domingo, 11 de agosto de 2013

Lugares Estranhos: A Mansão Winchester - Uma casa construída pela tristeza


Não é fácil imaginar o tamanho da dor acumulada de se perder uma filha e o esposo. Mas se você tivesse uma enorme fortuna a sua disposição e todo o tempo do mundo, você poderia imaginar uma maneira de lidar ou até superar essa perda?

A resposta é provavelmente sim. Mas cada um tem sua forma de lidar com a perda.

A maneira como a senhora Sarah L. Winchester reagiu a morte de sua filha recém nascida e de seu amado marido, resultou em uma impressionante reflexão arquitetônica de sua própria psique. E fez surgir um verdadeiro monumento conhecido como Winchester Mystery House (A Casa Winchester dos Mistérios) que tem em suas raízes, da fundação ao telhado, as tragédias pessoais sofridas por essa mulher. A casa serve ainda como o legado permanente a respeito de uma das mais emblemáticas armas criadas, o legendário rifle de repetição Winchester, conhecida como “a arma que conquistou o Oeste selvagem".

Nascida em meados de 1840, Sarah Lockwood Pardee era filha de Leonard Pardee e Sarah Burns, um fabricante de carruagens de New Haven, Connecticut. Conhecida como “A Bela de New Haven,” Sarah desfrutava de todas as vantagens que nascer em berço de ouro proporcionava. Ela estudou em bons colégios, foi educada por tutores e viajou por boa parte do mundo. Ela também falava quatro idiomas e tocava piano de forma maravilhosa. O título de "bela" também era merecido, já que Sarah era considerada a mais linda jovem herdeira de Connecticut. 

Em 1862, Sarah casou com William Wirt Winchester, filho de Oliver Fisher Winchester, Governador de Connecticut e fabricante do famoso rifle de repetição Winchester. O casal em uma época de aparências realmente se apaixonara e os dois viveram felizes por muitos anos enquanto a fortuna da família se multiplicava. Eles se mudaram para a Nova Inglaterra e eram considerados um dos mais bem sucedidas famílias na época. Entretanto, em 1866, veio o desastre quando a jovem filha do casal, Annie, morreu de uma doença infantil conhecida como rasacus. (Essa é uma doença na qual a criança é incapaz de engolir enquanto dorme e acaba se engasgando com a própria saliva). 

Fotografia tirada em 1920

A Sra. Winchester se deixou dominar por uma profunda depressão da qual jamais se recuperou. Alguns anos depois, seu marido sofreu uma morte prematura vítima de tuberculose o que apenas agravou seu quadro de desespero e desesperança.

Sarah perdeu peso, empalideceu e deixou de ter a beleza pela qual ficara famosa. Ela mandou tingir todas as suas roupas de preto e se retirou dos eventos sociais dos quais gostava tanto de participar. As janelas da grande mansão onde ela vivia foram fechadas e cobertas com cortinas, o pátio foi fechado, o jardim deixou de ser cuidado e os empregados foram quase que inteiramente dispensados. Alguns diziam que sua tristeza era tamanha que ela passava os dias imersa em lamentos apenas controlados pelo láudano. Para ajudar Sarah a lidar com a perda, alguns amigos a convenceram a procurar um espiritualista e se consultar com um médium.

De acordo com algumas fontes, o médium que visitou a Sra. Winchester explicou que a fortuna da família havia sido construída com base na ruína de milhares de pessoas e na tristeza causada pela arma letal criada e comercializada por eles. Mais do que isso, os Winchester estavam fadados a sofrer pela eternidade pelos seus erros e por ter criado um dispositivo responsável por tantas desgraças. O médium afirmou categoricamente que havia uma maldição em ação e que os membros da família nunca teriam paz, estavam fadados a morrer e sofrer pela eternidade. 

O homem foi muito convincente dizendo que era capaz de sentir os fantasmas de centenas ou milhares de pessoas andando pela mansão em uma espécie de procissão estoica. Haviam muitos índios, muitos soldados que participaram da Guerra Civil e uma quantidade incontável de vítimas baleadas. Em comum o fato de que todas aquelas assombrações carregavam em seus corpos ferimentos de balas deixados por armas Winchester. Sarah ficou impressionada pela descrição do espiritualista e pelas suas observações dos fantasmas de homens, mulheres e crianças mutilados vagando pelos corredores.

Uma Seancé

O homem, no entanto, sinalizou com uma alternativa para aquela terrível situação. A Sra. Winchester deveria se mudar para o Oeste, abandonar o quanto antes aquela casa e satisfazer o desejo de seus ocupantes construindo para eles uma casa ainda maior. Ele foi enfático: uma casa deveria ser construída e continuar crescendo para que os fantasmas continuassem em sua procissão eterna, consequentemente deixando a família Winchester em paz. Dessa forma, sua filha e seu marido também seriam poupados do tormento dos fantasmas e da maldição que pesava sobre todos os que ganharam riqueza com a morte alheia.  

Quando a Sra. Winchester se despediu do médium, ela tinha algo para se apegar, uma esperança ou mais importante, algo para ocupar a sua mente tomada pelo luto.

Não importa quais fossem as suas motivações, a Sra. Winchester mandou empacotar as suas coisas o mais rápido possível e deixou a Costa Leste para visitar uma sobrinha em Menlo Park, na California. Enquanto estava lá ela encontrou o lugar perfeito para construir a sua nova casa no Vale de Santa Clara. Em 1884, ela assinou os papéis para a compra de uma fazenda a apenas três milhas a oeste de San Jose - e nos trinta e oito anos seguintes não parou de construir e expandir o complexo que hoje é chamado de Winchester Mystery House.

Por volta do final do século XIX, o Vale de Santa Clara era um lugar idílico com paisagens de tirar o fôlego. Foi nesse ambiente sereno tipicamente rural que a Sra. Winchester começou o seu excêntrico projeto de construção, que ela comandou com uma determinação que beirava a obsessão. O primeiro passo foi contratar um verdadeiro exército de construtores, capatazes, pedreiros, carpinteiros e obreiros. Todos eles trabalhavam vinte e quatro horas, sete dias por semana. Havia abono pela produtividade e ela mandou vir mais trabalhadores dos estados vizinhos para que o trabalho não parasse nem mesmo durante os feriados. Ela chegava a contratar trabalhadores que aceitavam ficar longe de suas famílias mesmo durante o Natal e Ação de Graças e montava abrigos com calefação para que os trabalhadores pudessem dormir no lugar.

Na virada do século, a casa já contava com 80 salões distribuídos em sete andares da mansão principal. A propriedade não parava de crescer e foi aumentada com a inclusão de orquidários, jardins, árvores frutíferas, quintais e bosques.


Os recursos financeiros da Sra. Winchester eram virtualmente inesgotáveis; com a morte de seu marido ela recebeu milhões de dólares como parte da herança e 777 ações preferenciais da Winchester Repeating Arms Company. Com a morte de sua sogra em 1897, ela recebeu mais 2,000 ações, o que representava mais de cinquenta por cento do ativo da empresa. Todos esses proventos geravam uma renda que nos valores atuais, corrigidos equivaleria a milhares de dólares ao dia.

A combinação de sua vasta fortuna com o projeto peculiar de construção, deu origem a inúmeros rumores na pequena comunidade onde a mansão continuava crescendo sem parar. Todos eram unânimes ao afirmar que a Sra Winchester era extremamente generosa com seus empregados, pagando até três dólares por dia de trabalho, quando a média  de outros empregadores não chegava a um dólar e meio. Ela também ficou conhecida por pagar aos funcionários com moedas de ouro e prata e por conceder grandes recompensas por cada etapa vencida na obra. Haviam ainda orfanatos, creches e fundações beneficentes que ela apoiava, funcionando dentro dos limites da propriedade.  

Mas se por um lado ela tinha a fama de ser extremamente generosa, haviam condições que deviam ser respeitadas por todos os contratados. Aqueles que aceitavam trabalhar na mansão deviam ser discretos a respeito da construção. Uma das primeiras providências da Sra. Winchester, logo que iniciou o projeto foi criar uma cerca viva de ciprestes que rodeava toda a propriedade, garantindo que ela ficaria isolada do olhar de curiosos. Apesar de ser muito justa, os advogados da Sra. Winchester se ocupavam de expulsar ou processar empregados que revelavam detalhes da construção. Houve até mesmo suspeitas - jamais corroboradas - de ameaças contra trabalhadores que "deram com a língua nos dentes".

Outra coisa que aumentava os boatos a respeito da estranha patroa era a sua aparência. Após a trágica morte de seu marido, Sarah Winchester passou a usar apenas roupas pretas que a ocultavam da cabeça aos pés. No rosto ela usava um véu negro que impedia que qualquer um visse as suas feições. Houve estórias de que ela despediu empregados que viram a sua face acidentalmente e outros rumores ainda mais estranhos afirmando que a medida que a casa crescia sua aparência se esvaía até ela se transformar em um monstro de aparência cadavérica.

É claro, em uma construção desse porte, cercada de estórias, não poderiam faltar acontecimentos desafiando uma explicação razoável.

A única foto da Sra Winchester tirada sem sua autorização

Vizinhos relatavam que um sino podia ser ouvido sempre às duas horas da manhã, que segundo muitos especialistas em assombrações é a hora da partida dos espíritos. Alguns diziam que a Sra. Winchester jamais dormia em um mesmo quarto duas noites seguidas, a fim de dessa forma confundir os fantasmas que poderiam aguardar por ela para lhe fazer mal. No centro da mansão, existia um aposento chamado O Salão Azul (The Blue Room), para onde a Sra. Winchester ia toda noite a fim de supostamente se comunicar com os espíritos. Dizem que ela mandou construir no centro do aposento um enorme espelho de cristal que tinha a propriedade sobrenatural de permitir que manifestações espectrais pudessem ser vistas em seu reflexo. O espelho teria sido encantado por uma cigana, que por sua vez, ao ver o reflexo dos fantasmas, cometeu suicídio saltando de um dos quatros no sexto andar. Verdade ou mentira, o Salão Azul realmente possuía uma grande mesa onde sessões espiritualistas eram realizadas com convidados especiais. Diz a lenda que os convidados, entre os quais o Grande Houdini estiveram nessas séances e que mesmo o grande mágico ficou impressionado com o resultado de uma experiência.

Ainda de acordo com a lenda, as séances realizadas na casa tencionavam guiar os fantasmas através de um determinado trajeto formando uma configuração. Essa configuração formada pelos caminhos inusitados dos corredores deveria de alguma forma anular as energias desses espectros e fazê-los abandonar esse plano material. O fato dos corredores mudarem de posição, através da inclusão de passagens secretas frequentemente reforçavam essa teoria. 

Curiosamente a mansão não possuía plantas baixas (blue prints) sendo todo o trabalho realizado a partir de desenhos simples concebidos pela dona da casa, alguns feitos durante as sessões conduzidas no Blue Room.

No final de sua vida, a Sra. Winchester sofreu de artrite e afirmava que aquela dor era resultado dos ataques dos fantasmas que estavam ganhando espaço contra seu projeto. Após cada crise, ela insistia que os trabalhos deveriam continuar com força total. Ela morreu durante o sono em 5 de setembro de 1922 e foi enterrada em um cemitério em New Haven, Connecticut ao lado de seu amado marido. Sua única família era uma irmã, alguns sobrinhos e sobrinhas, que receberam uma quantia substancial de seus fundos. Ela também deixou uma herança para seus funcionários favoritos e empregados que se dedicaram ao máximo pelo projeto. 

Quando Sarah Winchester morreu, a propriedade já ocupava uma área que totalizava seis acres. A imensa mansão possuía 160 quartos, 2 mil portas, 10 mil janelas, 47 escadarias, 47 enormes lareiras, 23 banheiros e 7 cozinhas. Cada um desses aposentos recebia móveis, pintura e detalhes que os tornavam únicos. Haviam armários com trabalhos exclusivos de marchetaria, pisos de tacos em mogno, carvalho, freixo e outras madeiras nobres, grandes tapetes persas, animais exóticos empalhados, pilastras erguidas com mármore italiano de Carrara, castiçais e candelabros de cristal da boêmia, peças de aço, bronze e prata alemãs, banheiras moldadas na suíça, janelas de cristal pintado e incontáveis outros detalhes que concediam ao palácio uma aparência de opulência e estranheza digna dos contos góticos. O magnífico Salão de Baile, por si só era do tamanho de quatro quadras de tênis e com um luxo visto apenas em grandes salões da realeza européia. 

Vista aérea da propriedade Winchester

Vista do exterior, a obra era ainda mais impressionante. A casa possuía estilos que se sobrepunham desde o gótico vitoriano, passando pelo art decó e outros estilos que pareciam competir por espaço. Domos, cúpulas, cornijas e torreões surgiam lado a lado com balcões e arcos em ângulos estranhos e incomuns.  

Após a morte da Sra. Winchester alguns detalhes a respeito da obra foram divulgados pelos empregados. Os quartos eram frequentemente desmanchados e refeitos, como se dessa forma a Sra. Winchester pudesse enganar os fantasmas e dificultar para eles ter um conhecimento da planta da casa. Corredores também eram construídos e desapareciam em alguma reforma posterior. Dessa maneira, os trabalhadores supõem que cada quarto foi refeito pelo menos meia dúzia de vezes, o que totalizaria mais de 600 quartos construídos e desmanchados ao longo de 38 anos. 

A Mansão Winchester é um extravagante labirinto victoriano - maravilhoso, estupendo e incrivelmente excêntrico, para dizer o mínimo. Pessoas que entraram nela pela primeira vez não raramente acabam se perdendo ou precisam ser resgatados por algum guia que conhece o lugar. Há estranhas escadas que de um lado possuem sete degraus e do outro onze, e uma longa escadaria com 42 degraus enquanto outra, com as mesmas dimensões possui apenas 35.

É fato que a casa possui inúmeras passagens secretas e corredores ocultos que intrigam os especialistas. Alguns ainda estão sendo descobertos e outros tantos permanecem desconhecidos mesmo nos dias atuais. As milhas de corredores em curva, entradas e passagens parecem ter sido construídas com o propósito de confundir os espíritos e fazer com que eles não encontrassem seu caminho dentro da casa. 

O grandioso Salão de Baile

Há boatos de que a casa esconderia uma sala secreta praticamente inacessível a não ser que se conhecesse todas as passagens ocultas. Supostamente a Sra. Winchester teria ordenado que seu marido e filha fossem exumados e transportados para esse aposento onde seus restos poderiam ficar em segurança dos fantasmas vingativos. Mas se isso é verdade, ela não teria sido enterrada em New Haven ficando longe deles. A não ser que tudo não tenha passado de um truque.  

A maior parte dos móveis da casa permaneceu no lugar até 1930 quando parte deles foi vendida em leilões por uma das sobrinhas da Sra. Winchester. Os rumores atestam que mais de seis caminhões foram usados para retirar os móveis ao longo de seis semanas de trabalho, apenas para encaixotar os móveis e objetos.

A mansão e a fazenda não foram mencionados em lugar algum do testamento. Eles se tornaram parte do espólio e acabaram sendo vendidos para a Union Trust Company de San Francisco. Aparentemente, nenhum dos herdeiros da Sra. Winchester tinha interesse de continuar a expansão da mansão, embora tenham havido rumores de que um testamento secreto instituía que essa era uma das condições para os herdeiros receberem sua parte na fortuna.

Propaganda da Casa Winchester aberta ao público

Hoje, a Winchester Mansion está aberta a visitação pública e milhares curiosos em conhecer sua história a exploram anualmente. Há cerca de dois anos, um grupo conseguiu a permissão para realizar uma sessão espírita no Salão Azul. Na ocasião, uma famosa médium teria recebido uma mensagem astral que resultou na descoberta de uma passagem secreta.

Ela também teria visto a procissão de fantasmas mencionada anteriormente.

O movimento dos mortos parece não ter parado desde então.  

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A Ficha do "Homem que adorava guerras"

Olha, esse cara é literalmente um personagem de Call of Cthulhu que realmente existiu.

Inspirado nele e em alguns pontos de sua estranha/tumultuada/bizarra/inacreditável vida, concebi uma espécie de "ficha de personagem" com suas estatísticas para Call of Cthulhu.

FICHA DO INVESTIGADOR

Nome do Investigador: Sir Adrian Paul Ghislain Carton de Wiart.
Ocupação: Militar de Carreira (General de Brigada)
Idade: 48 (em meados de 1928)

ATRIBUTOS

STR 16         DEX 12          INT 15          IDEA 75%
CON 18        APP 10          POW 16        LUCK 80%
SIZ 15          SAN 60%       EDU 17         KNOW 90%

Damage Bônus: +1d4
Hit Points: 17



Habilidades: Contabilidade 20%, Arte (História Militar) 60%, Arte (Xingamentos elaborados e contundentes) 93%, Arte (Literatura Militar) 55%, Barganha 25%, Bloquear 50%, Escalar 50%, Disfarce 50%, Ofício 45%, Crédito Social 78%, Esquiva 47%, Primeiros Socorros 00%, Saltar 40%, Direito 40%, Consultar Biblioteca 30%, História Natural 35%, Navegação 49%, Persuadir 85%, Psicologia 15%, Cavalgar (camelo) 77%, cavalgar (cavalo) 55%, Nadar 89%, Arremesso 47%, Discurso pró-Britânia 97%, Motivar Soldados 57%, Fleuma britânica 83%, Suportar ferimentos 99% 

Idiomas: Inglês 90%, italiano 5%, Alemão 10%, Francês 10%, Hindi 30%

Armas e Ataques: Pistola Webley 88%, Rifle Lee-Enfield 74%, Sabre de Cavalaria 45%, Faca Militar/Baioneta 62%, Soco 78%, Cabeçada 75%   

É pouco provável que um sujeito como esse tenha alguma experiência com o Mythos de Cthulhu. Por outro lado, quem melhor do que ele para instruir uma equipe de investigadores para uma missão especialmente perigosa envolvendo algum componente estranho e inexplicável.

De fato, tenho umas duas ou três aventuras em que poderia usar esse cara como um personagem de aventura.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A estranha vida de Sir Carton de Wiart - "O Homem que adorava guerras"



Crédito por ter descoberto essa biografia do nosso colega Rod Oliveira.

Por vezes a biografia de certas pessoas parece tão cheia de reviravoltas e acontecimentos estranhos que é quase impossível acreditar nos detalhes.

"Coisa de filme" diriam alguns! "Mentira da grossa" sentenciariam outros. 

Mas existem certas pessoas que realmente tiveram uma vida rocambolesca beirando o inacreditável, algo como diriam os antigos "saído de um folhetim".

Tomemos como exemplo a vida e as façanhas do Brigadeiro-General Sir Adrian Paul Ghislain Carton de Wiart.

Sua carreira pode não ter sido a mais impressionante na História do Exército de sua Majestade, mas com certeza não existe um personagem mais pitoresco.

A biografia de Carton de Wiart, uma celebrada coleção de casos chamada "Odisséia Feliz" relata acontecimentos que soam improváveis, mas cada uma das missões em que ele tomou parte foram corroboradas pelo Ministério do Exército Britânico e tiveram a anuência de testemunhas, na maioria das vezes soldados e oficiais que assistiram incrédulos suas inúmeras demonstrações de bravura, coragem e francamente loucura diante do inimigo.

Carton de Wiart nasceu em uma família de posses em Bruxelas, na Bélgica, seu pai era britânico e desejava que o filho seguisse uma profissão honrada como ele. Aos 19 anos ele foi enviado para Oxford para estudar Direito, mas ao invés disso se convenceu de que seu futuro estava na carreira militar. Assim que a situação política na África do Sul se agravou descambando na sangrenta Guerra dos Bôeres, ele não teve dúvida: largou os estudos e correu para se alistar.

Mentindo a respeito de sua idade ele inventou um nome falso e tentou se juntar ao exército. Diz a lenda que para enganar a junta de alistamento, colou pelos da crina de um cavalo no rosto para fazer de conta que tinha barba e bigode. O alistador percebeu o embuste, mas de Wiart não se deu por vencido e tentou mais duas vezes conseguindo enfim o que tanto queria.

Ele foi mandado para a África e viu combate pesado. Foi ferido no estômago e nos testículos depois de saltar da trincheira para motivar seus companheiros a avançar. Depois de seu grave ferimento, sua aristocrática família finalmente descobriu que ele não estava em Oxford e sim na África. Eles usaram de  influência para transferi-lo em 1901 para a Índia onde ele serviu na Guarda dos Royal Dragoons

Conhecido pelo seu linguajar inapropriado (ele foi apelidado de "boca de lixo"), de Wiart tomou seus ferimentos na África do Sul como incentivo para o seu preparo físico. Era um praticante regular de esportes e mantinha uma capacidade física invejável criando seu próprio estilo de treinamento que muitos instrutores consideravam uma verdadeira loucura.

Em 1908, casou-se com a Condessa Friederike Maria Karoline Henriette Rosa Sabina Franziska Fugger von Babenhausen, com quem teve duas filhas. Mas a vida tranquila e pacífica para ele era uma provação, já que ambicionava novas aventuras.

Pouco antes da Primeira Guerra Mundial em 1911, de Wiart foi deslocado para o famoso "Camel Corps" na Somália Britânica, onde combateu as tropas do revoltoso líder Mohammed Bin-Abdullah, chamado de o Mullah Louco. Nessa ocasião, foi baleado duas vezes no rosto e perdeu um de seus olhos e um pedaço da orelha. Seus ferimentos lhe valeram uma medalha por galhardia e o forçaram a usar um tapa-olhos pelo resto da vida. "Ele me dava uma imagem ousada" escreveu em sua biografia.

Personagem da Liga dos Cavalheiros
Seus ferimentos por pouco não lhe custaram um afastamento da vida militar quando a Grande Guerra estourou na Europa. Ele escreveu ao Alto Comando dizendo que poderia ser útil atrás das linhas em alguma função burocrática, mas é claro, não demorou para ele acabar no front. Em 1915 foi enviado para a França, onde colecionou nada menos do que 7 outros ferimentos graves. 

Nos sangrentos campos de batalha do Front Ocidental ele teve a mão explodida por uma granada durante uma heroica investida. Quando o médico de campo se negou a amputar sua mão esquerda, de Wiart mordeu e arrancou três de seus próprios dedos dizendo que o faria para que a gangrena não o matasse. Em 1916 foi promovido a Major. Ele recebeu uma mão falsa de presente de seus colegas, mas disse que não a usaria pois tinha muito orgulho de seu ferimento. 

Suficientemente recuperado ele não pensou duas vezes em retornar ao front e participou ativamente da Batalha do Somme uma das mais brutais daquele conflito. Nas trincheiras lamacentas ele recebeu um ferimento no tornozelo, pelo qual recebeu a Victoria Cross, a mais alta condecoração do Império. Em 1917 se tornou Tenente-Coronel. Em 1918 foi promovido a General de Brigada.

Após a guerra ele escreveu em suas memórias sobre o conflito: Francamente, eu apreciei a Guerra. Por que as pessoas querem a paz se a guerra é tão divertida?

Entre 1924 e 1939, de Wiart teve uma vida pacata numa propriedade na fronteira entre a Bielorrúsia e a Ucrânia. Ele trabalhava como uma espécie de consultor para o Império Britânico e esteve à frente de uma delegação que deveria negociar acordos de paz entre a Polônia e a Ucrânia. Acordo que é claro, falhou. 

Em 1939, ele já havia alertado o comando das ações beligerantes dos alemães e pouco antes da invasão da Polônia (ato que deflagrou a Segunda Guerra) ele já havia retornado a Londres e se instalado em uma grande mansão nos arredores da cidade. Chamado de volta a ativa ele trabalhou com o então Ministro da Marinha Sir Winston Churchill nos bastidores da preparação da Inglaterra para a entrada na Guerra.  

Em 1940, já com sessenta anos, ninguém francamente esperava que ele participasse ativamente de alguma missão. Contudo, foi exatamente o que aconteceu. Carton de Wiart liderou uma operação para tomar a cidade norueguesa de Trondheim e frear o avanço germânico cortando suas linhas de abastecimento. A missão foi um fracasso, mas na ocasião ele deu nova mostra de coragem avançando em meio a uma barragem de metralhadora nazista.

De volta a Londres, a secretaria do Exército tentou convencê-lo a não se envolver mais em ações dessa natureza. Poucos dias depois sua mansão foi destruída por um bombardeio alemão e tudo que ele tinha, incluindo as suas medalhas e recordações da guerra pegou fogo. Sua reação foi fleumática: "Muito bem! Terei que ganhar mais medalhas para compensar o que eles destruíram!"

Em 1941, a caminho de uma missão britânica na Iugoslávia, seu avião, um grande Wellington da RAF foi atingido pelo fogo inimigo e caiu no Mediterrâneo próximo a costa da Líbia. Mesmo sem um braço, ele nadou mais de dois quilômetros até a costa onde foi feito prisioneiro por soldados italianos. 



Transportado até um campo de prisioneiros na Itália ele realizou cinco tentativas de fuga, sendo capaz de enganar seus carcereiros e escapar em uma ocasião. Ele se misturou à população de camponeses e sobreviveu por oito dias disfarçado apesar de não falar italiano e de não ter um braço e um olho.


Libertado em 1943, retornou a Inglaterra onde participou de reuniões importantes para negociar o futuro da Guerra ao lado de importantes personalidades como Roosewelt, Chiang Kai Shek e o próprio Churchill. 

Numa Conferência na China ao lado de líderes mundiais. É o de pé na direita.

O Primeiro Ministro o enviou para a China onde ele trabalhou como consultor e observador. Em um importante jantar, de Wiart não se conteve e interrompeu um discurso de Mao Tse-Tung, então um dos principais generais chineses. A interrupção do britânico foi para criticar os militares chineses durante a Segunda Guerra e a ineficiência deles em combater os japoneses. Mao, que já era temido naquela época, ficou em silêncio, mas depois concordou com o britânico reconhecendo que os chineses poderiam ter feito mais contra os invasores japoneses. 

Pouco depois ele escreveu: "Uma guerra num futuro próximo contra chineses ou russos no meu entender é inevitável, eu espero apenas que ela não demore demais para poder participar dela".  

Mas a guerra antecipada pelo General de Brigada acabou não vindo a tempo e ele se aposentou em 1947. 

Voltando pra casa, de Wiart escorregou em uma escadaria e caiu, quebrando diversas vértebras. Os médicos ingleses ficaram surpresos pela quantidade de estilhaços que conseguiram retirar dele na ocasião. Em seu corpo haviam ainda fragmentos da explosão que lhe arrancara a mão na Primeira Guerra, mais de 30 anos atrás.

Dizem que ele trabalhou por algum tempo avaliando o risco político de operações em outras nações e atos de espionagem. Dizem ainda que Sir Ian Flemming o criador do personagem James Bond se inspirou em de Wiart para compor o personagem M, o chefe do espião mais famoso de todos os tempos.  

Carton de Wiart faleceu em 1963 com 83 anos de idade.

Olha, esse cara é literalmente um personagem de Call of Cthulhu que realmente existiu.

Inspirado nele e em alguns pontos de sua estranha/tumultuada/bizarra/inacreditável vida, concebi uma espécie de "ficha de personagem" com suas estatísticas para Call of Cthulhu.

FICHA DO INVESTIGADOR

Nome do Investigador: Sir Adrian Paul Ghislain Carton de Wiart.
Ocupação: Militar de Carreira (General de Brigada)
Idade: 48 (em meados de 1928)

ATRIBUTOS

STR 16         DEX 12          INT 15          IDEA 75%
CON 18        APP 10          POW 16        LUCK 80%
SIZ 15          SAN 60%       EDU 17         KNOW 90%

Damage Bônus: +1d4
Hit Points: 17



Habilidades: Contabilidade 20%, Arte (História Militar) 60%, Arte (Xingamentos elaborados e contundentes) 93%, Arte (Literatura Militar) 55%, Barganha 25%, Bloquear 50%, Escalar 50%, Disfarce 50%, Ofício 45%, Crédito Social 78%, Esquiva 47%, Primeiros Socorros 00%, Saltar 40%, Direito 40%, Consultar Biblioteca 30%, História Natural 35%, Navegação 49%, Persuadir 85%, Psicologia 15%, Cavalgar (camelo) 77%, cavalgar (cavalo) 55%, Nadar 89%, Arremesso 47%, Discurso pró-Britânia 97%, Motivar Soldados 57%, Fleuma britânica 83%, Suportar ferimentos 99% 

Idiomas: Inglês 90%, italiano 5%, Alemão 10%, Francês 10%, Hindi 30%

Armas e Ataques: Pistola Webley 88%, Rifle Lee-Enfield 74%, Sabre de Cavalaria 45%, Faca Militar/Baioneta 62%, Soco 78%, Cabeçada 75%   

É pouco provável que um sujeito como esse tenha alguma experiência com o Mythos de Cthulhu. Por outro lado, quem melhor do que ele para instruir uma equipe de investigadores para uma missão especialmente perigosa envolvendo algum componente estranho e inexplicável.

De fato, tenho umas duas ou três aventuras em que poderia usar esse cara como um personagem de aventura.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Os Espinhos de Glaaki - Um tenebroso Culto no Vale de Severn

E aqui vai um culto devotado a Glaaki.

Para os que acompanham o Mundo Tentacular faz tempo e tiverem um déja-vu ao ler esse artigo, segue uma explicação. Eu escrevi esse texto faz algum tempo, na época em que vários textos sobre Call of Cthulhu e Kult foram postados no fórum da REDERPG e da comunidade do Orkut (alguém lembra?).

Consegui resgatar esse aqui do limbo em que se encontrava, fiz umas mudanças, aqui e ali adicionei mais alguns elementos e eis então... RAISED FROM THE DEAD!



OS ESPINHOS DE GLAAKI

"O culto se reunia nas noites de lua cheia. Vestiam longos mantos de cor marrom e se colocavam ao redor do lago para reverenciar aquele que lá vivia. Os cultistas acendiam tochas e ficavam a observar as águas estagnadas aguardando que seu Deus surgisse na superfície plácida a fim de honrá-los com sua presença. Algumas vezes ele atendia ao chamado. Surgia diante deles para inserir um espinho no coração de algum cultista e assim submetê-lo à servidão. Eles viam esse ritual como um momento de transcendência, a suprema comunhão com seu mestre e senhor".


O Culto de Glaaki, o Senhor do Lago é nativo da degenerada região conhecida como Severn Valley (Sul da Inglaterra) e se espalha pelos vilarejos semi-desertos que cobrem estas planícies escuras.

Os registros mais antigos do culto, remetem ao ano de 1790 como data de sua fundação. Seu idealizador teria sido um certo Thomas Lee, pastor anglicano que sofria uma profunda crise de fé. Supostamente, Lee havia entrado em contato com estranhos tomos e conhecimento oculto que confundiram suas crenças e o conduziram a delírios e alucinações.

Anos antes, ele havia trabalhado como ajudante de bibliotecário na Congregação de Kent. Sabe-se que entre os livros do acervo encontrava-se um volume em latim das Revelações de Glaaki, livro este que desapareceu do catálogo da biblioteca mais ou menos na época em que o pastor recebeu sua designação para presidir uma paróquia em Carmody (uma pequena cidade nas proximidades do Vale Severn).

A única imagem de Thomas Lee
Chegando a cidade o pastor tomou lugar como ministro, porém alguns fiéis logo se mostraram desapontados com seus sermões e escreveram às autoridades eclesiásticas pedindo um substituto. Entre as reclamações, afirmavam que o pastor tinha "idéias estranhas" e que suas celebrações eram repletas de rituais e cerimônias de natureza inquietante.  Em uma ocasião o pastor teria trespassado a palma da própria mão com um longo espinho de ferro e em outra teria se deixado possuir por algum tipo de espírito que falou em uma língua desconhecida, babou, gritou e correu de quatro pela igreja, o que naturalmente chocou todos que estavam presentes no local.

Após enviar observadores para verificar o trabalho do pastor, as autoridades religiosas requisitaram que Lee retornasse imediatamente para Kent a fim de ser submetido a uma avaliação. Extra-oficialmente correram boatos sobre a capacidade do pastor em conduzir uma celebração e até sobre seus estado mental. 

Thomas Lee se negou a obedecer a ordem e acabou destituído de seu ministério. Furioso decidiu se afastar da Igreja e criar seu próprio culto com o apoio de alguns poucos fiéis que viam a "verdade" em suas estranhas celebrações.

Em meados de 1800, o Pastor alegou receber sonhos e premonições de natureza messiânica a respeito de um lugar iluminado onde ele deveria constituir seu sagrado ministério. Ele guiou seu rebanho mais para o interior do Vale, alegando que havia recebido visões e que estas indicavam onde sua comunidade deveria ser erguida. O local escolhido foi às margens do escuro Lago Brichester e eles escolheram chamar o lugar de Nova Gethsemâni. O secto iniciou a construção de algumas casas modestas de madeira e de uma pequena igreja entorno do lago. O pastor pessoalmente batizou seu rebanho fazendo com que eles mergulhassem nas águas estagnadas e se erguessem como almas purificadas do pecado.

Nos meses seguintes o grupo de devotos que contava com seis famílias e um total de vinte e dois indivíduos passou a viver nessa comunidade fechada, devotando-se inteiramente à sua estranha crença. Eles celebravam casamentos entre si, tratavam seu pastor como um profeta e suas crianças eram batizadas com nomes estranhos. Os vizinhos mais próximos os evitavam e o contato com suas estranhas práticas era mínimo. Boatos davam conta de que Thomas Lee e outros membros da congregação tinham mais de uma esposa.

O isolamento da comunidade se manteve por décadas.

As poucas pessoas que visitaram Nova Getsemâni nesse tempo contavam que os moradores do vilarejo se comportavam de maneira estranha e que havia uma quantidade alarmante de crianças com problemas físicos e mentais perambulando pelo lugar. Os casebres eram incrivelmente miseráveis e as pessoas não tinham quase nada. Os mais velhos partilhavam de um estranho idioma que soava aviltante aos ouvidos, mas o pior sem dúvida era a esquálida igreja da cidade, uma construção sinistra envolta em uma aura brumosa bem na beirada daquele lago escuro. Uma das portas nos fundos, segundo testemunhas, dava para o lago e quando este enchia na época das chuvas, o lugar era cercado pela água.

A Igreja à beira do Lago de Brichester
Apenas aqueles batizados pelo reverendo Lee podiam adentrar a igreja, embora ninguém fizesse muita questão de entrar ali. As músicas que os poucos visitantes ouviam, cantada naquele idioma medonho, causava um misto de temor e inquietação. Em 1856, um condestável do povoado vizinho de Carmody deixou a cidade às pressas depois de ouvir a congregação reunida entoando um daqueles cânticos.

Havia ainda outra coisa. Os recorrentes boatos sobre pessoas que desapareciam nos arredores. Viajantes e comerciantes itinerantes, e até mesmo vizinhos que construíam muito próximo do povoado tinham o hábito de desaparecer sem deixar vestígios. Muitos acreditavam que eles simplesmente se mudavam, outros preferiam não elaborar suas suspeitas.  Logo, mesmo entre os lugarejos inóspitos que pontilhavam o mapa do Vale de Severn, Nova Getsemani começou a figurar como um lugar a ser evitado por qualquer um com bom senso.

Por volta de 1870 autoridades locais de Brichester que realizavam um senso, tencionavam visitar Nova Getsemâni. Um grupo visitou o vilarejo e encontrou o local em estado de total abandono. Apuraram que os habitantes haviam partido por razões ignoradas, deixando para trás suas casas simplórias de madeira e suas parcas possessões. O que quer que tenha acontecido, na cidade atingiu a todos e ninguém ficou sabendo.

Com uma mistura de surpresa e alívio os vizinhos apuraram que todos haviam desaparecido. Na época, julgou-se que os colonos haviam simplesmente seguido para outra região mais atraente e desistido de viver em um lugar tão isolado e sujeito a um inverno rigoroso. 

A verdade é no entanto bem mais terrível. As pessoas do vilarejo haviam criado um culto chamado "Espinhos de Glaaki", em homenagem a coisa tenebrosa que passaram a glorificar. Uma vez construídas as casas e o templo, o pastor Lee começou a batizar seu rebanho, o que envolvia evocar Glaaki e permitir que ele inserisse em cada membro da congregação um de seus espinho. Logo Glaaki criou servos totalmente fiéis que lhe ofereciam sacrifícios.

O Habitante do Lago
Rapidamente Glaaki colocou os habitantes do vilarejo sob seu comando, transformando a população em escravos. Os cultistas mantiveram seu isolamento por anos à fio, realizando adoração, capturando ocasionais viajantes para aumentar seu número e disputando território com cultos que proliferam no Vale de Severn.

O culto, entretanto estava fadado à extinção em face da tenebrosa Corrupção Verde. Os cultistas sabendo que não poderiam mais passar por humanos conduziram um ritual em que todos mergulharam no lago a fim de se unir ao seu Deus. E eles continuam lá embaixo, emergindo de tempos em tempos para buscar vítimas e cumprir as tarefas impostas pelo seu mestre.

Atualmente o culto de Glaaki não existe, ao menos não de maneira organizada. Por muitos anos circularam estórias e lendas a respeito dos antigos habitantes do vilarejo vagando pela região, perseguindo viajantes desavisados que ousavam se aproximar do lago à noite.

De tempos em tempos, maníacos ou indivíduos com grande sensibilidade para o sobrenatural são guiadas para as margens do lago de Brichester onde encontram as ruínas do velho povoado abandonado. Dizem que na velha igreja ainda podem ser vistos painéis cobertos com as terríveis inscrições Aklo que revelam magias de evocação ao Deus do Lago para aqueles capazes de decifrá-las. Acredita-se também que o volume carcomido das Revelações de Glaaki ainda se encontre na igreja ou no porão de algum dos casebres. 

Em 1928, Richard Melbourne, o notório Carniceiro de Brichester foi preso depois de ter assassinado entre oito e onze vítimas (nunca se soube ao certo). Todos foram mortos e esquartejados com machado em rituais de sacrifício presididos pelo próprio assassino. Na prisão, ele revelou que cumpria ordens do Deus do Lago e que foi um seguidor do "Espinho de Glaaki". O assassino foi enforcado em 1925. Dois meses depois sua sepultura foi violada e o corpo desapareceu. Algumas pessoas afirmam que Melbourne não foi enforcado até a morte e que sobreviveu à execução. 

Em 1934, um indivíduo não identificado foi encontrado vagando pelos arredores do lago. O sujeito estava nu e apresentava um ferimento no peito causado por um enorme espinho ainda alojado. Médicos foram chamados para cuidar do paciente que morreu poucas horas depois. O espinho foi retirado e levado para a Universidade de Leeds onde continua guardado intrigando cientistas e pesquisadores quanto a sua origem. O corpo desse estranho desapareceu do necrotério poucos dias mais tarde.  

Em 1957, parte do Lago de Brichester foi dragado para um projeto de represamento. O projeto foi cancelado nos anos seguintes e considerado inviável diante de dificuldades que se apresentaram para a conclusão da empreitada. Na época houve boatos a respeito de acidentes e pesadelos experimentados pelos engenheiros e trabalhadores envolvidos. Reportou-se ainda a descoberta de inúmeras ossadas humanas no leito do lago, o que nunca foi confirmado.

Os Seguidores se erguem do Lago
Em 1988, o professor Roger Barton da Universidade de Leeds conduziu um estudo a respeito da antiga comunidade que se instalou nas margens do lago. O professor desapareceu misteriosamente enquanto visitava as ruínas de Nova Getsêmani e seu paradeiro permanece desconhecido.

Finalmente em 2012, uma equipe de televisão à serviço de um programa de sucesso britânico chamado "Scare Zone" realizou um especial na área. O objetivo da equipe era encontrar indícios de atividade paranormal ou fantasmagórica nas lendárias ruínas da cidade. Dos seis membros da equipe apenas um foi encontrado com vida dias por um grupo de resgate. As filmagens recolhidas serviram para averiguar o que aconteceu. Esse material jamais foi liberado para o público por ser considerado demasiadamente perturbador.  

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Explorando os Mythos mais Obscuros - Glaaki, o Habitante do Lago


Glaaki é apresnetado no conto "The Inhabitant of the Lake" por Ramsey Campbell.

Glaaki é um obscuro Grande Antigo que habita um lago próximo a cidade de Brichester, na parte meridional da Inglaterra, parte da região conhecida como Vale de Severn.

Embora muitos teóricos do Mythos defendam que Glaaki se encontra aprisionado nesse local até a conjunção estelar que o libertará, "quando as estrelas estiverem certas", há rumores de que ele é capaz de se manifestar em outros lugares ainda que por um curto período de tempo. Glaaki teria sido visto em outros corpos de água, lagos e lagoas ao redor do mundo como por exemplo o Britain Lake na Nova Guiné, o Lago Taquatihue na Bolívia e o Lago Raquette nos arredores de Nova York. Há rumores que ele também teria sido avistado até mesmo no sistema de esgoto de Londres em certa ocasião. Se esses rumores forem verdadeiros, é possível que Glaaki seja capaz de criar portais e viajar através destes para qualquer região lacustre que desejar. Essa evidência pode explicar o avistamento de vários monstros lendários habitando lagos, dentre os quais o mais célebre sem dúvida é o Monstro de Loch Ness.

Glaaki é descrito como um pesadelo semelhante a uma lesma colossal ou o antepassado de um ouriço marinho, medindo vários metros de comprimento. Ele não possui pernas ou patas e para se locomover desliza lentamente sobre o seu ventre que produz uma substância gotejante de coloração amarelada que facilita seu deslocamento. Essa substância que se desintegra poucas horas após sua passagem evidencia sua presença onde quer que ele vá. Embora no solo a criatura seja bastante lenta, na água ela é capaz de nadar com desenvoltura, mergulhando e flutuando com graciosidade desconcertante para um ser dotado de corpanzil tão volumoso. É possível que ele seja dotado de um sistema natatório que lhe garante poder de flutuação semelhante ao de vários peixes. 

O monstro possui uma espécie de cabeça hedionda onde desponta um aparato semelhante a três talos no qual se projetam olhos de coloração branca leitosa. Ele também é dotado de uma larga boca com lábios inchados e carnudos, repleta de dentes afiados como pontas de faca. Esses dentes se acavalam e acumulam em quantidade tão grande que é impossível para o monstro fechar completamente a boca. Sendo um carnívoro contumaz, as presas afiadas sempre apresentam carcaças e pedaços de vítimas semi-digeridas. O fedor de seu hálito infernal é descrito como nauseante.    

A carne úmida e gotejante, se assemelha a borracha e é extremamente resistente. O dorso da criatura é recoberto por fios ondulados de cabelo endurecido ao ponto de se tornarem tão fortes quanto cabos de aço. Muitos sugerem que esses fios são feitos de metal, mas na verdade os filamentos tem origem orgânica e se transformam em espinhos ocos e pontiagudos que se eriçam quando a criatura pretende investir contra algum oponente. Os espinhos podem ser ejetados do corpo de Glaaki a fim de trespassar um alvo que ele deseja atingir. Esse tipo de ataque tem um alcance limitado a cerca de quinze metros, mas sua precisão é notável. Determinado a atingir um alvo, Glaaki pode ejetar vários espinhos de uma única vez. 

Os espinhos são uma das peculiaridades pelas quais essa abominação é mais conhecida. Essas tenebrosas cerdas quando atingem um indivíduo injetam em sua corrente sanguínea uma substância química que cria uma rede de filamentos entrelaçados que se multiplicam no organismo com alarmante velocidade. Os filamentos aos poucos assumem o controle do sistema pulmonar e circulatório da vítima, controlando a seguir seu sistema locomotor. Em pouco menos de 12 horas, a vítima infectada pela substância passa a ser controlada, ficando suscetível às emanações telepáticas de Glaaki. Como resultado, o indivíduo embora ainda seja capaz de pensar e sentir, não consegue controlar suas ações. Glaaki tende então a compelir suas vítimas, chamando-as para perto de onde ele surge a fim de espetá-las com outros espinhos até provocar sua morte. Mas isso não põe um fim a existência do indivíduo. Ele se transforma em um Seguidor de Glaaki, um morto vivo totalmente sujeito a vontade da aberração.

Os pobres infelizes sujeitos a esse tratamento não são mais do que escravos. Muitos acompanham Glaaki até seu refúgio, outros afundam com ele nas águas estagnadas de suas lagoas para nunca mais serem vistos novamente. Alguns poucos, ele permite que continuem andando entre os homens como verdadeiros zumbis, nada mais do que bonecos manipulados pelas cordas invisíveis do elo psíquico estabelecido. Parece não haver limites para a distância desse controle mental, embora em alguns momentos um servidor controlado por Glaaki, separado de seu mestre por uma grande distância possa ter o elo enfraquecido. Esses servos fiéis se tornam olhos e ouvidos do Grande Antigo entre os humanos. Um simples exame médico determina que os Seguidores não estão vivos, o que pode soar perturbador caso um deles seja capturado e submetido a um exame. 

Na qualidade de agentes de Glaaki, os seguidores são capazes de entoar magias e realizar ações coordenadas pelo Deus à distância. Impiedoso, o Habitante do Lago costuma fazer sentir a sua ira sobre os Seguidores que falham em suas atribuições.


Após um período médio de 60 anos, todos os Seguidores de Glaaki, que durante esse tempo continuam iguais a quando morreram, experimentam uma condição conhecida como Apodrecimento Verde. Esse efeito faz com que o hospedeiro sofra uma gradual corrupção em seus tecidos, acelerada sempre que ele é exposto pela luz do sol. O Apodrecimento não tem cura, e se o Seguidor de Glaaki for exposto ao sol por alguns poucos minutos irá se desnaturar em uma horrível pilha purulenta de matéria esverdeada. Isso faz com que os Seguidores depois de algum tempo se tornem extremamente receosos de sair de seus redutos e covis. A maioria deles, assim que apresenta a condição, mergulha para encontrar seu mestre, outros continuam em ação, mas apenas depois que o sol se esconde. É possível que algumas lendas sobre vampirismo possam ter sido influenciadas por essas criaturas que igualmente temem o sol.

A única forma de evitar que uma pessoa atingida por um espinho se transforme em um Seguidor é extrair o espinho antes que a substância em seu interior entre em contato com a corrente sanguínea da vítima. Agindo rápido, um indivíduo é capaz de remover a cerda, mas a melhor maneira de prevenir qualquer risco é queimar a área o mais rápido possível ou então (se possível) amputar a área atingida. Há rumores que dão conta de que possa existir algum tipo de ritual que previne a infecção, sobretudo nas páginas perdidas do volume IX do tomo intitulado Revelações de Glaaki (livro que trata especificamente dessa abominação). Infelizmente, os poucos volumes de que se tem notícia estão incompletos, faltando justamente esse trecho. É possível que o próprio Glaaki através de seus Seguidores tenha orquestrado a destruição dessas páginas. 

A descoberta de um livro completo contendo essa informação seria extremamente valiosa para qualquer investigador do Mythos.

Alguns poucos estudiosos do Mythos se debruçaram sobre a natureza de Glaaki tentando determinar sua origem. Ele é citado brevemente nas edições mais antigas do Liber Ivonis, chamado pelo nome "O Habitante do Lago" e no único manuscrito existente do incrivelmente raro Monstres and their Kynde que estava em poder do Museu Britânico até desaparecer em 1898. Fora esses dois tomos, Glaaki também é citado no já mencionado nono volume da coleção Revelações de Glaaki.

Esse livro afirma que Glaaki surgiu em um mundo desconhecido, repleto de vulcões, vastos lagos ácidos e vapores tóxicos que cobriam toda a atmosfera tornando-o inabitável para qualquer outra forma de vida. Ele teria sobrevivido a destruição desse planeta após o choque com um cometa. O Grande Antigo teria então se transportado para os mundos de Yuggoth, Shaggai e Tond


Em outra versão sobre sua gênese, Glaaki teria se originado no coração de um cometa que em algum momento mergulhou do firmamento caindo na Terra, supostamente atraído pela Raça Ancestral que um dia habitou a Antártida. Quando o meteoro se chocou com o nosso planeta, teria formado o lago de Brichester onde a criatura passou a habitar desde então. Sujeito às esmagadoras forças cósmicas, o Grande Antigo ficou aprisionado nesse corpo lacustre por milênios até ser capaz de se comunicar com humanos através dos quais ele desenvolveu uma forma de interação.

Alguns insistem que durante o período em que permaneceu supostamente inativo no fundo do Lago Brichester, Glaaki conseguiu se manifestar no Antigo Egito. Esses teóricos sugerem como prova a descoberta de múmias encontradas em 1929 num sepulcro próximo a Tel-Amarna. Esses cadáveres ancestrais tinham em seus corpos  espinhos muito semelhantes aos usados por Glaaki. O fato de que a influência do Grande Antigo em nosso mundo ser praticamente desconhecida nessa região, faz com que alguns acreditem na possibilidade de Glaaki possuir ou ter possuído um "semelhante". Essa teoria no entanto é repudiada pela maioria dos pesquisadores sérios.

Os poderes de Glaaki são minúsculos se comparados ao dos Deuses Exteriores ou outros Grandes Antigos, como Cthulhu e Hastur, não obstante ele é capaz de perturbar qualquer investigador que o encontre.

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Segredos do Vale de Severn

E um pequeno update que explica muito bem quem é Glaaki: