terça-feira, 3 de abril de 2018

A Volta do Mapinguari - Relatos de encontro com a fera de Mato Grosso



Uma besta aterrorizante assombra o estado de Mato Grosso e a região do Pantanal. Dominado por grandes planaltos, charcos e floresta fechada, a região oferece o ambiente ideal para animais lendários e feras que para muitos existem apenas no folclore dos povos nativos. 

O zoólogo americano Randy Merril, tem estudado consistentemente o mito do Mapinguari há anos. Ele escreveu vários trabalhos a respeito e dois livros a respeito de mitos e lendas amazônicas sob uma visão da criptozoologia. Merril entrevistou representantes de vários povos nativos que disseram ser a besta, muito mais do que uma lenda. Para essas tribos, que inclui os Bakairi, Bororo, Cinta Larga, Kayapó e Nambikiwara, a criatura é bastante real e representa um perigo que espreita as selvas, ocultando-se dos homens e atacando quando lhe convém.

Merril acredita que o Mapinguari é um criptid pré-histórico, um animal que viveu há milhões de anos e que de alguma forma sobreviveu nas profundezas mais remotas das selvas, aprendendo a se esconder e evitar o contato com o homem. Descrito como uma fera de grande porte, coberta de pelos castanhos avermelhados, com braços longos e garras afiadas, ele seria forte o bastante para arrancar palmeiras inteiras do chão. A combinação do couro e pelagem emaranhada concederia ao animal uma proteção efetiva contra flechas, lanças e até mesmo armas de fogo. Para os nativos, o Mapinguari não é afetado por armas alguma a não ser que esta atinja sua enorme boca, que se abre em sentido vertical, e é a única parte sensível a ferimentos.


O zoólogo francês Bernard Heuvelmans, considerado o pai do estudo de criptids, foi um dos primeiro pesquisadores a mencionar esta lenda sul-americana. Muitos estudiosos consideram que o Mapinguari pode ser o equivalente ao pé-grande ou sasquatch da América do Norte. Desde meados da década de 1970, relatos a respeito de avistamentos do Mapinguari tem sido estudados por criptologistas.

Em 1937 um espécime teria espalhado o pânico no Mato Grosso depois de atacar e matar mais de uma centena de cabeças de gado. A criatura supostamente arrancava a língua dos animais e as devorava, o que lhe valeu o apelido de "come língua". Já em 1967, outra narrativa mencionava o ataque de um casal de Mapunguari a um grupo de caçadores nos arredores de Codajás. 

Entretanto, a história mais detalhada e fascinante a respeito de um contato com a criatura data de 1983 e envolve um homem identificado como Inocêncio, que trabalhava como guia de expedições internacionais no Rio Urubu. O trabalho de Inocêncio era capturar espécimes de macacos que seriam levados por pesquisadores norte-americanos. Enquanto explorava uma região isolada da selva, Inocêncio e sua equipe encontraram pegadas de um animal de grande porte que eles acreditavam se tratar de um primata. O grupo se embrenhou na mata em busca do animal, acreditando que a descoberta poderia lhes render uma boa recompensa. No terceiro dia de uma perseguição que os levou a uma área inexplorada, a equipe decidiu acampar em uma clareira. Durante uma noite particularmente escura, uma coisa vil e assustadora começou a espreitar os limites do acampamento produzindo um ruído que deixou os homens nervosos. Não era nada que mesmo eles, mateiros experientes e conhecedores da floresta, já haviam ouvido. O som, segundo as testemunhas se assemelhava a um grito gutural de homem, acompanhado de um rosnado de gelar o sangue. 

Inocêncio ordenou que os homens atiçassem a fogueira já que ela parecia manter a coisa, seja o que fosse, afastada. Os homens se armaram e dispararam seus rifles para o alto na esperança que o som afastasse o bicho. Mas o ruído teve o efeito contrário e o animal parecia cada vez mais próximo. Um dos guias nativos então cedeu a superstição e começou a gritar que se tratava de um mapinguari e que a fera mataria a todos.


Foi então que algo muito pior aconteceu. Os homens escutaram o som de algo grande e pesado se movimentando na mata, amassando as plantas e agitando a vegetação enquanto avançava. A respiração da fera era poderosa, como a de um touro furioso. Os homens se posicionaram perto da fogueira e se puseram a observar aflitos. De repente, uma silhueta enorme surgiu nos limites da luz produzida pela fogueira, uma coisa selvagem, equilibrando-se em duas pernas, agitando seus braços longos e gritando furiosamente. O guia nativo, um índio bororo chamado Jurandir caiu de joelhos gritando enlouquecido ao se deparar com o monstro do folclore do seu povo: o Mapinguari.

Inocêncio congelou por um segundo, incapaz de entender o que estava vendo bem diante de seus olhos. A coisa soltou um brado de desafio, o sinal de que pretendia investir contra o grupo aterrorizado. Agindo por instinto, os outros membros da expedição apontaram seus rifles e dispararam na direção da criatura. Embora tenha sido baleada por vários disparos, a coisa parecia apenas mais enfurecida pelo estrondo das armas de fogo. Ele avançou alguns metros, impelindo seu corpo com os braços no chão, como um gorila. Felizmente a barragem de disparos de espingarda e rifle surtiu algum efeito. A coisa se deteve, rosnou novamente, um brado alto que chegou a atordoar os homens, e então, rápido como quando apareceu, ela mergulhou na floresta, em fuga desabalada.

Os homens ficaram paralisados, incapazes de perseguir a coisa. Estavam aterrorizados demais para ir atrás daquela fera que por um instante pareceu muito perto de fazer a expedição em pedaços. Os homens se sentiam drenados de seu ímpeto, enfraquecidos e confusos. Alguns choravam ou tinham reações emocionais conflituosas: chorando ou gargalhando sem parar. Inocêncio mandou que detivessem Jurandir, que parecia ter sido o mais afetado pela visão. O índio babava, virava os olhos e comia terra. O desacordaram com um coronhada na cabeça para que não continuasse fazendo sandices. Em seguida decidiram procurar algumas árvores altas e passar o resto da noite em cima dela. Alternando turnos de guarda, os homens ainda conseguiam ouvir a coisa à distância com seus urros bestiais.  


Quando finalmente amanheceu e os homens tomaram coragem de descer das árvores e encontraram na clareira as marcas de sangue e pegadas da coisa. Sentiam ainda no ar um fedor azedo de animal selvagem que sem dúvida emanava da criatura. O grupo desfez o acampamento e começou a retornar imediatamente para a civilização sem descansar e sem olhar para trás. Eles tinham uma história inacreditável para relatar quando atingissem o povoado mais próximo.

Jurandir, o nativo que perdeu a razão diante da criatura, mais calmo, explicou aos outros o que era aquela fera. Ele contou que se tratava de um monstro das tradições orais dos Bororo, uma besta que habitava os recônditos mais ermos da selva: o Mapinguari. Encontrar aquele bicho na mata era o mesmo que topar com a morte. Eles haviam tido muita sorte de afugentá-lo pois quando o Mapinguari sente o cheiro de sangue fica enlouquecido. Se um deles tivesse sido ferido, nada poderia deter o monstro.

Jurandir completou a narrativa sugerindo que o urro do Mapinguari fazia as pessoas ficarem desorientadas. O berro do animal causava náusea e tontura, alguns até caíam inconscientes dominados pelo terror que ele provocava nas suas presas. 

O visitante misterioso jamais foi identificado.

A história de Inocêncio, um homem respeitado na região e tido como um mateiro experiente se espalhou. Ninguém duvidava que os homens tinham visto alguma coisa na mata, a expressão deles e a maneira como relataram a história, deixava claro que eles não estavam inventando aquilo. Na floresta acontece muitas coisas estranhas e homens como Inocêncio não precisavam fabricar histórias como aquela. 


A história ganhou notoriedade como uma das primeiras narrativas a respeito do Mapinguari. 

Embora muitos pesquisadores mundo a fora considerem que a misteriosa criatura seja um tipo de primata desconhecido, ou mesmo um "homem-macaco", existe outra teoria popular que explicaria a existência e a presença desse animal no Mato Grosso. Lançada pelo paleontólogo argentino Florentino Ameghino, a teoria é que os mapinguari seriam descendentes de enormes mamíferos pré-históricos extintos há milhares de anos: os Milodontes, também conhecidos como preguiças gigantes.

Fósseis desses enormes animais, que atingiam quase três metros de altura e pesavam mais de 250 quilos, foram encontrados em várias partes da América do Sul da Patagônia até a Bacia Amazônica. Os Milodontes desapareceram há mais de 10 mil anos, provavelmente extintos pela ação do homem que constituía seu único inimigo natural. Com uma pele grossa e grande ferocidade quando encurralado, um Milodonte podia ser um inimigo bastante perigoso. Sua pele densa e a pelagem forneciam uma boa armadura natural, enquanto que, garras longas poderiam facilmente matar um homem.

Seria possível que as tradições orais de povos nativos, passadas através das gerações, se conectem a narrativas tão antigas remontando até a época em que esses animais conviviam com antepassados primitivos? Uma vez que os Milodontes eram inimigos poderosos, talvez isso tenha dado ensejo para a criação da maioria das lendas, afinal a maioria destas se baseia em algum fundo de realidade.


A maior expedição organizada com o intuito de encontrar o Mapinguari e comprovar sua existência foi chefiada pelo ornitólogo norte-americano David Orne na década de 90. A expedição se concentrou na cabeceira do Rio Urubu, onde ocorreu o encontro com a criatura em 83. Durante a expedição a equipe de Oren recolheu tufos de pelo castanho escuro, fezes e pegadas, mas uma análise desses indícios demonstrou que respectivamente o pelo pertencia a cotia, enquanto as fezes eram de tamanduá. As pegadas, não foram identificadas, mas uma vez que os moldes não foram bem feitos, nada pode ser apurado.

É um fato que muitas partes do Brasil permanecem inexploradas e animais ainda desconhecidos podem habitar essas áreas intocadas pelo homem. Se o mapinguari de fato existe, seja ele uma espécie de primata desconhecido de grande porte ou uma preguiça gigante que sobreviveu, a descoberta seria notável.

Para aqueles que duvidam dessa possibilidade, vale a pena lembrar que até alguns anos atrás, Lulas Gigantes eram consideradas como uma lenda. Ao menos até que exploradores conseguiram encontrar, fotografar e capturar um espécime vivendo em altas profundezas.

Talvez, assim como a Lula Gigante, alguma coisa estranha habite as profundezas da floresta iludindo e despistando seus perseguidores.

Para mais a respeito do Mapinguari:

9 comentários:

  1. Excelente o artigo! Mistérios brasileiros são muitas vezes menosprezados de forma injusta! Parabéns!

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  2. bom post. seria legal uma ficha do monstro para usar em jogo.

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  3. Surgiu uma ideia para campanha ambientada em um cenário BR

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  4. ADORO esse site, realmente no Brasil tem muita coisa estranha, meus familiares contam estórias bem esquisitas da década de 70...

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  5. Pode ser que exista sim. Muitas lendas têm algum fundo de realidade.

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  6. No colégio onde eu estudei, tinha um velhinho que trabalhava como "faz tudo", desde atender o telefone e fazer pequenas faxinas até realizar pequenos consertos. Ele vivia contando histórias fantásticas sobre criaturas estranhas que viviam no mato, e os alunos adoravam ouvi-lo. Lembro-me que uma destas histórias era sobre um tal de "dono do mato", que me lembra um pouco o mapinguari: era um gigante, todo verde, com um olho só, do tamanho do olho de um cavalo, no meio da testa. O velhinho dizia que o monstro tinha uns 4 metros de altura...

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