sábado, 7 de abril de 2012

Horrível Sincretismo - O Mythos e o Divino lado a lado

Com base no texto escrito por Bobby Derrie que assina como Ancient History.

A história das religiões ocupa uma parte essencial de nossa cultura.

Trabalhos religiosos e especulativos sobre o tema preenchem bibliotecas inteiras e as sagradas escrituras tem o poder de agir como lentes de aumento permitindo compreender quase tudo na vida... inclusive os Mythos de Cthulhu.

Enquanto muitos keepers podem se sentir pouco à vontade em adicionar elementos sobre religiões do mundo real em seus jogos, é importante lembrar que de um ponto de vista puramente histórico, religião faz parte do background do universo lovecraftiano. Foi o Patriarca Michael de Constantinopla quem queimou as cópias da versão grega do Necronomicon e foi o monge Olaus Wormius quem traduziu o mesmo livro para o latim. A Ordem de Dagon se estabeleceu em Innsmouth apenas depois de expulsar as igrejas cristãs. A perseguição às bruxas em larga escala na Europa e na América, a Inquisição, supostamente enfrentou cultos devotados ao Mythos além de eliminar bruxos e feiticeiros à serviço dessas forças. Estes são exemplos de acontecimentos religiosos narrados na obra de Lovecraft, outros autores são até mais generosos ao detalhar acontecimentos importantes e o Mythos.

O ponto chave desse artigo é usar a riqueza de informações oriunda das principais religiões do mundo e adicionar à elas elementos do Mythos. Em um mundo onde supostamente entidades, divindades e criaturas absurdas existem, seria inconcebível supor que em algum momento elas não tivessem cruzado o caminho das crenças humanas.

Este artigo apresenta uma série de artefatos, tomos e relíquias que se referem ao mesmo tempo ao Mythos e as Religiões organizadas da atualidade.

O Evangelho de Leng
O Novo Testamento canônico cristão não inclui todos os evangelhos escritos ou os documentos mais primitivos escritos no início da cristandade. A decisão final à respeito de quais livros deveriam ser considerados canônicos - e portanto serem inclusos na bíblia sagrada, foi pronunciada no Concilio de Trento em 1546. Muitos evangelhos, apocalipses, cartas e outros trabalhos perdidos foram deliberadamente excluídos do cânone, incluíndo todos os Evangelhos Agnósticos e os livros que supostamente explicavam a vida de Jesus entre o seu nascimento e o início de seu ministério.

Tais trabalhos circularam desde a aurora do cristianismo e se dissiminaram durante o Período Medieval, mas através dos esforços da Igreja Católica o cânone se tornou sacrosanto enquanto os evangelhos menores se tornaram obscuros, sendo em alguns casos proibidos ou destruídos. Apenas recentemente foram feitas descobertas sobre textos que até então pouco se sabia ou que sequer eram conhecidos. Coletivamente, esses trabalhos não canônicos são conhecidos como apócrifos.

O Evangelho de Leng é um destes documentos. Ele descreve a peregrinação de um homem santo para o oriente e sua exposição aos ensinamentos de religiões obscuras, menciona ainda a terrível jornada até o proibido Platô de Leng, e os mistérios blasfemos que ele aprendeu com os cultistas que habitam essa região insalubre. Ou assim está escrito.

O Evangelho de Leng não é totalmente claro, ele é composto por uma série de velhos manuscritos em aramaico misturado a uma forma de Naacal, e portanto apenas parcialmente traduzido. Ele teria sido descoberto por um missionário que entrou em contato com uma tribo Tcho-Tcho habitando a Ásia Menor. Esses Tcho-tchos acreditavam no Evangelho de Leng e haviam criado uma religião baseada em estranhas práticas cristãs pervertidas por medonhos rituais de canibalismo e sacrifício humano. O culto, considerado herético para os outros tcho-tchos teria sido aniquilado em meados do século XIX por tribos rivais. Trechos do documento foram ditados pelo missionário -- totalmente enlouquecido após passar anos na companhia dos tcho-tcho -- em seu leito de morte.

O conjunto de manuscritos descrevem a viagem até Leng de um homem-santo do oeste e seus estudos com os sacerdotes de uma estranha ordem. Ele relata sua iniciação no culto, como ele veio a dominar grandes poderes e como ele finalmente partiu de volta ao ocidente para cumprir seu destino. O nome "Jesus" não aparece em momento algum no manuscrito original. Os tcho-tcho provavelmente interpretaram erroneamente a identidade do peregrino, supondo que ele seria o messias cristão.

Não se tem notícia de manuscritos sobreviventes, mas as anotações feitas a partir dos devaneios do missionário cristão (jamais identificado) se encontram na biblioteca da Universidade de Milão, na Itália.

O Totem de Tsathoggua

Satanismo em momento algum da história foi uma religião organizada, trata-se de um culto que tenta deliberadamente imitar, ridicularizar e inverter o sentido das práticas da Igreja Católica. Rituais satânicos incluem a chamada "missa negra" que pretende ser uma versão pervertida da celebração católica. Conduzida sobre um altar nu, utilizando regalias religiosas roubadas e devidamente profanadas, o conceito da missa negra parece ter se enraizado no imaginário coletivo a partir da Idade Média. Elementos clássicos como gatos pretos, orgias, consumo de sangue, o desenho d epentagramas, a presença de bodes entre outros sinais, se tornaram sinônimo de consórcio com o inimigo de Deus e marca indelével desses cultos.

O Totem de Tsathoggua é um ritual do Mythos que foi inadvertidamente abraçado por cultos satânicos e adotado em celebrações dentro dessa tradição. O sapo é um dos símbolos de Tsathoggua, uma entidade amorfa reverenciada na antiga Hyperborea; satanistas na França medieval descobriram manuscritos que descreviam um ritual que envolvia a crucificação de sapos e assumiram que se tratava de uma forma de blasfêmia contra Cristo. Na verdade, o manuscrito descrevia um ritual cujo objetivo final era contatar o Deus Sapo.

O Ritual do Totem de Tsathoggua é uma variação da magia Contatar Tsathoggua que requer o apropriado sacrifício de um sapo ou outro anfíbio em um altar devidamente preparado. O animal é empalado com espetos de ferro ou crucificado com pregos em uma tábua. Outros participantes do ritual devem cantar palavras de poder que abrem os canais para a vinda de Tsathoggua.

Podemos apenas supor que a inseperada chegada de Tsathoggua deve ter causado surpresa aos primeiros satanistas que realizavam esse ritual sem saber das suas implicações. Posteriormente o foco de muitos destes cultos mudou, de Satã para Tsathoggua, quando os cultistas compreenderam a natureza do ritual. Isso explica porque o culto de Tsathoggua foi reavivado na europa ocidental do século XVI, desaparecendo posteriormente graças ao traballho da Inquisição. Em meados do século XVIII, um novo culto que honrava o Deus Sapo se instalou nos arredores de Amsterdam.

Manuscritos descrevendo o Ritual do Totem de Tsathoggua existem em Universidades e Museus da Europa. Sabe-se de exemplares em poder de instituições na Holanda, Dinamarca, França e Espanha, outros devem existir com colecionadores (ou mesmo cultistas de Tsathoggua).

O Tabernáculo da Montanha Sagrada

Na região central dos Estados Unidos, nos Apalaches, ondas de fervor religioso deram origem a intensas variações do cristianismo. Muitas dessas interpretações surgiram e desapareceram. Uma prática particularmente estranha surgida e difundida a partir dos anos 1920 envolvia a manipulação de serpentes e veneno.

Esses estranhos e pequenos ministérios eucarísticos em geral eram congregações que se reuniam em êxtase para testemunhar como os pastores domavam a serpente, representando as forças do mal, mais especificamente Lúcifer (a Serpente do Paraíso). Nessas celebrações também era comum a realização de curas pela fé, o anúncio de profecias, pessoas falando em línguas estranhas e é claro acidentes envolvendo envenenamento. Muitos dos fiéis mais antigos traziam em seus corpos os sinais de inchaço e descoloramento da pele ocasionado pelas picadas de cobras.

O Tabernáculo da Montanha Sagrada é um pequeno ministério que realiza serviços religiosos itinerantes pelo interior da América. Seu público alvo são os habitantes ignorantes de povoados isolados, homens brancos da classe trabalhadora facilmente impressionáveis diante de alegados milagres de fé. O ministro, um jovem milagreiro que atende pelo nome de Joachim Smith, costuma falar em línguas misteriosas e tem visões fantásticas, ele lê as parábolas extraídas de uma velha e obscura bíblia cheia de notas de rodapé e desenhos estranhos.

O Tabernáculo não está diretamente conectado ao Mythos, embora ele pareça ser um típico culto devotada aos Antigos. Um grupo de investigadores experientes pode supor que os membros do culto são inimigos, uma presunção à princípio falsa.

A tragédia que recai sobre Joachim Smith é que ele é um descendente distante do Povo Serpente e que em seu poder encontra-se uma Cria Sagrada de Yig (uma enorme serpente venenosa). Sua familiaridade faz com que ele seja imune ao veneno de serpentes e consiga exercer um certo grau de controle sobre os animais peçonhentos.

Infelizmente os seguidores da congregação não tem o mesmo benefício e Smith é obrigado a viajar para evitar problemas com as autoridades sempre que um de seus seguidores morre.

Embora não seja necessariamente maligno, o culto sob influência de Smith está fadado a enveredar por um caminho de fanatismo e auto-destruição. As visões inflamadas do reverendo e o uso de veneno da Cria de Yig em rituais tem potencial para condenar seu rebanho a loucura.

A Heresia de Averoigne

Quando a Igreja Católica ainda estava se estabelecendo, a doutrina religiosa foi duramente imposta. Como resultado, heresia florescia e a corrupção reinava entre os clérigos ocupando posições de poder. À despeito de muitas tentativas de realizar uma reforma institucional, demorou quase mil anos até a Igreja de Roma estabelecer regras quanto a temas delicados como celibato e costumes rurais abundantes no interior da Europa. Arianismo, a Heresia dos Cátaros, Albigeneses e outros conflitos menos lembrados compõem a violenta história de contestação e repressão empreendida pela Igreja.

Na pequena província rural de Averoigne, localizada em Gales, coisas blasfemas eram sussurradas a respeito de Azédarac, o Arcebispo de Vyones. Como alguns religiosos do período, Azédarac tinha reputação de ser um necromante. As más línguas diziam que ele negociava seu malefício para aqueles que lhe pagassem em dinheiro, influência ou luxúria. Sua reputação questionável não evitou que ele fosse canonizado como um santo.

A Heresia de Averoigne se iniciou quando fiéis em Vyone e Ximes (cidade natal do "santo") começaram a tratá-lo como um verdadeiro messias. Os fiéis contagiosos pelo fervor religioso seguiam à risca as curiosas parábolas escritas por Azéderac, entoavam os salmos e hinos que ele havia composto e acreditavam que o Santo ressurrecto voltaria para guiá-los pessoalmente ao Reino dos Céus.

Anos depois da morte do arcebispo em meados de 1198, uma cruzada foi conclamada contra os hereges de Averoigne. Ximes e Vyones as cidades onde a heresia grassava abertamente foram cercadas: tumbas, igrejas e palácios acabaram destruídos e saqueados.

A verdade é que Azédarac em vida foi um poderoso feiticeiro e servo devoto dos Grandes Antigos, sobretudo Yog-Sothoth. Ele usava sua posição de prestígio no clero para disfarçar suas atividades, realizando cerimônias profanas no interior da própria igreja de Vyones. Após sua morte, os seguidores e aprendizes de Azéderac espalharam rumores sobre milagres que ele havia supostamente realizado. O plano era trazer a população lentamente para a adoração aos Antigos. Rumores sobre rituais profanos praticados pelos sacerdotes alertou as autoridades que ficaram horrorizadas.

Após a cruzada, vários tomos e artefatos dedicados ao Mythos que pertenciam a Azéderac foram saqueados e espalhados pelas províncias adjacentes. Investigadores podem encontrar esses tesouros ainda em poder de famílias nobres ou colecionadores.

É possível que padres seguidores de Azáderac tenham sobrevivido à cruzada e escapado carregando consigo outros artefatos e iniciando seu horrível ministério em áreas afastadas. Quem sabe, nas criptas de alguma Igreja medieval ainda possam ser encontrados documentos, tomos e outras coisas remanescentes dessa época. Personagens acadêmicos, historiadores e estudantes podem tomar conhecimento da Heresia de Averoigne e empreender uma busca a esses tesouros e quem sabe até descobrir que o culto continua ativo.

2 comentários:

  1. Ei, muito bom; mas ajeita aí, Evangelhos Gnósticos, e não agnósticos, são coisas totalmente diferentes.

    ResponderExcluir
  2. Outra ótima matéria, o Mundo Tentacular está se superando. Continuem assim, o melhor site de RPG do Brasil. Principalmente se for RPG de Cthulhu.

    ResponderExcluir