quarta-feira, 8 de abril de 2015

Loucura no Sertão brasileiro - O Massacre da Pedra do Reino


Durante três anos, de 1835 a 1838, formou-se em Pernambuco, uma comunidade com cerca de mil pessoas, próximo de duas grandes pedras cada uma, com mais de trinta metros de altura.

Aquelas pessoas maltrapilhas e ignorantes tinham algo em comum: a fé cega. Eles acreditavam fervorosamente no retorno de Dom Sebastião, um mítico Rei português morto há séculos. O sebastianismo era um fenômeno secular, uma espécie de seita com elementos de crendice popular disseminado através de cordéis e outras formas de cultura popular. 

Ele teve sua origem na segunda metade do século XV e se baseava na crença cega da volta de Dom Sebastião. O monarca havia desaparecido no campo de batalha de Alcácer-Quibir, atual Marrocos, no longínquo ano de 1578. Como ninguém o viu tombar ou morrer, espalhou-se a lenda de que El-Rei um dia voltaria em seu cavalo branco. Alimentado por lendas e mitos, a crença sobreviveu no imaginário português até o século XVII.

O sebastianismo tem suas raízes na concepção messiânica, que acredita na vinda ou no retorno de um enviado divino, o messias; um redentor, com capacidade de mudar a ordem das coisas e trazer paz, justiça e felicidade. É um movimento que traduzia a inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através da ressurreição de um morto ilustre. O movimento chegou ao Brasil, instalando-se principalmente no nordeste brasileiro, no século XVIII. Unindo fanatismo e conceitos de um socialismo primitivo, o movimento se redescobriu no sertão nordestino, assumindo características próprias através de simbolismo popular. Os camponeses do interior nordestino, pessoas que tinham uma vida dura, encontravam no sebastianismo uma forma de esperança, mas enganam-se os que pensam que o movimento só se fixou nessa região. Viajantes na época, afirmavam ter encontrado sebastianistas também no Rio de Janeiro e Minas Gerais, mas estes eram pacíficos.

O mítico Dom Sebastião
No sertão de Pernambuco, no entanto, o sebastianismo apresentou-se como um movimento religioso marcado pela violência e brutalidade, com líderes carismáticos capazes de influenciar a multidão, e seguidores fanáticos principalmente os mais humildes, que sofriam as agruras do isolamento e os flagelos da seca. 

Antes do notório massacre da Pedra do Reino, outro movimento de cunho sebastianista havia se estabelecido em Pernambuco na Serra do Rodeador, no município de Bonito, entre 1819-1820.

O acontecimento ficou conhecido como "A Tragédia do Rodeador", tendo como líder Silvestre José dos Santos, o “Mestre Quiou”, que fundou um arraial denominado Sítio da Pedra. O sítio começou a chamar a atenção quando camponeses das imediações largavam tudo para seguir até esse lugar, onde segundo boatos ganhavam terras e podiam trabalhar. Há poucos registros históricos de como funcionava o arraial na prática, mas rumores davam conta de que Mestre Quiou apontava pessoalmente uma gleba de terra para que ali se assentassem. Outros rumores dão conta que o arraial cresceu rapidamente, com gente vindo de todos os cantos. Mas nem tudo funcionava, o líder do povoado exigia devoção cega dos seus seguidores, impondo um regime de abstinência severo e várias obrigações que deviam ser seguidas à risca. As faltas eram punidas com açoites e confisco das terras concedidas. Havia rumores de que alguns sertanejos insatisfeitos haviam sido mortos por jagunços que trabalhavam para Mestre Quiou, tido como um santo homem.

Em outubro de 1820, famílias que fugiram do arraial relataram ter sofrido perseguições por parte dos seus vizinhos. Fizeram várias queixas do líder sertanejo e de seus asseclas, o que levou preocupação aos moradores da Província. Em 25 de outubro, o governador de Pernambuco Luiz do Rego enviou um destacamento armado para averiguar o que estava acontecendo. O grupo foi emboscado e reagiu com força desproporcional. A aniquilação do arraial pelas forças legais deixou um saldo estimado de 91 mortos e mais de cem feridos. Após a tragédia mais de 200 mulheres e 300 crianças foram aprisionadas e despachadas para o Recife. Muitas delas foram mandadas para outras regiões e jamais viram novamente suas famílias.

Mas o pior ainda estava por vir. 

Dezoito anos mais tarde, uma tragédia conhecida como Massacre da Pedra do Reino mancharia o sertão de sangue e revelaria a face mais negra do fanatismo messiânico.

Tudo ocorreu num povoado miserável chamado Pedra Bonita, localizado na Serra Formosa, município de São José do Belmonte. Um grupo de camponeses liderado por um tal João Antônio dos Santos, começou a se reunir no que chamavam de Reino Encantado, uma espécie de país independente, com leis e costumes próprios. Seu líder era chamado de Rei e usava uma coroa feita de cipó na cabeça e uma capa frondosa caindo sobre os ombros. Seus jagunços eram tratados como "capitães encantados" e vestiam um uniforme inspirado pelo traje dos soldados portugueses. 

Nas pregações, o Rei afirmava que Dom Sebastião o visitava em visões nas quais revelara a existência de um misterioso tesouro. Este seria dividido entre os fiéis que o seguissem com lealdade. Mais do que a promessa de riqueza, o tesouro teria poderes mágicos capazes de curar os doentes, libertar os escravos e transformar a vida de todos para melhor. 

Tiradas de suas lavouras pela fome e seca, famílias de agricultores acamparam em volta da rocha e passaram a aguardar a recompensa. Os registros oficiais sobre a Pedra do Reino citam uma beberagem à base de manacá com jurema servida por João aos seus seguidores, durante as cerimônias. Um é raiz; a outra, erva. Ambos, fortes alucinógenos. Nos rituais de adoração, sempre diante dos rochedos, o Rei ditava as leis da comunidade: cada homem poderia ter várias mulheres, mas cabia a Ele, o direito da primeira noite, deflorar a noiva após as núpcias, devolvendo-a no dia seguinte ao marido. O Rei também exigia respeito, punindo os insatisfeitos com a chibata ou amarrando-os num pau de arara, traidores enfrentavam punição mais severa, o garrote ou a forca.

O grande número de pessoas pouco esclarecidas que se juntou aos fanáticos de Pedra Bonita preocupou o governo, os fazendeiros e a Igreja Católica. O padre Francisco José Correia de Albuquerque foi enviado para tentar fazer as pessoas se dispersarem. O sacerdote conseguiu convencer o Rei João Antônio a parar com sua pregação herege, mas este deixou em seu lugar o cunhado João Ferreira, que se tornou o Rei mais cruel da Pedra Bonita.

As coisas pioraram muito: o Rei expulsou os padres, ameaçando decapitá-los se voltassem. Ordenou então que os sertanejos esquecessem os ensinamentos cristãos, quebrassem seus ídolos e destruíssem suas cruzes. Qualquer um encontrado com símbolos seria surrado pelos "capitães encantados". Relatos de injustiças e crimes foram revelados posteriormente por testemunhas, mas não há como saber se são verdadeiros. Apesar da tirania, o Rei ainda era respeitado e o arraial continuava atraindo uma romaria frequente.

Em 14 de maio de 1838, o Rei João Ferreira mandou reunir os seus súditos para fazer um pronunciamento importante. Dom Sebastião teria aparecido em uma visão e mostrado o que precisava ser feito para o aguardado tesouro se materializar. Para que todas as recompensas fossem concedidas, o sangue dos fiéis precisava ser derramado sobre as pedras, tingindo-as por inteiro.

A sinistra tarefa de pintar as pedras com sangue humano foi levada adiante nos três dias seguintes. O primeiro voluntário para ser degolado foi o pai do Rei João Ferreira que se ofereceu quando os demais súditos se mostraram reticentes. Sua cabeça foi arrancada a golpes de facão e posicionada na base do rochedo. O corpo foi pendurado de ponta cabeça para que nenhuma gota se perdesse e em seguida o precioso líquido foi entornado sobre a pedra. Outros quatro homens e duas mulheres deram um passo adiante e tiveram o mesmo fim. 

Quando mais ninguém se voluntariou, pais começaram a oferecer seus filhos aos carrascos improvisados. Uma mãe que protestou foi morta e degolada; de nada adiantou, seus filhos morreram minutos depois. Outras pessoas acusadas de não ter fé suficiente também foram apontadas e logo a loucura se espalhou pelo arraial. Inocentes eram aprisionados pelos capitães, amarrados e preparados para o horrível sacrifício.

Um dos únicos desenhos do arraial da Pedra do Reino Encantado
Diante da reação e das fugas de habitantes apavorados com o rumo dos acontecimentos, o Rei ordenou que todos os cães do arraial fossem levados ao rochedo e sacrificados. Os números não são precisos, historiadores se dividem a respeito do saldo final do massacre, mas estimasse que foram mais de cinquenta mortos, talvez uma centena de vítimas sacrificadas. Entre os mortos, muitas crianças.

Finalmente alguém teve a brilhante ideia de sugerir que o Rei João Ferreira também deveria oferecer seu sangue nobre para desencantar o Dom Sebastião. O Rei tentou escapar, mas os fiéis o cercaram e levaram ao alto do rochedo onde ele também acabou decapitado. Seu "sangue real" lavou a rocha, mas nada aconteceu. Um novo Rei foi apontado e as tentativas continuaram.

Por volta do dia 17, algumas pessoas que deixaram o Reino Encantado no início do massacre chegaram a Recife trazendo notícias contraditórias do que estava acontecendo. As descrições dos rituais de sacrifício eram sanguinolentas, medonhas, aterradoras...

O major Manoel Pereira da Silva recebeu instruções de marchar para o arraial e restabelecer a ordem. Com uma guarnição fortemente armada, ele seguiu para o local, encontrando no meio do caminho uma procissão. Os homens e mulheres pareciam desesperados, andavam sem destino, gritando e se flagelando, muitos deles estavam cobertos de sangue. O novo Rei empossado um dia antes estava na ponta da procissão, vestindo seus trajes cerimoniais. Temendo o contato com aquela multidão, o Major ordenou que seus homens abrissem fogo e depois avançassem com os cavalos com sabres em punho. A matança foi considerável.

No dia 18, a guarnição finalmente adentrou Pedra Bonita deparando-se com um cenário dantesco: as pedras gêmeas reluziam ao sol com o brilho escarlate do sangue seco. Na base dos rochedos dezenas de cabeças estavam empilhadas. Os olhos baços encaravam os céus esperando pelo milagre que não veio. Cadáveres putrefatos eram disputados por urubus e carcarás. Nuvens de moscas zuniam loucamente. O fedor de morte era nauseante. 

O major ordenou que tudo fosse destruído. Os últimos moradores, refugiados nos casebres foram obrigados a cavar sepulturas coletivas para enterrar os mortos. Depois receberam pás e picaretas e colocaram as construções abaixo, o pouco que restou do arraial foi consumido pelas chamas. 

O local onde tudo aconteceu hoje em dia
Outros movimentos messiânicos continuaram aparecendo no sertão nordestino, alguns deles com motivação sebastianista, mas nenhum causou a mesma comoção que o massacre da Pedra do Reino.

Sessenta anos mais tarde, o sertão da Bahia assistiu acontecimentos semelhantes. 

Os habitantes do arraial de Canudos, liderados pelo beato Antônio Conselheiro se revoltaram em um movimento que culminou com a famosa "Guerra de Canudos". Documentos encontrados no arraial indicam que Conselheiro e seus colaboradores também acreditavam no retorno de Dom Sebastião, ou, pelos menos, usavam  essa crença para obter apoio dos seus seguidores. No caso de Canudos, o sabastianismo pregava a volta de Dom Sebastião para restabelecer a monarquia e derrubar a República. Em 1897, o arraial de Canudos foi destruído por tropas do Exército.

Movimentos messiânicos foram um fenômeno recorrente no Brasil até meados da década de 1930, registrados em toda extensão do território nacional de norte a sul. Uma lembrança de que a mistura de fanatismo e miséria pode ter consequências sangrentas.

3 comentários:

  1. Uaw, eu poderia morrer sem ter conhecido nada disso. Me questiono sempre porque isso não é ensinado na escola. Porque sempre parece que nossa propria historia foi um tipo de mesmisse, de tirada cômica, que não possui valor de ser apresentado. Deve ser por isso muito do apreço que se tem por periodos de outros paises e nunca pelo Brasil. Um dos reflexos, por mais bossal que possa parecer, esta nas próprias novelas da globo. Cheios de exagero por terem gravado no Marrocos, no Japao, na Italia...e o proprio Brasil parece uma coisa que nem merece destaque, é só o pano de fundo para algo que foi gravado em outro país.

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  2. Muito interessante!
    Realmente é legal ler estes casos ocorridos no Brasil.

    Talvez poderiam escrever uma matéria sobre a Revolta dos Muckers, também envolvendo fanatismo religioso de certa forma messiânico, no Rio Grande do Sul no final do século XIX. Há inclusive um livro e um filmes sobre isso, A Paixão de Jacobina.

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