domingo, 9 de novembro de 2014

"O Cemitério" - Resenha do clássico livro de Stephen King


"Provavelmente é um erro acreditar que exista um limite para o horror que a mente humana pode suportar. Parece, ao contrário, que certos mecanismos exponenciais começam a prevalecer à medida que o infortúnio se torna mais profundo. Por menos que se goste de admitir, a experiência humana tende, sob muitos aspectos a corroborar a ideia de que quando o pesadelo se torna terrível o bastante, o horror produz mais horror, um mal que acontece por acaso engendra outro, frequentemente menos ocasional, até que finalmente a desgraça parece tomar conta de tudo. E a mais aterradora de todas as questões talvez seja simplesmente querer saber quanto horror a mente humana consegue suportar conservando uma atenta, viva, implacável sanidade".

Stephen King, Pet Sematary

com base no texto de Grady Hendrix

"O Cemitério" (Pet Sematary no original) é conhecido por ser o livro que Stephen King supostamente "achava tão assustador que não devia ser publicado", e esse comentário se tornou a base para toda a campanha de marketing por traz do lançamento do livro. Isso e o fato do autor se negar a participar da campanha, dar entrevistas ou apoiar sua divulgação. 

Mas as motivações de King eram outras. Ele se recusou a divulgar o livro não por achá-lo demasiadamente assustador, mas porque esse foi seu último gesto de rebeldia contra a Editora Doubleday. O livro era uma obrigação contratual que King tinha de cumprir. O manuscrito contendo a estória de "O Cemitério" estava guardado em uma gaveta há anos e ele não achava o livro nada de especial, francamente, todos que leram o rascunho o acharam no máximo mediano. Ironicamente, "Cemitério" se converteu em um grande sucesso de venda e de crítica. O livro anterior de King pela Doubleday, "Dança da Morte" (The Stand) teve uma primeira tiragem discreta, cerca de 50 mil cópias, Cemitério atingiu dez vezes esse número e se tornou um blockbuster.  

Em uma entrevista dada no ano seguinte ao lançamento de "O Cemitério", King disse, "Se eu pudesse escolher, provavelmente não teria publicado esse livro. Eu não gosto dele. É um livro terrível - não pela escrita, mas pelo conteúdo profundamente dark. Ele parece dizer que no final das contas não há esperança, que nada que se faça no final vale a pena, e eu realmente não acredito nisso".

Stephen King fazendo uma ponta no filme Cemitério Maldito
Desde "O Iluminado" (The Shinning) nenhum livro escrito por Stephen King chegou tão perto de sua vida pessoal. Em 1978, no mesmo mês que a Doubleday lançou "Dança da Morte", King se mudou com a família para Orrington, no Maine para que ele pudesse trabalhar como professor de escrita criativa na Universidade local. Sua casa ficava nos limites da Rota 15, uma estrada de movimento pesado, e sua esposa, Tabitha ficava frequentemente preocupada que seu filho mais novo corresse para o meio da rua e fosse atropelado. Na véspera da Ação de Graças, um carro matou o gato de sua filha, Smucky, deixando-a tão aflita que King se arrependeu de não ter dito que o animal simplesmente havia fugido. Smucky foi enterrado com honras em um cemitério de animais local (com uma placa contendo o nome escrito errado) e cuidado por um grupo de crianças da vizinhança. O "semitério" foi criado muitos anos antes, ele ficava no final de uma trilha florestal bem atrás da casa que o escritor vivia. Ele gostava de visitar o lugar, levava até lá uma cadeira de armar e ficava sentado tranquilamente observando a natureza e pensando em seu próximo trabalho.

Foi ali que surgiu a inspiração para "O Cemitério" depois de imaginar o que aconteceria se Smucky voltasse a viver. Quando terminou de escrever o manuscrito, entregou para a esposa que leu e imediatamente disse que o detestou. Disposto a dar uma segunda chance, ele o passou para seu colaborador (o escritor) Peter Straub que deu o mesmo parecer. No fim, King, que demorou meses para terminar o livro, colocou a única cópia existente no fundo da gaveta e começou a trabalhar em "A Hora da Zona Morta" (The Dead Zone). Ele não pensou mais a respeito de "O Cemitério" por um bom número de anos, até precisar de um livro (ao seu ver) mediano para entregar a Doubleday.

King literalmente entregou o manuscrito e lavou as mãos sobre a questão, se recusando a trabalhar com a publicidade e promoção do título. Não importava. A Doubleday se gabou de ter produzido uma tiragem de 500,000 cópias (na verdade 335,000 cópias) e "O Cemitério" chegou às livrarias vendendo um total de 657,000 exemplares em capa dura, apenas no primeiro ano. O livro continua popular entre os fãs de Stephen King não apenas pela sua incrível morbidez (o autor pesquisou costumes funerais enquanto escrevia o livro) mas pelo conteúdo macabro e obscuro que parecia não ter limites. Não por acaso, muitos consideram "O Cemitério" uma leitura difícil, angustiante, pesada... para os que gostam do estilo, é um dos livros mais diabólicos de sua bibliografia, talvez um dos melhores.


Seguem alguns spoilers sobre a trama, isso se você não viu o filme baseado no livro ou se desconhece inteiramente o enredo. 

O livro se inicia quando Louis Creed e sua família - a esposa Rachel, a filha Ellie, e o bebê Gage, se mudam de Chicago para uma casa em Ludlow, no Maine onde Louis assume o emprego como chefe de Enfermaria na universidade. A infame Rota 15 passa bem em frente de sua casa, o que deixa ele e sua esposa apavorados de ter que atravessar a rodovia e topar com um caminhão a alta velocidade. Do outro lado da estrada vive um simpático idoso chamado Jud Crandall e sua esposa, Norma. Os Creed rapidamente se sentem em casa e se acomodam em seu paraído suburbano, até que o gato de Ellie, Churchill, é atropelado por um automóvel na Rota 15. Sabendo que Ellie vai ficar devastada pela morte de seu bichinho de estimação, Jud leva Louis através da floresta "para lhe fazer um favor" . As crianças das redondezas construíram um cemitério para animais que morrem na autoestrada, o "Semitério de Bichos" (escrito errado na placa em sua entrada), o lugar fica bem atrás da casa dos Creed, numa área selvagem de Ludlow. Acontece que mais atrás, oculto por uma barreira natural (?) existe um cemitério indígena construído pela tribo Micmac há séculos. Louis enterra Churchill nesse lugar sinistro, e o gato acaba voltando à vida. 

Algo parece "estranho" com Churchill, e as pessoas instintivamente evitam a sua presença, mas Ellie parece feliz de que seu animalzinho esteja bem, mesmo que ele tenha um cheiro estranho dali em diante. Pouco tempo depois, a idílica vida dos Creed é esfacelada por uma tragédia brutal. Gage corre para a estrada e é atropelado por um caminhão. A dor toma conta da família, a sensação de impotência, sofrimento e o pesadelo de não ser capaz de voltar à vida normal os consome. Em meio ao desespero, Louis manda Rachel e Ellie para a casa dos sogros em Chicago e secretamente exuma o corpo de Gage de seu túmulo, o enterrando novamente no cemitério Micmac. Gage volta à vida, mas como um monstro ensandecido e cruel, disposto a provocar mais tragédias. 


À primeira vista, "O Cemitério" parece uma homenagem ou modernização do clássico conto de horror escrito por W.W. Jacobs, "A Pata do Macaco" (por sinal, quem não leu esse conto procure por ele IMEDIATAMENTE, vale muito a pena!!!). Contudo, ao longo dos capítulos, percebemos que há muitos outros elementos presentes. Durante a longa caminhada de Louis e Jud rumo ao cemitério para enterrar Church, fica claro que há forças terríveis agindo e influenciando as ações dos protagonistas. A jornada equivale a uma viagem alucinante através da floresta assombrada por ruídos fantasmagóricos, visões perturbadoras e até um encontro macabro com o Wendigo, um espírito de loucura e canibalismo parte das lendas nativo-americanas. A coisa gigantesca parece ter sido atraída para o cemitério micmac, o que o tornou "azedo" fazendo com que todos aqueles enterrados no chão pedregoso retornem diferentes, talvez possuídos por espíritos malignos, ou ainda, corrompidos pela influência do Wendigo. 

Na época em que King estava escrevendo esse livro, os micmacs estavam em todos os telejornais. Em 1980 o governo dos Estados Unidos finalmente aprovou os pedidos de reassentamento de tribos indígenas em suas terras, inclusive os territórios do Maine, acompanhado de uma indenização no valor de 81 milhões de dólares. Uma das razões para esse dinheiro era devolver às terras usadas pelos brancos, sua aparência original. No mundo real, os micmacs foram parcialmente excluídos da decisão, recebendo sua parte apenas em 1992. Em um trecho do livro, Jud comenta com Louis a respeito das terras ao norte da floresta de Ludlow, onde fica o cemitério maldito: "são as terras que os índios querem de volta, aquelas que eles precisam cuidar".   

Embora jamais seja dito textualmente, fica implícito que o cemitério dos micmac se tornou azedo pela presença dos homens brancos. Embora isso possa soar como uma política anti-colonial, trata-se de um pensamento que King repete em outros livros. "O Cemitério" é o terceiro livro de King onde os protagonistas são de alguma forma amaldiçoados por se envolver com nativos americanos: o primeiro, é claro, é "O Iluminado" (The Shining), com o Overlook Hotel construído sobre um cemitério indígena, o segundo Firestater em que um assassino profissional de origem nativo americana, John Rainbird, persegue Charlie McGee, e por fim Cemitério, que segue uma ideia semelhante a do Iluminado. 


A família Creed se muda da urbana e moderna Chicago para os limites da civilização, da mesma maneira que os pioneiros e colonos dos filmes de cowboy, e Jud até comenta em um determinado momento: "Eu sei, é engraçado dizer que sua bela casa ali na beira da estrada, com telefone e luz elétrica, televisão à cabo e tudo mais, está nos limites da civilização, mas ela está". Esse é um típico recurso usado por King em suas novelas, uma casa perfeitamente segura com uma família, e logo ali do lado, um lugar primitivo, isolado e habitado por coisas tenebrosas. Por mais seguro que um lugar possa parecer, ele pode ser invadido pela escuridão e pelo horror de um momento para o outro. 

A escrita de King, nesse livro em particular, ressoa em nossas mentes porque ela toca em um sentimento que sabemos ser real: nossa insegurança diante da morte. Não importa o quão amável e feliz seja o lar dos Creed ele pode ser invadido pela morte à qualquer momento. E quando a morte chega, ela muda para sempre a existência de quem toca. Louis pensa na morte como uma parte natural da vida, mas quando ela chega intempestivamente e leva o gato de sua filha, sua primeira reação é lutar contra ela, com unhas e dentes. Sua aceitação pacífica e paz de espírito diante do fim não passa de uma mentira. Sua esposa Rachel lida de forma ainda pior com a morte. já que ela tomava conta de sua irmã mais velha, acometida por uma doença terminal degenerativa que a transformou em um "monstro". Profundamente traumatizada por esse segredo vergonhoso de família, Rachel cresceu sem ser capaz de enfrentar a noção definitiva da morte. A mera possibilidade de alguém no círculo familiar morrer - mesmo que seja o animal de estimação, a apavora e a deixa em pânico. A unidade familiar se mantém enquanto nenhum deles pensa a respeito da morte, mas com a presença sobrenatural do cemitério micmac as coisas não ficam seguras por muito tempo.

Uma das sacadas mais interessantes da trama de "O Cemitério" é a maneira como as forças malignas que permeiam o cemitério manipulam os personagens. Em determinado momento, Jud conjectura se o cemitério de alguma forma não o teria manipulado para que ele mostrasse a Louis sua localização e como ele podia trazer os mortos de volta à vida. Talvez ele tivesse matado o gato e mais tarde, ele se pergunta, não teria sido esse mesmo mal ancestral, o responsável pela trágica morte de Gage. Tudo seria premeditado já que essa força sabia que Louis iria buscar no cemitério uma maneira de lidar com sua perda. 


Essa é uma saída muito elegante do escritor para fazer com que os personagens acabem agindo de forma temerária. Como se movidos por uma força poderosa, coagidos a assumir atitudes que pessoas razoáveis jamais tomariam - como exumar o cadáver do próprio filho! O resultado é uma espiral de loucura e horror magnificamente descrita ao longo das páginas. É possível sentir perfeitamente como a sanidade mental de Louis vai se deteriorando cada vez mais rápido a medida que a dor o consome. Chega um momento em que ele parece não se importar mais com nada, apenas com a obsessiva busca por um fim de sua dor. Nesse contexto, é possível entender porque King afirmava que esse era seu livro mais terrível: de fato, não há como escapar do horror, ele sufoca os personagens de tal forma que o leitor compartilha a sensação de claustrofobia, mas mesmo assim não consegue parar de ler.

Escrito por outro autor, "O Cemitério" talvez soasse forçado, mas através da condução de King aos poucos vamos entendendo as motivações e temores dos personagens, nos familiarizando com cada aspecto de suas vidas até eles se tornarem familiares, e é nesse momento que ele puxa o tapete e levamos o tombo que nos deixa chocados com  desenrolar dos acontecimentos. "Aquilo que plantamos, no fim, é aquilo que colhemos" diz Jud em determinado momento e é a mais pura verdade.

Mas há um outro aspecto mais sutil no livro, um que encontramos de modo recorrente em vários livros de King. A noção de que a terra é muito mais antiga do que nós, e embora ela possa ter sido conquistada e dividida, existem certos lugares que resistem a presença humana. Lugares que ocupam uma fronteira entre o natural e o sobrenatural e que afetam as pessoas que invadem esse espaço. O Wendigo, que aparece brevemente no final do livro personifica essa ideia. O texto se refere a ele como uma maldição ancestral, como um monstro gigante, com uma alucinação e como o espírito do canibalismo personificado. Ele existe como várias coisas ao mesmo tempo, mas sua real natureza jamais é explicada. Porque ele foi atraído para o cemitério e porque ele "azedou" essa terra permanece um mistério. O mesmo ocorre com o Hotel Overlook, com a Zona Morta, com o quarto 1408, coma cidade de Derry e com as fileiras de milho, regados com o sangue de sacrifícios de "As Crianças do Milharal". Não é importante saber como esses lugares surgiram, basta aceitar que eles existem e que sua presença constitui uma ameaça presente e capaz de transformar os personagens. Louis começa o livro como um pai de família amoroso,  mas no fim ele se entrega a insanidade se tornando um lunático, movido pela obsessão de devolver à sua família a sensação de que tudo está bem. 


Em 1991, "O Cemitério" foi adaptado para o cinema com roteiro escrito pelo próprio Stephen King. É curioso que ele tenha cortado qualquer menção ao Wendigo ou alusão aos aspectos espirituais da trama. Talvez King tenha encontrado dificuldade em incluir esses aspectos no texto final, e como resultado o filme fica abaixo do livro. Não se trata de modo algum de um filme ruim, mas a ausência de alguns detalhes e a falta de aprofundamento de outros o torna menos impactante, ainda que tenha cenas memoráveis como a do atropelamento de Gage. Isso sem falar da música tema à cargo dos Ramones - "I don't want be buried, in the pet sematary, I don't want to live my life again".

Mesmo que você, assim como eu, tenha visto o filme, não pense que ler o livro não terá graça por conta dos spoilers de conhecer a estória. Muito pelo contrário, ler "O Cemitério" é muito mais gratificante, talvez até por saber como as coisas vão terminar a sensação de temor acaba sendo amplificada. Logo após terminar o livro, decidi assistir "O Cemitério Maldito" no final de semana de Halloween, o filme continua legal, mas não chega aos pés do livro.     

A maneira como "O Cemitério" faz com que encaremos a dura face da perda é por si só assustadora, mas não menos intrigante. Eu repito várias vezes que a obra de Stephen King tende a ser inconstante e que para cada 5 livros publicados, ele acerta em apenas um. Mas neste em particular, ele acerta em cheio, tecendo uma fábula de horror moderna simplesmente aterrorizante que vale a pena ser lida.

Hey, Ho! Lets Go!

E por falar nisso, que tal terminar com um pouco de Ramones?



4 comentários:

  1. ...vi o filme quando era garoto e achei assustador...não pelo " Terror " em si...mas sim pela sensação de Morte ( velórios , enterros , cemitérios , bichos mortos etc...) ...li o livro esse ano ( não sou mais garoto rs ) e confesso que foi o único livro ( além do conto " O Modelo de Pickman " de Lovecraft ) que me deixou incomodado...na minha opinião é a maior obra de King...gostaria muito que fosse feito uma refilmagem decente ( o primeiro é bem anos 80 rs não que isso seja ruim , eu adoro o filme ! ) ótima postagem ! parabéns ao blog

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  2. ...ou quem sabe uma minissérie !!! nos moldes de Taken !!! melhor ainda !!!

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  3. Se rolasse um remake ou uma uma série seria fantástico. Li o livro a 15 anos atrás e assisti aos filmes o livro foi tão marcante que ainda tenho imagens na minha cabeça, como o Luciano cita na resenha é notório o estudo que king faz dos procedimentos funerários, e do comportamento de doentes terminais, essas e outras informações me chocaram na época. Um livro clássico para se ler escutando ramones.

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  4. Esta recheada de curiosidades que não sabia, como a inspiração na vida pessoal, sua ponta no filme entre outros temas abordados. Muito, muito bom.

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