quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Cidade das Névoas - o Grande Fog de Londres em 1952


Postagem original de 17/01/2013

Moradores que vivem atualmente em
 Londres podem atestar que a cidade não é tão enevoada quanto se pensa. Essa melhoria tem um bom motivo, já que o n
evoeiro da capital inglesa, o tradicional fog, é resultado direto da poluição do ar. Menos poluição no ar, menos nevoeiro... 

É claro, o fog, pode se formar por causas naturais, mas a frequência com que ele surgia na cidade (a ponto de se tornar uma "marca registrada") se devia a fatores externos, leia-se as chaminés fumegantes das indústrias que despejavam fumaça nos céus da cidade.

Em 1952, a situação descambou para algo impensável. Algo que ficou conhecido como "The Great Smog" ("A Grande Fumaceira" em uma tradução livre). Um nevoeiro como nunca antes visto desceu sobre Londres e quando se foi, havia deixado um saldo de milhares de mortos.

Ninguém gosta de fumaça, mas os londrinos consideravam a sua presença algo inevitável, ela fazia parte inerente de viver na capital do império. Um fruto amargo do progresso e modernidade. É preciso lembrar que Londres foi o berço da Revolução Industrial e que chaminés de indústrias, localizadas bem próximas às cidades, lançavam diariamente toneladas de fumaça no ar. Se isso já não fosse ruim, na Era Vitoriana, quase todos os habitantes da cidade tinham um braseiro de carvão dentro de casa. Os braseiros crepitavam dia e noite, sobretudo durante o inverno. O resultado? Céus acinzentados, partículas de carvão no ar e fuligem que caía do céu como flocos de neve. Outra consequência direta? Nevoeiro diariamente.

No início da década de 1950 a qualidade do ar estava comprometida por décadas de saturação e partículas de carbono liberadas na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis. Em dezembro de 1952, a situação se tornou crítica. Um fenômeno conhecido como anticiclone se formou acima de Londres. O anticiclone é uma área de alta pressão que conserva o ar em seu interior e não permite o deslocamento ou renovação dele. Com o anticiclone, o ar vindo de cima se aquece e desce, suprimindo a formação de nuvens e chuva. Quando o anticiclone começou a fluir em forma de espiral, houve uma inversão térmica e a formação de um nevoeiro cada vez mais denso, agravado pelas partículas da atmosfera.

O fog resultante, para algumas pessoas, parecia algo vivo. Uma força consciente e maligna. 

Em 5 de dezembro o dia havia sido claro e seco, sem nuvens no céu azulado, mas no início da tarde as coisas começaram a mudar rapidamente. A temperatura baixou abruptamente e o nevoeiro começou a se formar de forma compacta, como uma cortina de fumaça cinzenta que filtrava os raios de sol criando uma coloração fosforescente. O nevoeiro era tão denso que a visibilidade foi reduzida para alguns poucos metros. Nas ruas, avenidas e praças, a iluminação pública de postes se acendeu automaticamente. Carros  transitavam lentamente. O Aeroporto de Heathrow foi fechado para pousos e decolagens. As pessoas saíam de casa ou de seus trabalhos e não conseguiam ver além de alguns poucos metros. Muitos tossiam ou engasgavam, a maioria começou a tapar a boca e o nariz com lenços e pedaços de pano.

No começo da noite, a surpresa inicial já se tornara uma real preocupação. A polícia ordenou que carros fossem abandonados no local onde estivessem, tinha havido inúmeros atropelamentos, batidas e confusão nas estradas. Os rádios advertiam as pessoas para evitar sair de casa, manter janelas fechadas e espalhar bacias de água pela casa para combater a secura no ar. Uma visão que trazia arrepios aos mais velhos, começou a se tornar cada vez mais frequente: pessoas usando antigas máscaras de gás dos tempos da Grande Guerra, quando o terror das armas químicas era uma realidade. Os trens e ônibus pararam de transitar, o metrô estava super-lotado e para conter o risco de acidentes as estações também foram fechadas. Cinemas, teatros e parques fecharam suas portas. Não havia segurança: lojas e apartamentos foram saqueados. Lojistas montavam barricadas para evitar a ação de ladrões.

Londres teve uma noite agitada e perigosa. Mas em algum momento, o nevoeiro deveria cessar.

A noite se foi e na manhã seguinte o fog continuava pesado. Pessoas que haviam deixado roupas no varal podiam verificar o efeito da fumaça no tecido - havia fuligem em toda parte, as janelas estavam escuras. Para piorar, a noite havia sido fria e boa parte da população ainda utilizava braseiros de carvão em suas casas. Havia mais uma grave preocupação, o nevoeiro durante o dia havia adquirido um odor característico, resultante da formação de dióxido de enxofre manifestada pela coloração verde escura (daí o apelido "peasouper" ou sopa de ervilha). As pessoas que se aventuravam fora de casa ou à caminho do trabalho levavam lanternas. Elas começavam a sentir o incômodo logo depois de algumas quadras: fraqueza, tontura, náusea, dormência... havia gente literalmente envenenada após adentrar no nevoeiro.

Os hospitais começaram a ficar lotados. Pessoas eram carregadas às pressas com falta de ar, desmaiadas ou sufocando. Balões de oxigênio eram muito necessários, mas logo ficaram escassos. As ambulâncias não davam conta das chamadas, carroças começaram a transitar em caráter emergencial, os cavalos sangrando pelo nariz, pela boca e pelos olhos em meio a nuvem tóxica. No dia 6, havia mais de 500 mortos por decorrência direta do nevoeiro. Os animais também sofriam: Pássaros caíam do céu, cães uivavam e os animais do zoológico municipal estavam acuados.  

Por volta de meio-dia era noite em Londres.

O cenário era de catástrofe, semelhante ao imaginado por H.G. Wells em seu clássico "A Guerra dos Mundos". A neve sobre o gramado do Hyde Park estava coberta de fuligem que a tornava suja, escura, horrível. Carros haviam sido abandonados nas ruas de qualquer maneira. As pessoas haviam recebido ordem de ficar em casa, ninguém deveria sair, exceto em caso de extrema necessidade. A Família Real foi evacuada e passou a acompanhar os acontecimentos de fora da cidade. As estradas que levavam para fora estavam congestionadas e muitos desistiram e retornaram para suas casas. O número de crianças e velhos que haviam se perdido era estarrecedor: pessoas que sequer conseguiam achar o caminho de volta para casa. Era uma crise sem precedentes e não havia previsão de melhoria.

O governo agiu rapidamente. Um grande contingente de soldados foi enviado para Londres a fim de  patrulhar as ruas e combater distúrbios. Os soldados portavam rifles com lanternas amarradas no cano, vestiam máscaras de gás e trajes pesados de lona e borracha. A ordem era clara: em caso de distúrbio os militares tinham permissão de atirar para matar. Carros de som circulavam com as lanternas ligadas avisando a todos para manter a calma. Para limpar o caminho e permitir a passagem de veículos de emergência, os militares operavam tratores que retiravam os automóveis.


Boatos se espalhavam rapidamente: para alguns era o fim do mundo. Rumores davam conta de que toda Inglaterra era vítima do maldito nevoeiro, toda a Europa, o mundo. Ele teria se originado das profundezas da terra, as emanações do próprio inferno, alardeavam os mais extremos. Rádio e televisão tentavam manter as pessoas informadas, mas o que se sabia era muito pouco. Ninguém sabia de onde havia vindo aquela fumaceira ou quando ela iria embora. Como consequência, houve uma quantidade alarmante de suicídios.

Na manhã do dia 7, a visibilidade era de apenas 30 centímetros. O dióxido de enxofre havia se misturado a outros poluentes para formar nuvens de ácido sulfúrico e hidrocloreto que queimava os olhos e pulmões. Pessoas chegavam aos hospitais com os lábios arroxeados, o nariz sangrando e em severa crise respiratória. O hidrocloreto quando inalado danificava as pleuras do pulmão que reagia produzindo líquido, causando um efeito semelhante ao afogamento. Além disso, muitas pessoas que não protegeram os olhos adequadamente descobriram que a longo prazo, a exposição ao nevoeiro as deixaria cegas.

A população não saia mais. Simplesmente não era seguro! Nas ruas desertas era possível ver os sinais medonhos da tragédia. Havia cadáveres largados, pessoas que tentavam chegar em casa ou aos hospitais e que não avançaram muito além de algumas quadras.

No dia 9 de dezembro, dia em que mais de 400 vítimas fatais haviam sido contabilizadas nos hospitais montados pela cidade, um vento súbito se iniciou e o fog começou, enfim, a se dissipar. Era um alívio em meio ao sofrimento pelo qual a população passou. Mesmo assim, as autoridades advertiram todos a ficar mais um dia em casa: suprimentos foram distribuídos de porta em porta junto com máscaras confeccionadas às pressas fora da cidade. Costureiras trabalhavam dia e noite na criação de máscaras anti-fog. Em algumas moradias, ninguém respondia às batidas. Nelas, a fumaça havia se insinuado e as pessoas haviam morrido durante o sono. Algumas delas com a pele recoberta por um filme de fuligem preta.

No dia 10, os habitantes de Londres deixavam seu confinamento e se aventuravam nas ruas, encontrando uma cidade escurecida pelas partículas de carvão.  

O Grande Smog de 1952 foi a maior tragédia ambiental da história da Inglaterra. Oficialmente, o número de mortos foi estimado em 4.000 pessoas. A causa mais comum foi asfixia e infecção pulmonar aguda. Nos anos seguintes ao evento, uma enorme quantidade de pessoas expostas ao nevoeiro reportaram doenças respiratórias contraídas em decorrência da exposição: broncopneumonia, bronquite purulenta ou bronquite crônica se tornaram endêmicas. Cerca de 12.000 indivíduos teriam morrido nos cinco anos seguintes em função daqueles cinco dias que Londres foi coberta pelo terrível nevoeiro. Um número igual a 1/3 dos mortos durante quatro anos de bombardeios na Segunda Guerra Mundial.  

Após a tragédia, as autoridades inglesas mudaram radicalmente a sua atitude a respeito da qualidade do ar no país. Regulamentos e duras multas passaram a ser aplicadas a indústrias que ainda despejavam fumaça no ar. Muitas delas foram relocadas para fora da zona metropolitana. Veículos que rodavam com óleo-diesel foram adaptados para combustíveis menos agressivos. Londres baniu os braseiros que queimavam carvão mineral das casas. Como efeito direto das medidas, a qualidade do ar melhorou progressivamente, embora apenas no final da década de 1960 os efeitos tenham sido suficientes para eliminar definitivamente o risco de uma nova tragédia.

É curioso, como os erros do passado retornam para nos assombrar.

Essa semana, observadores manifestaram uma séria preocupação a respeito da qualidade do ar na China. Várias províncias amanheceram cobertas por uma densa cortina de fumaça escura. Pequim registrou ao longo de três dias os piores índices de poluição da história da capital, registrando a taxa de 886 microgramas de poluentes por metro cúbico. Para se ter uma idéia, a qualidade do ar é considerada comprometida a partir de 150 microgramas.

Medidas já estão sendo tomadas para evitar que uma catástrofe venha a acontecer num futuro bem próximo.

Londres 1952
Pequim 2013
Achou interessante? Então leia:



15 comentários:

  1. Sensacional, Luciano! Como sempre, a realidade assusta muito mais.

    ResponderExcluir
  2. Cara, eu nunca tinha ouvido falar nessa estória. Achei ela uma fonte tão grande de inspiração para cenários de horror que não dá para resistir.

    ResponderExcluir
  3. Ia te falar que o Dust Bowl também era uma boa inspiração... mas aí vi o link...ehehehehe
    Detalhe, aquela aventura que eu planejava, te falei no facebook, inspirada nos Goblins de Hopkinsville, as criaturas apareciam após uma tempestade de areia, no melhor estilo Dust Bowl...

    ResponderExcluir
  4. Ótimo texto! Só sabia pouco da história, foi bom ler um texto mais completo.

    Só uma nota: decide se chama de Grande Fumaceira (ou Nevoeiro como normalmente traduzem) ou Great Smoug. Grande Smoug não rola.

    ResponderExcluir
  5. Alterado para "The Great Smog". Pelo que vi, Smog se refere a nevoeiro causado por fumaça de poluição. Fog é o nevoeiro natural por condições climáticas. Muitas vezes os dois são confundidos.

    ResponderExcluir
  6. Parabéns, ótimo artigo, mostra muito bem as conseqüencias do descaso e insensatez humanos com relação ao meio ambiente em que vivem, sem falar que é uma ótima fonte de inspiração para aventuras nesse estilo "O Nevoeiro". Valeu!

    ResponderExcluir
  7. Nem parece real de tão incrível que isso é... '-'

    ResponderExcluir
  8. Olá, Qual nome e sobrenome do autor do texto? Preciso da informação para fazer uma referência.

    ResponderExcluir
  9. Caraca, postado a menos de 3 horas e já tem 11 coments, será que alguém vai tirar o trono de "Post mais comentado" do artigo sobre paralisia do sono?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Essa é uma re-postagem, os comentários são antigos. ;-)

      Excluir
    2. Ah, eu vi que era repostagem mas não sabia que os comments viam juntos, fui olhar a data agora

      Excluir
  10. Quer encontrar inspiração para uma campanha assustadora ? É só pesquisar o mundo real .

    ResponderExcluir