sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Malditas aranhas! - A Força Aérea Brasileira contra as aranhas

Dia desses eu estava lendo o jornal e me chamou a atenção uma notícia que mais parecia ter saído de uma aventura de Call of Cthulhu.

A matéria falava de uma infestação monstruosa de aranhas que havia tomado de assalto uma ilha na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. O artigo comentava que há exatos 50 anos a Força Aérea tivera de ser convocada às pressas para combater essa colônia de aranhas que ameaçava (pasmem!) a cidade inteira.

Curioso à respeito, dei uma pesquisada aqui e ali. O caso era mais estranho do que se poderia imaginar.

No início da década de 50, o Governo Federal decidiu iniciar a construção das instalações que deveriam hospedar o campus da Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ). O projeto contemplava a criação de uma ilha artificial criada a partir do aterro de um arquípélago composto de oito pequenas ilhotas. A medida que o aterro ia sendo transportado, a massa nomeada de Ilha do Fundão começava lentamente a tomar forma.

A ponta da ilha, que correspondedia a antiga Ilha do Catalão, era mais isolada e dominada por pântanos de água salgada, vegetação fechada e um mangue de lama preta sem fim, ideal para apanhar caranguejo. Hoje em dia ali fica uma reserva ambiental administrada pela UFRJ, mas na época tudo o que existia era um modesto vilarejo de pescadores localizado em um trecho ao longo da praia.

Em Maio de 1961 chegaram as primeiras informações à respeito de vizinhos incômodos que habitavam os charcos. Dois pescadores haviam sido picados por aranhas enquanto lançavam suas redes em uma lagoa de água salgada em busca de camarão cinza. Uma mulher também havia sido picada enquanto cortava caminho por uma estrada precária que cruzava o mangue. Uma criança caiu febril depois que uma aranha se escondeu nas dobras de sua roupa. A despeito do que se falou na época não houve vítimas fatais, mas é fato que as pessoas tiveram sorte de serem tratadas imediatamente.

Os especialistas que socorreram as vítimas analisaram algumas aranhas que haviam sido capturadas e concluíram que se tratava de uma espécie conhecida como Latrodectus curacaviensis, apelidada de "flamenguinha" (por ter as cores do time carioca de futebol, o rubro negro pintado em forma de ampulheta no abdomen). A flamenguinha é uma parente distante da Latrodectus mactans, a famosa viúva negra, mas nem de longe tão mortal quanto sua prima mais famosa. Não obstante esses aracnídeos têm realmente uma picada venenosa.

Na época houve pouca repercussão do ocorrido. Os pescadores foram simplesmente aconselhados a tomar cuidado e se manter atentos contra os aracnídeos: usar sapatos e verificar suas roupas antes de vesti-las. Não podiam imaginar o que viria a seguir.

Em meados de Julho, uma comissão do povoado pediu ajuda a um conhecido repórter que tinha um popular programa de rádio na capital. Eles afirmavam que a situação na Ilha era insustentável e que o lugar fervilhava com uma infestação de aranhas como jamais havia sido vista. Interessado no caso, e farejando uma estória, o jornalista aceitou acompanhá-los até o local e munido de um fotógrafo registrou a situação. Segundo consta, milhares de aranhas haviam deixado o pântano e ameaçavam a vida dos pescadores colocando-os para fora de suas casas. A população de aranhas havia explodido: "Um verdadeiro tapete ambulante de insetos se arrastava pelo chão, pela praia, pelos casebres, em todo canto..."

A notícia correu pela cidade e logo mereceu destaque nacional. O Rio de Janeiro estava ameaçado pelas aranhas! Os boatos afirmavam que os aracnídeos tinham um veneno mortal (capaz de matar em poucos minutos) e num misto de pânico muitas pessoas afirmavam que seria questão de tempo até elas atravessarem a Baía de Guanabara chegando à cidade.

O medo fez com que o governo prometesse cuidar da praga e o então presidente Jânio Quadros decretou Guerra às Aranhas.

A ordem foi dada e a Força Aérea Brasileira foi incumbida de levar à cargo a missão. Armados com bombas incendiárias (o famoso Napalm largamente utilizado na Guerra do Vietnã), uma esquadrilha de jatos decolou da Base Aérea de Santa Cruz e se dirigiu para a Zona Norte do Rio em vôo rasante sobre a cidade. Sobrevoando a área despejaram um ataque devastador contra a ponta da ilha transformando a região num inferno de chamas e fumaça. Não satisfeito com o ataque, um batalhão do exército desembarcou na ilha (em uma verdadeira operação militar) munido de tanques de gasolina e lança chamas para incinerar os pântanos e matar cada aranha que encontrassem. Autoridades sanitárias vieram por último para esquadrinhar cada metro do mangue e declarar a vitória.

Com isso a batalha estava vencida... ou será que não?

Naquela época pouco se sabia dessa espécie de aranha. Mas uma peculiaridade curiosa a respeito das Latrodectus curacaviensis é que elas são capazes de se deslocar a grandes distâncias. Quando ameaçadas elas utilizam um método conhecido como balonismo que conciste de criar uma espécie de para-quedas feito de teia para flutuar usando correntes de ar. Uma aranha é capaz de usar uma corrente ascendente para flutuar e escapar de um perigo iminente. Quando o napalm caiu no solo matou milhares delas, mas também gerou um forte deslocamento de ar ascendente que carregou para o ar outras tantas aranhas em seus pequenos balões. O resultado foi que as flamenguinhas nativas daquela região se espalharam pela costa inteira, de Niterói até a Barra da Tijuca.

A desastrosa medida fez com que um zoólogo e especialista em aranhas chamado Herman Lent - entomólogo do Instituto Oswaldo Cruz - apresentasse um extenso relatório condenando a ação. Em sua opinião, o uso de inseticidas simples como o DDT teria surtido um efeito muito mais satisfatório com um impacto mínimo no ecossistema. Além disso, Lent deixou claro que o veneno da flamenguinha nem de longe era tão perigoso quanto afirmavam os boatos e que a população podia ficar tranquila. As previsões de Lent se concretizaram e não houve incidentes graves envolvendo as aranhas que passaram a ser vistas em toda a costa carioca dividindo espaço com banhistas sem causar problemas.

O episódio bizarro nos faz ponderar sobre os efeitos que o pânico exerce sobre a população de grandes centros urbanos e como medidas impensadas podem causar enormes danos ao invés de trazer soluções.

Em termos de jogo, fico pensando em uma infestação de Crias de Atlach-Nacha (a deusa Aranha dos Mythos) ou de Aranhas de Leng (grandes aracnídeos azulados que habitam a Terra dos Sonhos). Quais seriam as medidas tomadas pelas autoridades nesse caso? Melhor nem pensar à respeito...

3 comentários:

  1. ótimo, vai pros meus indicados da semana.

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  2. Mano, que história surreal! E escrever esse comentário sentado num laboratório na Ilha do fundão é mais ainda!

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