quarta-feira, 15 de abril de 2020

As muitas Máscaras de Nyarlathotep - Parte I


Muito se questiona a respeito da verdadeira forma de Nyarlathotep se é que existe uma. 

Há uma suspeita sustentada por alguns estudiosos de que em seu lar, ele é incapaz de alterar sua forma sendo obrigado a conservar sua aparência original. Esta é descrita por alguns como uma imensa nuvem ou geleia primordial que cobre cada espaço, a ele se adaptando. O som de flautas sibilando eternamente é o único som capaz de romper essa monotonia tétrica. Quando invocado desse plano, ele é capaz de assumir qualquer forma que desejar, o que deu origem à lenda que Nyarlathotep dispõe de 999 formas diferentes. É provável, contudo que esse número cabalístico seja uma mera invenção e que o Deus não está circunscrito a essa limitação.

Em suas jornadas em nosso mundo, Nyarlathotep assumiu apenas algumas formas, sendo que as principais estão listadas abaixo.

Ahtu 
(Congo, África central e possivelmente Camboja)

Nessa forma especialmente pérfida, Nyarlathotep aparece como um imenso monte de carne pútrida viscosa da qual brotam centenas de tentáculos dourados. Estes serpenteiam e se agitam livremente agarrando e puxando o que estiver ao seu alcance, trazendo suas vítimas para perto da massa principal para ser assimilado. Ahtu é um Deus intempestivo, irascível e cruel. Seus servos praticam um tipo de ritual de auto-mutilação no qual produzem cicatrizes e escarificações de aspecto medonho em seus corpos. Também são conhecidos por realizar perversas torturas e empregar métodos de sacrifício que visam extrair dor e sofrimento inenarrável. 

Nascido nas selvas do Congo, o culto esteve dormente por séculos, até ser revitalizado por nacionalistas congoleses, tornando-se uma ferramenta de organizações revolucionárias opositoras aos colonizadores belgas. O Culto foi quase que totalmente debelado nos anos 60, mas há informes de que ele jamais deixou de existir no interior do país africano.


O culto invocava Ahtu utilizando braceletes dourados geralmente separados em duas partes para prevenir que ele fosse chamado por acidente. Uma vez trazido fisicamente, Ahtu demanda um grande número de sacrifícios humanos, na ausência destes ele pode se voltar contra seus próprios cultistas. Ele raramente atende pedidos ou súplicas, mas na esteira de sua invocação, pode agraciar seus alto sacerdotes com magia e visões.

Acredita-se que Ahtu esteja relacionado com o terrível culto cambojano devotado ao deus Angka, venerado pelos Tcho-Tcho. Alguns teóricos supõem inclusive que os dois sejam rigidamente a mesma entidade. Angka se tornou alvo de uma desesperada campanha patrocinada pelo Delta Green durante o Conflito no Sudeste asiático envolvendo os norte-americanos no vizinho Vietnã.

Aku-Shin-Kage 
(Japão)

Essa forma obscura foi cultuada no Japão Medieval, até meados do século XVI, ainda que existam rumores de que o culto experimentou um renascimento em meio a círculos nacionalistas até meados da segunda guerra.

Aku-Shin-Kage é uma entidade austera e sanguinária. Ele representa o progresso pelo conflito e o desejo de esmagar e destruir os inimigos. Venerado por cultos compostos por guerreiros, soldados e militares, a figura é invocada em tempos de guerra e surge demandando massacre e genocídio. Se tais tributos forem proporcionado, esse avatar oferece força e armas aos seus seguidores mais fiéis. Ele também é conhecido por oferecer armas de tecnologia de ponta aos seus protegidos.


Aku-Shin-Kage é descrito em documentos antigos como um homem muito alto vestindo uma armadura samurai tradicional. Ele usa uma máscara de laca negra que esconde uma face repleta de tentáculos e pequenas bocas. Em tempos mais recentes, Aku-Shin-Kage é representado como um homem vestindo traje militar de gala e com o rosto oculto por uma máscara. Em comum, ele sempre carrega consigo alguma arma que maneja com perícia mortal. Em seu rastro ele deixa pegadas sangrentas.

A Besta, Abu-Hol
(Oriente Médio, em especial Arábia)

Esta forma colossal de Nyarlathotep se manifesta muito raramente demandando inúmeros preparativos e extensos sacrifícios por parte de seus cultistas. Acredita-se que seja na forma da Besta que Nyarlathotep trará o Fim dos Tempos, mas essa pode ser apenas uma profecia árabe.

Venerado por um Culto conhecido como Irmandade da Besta com lideranças espalhadas pelo Leste Europeu, Egito e China, a Besta é uma entidade apocalíptica. Cronistas árabes relacionam seu despertar com o Fim da Humanidade. Segundo a profecia quando invocada, seu primeiro ato será destruir Jerusalém, simbolizando o primeiro ato de extinção da raça humana.


A Besta é uma entidade monumental que assume uma forma similar à Esfinge do Egito. Uma fera colossal com corpo de leão, asas de morcego e uma face humana. Quando animada, no entanto, o rosto se torna um vazio através do qual se contempla o vácuo estelar - vislumbrar esse vazio causa incurável insanidade. É dito que através desse vazio, uma legião de criaturas do Mythos - em especial Shantaks e Horrores Caçadores, serão convocados para devastar o planeta.

Touro Negro
(Egito e Líbia)

Acredita-se que essa seja uma das Máscaras que Nyarlathotep assume para anunciar o Fim dos Tempos. 

No Egito Antigo, a aparição dessa entidade prenunciava alguma grande tragédia ou momento de convulsão social. Na forma de uma enorme besta, semelhante a um touro negro, Nyarlathotep corria pelas ruas das cidades fazendo o chão tremer ante os seus cascos. O animal seguia pisoteando pessoas até repentinamente se desfazer em uma nuvem escura de fumaça.


Alternativamente, a figura podia assumir a forma de um homem negro vestido como um andarilho recém saído do deserto após um forte tempestade de areia. Este chegava a uma cidade e procurava um lugar de grande movimento - um mercado ou templo, onde começava a proferir parábolas e profecias terríveis. Aqueles que ouviam suas palavras repletas de maus agouros acabavam contagiados por uma loucura e se sentiam compelidos a espalhar a mesma história dali em diante. O Contador de Histórias após completar seu papel, desaparecia em uma nuvem de fumaça.

Segundo a lenda, o Touro Negro foi visto pouco antes das Pragas do Egito atingirem o Império. Ele teria sido visto, como o Contador de Histórias pouco antes do assassinato do Presidente Anuar Sadat em 1981. Relatos de que o Touro Negro correu pelo Cairo poucas semanas antes da Revolução que depôs Hosni Mubarak não foram confirmados... embora os rumores tenham se repetido pouco antes da morte de Muamar Kadafi na Líbia.

O Vento Negro 
(África Oriental)

Uma dissidência do Culto queniano da Língua Sangrenta (Blood Tongue) que se espalhou pela África Oriental chegando até o Tanzânia, Moçambique e Madagascar. A maioria dos rituais, sobretudo os de sacrifício são bastante semelhantes e particularmente medonhos. Quando Nyarlathotep assume essa máscara ele se assemelha a uma terrível tempestade de ventos furiosos capaz de destruir campos, devastar florestas e arrasar casas em um raio de muitas milhas. Sua passagem é sempre catastrófica e ocasiona tragédias.


Segundo as lendas, a tempestade assovia como um lamento e aqueles que são colhidos por ela percebem em meio a ventania formas sombrias, daí decorrendo seu nome - Vento Negro. O culto foi mais forte no passado, durante a colonização ele foi desarticulado chegando quase a desaparecer. Seu renascimento se deu no século XX quando movimentos populares que reivindicavam a independência das colônias o descobriram. Seitas formadas por seguidores do Vento Negro operam na mesma região e nos dias atuais foram confundidas com células terroristas.

Há indícios de que o Vento Negro tenha sido carregado para Angola e Moçambique nas últimas décadas e que ele esteja se fortalecendo nessas regiões.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Formas do Caos - Os Avatares mais conhecidos de Nyarlathotep


Nyarlathotep é uma das entidades mais fascinantes e estranhas da mitologia criada por H.P. Lovecraft. Chamado de "a alma e o mensageiro" dos Deuses Exteriores, ele cumpre tarefas em nome dos Antigos tendo livre acesso em todas as dimensões e planos de existência. A blasfema Corte de Azathoth, localizada no centro do Universo, depende de Nyarlathotep que provê tudo aquilo que é necessário para o Demônio Sultão e seu séquito.

Conhecido como "O Caos Rastejante", Nyarlathotep é um intermediário entre os Antigos e seus cultistas. Estudiosos dos Mitos tem diferentes opiniões a respeito da relação do Deus Exterior com a humanidade. Ao contrário da maioria das entidades dos Mitos, que se importam pouco ou em absoluto com a humanidade, o Caos demonstra especial interesse na raça humana. Em várias ocasiões ele teria se apresentado diante de pessoas escolhidas trazendo dádivas, sejam estas magias ou conhecimento científico. Infalivelmente estes presentes conduzem à uma espiral de loucura e destruição. Aparentemente Nyarlathotep sente enorme prazer assistindo suas vítimas se destruindo e trazendo a ruína sobre os que estão à sua volta. A inevitável comparação é a de uma criança com uma lente de aumento diante de um formigueiro num dia de sol.

Inúmeras profecias alertam que Nyarlathotep eventualmente destruirá a humanidade e o planeta. Alguns acreditam que o plano final e a definitiva piada cósmica do Caos Rastejante será transformar a Terra em um Cemitério Colossal, tudo através de seus seguidores.

As lendas afirmam que Nyarlathotep possui 1000 formas diferentes e que cada uma desempenha uma determinada função em seu interminável jogo cósmico. Ao longo das eras, Nyarlathotep foi reverenciado sob inúmeros disfarces nas mais distantes partes do mundo. A seguir, os cinco avatares mais conhecidos e aterrorizantes do Caos Rastejante.

O Assombro na Escuridão 
(The Haunter in the Dark)

Conhecido em Yuggoth, na Austrália e Providence  

"Eu vejo - vindo em minha direção - vento infernal - um titã enevoado - asas negras - Yog-Sothoth me salve - o olho faiscante"



Essa monstruosidade alada se assemelha a um imenso morcego constituído de sombras vivas. Ao voar ele deixa um longo rastro de fumaça negra e espalha um fedor nauseante. Segundo alguns, sua consistência semi-corpórea permite que ele atravesse objetos sólidos e se desfaça para acessar lugares exíguos. A característica mais famosa do Assombro é sua face que possui um único olho faiscante separado em três lobos. É sugerido por alguns tratados esotéricos que qualquer pessoa sujeita ao escrutínio desse olho se torna sujeito ao controle mental do Assombro na Escuridão.

Os Mi-Go conhecem essa entidade, oferecem a ela homenagem nas cavernas escuras e profundas no coração de Yuggoth. Na Terra, o Culto atua nos desertos da Austrália, congregando tribos aborígenes que se entregam a uma cega adoração nas noites sem lua. Os xamãs dedicados a esse avatar usam estranhas pedras consagradas que lhes permitem adentrar a Terra dos Sonhos - que chamam Alcheringa, o Reino de poder do Assombro. Lá comungam com ele e recebem suas graças. Algumas tribos o conhecem pelos nomes de Morcego da Areia, Pai de Todos os Morcegos e Asas Negras.
    
Outro importante culto devotado ao Assombro se formou ao redor da blasfema Igreja da Assombrosa Sabedoria (Starry Wisdom) com sede na cidade de Providence, Rhode Island. Este talvez tenha sido o culto mais organizado devotado ao Assombro e o que conseguiu os maiores resultados ao adorá-lo. Seus membros teriam firmado pactos e garantido conhecimento profano, na forma de magias e rituais transmitidos pela própria criatura. Os cultistas tinham em seu poder um artefato alienígena conhecido como o Trapezoedro Brilhante, capaz de invocar o Assombro fisicamente. Em algum momento no século XIX, a Seita se desfez e seus membros debandaram deixando para trás o artefato no pináculo da Igreja. O lugar permaneceu fechado por décadas, temido e evitado pela vizinhança.


O Assombro na Escuridão existe apenas em lugares privados de luz, trata-se de uma entidade de sombras e trevas extremamente poderosa nesses ambientes. Ele é capaz de envolver inimigos com suas grandes asas, absorvendo as energias de seres vivos completamente. O que resta não passa de uma casca ressecada e quebradiça. Há boatos que indivíduos que desagradaram ao Assombro foram coagidos pelos seus poderes mentais a cometer suicídio de forma espalhafatosa e especialmente chocante, como uma espécie de recado para os cultistas. Embora ofereça dádivas e benefícios aos seus seguidores mais fiéis, a atenção do Assombro tende a ser volátil, eventualmente todos que o veneram terminam mortos ou completamente loucos.

Luz intensa é a única arma eficaz contra o Assombro na Escuridão. Ele pode ser afugentado por uma fonte luminosa voltada na sua direção. Se a luz for suficientemente intensa ele se desfaz em uma nuvem de fumaça preta que se dispersa rapidamente. O Assombro pode se reintegrar novamente se receber um sacrifício de sangue numa noite sem lua. 

A Mulher Inchada
(The Bloated Woman) 

China com templos espalhados por todo Extremo Oriente (da Tailândia e Indonésia, até Myamar e Malásia)


"A Mulher Inchada, o avatar feminino do Caos Rastejante assumiu seu lugar presidindo a congregação. E o horror que sua imagem grotesca conjurava era tamanho que alguns caíam no chão em desespero".



Esse grotesco avatar de Nyarlathotep atua quase que exclusivamente no Extremo Oriente, sendo a China o centro do Culto conhecido como Ordem da Mulher Inchada. Não se sabe exatamente quando a sociedade secreta foi fundada, mas supõe-se que ela seja milenar. Entre seus membros há um número considerável de Híbridos Abissais, o que a torna a única seita dedicada a Nyarlathotep que congrega em suas fileiras humanos e criaturas do Mythos.

Embora a Ordem seja atuante na China continental ela é mais forte na região costeira, arregimentando marinheiros e homens do mar. Vários portos do Oriente contam com membros da seita operando nas docas, controlando escritórios, depósitos, prostíbulos e casas de ópio que servem de fachada para templos clandestinos. 

A Ordem é famosa por realizar sacrifícios que consistem em mutilação e desmembramento. As vítimas escolhidas tendem a ser forasteiros ou viajantes recém chegados de quem ninguém sentirá falta. A Ordem utiliza como arma sagrada uma afiada foice que os sacerdotes carregam em cinturões de couro. A indumentária tradicional inclui ainda um leque preto. Curiosamente, embora o culto tenha como foco um avatar do sexo feminino, seus sacerdotes são todos homens que se travestem com delicados robes de seda verde, jóias e maquiagem. Um dos rituais de passagem ao sacerdócio envolve realizar uma auto-castração.


A Mulher Inchada é invocada em praticamente todos os rituais da Seita e tende a responder aos sacerdotes mediante o oferecimento de sacrifícios. Se o avatar se mostrar satisfeito ele pode ensinar rituais mágicos e feitiços. Um dos rituais mais grotescos da Seita envolve a conjunção sexual com a entidade, ao fim desse cerimonial um dos participantes é escolhido e sacrificado para supostamente renascer como um servo de Nyarlathotep na Corte de Azathoth.

O avatar é uma grotesca figura feminina com mais de 300 quilos distribuídos em dois metros de altura. A criatura possui tentáculos no lugar de braços e estes serpenteiam incessantemente. Sua face é uma massa de tentáculos verde-acinzentados que se agitam atrás de um leque preto que ela usa para disfarçar suas feições hediondas. Ao usar o leque dessa maneira, a Mulher Inchada cria uma sugestão hipnótica na qual sua aparência muda para a de uma donzela oriental de rara beleza com cabelos negros e olhos verdes como jade. Quando o leque é removido, ela reverte à sua aparência monstruosa. Com o leque a Mulher Inchada seduz homens oferecendo prazeres degenerados antes de revelar sua forma e sufocar seus amantes sob o enorme peso de seu corpo flácido.

A entidade carrega seis foices sagradas num cinturão, mas estes raramente são usados por ela, ao invés disso, são entregues com grande cerimonial aos sacerdotes de mais alto status para que eles realizem o trabalho sangrento. A Mulher Inchada é conhecida por dedicar aos seus sacrifícios uma infame forma de execução conhecida como Beijo da Mulher Inchada. A ação envolve a inserção de vários tentáculos faciais através da garganta, canal auditivo e fossas nasais da vítima, fazendo com que eles cheguem até o interior do crânio que é então dilacerado. Os pedaços de massa encefálica são então sorvidos ruidosamente.

O Homem Negro
(The Black Man)

Inglaterra, mas também venerado na Europa Ocidental, espalhado pela América (Nova Inglaterra) e Caribe.


"Ela falou também com o Homem Negro, patrono dos sabás das bruxas, e soube seu nome verdadeiro..."


Conhecido como o patrono dos sabás das feiticeiras, o Homem Negro desempenha um importante papel no ocultismo ocidental. Trata-se de uma entidade que compartilha conhecimento na forma de feitiços e comumente aparece associada com bruxas e feiticeiros. Aqueles que buscam por conhecimento arcano e sabedoria hermética, eventualmente acabam de alguma forma recorrendo a essa manifestação de Nyarlathotep. Ele aceita fazer as vezes de tutor e mestre de indivíduos que almejam poder, oferecendo a estes magias e rituais que terminam invariavelmente por sobrepujá-los.

O Homem Negro porta o blasfemo "Livro de Azathoth" que supostamente contém todo o conhecimento místico do universo. Aqueles que o invocam são convidados a assinar seu nome com sangue nesse tomo. Em seguida, ganham permissão de perscrutar suas páginas, mas ao fazê-lo aceitam servir eternamente ao Homem Negro. Essa submissão vem na forma de um pacto, no qual a pessoa se vê compelida a realizar sacrifícios e espalhar o caos por onde for.

Há indícios de que o Culto ao Homem Negro tenha surgido nas Ilhas Britânicas e se espalhado pela Europa Continental, chegando até a França, Países Baixos e Península Ibérica. Posteriormente ele teria sido carregado para o Novo Mundo. Durante a histeria da Caça às Bruxas em Salem, o Homem Negro foi reverenciado por notórias feiticeiras como a terrível Keziah Mason de Arkham. Há rumores de que o culto do Homem Negro teria encontrado seguidores em uma dissidência dos Cavaleiros Templários. Uma seita se formou durante as Cruzadas, reverenciando a entidade como um aspecto de Bafomé. Esta suposição pode ter sido engendrada para difamar as ordens de cavalaria quando elas passaram a ser perseguidas.


O Homem Negro possui forma humanoide, com a pele negra como a noite, sem cabelos ou pelos e trajando um manto comprido e escuro. Seus olhos são descritos como verdes emanando um brilho sobrenatural. Alguns acreditam que ele possui pernas de bode terminando em cascos fendidos o que explicaria as pegadas em forma de cascos deixadas em seu rastro. Sua presença também está associada a um fedor ocre de enxofre. Em certas representações, sobretudo no Caribe, o Homem Negro caminha amparado em um cajado de madeira ou com ajuda de uma bengala.

Algumas lendas assumem que essa Máscara de Nyarlathotep espelha o Demônio da tradição cristã. O modus operandi dessa entidade encontra eco em várias narrativas envolvendo a demonologia clássica. O Homem Negro oferece benefícios em troca da servidão, da alma e da completa devoção daqueles com quem barganha. Ele abençoa rituais de bruxaria, recebe sacrifícios de sangue e em troca ensina magias e concede poderes sobrenaturais aos seus protegidos. Tudo isso se encaixa na visão do demônio aos olhos da cristandade.

O Andarilho da Escuridão
(The Dweller in Darkness)

Muitos lugares do mundo


"Uma vasta criatura amorfa... sem face trazendo apenas uma cabeça em forma de tentáculo escarlate... que parece fluido alcançando alturas absurdas. Três pernas em uma estrutura inumana que se move pelos campos e montes, cruzando as distâncias envolto pelo manto da noite. Ele avança e uiva para a Lua".



Esse medonho avatar de Nyarlathotep vaga apenas à noite e é uma das formas mais conhecidas que a entidade assume quando invocada pelos seus cultistas.

O Andarilho da Escuridão é um colosso tenebroso que se manifesta em lugares considerados sagrados e tidos como importantes para seus cultistas. Há vários lugares do mundo que se encontram sobre a proteção dessa entidade e onde ela pode se manifestar através de rituais ensinados aos seus fanáticos devotos. Para citar apenas alguns: As Florestas da Nova Inglaterra, as Selvas do Laos, as planícies do Canadá, no deserto do Atacama no Chile, nas Colinas de Golan em Israel e em boa parte do Egito. Para muitos, seu berço de poder é o Quênia, na lendária Montanha do Vento Negro onde ele atende pelo nome de Deus da Língua Sangrenta (Blood Tongue God).

Nas ocasiões em que é invocado, o Andarilho das Trevas vaga sem destino, deixando um rastro de morte por onde passa. Seu único propósito parece ser disseminar o Caos e a Destruição. A mera visão dessa entidade ocasiona confusão e loucura, e os poucos sobreviventes que testemunham sua passagem são incapazes de explicar o horrível encontro que tiveram com a monstruosidade. Acredita-se que há uma maldição pesando sobre os que o encontram: estariam fadados a enlouquecer e cometer os atos mais vis e deploráveis antes deles próprios morrerem. Estudiosos do Mythos mencionam sonhos e alucinações em que os afligidos veem a cabeça de outras pessoas substituída por tentáculos vermelhos semelhantes ao dessa entidade.


Alguns pesquisadores traçam uma relação direta entre o Andarilho e a destruição de cidades consideradas malditas da antiguidade como Sodoma e Gomorra que teriam sido aniquilada por esse avatar. Na América do Norte, os indígenas norte americanos relatam o surgimento dessa entidade responsável por varrer da existência tribos consideradas impuras. A passagem desse horror também foi registrada na tundra siberiana por tribos de nômades.

O Andarilho é descrito como uma abominação titânica da altura de um prédio. Ele se equilibra em três pernas fibrosas que por sua vez sustentam um tronco dotado de três braços e um tentáculo vermelho no lugar da cabeça. Este horrendo apêndice escarlate serpenteia como um chicote projetando-se para o céu como se estivesse tentando tocar o firmamento. Uma boca arredondada na base do tentáculo se abre de modo intermitente deixando escapar um urro trovejante que ecoa anunciando sua presença. Seus passos também são sentidos à distância, provocando abalos que fazem tremer prédios e casas. Em alguns lugares existe a crença de que terremotos podem estar de alguma forma associados com a passagem do Andarilho.

O Faraó Negro
(Black Pharaoh)

Antigo Egito

"A personificação do mal, cruel e brilhante, o Faraó ascende ao trono e os mortais choram e se lamentam em agonia".



Um homem alto e negro de orgulhosa estirpe egípcia, vestindo magníficos trajes reais e a coroa de faraó pendendo em sua cabeça. Este talvez seja um dos mais conhecidos avatares de Nyarlathotep, temido em todo Egito. Em tempos ancestrais, o Faraó Negro governou vastos territórios e submeteu a orgulhosa nação do Nilo à sua vontade de ferro. Sua palavra era a lei e aqueles que o desafiavam sofriam terríveis castigos.

Há muita controvérsia a respeito da relação entre Nyarlathotep e o Faraó Nephrem-Ka que em várias versões seriam a mesma pessoa. Aqueles que pensam dessa maneira acreditam que o Caos Rastejante assumiu essa forma para governar o Egito usando a aparência de um ser humano.

Todos os textos sugerem que Nyarlathotep se sentia à vontade nessa forma e a vestia sempre que desejava negociar com humanos que despertaram seu interesse. Usando a identidade do Faraó Negro, ele foi incorporado ao Misticismo Egípcio sendo citado em um volume censurado do fabuloso Livro dos Mortos como o Senhor Negro, o Mestre do Submundo e Patrono dos Feiticeiros.


Comenta-se que o Faraó Negro tenha sido banido pelo povo do Egito há milênios e que todos os registros sobre ele tenham sido apagados, bem como os monumentos erigidos em sua homenagem que foram destruídos. De tempos em tempos, artefatos mencionando seu nome tendem a aparecer e intrigar os arqueólogos que os descobrem.

Embora perfeitamente humano em aparência, o Faraó Negro é dotado de poderes sobrenaturais que o tornam muito mais do que um simples mortal. Ele é um simulacro que concentra os poderes infinitos de uma Divindade cósmica. Sua crueldade também é legendária, sempre disposto a praticar o Caos e a Destruição, o Faraó Negro promoveu massacres e sofrimento sem igual.

Há rumores que o Faraó Negro seria a verdadeira identidade do espírito Aiwaz, que segundo o ocultista inglês Aleister Crowley ditou o "Livro da Lei". Para outros, o Faraó Negro será o Avatar escolhido por Nyarlathotep quando ele decretar o Fim da Humanidade.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Nyarlathotep, o Caos Rastejante - Alma e Coração dos Deuses Exteriores


"E onde Nyarlathotep ia, o sossego desaparecia, 
pois as primeiras horas da manhã eram rasgadas pelos gritos de pesadelo".

H.P. Lovecraft

Entre os Seres de maior poder na vastidão do Cosmos se encontram os Deuses Exteriores, entidades que representam alguns dos princípios universais que regem  o universo.

A maioria destes seres são insondáveis em seus motivos e razões. A mente humana, afinal de contas, é incapaz de apreciar sua grandiosidade. Azathoth, Yog-Sothoth, Shub-Niggurah e muitos outros são nomes que conjuram horror no coração do homem, mas nenhum deles se aproxima de Nyarlathotep no que diz respeito ao alcance e importância.

Diferente de todos os outros Deuses Exteriores, Nyarlathotep sempre se encontra próximo e acessível. Ao erguer os olhos para os céus em adoração, ao se deixar dominar pelo absoluto desespero, ao sentir os dedos gotejantes da insanidade tocar a mente, o homem é capaz de ouvi-lo sussurrando suas promessas. Há uma espécie de comunhão. Ele é nosso companheiro na jornada existencial e se um dia os enigmas de toda criação nos forem revelados, estes serão proferidos pelos seus lábios.  

O Caos Rastejante

O Poderoso Mensageiro. 

A Alma e Coração dos Deuses.

Nyarlathotep representa a consciência perdida dos Deuses Exteriores. Ele é o espírito daqueles colossos cegos e idiotas, que não tem noção de seu próprio poder. Nyarlathotep é quem supre as Cortes superiores, fazendo as vezes de agente da vontade do grande Azathoth. O Sátrapa que atende sua vontade e canaliza seus poderes. Segundo alguns teóricos do Mythos, o Caos Rastejante seria a personificação das faculdades mentais e telepáticas dos Deuses, arrancadas de seus corpos e reunidas em um único ser.


No tétrico compêndio chamado Necronomicom, Abdul Al-Hazred reputa a Nyarlathotep o papel de Grão-Vizir da Corte Mefítica, tamanha sua importância. Sem sua intercessão, as forças primais perderiam o controle e os pilares do universo sofreriam danos irreparáveis. Desabariam sobre si mesmos, rasgando todo o tecido da realidade e arruinando o universo em sua totalidade. "Ironicamente, sem Nyarlathotep, o Caos Rastejante, a Ordem do Universo se fragmentaria", sublinha um trecho do livro blasfemo.

Acredita-se que Nyarlathotep habite algum plano metafísico próximo da Corte de Azathoth, talvez uma dimensão ou possivelmente o espaço inter-dimensional adjacente ao Centro do Universo. Ele é capaz de pressentir as menores necessidades dos Deuses e em um átimo, se teleporta para a Corte afim de aquiescer e cumprir com sua vontade. Esse papel não é de submissão, Nyarlathotep não é um servo e sim um Arauto investido com a chancela dos Deuses Exteriores. O que ele decide, está decidido, em nome das forças primais da existência.  

Se um planeta deve morrer, se uma realidade precisa se desfazer, se uma estrela há de se extinguir ou nascer, é Nyarlathotep quem providencia para que isso ocorra. Se as sementes dos Grandes Antigos precisam fertilizar algum recanto do universo, é ele quem as lança, planta e colhe. Tamanha é sua autoridade que nenhum outro Deus ousaria ficar em seu caminho. Nem mesmo Yog-Sothoth que representa o Tempo/Espaço ou mesmo Shub-Niggurath que personifica o Ciclo da Vida, podem se interpor diante de Nyarlathotep quando ele está cumprido alguma missão. Seu acesso aos caminhos do espaço e tempo são irrestritos, bem como sua autoridade sobre a vida e a morte.

O Caos Rastejante segundo alguns também cumpre o papel de intermediário entre os Grandes Antigos. Cabe a ele ouvir, pesar e decidir. Como uma espécie de mediador, sua função é resolver contendas com um poder de decisão irrevogável. Ao longo das eras, mais de um Grande Antigo foi extirpado da existência, simplesmente por afrontar o julgamento de Nyarlathotep. Suas relações com os Grandes Antigos podem variar enormemente, espelhando respeito, amizade ou amarga rivalidade. Cthugha, a Chama Viva que arde na estrela de Formauhaut é um inimigo declarado, Hastur é tratado como um valoroso aliado, enquanto o Grande Cthulhu mantém com Ele uma relação de neutralidade tácita. Quando Nyarlathotep é convocado para uma disputa, é impossível prever as consequências do seu envolvimento.


Alguns Cultos assumem que Nyarlathotep também faz as vezes de mensageiro entre os mortais e os Grandes Antigos. Isso ocorre em face de uma antiga crença de que os primeiros cultos surgiram graças a Nyarlathotep. Teria sido ele quem apresentou os Deuses para a humanidade. Ele teria estabelecido a ponte entre o inconsciente coletivo humano, instalando nele a necessidade de crer em forças superioras. Os Mi-Go possuem em seu complexo sistema de crenças um fundamento bastante semelhante, através do qual seus deuses teriam sido trazidos a eles por intermédio do Caos Rastejante. Os Yithianos, por sua vez, ainda que puramente lógicos, acreditam que quando lançaram sua mente através do tempo pela primeira vez, contataram o Mensageiro e este foi responsável por mostrar a eles a extensão do universo. Por sua influência, Nyarlathotep é conhecido e temido por todas as espécies do Mythos, e ocasionalmente exige coisas delas.

A característica que diferencia Nyarlathotep de qualquer outra entidade do Mythos diz respeito ao seu interesse por formas de vida inferiores. Enquanto é comum todas as divindades cósmicas compartilharem de uma inerente indiferença para com as formas de vida menores, Nyarlathotep demonstra para com estas algo que pode ser compreendido como curiosidade. Algo na simplicidade e dessas criaturas o fascina a ponto Dele desejar compreendê-las mais à fundo, passar com elas tempo e explorar suas possibilidades. O contato, entretanto, raramente é benéfico. A atenção de Nyarlathotep é uma maldição, pois seu envolvimento geralmente acarreta em revez, tragédia e pesar. Como um cientista se debruçando sobre a dinâmica de uma colônia de cupins ou de um formigueiro, Nyarlathotep busca respostas para suas perguntas, empregando testes que o satisfaçam. Ele pode criar situações e introduzir elementos que conduzem à extinção das formas de vida observadas, apenas para saber como elas reagem diante de determinado cenário. 

A devoção de Nyarlathotep em buscar outras formas de vida o levou a explorar os recantos mais distantes do universo, sempre a procura de algo que possa atrair sua atenção. Vasculhando essa vastidão, ele obviamente teve um vislumbre da humanidade, e à ela, devotou especial interesse.

Além de ter despertado na mente humana a fagulha que conduziu à reverência de entidades portentosas invisíveis, o próprio Nyarlathotep decidiu se apresentar como um Deus a ser venerado em nosso planeta. Para isso, ele assumiu incontáveis formas através de avatares, cada qual adaptado aos anseios e desejos de diferentes povos e tradições. Cada um deles, é um disfarce, uma Máscara, atrás da qual ele se oculta para promover seus experimentos e tirar suas conclusões. Muitos deuses e divindades do passado humano, honrados com sacrifícios e celebrações, por intermédio de rituais e festividades, não são outro senão aspectos do Caos Rastejante disfarçado. São tantas formas diferentes que os cronistas do Mythos atribuíram a Nyarlahotep 999 faces pelas quais ele se manifesta quando é de sua conveniência.


Diferentes povos e civilizações conheceram Nyarlathotep através desses disfarces e diante dele se curvaram em adoração. Por vezes, o Caos obteve as respostas que desejava e simplesmente permitiu que seus avatares se apagassem da existência, caindo no esquecimento, mas em outras oportunidades ele nutriu o interesse humano e renovou os laços com seus cultistas através de milagres e portentos. Nas pirâmides astecas ele se apresentou como Tezcatlipoca, assim como foi Thoth e Set para os Antigos Egípcios, representou o papel de inúmeras divindades solares no oriente, foi muitos deuses no sub-continente indiano, ocupou o Monte Olimpo como o tempestuoso Zeus dos helênicos, vestiu-se como o Homem Verde dos Celtas, incorporou o severo Odin dos Nórdicos e assumiu outras tantas identidades divinas ao longo das eras. 

O célebre Ludwig Prinn em seu De Vermiis Mysteriis o chamou de "Olho que tudo vê", aquele que determina o caminho da civilização e a encoraja a dar os passos que a levarão até sua destruição.  Mesmo hoje, em tempos mais cínicos, Nyarlathotep ainda mantém muitas de suas máscaras, a maioria delas reverenciadas por seus seguidores. Algumas destas crenças progrediram até se tornarem religiões e como tal se difundiram por todos os continentes. São crenças quintessenciais que guiam e arregimentam milhões de seguidores. A Lenda de Nospey, uma fábula que relaciona o Caos com os dogmas do Cristianismo foi responsável por muitas discussões ao longo dos séculos. Não há como saber ao certo quais deuses são aspectos do Caos Rastejante e essa talvez seja sua maior pilhéria com a humanidade.

É certo afirmar que cultos devotados ao Deus Exterior ainda proliferam no submundo, escondidos nas sombras e praticados na calada da noite. Eles atraem almas perdidas e desesperadas que vêem nessas congregações blasfemas a resposta para suas aflições. Nyarlathotep abraça à todos sem distinção, adula e consola, oferece cura e perdão, ao menos até perder o interesse por estes seres cuja existência lhe é irrisória. A seguir, ele consome estas mesmas almas sem qualquer piedade. Sua atenção é transitória, como uma criança vã que perde o interesse por brinquedos usados e os lança no esquecimento assim que encontra outro que lhe pareça mais atraente.


Em tempos mais recentes, Nyarlathotep parece ter demonstrado interesse em explorar outras áreas além da fé humana, estendendo sua influência através do campo do ateísmo, materialismo e outras correntes filosóficas. Ele plantou ideias e deixou que estas povoassem a mente de profetas e pensadores, dando início a regimes e doutrinas. Em sua busca, ele se apresentou ainda como um promotor da ciência, da tecnologia, da descoberta e do progresso. De tempos em tempos, ele oferece à pessoas selecionadas algum portento. Assim como no passado oferecia magias e dádivas místicas aos seus seguidores, agora concede máquinas e tecnologia avançada. Com esses presentes, Nyarlathotep fomenta transformações na estrutura da sociedade e observa as repercussões com renovado interesse. O saber que nos permite gerar energia, compreender o funcionamento do universo e partir o átomo provavelmente se devem à influência de Nyarlathotep. 

Não por acaso, muitas dessas intromissões nos levaram a um passo da extinção. Os presentes concedidos pelo Caos Rastejante invariavelmente trazem loucura para aqueles que os detém. Nyarlathotep tem imenso prazer em assistir essas vítimas destruírem a si próprias e aos que estão ao seu redor. Entretanto, ele não busca somente a morte e a destruição, pois a loucura e a perdição são um desfecho muito mais satisfatório. Seu interesse na raça humana pode ser descrito como peculiar. Há algo em nosso espírito que o agrada.

Alguns teóricos supõem que essa afinidade se deve ao fato de Nyarlathotep ter, de alguma forma, nos moldado, fazendo com que sejamos para ele especialmente maleáveis e suscetíveis à sua vontade. Talvez isso demonstre também por que ele se sente tão à vontade em usar disfarces que tem a forma humana. Nenhum outro Deus demonstra prazer em andar entre os homens, visitá-los e observar o que fazem. Mais prazer ainda ele obtém ao perverter, ludibriar e enganar os humanos com promessas vazias que levam à obliteração. Não é por acaso que muitas religiões e crenças reputam a avatares de Nyarlathotep a face do engodo, da zombaria e, é claro, da maldade. O mesmo Ludwig Prinn cogitou que o conceito do demônio judaico-cristão teve como base o Caos Rastejante. 


O experimento com a raça humana ainda parece entreter Nyarlathotep e talvez seja apenas isso que impediu nossa aniquilação em momentos cruciais da história. Ainda que pragas, desastres naturais, guerras e genocídio tenham um dedo do Deus, nenhuma dessas tragédias se provou permanente... ao menos até agora.  Na aurora de uma nova era quem pode dizer quanto tempo ainda temos?

Seja lá qual for a resposta, não resta dúvida de que será o Caos Rastejante quem no final dos tempos causará nossa completa destruição. Inúmeras profecias, muitas das quais escritas em livros profanos, estabelecem que Nyarlathotep surgirá nos dias finais da humanidade, "vestido de vermelho, conduzindo bestas selvagens que lamberão suas mãos". O Caos Rastejante visitará as maiores cidades erguidas pelo homem, fazendo incríveis demonstrações de ciência comparáveis a magia. Então, tremores serão sentidos nas cidades e a humanidade será sufocada por genocídio, guerra, doença e sofrimento sem igual. Quando Nyarlathotep decidir encerrar seu experimento na Terra, nada restará da humanidade e do mundo como conhecemos a não ser cinzas e um imenso cemitério. 

Em mais de uma ocasião, ele sinalizou com essa data crucial, conclamando os seus servos ao redor do globo a pavimentar o caminho que conduz ao apocalipse. Por pouco, seus planos não se tornaram realidade e se tal coisa não aconteceu foi por obra do acaso ou por um desejo dele próprio de sabotar os resultados e estender o experimento. É cogitado, entretanto que o Deus está se tornando cada vez mais cansado da humanidade e que a data fatal possa estar em breve sobre nós.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Dinastias do Horror - A Longa e terrível história do Egito dos Mythos


Se existe no mundo um lugar que seja ao mesmo tempo misterioso e fascinante, belo e perigoso, esse lugar é sem dúvida o Egito.

Nenhuma outra nação do mundo consegue invocar sobre si semelhante aura de magia. Envolto por milênios de história, por tradições imortais, costumes exóticos e crenças ancestrais, o Egito é uma terra de segredos. Lar de uma notável civilização que parece deter o poder de nos surpreender com seu modo de vida, sua sabedoria e seus conhecimentos.

O Egito sempre foi uma Terra enigmática. Embora arqueólogos, estudiosos e cientistas se inclinem sobre suas grandes façanhas há tempos, a verdade é que ainda sabemos apenas uma fração a respeito de suas realizações. Escondido nas areias, há muito mais aguardando ser descoberto e devolvido à superfície.

No Universo do Mythos de Cthulhu, a importância do Egito é considerável.

Se um dia existiu um lugar tocado pelo Mythos, este foi o Antigo Egito. Em seu território coberto por desertos inóspitos e oásis luxuriantes, rios caudalosos e deltas verdejantes, habitou um povo que parecia estar em contato direto com Deuses e Demônios de outras esferas além do Tempo e Espaço.

Em sua homenagem, habilidosos arquitetos idealizaram inacreditáveis monumentos de pedra, erguidos pelo labor de milhares de escravos comandados sob o estalo de chicotes. Eram construções de engenhosidade nunca vistas na face do planeta, erigidos com o propósito de honrar as divindades e elevar o espírito humano. Milhares de anos depois de edificados, continuam lá, desafiando o tempo. Eles são como um testemunho da capacidade de realização humana, mas também uma demonstração de força, opressão e devoção cega.


A história obscura dessa região se inicia muito antes dela assumir o nome Egito.         

Há cerca de 17,000 anos atrás, o Reino mítico da Estígia foi fundado. Ele foi fortemente influenciado pela cultura do Povo Serpente que migrou da escura Valúsia, devastada por um cataclismo. O Povo Serpente ensinou a uma casta elevada de humanos que se tornariam Reis os seus costumes e tradições. Mais do que isso, compartilharam seus rituais e magia. Sacerdotes e feiticeiros serviam ao Deus Serpente Set. Nos templos com colunas e pilares de basalto, nas câmaras profundas e escuras, sacrifícios eram realizados impunemente. Nós podemos apenas agradecer por não existir mais nenhum bruxo da antiga Estígia andando entre nós, pois se houve um tempo no qual homens comungaram intimamente com horrores inenarráveis, foi este. Quase todos os artefatos dessa Era obscura foram destruídos ou estão perdidos, mas de tempos em tempos, algum tesouro ressurge para nos recordar desse período horripilante.

A magnífica Estígia foi destruída, vítima de novos cataclismos, rebeliões e de sua própria sede de poder. Seus templos, palácios e cidades desapareceram, mas de suas cinzas ergueu-se um novo Império supostamente livre da mácula de seus antepassados. Chamaram esse novo Reino de Khem, e enorme foi sua influência sobre o mundo.

Orgulhoso e majestoso, o Reino de Khem despontou como uma das grandes nações do Mundo Antigo, conquistando seus vizinhos e os submetendo ao seu poder. Mas ele estava condenado desde o início. Novas monstruosidades desceram das estrelas e se aninharam aos pés do Trono Imperial de Khem. Elas se entranharam na Família Real e no seio dos clãs aristocratas, contaminando seu sangue com o germe da loucura e adoração ímpia.

Cerca de 12,000 anos atrás, uma batalha mística foi travada, ninguém mais sabe por quais razões. Diferentes facções de feiticeiros colidiram quando seus interesses falaram mais alto e ambições foram alçadas às alturas. No fim, o Reino acabou varrido por esse feudo sangrento e as terras férteis foram devastadas. O que restou se transformou em deserto e desolação.


O Velho Egito nasceu das cinzas de Khem. 

Em um determinado momento, ele também parecia limpo da influência pérfida do Mythos. O povo altivo do Delta do Nilo formou uma Civilização avançada, mas o progresso acabou atraindo uma vez mais a atenção dos horrores que observam além dos umbrais. Homens ouviram as palavras sussurradas além do portal e convidaram esses seres profanos a se aproximar. 

Os Faraós foram responsáveis por erguer o Egito Antigo, mas haviam Dinastias malignas interessadas em reviver os antigos costumes. O mais temível deles foi Nephrem-Ka, que se tornaria conhecido como o Faraó Negro. Muitos estudiosos concordam que ele foi o último Faraó da Terceira Dinastia. Conta a lenda que Nephrem-Ka era um poderoso feiticeiro, o maior de todos os Reis-Bruxos que governaram a Terra do Nilo.

Ele trouxe de volta das sombras os Deuses da quase esquecida Estígia, reerguendo templos em escombros e abrindo as ruínas proibidas que haviam sido reclamadas pelas areias do deserto. De seu interior pérfido resgatou estátuas monstruosas, papiros com conhecimento perdido e artefatos perigosos da Estígia e de Khem. Seu pacto com as trevas foi assinado na Cidade Perdida de Irem onde ele teve o primeiro contato com os Deuses de outrora. É creditado a ele ainda a descoberta do Trapezoedro Brilhante, um artefato de eras anteriores ao próprio homem. 

Nephrem-Ka foi o responsável por invocar uma vez mais aquele que seus sacerdotes chamavam de "A Grande Fome que habita o Vazio", um dos antigos nomes de Nyarlathotep. Após invocar o Caos Rastejante, o Egito, para sempre estaria associado a ele. Interessado nas inúmeras possibilidades oferecidas por nossa espécie, o Deus Exterior atendeu à súplica do Faraó Negro e abriu os portais. Com pompa e circunstância retornou à Terra e após sua chegada nada mais seria como antes.


Sua vinda mudou o Egito, e não é exagero algum afirmar que a história humana foi alterada para sempre pela sua presença. Seus lábios sussurraram magias e portentos para os que desejavam ouvir. Suas mãos trouxeram presentes aterradores. De sua adoração adveio a tragédia e o genocídio sem igual.   

Houve grande medo entre o povo do Egito em face dessas transformações, e isso incitou a população a se revoltar. No fim, Sneferu, o fundador da Quarta Dinastia que recebeu as bençãos da Deusa Isis, prevaleceu sobre o Faraó Negro. Nephrem-Ka tentou escapar na direção da Costa onde ainda contava com aliados. Mas seus adversários o alcançaram próximo de onde hoje se encontra o Cairo. O Faraó maligno e seus seguidores foram passados no fio da espada e seus restos enterrados em local ignorado afim de que fossem esquecidos.

Uma das primeiras medidas de Sneferu foi ordenar que o nome do Faraó Negro fosse apagado de todos os registros. A ordem foi cumprida e muitos monumentos foram transformados em pó para que com eles o nome do Faraó também sumisse. Mas apesar dos esforços, ele não foi totalmente esquecido. Alguns lembravam do Faraó Negro e temiam o seu nome. Com o tempo, alguns passaram a considerar que ele e seu patrono, Nyarlathotep, fossem até a mesma entidade.

Há também rumores de que alguns servos devotados de Nephrem-Ka se voluntariaram para ser enterrados com seu mestre. Eles foram sepultados na tumba ainda vivos. A entrada foi então lacrada com os selos de Sneferu. Os seguidores teriam talhado nas paredes internas da tumba a história de seu mestre, aguardando que alguém descubra esse lugar maligno e torne o nome do Faraó Negro conhecido uma vez mais. Segundo alguns, quando a tumba for encontrada, as palavras contidas nessas paredes servirão para despertar o Faraó Negro o que dará início a uma nova dinastia de poder e feitiçaria.

Depois que Nephrem-Ka foi destronado, as areias do tempo continuaram escoando através da ampulheta e o Egito continuou se transformando. Nyarlathotep aos poucos foi se afastando e partiu em busca de outros territórios onde pudesse plantar as sementes de seu irrefreável Caos. Contudo, ele jamais se afastou inteiramente do Egito e sua presença lança uma sombra sobre a Terra dos Faraós.


O Faraó Negro não foi o único governante do Delta do Nilo a lavar o deserto com sangue. Na história obscura do Antigo Egito figuram ainda outros personagens abomináveis.

Digna de destaque é a pérfida  Rainha Nitocris, em cujas veias corria o sangue dos carniçais. Ela governou o Egito na Sexta Dinastia e sob seu jugo, os Devoradores das Profundezas se fartaram, roendo avidamente os ossos dos mortos e devorando a carne dos inocentes. Nitocris tinha uma notável habilidade como feiticeira e como tal, construiu artefatos que ainda existem e que aguardam serem descobertos nas profundezas das tumbas onde foram deixados.

Mesmo o Grande Faraó Akhenaton, cujos feitos persistem na história flertou com o poder do Mythos. Durante a Oitava Dinastia, Amenhotep IV (que depois adotaria o nome Akhenaton) teria invocado o espírito de Nephrem-Ka e este o instruiu a patrocinar a criação de uma Seita secreta. Estes seguidores fiéis chamavam a si mesmos de Irmandade do Faraó Negro e juravam eterna lealdade a ele. A confraria nasceu no Egito, mas ganhou força depois de se instalar nos pântanos ao sul, no atual Sudão.

O Alto-Sacerdote Nophru-Ka viria muito mais tarde na XIV Dinastia. 

Os primeiros que identificaram sua influência o chamaram de Profeta Louco e tentaram repelir suas palavras eivadas de maus agouros. Mas ele conseguiu conquistar cada vez mais influência em uma Sociedade que batizou A Irmandade da Besta. Suas palavras doces atraíram milhares de homens que formaram legiões de fanáticos dedicados a incendiar o Egito nas chamas da adoração cega. Ele promoveu muita destruição, conjurando para nosso mundo hostes de Horrores Caçadores vindos das estrelas; além de outras coisas nefastas que voavam, corriam e se arrastavam pelas areias. Muito sangue foi derramado na infame rebelião de Nophru-Ka que muitos acreditavam ser a encarnação do Faraó Negro. Como tal, ele planejava retomar o Culto de Nyarlathotep.


Felizmente, o Faraó que estava no poder, enviou assassinos para rastrear o paradeiro do Profeta e exterminá-lo. Nophru-Ka foi degolado enquanto meditava diante de um altar profano imerso em sonhos produzidos pela lótus negra. Seus seguidores desmoralizados membros da Irmandade da Besta partiram em um auto-exílio que os levou até as ruínas de G'harne no Mali. Lá essa linhagem profana ainda existe e segundo profecias está fadada a promover o Fim dos Tempos para vingar seu mestre e senhor.

Em tempos "mais recentes", o Egito perdeu parte de sua preponderância e foi suplantado por povos e culturas diversas. Os gregos, os romanos, os povos da Europa conquistaram a orgulhosa Terra dos Faraós e enfim conseguiram submetê-la à sua vontade. Como diz o ditado "todos poderosos, um dia tombam" e com o Majestoso Egito não foi diferente. Mas será que alguém realmente é capaz de se julgar Senhor dessas terras? 

Com o tempo, a influência do Mythos também parece ter se arrefecido.

O Egito não é mais uma Nação governada pela palavra dos antigos. Entretanto, engana-se quem pensa que eles se foram ou que sua influência nessas paragens terminou. Ao que parece, essa porção do planeta jamais perderá a importância para essas entidades e é provável que, no dia em que decidirem tomar o que é seu por direito, seja lá que sua conquista terá início.

A nós cabe esperar, e temer...

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Lugares Estranhos: O lendário Labirinto Egípcio - Segredos capazes de mudar a História


Não há dúvida de que o Egito seja uma terra de profundos mistérios, ocultos por um manto de segredos milenares. É uma terra de fascínio, repleta de magníficas ruínas, colossais monumentos, tumbas imersas em sussurros, maldições e encantamento. O Egito atrai a atenção de arqueólogos e desperta a curiosidade de pessoas comuns há séculos, mas se há uma grande verdade a respeito desse lugar, é que ainda existem muitos segredos enterrados nas areias do deserto esperando serem desvendados.

Um desses alegados segredos é uma vasta rede de túneis e passagens subterrâneas conectando câmaras e aposentos esquecidos há séculos. Citado em alguns textos antigos e outros modernos, ele guardaria em seu interior um tesouro de conhecimento milenar que, se de fato existir, poderia mudar para sempre a história da humanidade.

O quase mitológico complexo perdido é chamado simplesmente de "Labirinto". Batizado assim pelos antigos gregos. O local seria o equivalente à lendária construção idealizada por Dédalus para o Rei Minos de Creta com o intuito de hospedar o horrendo Minotauro. Composto por uma rede de túneis, salas, templos, prédios, capelas, passagens, acessos, pátios e câmaras que totalizam centenas de aposentos era fácil se perder nesse lugar. Mais do que um feito de engenharia e arquitetura, o Labirinto serviria a outra importante função: ser uma espécie de depósito para papiros, placas, pinturas, estátuas, objetos de arte e tesouros pertencentes aos antigos Faraós. 

Esse fantástico lugar foi descrito pela primeira vez pelo historiador grego Heródoto, quem muito provavelmente deu ao lugar o nome Labirinto. Heródoto o cita no segundo volume de seu livro "Histórias", escrito no século V a.C. No texto, o grego afirma ter sido levado até esse palácio onde conheceu sua extensão e pode constatar sua grandeza. 


Ele escreveu a respeito do Labirinto Egípcio:

"Os doze Reis do Nilo resolveram reunir todos seus maiores tesouros em um único lugar e criar um memorial para si próprios; e tendo decidido tal coisa, ordenaram a construção do monumento chamado Labirinto. Situado pouco acima do Lago Moiris, à sombra de uma pirâmide e na margem oposta ao local conhecido como Cidade dos Crocodilos. Eu o vi com meus próprios olhos e é difícil encontrar palavras capazes de descrevê-lo. Se todos os grandes trabalhos e prédios erguidos pelos helênicos fossem reunidos em um único lugar, ainda assim se mostrariam inferiores em trabalho e valor do que aquilo reunido no Labirinto. Seu tamanho e significado tornam qualquer outro monumento menos imponente.      

As pirâmides são lembradas como a maior façanha do Egito, mas ainda que impressionantes, não se comparam ao magnífico Labirinto. Ele é formado por doze cortes acessadas através de enormes portões, seis voltados para o norte e seis para o sul. Estes conduzem até vastos salões abobadados, dotados de paredes esculpidas e ricamente adornadas. Elas se espalham por duas área distintas com câmaras superiores e um complexo subterrâneo conectado por escadas e rampas.   

Conheci as câmaras superiores e exploramos o local sendo conduzidos através delas pelos nossos guias, mas não nos foi permitido ver os subterrâneos. Os egípcios disseram que era proibido visitar o complexo inferior e tudo que sabemos dele veio através de terceiros. Relataram que lá ficavam os sepulcros dos reis que construíram o Labirinto e seus crocodilos sagrados. Também ocorriam nessas câmaras reuniões políticas com dignatários e importantes rituais religiosos.

As passagens e câmaras superiores, levavam às cortes, que tinham admirável decoração com incontáveis maravilhas e elaboradas galerias de arte. O teto dessas câmaras era feito de pedra, assim como as paredes adornadas por figuras e o teto dotado de pinturas de rara beleza. Cada corte possuía pilares de granito branco reluzente e grandes estátuas talhadas diretamente na pedra. O que nos causou mais espanto foi a beleza do Lago Moiris, que ladeava a construção com suas águas azuladas".


Embora essa incrível descrição deita por Heródoto seja o relato mais conhecido e provavelmente o mais famoso, ele não é o único. Outros historiadores e autores ao longo das eras mencionam o complexo e rendem  ele elogios. Acadêmicos ilustres como Manetho Aegyptiaca (do século III a.C), Diodorus Siculus (Século I aC), Strabo (64 aC – 19 dC), Plínio (23 – 79 dC), e Pomponius Mela (43 dC), estão entre os que teriam vistado o Labirinto. Muitos deles forneceram descrições detalhadas do complexo que colocam em cheque a noção de que ele não teria existido. Muitos destes autores fazem persistentes menções ao tamanho e extensão da construção, referindo-se ao Labirinto como uma das maiores obras de engenharia do período. Com incontáveis túneis, acessos, rampas e escadarias ele seria uma obra majestosa e impressionante.

Os tesouros do Labirinto também mereceram destaque na pena de autores que os descreveram como coleções riquíssimas de obras de arte, estatuário, peças de ouro e prata, além de um vasto acervo de papiros com conhecimento coletado ao longo de séculos pelos maiores sábios do Império A descrição do historiador grego Diodorus Siculus, dá o tom:

"Quando adentramos o recinto sagrado, descobrimos que o templo possuía nada menos do que 40 colunas de cada lado responsáveis por sustentar o teto entalhado. As paredes possuíam painéis onde brilhavam pinturas de excelente qualidade. Eles continham memoriais sobre os Faraós, destacando os maiores feitos de cada monarca em seu período de regência. As pinturas eram tão impressionantes que nos detivemos para admirar a habilidade dos artistas capazes de criar tamanha beleza".  

À despeito de todos esses relatos feitos por historiadores ilustres, o Labirinto do Egito foi muitas vezes encarado como uma lenda ou mito sobretudo porque sua localização jamais foi determinada. Isso, contudo não impediu que muitas pessoas tenham procurado por ele ao longo dos séculos. O que torna tudo muito complicado é o fato de haver poucas informações sobre sua possível localização. Tudo o que se tem são indícios e pistas, muitas vezes dúbias. 


Heródoto, o responsável pela descrição mais completa diz apenas que o Labirinto ficava próximo do Lago Moiris e oposto a Cidade dos Crocodilos à sombra de uma pirâmide, o que é deveras vago. O Lago Moiris é um antigo corpo de água potável localizado a aproximadamente 80 quilômetros ao sul do Cairo e que ocupa uma área de 1700 quilômetros quadrados. Hoje ele é chamado de Birket Qarum, e funciona como reservatório para abastecimento da capital do Egito, mas na época do Egito Antigo ele era muito maior. A mítica Cidade dos Crocodilos correspondia a uma área pantanosa que os répteis usavam como refúgio, sobretudo na época do acasalamento, sua localização exata é muito debatida. Com base nessas parcas informações determinar onde ficava o Labirinto é tarefa complexa, mas apesar dessas poucas informações, várias expedições foram organizadas com o objetivo de encontrar o Labirinto.

Uma das tentativas mais sérias já na Idade Moderna, ocorreu em 1842, com uma equipe de arqueólogos, exploradores e aventureiros reunidos pelo Rei Friedrich Wilhelm IV da Prussia. A equipe, liderada pelo arqueólogo Richard Lepsius, acreditava que a pirâmide mencionada por Herodoto poderia ser a Pirâmide de Amenemhat III localizada na região de Hawara, e que a Cidade dos Crocodilos poderia ser na cabeceira de um estuário do Oásis de Faiyum. Com essa teoria em mente, eles se concentraram em cobrir essa região. 

A expedição afirmou ter tido sucesso depois de encontrar as ruínas de uma vasta estrutura com grandes colunas que poderia ser a entrada do Labirinto. As ruínas ficavam próximas dos restos de um lago artificial e que seria parte integrante do antigo Moiris. Infelizmente as escavações conduzidas por Lepsius não resultaram na descoberta de nenhum acesso subterrâneo. Curiosamente o sítio foi abandonado e esquecido por décadas, até que uma segunda expedição alemã em 1922 confirmou que as ruínas não se tratavam do mítico Labirinto, mas de um templo.    

Em 1888, o famoso egiptólogo britânico Flinders Petrie conseguiu um mapa que supostamente mostrava a localização do Labirinto. O local era ironicamente bastante próxima a que foi escavada pelos alemães. A descoberta, no entanto, se provou ser um antigo assentamento romano do século primeiro. Petrie retornou ao Egito em 1893, concentrando seus esforços em uma área próxima onde afirmou ter encontrado um colossal complexo de pedra que ele julgou ser parte do Labirinto. De acordo com Petrie essa massiva construção media mais de 300 metros de comprimento por 250 de largura e estaria enterrada a 3 metros de profundidade. Infelizmente toda área fazia parte de uma antiga pedreira existente há pelo menos quatro séculos e que havia sido sistematicamente dilapidada. Após seis meses de escavações, os patrocinadores da expedição abandonaram a empreitada diante da ausência de descobertas expressivas.

Várias expedições internacionais tentaram buscar o Labirinto em outras áreas e sítios que foram escavados ao longo de todo o século XX. Infelizmente elas falharam em seu objetivo. 


Mais recentemente uma expedição lançada em 2008 por um grupo de pesquisadores belgas e egípcios, liderada pelo arqueólogo Louis de Cordier, viajou para a região com o objetivo de seguir as indicações de Petrie. Eles tinham como alvo o sítio descrito por Flinders Petrie. O esforço batizado de Mataha Expedition realizou escavações nas proximidades da Pirâmide de Harawa e alegou ter encontrado evidências de uma estrutura maior soterrada. Usando tecnologia geológica avançada eles localizaram sinais de câmaras, salas e túneis, além de paredes grossas que evidenciavam uma construção notável. Embora a existência de canais subterrâneos e corpos de água possam interferir nas leituras, muitos acreditavam que os radares de profundidade encontraram algo importante. Poderia ser o lendário Labirinto Egípcio?

Os resultados obtidos pela Expedição Mataha foram oficialmente divulgados e publicados em importantes jornais Científicos e chegaram ao meio acadêmico com grande entusiasmo. Foi então que a Secretaria-Geral do Conselho de Antiguidades, órgão máximo que fiscaliza as escavações no Egito, subitamente pôs fim às escavações. A medida arbitrária causou enorme estranhamento e protestos entre os acadêmicos, pois não foi dada uma explicação para a suspensão das operações. Toda a equipe envolvida foi dispensada e as licenças para escavação revogadas. O ato causou grande estranheza e deu início a uma série de teorias conspiratórias, algumas afirmando que o governo não desejava que estrangeiros fizessem a descoberta do Labirinto.

A área da escavação foi isolada e hoje permanece inacessível, sendo vigiada por militares que impedem a entrada de pessoal não-autorizado. Um protesto oficial foi feito em 2010, para que a área fosse aberta novamente para pesquisas, mas o Governo Egípcio negou todos os recursos. De fato, o único comunicado do governo foi emitido 2012, afirmando que nada de importante havia sido encontrado e que o sítio no entorno da Pirâmide seria fechado até segunda ordem.

Teóricos de Conspirações acreditam que o Egito confirmou a existência do Complexo e que pretende manter sua existência em segredo até ser capaz de realizar, por conta própria, escavações que os conduzam ao interior do Labirinto. Os tesouros inestimáveis e as revelações lá dentro justificariam essa medida protecionista.   


Não ficou claro se algo realmente foi achado ou se a Expedição Mataha chegaria ao cerne da questão e encontraria a entrada do Complexo. Entretanto, o fechamento das operações e as severas medidas de segurança visando impedir todo e qualquer acesso, contribuem para a narrativa de que uma mega-operação governamental de acobertamento está em curso.

Enquanto isso, o Labirinto do Egito permanece como um mistério insondável. Em seu interior estariam segredos que supostamente mudariam nossa visão da história e do próprio mundo em que vivemos. O que estaria escondido nas câmaras enterradas e nos depósitos subterrâneos? Que descobertas foram preservadas ao longo das eras? Será que um dia teremos as respostas para essas perguntas? Será que ele de fato existe? 

Por enquanto, ninguém é capaz de dizer... 

As respostas estão enterradas nas Areias do Tempo.