sexta-feira, 17 de agosto de 2012

"O que vive nesses mares" - O Mito do gigantesco Ningen


O oceano com suas vastas profundezas está repleto de mistérios e esquisitices que provavelmente jamais viram a luz do dia. São poucos os que negam que os mares ainda estão cheios de enigmas e formas de vida desconhecidas, simplesmente aguardando serem descobertas. Faz pouco tempo, afinal de contas, que a ciência comprovou a existência das lendárias Lulas Gigantes e dos bizarros Celacantos.

A maioria das pessoas, contudo é mais reticente em admitir a possível existência de animais gigantescos nas insondáveis profundezas. Criaturas como o Ningen existiriam apenas em narrativas desconexas e confusas. Será verdade? 

O "Ningen" - que se traduz como "humano" em japonês - foi apelidado assim pelos pescadores nipônicos do Pacífico. Há inúmeras narrativas sobre avistamentos de criaturas marinhas no folclore oriental que remontam aos  tempos em que os primeiros marinheiros se lançaram no mar. O folclore japonês é cheio de criaturas fantásticas que se enquadram sob o título de YokaiDesde o primitiva tartaruga sem casca, conhecida como Kappa até o imenso elefante marinho conhecido por Baku, os Yokai são uma classe de criaturas místicas, muitos dos quais absurdas em vários sentidos.

Diferente das lendas antigas envolvendo Yokai, estórias sobre o Ningen surgiram recentemente, a partir da década de 1990 quando vários homens do mar alegaram ter visto criaturas similares nadando em águas profundas. Estes pescadores profissionais ficaram espantados com o tamanho do monstro e ainda mais chocado por esta besta albina parecer chocantemente humanoide em aparência.

As testemunhas dizem que ele mede entre 60 e 90 pés de comprimento (18 e 27 metros respectivamente) e pesa dezenas de toneladas. O Ningen é descrito como uma imensa criatura marinha semelhante a uma baleia, com pele de textura suave e pálida quase branca e com um formato que lembra vagamente a cabeça, tronco e apêndices de um ser humano. Quem o avistou, afirma ainda que o Ningen tem uma cauda de sereia no lugar das pernas, enquanto outros insistem que ele possui nadadeiras semelhantes a membros que lhe permitem, inclusive, andar em terra como um bípede. A criatura teria ainda "mãos", dotadas de cinco dedos nas extremidades de braços longos e esguios.

Estes animais têm sido supostamente vistos nos Oceanos Pacífico e Antárctico, e são sempre descritos como extraordinariamente grandes e com uma aparência esbranquiçada que o destaca na água. Muitos observadores relataram que esses animais não têm características faciais distintas a não ser dois olhos enormes e uma fenda que lhe serve de boca. Segundo a maioria dos relatos, as criaturas tem hábitos noturnos e preferem correntes marinhas frias

Assim como as baleias, eles precisam subir à superfície para respirar e quando o fazem lançam grande quantidade de água e espuma. Em algumas oportunidades eles foram vistos aos pares ou até em grupos maiores, embora na maioria das vezes sejam encontrados sozinhos. Machos e fêmeas são praticamente iguais sendo impossível distinguir o sexo, se é que existe separação por gênero.

Nas vezes em que foram avistados, os Ningen simplesmente nadaram ao redor das embarcações mantendo uma distância de pelo menos 10 metros. Os barcos que tentaram seguir o animal, descobriram que ele pode se mover velozmente e desaparecer em segundos mergulhando nas profundezas. Alguns teóricos conjecturam que os Ningen habitam águas profundas e que precisam subir à superfície raramente, eles também viveriam sob calotas polares onde encontram nichos e depósitos de ar. O derretimento acelerado dessas calotas teria forçado os Ningen a se afastar do seu habitat natural possibilitando seu avistamento cada vez mais frequente.

Testemunhas também chamaram a atenção para o estranho canto do Ningen, que não se assemelha a nenhum som de animal marinho conhecido e que parece um longo lamento.

O NASCIMENTO DA LENDA:

Não se sabe ao certo quando os primeiros relatos sobre essa criatura gigantesca começaram a circular​​; mas supõe-se que o Ningen ganhou notoriedade quando informações sobre avistamentos acompanhados de relatos apareceram on-line em fóruns populares de notícia no Japão. Um indivíduo anônimo que alegava trabalhar em um "navio de pesquisa do governo", fez um relato completo sobre o avistamento de uma dessas criaturas que acompanhou o navio em que ele estava.

Segundo o relato dessa testemunha - corroborado mais tarde por outros colegas pesquisadores - os tripulantes foram atraídos ao convés pelo alerta de um dos vigias que havia visto o que inicialmente pensava se tratar de um "submarino estrangeiro". Quando o navio de pesquisa se aproximou do objeto ficou evidente que eles não estavam lidando com um veículo submergível, mas com uma forma de vida desconhecida. A tripulação observou com admiração a gigantesca criatura, tratada como algum tipo de baleia acometida de uma anomalia. O animal nadou a uma distância de no máximo 30 metros do navio, fazendo evoluções e surgindo na superfície pelo menos duas vezes até que submergiu e não foi mais vista.

Há rumores persistentes que sugerem que os membros desta equipe oceanográfica registraram a aparição tirando fotografias e realizando filmagens extraordinárias da "coisa" durante o seu breve encontro. Tais imagens teriam sido suprimidas e confiscadas, a fim de poupar o instituto que promoveu a missão do constrangimento - ruína financeira - de ser associado a este tipo de manchete sensacionalista. Sem dúvida, a explicação se refere ao suposto avistamento de "águas vivas gigantes" em 2002 que se provou um fiasco e arranhou a credibilidade do órgão de pesquisas oceanográficas do Japão que deu crédito a imagens falsas.

Não é preciso dizer que logo que essa ocorrência se tornou pública, através do relato de supostas testemunhas, o enigma ganhou interesse da imprensa e do público. Em novembro de 2007, o burburinho em torno desses monstros misterioso, e as fotografias que começaram a aparecer, era tão intenso que os editores da revista japonesa "Mu" publicaram um longo artigo sobre este acontecimento desconcertante.

A "Mu", é uma publicação semelhante a "Fate," uma revista que se dedica à difusão de informações sobre todos os tipos de fenômenos paranormais, o que inclui cryptids, o avistamento de animais e criaturas desconhecidos e não catalogados pela ciência. Em seu artigo sobre o Ningen a revista questionava a existência da tal criatura marinha, entrevistava autoridades, cientistas, biólogos e marinheiros além de questionar a possível existência de uma criatura marinha gigantesca. A edição foi um sucesso e o Ningen se tornou ainda mais popular, ganhando fama internacional.

Fotografias e desenhos da criatura ilustravam as páginas da revista. A "Mu" exibiu ainda uma imagem do Google Maps do que parecia ser uma criatura semelhante ao Ningen nadando no Atlântico Sul, próximo da costa da Namíbia.

Logo após a publicação do artigo, um dilúvio de cartas bombásticas, relatos exagerados, fotos desfocadas e vídeos com imagem granulada inundou a web com indivíduos afirmando ter visto a mesma criatura marinha em alguma ocasião. A maioria dos relatos e material gravado era no mínimo de origem questionável, sendo que alguns eram falsificações grosseiras. Outros no entanto eram simplesmente estranhos e impossíveis de serem avaliados. Mas alguns poucos causaram dúvida como a misteriosa fotografia de uma criatura bípede, semelhante a um cetáceo "caminhando" sobre calotas polares na Antártida.

O farto material alimentou a discussão e acalentou a teoria de que o governo japonês teria conhecimento da existência dessa forma de vida e que levava muito à sério qualquer relato feito por embarcações que afirmavam ter visto a criaturaDe fato, existem inúmeros rumores sobre investigadores do governo ligados às forças armadas japonesas, sobretudo a Marinha, fazendo perguntas e entrevistando testemunhas.

Um dos boatos mais extraordinários envolveu o avistamento de um Ningen pela tripulação de um barco de pesca em águas japonesas no ano de 2008. A tripulação do pesqueiro teria visto não apenas uma, mas duas das bizarras criaturas nadando em águas mais rasas. Os animais teriam circulado o pesqueiro várias vezes, rompendo a linha de superfície e se aproximando ficando a apenas cinco metros do costado. Na ocasião, os pescadores tiraram várias fotos e chegaram a fazer um vídeo curto da experiência. Eles teriam ainda gravado o som do canto do animal. A prova irrefutável teria sido negociada com um canal de televisão japonês, que comprou o material e pretendia apresentá-lo em um programa de televisão. Na última hora, o material teria sido confiscado por autoridades que exigiram a entrega de todas as fotos e filmes sob pena de instauração de processo.

Os defensores da existência do Ningen afirmam que a maior parte das fotografias de má qualidade, montagens e narrativas simplórias que vieram à público foram criadas para encobrir a verdade e rejeitar toda e qualquer noção de que essas coisas possam ser reais. Segundo esses "teóricos de conspiração", a melhor maneira de desacreditar uma estória real é contá-la de uma forma que qualquer menção a ela pareça inacreditável, ridícula e em ultima análise delirante.

Qualquer entusiasta da ufologia defende que esta é a mesma tática usada pelos EUA e muitos outros governos para descreditar fenômenos envolvendo os OVNI. O maior de todos os fenômenos envolvendo um mistério ufológico, o famoso Caso Roswell parece seguir essa cartilha, nele supostos discos voadores foram tratados como balões metereológicos. Os céticos sugerem que esse método foi empregado para reduzir a paranóia crescente sobre "discos voadores" durante a Guerra Fria.

Poderia o Ningen ser um exemplo de encobrimento governamental? E se essa for a verdade, com qual objetivo? Seriam esses titãs uma forma de vida inteligente ou algo que a humanidade não está pronto para ter contato e que as autoridades precisam desacreditar.

Enfim, se o Ningen não existe, o que poderiam ser as criaturas avistadas?

As probabilidades são esmagadoras de que uma lenda relativamente nova, como a do Ningen, não passe de invenção pura e simples, mas vamos supor que as testemunhas tenham visto algo. Tendo isso em mente, as teorias mais populares sobre os avistamentos incluem espécies não classificadas de animais marinhos e fenômenos paranormais, como por exemplo:

ARRAIA GIGANTE

Há muitas especulações de que o Ningen possa ser uma espécie até agora desconhecida de arraia gigante albina.

Supõe-se que não seja algo inteiramente além do reino da possibilidade que exista uma espécie incomum desse enorme peixe. Uma espécie especificamente adaptada aos climas frions pode ser naturalmente camuflado para se misturar com os icebergs flutuantes e detritos congelados. mesmo assim, é difícil acreditar que um animal tão grande poderia permanecer desconhecido, muito menos invisível, até o precipício do século 21.

No entanto, alguns cientistas têm especulado que os seres humanos conseguiram catalogar apenas 20% de todas as espécies que vivem nos oceanos do mundo. Considerando este fato, as chances de que grandes criaturas marinhas desconhecidas possam ter escapado de nossa detecção - especialmente se eles existem quase que exclusivamente abaixo do gelo - melhora dramaticamente.

Mas se não estamos lidando tão somente com uma espécie de peixe gigante, então talvez o Ningen seja algo distintamente sobrenatural, como:

DEMÔNIOS DA ÁGUA (YOKAI)

Talvez esse fenômeno predominantemente japonês seja mais do que uma simples lenda e tenha um fundo de verdade. Vale a pena considerar o fato de que todos os relatórios sobre o Ningen são japoneses em origem. Quem sabe os Ningen sejam uma espécie de entidade sobrenatural, que é - por razões além da compreensão humana - exclusivamente avistada por japoneses. Quem sabe? Coisas estranhas têm acontecido.

Ok, vamos abandonar o paranormal por um momento e mergulhar no reino da tecnológica, para que possamos refletir sobre a teoria de que esses organismos são alguma forma de vida bio-mecânica

O.S.N.I.

O.S.N.I. (Objetos submersíveis não identificados) são o equivalente aquático aos O.V.N.I. Esses objetos construídos por alguma inteligência desconhecida seriam capazes de se deslocar através do mar como se estivessem voando e mergulhar nas profundezas do oceano com a mesma facilidade. Estes estranhos "veículos" têm sido avistados entrando e saindo dos mares desde os tempos de Cristóvão Colombo, e aparições continuam até hoje.

Enquanto a maioria das pessoas presume que os OSNI são veículos altamente tecnológicos provenientes de outro mundo, há quem acredite que eles podem vir de civilizações subaquáticas mais avançadas que a nossa. Há também teorias que consideram a possibilidade de que esses objetos podem realmente estar vivos. Parece improvável, mas talvez o estranho formato do Ningen que as pessoas supõem se tratar de um animal, seja na verdade uma nave submarina.

Mas, supondo que eles não são resultado de uma avançada engenharia bio-mecânica, então talvez devêssemos considerar a possibilidade de que eles são simplesmente ...

ALIENIGENAS

Quando se pensa em todas as formas diferentes de vida em nosso  planeta, então o potencial para grandes diferenças na vida no resto do universo parece virtualmente ilimitado. Alienígenas podem ter formas e tamanhos que sequer podemos imaginar e, se estamos tentando imaginar que tipo de formas de vida viriam nos visitar, em nosso planeta predominantemente aquoso, temos de aceitar que essas espécies poderiam ter natureza aquática.

Por mais estranho que essa hipótese pode parecer num primeiro momento, temos de perceber que o viés biológico da nossa espécie, voltado para a vida terrestre, parece improvável quando estudamos a composição de nosso planeta. Os mares, afinal de contas, dominam nossa bela esfera azulada.

Pode parecer absurdo, mas é concebível que a razão para ninguém ter visto o Ningen até a década de 1990 é porque até então eles nunca existiram na Terra. Talvez estes Ningen sejam uma espécie visitante explorando nosso ecossistema e especialmente adaptados a essas condições.

CONCLUSÃO:

Examinando os relatos sobre o Ningen, tudo parece remeter a simples "estórias de pescador", um mito combinado com informações proliferadas na internet. Adicione a esta mistura um inteligente Photoshop e temos os ingredientes de uma lenda marinha das dimensões do Kraken Carnívoro.

Vale a pena mencionar, no entanto, que - depois de gerações de folclore sobre criaturas como o kraken foram veementemente criticado pelos acadêmicos - os cientistas modernos puderam, finalmente, confirmar a existência de lulas gigantes, capazes de enfrentar baleias em mares profundos. Assim, mesmo que a maioria, senão todas, as fotos do Ningen sejam falsas e as histórias para apoiá-las não passem de invenção, isto não exclui completamente a possibilidade de que a gênese desta lenda possa ter uma base real. 

Os Ningen podem ser uma brincadeira, realidade ou objeto de uma conspiração vasta e global, não importa. As criaturas continuam a ser um enigma intrigante, e apenas se uma carcaça aparecer numa praia isolada ou congelada em um iceberg, saberemos ao certo.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Cinema Tentacular: "The Cabin in the Woods" - Joss Whedon brinca com o gênero horror

Ok, antes de ler qualquer coisa, deixe-me dizer que se você gosta de filmes de horror, é um amante de comédias de humor negro ou apenas alguém que gosta de desenterrar referências a outros filmes, não deixe de ver "The Cabin in the Woods"

Acredite em mim quando digo que as chances de você gostar desta pequena joia do gênero horror-comédia e se divertir à valer, são muito grandes.

Outro conselho: PARE DE LER ESSA RESENHA!

Estou falando sério, não leia esta resenha, e fuja de qualquer comentário a respeito deste filme. Evite qualquer trailer se for possível. Assistir "The Cabin in the Woods" sabendo o menos possível à respeito da trama ou do que ele trata é essencial. Desse modo você vai tirar o máximo proveito dele. O filme tem como recompensa uma eficaz reviravolta, que, quanto mais fundo bater em você, mais você vai gostar.

Eu assisti ontem e não sabia absolutamente nada à respeito, além do fato de ser um filme de terror. Confesso que no início fique meio decepcionado por parecer mais um daqueles filmes típicos de universitários americanos sendo massacrados, mas é aí que repousa a surpresa.

Pois bem, se você continua lendo a partir desse ponto vou assumir que já viu o filme, está grato pelo conselho que dei ou me amaldiçoando por não ter gostado do que viu. É possível também que você seja uma daquelas pessoas esquisitas que gostam de estragar todas as surpresas. Bem, seja como for, vamos em frente. Continue lendo. Eu não vou (e não tenho como) detê-lo.

"The Cabin in the Woods" foi escrito por Joss Whedon (diretor de Os Vingadores) e parte de uma premissa absolutamente batida nos filmes de terror. Sério, qualquer fã de horror assistiu dezenas de filmes como esse e está familiarizado com o roteiro. São ENORMES CLICHÉS em sequência.




Aqui está um breve resumo livre de Spoiler:


Um grupo de universitários americanos (dois casais e mais um cara), todos bonitinhos a ponto de poderem aparecer em propaganda de pasta de dente, decide passar um final de semana em uma cabana à beira de um lago. No programa está a habitual mistura de diversão, sexo e drogas. No caminho até a tal cabana recém comprada pelo primo de um dos amigos, eles encontram um sujeito assustador em um posto de gasolina. O tal eremita, quando fica sabendo para onde eles estão indo diz que a cabana tem uma espécie de maldição e que eles estarão condenados se forem até lá. É claro, a molecada ri dos avisos ameaçadores e considera que tudo não passa de bobagem. Quantos clichés você contou até agora? Pois bem, tem mais... 

Ao chegar ao seu destino, os universitários encontram uma cabana incrivelmente isolada e terrivelmente estranha. Quando eu digo isolada, não estou exagerando. O lugar fica em uma área onde (surpresa!) não funciona celular e não tem telefone ou vizinhos próximos. O clássico lugar "onde ninguém ouvirá seus gritos de socorro". Além disso, o único acesso passa através de uma estrada acidentada e de um túnel que atravessa a montanha. E por "terrivelmente estranha" eu me refiro ao visual do lugar. Trata-se de uma réplica quase perfeita da cabana do filme Evil Dead. A casa ainda vem completa com direito ao clássico alçapão no chão, que não apenas leva a um porão assustador, mas tem a propensão de se abrir sozinho.

Mas tudo é diversão e o grupo aproveita o dia nadando no lago e brincando de (adivinha só) Verdade ou Consequência (dãããããã! Parece que não existe outro jogo nesse tipo de filme...)

Finalmente, como você pode imaginar, porque já viu isso acontecer em um monte de outros filmes de terror, o grupo decide descer as escadas para explorar o porão. Lá encontram centenas de objetos curiosos, de aparência assustadora e...

(Ok, última chance de parar de ler e manter as surpresas intactas. A partir deste ponto, considere esta uma ZONA DE SPOILER).


... decidem ler um antigo diário que encontram dando sopa ali por cima da tralha. Com isso, descobrem o que aconteceu com a família de maníacos que vivia na cabana cerca de cem anos atrás. Aparentemente os caipiras tinham uma espécie de culto devotado a tortura e sofrimento (não é poético?). E não para por aí, os grandes idiotas decidem ler em voz alta um trecho em latim (coisa que nunca se deve fazer nessas circunstâncias!). A próxima coisa você sabe, os "zumbis" amantes da dor e sofrimento levantam de suas covas "morrendo de vontade" de "brincar" com os invasores.


Com tantos clichés e com uma estória tão besta o filme não parece ser lá grande coisa. Mas aí é que está a reviravolta.


Tudo o que acontece no filme é especialmente planejado, cuidadosamente arquitetado e maquiavelicamente encenado por uma obscura agência governamental que controla tudo o que está acontecendo. Os pobres universitários não fazem ideia de que estão participando de um complô de sacrifício, em que eles serão as vítimas. Casas como essa se espalham ao redor do mundo, locais isolados onde pessoas que não suspeitam de nada são atraídas, manipuladas e por fim massacradas ritualisticamente. E o tal ritual é de suma importância, cada detalhe deve ser respeitado nos mínimos detalhes para que o sacrifício seja satisfatório.


Por exemplo: Todos os universitários devem ser jovens e bonitos, exceto pelo palhaço do grupo que pode ter uma aparência normal desde que cumpra o papel de alívio-cômico. Além do maconheiro desbocado  que assume esse papel, as demais vítimas precisam se enquadrar nos estereótipos desejado: o atleta tapado, a loira dadivosa, o estudante gente boa e a virgem certinha. 


Uma das coisas legais, é que a tal equipe responsável pela realização do ritual tenta moldar as vítimas para que elas se enquadrem nesses arquétipos. No fim das contas, o atleta é um estudante de sociologia com boas notas, a loira é, na realidade, uma morena que acaba de tingir  cabelo, a menina virgem é uma jovem com uma vida sexual e assim por diante. É a equipe, através do uso de produtos químicos e feromônios, que induz o comportamento desejado nos universitários. Para fazer a loira ter um comportamento libidinoso eles usam um spray com feromônios que faz com que ela literalmente suba pelas paredes. O atleta age de forma descuidada e provocativa, pois recebe doses maciças de um estimulante.    



O enredo vai ainda mais longe ao tratar de elementos clássicos dos filmes de horror. O eremita biruta no posto de gasolina é claro, participa da trama. Ele serve como um último aviso simbólico para aqueles que serão sacrificados. Ao ignorá-lo, as vítimas exercem seu poder de livre arbítrio e condenam a si mesmos, uma parte vital do sacrifício.

Quanto ao porão repleto de itens assustadores, cada um está ligado a um monstro sobrenatural diferente e os universitários é que acabam involuntariamente "escolhendo" o que virá matá-los - como no caso do diário que conduz aos zumbis, mas poderiam ser muitas outras coisas macabras desde vampiros, passando por lobisomens e animais mitológicos. Daí vem várias outras referências a filmes clássicos de horror. Alguns são óbvios para os fãs como o globo quebra-cabeças de bronze e madeira, uma alusão clara ao cubo de Hellraiser. Outros são mais sutis, como uma fita VHS, uma concha ou um boneco horroroso de cabelo vermelho.

A equipe que coordena o ritual é outro ponto alto do filme. Apesar de levar o serviço à sério, os funcionários são burocratas engravatados comuns que para passar o tempo fazem apostas sobre qual será o horror despertado e quanto tempo cada jovem vai resistir antes de ser invariavelmente massacrado. A forma como eles manipulam os acontecimentos usando artifícios variados para trapacear à favor dos monstros conduz a situações hilariantes de puro humor negro. Segundo a explicação do filme, esses funcionários dedicados e invisíveis, são a causa para as pessoas fazerem coisas incrivelmente estúpidas quando estão correndo perigo. São eles que "obrigam" as pessoas a sair de casa para seguir um ruído misterioso ou que fazem o carro falhar na hora da fuga. Uma das partes divertidas é acompanhar o stress dos funcionários tentando fazer bem o seu trabalho sobretudo quando as coisas começam a dar errado.


Em outra cena muito bem sacada, a equipe americana assiste os resultados de um grupo que faz um trabalho semelhante no Japão. Mas ao invés de universitários correndo o risco de virar sacrifício, eles tem de lidar com garotinhas de um colégio interno enfrentando a assombração de uma garota de cabelos lisos e compridos. Cada país afinal tem seus próprios horrores.  

"The Cabin in the Woods" faz uma espécie de homenagem a filmes como Evil Dead, Sexta Feira 13, Hellraiser, Anaconda, Aliens etc. Até o bom e velho Horror Cósmico criado por Lovecraft recebe uma clara referência.


Muita gente pela internet tem falado desse filme, considerando-o um dos mais "lovecraftianos" dos últimos anos. Realmente há sinais inequívocos a temas presentes na obra de Lovecraft, embora nenhuma criatura ou entidade do Mythos dê as caras. Ao invés disso, misteriosos "Grandes Antigos" são citados como as criaturas que demandam o elaborado sacrifício dos jovens. 

Em um trecho, a Diretora da Agência (interpretada por ninguém menos que Sigourney Weaver) diz que os Grandes Antigos, um bando de deuses gigantescos e malignos, só vão continuar dormindo se receberem esse tributo de sangue. E ela conclui de forma bastante cínica que não chega a ser um sacrifício muito grande abater um atleta, uma loira promíscua, um doidão, um bom estudante e uma virgem para salvar a humanidade. 

Apesar desse aceno ao Mythos não espere ver Cthulhu ou qualquer outra entidade. Os Deuses estão muito mais para titãs gregos do que para entidades do Mythos, embora possa ser feita uma correlação.



"The Cabin in the Woods" é um filme extremamente divertido que brinca de forma inteligente com elementos familiares dos filmes de horror. Entre uma cena sinistra e outra, o espectador tem a chance de dar boas gargalhadas e sorrisos de cumplicidade ao captar as referências deixadas a outras obras.

O filme ainda não foi lançado aqui no Brasil mas terá o nome "O Segredo da Cabana". Por razões óbvias não vou colocar o trailer aqui.

Nome original: The Cabin in the Woods
Ano: 2012
Dirigido por: Drew Goddard
Escrito por: Drew Goddard e Joss Whedon
Elenco: Kristen Connolly, Chris Hemsworth, Anna Hutchison, Fran Kranz, Jesse Williams


domingo, 12 de agosto de 2012

"O Limiar das Trevas" - Cenário para Rastro de Cthulhu


De todas as aventuras que eu conheci, mestrei ou joguei em Call of Cthulhu nenhuma funciona como introdução para o Universo do Mythos tão bem quanto "The Edge of Darkness".

"The Edge of Darkness" é um cenário que acompanha o livro básico de Call of Cthulhu. Foi uma das primeiras aventuras que joguei e no dia seguinte mestrei para um grupo diferente.

Trata-se de uma estória bem linear envolvendo elementos clássicos de uma investigação lovecraftiana. O pedido de ajuda de um conhecido que teve um traumático encontro com as forças arrebatadoras do Mythos e que precisa de ajuda para reverter esse mal ancestral.

Edge é uma estória sobre segredos negros, mistérios insondáveis e maldições duradouras que voltam para assombrar as pessoas.

Sempre foi uma das minhas aventuras favoritas, devo tê-la mestrado pelo menos uma dezena de vezes para grupos diferentes. Pelo seu caráter introdutório é sempre a minha opção para apresentar Call of Cthulhu para novos jogadores interessados em conhecer sistema e ambientação.

Esses tempos estava pensando à respeito de Rastro de Cthulhu e me passou pela cabeça que o jogo no sistema Gunshoe não existe uma aventura introdutória nesse estilo. Algo que sirva para apresentar qual a proposta da ambientação. O Guardião pode introduzir seus jogadores através de "O Assassinato de Thomas Fell" ou mesmo "A Agonia de St. Margareth", contudo esses dois cenários sempre me pareceram mais interessantes para jogadores que conhecem algo sobre o Mythos, que se aprofundaram em alguns aspectos ligados a obra de H.P. Lovecraft ou que leram algo escrito pelo mestre do horror cósmico.

Pensando nisso, arregacei as mangas e traduzi "The Edge of Darkness" para o sistema Gunshoe, tomando a enorme liberdade de modificar alguns trechos e adaptar as regras. No final das contas "The Edge of Darkness" se tornou "No Limiar das Trevas", um cenário de Rastro de Cthulhu que pode ser jogado tanto no estilo purista quanto no pulp por um grupo de 4 a 6 investigadores.

O mestre encontrará no texto dicas e sugestões para tornar o cenário interessante e desafiador para seus jogadores. Eu fiz também alguns Handouts especiais para a aventura que podem ser usados também para quem quiser mestrar a aventura no sistema original.


Aqueles que quiserem receber uma cópia da aventura pelo e-mail basta colocar o endereço nos comentários dessa postagem. São dois arquivos um com a aventura em si e outro com os Handouts.

Pessoal, eu adoraria, realmente ADORARIA ouvir comentários sobre quem usou o cenário e como foi o jogo. O espaço "Mesa Tentacular" está aberto a quem quiser relatar como foi sua aventura.