segunda-feira, 1 de julho de 2013

A Era dos Dirigíveis - Os veículos mais leves do que o ar singram os céus


Eles foram os maiores e mais imponentes veículos aéreos construídos, alguns com quase oitocentos pés de comprimento do nariz até a imensa cauda em forma de barbatana. Foram o ápice das viagens de luxo e ao longo de décadas competiram com a indústria aeronáutica pelo título de Reis dos Céus.

Os magníficos dirigíveis transportaram milhares de pessoas e incontáveis toneladas de carga pelos quatro cantos do mundo. Era um atestado das maravilhas da ciência, uma demonstração de conquista da humanidade sobre os elementos e uma prova do que a civilização podia atingir. Quando eles singravam lentamente os céus, alguns afirmavam que enfim o homem havia atingido o grau máximo de sua evolução, comparava-se aos pássaros observando o mundo do alto.

Realizando viagens partindo da Alemanha, os dirigíveis atravessaram o Atlântico com destino a Nova York e ao Rio de Janeiro, de Montreal até Buenos Aires, de Moscou a Suez, como enormes pássaros roca das fantásticas lendas das mil e uma noites.

Por muito pouco, eles não conseguiram se firmar como os mais importantes veículos de transporte aéreo do século XX. O reinado dos dirigíveis só foi interrompido por uma tragédia comparável apenas ao épico naufrágio do Titanic em 1912. Em apenas 37 segundos o Hindemburg, o maior e mais poderoso dirigível, orgulho da Alemanha Nazista, foi consumido por um incêndio que matou um terço da tripulação e passageiros e deixou testemunhas emudecidas de horror. 

O que causou a catástrofe? Teria sido negligência, sabotagem ou, como o Chanceler Adolf Hitler chamou, "um ato de Deus"?

Eis aqui a história por trás dos dirigíveis...

A Origem  

O primeiro dirigível bem sucedido (um balão dotado de motores para controlar seu deslocamento horizontal) foi construído na França em 1852. Embora vários países tivessem construído esse tipo de veículo aéreo, os alemães logo se mostraram os construtores mais avançados na tecnologia de aparelhos "mais leves do que o ar". O famoso Conde Ferdinand Von Zeppelin, um empresário germânico, foi o primeiro homem de visão a investir nessa tecnologia, e construiu uma frota de dirigíveis experimentais.


O veículo que Von Zeppelin idealizou tinha um formato espiralado, construído a partir de uma gigantesca estrutura de aço. Presas a essa estrutura haveriam grandes bolsas de couro, cheias de gás que permitiam a composição ser erguida do chão em direção ao céu. Em baixo da estrutura, uma gôndola carregava tripulantes e passageiros em seu interior. Basicamente o desenho básico dos primeiros dirigíveis remetia a vários balões presos a uma mesma estrutura que por sua vez se conectava a uma gaiola para acomodar os viajantes. Passarelas, escadas e passadiços permitiam que a tripulação circulassem pela estrutura e cuidasse dos balões. O princípio era simples: quanto mais balões agregados, maior o peso que eles poderiam transportar.

Depois de aperfeiçoar os desenhos, engenheiros trabalhando para a Luftschiff Zeppelin, construíram o LZ-1, o protótipo para o primeiro veículo aéreo no modelo "rigid air", já em formato de cilindro. Também adaptaram o material principal do veículo, substituindo o aço por alumínio, um metal mais leve e maleável. As bolsas de couro também foram trocadas por tecido de algodão com um revestimento externo resistente. Em julho de 1900, o LV-1 fez o seu voo inaugural sob o Lago Constance.  


Com o sucesso do protótipo e o interesse de investidores, a companhia de Zeppelin continuou realizando melhorias nos modelos seguintes. A introdução de motores mais potentes passaram a permitir aerodinâmica e maior controle sobre o veículo. Em 1911, o LZ-10 (também conhecido como Schwaben) inaugurou a primeira linha de transporte aéreo de passageiros dentro da Alemanha. Ao longo de sua carreira, o LZ-10 realizou nada menos do que 218 viagens transportando um total de 1,553 passageiros.

Zeppelin se tornou tão conhecido por estar ligado ao desenvolvimento desse tipo de dirigível que seu nome tornou-se sinônimo do veículo aéreo. Outras nações realizaram experiências de transporte e dirigíveis logo se tornaram uma visão comum sob os céus da Europa.

No início de 1914, logo no começo da Grande Guerra, as empresas de Zeppelin assinaram um contrato para suprir as forças armadas da Alemanha com modelos adaptados para realizar bombardeios. Dirigíveis foram utilizados para lançar bombas em diversos países na Europa. Eles fizeram mais de cinquenta ataques a cidade de Londres, despejando perto de 200 toneladas de explosivos sobre a Capital do Império Britânico. Os temidos dirigíveis eram uma visão aterrorizante quando surgiam no horizonte deslocando-se lentamente até um ponto de onde despejavam bombas com mortal precisão. Outros carregavam estações de disparo com dezenas de metralhadoras alinhadas que cuspiam balas sem parar sobre os alvos escolhidos. 
Mas a medida que a guerra progredia, os dirigíveis alemães começaram a ser derrubados pela artilharia anti-aérea dos ingleses preparada para esse tipo de atacante. Apesar de serem capazes de atingir excelente altitude, os dirigíveis não conseguiam manobrar e escapar dos disparos inimigos. Além disso, o gás que permitia seu voo, o hidrogênio, era extremamente inflamável, e mesmo uma pequena explosão atingindo o dirigível era capaz de transformá-lo em uma bola de fogo. Sabendo disso, os britânicos usavam pistolas de sinalização e munição tracejante para romper os balões. Isso quando não faziam os ataques com biplanos ou aviões carregados de explosivos (de onde o piloto saltava de paraquedas antes de atingir o alvo!) Colocados em segundo plano, os dirigíveis acabaram desempenhando funções importantes de reconhecimento e observação dos campos de batalha.

O Graf Zeppelin

Depois da guerra a companhia Zeppelin retomou seus trabalhos visando o transporte aéreo civil. Como parte dos acordos de reparação pelos danos causados na guerra, os alemães tiveram de construir dezenas de dirigíveis para as nações vencedoras. Destes, o mais conhecido foi sem dúvida o ZR-3 Los Angeles entregue a marinha norte-americana e usado como veículo de observação.


Ao longo da década de 1920, a companhia rebatizada Luftschiffbau Zeppelin, sob o comando do visionário Hugo Eckner, começou a construir dirigíveis de passageiros com a intensão de estabelecer linhas aéreas regulares entre as maiores cidades da Europa e depois do Hemisfério Ocidental. Alguns dirigíveis já realizavam o transporte de passageiros criando a base para um mercado em franca expansão. A indústria aeronáutica, até então ainda estava engatinhando e muitos apostavam nos dirigíveis como o futuro do transporte aéreo de passageiros. Eles eram, afinal de contas, considerados muito mais seguros que os aviões por oferecer uma velocidade controlada e estabilidade. Também podiam levar mais passageiros, oferecendo uma experiência confortável e tranquila, enquanto que os aviões ofereciam "trepidações, sustos e incerteza de um pouso tranquilo".

Em 1928, tencionando dar o próximo passo na direção da conquista dos transportes aéreos, a Companhia Zeppelin anunciou a construção da maior e mais impressionante das suas aeronaves, o Graf Zeppelin LZ-127 destinado a se tornar a joia de sua coroa.  

O Graf Zeppelin era cerca de 100 pés (30 metros) mais longo do que qualquer outro dirigível existente naquela época. Ele tinha 776 pés de comprimento (236 metros) e havia sido desenhado por Ludwig Dürr para viagens de longa duração. Seu design era tão arrojado que quando o projeto foi apresentado, os meios de comunicação acreditavam que tudo não passava de um golpe de publicidade pois tal veículo aéreo "jamais poderia ser construído". Quando ele foi apresentado, a sensação foi imediata.

Operado por uma tripulação de 36 homens, o Graf Zeppelin foi concebido para ser um transatlântico voador. Ele deveria competir diretamente com os luxuosos ocean liners que cruzavam o Atlântico e eram considerados o ápice do transporte de passageiros e carga (podendo transportar até 87 toneladas). 

Com uma velocidade máxima de 117 quilômetros por hora, impelido por cinco motores de 550 cavalos, ele era capaz de diminuir o tempo de viagem entre Berlim e Nova York em quase dois terços do tempo. Ele não precisava realizar escalas, como os aviões que não tinham uma longa autonomia de voo, bastava ao piloto traçar o caminho e seguir em linha reta. 


Além de rápido, o colossal dirigível também proporcionava luxo e conforto como nunca vistos. A longa gôndola dos passageiros no ventre do aparelho tinha um salão/lounge, bar, sala de mapas, sala de rádio e janelas panorâmicas para observação. Havia ainda um magnífico restaurante em que as refeições preparadas por chefes profissionais eram servidas com talheres de prata, cristais e porcelana.    

A cabine dos passageiros possuía janelas panorâmicas, cortinas de seda e carpete. As camas beliche tinham travesseiros de penas de ganso e eram feitas de cetim. A única proibição à bordo dizia respeito a fumar, os passageiros eram frequentemente alertados para não fumar nas dependências e em todo veículo havia apenas um isqueiro de segurança no lounge. A segurança era rigorosa nesse pormenor e havia inspeções no momento de embarque para retirar fósforos e isqueiros.

Os terraços e passadiços permitiam uma observação incrível do horizonte e paisagens notáveis apreciadas com lunetas à disposição dos passageiros. Algumas filmagens foram realizadas pela Companhia Pathé, que incluiu uma apresentação do LZ-127 nos cinemas de todo mundo através do informativo "News of the World".   

Após a realização de seis viagens domésticas contando com convidados ilustres, o veículo aéreo fez a sua primeira viagem oficial de longa distância em meados de Outubro de 1928, cruzando o Atlântico com destino aos Estados Unidos, pousando em Nova York. Demonstrações seguintes incluíram uma viagem ao redor do mundo concluída em 1929, uma viagem de apresentação com escalas nas principais cidades da Europa e com destino final em Moscou, uma expedição científica ao polo norte em 1931, duas viagens ao Oriente Médio, e vários outros voos panorâmicos cujo propósito era apresentar o dirigível e sua notável tecnologia ao mundo.

Desde o início, o Graf Zeppelin ofereceu também um importante serviço de envio de correspondência que se notabilizou como o mais rápido serviço de entrega postal até então. Em sua primeira viagem para os Estados Unidos ele levou 52,000 cartões postais e 50,000 cartas.

O Graf Zeppelin sobrevoa o Brasil

Em maio de 1930 o LZ 127 fez a sua primeira viagem rumo a América do Sul como parte de uma viagem em três etapas para a Espanha, Brasil e Estados Unidos. Levando passageiros e uma enorme carga postal o dirigível causou sensação ao longo de toda a sua jornada. 


O custo do bilhete aéreo entre Friedrichshafen, na Alemanha e Rio de Janeiro, era de 1,500 Reich Marks (o equivalente a $356 dólares). O voo iniciado na base aérea de Friedrichshafen a sede do Império Zeppelin, em 18 de maio fez uma parada em Sevilha no dia seguinte. O Graf chegou ao Brazil no dia 22, com uma escala no Campo de Jequiá, na cidade de Recife onde havia sido construído um hangar para atracamento pela Companhia. Lá ele foi reabastecido com alimentos, combustível e equipamento. A tripulação e passageiros puderam descer por 6 horas e conhecer a cidade antes de continuar viagem.

Ele chegou ao Rio de Janeiro no dia 24, sendo saudado por uma multidão que se aglomerou nas praias para ver a chegada do veículo apelidado de "charuto voador". Mais de 50 mil pessoas acenaram com lenços brancos durante sua passagem sobre a Baia de Guanabara e segundo estimativas outras 100 mil estiveram presentes em seu voo de despedida. O Zeppelin ficou tão marcado no Brasil que mereceu até marchinha de carnaval.

O veículo seguiu então para Lakehurst, no estado de Nova Jersey, retornando para a Alemanha em 2 de julho.


O sucesso dessa viagem inaugural fez com que em 1932, fosse estabelecida uma linha permanente de transporte entre a Europa e a América do Sul (mais especificamente o Brasil). Até 1937, o dirigível realizou nada menos do que 64 viagens para o Rio de Janeiro sendo que algumas jornadas foram esticadas até Buenos Aires.

Na época, a Revista Time declarou, "certamente para viagens transatlânticas, não há nada que se compare com o Graf Zeppelin".

Mas, o Graf Zeppelin estava prestes a ser superado...

(continua)

5 comentários:

  1. Sempre achei os Zepelins algo incrível: como um mito morto, mas que foi real. Adorei o post. Parabéns!

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  2. Sim. Parece que eles são algo que existiu séculos atrás, extintos há gerações, um trecho da história perdido, quando na verdade, não faz tanto tempo esses gigantes cruzavam os céus.

    Eu sempre adorei os dirigíveis e tudo o que tem relação com eles. Sem falar que, para cenários nos anos 1920-1930, uma viagem de Dirigível fica perfeita.

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  3. Uma grande história de mistério poderia ser contada durante o trajeto. E não sei se vocês ouviram falar, mas para transportar carga ao menos, estão sendo revividos em um visual mais moderno e futurista ;)

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  4. Lembrei-me da série Fringe, onde há o outro mundo em que o voo de dirigível não acabou e o Empire State ainda serve como porto.

    Além, claro, da ótima sequência de voo de dirigível do filme "Indiana Jones e a Última Cruzada".

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  5. Excelente artigo, Luciano!

    Gente, não estou fomentando nenhuma teoria conspiratória (se bem que num blog lovecraftiano isso não seria estranho...) mas para mim o fato dos dirigíveis não existirem mais hoje em dia é a forte ligação que ele teve com o governo nazista de Hitler. Sei que eles vieram de muito antes, mas que os zepelins ficaram muito ligados aos alemães nazistas, ah isso eles ficaram...

    Depois da 2ª Guerra e com os acidentes, acredito que ninguém queria mais aquele "perigo alemão" perto de si, numa repulsa à qualquer coisa que lembrasse a Alemanha. Claro que hoje isso não faz muito sentido, mas vai discutir isso com um francês ou um britânico da década de 50 que sofreram o diabo na mão dos alemães... Além do mais, aviões eram produtos americanos, que ganharam a guerra, he he...

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