quarta-feira, 18 de abril de 2018

A Expedição Shäfer ao Tibet - A Caçada dos Nazistas ao lendário Yeti


Nazistas parecem ter um lugar de destaque em qualquer grande conspiração que seja estranha, bizarra ou simplesmente esquisita. De experiências com ocultismo, passando por bases de discos voadores, exploração do sobrenatural como armamento de guerra até o desenvolvimento de tecnologias avançadas, nazistas fizeram por merecer o status de grandes vilões.

Enterrado em meio a uma infinidade de conspirações e esquisitices históricas associadas aos nazistas é possível encontrar coisas realmente peculiares. Uma delas atraiu o interesse pesquisadores interessados em criptozoologia. Trata-se de um caso muito estranho combinando expedições secretas, exploração e monstros enigmáticos.      

Existem tantas lendas fantásticas a respeito de expedições nazistas ao redor do mundo que em alguns momentos é difícil determinar se elas possuem algum fundo de verdade. Parece ser verdade que Hitler tinha um intenso interesse em temas sobrenaturais, no desconhecido e no estranho, tanto que ele promoveu a criação de uma organização devotada a sua exploração. A Ahnenerbe, presidida pelo segundo em comando na estrutura nazista, Heinrich Himmler, tinha como um de seus principais objetivos investigar as raízes da raça ariana. Contudo, existiam muitos subdivisões dentro da Ahnenerbe, algumas devotadas ao estudo do misticismo e do mundo sobrenatural, temas que agradavam a Himmler. Entre os projetos da Ahnenerbe estavam o estudo da feitiçaria, de poderes psíquicos, magia negra e outras ciências ocultas. Na sua busca incessante por artefatos e fontes de poder ancestral, os agentes nazistas se lançaram em expedições que os levaram a várias partes do planeta: do Egito, aos desertos da Arábia, da Amazônia ao Coração da Asia.

Entre as mais inusitadas expedições sancionadas por Himmler estava uma viagem aos Picos do Himalaia com o objetivo de encontrar o lendário Yeti, criatura também conhecida como o "Abominável Homem das Neves"

     
O ano era 1938 e os alemães já haviam realizado outras expedições às geladas Montanhas do Himalaia, no Reino do Tibet, uma das regiões mais misteriosas e desconhecidas do planeta. Os nazistas tinham enorme interesse no Tibet, uma vez que acreditavam que a raça ariana teria se originado naquela parte do mundo. Liderada pelo zoólogo alemão e oficial da SS Ernst Schäfer, os nazistas também desejavam explorar as montanhas para determinar se as lendas tibetanas a respeito do Yeti tinham algum fundo de verdade. A expedição contava com vários cientistas respeitados, como o antropólogo Bruno Beger, que acreditava não apenas na existência do Yeti, mas também em espíritos como o Tulpa, em feitiçaria e poderes psíquicos. Beger defendia que os antigos arianos haviam em algum momento da história conquistado uma boa parte da Ásia e que desenvolveram um vasto império que detinha ao mesmo tempo conhecimento místico e tecnológico. Fragmentos desse saber ancestral ainda poderiam ser encontrados entre a população.

O propósito oficial da Expedição Shäfer, a terceira na região, era pesquisar as origens dos povos arianos e determinar suas raízes culturais. Além disso, eles também buscavam catalogar a exótica fauna e flora do Himalaia, traçar a etnografia dos povos locais, examinar a geologia e desenhar mapas detalhados.

Entretanto, é claro, haviam planos mantidos em segredo pelos membros da Expedição. O Ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebels se valia dessas expedições para promover o partido e demonstrar a alegada superioridade da Alemanha diante das outras nações. Conquistar montanhas e chegar antes ao topo de cordilheiras era uma questão de honra e prestígio. Os nazistas também usavam suas expedições de caráter científico como pretexto para sondar esses territórios sob o controle de inimigos em potencial, estabelecer bases para futuras incursões militares e fazer contato com rebeldes. Quando a guerra teve início em 1939, os nazistas usaram as informações de campo colhidas pelos seus exploradores.


Beger acreditava que o Yeti, um dos alvos da terceira expedição, poderia ser uma espécie humana primitiva não evoluída. Suas teorias pseudocientíficas contemplavam a possibilidade dos Yeti terem surgido na mesma época dos arianos originais. Provar a existência dessas criaturas seria uma maneira de validar as teorias a respeito de raças humanas ancestrais habitando essa mesma região inóspita. 

A expedição reuniu inúmeras lendas e narrativas do folclore tibetano envolvendo o Yeti. Guias e tradutores contratados pelos nazistas viajaram de aldeia em aldeia para reunir a maior quantidade possível de informações sobre o assunto. Nenhum rumor, era deixado de lado, todos os avistamentos eram checados e as testemunhas entrevistadas pelos cientistas.

A despeito de todos esforços, a Expedição Shäfer, obviamente, não encontrou nenhum espécime do Yeti. Oficialmente eles coletaram centenas de amostras de plantas e animais, também fizeram numerosas fotografias e filmagens, além de terem adquirido artefatos dos povos nativos, como uma cópia do Kangyur, o livro sagrado dos tibetanos. A expedição também recebeu um importante presente dos nativos do Tibet, uma estatueta de metal do Deus Vaisravana esculpida com um pedaço de um raro meteorito. Shäfer detalhou vários aspectos da expedição em um diário particular no qual descreveu costumes e a cultura do Himalaia. As anotações meticulosas de Beger serviram como material para um importante livro intitulado "Mit der deutschen Tibetexpedition Ernst Schäfer 1938/39 nach Lhasa" considerado um dos mais fiéis relatos das tradições tibetanas, sob uma ótica ocidental.

Shäfer e Beger escreveram relativamente pouco a respeito do Yeti em seus diários, mas descreveram que pelo menos duas incursões tiveram como alvo averiguar lugares onde a criatura havia sido avistada. Shäfer escreveu que do seu ponto de vista o legendário animal, não deveria ser mais do que um tipo de urso de grande porte habitando uma área montanhosa de difícil acesso. Embora Begen deixasse clara sua crença na existência da criatura, seu interesse nela parece ter gradualmente diminuído a medida que sua atenção foi se voltando para outros temas mais concretos.

Isso não os impediu de tentar encontrar sua presa. Em um dos relatos mais significativos, o líder da expedição escreveu que a expedição tentou atingir um platô onde uma caravana havia avistado um animal de grande porte, coberto de pelos brancos no ano anterior. A narrativa de guias que mencionaram já ter visto a criatura animou os membros da expedição, mas uma forte nevasca os impediu de chegar ao local exato.


As filmagens feitas pela expedição foram reunidas e editadas na forma de um filme com o título Geheimnis Tibet ( Tibet Secreto). Schäfer obteve enormes elogios entre os nazistas, recebendo uma comenda pelos valiosos serviços prestados para a Ahnenerbe. Shäfer pretendia retornar ao Tibet para prosseguir nas suas explorações, mas a intensificação da guerra impediu seus planos e ele se viu impedido de deixar a Europa. Após o conflito, ele foi interrogado pelos aliados a respeito de sua relação com os altos círculos do partido e se disse enojado quando as atrocidades nazistas vieram à tona.

Muitos anos depois da guerra, um diário escrito por Shäfer revelava que ele tinha interesse de viajar para o Tibet com o propósito de organizar guerrilhas tibetanas, contudo ele jamais voltou ao Himalaia. Depois da Guerra, ele ficou preso por quatro anos pelo seu envolvimento com a SS. Shäfer casou-se em 1949 e se mudou para a Venezuela onde se tornou professor na Universidade de Maracaibo. Posteriormente ele retornou a Europa e se converteu em um conselheiro do Rei Leopoldo III da Bélgica. Ele morreu em 1992.

Bruno Bager também sobreviveu à Guerra apesar de uma vergonhosa participação como antropólogo nazista trabalhando como consultor para a Ahnenerbe. Ele foi acusado de ter tomado parte em um projeto que visava a criação de uma coleção de esqueletos de judeus. Segundo rumores, 100 judeus foram escolhidos em Auschwitz e executados para que seus ossos fossem coletados e futuramente expostos em um museu que seria criado. Bager negou até o final da vida que tivesse participado desse episódio. Ele morreu em 2009 com quase 100 anos de idade. O antropólogo evitava falar a respeito da Expedições ao Tibet e segundo sua família desejava esquecer sua participação nelas. Ele destruiu todos os itens que o ligavam a expedição de 1938-39 e não autorizou novas edições do seu livro. Hoje, existem menos de 50 cópias dele.  

Apesar da história oficial se limitar a isso, teóricos da conspiração acreditam que algo mais sinistro ocorreu na Expedição Nazista ao Tibet. Há registros de que a expedição teria trazido um grande número de caixas e containers em segredo ao retornar e que dentro deles teriam sido contrabandeados para a Alemanha espécimes de animais desconhecidos. Os membros das expedições faziam parte da Ahnenerbe e muitos deles eram filiados a SS, obrigados a manter segredo sobre seus objetivos e os resultados obtidos. Um manifesto dos itens trazidos pela expedição explicita terem sido trazidos 47 espécimes animais, mas apenas 25 foram descritos.


Alguns acreditam que Shäfer e Beger podem ter descoberto muito mais do que revelaram em seus diários. Sabe-se que a Ahnenere era criteriosa em seus registros e que exigia detalhes de todas as descobertas realizadas. O diário oficial da expedição concluída em 1939 e arquivado pelos nazistas, era bastante sucinto e alguns acreditam que essa versão havia sido pesadamente censurada para que informações chave não vazassem. Da mesma maneira, alguns pesquisadores estranham que boa quantidade dos itens trazidos pela expedição simplesmente desapareceram ou não foram incluídos no acervo da organização. Qual teria sido o destino desses itens que incluíam objetos, animais empalhados e outras amostras?

Finalmente, existe a questão das honrarias dispensadas a Shäfer após seu retorno. Ele recebeu uma das mais importantes condecorações da época, o tipo de reconhecimento concedido a indivíduos que fizeram alguma descoberta científica significativa. Analisando friamente os resultados da Terceira Expedição, ela não foi mais notável que as outras duas.

Pesquisadores de Criptozoologia defendem que ainda que a Expedição não tenha encontrado o Yeti, é provável que eles tenham coletado informações valiosas a respeito da criatura. Mas no diário oficial, há muito pouco a respeito do assunto, quase como se ele tivesse sido propositalmente ignorado. Teriam os nazistas encontrado algo que preferiram manter em segredo? E se esse for o caso, será que ainda existem documentos secretos que sobreviveram?

As questões permanecem sem resposta, e é bem provável que jamais saibamos ao certo o que os nazistas encontraram na sua viagem pelas Montanhas do Himalaia.

5 comentários:

  1. Espero que continue escrevendo sobre expedições e teorias da conspiração envolvendo os nazistas .

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  2. Três coisas que funcionam maravilhosamente bem juntas: Nazistas, teorias da conspiração e os extremos do mundo.

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  3. Excelente matéria como sempre. Muito bom.

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  4. A expedição foi em busca do " homem ariano primordial ".
    Lógicamente, deu com os burros n'água.
    Ass: Aurélius.

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