procuraram também em arquivos públicos, bibliotecas, gazetas regionais e jornais, mas não tiveram êxito.

Em busca de pistas, Perridas enviou uma carta para a Revista Fate, relatando o que sabia sobre a Lenda dos Lincoln. Ele pediu que qualquer leitor da publicação, dedicada a assuntos sobrenaturais, que soubesse algum detalhe sobre a estória compartilhasse. Algumas semanas depois de publicar o artigo, recebeu uma carta enviada por Greta Gilmore residente de South Bend, Indiana.

Na carta, Greta afirmava ter um meio-irmão por parte de pai chamado Carl, com quem mantinha pouco contato, e que era 15 anos mais velho que ela. Carl morava em uma casa antiga caindo aos pedaços recebida como herança. Certa vez ele contou à irmã ter descoberto no porão dessa casa uma caixa contendo papéis amarelados que revelavam a história da família. Os documentos manuscritos, cartas e diários revelavam que o sobrenome original da família era Lincoln, e que eles haviam mudado para Gilmore em meados de 1900.

Greta se recorda de Carl ter contado a ela alguns trechos do que havia descoberto nos documentos e quando ela leu o artigo na revista, se recordou de algumas partes que pareciam se encaixar perfeitamente. O fato da família viver numa fazenda isolada, a descrição dos filhos e o linchamento de um dos rapazes acusado de estupro eram descritos em detalhes nos documentos familiares.

Perridas e Park tentaram entrar em contato com Greta Gilmore, enviando para ela dezenas de perguntas, mas ela não lhes respondeu. Meses mais tarde, Perridas recebeu uma nova carta em que Greta informava que seu irmão Carl havia morrido e que as coisas dele - inclusive os documentos haviam se perdido. Ela pedia para não ser mais importunada sobre o assunto. A dupla ainda tentou contatar a mulher, mas recebeu suas cartas de volta com um carimbo avisando que a pessoa a quem endereçavam havia se mudado. A pista esfriou novamente.

Alguns anos mais tarde, Perridas recebeu uma informação de que dois autores que pesquisavam a respeito de lendas urbanas haviam dedicado seu tempo à Família Lincoln. Margaret Ronan e John Macklin teriam escrito respectivamente “Evil This Way Comes” e “Ultimate Dimension”, livros que tratavam dessa e de outras lendas do meio-oeste Americano. Embora os autores existissem, nenhuma biblioteca possuía esses títulos em seu acervo.

Em 1997, Chris entrou em contato com um dos autores, Margareth Ronan que explicou jamais ter escrito um livro chamado “Evil This Way Comes” e que tampouco tinha informações sobre a Lenda dos Lincoln.

Dispostos a tirar a estória à limpo, Perridas e Park entraram em contato com John Palmer, bibliotecário da Sociedade Histórica de South Bend em Indiana. Palmer respondeu sua carta em meados de fevereiro de 1998 afirmando jamais ter ouvido falar da Lenda dos Lincoln e que nenhum jornal da época mencionava o caso. Ele enviou uma série de recortes de jornal à respeito de famílias com o sobrenome Gilmor e Lincoln, mas em momento algum surgia alguma menção a uma família ter mudado de nome em face de um escândalo.

Na primavera de 1999, a dupla intensificou suas pesquisas, escrevendo para as maiores bibliotecas, sociedades históricas e registros públicos de Ohio, Indiana, Illinois, Wisconsin, Michigan, Minnesota, Iowa, Kansas, Missouri, Nebraska, Oklahoma, e Colorado. Consultaram sites da internet devotados a Lendas Urbanas. Compartilharam informações com outros pesquisadores e vasculharam livros que tratavam de folclore regional e crimes.

Como não podia deixar de ser, receberam várias respostas, mas nenhuma delas capaz de lançar uma luz sobre o caso. Muitas pessoas afirmavam já ter ouvido falar da lenda, que havia sido contada por um conhecido ou por um parente, mas em nenhum caso as pessoas foram capazes de precisar a fonte original da estória. Os registros e jornais informaram que não haviam localizado nenhuma informação que se enquadrasse nos acontecimentos conforme foram descritos.

Uma das pessoas que respondeu a carta foi Robert Lee, colunista do Daily Okhlahoma e um entusiasta desse tipo de lenda. Ele sugeriu que qualquer incidente real semelhante ao da Família Lincoln teria de alguma maneira reverberado através do folclore por décadas. Não é o tipo de coisa que se esquece facilmente, sobretudo em uma época em que as pessoas compartilhavam suas estórias e vivência entre si. Se alguma família em algum momento tivesse testemunhado tais acontecimentos teria mantido essa estória dentro da família para ser repetida quantas vezes fosse necessário, fazendo com que o caso sobrevivesse por gerações. Lee acredita que a estória não passa de uma “lenda urbana” cuja autenticidade jamais poderia ser comprovada.

Outro correspondente mencionou uma família Lincoln que teria vivido na cidade de Toledo, Ohio pelos meados de 1880 e que era formada por imigrantes vindos da Alemanha. Essa família aparentemente tivera casos reportados de crianças molestadas e incesto, mas não houve como encontrar registros à respeito dessas alegações.

Jerry Clark do National Archives e Bruce Monblatt do Escritório Norte-americano de Educação sugeriram similaridades entre a estória dos Lincoln e outros clãs desajustados como os Jukeses e Kallikaks largamente estudados por psicólogos e sociólogos no início do século XX. O estudo servia de desculpa para ilustrar os perigos da mistura de sangue entre membros da mesma família e de diferentes raças.

Eric Mundell da Biblioteca de Indiana, também especula que a estória da Família Lincoln, se for realmente verdadeira pode ser um exemplo clássico do que os sociólogos chamam de “complexo de duende”. Quando uma família diferente, com cultura ou costumes diversos se instala em um ambiente e passa a ser execrada por parte dos seus vizinhos que demonizam seus costumes atribuindo a eles uma faceta perversa.

Mundell citou outro caso conhecido, o da Família “Jackson White” que no início do século XVIII se estabeleceu no norte de Nova Jersey. Os Jackson constituíam uma família miscigenada entre brancos irlandeses, escravos negros fugitivos e nativos americanos da tribo Croatan. Eles apresentavam um tipo raro de albinismo. Em face de sua aparência os Jackson-White eram segregados e evitados pelos demais habitantes da região que chegavam a criar estórias absurdas a respeito deles envolvendo pactos demoníacos e maldições.

Na ausência de qualquer prova contundente à respeito da origem ou mesmo da existência da família, tudo leva a crer que a estória dos Lincoln não passa de uma bem detalhada Lenda Urbana. Uma forma rudimentar de neurose coletiva que se espalha no tecido da sociedade entranhando nele de tal maneira que em certo momento passa a ser compreendida como uma realidade, ainda que de difícil aceitação.

Entretanto, a Lenda dos Lincoln jamais atingiu a fama de outras lendas, tais como a do carona fantasma, do maníaco com o gancho de carne ou da mulher de branco na beira da estrada. Não obstante, ela continua a ser contada, os elementos sinistros da narrativa continuam a impressionar e atrair pessoas dispostas a manter a estória viva. Quem sabe um dia ela se torne tão popular que desafie a noção da realidade e se torne mais do que uma lenda.