quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Música Perturbadora - A estranha carreira de Nattramn e do Silencer


Alguém ouviu falar de uma banda chamada Silencer ou de seu membro mais conhecido, um tal Nattramn

Eu não conhecia nada sobre essa criatura, mas enquanto escrevia o artigo anterior a respeito de estrelas da música envolvidas com o oculto ou "coisas estranhas", a biografia do tal Nattramn pipocou várias vezes. E de fato, se 10% do que eu li for verdade, o cara é um dos mais perturbados e sinistros (vá lá!) "artistas" da atualidade.

A banda Silencer se formou em meados de 1995 em Stockholm. Foi uma das primeiras do gênero que passou a ser conhecido como "suicidal black metal", um estilo agressivo marcado por letras absolutamente radicais repletas de niilismo, misantropia e fúria, capaz de glorificar o suicídio, nazismo, massacres e destruição. O caos é uma das marcas registradas do gênero que possui fãs na Escandinávia, sobretudo na Suécia. 

O primeiro demo do Silencer, foi lançado em um circuito comercial limitado em 1998, trazendo uma única música intitulada "Pierce me" ("Fure-me"), com quase 11 minutos de duração. A faixa é marcada pelos urros guturais do vocalista. Diz a lenda que a gravação apresenta vários problemas de mixagem, mas que ela só pôde ser executada uma vez, já que o vocalista teria se auto-mutilado durante a gravação em estúdio. Verdade ou mentira, o som estridente e medonho dos seus gritos acabaram chamando a atenção de uma gravadora alemã, a Prophecy Productions, que no ano seguinte assinou um contrato com os membros da banda. Apontado como uma grande promessa do Doom Metal, a banda chegou a ser comparada com os alemães do Bethlehem, os pioneiros do gênero.

Apesar de existir desde meados da década de 1990, há poucos registros de que o Silencer tenha se apresentado em público. Existem dois vídeos de péssima qualidade que se supõe serem performances da banda, ambos em clubes na Suécia. Um deles sequer pode ser chamado de show, uma vez que tudo o que se vê nos quase 12 minutos da escura gravação são pessoas gritando, brigando e correndo num palco improvisado. 

O Silencer teria concedido apenas uma entrevista em sua carreira, uma imposição da gravadora que exigiu essa condição para não romper o acordo contratual. Apesar dos membros terem concordado, a "entrevista" se resume a algumas perguntas dirigidas aos músicos que apenas grunhem de forma monocórdia e gargalham. Não é à toa que depois disso, a banda perdeu o apoio da gravadora.

Pouco antes porém, o Silencer apresentou um video-clip para a música "Sterile Nails and Thunderbowels" uma verdadeira colagem de cenas bizarras com direito a mutilação e sexo-explícito extraídas do filme experimental alemão Begotten (de E. Elias Merhige). O vídeo não chegou a  ser lançado pois o diretor não autorizou o uso das imagens de seu curta metragem pela banda. Apesar disso, ele acabou caindo na internet e pode ser conferido no final desse artigo.

Em maio de 2000, o Silencer aproveitando a controvérsia sobre o vídeo gravou sua única obra completa, com o título "Death, Pierce Me". Na gravação Nattramn dá mais uma mostra de seu estilo bizarro em que as palavras nem soam como algo inteligível. Numa das faixas não há letra, apenas uma única frase urrada repetidamente: "Cortem a minha garganta! Cortem a minha garganta!" 

Mais uma vez a gravação foi marcada por rumores. Técnicos de som teriam se negado a trabalhar com o vocalista alegando que ele não era profissional. Alguns boatos davam conta que Nattramn teria mutilado as próprias mãos e o rosto com uma faca em pleno estúdio deixando os técnicos apavorados.

Uma das únicas fotos de Nattramn e a que o tornou conhecido
Apesar das dificuldades, o álbum foi lançado em 2001 acompanhado de enorme controvérsia. A capa do disco, que mostra Nattramn quase irreconhecível, ensanguentado e com uma meia cobrindo a cabeça por pouco não foi proibida em plena Suécia, país conhecido pela sua tolerância. Na fotografia, patas de porco surgem nas mangas de sua camisa manchada de sangue em uma composição por si só perturbadora. Ainda que tenha sido liberado em seu país natal, ele não teve a mesma sorte na Inglaterra e Alemanha onde uma capa preta substituiu a imagem.

Atraindo a atenção da mídia, rumores começaram a circular afirmando que o vocalista do Silencer sofria de alguma doença mental. Nos créditos do álbum ele agradece as companhias farmacêuticas que produziram medicamentos que ele alegava tomar e que permitiram concluir a gravação. "Sem essas maravilhosas drogas, eu não conseguiria chegar ao fim do trabalho!" teria escrito a respeito de drogas controladas, destinada a pacientes com esquizofrenia.

Mas o mais bizarro ainda estava por vir.

Nattramn publicou uma carta em que revelava a sua admiração por um assassino em série sueco chamado Thomas Quick. Na carta, ele contava que seu sonho era seguir os passos do maníaco que assumiu a autoria pelo assassinato de oito meninas e alegou ter cometido outro 22 crimes. "Eu vou matar meninas e ser tão famoso como Thomas Quick" ele escreveu na carta.

Ninguém levou muito à sério as palavras de Nattramn, afinal tudo indicava que se tratava apenas de um golpe publicitário para prender a atenção da mídia. Contudo, alguns meses depois o vocalista do Silencer foi preso em um parque na cidade de Ljungby, acusado de agredir e ameaçar frequentadores com um machado. Segundo o boletim da ocorrência, o músico teria perseguido um grupo de pessoas brandindo a arma enquanto gritava enlouquecido. Uma menina de seis anos teria sido ferida durante a confusão. Ele ainda tentou fugir em uma bicicleta, mas foi alcançado por policiais. Ao receber voz de prisão Nattramn implorou que o matassem.

Diagnosticado como esquizofrênico, psicótico e maníaco depressivo, Nattramn foi internado no Hospital Psiquiátrico de Vaxjo. Houve estórias de que ele tentou escapar e esses boatos acabaram causando enorme comoção na cidade. Habitantes acreditavam que além de escapar do manicômio, ele estaria armado com um machado, disposto a fazer valer as suas ameaças. Os rumores se mostraram infundados.

Durante sua internação, o músico começou a escrever um livro de memórias como forma de terapia. Em 2011, o livro Grishjarta ("Coração de Porco", em sueco) foi publicado. Em 2012, ele recebeu permissão para sair da instituição (acompanhado de policiais e responsáveis) para gravar um álbum intitulado Transformalin.

Apesar de submetido a tratamento para controlar a esquizofrenia, os médicos não deram alta a Nattramn uma vez que ele foi considerado potencialmente perigoso no caso de uma interrupção do tratamento. 

Não existe uma previsão para sua liberação de Vaxjo. Uma petição pública, assinada por vinte mil pessoas foi entregue ano passado ao Ministério Público Sueco pedindo que ele seja mantido no manicômio. 

Em tempo: Nattramn não é o nome verdadeiro do sujeito. A palavra se refere a um pássaro lendário da mitologia nórdica que se alimenta da alma de crianças. Simpático, não?

Aqui está o vídeo de "Sterile Nails and Thunderbowels" (com legendas em espanhol):


domingo, 10 de novembro de 2013

Simpatia pelo Demônio - Rock n' Roll e a tentação pelo mundo oculto


Por Michael Howard

Existe uma lenda no mundo da música de que por volta de 1930, o legendário bluesman Robert Johnson, que inspirou entre outros Muddy Waters, Bob Dylan, Rolling Stones e Eric Clapton, vendeu a sua alma ao demônio em troca de se tornar um grande guitarrista. Muitos acreditam que Johnson tinha uma maldição, e que acabou assassinado porque ele acreditava exercer poderes sobrenaturais sobre o sexo feminino. Ele seduziu a mulher de um dono de bar que para se vingar colocou arsênico na cerveja do músico. Muitos moralistas viram nesse fim precoce uma espécie de punição por ele ter se envolvido com as forças das trevas.

Segundo a história, Johnson teria vendido a sua alma ao Capeta durante uma cerimônia ocorrida em uma encruzilhada. Entretanto, essa lenda não começou com ele. Em 1920 e 1930 haviam muitos músicos negros e jogadores profissionais afirmando ter assinado um pacto com um misterioso homem negro numa encruzilhada. Exemplos famosos foram a cantora negra Clara Smith e o xará de Robert Johnson, Tommy Johnston, uma década antes disso. O estranho negro, foi identificado por alguns escritores como o Diabo Cristão e como o Deus Africano Exu, venerado por povos da África Ocidental e levado para o sul dos EUA pelos escravos.

Hoje em dia existem menos evidências de músicos e artistas do mundo do pop/rock vendendo as suas almas para o demônio, mas a ligação entre musica e o mundo oculto ainda é muito forte. Fundamentalistas cristãos afirmam que a proliferação de símbolos e letras envolvendo ocultismo no universo do rock, evidencia que Satã, o grande inimigo de Deus, escolheu esse tipo de música como seu predileto, mas a verdade é muito mais estranha do que qualquer fantasia religiosa.

A lenda de Robert Johnson continua dando frutos.
Algumas vezes, a alegada conexão de artistas famosos com o ocultismo vem à superfície através de fofocas e rumores infundados. Por exemplo, todos sabem que o destino trágico do músico glam Marc Bolan está ligado aos seus estudos de feitiçaria na França (de fato, ele chegou a admitir isso), que a diva pop Dusty Springfield participava ativamente de um grupo satânico chamado Templo do Príncipe de Manchester, e que Jim Morrison, vocalista do The Doors se envolveu com uma alta-sacerdotisa Wiccan (o que também é verdade).

Houve ainda o músico britânico Graham Bond, que nos anos 1970 foi acusado pelo seu colega de R&B,  Long John Baldry de sacrificar um gato durante uma cerimônia de bruxaria. Bond contava às fãs que era um praticante de "magia negra" e seguidor fiel de Aleister Crowley, e que seu talento musical permitia que ele contatasse "outros planos de existência". Bond também acreditava que havia sido amaldiçoado por outro ocultista. Quando em 1974 o músico sofreu um acidente quase fatal ao cair na linha do trem, no metrô de Londres sob misteriosas circunstâncias, muitos acharam que aquilo era um sinal claro da maldição em ação.

Beatles & Rolling Stones

Sabe-se bem que os Beatles flertaram com misticismo oriental e meditação transcendental durante sua fase psicodélica no final dos anos 1960. Alguns sugerem que eles também tinham interesse em coisas mais estranhas. Uma prova, seria o fato da Grande Besta 666, Aleister Crowley, estar presente (no lado esquerdo superior) da fotomontagem “pessoas que mais admiramos” do famoso álbum Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

O antiquário de livros e biógrafo de Crowley, Timothy D’Arch Smith conta que os Beatles participaram de um leilão de livros raros sobre bruxaria e ocultismo ocorrida em Londres. Jane Asher, namorada de Paul McCartney foi quem teria sugerido a participação e de acordo com D’Arch Smith, ela encorajou o músico a comprar vários desses volumes como investimento.

Os Stones - Sympathy for the Devil
Se os Beatles em algum momento se interessaram pelo oculto, não se pode dizer ao certo, mas seus principais rivais pelo sucesso e pela fama, os Rolling Stones, estiveram definitivamente interessados no tema. Apesar das origens respeitáveis de suas famílias, os Stones sempre foram deliberadamente promovidos como os ‘bad boys do rock’. O que é claro, incluía envolvimento com o oculto. É provável que isso fosse parte de uma estratégia de marketing construída pelo empresário Andrew Oldham, que também foi o criador da famosa manchete, ‘Você deixaria sua filha casar com um Rolling Stone?’ Se os pais da classe média e trabalhadora da Inglaterra soubessem das brincadeiras dos Stones envolvendo o mundo sobrenatural, a resposta com certeza teria sido negativa.

Os Stones sempre deixaram claro seu interesse pelo oculto e muitos diziam que essa postura era cuidadosamente calculada para construir uma imagem. Mick Jagger disse várias vezes que a música "Sympathy for the Devil" não deveria ser levada ao pé da letra, mas ele brincava que ela era uma espécie de homenagem ao patriarca do Rock n' Roll.

Ascensão de Lúcifer e os Stones

A suposta influência "satânica" sobre os Stones surgiu a partir da tutela do cineasta avant-garde, demonista e fofoqueiro de Hollywood Kenneth Anger. Ele se tornou interessado na carreira da banda e particularmente no guitarrista Brian Jones e de sua namorada na época Anita Pallenberg, uma atriz alemã e modelo. Jones tinha muito interesse no tema, ele e outro músico Robert Palmer, eram fascinados pelo poder de influência e força dos músicos Joujouka que viviam aos pés das Montanhas Atlas do Marrocos, no Norte da Africa. Esses músicos tribais, alardeavam que ao tocar seus instrumentos e cantar de forma alucinada praticavam uma espécie de ritual ancestral em homenagem ao Deus Pan (tipo como uma representação diabólica, marcada pelos excessos). Jones chegou a viajar para o Norte da Africa para gravar trechos das músicas tribais executadas por grupos de percussionistas pré-islâmicos.

Em uma entrevista para a revista Rolling Stone, Robert Palmer descreveu como ele testemunhou um dos rituais devotados a Pan. Ele disse que em meio a apresentação, os dançarinos tribais pareciam estar envolvidos em uma espécie de transe ou êxtase com os olhos rolando, cabeças agitando-se e corpos girando sem parar. Palmer contou que quando o "poder desceu dos céus" os dançarinos pareciam ter sido arrebatados. Nas suas palavras “alguma coisa” estava olhando através de seus olhos que brilhavam "como rubis na escuridão” (trecho da Rolling Stone, 23 March 1989).

Kenneth Anger acreditava que Anita Pallenberg e Brian Jones, que iria se afogar sob circunstâncias misteriosas na piscina da sua mansão em Sussex, eram bruxos. Alegadamente, Jones mostrou ao cineasta um mamilo supérfluo que havia crescido na lateral da sua virilha: “Em outros tempos, eles teriam me queimado em uma fogueira por causa disso.” Mamilos extras, segundo caçadores de feiticeiros era um sinal da marca do demônio, o símbolo de que a pessoa alimentava diabretes e familiares. Um amigo de Anita Pallenberg, Tony Sanchez, contou que ela mantinha as suas drogas guardadas em um baú de madeira no quarto do casal. Um dia ele olhou dentro dele sem que ela visse. Ao invés de drogas ele disse ter encontrado ossos humanos e a pele de "animais estranhos". Uma das namoradas de Mick Jagger, Marianne Faithfull descreveu como ele e Pallenberg costumavam sentar por horas lendo passagens do livro "The White Goddess" de Robert Graves e estudando o misterioso alfabeto místico celta.

Mick Jagger e Marianne Faithfull no final dos loucos anos 60
Em sua auto biografia Marianne Faithfull diz que Anger, um homossexual assumido tinha uma atração quase obsessiva pelo vocalista bissexual dos Stones que não era correspondida. Quando as investidas do cineasta foram rejeitadas, ele parou de ser convidado para as festas. Certo dia, ele apareceu de surpresa na casa do casal em Cheyne Walk, Chelsea e de forma bizarra ofereceu como presente vários livros e manuscritos do poeta e místico do século XVIII William Blake. Jagger ficou enojado por esse comportamento e queimou todas as cópias de trabalhos ligados ao ocultismo que possuía e que haviam sido dados de presente por Anger e que supostamente haviam pertencido a Crowley e ao ocultista francês Eliphas Levi.

Apesar disso, Marianne Faithfull ainda se envolveu no filme experimental de Anger Lucifer Rising, supostamente financiado por Anita Pallenberg, e com uma trilha sonora que incluía composições de Mick Jagger. De início, o vocalista dos Stones deveria ter assumido o papel do protagonista, mas ele acabou abandonando o projeto. Em uma das versões, concluída em 1967, o papel ficou com seu irmão Chris Jagger. Marianne Faithfull se envolveu com a segunda versão filmada em 1972 onde ela concordou em atuar no papel da deusa-demoníaca Lilith.

Faithfull descrevia a assassina de bebês Lilith como um dos personagens arquétipos femininos e a comparava a deusas pagãs como Diana, Astarte, Ishtar, Afrodite e Demeter. Entretanto, ela acrescentou que: “Do ponto de vista de uma sociedade patriarcal, é claro, ela tinha de ser vista como uma encarnação do mal”. Curiosamente, o papel do Deus egípcio Osiris no filme foi interpretado por Donald Cammell, filho de Charles Cammell, um amigo e biografo de Crowley. O jovem Cammell fez os seus próprios filmes incluindo o controverso Performance co-produzido por Nicholas  Roeg. Ele era estrelado por Mick Jagger, Anita Pallenberg e pelo renomado ator britânico Edward Fox. Donald Cammell cometeu suicídio em 1990.

A filmagem de Lucifer Rising foi realizada no Egito e Faithfull contou que logo que a equipe de produção e elenco chegaram ao país ficou óbvio que Anger não sabia o que fazer como diretor ou como feiticeiro. Nesse período de sua vida, Faithfull estava seriamente dependente de heroína e admitiu que também não sabia o que deveria fazer no set de filmagem. A produção toda foi uma receita de desastre. A última sequência do filme se passava durante o solstício de inverno e foi filmada em um sítio neolítico na Alemanha. Durante a filmagem, Faithfull sofreu um acidente e despencou de uma ravina. Segundo ela própria, alguma força invisível a protegeu e ela caiu de pé sem sofrer nenhum ferimento. Esse episódio a convenceu de que sua força interior e poder místico era muito superior ao de Anger. Em sua autobiografia ela se refere a Anger como um "ocultista de quinta categoria" e “um bruxo de tabloides de Hollywood.”

Cena de um dos bizarros filmes de Kenneth Anger
Marianne Faithfull alardeou que Mick Jagger e o guitarrista principal dos Stones Keith Richards também eram céticos a respeito do "hocus-pocus satânicos" de Anger e que não o levavam a sério. Entretanto, depois do incidente envolvendo o sujeito na casa de Londres, que agora pertencia a Richards e Anita Pallenberg, Faithfull começou a ficar assustada. Ela passou a acreditar que estava sob ataque psíquico. Alguns dizem que ela passou a usar amuletos de proteção ao redor do pescoço e dormir no centro de um círculo de proteção com velas acesas. Se esse comportamento paranoico foi motivado pela dependência de heroína, não se sabe.

Uma das músicas de Marianne Faithfull em seu álbum Broken English se chama ‘Witches Song’ (O Som das Bruxas). Ela a chamou de “minha ode às mulheres selvagens e pagãs que eu conheci e que sempre estiveram ao meu redor.” Faithfull conta que teve a ideia para a música depois que ela e Mick Jagger visitaram uma exibição em Madri de pinturas com o tema o Sabá das Bruxas, com várias telas do artista espanhol Francisco Goya. Sua autobiografia também descreve um incidente quando ela e Jagger tomaram LSD depois de visitar Primrose Hill no Norte de Londres “onde existem antigas ley-lines que ainda estão ativas” e onde neo-druidas realizam cerimônias. Sob a influência do ácido, o casal viu "uma enorme face no céu” que eles estavam convencidos pertencia ao deus celta Bran. Esse acontecimento parece ter marcado o início do interesse de Faithfull pelas crenças celtas. Em sua autobiografia ela diz que acredita em Deus, mas não no Deus-Pai, e sim em uma Grande Deusa cujo consorte é Pan.

Jimmy Page e a conexão com o Senhor Crowley

Em 1969 a aura satânica ao redor da mega-banda de rock Led Zeppelin chegou a tal ponto que empalideceu todos os ecos sobre Robert Johnson. Rumores circulavam na cena musical de Los Angeles de que os membros haviam assinado um pacto com seu próprio sangue com o demônio em troca de fama.

Page e Crowley
James Patrick ou simplesmente Jimmy Page sempre teve um conhecido interesse pelo ocultismo, o suficiente para alimentar rumores de supostas atividades satânicas para todos os membros da banda. Descrito pela revista AllMusic como “um dos artistas mais influentes pela versatilidade, talento e pelas suas letras,” Page tinha interesse em religiões alternativas desde a infância. Enquanto ainda era um membro dos Yardbirds, ele andava na companhia de Brian Jones e Anita Pallenberg em seu estúdio em South Kensington. Page jamais escondeu seu profundo interesse na filosofia de Aleister Crowley, e o famoso álbum Rune tem uma fotografia da Grande Besta em sua capa. Em uma entrevista para a revista Sounds em 1976 Page é citado afirmando que Crowley foi “um gênio incompreendido do século XX.”

Jimmy Page arrematou o maior número de artefatos e primeiras edições de obras que pertenceram a Crowley que conseguiu encontrar. Em 1969, Kenneth Anger alugou a antiga e (seriamente assombrada) casa que pertenceu a Crowley, Boleskine às margens do mítico Loch Ness onde a Grande Besta viveu no início do século por algum tempo. Quando ele foi a mercado para venda, Anger sugeriu que Page deveria comprá-lo. Ele fez isso, e contratou o artista e ocultista Charles Pace para pintar murais para compor a atmosfera mágica de cada aposento. O guitarrista do Led Zeppelin podia ser encontrado dirigindo pela área pantanosa como um lorde escocês em um Land Rover paramentado com chifres de gamo e um saiote. Page também visitou a Sicília e contemplou a ideia de comprar o velho vilarejo de Cefalu onde Crowley estabeleceu a Abadia de Thelema nos anos 1920.

No início dos anos 1970 Page abriu uma livraria dedicada a obras de ocultismo em Kensington chamada The Equinox. Ela foi construída em um estilo futurista com prateleiras de vidro e gabinetes de aço cromado seguros por pilares. Sob os seus auspícios, Page publicou um fac-simile da edição de 1904 escrita por Crowley sobre o grimório medieval Goetia.

Kenneth Anger aproximou-se de Jimmy Page e pediu a ele que compusesse uma trilha sonora para seu filme, o projeto Lucifer Rising. Infelizmente, a sociedade terminou de maneira amarga quando Page conseguiu produzir apenas 23 minutos de musica, enquanto Anger necessitava de 28. O cineasta acusou Page de ser um mero curioso nas artes ocultistas e um viciado em drogas, que foi incapaz de cumprir sua parte no acordo e compor as músicas do filme. Entretanto, em 1976 Page emprestou a Anger o porão de sua casa em London para que Anger pudesse fazer o trabalho de edição de um filme. Os dois homens não chegaram a se encontrar cara a cara, e supostamente Page realizou algum tipo de ritual visando amaldiçoar o cineasta. Page mais tarde taxou o incidente como “tolo e patético” e afirmou que respeitava Anger como ocultista praticante.

Houve muitas suspeitas de que Jimmy Page tenha em algum momento pertencido a uma das modernas versões de sociedades secretas devotadas a Crowley, como a OTO (Ordo Templis Orientis ou Order of the Eastern Temple). De fato, não há como saber se Page foi realmente um praticante de magia. A esse respeito, o jornalista Nick Kent da New Musical Express desconsidera os rumores d eque o guitarrista passasse seu tempo livre "com a cabeça escondida sob um manto sacrificando animais domésticos em rituais.” Kent ao invés disso, diz que a experiência de Page foi “apenas a de um curioso em busca de conhecimento esotérico, de um colecionador de livros empoeirados, e de um estudante interessado no assunto que obteve nada além de informações enciclopédicas". 

Page em frente de Boleskine, propriedade que pertenceu a Crowley
Embora o interesse de Jimmy Page na obra de Crowley e no ocultismo seja bem conhecido, seu colega de banda Robert Plant também tinha seus interesses esotéricos. Este se manifestava no estudo de folclore e mitologia nórdica e germânica, e na leitura de várias novelas no gênero ‘sword and sorcery’. Plant passou boa parte de sua vida vivendo na fronteira galesa segundo ele mesmo contou a revista Kerrang! visitando as Black Mountains no Sul de Gales. Lá ele redescobriu suas raízes celtas. Usando um mapa dpara vasculhar a região, ele vagou visitou sítios arqueológicos da Idade do Bronze e lugares em que os galeses batalharam contra os Saxões e onde praticavam importantes rituais.

O flerte de Bowie com o mundo além

Outro famoso astro do rock que abertamente admitiu seu interesse pelo oculto, magia e declarou sua devoção a Crowley foi David Bowie (nascido David Robert Jones). Nos anos 1970 ele disse ter estudado a Kabbalah e “Crowleyism” e mais recentemente ficou interessado pelo Gnosticismo. O músico utilizou cartas de Tarot e uma bola de cristal para prever o futuro, um tabuleiro de ouija para contatar espíritos, e realizou rituais de magia para exorcismo e proteção psíquica. Um de seus primeiros álbuns Hunky-Dory tinha uma música chamada ‘Quicksand’ que faz referências a Crowley ae ao grupo de místicos vitorianos a Ordem Hermética do Amanhecer Dourado (The Golden Dawn).

De acordo com a esposa de David Bowie, Angie em sua autobiografia, o interesse de seu marido no oculto era em parte pelo desejo de superar Jimmy Page. Supostamente, ele via o guitarrista do Led Zeppelin como um rival no campo do misticismo. Bowie eventualmente decidiu, possivelmente por causa do interesse de Page nele, que Crowley e seus trabalhos não passavam de "estupidez.” Por esa razão ele começou a estudar magia Tibetana que ele considerava mais poderosa do que qualquer coisa que a Grande Besta ou Page pudessem fazer.

Em uma entrevista a revista New Musical Express (Fevereiro de 1997) David Bowie admite seu gosto pela "magia antiga". Em 1970, ele disse que  na sua opinião Crowley não passava de um charlatão. Ele revelou que Arthur Edward Waite, um membro da Golden Dawn, e a ocultista galesa Dion Fortune, autora do livro Psychic Self-Defence (Auto-defesa Psíquica), haviam sido muito importantes para seu crescimento místico. De fato, Bowie utilizou os ensinamentos no livro de Fortune por que acreditava estar constantemente sob ataques psíquicos de pessoas que voltavam contra ele energias negativas. A casa de Bowe em Los Angeles em 1975, era decorada com todo tipo de artefatos egípcios, muitos deles colocados ali como proteção. “Eu tive esse interesse, muito mais do que passageiro pelo misticismo egípcio e os ensinamentos da Kabbalah…” (Stage Fascination: David Bowie the Definite Story por David Buckley).

Bowie usando trajes cerimoniais semelhantes aos de Crowley
Angie Bowie relatou que o músico esteve muito envolvido com atividades ocultistas nos anos de 1975-76. Isso coincide como período em que ele usou cocaína, e ficou extremamente paranoico. Segundo rumores, Bowie estocava garrafas de sua própria urina em um refrigerador e tomava muito cuidado ao se livrar de seu cabelo e das unhas que cortava. Isso porque ele temia que, algum praticante de magia obtivesse esses itens poderia usá-los como foco para lançar magias contra ele. Ele também construiu uma espécie de altar em um dos aposentos de sua casa onde costumava acender velas negras e meditar. Sua maior preocupação era sempre renovar os círculos de proteção que impediriam que alguém lhe fizesse mal. Angie Bowie certa vez testemunhou Bowie exorcizando uma piscina que ele acreditava estar amaldiçoada. 

Em certa oportunidade, quando o casal estava visitando propriedades para alugar em Hollywood eles encontraram uma casa antiga, onde viram um pentagrama de cinco pontas desenhado no chão. Bowie surtou e disse que não poderia sequer entrar em um prédio ou casa onde supostamente havia ocorrido um ritual de magia negra. Em outro dia, ele telefonou para sua esposa e disse alarmado que bruxas estavam tentando roubar o seu sêmen. Segundo ele, as feiticeiras planejavam criar um bebê de proveta e sacrificá-lo mais tarde em um sacrifício satânico. No final das contas, as bruxas, eram apenas um grupo de fãs inocentes que Bowie conheceu em um bar. 

A essa altura da vida, Bowie também flertou por um curto período de tempo com ideais Neo-Nazistas. Ele explicou em uma entrevista em 1993 que isso se deu pelo seu fascínio pelo uso de simbolismo oculto pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Ele estava interessado pela busca do Santo Graal empreendida pelos alemães. Bowie teria dito em algum momento que "seria interessante ter uma ditadura fascista na Grã-Bretanha", embora ele tenha negado que estava falando sério e dito que o comentário não passou de uma piada de mal gosto.

Black Sabbath e o Heavy Metal


Em parte como uma reação ao movimento hippie e a filosofia "paz e amor" do final dos anos 60, as bandas de heavy metal começaram a aparecer sugerindo violência e um suposto satanismo em músicas amplificadas até os últimos decibéis. Bandas como Warlock, Saxon, Venom, Motley Crue, W.A.S.P., Slayer, Iron Maiden, Incubus e Bathory lançaram álbuns com capas decoradas com crânios humanos, pentagramas, figuras encapuzadas, sepulturas, demônios com a cabeça de bodes e vampiros. Uma das mais bem sucedidas e famosas bandas do início do heavy metal, foi a lendária Black Sabbath surgida em Birmingham no ano de 1969. Combinando riffs pesados de guitarra com letras diabólicas e uma obsessão pelo lado gótico da arte, logo eles começaram a atrair uma legião de fãs.

O visual do Black Sabbath
O nome distinto da banda foi tirado de um filme de horror antigo estrelado pelo ator britânico Boris Karloff, famoso pela sua interpretação do monstro criado pelo Dr. Frankenstein a partir de restos de cadáveres. Originalmente, o Black Sabbath começou como uma banda de jazz-blues até que sus membros começaram a ser influenciados pelos romances de "magia negra" de Dennis Wheatley e trabalhos de Aleister Crowley. O líder da banda ‘Geezer’ Butler supostamente possuía um grimório místico do século XVII. O conteúdo desse livro de magia o deixou tão impressionado que ele resolver trancafiar o tomo em um armário. Durante a noite ele teria sido visitado por figuras sombrias que o estimulavam a ler mais daquele tratado e realizar os rituais ali descritos. Na manhã seguinte quando Butler abriu o armário o grimório havia desaparecido e ele nunca mais o viu.

Butler conta que em certa ocasião a banda havia sido convidada para tocar em um legítimo sabá de bruxas em Stonehenge, algo muito semelhante às novelas de Dennis Wheatley. Quando os rapazes se negaram a ir, o líder do cabal teria lançado uma maldição sobre os membros da banda. Geezer disse ter consultado uma "bruxa branca" que ajudou a remover a maldição e esta teria dito a eles que deveriam se apresentar usando cruzes para afastar as forças malignas que haviam sido voltadas contra eles. Aparentemente, o pai do vocalista Ozzy Osbourne, que era um tipo de faz-tudo, construiu as cruzes para os membros da banda usarem nas apresentações. 

Ozzy Osbourne sempre negou acreditar seriamente no ocultismo, embora ele tivesse um baralho de Tarot que gostava de consultar. Uma de suas frases mais famosas foi: "O único espírito maligno que me interessa é o whisky, gin e vodka". (Um jogo de palavras com "spirits" que serve para designar bebidas fortes e seres imateriais). Ozzy sempre se divertiu com os casos de pessoas estranhas atraídas pela aura de mistério e esoterismo do Black Sabbath. Ele chamava os indivíduos com o rosto pintado de branco ou usando capuzes negros de "esquisitões". Em outra frase, Ozzy comentou que a única coisa boa a respeito de usar todas essas coisas satânicas é que isso aumentou muito a publicidade e as vendas de discos.

Algumas outras bandas de heavy metal levavam um pouco mais à sério o interesse no mundo oculto. Uma dessas foi a Black Widow que tocava uma mistura de rock progressivo e folk, e que empregava imagens demoníacas em suas apresentações. Em 1968 o empresário da banda se aproximou de Maxine e Alex Sanders, os assim chamados "Rei e Rainha das Bruxas". Ele queria que a dupla recomendasse aos rapazes da banda que tipo de objetos e rituais poderiam ser transformados em músicas e decoração de palco. Alegadamente os feiticeiros cederam farto material que a banda utilizou em sua turnê. Alguns desses artefatos serviam para conjurar e adorar uma antiga entidade chamada Astaroth.

A Black Widow Band 
O ponto alto da apresentação era uma espécie de dança que foi ensinada pelos bruxos e que concedia um toque de dramaticidade cênica ao espetáculo. Durante os ensaios com os dançarinos contratados para o show, vários desmaiaram ou alegaram ter sido possuídos por espíritos malignos. Em desespero, a banda chamou um outro feiticeiro que deveria exorcizar os objetos. O empresário da banda contou que os bruxos que cederam os artefatos não quiseram reaver as peças e que elas foram todas queimadas para garantir uma espécie de purificação. 

Um boato que circulou por muito tempo relatava que o bruxo contratado para anular as energias diabólicas, ficou seriamente doente logo depois de realizar o exorcismo e veio a falecer de uma doença repentina em 1971. A turnê do Black Widow continuou, e em uma apresentação o vocalista da banda teria acidentalmente pisado em um círculo mágico de proteção. Maxine Sanders que estava na platéia durante o show percebeu então que vários demônios e espíritos malignos imediatamente se manifestaram para drenar psiquicamente os membros da banda.

Outra banda, mais contemporânea chamada Tool e seu líder o vocalista Danny Carey também são famosos pelo seu interesse no mundo esotérico. Carey é um colecionador de tomos mágicos que um dia pertenceram a Crowley, Kenneth Grant, Austin Osman Spare e Andrew D. Chumbley. Durante a gravação de um de seus álbuns, os membros do Tool teriam utilizado rituais de banimento para expulsar influências negativas que estariam habitando o estúdio. Eles também empregaram talismãs e artefatos de ocultismo que pertenceram ao médico e astrólogo da Rainha Elizabeth I, o célebre Dr. John Dee. Durante uma turnê na América do Sul, um grupo de carregadores se negou a levar os objetos da banda por considerá-los "satânicos". 

Inspiração Diabólica

Os anos 1990 assistiram o surgimento de uma ligação mais sinistra entre o rock e o Satanismo com o aparecimento das bandas de "black metal" e "death metal". Essas bandas eram comprometidas (ou assim diziam) com uma filosofia anti-cristã de anarquismo, niilismo, violência e obsessão com a morte capaz de fazer as apresentações do Black Sabbath parecerem uma celebração de coral. Possivelmente, as bandas mais dramáticas nessa postura vem da Escandinávia. Muitas professam crenças satânicas ou são devotas de um estilo de neo-paganismo muito particular. A Suécia parece ser o berço da maioria desses grupos. Outro ingrediente complicador é a ligação de algumas bandas com movimentos de extrema direita, radicais nacionalistas e defensores da superioridade branca. Essa combinação mortal fez com que shows terminassem em distúrbio, confusão e até assassinato. 

Capas "Satânicas" não são mais novidade no mundo da música
Em 1992 uma antiga igreja de madeira foi queimada até o chão por uma bomba incendiária arremessada por fãs da banda Killing Roar na Suécia. Supostamente haviam ainda disputas entre os seguidores de diferentes bandas que acusavam uns aos outros de serem apenas "posers" que não estavam comprometidos com a causa professada. Em 1993, a polícia foi chamada para conter os ânimos exaltados após um show de black metal em Malmo. Essa foi a gota d'água. Um rígido controle fez com que os membros das gangues, alguns envolvidos com roubos em cemitério e profanação, fossem presos e o problema aparentemente foi controlado. Em 1994, um suposto grupo de satanistas seguidores de bandas de black metal, foram acusados de causar distúrbios nos Estados Unidos, mas os membros logo foram detidos pelas autoridades. 

Na América, a imagem mais recente, relacionada a uma vertente cada vez mais voltada para o chocante, em se tratando da cena musical, diz respeito ao músico Marylin Manson que causou comoção e foi proibido de se apresentar em várias cidades americanas, como por exemplo Salt Lake onde ele foi declarado persona non grata. Muitos críticos afirmam que a imagem de Manson é cuidadosamente construída com o intuito de atrair os holofotes e que seu envolvimento com o mundo oculto não passa de uma campanha de auto-promoção. O próprio Manson se diz um artista cujo objetivo é chocar a sociedade.   

Hoje a quantidade de bandas de rock usando símbolos satânicos e uma postura voltada para o ocultismo é incontável. Mas o mais provável é que a grande maioria de seus membros não sejam realmente os ocultistas engajados que seus empresários tentam vender para o público. A rebeldia e o rock sempre estiveram ligados intimamente e choque muitas vezes está atrelado a quantidade de álbuns vendidos. Quanto mais diferente e inusitada a postura de uma banda, maior será a atenção dispensada a ela.    

O atual "alto-sacerdote" da Igreja de Satã nos EUA, Boyd Rice não por acaso é um músico. Críticos chamaram seu talento musical de "terrorismo sonoro como forma de arte" - seja lá o que isso signifique. Curiosamente, o antigo mestre satânico, Anton LaVey, que fundou a Igreja de Satã no início dos anos 1960, era um fã confesso de George Gershwin e Cole Porter.

Parece certo que enquanto existir rock n' roll, sempre existirão aqueles que afirmam, em alguns casos literalmente, que o diabo é responsável pelas melhores notas musicais.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Resenha: World War Cthulhu - O Mythos no maior conflito da História

Por Marcos Poli
Com "inoportunos" comentários de Luciano Giehl (em azul) 

WORLD WAR CTHULHU

Graças aos esclarecimentos prévios do pessoal interessado em jogar CoC na Segunda Guerra Mundial, meus apêndices proterozóicos conseguiram se infiltrar na rede e adquirir a versão pdf do World War Cthulhu.

Eu acho curioso que tenha demorado tanto para que alguém tivesse peito de fazer um suplemento de Call of Cthulhu tendo como pano de fundo o maior conflito armado da história. Parece o tipo de coisa que se escreve sozinha e que todos os jogadores gostariam de experimentar. Tudo bem tem o "Achtung Cthulhu!", mas se a gente parar para pensar ele também acabou de ser lançado. Cthulhu está aí desde o início da década de 1980, o fato do tema estar sendo explorado agora soa estranho. 

Essas são as minhas impressões:

E as minhas também...

O Básico: o livro contém 216 páginas (210 de texto e o resto de índice e propaganda), bem diagramado, em Preto e Branco, seguindo o padrão da Cubicle 7; textos com algumas caixas descritivas, muita ambientação, poucas e precisas regras adicionais para jogar no sistema Call of Cthulhu clássico. O pdf sai por cerca de R$ 49,00 (20 doletas) se comprado no site RpgNow.

Eu comprei a minha edição durante a GenCon 2013, infelizmente a edição capa dura não tinha ficado pronta à tempo e eles fizeram uma tiragem com capa mole e venderam com um pequeno desconto. Tudo bem, embora eu quisesse ter esse livro em capa dura já que ele se propõe a ser uma ambientação opcional para Call of Cthulhu.

A grande vantagem é que consegui pegar as assinaturas e autógrafos do pessoal da Cubicle 7 na ocasião.





O livro divide-se em quatro partes: a Introdução apresenta o leitor ao cenário e discorre sobre as agências de inteligência britânica e o misterioso Departamento Secreto do Senhor N, no qual, os personagens dos jogadores, são alocados. Segue-se o capítulo dos jogadores explicando a criação de personagens, regras básicas de como funciona um grupo de espionagem e como eles efetuam suas missões atrás das linhas inimigas. Os personagens são mais fortes que o normal do CoC e existem algumas traquinagens no jogo para evitar que fiquem insanos logo de cara.

Particularmente eu gostei dessa opção de criar um Departamento fictício para a realização das missões. É mais ou menos a mesma jogada do Delta Green, com o Departamento P que agia durante a Segunda Guerra e que depois se transformou no Delta.

A ideia de fazer os personagens mais fortes se justifica pelo extremo de certas missões. A ideia é que o Departamento junta os "melhores entre os melhores" para o trabalho. Ou seja, pega caras que são capazes de resistir melhor ao horror que eles vão enfrentar. A explicação funciona, e embora pareça à primeira vista que os personagens ficam muito fortes, trata-se de Cthulhu... mesmo armados até os dentes e cheios de vantagens, quando aparecer um Dark Young ou Lloigor a coisa vai ficar preta das mesma forma, por isso não me preocupou tanto. 



Sem frescura o livro já passa para a sessão do mestre, onde somos bombardeados com toneladas de informações sobre como criar missões e costurá-las junto ao mythos, quem poderia ser N, qual a oposição, regras de combate (lutarão em terra, no ar e no mar), todo o teatro de operações europeu e do norte da África (com mapas e incluindo a península Ibérica e os Balcãs!), além de equipamento, situação econômica dos países em guerra, NPCs (como Ian Fleming e Alesteir Crowley) e a situação dos cultos na época de guerra e das criaturas dos mythos (a irmandade do Faraó Negro, Lloigors, os Ghouls, Cthulhu & amigos etc.).

E essa é a melhor parte do livro. Se tem uma coisa que a Cubicle 7 sabe fazer, é forncer uma infinidade de ganchos e recursos para o Guardião incrementar a sua campanha. Eu destaco nesses capítulos as muitas e suculentas informações a respeito do Teatro de Operações e como as Criaturas e Cultos dedicados ao Mythos se comportam durante o conflito. Tem muitas coisas interessantes aqui e mesmo o Guardião mais preguiçoso vai conseguir espremer dezenas de ideias para seu jogo. 



Fecha o livro uma aventura; na verdade uma campanha (O Deus da Floresta) dividida em duas partes, a primeira descrevendo todo o cenário (no caso toda a cidade e seus segredos. E claro, a floresta) e depois a aventura em si. Antes do índice existe uma listinha de eventos estranhos ocorridos na época, bem mixuruca ao meu ver.

A aventura é boa, mas como todas, precisa de um pequeno toque pessoal. Eu não acho ruim que o livro traga um ou mais cenários prontos, mas adoraria que o espaço que a aventura ocupa, mais de 50 páginas do livro, fosse usado para dar mais informações sobre a ambientação. O tema, Segunda Guerra, é tão vasto que poderia se beneficiar dessa porção para muitos outros detalhes. Mas tudo bem, compreendo que muitos mestres gostam das coisas mais mastigadas e por isso contam com uma aventura pronta para colocar as coisas que leram em movimento.   

O Bom: Realmente tudo é escamoteável. O mestre pode usar ou não as diretrizes do set sem precisar grandes adaptações.

A pesquisa de equipamento, táticas de espionagem (o jogo das sombras), descrições do campo de batalha, os teatros de operações européias, as dicas de aventuras e as descrições dos cultos ativos na época estão fenomenais. Muito bom, muito bem escrito e bem desenhado. Tudo a partir da pg 60 (aventura inclusa) pode ser canibalizado para qualquer sistema, inclusive o glorioso Um Sistema (que para quem não sabe, é o d20, do qual sou fã).


Concordo em gênero, número e grau! O livro, ainda que você não seja um fã de Cthulhu, serve para qualquer ambientação. A quantidade de detalhes demonstra que houve uma pesquisa bem feita e correta. É claro, não dá para colocar em um livro de 200 páginas tudo a respeito da Guerra, mas o que está ali foi muito bem escolhido e escrito.

Falando em Um Sistema, não posso resistir em dizer que a criação de personagens quase me fez procurar a sessão de feats para o BRP. Basicamente você cria um investigador e vai ganhando bônus (em forma de pontos nas skills). Seu personagem era um professor irlandes, com personalidade de liderança, que se alistou como espião, viu um Byankhee, foi alistado por N pelo patriotismo e fez o treinamento básico, ou um humano ladrão/espião com liderança e contatos (All hail o Um Sistema!). Isso é feito para ajudar no background do jogo e fazer os personagens durarem mais, mas também é opcional.

Sim, é fato que essa criação de personagens é um ótimo atrativo. Os Bônus são maravilhosos e vão fazer os jogadores literalmente salivarem diante da possibilidade de construir personagens bem acima da média e capazes de ações que normalmente não são possíveis em cenários convencionais de CoC. Eu li muitas críticas a essa opção, mas francamente,aventuras na Segunda Guerra merecem personagens que consigam de alguma forma combater de forma eficiente. Além de enfrentar o horror do Mythos, esses caras tem que confrontar inimigos armados com metralhadoras e granadas. Faz sentido eles serem um pouco mais parrudos...    

As descrições das missões e seus objetos são claros e precisos. Só de material para criar aventuras o livro já se pagou, principalmente por dar idéias de como juntar o comum ao sobrenatural. As regras para o sistema básico são coerentes e a lista de equipamento praticamente completa (embora não descreva o uniforme dos soldados, nem tenha itens de proteção ou ocultos).

Engraçado Marcos, eu também senti falta justamente disso... os uniformes e de um pouco mais de informações sobre insignias e armamento. Mas com ceretza qualquer dessas coisas pode ser encontrado em outros livros.

O mal: Errr.... Esqueça as batalhas da Segunda Guerra, aliás não tem cronologia da segunda guerra, nem bibliografia, tampouco qualquer coisa sobre o Eixo (na verdade, também não tem lá muita coisa sobre os aliados). Também não fala do Pacífico, nem dos EUA, ou qualquer coisa a respeito da guerra em si, inclusive o livro volta e meia manda o leitor (mestre e jogador) ir estudar a segunda guerra e deixar de preguiça. Bom, os mythos são atemporais, amorais, cthônicos e não euclidianos. Então a segunda guerra fica em segundo plano.

Sim, o foco são os bastidores da Segunda Guerra, focando em uma Guerra Secreta, quase fria envolvendo cultos, cultistas, agentes investigadores do Mythos e grupos interessados em aprender e coletar informações que "precisam" ser mantidas em segredo. Eu até concordo com essa postura... focar na guerra em si acabaria sendo letal para os personagens.


A premissa do cenário é: o misterioso super espião N tem poder de recrutar os investigadores para uma guerra secreta contra o Mythos, usando a máquina de guerra britânica para isso. Todos os personagens já tiveram contato com os Mythos, e são desviados para a sessão D da SOE, onde lutaram contra o Eixo (que no livro se resume a Abhewer,  SS  e a Gestapo) e contra o mythos. Ah, sim! Existe uma guerra por aí, mas nos concentremos na Europa e no Norte da África.

Falta no World War Cthulhu justamente o "World" War. Ela é a tapeçaria onde desenrolam os eventos. O livro guia os jogadores em como sobre esta tapeçaria criar aventuras que saiam do binômio Aliados X Eixo e ajuda a temperar os horrores da guerra com os horrores sobrenaturais. Ele é muito bom nisto, mas não tem Segunda Guerra, pelo menos não toda ela. Nem a parte principal (o próprio livro sugere fugir dos conflitos mais importantes e se concentrar nos teatros menores).

Creio eu, foi uma opção consciente. Encarar a Guerra e o envolvimento das forças do Mythos de uma maneira muito discreta. Todas as operações são "super-secretas" justamente para não vazar para o público o conhecimento apocalíptico do Mythos. Nesse panorama, realmente a Segunda Guerra acaba sendo um pano de fundo. Mas é um tempero diferente, ter que investigar um mistério sendo ameaçado também por inimigos humanos dispoistos a ser tão implacáveis quanto os monstros, tentando te matar. Os investigadores não tentam ocultar suas ações apenas da polícia, mas da Gestapo. O risco não é ser preso e perder pontos de Credit Rating, o perigo aqui é ser capturado, torturado e receber uma bala na cabeça. Eu acho interessante essa premissa de que é o período mais perigoso para ser um investigador do Mythos. 

O Feio: esqueça a sociedade Thule, esqueça Himmler, esqueça a doidera ocultista dos nazistas. Isto transformaria a segunda guerra em uma guerra estranha e diminuiria o horror deste conflito que deslavou o lado terrível da humanidade.

Ok, certo.... Boa desculpa.


Mal jogado Cubicle 7. Eu esperava alguma coisa sobre a loucura dos nazistas e sua busca ocultista insana....mas não tem nada! Cadê a Karotechia (eu sei, não é da empresa)? Principalmente depois de ler o GURPS WWII (indubitavelmente a melhor e mais completa série para RPG sobre segunda guerra, embora seja GURPS) e o Weird Wars (que é legal, mas meio estranho) eu esperava mais. Esperava ao menos um capítulo comentando os desvairios ocultistas do Eixo, a busca pela Lança do Destino, a Arca da Aliança, o Graal, Ultima Thule, e todas as coisas reais e imaginárias que aconteceram, nesta época. ao menos um mísero capítulo... Entendo que foi uma decisão de design, que o livro é bem feito, mas ele conscientemente (está escrito no livro) ignorou este aspecto, por vezes vital para uma campanha, haja vista que não há vilão melhor que um nazista, só um nazista ocultista cultista!

É essa talvez tenha sido a única bola fora. Mas ao meu ver, novamente, foi uma opção consciente da Cubicle 7. A "Guerra do Ocultismo" ficou de fora, pois ela é tema central do Delta Green. Ao meu ver a Cubicle foi até elegante em não se concentrar nisso, sabendo que o Delta Green já abordou esses temas de forma extremamente competente. No fim eles optaram por não tocar nessa parte da história e introduzir uma visão que se refere diretamente ao Mythos em detrimento das bizarrices que os nazistas acreditavam e pesquisavam.

Mas concordo que poderia haver pelo menos uma menção às jornadas de cunho ocultista que os nazistas empreenderam.  

O Estranho: saibam todos que este livro, segundo os autores, é o primeiro de muitos. Eu já acho meio ruim quando escrevem coisa do tipo "olha, neste livro não falamos isto, mas o faremos  no próximo" pois em geral não tem próximo... Mas não é só isso; a Cubicle 7 promete suplementos semelhantes para  WW I , WW II (este próprio), Guerra Fria e WW III (seja lá o que for). Está escrito logo na Introdução.

Eu não acho necessariamente ruim essa proposta de estender a coisa se os livros conseguirem manter a qualidade. Eu conversei brevemente com o pessoal da Cubicle 7 na GenCon e eles disseram que entre os planos para as próximas edições do Selo Cthulhu War está o teatro do Pacífico e o um sobre o Front Oriental (com aquela que pode ter sido a frente mais brutal do conflito, envolvendo Nazistas e Soviéticos).

O livro sobre o Pacífico vai tratar especificamente de agências norte-americanas de combate ao Mythos durante o conflito. Segundo o presidente da Cubicle 7, eles queriam antes ver o que o pessoal do Delta Green vai incluir a respeito das agências ianques para não ficar algo muito repetitivo. O livro do Pacífico também trataria das organizações secretas japonesas e seu papel durante a guerra.

Mas como o Marco chamou a atenção, a proposta do Cthulhu World War é espiar cada grande conflito do século XX sob uma ótica do Mythos. S a coisa for um sucesso eles esperam cobrir Coréia, Vietnã, Afeganistão, Guerra dos Seis Dias...   

E aí, vale a pena?

Por cerca de R$ 50,00 o PDF, sim, vale a pena. Fico com receio de desembolsar mais pelo livro físico (prefiro o Laundry). Não posso comparar com o Achtung Cthulhu, pois não o li, e espero que alguém resenhe as aventuras.

Vai por mim, vale a pena sim! Eu sou fã de livro físico. Não gosto de PDF (queria muito gostar, mas não consigo!). Nada substitui o prazer de folhear as páginas de um livro em busca de um trecho específico e nem o sentimento de ter ele adornando a sua prateleira. Eu fiquei bastante feliz com o livro. Graficamente o pessoal da Cubicle 7 é muito competente e o resultado final de Cthulhu World War fica acima da média.

Já a inevitável comparação com o Achtung Cthulhu! vou ficar devendo... conheço uma das aventuras e é tudo o que sei. Material competente, sem dúvida, , mas ouso dizer que o World War Cthulhu tem um foco que me agrada mais. 


Mas posso comparar com Gurps WWII e Weird Wars. O primeiro ganha de lavada. Não existe até o momento suplementos mais completos para Segunda Guerra do que os do Gurps. Em especial o suplemento Weird Wars do Gurps ganha do WW Cthulhu em um ponto: ele realmente descreve o que as pessoas faziam de estranho naquela época (está lá, no segundo capítulo), coisa que este suplemento não aborda adequadamente. No mais, os suplementos de Gurps são de uma neutralidade desconcertante. Não interessa se ele descreve os russos ou os alemães, ambos são tratados iguais. Para o mestre de jogo, estas informações são vitais.

É, Gurps sempre tem material de referência de primeira. Eu posso não gostar do sistema (podem reclamar e jogar ovos, mas não gosto! pronto já falei!), mas reconheço que poucos livros realizam um trabalho de pesquisa tão correto e completo. 

Quanto ao Weird Wars, ele é o extremo do WW Cthulhu. Ele chuta a janela com os dois pés: você tem zumbis e dragões, nazistas lobisomens, vampiros e zumbis com bazucas. O WW Cthulhu seria o meio termo sombrio destes três, muito bom para chamar os jogadores para a realidade, ou deixar a guerra mais estranha. Portanto, não espere realmente um Cthulhu na Segunda Guerra, mas sim, investigações cthulhianas na década de 40, na Europa. Se quiser algo específico sobre o conflito, procure em outro suplemento.

Eu não vou discorrer além disso. Perfeito!

Vejo três escolhas: se você tem uma campanha em andamento, baseado no Delta Green ou no Weird Wars, talvez você não tenha utilidade para este suplemento. Você até pode usá-lo como inspiração, mas provavelmente já pesquisou o que o livro apresenta. 

Se você não tem nenhuma campanha, pode comprar sem medo. O livro É BOM. Repito, ele é MUITO BOM.

Novamente concordo! Eu iria até mais longe. Se você narra Call of Cthulhu, esse livro é um excelente acréscimo no sentido de que ele concede bases para criar uma campanha e personagens para qualquer ambiente de guerra. Com algumas mudanças você pode usar esse livro como base para um cenário na Guerra do Vietnã ou da Primeira Guerra.

E sempre é "divertido" situar a ação de uma investigação em tempos conturbados de guerra.

Se você gosta de ter em mãos o maior conjunto de informações e idéias para jogar terror na Segunda Guerra, provavelmente você tem uma campanha que precisa sempre de recheio. Compre o pdf e imprima a página 60 em diante, junte com suas cópias canibalizadas do GURPS, Weird Wars e outro sistema obscuro que você tenha impresso (admita, você tem seu Livro do Jogador puído cheio de anotações; eu tenho o meu para piratas e WWII) e vamos que vamos. As idéias do livro são boas, as aventuras bem escritas, o teatro de operações completo e pronto para usar, e você pode ignorar N e sua turma.

E sim, comprando o pdf dá para seguir junto com o Achtung Cthulhu. 

Agora só falta o Delta Green WWII (talvez em 2014?)


O pessoal da Pagan garantiu que sim... na torcida desde então!

E aqui está um vídeo da Cubicle 7 que mostra bastante o livro:


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Cthulhu 101 - Dicas para quem pretende mergulhar no mundo de Chamado de Cthulhu


O início do aguardado Financiamento Coletivo de Chamado de Cthulhu, além de trazer novos ares ao mercado brasileiro de RPG também incentivará uma nova geração de mestres a narrar suas primeiras aventuras no universo idealizado por H.P. Lovecraft.

O livro básico contém todas as informações para entender "qual é a do jogo", mas talvez seja interessante dedicar algumas palavras aos Guardiões (Keepers) de primeira viagem que pretendem, em breve, mergulhar no medonho domínio do Mythos.

Em que uma ambientação tipicamente cthulhiana se difere de um RPG de aventura medieval, de horror pessoal ou dedicado a super heróis?

Há algumas particularidades que tornam esse jogo diferente dos outros, senão vejamos:

Cenários e não aventuras


Já me perguntaram em mais de uma ocasião porque costumo chamar de "cenários" as aventuras baseadas na obra de Lovecraft. A resposta é simples: os personagens não estão envolvidos em uma aventura, é mais uma luta desesperada contra escuridão e o mal.

Cada cenário, mesmo aquele com inclinação para o pulp, é uma estória sobre pessoas enfrentando um horror supremo, forças esmagadoras e inumanas.

Uma "aventura" lovecraftiana não é sobre obter tesouros, matar monstros, salvar donzelas, explorar terras exóticas e colher os louros dessas conquistas. Ele envolve sobreviver, preservar valores humanos e conter um perigoso conhecimento. Não há recompensas imediatas e sejamos francos, nem a longo prazo.

Um cenário tipicamente lovecraftiano envolve uma investigação e a busca por desvendar um mistério: "O que pretende o maníaco que vem matando e arrancando a cabeça das vítimas?", "Quem - ou o que - matou o professor de Arqueologia que havia desenterrado aquele templo egípcio?", "O que aconteceu com a tripulação do navio encontrado à deriva?", "O que essas pessoas fazem nas noites de lua cheia, cantando e dançando em volta de uma estátua medonha?".

Coletar evidências, analisar pistas, entrevistar testemunhas, relacionar fatos e então, munido desse arcabouço confrontar a ameaça - é disso que trata um cenário cthulhiano. O trabalho é na maioria das vezes mental e quando as coisas se tornam físicas, os personagens desejam jamais ter saído de casa.

Os tesouros, quando aparecerem, são artefatos sobre os quais sabe-se muito pouco. Livros contendo conhecimento antigo e magias podem lançar uma luz sobre a natureza do Mythos, mas aprender esses segredos leva o mais sensato dos homens à ruína da insanidade.

É impossível chamar uma jornada dessas, rumo às profundezas da loucura e do terror, de aventura.

Investigadores e não Aventureiros


Assim como não há aventura, os protagonistas não são aventureiros.

Quase todos os jogadores e mestres de RPG estão acostumados a criar personagens cheios de coragem e virtude. Eles são heróis capazes de realizar façanhas incríveis. Seja enfrentar e matar dragões e monstros, participar de batalhas épicas, destruir exércitos com magias devastadoras ou invadir masmorras inexpugnáveis.

Em um cenário lovecraftiano os personagens dos jogadores são pessoas absolutamente comuns. São homens e mulheres que em algum momento da sua existência, esbarraram em uma inconveniente verdade e que agora não podem fugir a essa revelação. Eles descobriram que o mundo é um lugar muito mais perigoso do que se pode imaginar. Dessa forma eles se tornaram investigadores do Mythos, aquela que talvez seja a mais perigosa ocupação do mundo.

Em lugares proibidos e isolados existem coisas muito mais terríveis do que imaginamos e essas coisas não ficarão no escuro para sempre. Diante dessa descoberta, os investigadores decidem se erguer contra o mal e fazer o que for preciso para salvar o mundo de arder em chamas.

De certa forma, esses personagens, com acesso restrito a armas, magias e recursos são mais heróicos do que os aventureiros e super-seres das outras ambientações. Eles são a última linha de defesa contra aquilo que ameaça varrer a humanidade da existência e eles não estão nem um pouco preparados para a tarefa.

Esse é nosso Mundo


Uma das diferenças interessantes entre o mundo que serve de pano de fundo para os cenários lovecraftianos e da maioria das ambientações de RPG, é que aqui as estórias se passam em nossa realidade, ou em algo muito próximo do nosso mundo.

Os acontecimentos são trazidos para o nosso "quintal". As estórias não se desenrolam em um reino de ficção e faz de conta, os mares que são navegados, as florestas que são exploradas não foram criadas pela imaginação alheia, eles existem de forma concreta. Não há Terra Média, AlderanAthas, Toril, Nárnia...

Uma investigação que se passa na Londres Victoriana, provavelmente terá como pano de fundo o Rio Tâmisa, as chaminés das indústrias, as ruas abarrotadas de Whitechapel, magníficos palácios, visitas ao Museu Britânico e o som inconfundível do Big Ben. Da mesma maneira, um cenário em Nova York irá se beneficiar dos marcos históricos daquela cidade, não apenas da estátua da liberdade ao longe, mas da Ponte do Brooklyn, do Central Park e é claro, da diversidade cultural e das questões que isso trás.

Isso significa dizer que os cenários de Chamado de Cthulhu, embora sejam centrados na ficção, tem os pés bem plantados no mundo real. Você é capaz de reconhecer o mundo como o nosso, embora ele seja mais escuro que o normal. Os cenários permitem ao mestre inserir indivíduos, costumes, tradições e fatos históricos que realmente existiram ou ocorreram e lançar os personagens nesses acontecimentos permitindo a eles testemunhar e interagir em momentos marcantes da história humana. Que tal encontrar Charles Chaplin durante uma investigação na Los Angeles de 1920? Ou entrevistar o jovem Arthur Conan Doyle antes dele se tornar famoso através de seu famoso detetive? Quem sabe, descer o Nilo na companhia de Agatha Christie e servir de inspiração para um de seus livros?  

Além disso, existe um princípio norteador nas estórias envolvendo o Mythos de Cthulhu: "O Mythos foi, osMythos é, o Mytho será". 

Isso abre um vasto leque de opções para o Guardião centrar suas estórias. Uma investigação pode ocorrer nos bastidores da Guerra dos Bôeres (na África do Sul da virada do século), à bordo do Titanic em sua trágica viagem inaugural (1912), nos campos lamacentos da França devastada pela Grande Guerra (1914-1918), nas tumultuadas ruas de São Petersburgo nos dias que se seguiram a Revolução Russa (1917), nos dias que antecederam a Segunda Guerra Mundial (1939), na paisagem devastada de Hiroshima (1945), nos corredores do poder durante a Crise dos Mísseis de Cuba (1962), em meio aos distúrbios raciais no sul dos EUA (1968) ou na desesperada fuga de Saigon (1970). Quem sabe uma estória possa se passar em meio a um massacre de uma escola americana, no mesmo dia em que um ataque terrorista muda o mundo ou pouco antes de um tsunami devastador.

Não há local, tempo ou espaço que não pode ser contemplado pelo narrador e seus jogadores. Não há local, tempo ou espaço que não atraia a atenção do Mythos.  

Mais do que utilizar as eras clássicas do livro básico (1890, 1920 e atual), um cenário de Chamado de Cthulhu pode ser ajustado facilmente para ocorrer no passado longínquo com homens da Era do Gelo explorando o horror de uma caverna, operários de uma pirâmide escavando as fundações da câmara do tesouro, quem sabe os jogadores sejam legionários romanos investigando estranhos acontecimentos nas Ilhas Britânicas, navegadores nórdicos à bordo de um barco rumo a terras desconhecidas ou ainda um grupo de repórteres em busca de uma estória no meio de uma guerra na África. Com os devidos ajustes, o Guardião pode lançar seus jogadores rumo ao espaço: nos corredores apertados de uma estação orbital, nas decadentes colônias marcianas ou em naves claustrofóbicas à caminho de Yuggoth e mais além.

Não se limite a um lugar ou tempo. O universo é seu, e o único limite é sua criatividade.

Horror Cósmico

Dentro do Gênero Horror existem divisões que demarcam as fronteiras entre os temas.

Um cenário que, por exemplo, envolve vampiros aprendendo a enfrentar a dura realidade de sua condição se difere de uma ambientação que versa sobre humanos caçando monstros e fantasmas, embora as duas possam ser encaradas como Horror. Uma estória de horror gótico se passando em uma terra obscura assolada por superstições e medos, se difere de outra em que se tem acesso a tecnologia e onde se utiliza essa vantagem para tentar compreender mistérios paranormais. 

As ambientações tipicamente lovecraftianas fazem parte de um subgênero que costuma ser categorizado como Horror Cósmico.

Nos Cenários de Horror Cósmico as coisas são especialmente dramáticas e aterrorizantes para os personagens. O medo que permeia esse subgênero é muito maior, muito mais primitivo que aquele representado por um fantasma, uma múmia ou mesmo uma horda de vampiros sedentos de sangue. É um medo do desconhecido, do inimaginável, do imponderável...

O Horror das criaturas do Mythos é totalmente inumano. Por mais bestial que seja um lobisomem ele ainda guarda similaridades com o seu lado humano, já em cenários lovecraftianos, as coisas que habitam a escuridão - e que são o grande inimigo - não são e nem nunca foram humanas. Eles são verdadeiros titãs de maldade insondável. O mero vislumbre dessas entidades é o bastante para causar histeria e loucura.

Em cenários de Horror Cósmico sempre há uma ameaça oculta espreitando e as consequências do despertar desse mal serão catastróficas. Essa força maligna espalha seus tentáculos pelo mundo pervertendo tudo que toca. Não é uma questão de poder destruir esse mal, mas de atrasá-lo, contê-lo...

O cenário envolve conhecer a dimensão da ameaça e tentar de todas as maneiras detê-la pelo tempo que for possível, pois esse mal jamais será extinto. No panorama niilista de Chamado de Cthulhu, não é questão de "SE", mas de "QUANDO" virá o fim.

Um Mundo Cinzento


A maioria dos cenários de Chamado de Cthulhu tem como pano de fundo a década de 1920. Porque essa época em especial? Porque não trazer os cenários para os dias atuais e fixar em elementos do nosso dia a dia?

Alguns respondem a essa pergunta dizendo que os contos de H.P Lovecraft se passavam nessa época e nada mais natural que os cenários se desenvolvam no mesmo período. Eu prefiro outra resposta.

Os anos 1920 (e também  1930) são um momento interessante na história humana. O período em que o homem acreditava piamente que o universo girava ao seu redor e que explorar o cosmos era seu direito divino. O Homem havia retirado Deus do pedestal e orgulhoso havia assumido seu lugar. Superstição por Ciência, Sonho por realidade...

De certa forma essa é a época que definiu os rumos da nossa civilização para os dias futuros. Nada mais justo que essa época de realizações, quando o homem começou a domar a natureza, gerar energia, cruzar distâncias e conquistar os ares, fosse escolhida para confrontar nossa raça com a grande verdade: que nós somos um mero acidente e que existem forças muito mais poderosas no Universo. Forças estas que desafiam nossa razão e nossa compreensão e que poderiam nos extirpar da face da Terra em instantes.

Um dos elementos mais interessantes em um cenário de Horror Cósmico é a descoberta da insignificância humana. O pessimismo de saber que o universo é tão incrivelmente vasto e tão inconcebivelmente hostil diante de nossa inegável fragilidade.

Contrapor o progresso humano, sua inventividade e suas conquistas com a crueza de uma realidade em que esses valores nada representam, torna a ambientação assustadora.

Na maioria dos mundos de RPG sempre há uma esperança, não importa o quão negras sejam as coisas. Os heróis estão lá para lutar até o último sopro de vida, eles podem fazer a diferença. Em um mundo assolado pelo Horror Cósmico nada pode ser feito, além de ganhar tempo e olhar para as estrelas temendo o pior.

Segredos negros e insondáveis


Vou dar um conselho a quem está prestes a narrar pela primeira vez um cenário cthulhiano para um grupo de jogadores que não sabe absolutamente nada a respeito da ambientação (exceto que ela tem um nome quase impronunciável).

Deixe os seus jogadores no escuro. Muito provavelmente eles sabem que se trata de um jogo de terror, mas não o tipo de horror que os personagens vão enfrentar.

Mantenha as coisas desse jeito. O Universo do Mythos é bizarro, estranho e incompreensível. Os jogadores não precisam saber que ghouls habitam as entranhas das cidades se alimentando dos mortos. Eles não precisam saber que Azathoth habita o centro do Cosmos e que suas convulsões provavelmente deram origem ao universo. Eles não carecem saber que Nyarlathotep possui 1000 faces e que adora brincar com os humanos. Eles não precisam saber que Cthulhu habita no fundo do mar e que seus pesadelos evidenciam seu retorno.

Uma das coisas mais interessantes sobre uma ambientação lovecraftiana é que ninguém, nem mesmo o Guardião, conhece todos os segredos. A estória do Mythos, a biografia das entidades e seus segredos, são um mistério sem solução. Mesmo o Necronomicom, o mais blasfemo e perigosos dos tomos ancestrais, meramente arranha a casca desse conhecimento metafísico. 

Porque então os jogadores deveriam saber de algum detalhe adicional?

Lembre-se, o choque de uma revelação é muito mais dramático quando acontece de forma inesperada. Mantenha as páginas de Chamado de Cthulhu longe dos olhos dos seus jogadores, eles não precisam saber o que esse "livro inocente" encerra em seu interior.

Bem essas são apenas algumas dicas...

NOTA: O frequentador mais antigo do Mundo Tentacular pode ter reconhecido alguns trechos desse artigo. Esse texto foi anteriormente utilizado quando do lançamento de Chamado de Cthulhu em sua Sexta Edição. Como é um resumo a respeito da ambientação, ele ainda é perfeitamente aplicável. Achei que era um bom momento para reeditar a postagem acrescentando mais alguns tópicos.