quinta-feira, 3 de julho de 2014

Bem vindos ao Front - Um Guia sobre a vida dos soldados na Grande Guerra (I)


Do início de 1914 até novembro de 1918, o mundo estava em guerra. 

Não uma guerra comum, "A" Grande Guerra como ficou conhecida, converteu-se rapidamente no maior conflito armado de todos os tempos. Mais de seis milhões de combatentes morreram em campos de batalha, em combates tão devastadores que muitos julgavam iriam causar o fim da humanidade.

O conflito colocou Aliados: Canadá, França, Itália, Austrália, Nova Zelândia, Grã-Bretanha e Rússia contra a Entente: Turquia, Alemanha e o Império Austro-Húngaro. Os Estados Unidos entraram na Guerra em 1918 ao lado dos Aliados. A Grande Guerra foi um desastre humano de proporções épicas.

Uma das imagens mais famosas do sangrento conflito foram sem dúvida as Trincheiras. A Guerra de Trincheira, foi um estilo de batalha brutal, desgastante, doentio e nauseante. A vida de um soldado nas trincheiras era um verdadeiro inferno, um pesadelo do qual não se conseguia despertar.

A partir de 1914 até o fim da Guerra, as trincheiras que dividiam as linhas inimigas se tornaram a casa dos soldados e para muitos sua sepultura. Mas como deveria ser viver nesse ambiente tenebroso? Qual o ponto de vista de um soldado na Grande Guerra e como era sua rotina?

Esta é a Vida do Soldado, um resumo de como era a vida dos combatentes na Frente Ocidental, o lugar mais terrível para se lutar entre 1914 e 1918.

Cavando Trincheiras

Antes de poder lutar, era necessário escavar trincheiras. Cavar trincheiras não era um trabalho fácil, pelo contrário, era demorado e cansativo mesmo quando executado por centenas de homens com pás. Trincheiras tinham algo entre 1,80 m e 2,20 m de profundidade, e 1,80 m de comprimento, com um sistema de drenagem no fundo, coberto com ripas de madeira formando um piso rudimentar. 

As trincheiras se estendiam por quilômetros e quilômetros. Do sul da França, elas rasgavam o solo da Europa, todo o caminho até atingir o litoral do Mar do Norte. E não era, é claro, uma única trincheira. Haviam dúzias delas ligando uma trincheira principal que demarcava a linha de frente com as demais que lhe davam suporte e comunicação, além de uma defender a outra. As trincheiras eram as linhas de defesa onde eram montados ninhos de metralhadora cercados de arame farpado, protegidas por minas terrestres e sacos de areia empilhados em um paredão quase intransponível. Tudo isso fazia com que as trincheiras fossem difíceis de ser capturadas. Elas eram como pequenas fortalezas onde os defensores tinham vantagem contra os atacantes.


Depois das trincheiras haviam os "dugouts". O dugout era um túnel subterrâneo que se abria em um verdadeiro labirinto de câmaras escavadas onde eram estocados armas, suprimentos, munições e material. Também eram usados como alojamentos, hospitais de campanha e salas de comando onde os oficiais podiam determinar suas ações. Muitos deles tinham geradores que produziam eletricidade e linhas de telégrafo que permitiam a comunicação com a base. As dugouts funcionavam como pequenas cidades improvisadas. Em geral, elas eram reforçadas com madeira e metal, concedendo um pouco de conforto aos seus habitantes.

Mais atrás ficavam as peças de artilharia, canhões e obuses, posicionados de tal forma que pudessem disparar contra as linhas inimigas. Uma vez que as peças de artilharia tinham alcance e potência semelhante, as posições estavam além de sua alça de mira e não podiam ser atingidas. Ao menos, até armas mais potentes entrarem em ação.

Rotina da Guerra

Uma vez que as trincheiras estavam escavadas e fortificadas, os soldados passavam a viver dentro delas.

É claro, nenhuma unidade ficava nas trincheiras durante todo o curso da guerra. A rotina anual de um soldado na Grande Guerra variava de exército para exército e de unidade para unidade, mas em geral, um combatente tinha de servir de 100 a 110 dias no front ou nas linhas de suporte das trincheiras por ano. Além disso, 120 dias ele passava na reserva (a uma distância de um dia de marcha até o fronte) e outros 165 dias podia descansar, ficar no hospital ou em alguma cidade. Apenas o Exército Alemão mantinha suas tropas por mais de um mês nas trincheiras, as nações Aliadas costumavam deslocar suas forças através do Fronte Ocidental regularmente para evitar esse desgaste. As tropas costumavam ser mobilizadas através de marcha ou pelo sistema de trens.


Unidades na reserva ocupavam seu tempo com serviços de logística, ajudando o transporte de suprimentos ou produzindo materiais para serem usados nas trincheiras como postes e sacos de areia. As tropas europeias recebiam permissão para voltar para casa enquanto estavam na reserva, enquanto os americanos se reuniam em grandes cidades, em especial Paris para aproveitar suas folgas. Os períodos no fronte eram chamados de "tours", e podiam ter uma duração de até 30 dias. Entretanto, já no fim da guera, tours na linha de fogo da trincheira, podiam durar até 50 dias.

O Tour nas trincheiras era o serviço mais temido pelos soldados na Grande Guerra. A tarefa incluía turnos de guarda e observação, nos quais os soldados vigiavam a movimentação dos inimigos à poucas centenas de metros. Alguns soldados podiam ficar em seus postos por até 48 horas, sem dormir, passando frio e com poucas rações. Outro trabalho essencial era realizar a manutenção nas trincheiras que precisavam de constantes reparos, vitais para evitar que elas desmoronassem. Escavar, mover equipamento, estender arame farpado e encher sacos de areia era um serviço extremamente pesado e perigoso. Atiradores de elite inimigos aguardavam por qualquer descuido para efetuar disparos fatais.

Dormir na linha de frente era muito difícil. Os exércitos costumavam se valer de uma tática desumana para impedir que seus oponentes relaxassem, disparando projéteis de artilharia continuamente. Peças modificadas cheias de pólvora negra explodiam com um rugido seco que tornava impossível sequer fechar os olhos. As explosões, clarões e o som de apitos também sugeria ataques surpresa que nem sempre se concretizavam. A fatiga era algo tão comum que apenas uma semana no front era o bastante para deixar os soldados mais sensíveis a um passo do colapso nervoso.

Pequenas unidades eram enviadas em patrulhas na Terra de Ninguém para espionar o inimigo (um serviço especialmente perigoso). A ideia era verificar como estavam as defesas, contabilizar mortos, descobrir falhas nas linhas e assim obter alguma vantagem. Missões desse tipo contavam com soldados especialmente endurecidos pela batalha, já que essas incursões envolviam ter de matar friamente e em silêncio. Os homens vestiam uniformes pretos, pintavam o rosto com graxa, cerravam o cano de seus rifles e preparavam um arsenal com porretes cheios de pregos e facas afiadíssimas para matar em silêncio. A ideia dessas missões era chegar o mais perto possível da posição inimiga o que muitas vezes acarretava em confronto mano a mano. Algumas unidades se especializavam nesse tipo de ataque, uma forma de desmoralizar ou diminuir o moral do inimigo, produzindo uma matança sanguinária.

Ao contrário do que se pensa, as batalhas eram extremamente raras! Os soldados recebiam duas, talvez três ordens de avançar por mês. Avançar na Terra de Ninguém era um exercício de futilidade que se provava letal. Muitos soldados passaram pelo fronte sem ver um soldado inimigo, exceto pelas lentes de binóculos. A não ser que estivessem em uma grande ofensiva ou que a artilharia conseguisse atingir de maneira considerável uma linha, os ataques eram evitados.

Um fator terrível da Grande Guerra diz respeito ao tempo de serviço dos soldados. Na Grande Guerra ainda não havia serviço por tempo, o que significava que um soldado alistado deveria lutar até o final do conflito a despeito de ter se alistado no primeiro ano ou no último. Mesmo que fosse ferido, se o soldado viesse a se recuperar seria uma vez mais enviado para o serviço.

A difícil vida nas trincheiras

Uma coisa com que os comandantes não contavam quando ordenaram a construção de trincheiras eram as condições do solo. Em alguns trechos era possível escavar dois metros ou mais de profundidade sem problemas, mas em outros era impossível ir além de um metro e meio sem atingir um lençol freático. A região onde a maioria das trincheiras foram escavadas eram ricas em lençóis dessa natureza e escavar no lugar errado acarretava em transformar sua trincheira num verdadeiro canal. O problema era especialmente grave próximo ao litoral onde inundações se tornaram um problema recorrente para os soldados. 

A água em alguns casos podia atingir dois ou três pés, o suficiente para se espalhar de uma trincheira para a outra causando inundações e um efeito dominó de erosão capaz de fazer desmoronar toda uma linha escavada com muito custo. E dadas as condições climáticas da Europa, sobretudo no inverno, ter uma trincheira alagada podia ser muito inconveniente.  

Mas haviam problemas maiores do que a inundação.

A medida que a guerra prosseguia, os cadáveres se multiplicavam aos milhares e eram enterrados nos arredores dos campos de batalha em covas rasas. Não havia muito espaço para colocar esses corpos e eles acabavam sendo depositados em grandes valas no solo. Não era raro que uma escavação para construir novas trincheiras ou a erosão natural do solo fustigado por bombardeios revelasse esses cemitérios improvisados. E esses corpos atraíam ratos. Milhares deles! Os ratos se alimentavam dos cadáveres de tal forma que tudo que restava eram esqueletos. Esses animais cresciam cada vez mais famintos e não era incomum para os soldados passar o dia atirando, não em inimigos, mas em ratazanas imensas. Eles tentavam de tudo para se livrar dos ratos, e há suspeitas inclusive, de que o uso de gás foi implementado pela primeira vez como forma de eliminar a proliferação de ratos nas trincheiras.

Com a grande população de ratos uma série de doenças se espalhava velozmente. Os soldados contraíam desde leptospirose até raiva nas trincheiras infestadas pelos roedores. Medidas extremas eram tomadas para conter a população e o extermínio de ratos se tornou uma preocupação para todos os exércitos.

As necessidades mais básicas dos combatentes eram supridas por linhas de suprimento.

Estas linhas eram extremamente importantes, pois possibilitavam a chegada de alimentos, munições, equipamentos, novos soldados e até de cartas para aqueles que estavam no front. No que diz respeito a correspondência, tropas britânicas e francesas recebiam correspondência regularmente. Suas cartas por outro lado, levavam duas semanas para serem entregues, pois tinham de passar pela análise de um comitê de censura que lia cada carta e separava aquelas que podiam revelar detalhes importantes sobre a defesa.

Abastecer os soldados com comida também era um desafio. As cozinhas localizadas nas dugouts, em teoria deviam proporcionar alimentos frescos e refeições quentes para os soldados nas trincheiras, mas imagine os problemas que os responsáveis pela preparação dos alimentos deveriam ter com os constantes bombardeios, ratos e inundações. Além disso, escassez de comida é um dos primeiros sintomas de uma guerra.

Com efeito, muitos homens sobreviviam com comida enlatada ou preservada. Os soldados tinham uma dieta bastante pobre, baseada em biscoitos, massa, carne salgada, chocolate e leite em pó. Eles complementavam essas refeições com quaisquer verduras que conseguissem encontrar, sobretudo batatas, nabos e hortaliças. Frutas eram extremamente raras, e a falta de vitamina C ocasionava epidemias de escorbuto que deixava os homens com lábios grossos, gengivas sangrentas e dentes frágeis.

Outras necessidades (sobretudo as fisiológicas) também constituíam um problema. As trincheiras não possuíam banheiros ou um sistema de esgoto. Todo o material era lançado em grandes fossas que depois eram aterradas, contudo a necessidade de escavar o solo fazia com que tudo aquilo, mais cedo ou mais tarde, voltasse a superfície, tornando-se vetores para doenças e causando proliferação de insetos. A construção de fossas para receber os dejetos sanou em parte o problema, mas nas épocas de chuvas torrenciais essas fossas transbordavam e tudo acabava escoando para as trincheiras usadas pelos soldados.

Doença e Higiene


Dadas as condições gerais de vida nas trincheiras não é de se estranhar que doenças fossem uma GRANDE preocupação. Colocando as coisas de uma maneira direta, podemos dizer que a vida nas trincheiras era abominavelmente imunda.

Os homens não costumavam se barbear ou mesmo tomar banho regularmente, uma vez que não havia um suprimento razoável de água limpa e muito menos aquecida. Logo eles se viam cobertos de piolhos e carrapatos, e dormindo lado a lado, estes se espalhavam com rapidez assustadora. Para lidar com essas epidemias soldados se viam obrigados a cortar os cabelos até ficarem carecas e tomar banhos de querosene para matar as infestações de pele.

Quase todas as maiores doenças conhecidas pela humanidade com exceção da Peste Negra encontraram terreno fértil para se desenvolver no curso da Guerra de Trincheiras. Pior do que a severidade de algumas doenças era a fragilidade dos homens. Um resfriado corriqueiro podia ser fatal e durante um inverno severo, muitos homens sucumbiam a doenças cujo tratamento podia ser simples.

Havia entretanto uma condição, mais do que uma doença, pela qual a Grande Guerra ficou famosa, algo chamado Pé de Trincheira (Trench Foot).

Pé de Trincheira é uma condição de pele resultado do uso contínuo de meias e botas úmidas em contato direto com o pé. Uma breve imersão na água e em seguida um dia inteiro usando a mesma meia era suficiente para desencadear o processo. As condições de perpétua umidade nas trincheiras tornava quase impossível evitar o pé de trincheira. Durante a Guerra 74,711 soldados britânicos foram hospitalizados devido a casos extremos de pé de trincheira. A condição se assemelhava muito ao congelamento, o pé ficava dormente, assumia uma coloração vermelha, depois azulada, inchava, e em casos extremos era acometido de gangrena.

Vários remédios eram usados para sanar o problema, mas com limitado sucesso. Soldados costumavam trocar meias regularmente e passar uma pomada feita de gordura de baleia, cânfora e talco como proteção. Mas nem sempre eles podiam contar com esses ingredientes, ou mesmo com pares extras de meias. Para lidar com a questão colocavam jornal ou palha dentro das botas para isolar a umidade, o que nem sempre funcionava, sobretudo com as inundações.

Como resultado direto do mal, milhares de soldados perderam dedos ou a sensibilidade no pé. Uma vez que os oficiais não costumavam sofrer de problemas semelhantes, muitos consideravam que soldados incapazes de marchar em decorrência do pé de trincheira estavam exagerando nos sintomas e portanto precisavam ser disciplinados.

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