quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A estranha vida de Sir Carton de Wiart - "O Homem que adorava guerras"


Crédito por ter descoberto essa biografia do nosso colega Rod Oliveira.

Por vezes a biografia de certas pessoas parece tão cheia de reviravoltas e acontecimentos estranhos que é quase impossível acreditar nos detalhes.
"Coisa de filme" diriam alguns! "Mentira da grossa" sentenciariam outros. 
Mas existem certas pessoas que realmente tiveram uma vida rocambolesca beirando o inacreditável, algo como diriam os antigos "saído de um folhetim".

Tomemos como exemplo a vida e as façanhas do Brigadeiro-General Sir Adrian Paul Ghislain Carton de Wiart.

Sua carreira pode não ter sido a mais impressionante na História do Exército de sua Majestade, mas com certeza não existe um personagem mais pitoresco.

A biografia de Carton de Wiart, uma celebrada coleção de casos chamada "Odisséia Feliz" relata acontecimentos que soam improváveis, mas cada uma das missões em que ele tomou parte foram corroboradas pelo Ministério do Exército Britânico e tiveram a anuência de testemunhas, na maioria das vezes soldados e oficiais que assistiram incrédulos suas inúmeras demonstrações de bravura, coragem e francamente loucura diante do inimigo.

Carton de Wiart nasceu em uma família de posses em Bruxelas, na Bélgica, seu pai era britânico e desejava que o filho seguisse uma profissão honrada como ele. Aos 19 anos ele foi enviado para Oxford para estudar Direito, mas ao invés disso se convenceu de que seu futuro estava na carreira militar. Assim que a situação política na África do Sul se agravou descambando na sangrenta Guerra dos Bôeres, ele não teve dúvida: largou os estudos e correu para se alistar.

Mentindo a respeito de sua idade ele inventou um nome falso e tentou se juntar ao exército. Diz a lenda que para enganar a junta de alistamento, colou pelos da crina de um cavalo no rosto para fazer de conta que tinha barba e bigode. O alistador percebeu o embuste, mas de Wiart não se deu por vencido e tentou mais duas vezes conseguindo enfim o que tanto queria.

Ele foi mandado para a África e viu combate pesado. Foi ferido no estômago e nos testículos depois de saltar da trincheira para motivar seus companheiros a avançar. Depois de seu grave ferimento, sua aristocrática família finalmente descobriu que ele não estava em Oxford e sim na África. Eles usaram de  influência para transferi-lo em 1901 para a Índia onde ele serviu na Guarda dos Royal Dragoons

Conhecido pelo seu linguajar inapropriado (ele foi apelidado de "boca de lixo"), de Wiart tomou seus ferimentos na África do Sul como incentivo para o seu preparo físico. Era um praticante regular de esportes e mantinha uma capacidade física invejável criando seu próprio estilo de treinamento que muitos instrutores consideravam uma verdadeira loucura.

Em 1908, casou-se com a Condessa Friederike Maria Karoline Henriette Rosa Sabina Franziska Fugger von Babenhausen, com quem teve duas filhas. Mas a vida tranquila e pacífica para ele era uma provação, já que ambicionava novas aventuras.

Pouco antes da Primeira Guerra Mundial em 1911, de Wiart foi deslocado para o famoso "Camel Corps" na Somália Britânica, onde combateu as tropas do revoltoso líder Mohammed Bin-Abdullah, chamado de o Mullah Louco. Nessa ocasião, foi baleado duas vezes no rosto e perdeu um de seus olhos e um pedaço da orelha. Seus ferimentos lhe valeram uma medalha por galhardia e o forçaram a usar um tapa-olhos pelo resto da vida. "Ele me dava uma imagem ousada" escreveu em sua biografia.

Personagem da Liga dos Cavalheiros
Seus ferimentos por pouco não lhe custaram um afastamento da vida militar quando a Grande Guerra estourou na Europa. Ele escreveu ao Alto Comando dizendo que poderia ser útil atrás das linhas em alguma função burocrática, mas é claro, não demorou para ele acabar no front. Em 1915 foi enviado para a França, onde colecionou nada menos do que 7 outros ferimentos graves. 

Nos sangrentos campos de batalha do Front Ocidental ele teve a mão explodida por uma granada durante uma heroica investida. Quando o médico de campo se negou a amputar sua mão esquerda, de Wiart mordeu e arrancou três de seus próprios dedos dizendo que o faria para que a gangrena não o matasse. Em 1916 foi promovido a Major. Ele recebeu uma mão falsa de presente de seus colegas, mas disse que não a usaria pois tinha muito orgulho de seu ferimento. 

Suficientemente recuperado ele não pensou duas vezes em retornar ao front e participou ativamente da Batalha do Somme uma das mais brutais daquele conflito. Nas trincheiras lamacentas ele recebeu um ferimento no tornozelo, pelo qual recebeu a Victoria Cross, a mais alta condecoração do Império. Em 1917 se tornou Tenente-Coronel. Em 1918 foi promovido a General de Brigada.

Após a guerra ele escreveu em suas memórias sobre o conflito: Francamente, eu apreciei a Guerra. Por que as pessoas querem a paz se a guerra é tão divertida?

Entre 1924 e 1939, de Wiart teve uma vida pacata numa propriedade na fronteira entre a Bielorrúsia e a Ucrânia. Ele trabalhava como uma espécie de consultor para o Império Britânico e esteve à frente de uma delegação que deveria negociar acordos de paz entre a Polônia e a Ucrânia. Acordo que é claro, falhou. 

Em 1939, ele já havia alertado o comando das ações beligerantes dos alemães e pouco antes da invasão da Polônia (ato que deflagrou a Segunda Guerra) ele já havia retornado a Londres e se instalado em uma grande mansão nos arredores da cidade. Chamado de volta a ativa ele trabalhou com o então Ministro da Marinha Sir Winston Churchill nos bastidores da preparação da Inglaterra para a entrada na Guerra.  

Em 1940, já com sessenta anos, ninguém francamente esperava que ele participasse ativamente de alguma missão. Contudo, foi exatamente o que aconteceu. Carton de Wiart liderou uma operação para tomar a cidade norueguesa de Trondheim e frear o avanço germânico cortando suas linhas de abastecimento. A missão foi um fracasso, mas na ocasião ele deu nova mostra de coragem avançando em meio a uma barragem de metralhadora nazista.

De volta a Londres, a secretaria do Exército tentou convencê-lo a não se envolver mais em ações dessa natureza. Poucos dias depois sua mansão foi destruída por um bombardeio alemão e tudo que ele tinha, incluindo as suas medalhas e recordações da guerra pegou fogo. Sua reação foi fleumática: "Muito bem! Terei que ganhar mais medalhas para compensar o que eles destruíram!"

Em 1941, a caminho de uma missão britânica na Iugoslávia, seu avião, um grande Wellington da RAF foi atingido pelo fogo inimigo e caiu no Mediterrâneo próximo a costa da Líbia. Mesmo sem um braço, ele nadou mais de dois quilômetros até a costa onde foi feito prisioneiro por soldados italianos. 

Transportado até um campo de prisioneiros na Itália ele realizou cinco tentativas de fuga, sendo capaz de enganar seus carcereiros e escapar em uma ocasião. Ele se misturou à população de camponeses e sobreviveu por oito dias disfarçado apesar de não falar italiano e de não ter um braço e um olho.

Libertado em 1943, retornou a Inglaterra onde participou de reuniões importantes para negociar o futuro da Guerra ao lado de importantes personalidades como Roosewelt, Chiang Kai Shek e o próprio Churchill. 

Numa Conferência na China ao lado de líderes mundiais. É o de pé na direita.

O Primeiro Ministro o enviou para a China onde ele trabalhou como consultor e observador. Em um importante jantar, de Wiart não se conteve e interrompeu um discurso de Mao Tse-Tung, então um dos principais generais chineses. A interrupção do britânico foi para criticar os militares chineses durante a Segunda Guerra e a ineficiência deles em combater os japoneses. Mao, que já era temido naquela época, ficou em silêncio, mas depois concordou com o britânico reconhecendo que os chineses poderiam ter feito mais contra os invasores japoneses. 

Pouco depois ele escreveu: "Uma guerra num futuro próximo contra chineses ou russos no meu entender é inevitável, eu espero apenas que ela não demore demais para poder participar dela".  

Mas a guerra antecipada pelo General de Brigada acabou não vindo a tempo e ele se aposentou em 1947. 

Voltando pra casa, de Wiart escorregou em uma escadaria e caiu, quebrando diversas vértebras. Os médicos ingleses ficaram surpresos pela quantidade de estilhaços que conseguiram retirar dele na ocasião. Em seu corpo haviam ainda fragmentos da explosão que lhe arrancara a mão na Primeira Guerra, mais de 30 anos atrás.

Dizem que ele trabalhou por algum tempo avaliando o risco político de operações em outras nações e atos de espionagem. Dizem ainda que Sir Ian Flemming o criador do personagem James Bond se inspirou em de Wiart para compor o personagem M, o chefe do espião mais famoso de todos os tempos.  

Carton de Wiart faleceu em 1963 com 83 anos de idade.

Olha, esse cara é literalmente um personagem de Call of Cthulhu que realmente existiu.

Inspirado nele e em alguns pontos de sua estranha/tumultuada/bizarra/inacreditável vida, concebi uma espécie de "ficha de personagem" com suas estatísticas para Call of Cthulhu.

FICHA DO INVESTIGADOR

Nome do Investigador: Sir Adrian Paul Ghislain Carton de Wiart.
Ocupação: Militar de Carreira (General de Brigada)
Idade: 48 (em meados de 1928)

ATRIBUTOS

STR 16         DEX 12          INT 15          IDEA 75%
CON 18        APP 10          POW 16        LUCK 80%
SIZ 15          SAN 60%       EDU 17         KNOW 90%

Damage Bônus: +1d4
Hit Points: 17



Habilidades: Contabilidade 20%, Arte (História Militar) 60%, Arte (Xingamentos elaborados e contundentes) 93%, Arte (Literatura Militar) 55%, Barganha 25%, Bloquear 50%, Escalar 50%, Disfarce 50%, Ofício 45%, Crédito Social 78%, Esquiva 47%, Primeiros Socorros 00%, Saltar 40%, Direito 40%, Consultar Biblioteca 30%, História Natural 35%, Navegação 49%, Persuadir 85%, Psicologia 15%, Cavalgar (camelo) 77%, cavalgar (cavalo) 55%, Nadar 89%, Arremesso 47%, Discurso pró-Britânia 97%, Motivar Soldados 57%, Fleuma britânica 83%, Suportar ferimentos 99% 

Idiomas: Inglês 90%, italiano 5%, Alemão 10%, Francês 10%, Hindi 30%

Armas e Ataques: Pistola Webley 88%, Rifle Lee-Enfield 74%, Sabre de Cavalaria 45%, Faca Militar/Baioneta 62%, Soco 78%, Cabeçada 75%   

É pouco provável que um sujeito como esse tenha alguma experiência com o Mythos de Cthulhu. Por outro lado, quem melhor do que ele para instruir uma equipe de investigadores para uma missão especialmente perigosa envolvendo algum componente estranho e inexplicável.

De fato, tenho umas duas ou três aventuras em que poderia usar esse cara como um personagem de aventura.

4 comentários:

  1. Realmente muito bom, adorei tomar conhecimento sobre esse cara. Parabéns pelo trabalho do blog, acompanho já a algum tempo e gosto muito.

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  2. ...Agradeço ao pessoal do Mundo Tentacular pelo crédito...muito feliz de ter colaborado com o excelente Blog um abraço pessoal muito obrigado Luciano...

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  3. Bom dia! A biografia é incrível. Os comentários desse soldado sobre a guerra são idiotas!

    Desde quando guerra é divertida?

    Li sobre ele em outros sites e, há contradições em todos, em alguns pontos, por exemplo: onde o avião caiu e a distância nadada.

    De qualquer forma, a vida de Carton de Wiart foi incrível! Menos seus comentários sobre a guerra!

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  4. Vai saber o que se passa na cabeça desses veteranos de guerra. Quanto às contradições, tem um ditado que diz que se mente horrivelmente em três situações: em pescaria, durante eleições e no meio de guerras. Parece ser o caso...

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