segunda-feira, 30 de abril de 2018

O Alienista - A caçada a um assassino no final do século XIX


Eu li o livro mais famoso de Caleb Carr, "O Alienista" faz muitos anos. 

Lembro que ele foi lançado quando o tema "serial killer" ainda era uma novidade e "O Silêncio dos Inocentes" era o principal romance de ficção a respeito. Hoje existem centenas de livros, programas de televisão, filmes, documentários, quadrinhos, seriados sobre o assunto. Serial Killer se transformou em um assunto corriqueiro. Até então, não havia tanto alarde e o tema ainda era uma curiosidade um tanto espinhosa.

O romance de Carr se destacava por misturar o tema "caça ao assassino" com uma rica pesquisa de época e por ter como pano de fundo um período de profundas transformações na sociedade americana. Eu gostei muito do livro e ele se tornou um dos meus romances favoritos de mistério policial e investigação procedimental.

Quando "The Alienist" se tornou um bestseller em meados de 1994, os direitos para transformá-lo em filme foram comprados por um grande estúdio de Hollywood. A ideia é que ele recebesse um roteiro o quanto antes e que tivesse uma produção bem caprichada. Uma lista de bons diretores esteve envolvidas na produção, assim como um elenco classe A. Mas as coisas nem sempre saem como se espera. A dificuldade de condensar o romance em um filme de duas horas consumiu mais de uma década sem resultados e por fim, "O Alienista" nunca foi além de um projeto. O tempo passou, o autor ficou um tanto desanimado com essas indas e vindas e tudo indicava que ele jamais se tornaria um filme.


Finalmente depois de muitas negociações, alguém em Hollywood chegou a conclusão de que o livro de Carr poderia ser transformado em uma série e dessa maneira toda sua profundidade e detalhes poderiam ser mantidos, sem a necessidade de retalhar e modificar a história. Uma vez que os roteiros para televisão estão dando um verdadeiro show de qualidade, com programas cada vez mais elaborados, o novo formato caiu como uma luva. O Alienista, foi ao ar nos EUA pelo canal TNT em janeiro desse ano e fez bastante sucesso de crítica e público. Agora ele chega ao Brasil através do Netflix e já está disponível na grade de programação no formato de uma série fechada com 10 episódios. 

O Alienista não é uma série que redefine o gênero introduzindo muitas novidades, mas é um excelente programa a respeito da caçada a um maníaco no final do século XIX. Não é exagero nenhum fazer uma ousada comparação e afirmar que ele é uma espécie de True Detective de época. De fato, muito do clima soturno de "O Alienista" remete a True Detective, sobretudo por que um dos produtores executivos é Cary Fukunaga, criador da série da HBO. Há também algo de Mindhunter e de Ripper Street na série, o que resulta em um emaranhado suspense psicológico e uma viagem aos porões escuros da mente de um psicopata.

Passando-se na metrópole em franco crescimento de Nova York, no ano de 1896, o Alienista começa com uma macabra descoberta, o cadáver horrivelmente mutilado de um menino vestido com roupas de mulher. A vítima trabalha em um medonho bordel frequentado por uma rica clientela com apetites extravagantes. Ninguém normalmente daria a mínima para a morte de um imigrante pobre, a polícia preferia fazer vista grossa, entretanto a natureza grotesca do crime acaba atraindo um especialista na recém surgida ciência comportamental. O Dr. Lazlo Kreizler, é um pioneiro no estudo daqueles indivíduos considerados "alienados pela natureza", pessoas que agem e se comportam de maneira imprevisível - ele é o "Alienista" do título.


A descoberta desse primeiro corpo faz com que Lazlo tome conhecimento de que o jovem é apenas uma das várias vítimas que um assassino sem rosto está deixando. E esse matador parece agir com um propósito misterioso que a princípio só faz sentido em sua mente degenerada. O alienista reúne então uma equipe com o propósito de investigar os crimes e determinar não apenas a identidade do criminoso, mas os motivos que o levam a agir com tamanha brutalidade. Sob a autoridade do então Comissário de Polícia, Theodore Roosevelt - que anos mais tarde se tornaria presidente dos Estados Unidos, o time de Lazlo inclui o ilustrador do New York Times John Moore, a secretária feminista Sara Howard, dois irmãos policiais entusiastas de métodos científicos e alguns ex-pacientes de Kreizler que se tornam seus ajudantes.

Mergulhando no submundo obscuro de Lower Manhathan, região repleta de sujeira, decadência e pobreza extrema, a equipe de Kreizler, composta de indivíduos da classe média alta fica chocada com a maneira como a maioria da população de New York vive. Saindo de ambientes suntuosos e requintados com restaurantes e mansões vitorianas, a investigação vai revelando, a medida que se aprofunda, uma teia sinistra e sórdida, expondo que o crescimento desenfreado da cidade teve um custo muito elevado. Em uma época de profundas transformações sociais, a América, Terra das Oportunidades e destino final de imigrantes, mostra uma face hedionda de descaso, crueldade e desesperança.

O horror dos cortiços claustrofóbicos habitados por famílias inteiras faz o contraponto com os ataques do maníaco que vão se tornando cada vez mais violentos. A caçada resulta em várias investigações paralelas que começam a incomodar pilares da alta sociedade, policiais com acordos escusos e políticos corruptos.


Através dos primeiros episódios somos apresentados ao trio de protagonistas Kreizler, Moore e Howard, interpretados respectivamente por Daniel Bruhn (de "Bastardos Inglórios"),  Luke Evans (de "O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos") e Dakota Fanning (que faz filmes desde os oito anos de idade e tem uma carreira que nem caberia nessa resenha). Os personagens principais são muito bem desenvolvidos, o espectador passa a conhecer vários detalhes da personalidade e de suas motivações, bem como defeitos e virtudes que os tornam muito mais interessantes. Enquanto o Dr. Kreizler é mais intelectual e frio, Moore é mais emocional e reage às revelações do caso com perplexidade. Já a atuação de Dakota Fanning mostra que ela deixou para trás os papéis de meninas e adolescentes e abraçou de vez o pepel de uma mulher forte e decidida em um conturbado momento histórico.  

Tendo lido o livro, eu sei que os demais personagens coadjuvantes da série, deviam ter um papel mais determinante no romance. Roosevelt  (Brian Geraghty), por exemplo, fica meio apagado no decorrer dos episódios e sua participação que no livro é central, acaba caindo para segundo plano. O mesmo acontece com os irmãos gêmeos da polícia (Douglas Smith e Matthew Shear) que pelo menos recebem um pouco mais de atenção, como pioneiros a usar investigação científica. 

O elenco que conta ainda com alguns rostos conhecidos - entre os quais Ted Levine e Sean Young em participações especiais, é bastante sólido. Os primeiros episódios cumprem o seu papel de vender a série e atrair a audiência. Não se surpreenda se depois de assistir o primeiro e segundo episódios você se ver fisgado e engrenar uma maratona ininterrupta. Se bem me lembro o livro é um daqueles que você devora e vira as páginas avidamente querendo saber como a trama termina.


Assim como acontece no romance, "O Alienista" se passa em uma época anterior ao surgimento da Ciência Forense, da compreensão do papel das doenças mentais como catalizador para crimes em série e de técnicas rudimentares de investigação. A equipe de Kreizler, e o próprio alienista parecem investigar o caso com uma venda sobre os olhos que os impede de compreender as razões para que crimes tão medonhos estejam sendo praticados. Eles realmente não sabem com o que estão lidando e isso deixa tudo ainda mais aterrorizante. Esse acaba sendo um dos elementos mais fascinantes a respeito da série, ver como as pistas afetam os investigadores e como eles precisam driblar preconceitos, superstições e a falta de recursos para se manter focados na caçada.

"O Alienista" é uma série a respeito dos horrores da mente humana e da perversidade do ser humano. O assassino responsável por deixar uma pilha de cadáveres mutilados, cujos olhos são arrancados é realmente assustador em seus delírios, mas ele está longe de ser o único personagem capaz de enorme maldade. A própria cidade de Nova York, dividida por um abismo social, favorece o surgimento de indivíduos perversos dispostos aos atos mais baixos para manter as coisas como estão.


Com uma produção extremamente caprichada, a cidade de Nova York surge de uma maneira impressionante, quase como um personagem em todo seu esplendor. Os vários cenários são muito bem explorados permitindo que se conheça o interior iluminado das mansões da elite novaiorquina, os teatros requintados e restaurantes sofisticados, bem como os casebres podres, prostíbulos degenerados e os porões de manicômios que eram verdadeiros depósitos de loucos. Recorrendo a um realismo sujo, a série não poupa o espectador da degradação, miséria humana e de doses generosas de gore (sangue, vísceras e autópsias detalhadas estão presentes em praticamente todos episódio). Há algo de Penny Dreadful e From Hell no estilo sombrio da filmagem e quem gostou dessas produções vai adorar a série.

Na superfície, "O Alienista" parece apenas mais uma série de procedimento policial com um bom e velho "quem cometeu o crime?", e um grupo intrépido determinado a pegar o culpado. Nesse ponto ele cumpre e até excede as expectativas, uma vez que a investigação é empolgante e nos deixa atentos do início ao fim. Entretanto, a série vai muito além disso, retratando os questionamentos a respeito de um período cheio de injustiças. Para quem deseja substância e provocação, essa série é quase obrigatória.

Trailer:

2 comentários:

  1. Terminei de assistir agorinha. Realmente uma bela série. Dakota nem me surpreende mais..eu sei que toda produção que ela está presente a coisa é de altissíma qualidade. Trama forte, muito bem dirigida..sem falar do roteiro maravilhoso...nossa cada frase que sai da boca deles eram muito bem calculadas.

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  2. Boa resenha! Deu até vontade de assistir!
    Gosto muito de histórias ambientadas no século XIX, igual Penny Dreadful.
    Essa série deve ser muito boa.

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