domingo, 21 de julho de 2013

Quem é Michael Boatwright? - Homem sofre de amnésia, fala apenas sueco e não sabe quem é.


Uma estória bem estranha essa.

Ela foi enviada pelo nosso colega Carlos Almeida e publicada no Business Insider, um jornal sério americano. Há também artigos no New York Times e na BBC. Ou seja não é um simples hoax.

Aqui está o artigo:

PALM SPRINGS, Calif. (Associated Press) — Médicos estão pasmos com o mistério de um homem que despertou falando apenas sueco e sem memória de seu passado, após ser encontrado inconsciente em um quarto de motel na California.
O homem que parece ser Michael Boatwright de 61 anos, acordou sofrendo uma condição amnésica, alegando que seu nome era Johan Ek. 

"Eu não sei quem é esse Boatwright! Meu nome é Johan!" diz ele.
O sujeito foi encontrado inconsciente em um quarto do Motel 6 em Palm Springs, California no início de fevereiro. Depois que a polícia chegou, ele foi transportado para o Centro Médico Desert Regional onde permaneceu inconsciente nos últimos quatro meses. Eventualmente ele despertou, mas desde que retomou a consciência, só consegue se expressar no idioma sueco e desconhece seu passado.
Autoridades que cuidam do caso acreditam que o homem possivelmente estivesse na cidade para assistir ou participar de um torneio de tênis realizado em Coachella Valley naquele final de semana. Entretanto, seu nome não consta entre os inscritos na disputa.

No quarto foi encontrada uma bolsa de viagem com roupas de exercício, uma mochila e raquetes de tênis profissionais. Em seu poder foram achados quatro documentos de identificação — um passaporte americano, um cartão de identificação da Califórnia, um cartão médico de veterano e um Cartão da Seguridade social. Todos os documentos são legítimos e o identificam como Michael Thomas Boatwright. As fotos parecem corretas também.
A polícia de Palm Springs repassou as informações do caso para as agências que trabalham com desaparecidos e procurados, para tentar identificar corretamente o homem que parece ser Boatwright. Até o momento não tiveram sucesso em relacionar seu endereço e último paradeiro. 
Em março, após receber tratamento psiquiátrico, ele foi diagnosticado sofrendo de Amnésia Global Transiente, uma condição disparada por trauma físico ou emocional que pode durar vários meses. Essa rara desordem mental se caracteriza pela perda de memória, por viagens repentinas e não planejadas e pela possível adoção de uma nova identidade. Em alguns casos, o indivíduo empreende longas viagens usando identidades falsas e se comportando como se fosse outra pessoa. É uma espécie de "transtorno de fuga", no qual a pessoa esquece sua identidade e cria uma totalmente nova.
Após uma extensiva busca, assistentes sociais não conseguiram localizar parentes próximos ou a última residência de Boatwright. As autoridades ainda estão confusas a respeito de seu local de nascimento, listado nos documentos em seu poder como sendo no estado da Florida. Na mochila, achada no quarto, encontraram algumas fotografias antigas que mostram uma criança, possivelmente o homem sem memória, em um local identificado como sendo a Suécia. Isso poderia explicar o domínio do sujeito sobre o idioma. 
"Ele não se recorda como veio parar no hotel, não sabe qual foi seu último domicílio ou se tem algum parente que poderia lhe ajudar". relatou Lisa Hunt-Vasquez, a assistente social designada para auxiliá-lo.
O paciente também não possui plano médico hospitalar, o que compromete a sua permanência e tratamento nas instalações onde atualmente se encontra internado. Ele dispõe de pouco dinheiro — apenas US $180 achados em sua carteira. Em um bloco encontrado no quarto, haviam números e nomes que remetem a contas em Bancos na China, mas até o momento apenas uma dessas contas foi acessada, e nela há somente US $7.
Os responsáveis pelo hospital dizem que não podem manter o homem por mais tempo no local  - a despeito da amnésia, suas condições gerais de saúde estão perfeitas. O hospital está buscando alternativas para que ele possa ficar em algum albergue, enquanto "ensinam" a ele o idioma inglês e analisam seu caso. Por enquanto, Boatwright (ou seja lá quem for) não sabe nada sobre seu passado ou o que reserva seu futuro. 
"Algumas vezes eu me sinto muito triste com essa situação, em outras fico furioso. É como se eu não conhecesse ninguém, e ninguém soubesse que eu existo" disse aos jornais.

Hmmm...

Essa tal "Amnésia Global Transiente" parece muito com outra coisa.

Olha só esses trechos do conto Sombras Perdidas no Tempo ("The Shadow Out of Time") escrito por H.P. Lovecraft e publicada em 1936:

"Não mostrei sinal de consciência durante dezesseis horas e meia, embora fosse levado para minha casa na Rua Crane no. 27, e recebesse a melhor assistência médica. As três horas da manhã do dia 15 de maio (de 1908), abri os olhos e comecei a falar, mas não tardou muito para que os médicos e minha família se mostrassem terrivelmente assustados com os rumos de minha linguagem e seu teor. Era patente que eu não tinha qualquer lembrança da minha identidade e de meu passado, ainda que, por alguma razão, eu parecesse ansioso de ocultar esse desenvolvimento".

E esse trecho:

"Não tenciono contar muito sobre a respeito da minha vida no período que vai de 1908 a 1913 (...) Foi-me concedida a gestão de minha fortuna, e eu a gastei lenta e, de modo geral, sabiamente em viagens e estudos em vários centros de saber. Minhas viagens, no entanto, eram extremamente singulares, envolvendo longas visitas a locais remotos e inóspitos".

E finalmente:

"Em meados de 1913 comecei a mostrar sinais de fastio e queda de interesse, ao mesmo tempo em que insinuava a vários colegas que possivelmente eu haveria de passar , em breve, por mudanças".

"Ao chegar em minha casa, o médico encontrou-me inconsciente na sala de visitas - sentado em uma poltrona e diante de uma mesa. (...) Ás 11:15 da manhã de 27 de setembro (1913), agitei-me vigorosamente e meu rosto, que até então fora uma máscara pétrea, mostrou sinais de expressão. O Dr, Wilson comentou que a expressão não era de minha personalidade secundária, mas que parecia muito próxima da que tivera normalmente. Por volta das 11:30, resmunguei algumas sílabas curiosíssimas, que pareciam dissociadas de toda fala humana. Eu parecia, além disso, estar lutando com alguma coisa. Então, logo após o meio dia, comecei a falar em inglês".

Quem leu esse conto - na minha opinião, o melhor de Lovecraft, e comparou com a descrição da situação desse sujeito na Califórnia, provavelmente relacionou as coisas.

Seria o tal sujeito uma pobre vítima da Grande Raça de Yith? Teria sua mente sido cooptada para o passado remoto e depois encerrada em um corpo alienígena, enquanto a mente alienígena dominou seu corpo?

Nesse caso, um cidadão sueco (chamado Johan Ek) teria sido dominado por um Yithian que através de documentos falsos assumiu a identidade de Michael Boatwright para dessa forma estudar, analisar e assimilar o maior número possível de informações sobre a humanidade e a época em que vivemos. 

E quando sua missão terminou, ele simplesmente se hospedou em um motel e devolveu o corpo, que usou por sabe lá quanto tempo, ao seu dono de direito, sem oferecer a ele qualquer explicação sobre onde esteve e o que fez nesse período.

Ah esses Yithianos e suas estripulias temporais...

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Torneio Tentacular 2013 - Os investigadores enfrentam os horrores da Guerra em Rastro de Cthulhu.


E depois de uma espera de três longos anos, o TORNEIO TENTACULAR retornou ao Encontro Internacional de RPG (EIRPG), dessa vez hospedado ao Anime Friends em São Paulo.

Esta foi a quarta edição do Torneio que junta jogadores e fãs de jogos com temática lovecraftiana com o nobre objetivo de investigar e desvendar um típico mistério envolvendo as forças nefastas do Mythos. A oportunidade ideal de se perder sanidade, enlouquecer de vez e ser massacrado por alguma entidade tenebrosa.

Mas tudo isso de forma bastante divertida.

O Torneio também é uma chance de contemplar um dos jogadores participantes da "lendária" Mesa Final com livros e o título de "Vencedor do Torneio". Como é de costume, o melhor jogador foi apontado pelos seus próprios colegas e companheiros de jogo em votações regulares. 

O Torneio Tentacular 2013 também foi pioneiro nas regras. Pela primeira vez ele foi disputado usando o sistema Gunshoe de Rastro de Cthulhu. Foi uma ótima chance para vários jogadores de primeira viagem conhecerem a ambientação e os detalhes a respeito desse premiado sistema de regras. Posso dizer que o jogo foi um sucesso e que Rastro ganhou alguns bons fãs.

O cenário utilizado foi "LÁGRIMA, LAMENTO E TREVAS", escrito especialmente para o evento. 

Ele levou os 25 jogadores inscritos ao conturbado ano de 1945. Nas escuras montanhas dos Apeninos Intermediários, na Itália devastada pela Segunda Guerra Mundial, os jogadores receberam personagens inspirados em soldados que integraram a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e que lutaram pelo Brasil no maior conflito do Século XX.

Nesse cenário inusitado para uma estória de horror, os personagens, soldados e oficiais da FEB tiveram de enfrentar muito mais do que a ameaça do nazismo, de soldados inimigos e suas armas... eles tiveram de lutar contra algo maligno, antigo e tenebroso. Algo que esperou séculos para retornar e que só encontrou as condições ideais quando os ventos da guerra sem trégua sopraram como um furacão sobre o continente.

Destacados para proteger um povoado, os personagens tiveram de investigar crimes aterradores, lidaram com estranhos pesadelos e alucinações e por fim tiveram de mergulhar nos segredos de um passado quase esquecido. Enfim, com base no que descobriram, tiveram ainda de enfrentar esse pesadelo renascido...

O desafio, como não poderia deixar de ser, cobrou um alto preço dos pobres personagens. 

Em duas mesas houve um grande número de baixas, sendo que em uma delas, a criatura monstruosa não foi detida e acabou escapando para concretizar ao menos em parte sua vingança sobre essa sombria região da Itália e seus habitantes. Em outra mesa tivemos um legítimo Total Party Kill (T.P.K), com todos os soldados varridos da existência pela ação desse terror das estrelas. (E que horror!)

Na Mesa Final, que eu tive a chance de narrar, apenas um dos investigadores pereceu, mas nem por isso a conclusão foi menos dramática. Em uma série de reviravoltas épicas, o grupo conseguiu despachar o monstro em uma sequência de acontecimentos impressionantes com direito a corpos explodindo em chamas, feixes de energia sendo disparados, metralhadoras Thompson cuspindo balas sobre cultistas, granadas explodindo e soldados se sacrificando para o bem maior.

Vocês sabem, tudo aquilo que faz uma aventura ser memorável!

É claro, o Torneio poderia ter se beneficiado de um ambiente mais tranquilo e menos caótico, afinal competir com o show no palco ali perto foi dureza. Mas entre mortos, feridos (e afônicos) salvaram-se todos.

Desculpem se estou sendo vago a respeito da trama mas não quero falar demais sobre o cenário e entregar os detalhes por detrás dessa sórdida investigação. Sempre há mais jogadores (ou melhor vítimas) ali na esquina dispostos a embarcar nessa...

O que posso dizer é que o grande vencedor da Edição 2013 foi HENRIQUE ROSSI que na mesa final jogou com o CAPITÃO ORLANDO CONSTANTINO DA COSTA.

Parabéns ao Henrique que se destacou em meio a uma mesa composta de jogadores extremamente competentes. Acho que foi uma das melhores mesas que peguei, onde qualquer um dos presentes poderia ter vencido.

Bom, é isso...

Em nome do Mundo Tentacular quero agradecer a todos os jogadores, aos meus colegas narradores, aos caros apoiadores e patrocinadores, todos colegas e amigos que estiveram presentes ao Torneio para dar uma força e que ajudaram a tocar adiante essa brincadeira. Foi ótimo conhecer vários colegas que a gente vê apenas através da tela fria do computador.

Esperamos que nas próximas edições (é claro que teremos outras!) possamos contar com a presença de ainda mais jogadores. É cedo para dizer, mas estamos conversando a respeito de fazer uma edição especial do Torneio Tentacular fora do EIRPG, em pelo menos duas outras cidades.

Cthulhu espera por nós e ele, ao contrário de nós pobres mortais, tem todo o tempo do mundo.

A seguir algumas fotografias tiradas durante o Torneio.

Equipamento preparado para o jogo. A aventura deu 44 páginas bem detalhadas.
Armamento, sociedade secreta e é claro os inimigos foram cobertos em três grandes apêndices.
 Mesa do Keeper Clayton Mamedes em sua quarta vez como narrador do Torneio.
A mesa do Guardião Marcos Alexandre Perciavali, em sua segunda participação.
A mesa do Guardião Luciano Giehl com direito a boina da sorte. Essa foi a minha quarta mesa de Torneio.
Mesa do Guardião Leandro Fernandes narrador em duas edições.
Mesa do Guardião Leonardo Paixão, em sua terceira participação como mestre.
Os Guardiões reunidos para iniciar a sessão de jogo.
E os cinco jogadores que participaram da Mesa Final. O Henrique, vencedor do Torneio está no canto esquerdo.
E é claro, o Léo Paixão posando ao lado dos sobreviventes de sua mesa letal.
E só para terminar, uma curiosidade: olha o nome da rua em frente ao local onde foi realizado o Torneio.
Bom é isso!

Nos vemos no próximo...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Yurei - As aterradoras assombrações orientais


Yurei é um tipo de fantasma ou assombração tipicamente oriental, presente mais frequentemente no folclore japonês. 

Normalmente o Yurei é do sexo feminino, embora existam fantasmas dessa natureza que sejam do sexo masculino. A aparência de muitos é andrógena, tornando-se difícil discernir características de gênero. Tradicionalmente eles vestem roupas brancas esvoaçantes, quimonos, mantos ou capas longas que chegam a arrastar no chão e tem, em contraste, cabelos muito escuros, lisos e compridos que tampam o rosto ocultando suas feições. Por vezes, o rosto permanece transfigurado em uma expressão de dor, medo ou desespero da qual o yurei não consegue se dissociar. A face é como se fosse uma máscara de cera, transfixada numa expressão pétrea de horror e quando vista pela primeira vez causa choque e repulsa.

A pele deles é muito branca, não apenas pálida, incrivelmente alva, como neve. Os olhos, a língua, lábios e unhas assumem uma coloração arroxeada, podendo se tornar mais escura até negras. Alguns possuem marcas pelo corpo, que evidenciam as causas de sua morte. Um yurei surgido a partir de um enforcamento terá manchas de ligadura ao redor do pescoço e sua cabeça irá pender em um ângulo incomum. Um ferimento de bala irá surgir como uma mancha escura que escorre eternamente uma substância vaporosa. Enquanto um afogado irá expelir água em profusão pela boca e narinas.  

Os yurei são espíritos presos a algum lugar ou objeto. Eles não conseguem se afastar ou esquecer de suas paixões quando vivos e permanecem ligados a elas através de sua existência amaldiçoada. Às vezes, eles estão em algum tipo de missão de vingança e não conseguem descansar enquanto esta não for cumprida. Esses espíritos vingativos, são conhecidos como Onyro e são considerados os mais perigosos, por serem implacáveis e incansáveis no seu intento.

Segundo o folclore japonês, o Yurei surge a partir de uma morte violenta carregada de poderosas emoções, em especial assassinatos e suicídios. Se um reikon (o equivalente japonês da alma ou espírito) se torna obcecado pelo ódio, sofrimento ou ciúme, ele pode cruzar de volta o portal que divide o mundo material do espiritual, tornando-se um yurei. Mulheres são mais frequentemente descritas como yurei porque a sociedade oriental as consideram bem mais emotivas do que os homens e portanto mais propensas a experimentar emoções profundas.     

Diferentemente dos fantasmas ocidentais que parecem ter limites quanto a interagir com o mundo material, os Yurei não tem problemas quanto a atuar no mundo dos vivos. Eles conseguem falar livremente, manipular objetos físicos e incidir sobre uma determinada área como se fossem uma entidade corpórea. Fantasmas ocidentais também são passíveis de exorcismo, enquanto os yurei não são repelidos ou banidos por nenhum tipo de ritual religioso. A despeito de poder estabelecer uma comunicação inteligível com os vivos, os Yurei raramente o fazem. Suas intensões também ficam claras desde o início: se o intento de um yurei é obter vingança de seu algoz, ele não irá assustá-lo ou assombrá-lo, ao invés disso o matará na primeira oportunidade. Quando furiosos - sua condição habitual, os yurei se tornam especialmente perigosos atacando qualquer pessoa que esteja em seu caminho, não apenas aqueles de quem eles desejam se vingar. Eles podem agir como assassinos indiscriminados.
Uma característica comum aos yurei diz respeito ao seus longos cabelos. A aparição dessas criaturas é antecipada por uma enorme quantidade de cabelo surgindo do nada, seja em ralos de pia, no chão ou na boca de suas vítimas. Os yurei parecem ter uma relação com seu cabelo, como se ele fosse uma aspecto físico de seu ser. O espírito é capaz de estender o cabelo a qualquer comprimento, fazendo-o crescer ou encolher como bem entender. O cabelo sempre parece molhado ou úmido e muitas vezes se move sozinho como se fosse algo vivo.

Como fantasmas, Yurei são entidades sobrenaturais que ignoram as convenções do mundo natural. Eles são capazes de andar no teto ou nas paredes, desafiando a gravidade, podem se mover com grande rapidez transformando-se num borrão a medida que cruzam distâncias em um piscar de olhos. Eles são capazes de desaparecer nas sombras e surgir em outro canto de uma sala. O movimento dos yurei é desconjuntado e vacilante, suas pernas e braços se movem em ângulos estranhos e não é incomum vê-los andando de quatro, engatinhando ou se arrastando sofregamente. Uma vez que eles não fazem parte do plano material, seu estado geral é de semi-materialidade. Raiva, ódio, medo e outros sentimentos concedem a ele atributos materiais, isso significa dizer que o yurei precisa estar sentindo uma forte emoção para conseguir ferir um alvo. Em contrapartida, eles se tornam incorpóreos para serem tocados quando estão enraivecidos.

A aparência física dos yurei também é passível de mudanças drásticas. O folclore nipônico ressalta que esses espíritos podem assumir a aparência que tinham em vida por alguns instantes (o suficiente para enganar ou ludibriar uma pessoa). Eles também podem assumir uma aparência cadavérica repulsiva ou fazer suas feições derreterem como se fossem feitas de cera derretida. Eles tem plena consciência que essas demonstrações causam reações emocionais nos vivos e tendem a usá-las para desestabilizar. 

Não é possível racionalizar com um yurei e é justamente isso que o torna especialmente perigoso. Eles não desistem, não aceitam e não se curvam, mesmo que se prove que seu intento é errado ou enganoso. Por exemplo, mesmo que uma pessoa prove a um yurei que não tinha intensão de provocar sua morte e que tudo decorreu de um acidente, a assombração não irá aceitar essa constatação. A carga emocional que os transforma em mortos-vivos, faz com que eles ganhem uma certeza imutável. Yurei não são capazes de mudar esse status. 

As emoções cruas que permitem sua existência, ardem para sempre. Mesmo após obter sua vingança, as emoções prosseguem em constante ponto de ebulição. Nada pode aplacar essas emoções, não há descanso ou limite.

Yurei de Oakigahara

Os yurei surgidos na Floresta de Oakigahara são amaldiçoados pela entidade que habita aquele lugar maldito.

Eles ainda estão vivos, embora não saibam e não se importem mais com isso. No último momento antes de cometer suicídio, suas memórias são inteiramente consumidas pela entidade. A assimilação mental da entidade é tão particular e profunda que a própria identidade humana é cooptada pela experiência, resultando em uma casca vazia incapaz de se recuperar dessa indescritível violação psíquica.

Esses Yurei não são fantasmas, mas sua condição existencial não pode ser definida como viva. Eles são almas perdidas que existem apenas para servir a Entidade de Oakigahara e mais nada. Destituídas de tudo que os tornava humanos, eles são escravos cujo único propósito é aguardar as emanações psíquicas de seu mestre indicando como agir.

A Entidade de Oakigahara é capaz de ocupar seus corpos, da mesma maneira que faz quando lança sua consciência dentro de uma árvore. Geralmente ela o faz a fim de falar ou se expressar de uma maneira mais particular e direta com algum interlocutor. Nesse estado ela é capaz de saltar de um de seus escravos para outro, mas só pode ocupar um único yurei por vez.

Eles se alimentam exclusivamente da energia do Deus de Oakigahara, sorvendo sua seiva das raízes que brotam do solo negro. Essa estranha dieta faz comq ue eles fiquem diferentes fisicamente. Sua pele se torna muito clara, quase albina. Seus olhos e lábios tem uma coloração cinza arroxeada. Eles não vestem roupas e seus corpos nus parecem cobertos de terra e matéria vegetal oriunda de seus covis sob a terra ou no meio das raízes das árvores. 

Eles permanecem parados a maior parte do tempo, mas quando se movem o fazem de forma desconjuntada como os clássicos zumbis de filmes. Apesar dessa movimentação espasmódica, são capazes de escalar, saltar e utilizar o topo das árvores para se movimentar pulando de uma para outra. Eles também podem correr de quatro, sendo extremamente rápidos quando optam por esse tipo de movimentação. Totalmente silenciosos, eles não são capazes de falar, exceto se forem possuídos pela entidade florestal.

Os yurei servem ao Deus de Oakigahara e não tem outra razão de existência. Se comandado a matar ou empreender perseguição, eles o fazem sem trégua. Não irão reconhecer ninguém que tenham conhecido anteriormente e não demonstrarão o menor sinal de empatia ou vínculo afetivo. Se comandado a matar ou torturar alguém com quem mantinha uma relação, o farão sem pestanejar. Para todos os efeitos eles não possuem sentimentos. 

Mesmo que sejam feridos ou feitos em pedaços, os yurei continuarão tentando cumprir suas ordens não importando os reveses encontrados. Impassíveis diante da dor ou qualquer questionamento, eles são serviçais absolutamente fiéis.


ESTATÍSTICAS PARA CHAMADO DE CTHULHU

Força (STR)                   3d6
Constituição (CON)       3d6 x2
Tamanho (SIZ)               3d6
Inteligência (INT)           1d3 
Poder (POW)                1d3
Destreza (DEX)             3d6

Bônus de Dano: +0
Ataques: Agarrar e despedaçar 40%, dano 1d3 +db

Habilidades: Saltar 55%, Rastrear 45%

Proteção: Nenhuma

Magias: Se possuído pelo Horror de Oakigahara todas as magias que o guardião achar adequadas.

Sanidade: Nenhum ponto, mas em estágios avançados a visão de um Yurei pode custar 1/1d4 pontos de sanidade, mais se o indivíduo foi conhecido em vida.

ESTATÍSTICAS PARA RASTRO DE CTHULHU

Habilidades: Armas Brancas 4, Briga 6, Vitalidade 8

Limiar de Acerto: 3 

Modificador de Alerta: +2

Modificador de Furtividade: +4 (mistura-se a floresta)
Ataques: +0 (agarrar e despedaçar)

Armadura: Nenhuma, mas imune a dor ou intimidação de qualquer natureza.

Perda de Estabilidade: +0 (+1 caso a pessoa conheça o yurei em vida)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A Floresta da Agonia - O Horror que dorme sob Oakigahara


A Floresta de Oakigahara tem uma longa e assustadora história de morte, desespero e melancolia.

O lugar fica na sombra do lendário Monte Fuji no oeste do Japão, possui uma infinidade de lendas e rumores que a maioria das pessoas considera meras superstições que não tem (ou não deveriam) ter lugar no moderno Japão. Mas embora muitos prefiram acreditar que as estórias não passam de crendices e que as pessoas que buscam a floresta para dar cabo de suas vidas, são indivíduos com problemas pré-existentes, é inegável que há algo muito errado nesse lugar. E mesmo o mais cético materialista, é capaz de perceber isso.

Algumas pessoas parecem atraídas para esse lugar ermo e desolado. Como se algum tipo de energia maligna e ainda assim sedutora, atraísse essas almas atormentadas para o interior da floresta. Alguns falam sobre uma música mefítica, a respeito de sons convidativos e sonhos recorrentes. Uma espécie de convite sussurrado, repleto de promessas de que a "dor irá cessar" e "tudo ficará bem no final".  Todos que são atraídos, acabam convergindo para a floresta como se uma maré negra, os conduzisse hipnoticamente.

Há relatos de guardas que encontraram pessoas que não sabiam como chegaram à floresta ou por qual razão visitaram o local. Descobriram ainda indivíduos vagando como sonâmbulos ou marionetes, os passos guiados por cordões invisíveis que anulavam qualquer resquício de vontade. Em meio ao mar de árvores da Floresta dos Suicidas de Oakigahara, parece haver uma força consciente que atrai, instiga e corrompe. Uma força sobrenatural determinada a devorar a esperança e consumir almas humanas.

Tal força realmente existe...


Ancestral, poderosa e implacável, uma coisa inumana habita o coração da Floresta. Ela dorme sob o solo negro, tocada pelas raízes das árvores que descem profundamente em busca de nutrientes e que acabam contaminadas pela sua seiva venenosa. Conspurcadas por esse mal primordial, as árvores nos limites dessa floresta crescem conscientes e famintas por servir a força negra que as controla. 

Essa presença invisível não tem nome e nem forma. Ela é uma espécie de emanação de energia, um tipo de vórtice psíquico que não pertence à nossa realidade. Uma coisa que pode ter escorrido do interior de um portal dimensional aberto acidentalmente ou se precipitado dos céus como um meteoro, incontáveis milênios atrás. Há rumores de que ele possa ser um Lloigor de enorme poder, uma criatura que manipula as emoções humanas causando surtos de pessimismo na área que escolhe viver. Mas, o mais provável, é que essa abominação seja um dos incontáveis Grandes Antigos, alguma entidade obscura e letal demais para um dia ter sido cultuado e conhecida pela humanidade.

Seja lá o que for, essa manifestação encontrou um lugar confortável para se estabelecer, um refúgio seguro para crescer. Ao longo de sua existência, ela sondou os arredores da floresta e tocou a mente de seres humanos ainda primitivos. Descobriu que eles eram suficientemente inteligentes e capazes de lhe proporcionar experiências sensoriais que ela considera extremamente prazerosa.

Por séculos, ela convenceu pessoas a se aventurar na floresta, a vagar pelos seus caminhos ermos cobertos de folhas. Por muito tempo ela também incidiu sobre outros, forçando-os a enviar os fracos para morrer em seu interior. A Floresta os abraçou, e os consumiu indiscriminadamente.   

Lançando suas emanações psíquicas através das árvores da floresta, como se estas fossem uma espécie de rede neural capaz de ampliar suas capacidades, ela busca indivíduos instáveis, cuja vontade pode ser quebrada. Focando nessas mentes dontes, a força oferece uma espécie de alívio para suas angústias, a medida que estabelece um domínio, semelhante a hipnose. Aos poucos, a vontade da vítima começa a ser minada e a pessoa acaba atraída para a morada da entidade.

A força é tão onipresente em Oakigahara que pode preencher o interior de qualquer árvore ou arbusto nos seus limites. Migrando de uma árvore para outra, essa consciência pode viajar rapidamente de um canto a outro da floresta em poucos segundos. Nada que acontece no mar de árvores passa desapercebido. 

Uma vez habitando uma árvore, ela é capaz ainda de controlar raízes, galhos e troncos, fazendo com que eles se movam conforme a sua vontade, agindo como terríveis apêndices e poderosos membros capazes de agarrar, imobilizar ou destroçar suas vítimas. As árvores possuídas por essa força se transformam em aberrações com expressões humanas retorcidas e hediondas. Nada dá mais prazer a essa força nefasta do que levar uma pessoa a loucura e convencê-la a cometer suicídio enforcando-se em algum galho baixo. Transportando sua consciência para uma árvore, onde a vítima pende em espasmos mortais, ela se alimenta dos últimos resquícios de suas memórias, experimentando um êxtase obsceno.

Em certos casos, a entidade considera apropriado poupar uma vítima da morte certa a fim de criar serviçais. Ela preserva a vida do suicida no último momento, mas não antes de absorver suas memórias, inundando o que restou de sua mente com perversas emanações psíquicas que a colocam em um estado de permanente submissão. O resultado é uma casca vazia destituída de vontade própria que obedece às vontades da entidade de Oakigahara. Esses pobres indivíduos, levados a uma condição extrema, se escondem nas profundezas da Floresta e são a origem das lendas sobre os yurei, os fantasmas da mata. Esses seguidores fiéis aos poucos deterioram a um estado irracional e chegam a sofrer mutações físicas, não podendo mais ser considerados humanos.

O Horror de Oakigahara, Deus da Agonia

Essa entidade não possui uma forma física, ele é uma espécie de vórtice de energia consciente. Embora seja invisível e sem forma, o Deus da Agonia pode enviar sua consciência para preencher o interior de árvores e animá-las conforme a sua vontade.

Quando ocupa um hospedeiro vegetal, geralmente optando por alguma árvore grande e antiga, a entidade é capaz de alterar sua aparência, fazendo com que o hospedeiro assuma feições distorcidas, com uma paródia asquerosa de humanidade. Os galhos se tornam ágeis e vivos como tentáculos chicoteantes, os troncos nodosos se partem gerando "bocarras" e sulcos se aprofundam criando "olhos" escuros. As raízes se desenterram brotando do solo como se fossem serpentes sibilantes que tentam agarrar e arrastar. Essas árvores são incapazes de se mover, mas projetando sua consciência de um hospedeiro para outro, a criatura é capaz de se deslocar e empreender perseguição. 

O horror pode controlar apenas uma árvore por vez, e mesmo que seu hospedeiro seja destruído é capaz de expelir sua consciência antes de ser afetada. Esse recurso faz com que seja muito difícil, senão impossível destruir fisicamente essa entidade. Magias capazes de restringir a troca de mentes ou aprisionar uma consciência em um corpo, oferecem uma maneira de restringir suas ações.

Felizmente ela é incapaz de projetar sua consciência para dentro de um hospedeiro fora dos limites da Floresta de Oakigahara. Portanto, se um sobrevivente conseguir deixar a floresta e se afastar o suficiente estará fora do alcance físico da criatura. Podendo no entanto, ainda ser alvo de suas emanações psíquicas a longo prazo.

As estatísticas à seguir se referem a força usando uma árvore como hospedeiro.

ESTATÍSTICAS PARA CHAMADO DE CTHULHU

Força (STR) 40
Constituição (CON) 80
Tamanho (SIZ) 50
Inteligência (INT) 25
Poder (POW) 25
Destreza (DEX) 03

HP: 60
Bônus de Dano: +5d6

Ataques: Raízes    40%, dano imobilização
              Mordida 35%, dano 1d6 + bônus de dano
              Galhos flexíveis 50%, dano 1d6 (pode efetuar 1d6 desses ataques por rodada)

Emanações Psíquicas - A entidade de Oakigahara é capaz de focar a sua poderosa mente para afetar humanos em um raio de 100 quilômetros da floresta. Indivíduos atacados pelas emanações sentem uma poderosa onda de negativismo, frustração e desalento. O alvo deve fazer um teste de POWER, iniciando com POW x3 e diminuindo para POW x2 na semana seguinte. Em caso de fracasso, a vítima perde 1d6 pontos de sanidade enquanto uma sugestão mental o compele a se aproximar da floresta como se lá ele pudesse encontrar a solução para seus problemas.

Armadura: 8 pontos de madeira contra dano físico e armas de fogo. Eletricidade, fogo, veneno e herbicidas surtem efeito. Se ferida até metade de seus HP, a força irá migrar sua consciência para outra árvore, abandonando a casca anterior.

Magias: Todas magias que o mestre achar conveniente.

Custo de Sanidade: 2/ 1d10 +1

ESTATÍSTICAS PARA RASTRO DE CTHULHU

Habilidades: Briga 25, Vitalidade 20

Limiar de Acerto: 3 (grande)

Modificador de Alerta: +4 (plenamente consciente de tudo ao seu redor)

Modificador de Furtividade: +4 (mistura-se a floresta)

Ataques: +5 (mordida), +1 (galhos), +0 (raízes). As raízes não causam dano ao alvo, mas elas o imobilizam e restringem seus movimentos. Um alvo preso dessa forma pode tentar se libertar rolando Fuga ou Atletismo, contra a Briga da entidade.

Emanações Psíquicas: As poderosas emanações psíquicas da entidade tem um alcance de 100 quilômetros e podem ser focadas em um alvo. A criatura gasta 1 ponto de sua vitalidade para drenar um ponto de estabilidade do humano escolhido. Ela pode drenar até 3 pontos por dia dessa maneira, inserindo na mente da vítima uma sugestão hipnótica que a compele a se dirigir para a floresta.

Armadura: A madeira é naturalmente resistente ao dano físico. Armas de fogo e projéteis causam apenas metade do dano (arredondado para cima). Eletricidade, fogo, veneno e herbicidas causam efeito normal. No entanto, se a criatura perder metade de sua vitalidade, ela irá migrar para outra árvore.

Perda de Estabilidade: +0 (+1 para árvore muito grandes ou particularmente distorcidas)

INVESTIGAÇÃO: 

História Oral: A garota olha na sua direção com um a expressão perdida e cansada. Ela pensa por alguns instantes e enfim responde: "Eu não sei porque vim aqui. Mas dói muito... sabe, é como se a dor aqui fosse menor. A floresta... aqui eu posso encontrar alívio". Ela sorri levemente, mas ao mesmo tempo uma lágrima escorre de seus olhos.

Sentir Perigo: Você passou por essas árvores antes. Mas elas parecem estranhas agora. Os galhos estão arqueados e o vento... que estranho! Você jura que o vento está soprando para lá, mas aquelas folhas estão balançando para esse lado!

Sobrevivência: É estranho, mas nessa floresta há tão poucos animais, pássaros, até mesmo insetos! Seria de se esperar encontrar mais animais silvestres em uma área tão vasta e coberta de vegetação. Mas não é o que acontece aqui. Tudo parece tão quieto e sossegado. Demais até!

Ciência Forense: O corpo estava pendendo levemente em um galho mais baixo, a corda esticada até o ponto máximo de tensão. O pescoço torcido em um ângulo horrível. A língua se projetava para fora e a face havia se contorcido em uma máscara de indescritível agonia. O mais estranho no entanto era a árvore onde o cadáver pendia. Parecia haver algo de horrivelmente humano nela, uma espécie de face transfigurada com uma expressão de indescritível prazer. Mas é provável que fosse apenas imaginação.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Lugares Estranhos: A Floresta de Aokigahara no Japão


Localizado a oeste da base do Monte Fuji, Aokigahara talvez seja a mais infame floresta em todo Japão e um dos lugares mais temidos do país. 

Conhecida pelos japoneses por vários nomes, ela é mais comumente chamada de "Mar de Árvores", um título adequado pela quantidade impressionante de árvores crescendo lado a lado. Infelizmente, ela é conhecida também como "Floresta do Suicídio" graças ao número assombroso de suicídios ocorrendo em seu interior. Finalmente, ela é também chamada de "Floresta do Demônio", em decorrência das várias lendas sobre espíritos malignos e assombrações que a cerca. 

Aokigahara é considerado por muitos visitantes como um "lugar perfeito para morrer" e ela é o segundo lugar do mundo em quantidade de suicídios (perdendo apenas para a Ponte Golden Gate, na cidade de San Francisco).

Mas o que leva pessoas a isso? E o que esse lugar tem de especial?


Diz a lenda que tudo começou com uma novela publicada pela famosa escritora Seicho Matsumoto. A estória intitulada Kuroi Kaiju (Mar Negro de Árvores) foi publicada em 1960. A novela termina com dois amantes cometendo suicídio em plena floresta, e as pessoas acreditam que foi essa estória que deu origem a coisa toda. Entretanto, muitos acreditam que a prática de suicídios em Aokigahara é bem mais antiga, e que a autora apenas incluiu essa informação na sua estória. De fato, muitos consideram que o lugar tem uma longa associação com morte e desespero. Segundo rumores, centenas de pessoas usaram as árvores da floresta para se enforcar.

O controverso bestseller de Wataru Tsurumui publicado em 1983, "The Complete Suicide Manual" (O Manual Completo do Suicida), descreve várias maneiras de se cometer suicídio e chega a recomendar Aokigahara como um lugar perfeito para se morrer. Aparentemente esse "manual" também é encontrado com frequência entre os objetos pertencentes a indivíduos que cometeram suicídio na floresta, normalmente não muito distante da vítima. Inquestionavelmente, o método preferido de suicídio nas imediações da floresta é o enforcamento.

A taxa de suicídios no Japão é incrivelmente alta, uma das mais elevadas nos países desenvolvidos. Ter essa floresta e um manual completo ensinando a cometer suicídio não ajuda a equilibrar esse percentual. A despeito de muitos esforços do governo para prevenir suicídios e manter guardas para afastar potenciais candidatos a se matar, a taxa de mortes auto-infligidas no Japão continua a aumentar.


Não bastasse a fama atual da floresta, existem estórias sinistras a respeito de Aokigahara que remontam ao período medieval. Diz a lenda que nos velhos tempos, as famílias abandonavam crianças, mentalmente incapazes e velhos na floresta para que morressem de fome, sobretudo em períodos de escassez de alimentos. Crianças nascidas com problemas físicos costumavam ser amarradas nas árvores ou eram simplesmente abandonadas à própria sorte. Velhos ou inválidos eram levados para a floresta e deixados em algum lugar remoto de onde não conseguiam retornar. Estórias sobre cegos ou deficientes deixados na floresta fazem parte do folclore local. 

Em períodos de necessidade ou tragédia, a prática era extremamente comum, tanto que um dizer que sobrevive no Japão até os dias atuais é "ser deixado na floresta", expressão usada em casos nos quais a pessoa se sente abandonada ou sem perspectivas.

As pessoas abandonadas na floresta demoravam a morrer, mas quando acontecia era por fatores como fome, exposição ao clima que pode atingir temperaturas baixíssimas ou mesmo de medo. A fama de assombrada acompanha a floresta há muito tempo, tanto que crianças e velhos temiam ser abandonados nesse lugar pelos seus pais ou protetores. Não se duvida que "vou te deixar na floresta" fosse uma ameaça para crianças que não se comportavam e mesmo para velhos.  


Aokigahara é tido como um dos lugares mais assombrados do Japão e a quantidade de relatos sobre vozes desencarnadas, sombras misteriosas e sensações inquietantes em seu interior é alarmante. Os fantasmas mais frequentemente vistos no lugar, os Yurei, costumam saltar de árvore em árvore. Dizem que eles vestem longas roupas brancas e suas faces são transfiguradas pelo horror, pelo medo e loucura. Aqueles que vêem um desses espíritos amaldiçoados ficam paralisados e não conseguem correr ou se afastar. Os músculos parecem ficar congelados, o sangue não corre nas veias e um frio domina todo o corpo. Os fantasmas se aproximam então e arrastam as vítimas apavoradas para as profundezas da floresta.

As lendas de fantasmas são tantas que alguns parentes de pessoas que se suicidam nos arredores da floresta preferem culpar essas manifestações pelo infortúnio de seus entes queridos levados ao desespero. A negação faz com que muitos afirmem categoricamente que muitos suicidas são na verdade vítimas das assombrações diabólicas.

Espiritualistas japoneses acreditam que a quantidade de suicídios cometidos na floresta de alguma forma conspurcou o solo de Aokigahara, gerando uma área de atividade paranormal que impede muitos dos que entram em seus limites de escapar com vida. Mediuns entrevistados no local afirmam que as próprias árvores e arbustos tendem a conspirar contra a sanidade das pessoas, forçando-as aos seus limites.


As lendas em Aokigahara são tantas que os guardas do parque raramente ficam muito tempo no serviço. Mesmo entre eles, a quantidade de suicídios é grande.


A topografia de Aokigahara também não ajuda a tranquilizar os visitantes. A vasta floresta protegida pela UNESCO cobre uma área de 3,500 hectares forrado de árvores tão próximas que no meio da tarde se faz necessário usar uma lanterna para se guiar pelo local, tamanha a escuridão. O solo é escuro e na maior parte do ano enlameado. Há também poucos animais e o silêncio perene é enervante. Ouvir um pássaro cantando na floresta é algo incrivelmente raro. As áreas que não são cobertas de árvores, troncos e de um denso tapete de folhas secas, são pedregosas, frias e coalhadas de cavernas, muitas das quais com risco de desabamentos. Nestas cavernas já foram encontrados restos humanos de indivíduos que se perderam e procuraram refúgio no interior das cavernas. Uma péssima ideia já que a temperatura nessas grutas rochosas pode cair abruptamente provocando congelamento.

A floresta é famosa por ser um lugar fácil de se perder. Não há como se guiar através das estrelas e as trilhas existentes tendem a ficar cobertas de folhas e vinhas. O solo é incerto, com buracos cobertos dessas folhas que podem engolir uma pessoa adulta. No fundo desses grotões há depósitos de fungos e uma espécie de urtiga venenosa que pode matar alguém alérgico em poucos minutos. Mesmo a sadia prática do hiking não é estimulada na floresta e as pessoas que insistem em fazê-lo são recomendadas a JAMAIS andar sozinhas. Há alguns anos, um grupo de turistas encontrou um desses grotões e por pouco um deles não morreu caindo em seu interior. Os guardas foram chamados e encontraram ali dentro ossadas antigas de pelo menos três pessoas. 

O lugar possui um outro fator de estranheza que só vem a somar com o clima bizarro reinante. Telefones celulares, aparelhos de GPS e até mesmo bússolas tendem a falhar em virtude de ricos depósitos de ferro na área e do solo vulcânico. Esse fator por si só, por muitos anos foi suficiente para perpetuar incontáveis casos de desaparecimento na região.     

Além dos inconvenientes restos humanos que por vezes podem ser encontrados "brotando" no solo da floresta, há sinais macabros em todo canto que não deixam o visitante esquecer a natureza soturna do lugar. Cordas penduradas aqui e ali, marcas arranhadas em troncos de árvores com últimas palavras e fotos deixadas por parentes para lembrar dos suicidas. Há ainda placas colocadas pela polícia onde se lê: "Sua vida é preciosa, não dê um fim a ela" ou "Por favor, fale com um conselheiro se você está passando por uma situação de crise". Essas frases tentam desencorajar possíveis suicidas. Julgando pelo aumento de mortes na floresta, a política parece não ter surtido efeito.  


Em meados de 1970 a quantidade de suicídios no Japão se tornou uma preocupação legítima na floresta. Uma vez por ano, a floresta fica fechada por uma semana, período em que as autoridades realizam uma varredura em busca de suicidas não localizados e restos humanos. Em 2002, 78 corpos foram encontrados em Aokigahara, ultrapassando o recorde anterior de 74 corpos em 1998. Em 2003, o número foi de 100.

Nos últimos anos, o governo local deixou de publicar o número de suicidas encontrados e o de tentativas reportadas, acreditando que a divulgação servia como um incentivo. Estimativas não oficiais afirmam que em 2004, 108 pessoas teriam desaparecido na área de Aokigahara. Em 2010, o número teria saltado para 247 tentativas, e 128 suicídios bem sucedidos. Mas esse número se refere apenas aos suicídios e tentativas confirmadas, sendo possível que o número real seja muito maior. Quem sabe quantos mais não foram achados?

É surpreendente que um lugar com uma estória tão macabra seja tão pouco conhecido. O fato é que a natureza estranha da floresta, faz com que os japoneses comentem pouco a respeito desse lugar. Muitos o consideram como um verdadeiro tabu e preferem sequer falar a respeito dela.

As pessoas que vivem nas proximidades de Aokigahara sofrem uma espécie de descriminação direta por habitar uma área considerada agourenta. É curioso verificar que certas superstições ainda prevalecem, mesmo em uma nação moderna como o Japão. Indivíduos que vivem nas cercanias da floresta são evitados e muitas pessoas mentem a respeito de sua residência para se manter no emprego e preservar amizades. No Japão existe uma crença antiga de que as pessoas costumam carregar consigo a carga emocional do lugar em que vivem ou dormem. Não é de se estranhar que a região da floresta seja considerada como uma área cuja carga emocional é definitivamente negativa.


O mesmo acontece, é claro, com os guardas que são contratados para proteger a floresta e coibir os suicidas. Uma das atribuições deles é carregar os corpos, varrer o lugar em busca de indícios de invasores e recolher objetos abandonados ou descartados no interior. Muitos desses objetos são guardados em uma sala que se converteu em uma espécie de museu macabro, reunindo centenas de itens que pertenceram aos suicidas. Uma das superstições que vigora no Japão diz respeito a não tocar em nada que pertenceu a um suicida - pois fantasmas podem sentir ciúmes de suas possessões materiais. Tocar em tais objetos, atrai azar e a ira dos vingativos yurei.    

Para tornar tudo ainda mais estranho, as autoridades japonesas começaram a reportar uma prática macabra cada vez mais frequente. Indivíduos convergem para a floresta de madrugada para procurar ossos e objetos que pertenceram aos suicidas. Alguns ocultistas e membros de seitas, acreditam que tais objetos permitem que a pessoa exerça domínio e poder sobre o espírito do suicida, para escravizá-lo e usá-lo como arma contra inimigos ou desafetos. Cerimônias bizarras no interior da floresta foram denunciadas e coibidas e indivíduos foram processados por subtrair ossadas. 

Nos últimos anos tem havido uma campanha para conscientização e valorização da vida. O governo tenta desmistificar através desses programas o tema, mas os programas ainda não causaram o impacto desejado. 

A Floresta de Aokigahara continua sendo um lugar assustador e provavelmente continuará assim por um bom tempo.

Um documentário sobre esse trágico lugar: