sexta-feira, 21 de setembro de 2018

DIVERSÃO OFF-LINE RIO 2018 - O Evento já está aí!


A edição carioca do DIVERSÃO OFF-LINE 2018 chega com tudo, pra sacudir o Centro de Convenções Sulamérica mais uma vez. 

Dias 22 e 23 de Setembro o Rio de Janeiro se torna a Capital do RPG e Boardgames no Brasil.

E desta vez, o evento acontece num espaço único e plano, te dando uma visão privilegiado do evento inteirinho, logo na entrada!

Essa é a terceira edição do Mega Encontro de RPG que já se consolidou como um dos mais importantes do Calendário de Eventos de RPG e Jogos de Tabuleiro do Rio de Janeiro. Para ver o que rolou ano passado, dêem uma olhada no link para ler o resumo de com foi em 2017: 




Contando com várias atrações, o Diversão desembarca esse ano em dois dias de muita diversão no coração da cidade, em um excelente espaço que proporciona conforto e tranquilidade para o público.

Confira aqui algumas das atrações:

O Evento conta com o apoio e presença das principais editoras e lojas geek, com direito a super-promoções e preços mais camaradas. Vale a pena barganhar, conversar e trocar ideias com o pessoal em cada stand, saber das novidades e sair com alguns novos tesouros.



Um espaço de palestras para debates, painéis e troca de ideia com alguns dos principais nomes do RPG e Gameboards. No link abaixo você encontra a programação do evento e quem vai estar lá para falar.

O sucesso da Área de Protótipos onde desenvolvedores de jogos tem a chance de apresentar seu trabalho em primeira mão para o público.




O Espaço Free-Play com mesas de demonstração para RPG e Boardgames onde é só chegar, sentar e jogar.




FREEPLAY

Vai rolar também Torneios Oficiais de Cardgames 



Quer garantir o seu ingresso? Então corre no link abaixo: 


O passaporte especial tem um preço super camarada para quem quiser aproveitar os dois dias. Dêem uma olhada!

RESUMINDO:



Pessoal, esse é "o Grande Evento" do ano para todos que curtem o universo fascinante dos jogos de mesa, seja tabuleiro ou de interpretação.

Vale muito a pena para quem quer conhecer outros jogadores, trocar ideias, rever amigos e colegas, saber das últimas novidades e entre uma coisa e outra, rolar uns dados na companhia de gente super legal e amigável.

Venha então para o Diversão Off-Line Rio 2018.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

A Família de Lobisomens - A Dinastia partida dos Gandillon


Um lobisomem já é difícil de acreditar, mas o que dizer de uma família inteira de lobisomens? 

Tal história aconteceu na região de Jura no oeste da França em 1598. No verão dquele ano, um garoto chamado Benoit Bidel e sua irmã estavam colhendo morangos próximo da vila de St. Claude. Enquanto o menino estava escalando uma árvore, um lobo com mãos humanas surgiu do meio da floresta e agarrou sua irmãzinha. Benoit pulou da árvore e tentou esfaquear o lobo, mas o monstro arrancou a arma de sua mão e desferiu uma mordida em seu pescoço antes de correr para o interior da floresta.

Alguns camponeses que estavam passando ouviram os sons de gritos e correram para ver o que era. Eles encontraram Benoit sangrando em profusão, sua irmã estava caída ao lado em choque. Antes de morrer pelo ferimento, Benoit fez uma descrição da criatura que o atacou. Os camponeses furiosos com oq ue havia acontecido entraram na floresta para procurar a besta responsável pela tragédia. Ao invés disso descobriram uma menina chamada Pernette Gandillon vagando sem rumo por uma trilha. Os aldeões perceberam que o vestido de Pernette estava coberto de sangue, então concluíramq ue ela deveria estar ligada ao ataque. Quando se aproximaram, ela rosnou com um animal selvagem e atacou o bando. Eles reagiram e em maioria a mataram.


A despeito de Pernette ter confessado ou não que era um lobisomem, ainda que algumas testemunhas tivessem certeza disso, havia uma razão a mais para toda aquela violência contra uma moça de pouco mais de 17 anos. A família dela, os Gandillon eram bastante impopulares. Pernette e os demais membros da família viviam na floresta, em uma cabana isolada do restante de St. Clause. 

Havia muitos rumores a respeito do estranho clã. As más línguas sugeriam que eles guardavam algum segredo terrível e que por essa razão preferiam se manter afastados para que ninguém descobrisse. Outros afirmavam categoricamente que o patriarca mantinha relações pouco naturais com as filhas e que pelo pecado cometido, as meninas haviam desenvolvido estranhas características: seis dedos em cada mão, orelhas pontudas e rabos de lobo. Outros diziam que todos os Gandillon eram satanistas que veneravam Lúcifer e sacrificavam crianças na floresta. Havia ainda a suspeita de que eles seriam lobisomens e que como tal matavam quando tomados pela licantropia.

O corpo de Pernette foi arrastado até St. Claude e colocado na frente da prefeitura com umaplaca onde se lia "Filha de Lobisomens" em volta do pescoço. Após esse assassinato, seus irmãos Pierre e Antoinette foram também acusados de serem lobisomens. Uma família de vizinhos dos Gandillon relataram uma história medonha de que os irmãos haviam sido vistos participando de uma missa negra e de uma orgia. Em uma das versões, Antoinette que tinha apenas 13 anos teria sido visto fazendo sexo com um bode preto, um dos mais conhecidos disfarces do demônio. 

A loucura se apossou do povo de St. Claude e uma turba seguiu para a casa dos Gandillon exigindo que os irmãos se entregassem. Quando se negaram, simplesmente entraram na casa e os levaram amarrados para a praça da cidade. Após serem torturados, Pierre acabou confessando que as acusações eram verdadeiras. 

 Ele admitiu que o Demônio havia oferecido à família peles de lobos que tinham o poder de transformar os Gandillon em lobisomens. Jogando as peles sobre a cabeça, os Gandillon eram capazes de se transformar em lobos e correr pelos campos com as quatro patas, devorando animais e humanos. O Patriarca da Família, Georges e sua esposa também foram acusados de participar das barganhas demoníacas, ainda que a confissão de Pierre eximisse seu pai e mãe de qualquer envolvimento. As coisas não pararam por aí, primos próximos e distantes, dois tios e mais um avô que vivia no vilarejo vizinho também foram acusados. Segundo rumores, até mesmo uma família de uma aldeia longe de St. Claude, que tinham por sobrenome Gaudilion acabaram arrastados para a teia de acusações e boatos. Por pouco não acabaram sofrendo represálias.

Para azar dos Gandillons, o infame Juiz Henri Boguet, um homem severo e temido foi colocado à frente dos trabalhos legais. Embora muitas pessoas acreditassem em lobisomens, a maioria se mostrava cética que tal coisa poderia existir. Existia a crença de que o demônio podia corromper as pessoas e fazer com que elas acreditassem que haviam se transformado em lobos.

Boguet, levava muito à sério as histórias sobre lobisomens. Ele era autor de "Examen de Sorcieres" (Exame das Feiticeiras), um livro popular, publicado em 1590 que detalhava as confissões de mais de 40 bruxas versando a respeito de adoração, missas negras, conjunção carnal com demônios e claro, licantropia. De fato, um dos capítulos, era justamente a respeito de homens que se transformavam em lobos e como tal coisa se espalhava pela França como uma epidemia profana. O Juiz afirmava que em sua carreira havia sentenciado mais de 600 lobisomens e que seu trabalho era essencial para manter a paz.

Enquanto visitava os Gandillon na cadeia, o Juiz percebeu que Georges, Antoinette e Pierre manifestavam claros indícios de terem licantropia. Por exemplo, quando Bouguet espetou Pierre com um alfinete de prata ele imediatamente gritou e se atirou no chão como se estivesse sofrendo convulsões. Além disso, a face e as mãos da família apresentavam o que o Juiz chamava de sinais inequívocos da Licantropia, na forma de arranhões, unhas em determinado formato e o sinal de um sexto dedo amputado. A respeito de Pierre, que estava muito ferido pela tortura sofrida, o Juiz disse: "Esse monstro sequer parece com um ser humano e não há como olhar para seu semblante bestial sem sentir horror".

O juiz afirmou que a família deveria ser mantida presa na masmorra até que se transformassem em lobisomens provando assim que as acusações eram verdadeiras. É claro, os Gandillon jamais se transformaram em lobos e isso começou a chamar a atenção da população que passou a levantar dúvidas sobre as histórias cada vez mais exageradas. Para muitos, o Juiz estava meramente se promovendo às custas da desgraça alheia ou sendo um completo idiota. Percebendo que as coisas poderiam virar contra ele, o Juiz atribuiu a falta de transformação a falta das capas encantadas e de unguentos sabidamente usados pelos licantropos para iniciar a transformação.


Os irmãos Gandillon foram sentenciados a morrer na fogueira, mas no último momento a pena de Antoinette foi comutada para que ela pudesse viver em um convento até o fim de seus dias. Pierre foi executado, seguido de seu pai e de dois tios. 

Após os trabalhos, Henry Boguet conquistou enorme fama em toda França sendo conhecido como um dos mais importantes Demonologistas e Caçadores de Bruxas de sua época. Em 1602 ele publicou Discours exécrable des Sorciers (Discursos Execráveis sobre a Feitiçaria) um Manual que tratava de bruxaria que teve doze reedições em doze anos. O Magistrado teria morrido na pobreza extrema e louco em 1619, ele acreditava ter sido vítima dos malefícios de bruxas que o amaldiçoaram.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A Besta de Gevaudan - A França aterrorizada por uma fera sanguinária


Entre os anos de 1764 e 1767 os habitantes da pequena província francesa de Gevaudan - atualmente parte de Lozere, próximo das Montanhas Margueride, foram aterrorizados por uma horrível criatura lupina que passou a  ser conhecida como La Bête du Gevaudan ou "A Besta de Gevaudan".

A criatura foi descrita como um monstro semelhante a um lobo, mas muito maior dos que qualquer lobo que já havia vagado pela região, sendo quase do tamanho de uma vaca ou de um burro. Suas patas eram dotadas de garras afiadas, a pelagem era escura como a noite, a cabeça maciça semelhante a um mastim com orelhas pequenas e retas, além de uma boca excepcionalmente grande, repleta de enormes presas. Mais do que uma aparência medonha, a criatura parecia dotada de uma maldade inerente que a impelia a matar pelo simples prazer de fazê-lo, não apenas para se alimentar ou defender.

Acredita-se que até seu reinado de terror se encerrar, a Besta de Gevaudan tenha matado algo entre 60 e 100 homens, mulheres e crianças, deixando ainda um saldo de mais de trinta feridos. Atestar a veracidade desses números, é claro, constitui uma tarefa impossível, mas ao certo se sabe que o caso realmente aconteceu e que o número de vítimas foi elevado uma vez que causou comoção em todo país, vindo a ser conhecido em outras partes da Europa.

O primeiro encontro relatado com a fera aconteceu em maio de 1764 na floresta de Mercoire próximo de Langogne na porção oriental de Gevaudan. Uma jovem que cuidava de seu rebanho de gado percebeu uma forma escura espreitando em meio aos arbustos. Ela contou que a fera saltou da mata investindo contra os animais, mas os touros conseguiram mantê-lo à distância com seus chifres. A criatura atacou por uma segunda vez lutando contra os touros, um comportamento incomum para um lobo, mas foi repelida novamente. Os animais conseguiram ganhar tempo suficiente para a mulher apavorada escapar e chegar até seu vilarejo, onde ela contou o que havia acontecido. Os homens da vila se armaram e foram até o local, encontrando alguns animais feridos, mas nenhum sinal do lobo.

Apenas um mês depois, o lobo apareceu novamente. Dessa vez o ataque terminou em tragédia, com a morte de uma menina que não conseguiu escapar da fera. O corpo da criança foi encontrado próximo a um córrego onde ela havia ido encher um cântaro de água. Ela havia sido horrivelmente mutilada e seu coração, segundo as estórias, fora devorado pela fera.  


Nos meses que se seguiram a região mergulhou em um clima de apreensão à medida que o enorme lobo negro prosseguia em sua matança, parecendo ter desenvolvido um gosto especial por mulheres, crianças e homens solitários que se embrenhavam na floresta para cuidar de seus animais pastoris. A forma como a fera atacava também era incomum para um predador, pois ele visava a cabeça se suas vítimas, ignorando os braços e pernas, áreas em que lobos tendem a se concentrar. As vítimas que não eram inteiramente devoradas ou desapareciam sem deixar vestígios, eram encontradas com suas cabeças despedaçadas ou completamente removidas de seus corpos, algo que nunca se tinha ouvido falar até então.

Em virtude do grande número de ataques e vítimas fatais, alguns começaram a suspeitar que haveria mais de uma fera, um par ou quem sabe até uma alcateia dos temíveis animais. De fato, algumas testemunhas relatavam ter avistado a fera no momentos em que ela era vista em outro lugar. Alguns também diziam ter visto o enorme lobo andando com outros animais menores que ele parecia liderar. Os relatos se multiplicavam e um estranho boato começou a se espalhar: o de que a fera seguia as ordens de um homem misterioso todo vestido de couro preto que apontava as pessoas que a fera deveria matar. Para alguns era um nobre decadente que tornava o assassinato seu esporte, para outros era o próprio diabo. 

A medida que a Besta de Gevaudan continuava a matar sistematicamente, as pessoas começaram a acreditar que por trás das suas ações havia algum componente sobrenatural. Caçadores perdiam o rastro da fera no meio da floresta, armadilhas eram ignoradas, armas pareciam negar fogo e os mateiros não entendiam como um lobo tão grande era capaz de se esquivar de todas as buscas. A habilidade da criatura em sobreviver a todas as tentativas de eliminá-la e o fato dela preferir matar mulheres parecia algo claramente sobrenatural. Os camponeses passaram a acreditar que não estavam enfrentando um simples lobo, mas um loup-garou, um lobisomenApesar de todas as providencias para aumentar a segurança erguendo cercas e acendendo tochas durante a noite, não havia sinal da fera diminuir a sua sede de sangue. 


Em outubro de 1764 dois caçadores encontraram a besta na floresta e atiraram contra ela a uma distância de apenas dez passos. Eles atingiram a criatura quase à queima roupa e conseguiram derrubá-la, mas antes que eles pudessem recarregar os mosquetes para uma segunda salva, ele se ergueu e correu para o bosque. Os caçadores juraram ter acertado a fera, mas contaram que as balas não foram capazes de matar a besta imbuída de uma resistência, obviamente diabólica. Uma vez tendo contado o que havia acontecido, organizou-se um grupo de caça que encontrou facilmente os rastros de sangue adentrando o bosque, exatamente no local em que os homens haviam alvejado a criatura. Diante da quantidade de rastros, todos acharam que seria questão de tempo até encontrarem a carcaça da fera em algum ponto da floresta. Os homens entraram na parte mais profunda da mata, onde descobriram vários corpos de vítimas até então desaparecidas, mas nenhum sinal da fera responsável por aquele massacre. Quando se preparavam para retornar, o lobo surgiu sorrateiramente, investindo contra os homens e fazendo mais quatro vítimas fatais. Os sobreviventes contaram que dispararam inúmeras vezes, acertando o alvo, mas cada vez que a besta era baleada, se levantava para atacar novamente. Aterrorizados, os homens fugiram sem olhar para traz.         

Depois disso, o pânico se instalou de vez na região. As estórias sobre as façanhas da fera se espalharam, carregadas por caçadores, mercadores e viajantes. Logo não havia um caçador na França que não tivesse ouvido falar da maligna Besta de Gevaudan. Várias beats se formaram, grupos de caçadores compostos de vários homens, a pé ou montados, armados com mosquetes potentes, longas lanças de caça e mastins farejadores. 

O chefe da milícia local, o Capitão Duhamel foi incumbido pelo próprio Rei Luis XV de encontrar e eliminar a ameaça responsável por deixar os camponeses em um estado de terror tamanho, que colocava em risco as colheitas. Duhamel organizou uma enorme grupo de voluntários formado por dezessete caçadores experientes montados à cavalo, um estoque de mais de 40 mosquetes previamente carregados e uma parelha de mais de trinta cães de caça. O grupo chacinou todos lobos que viviam na região. Segundo contas, mais de 200 animais foram mortos, mas nenhum deles se parecia com a elusiva Besta de Gevaudan.

Os caçadores espalharam armadilhas pela floresta, deixaram ovelhas em lugares acessíveis vigiados noite e dia, aguardaram e chegaram até a vestir alguns com roupas de mulher para tentar atrair a fera. Mas nenhuma dessas estratégias logrou êxito. 

Finalmente em novembro, o grupo de Duhamel avistou a  fera e a perseguiu pela floresta, mas a perdeu em uma área onde os cavalos não conseguiram adentrar. Seguindo à pé, os implacáveis caçadores não se renderam e depois de encontrar com o enorme lobo em uma clareira dispararam contra ele supostamente o alvejando repetidas vezes. Ainda assim, a fera conseguiu escapar para dentro do bosque. O grupo acreditando que o animal não poderia sobreviver a todos os ferimentos infligidos retornou a Gevaudan onde foram recebidos como heróis.    

Dias se passaram sem nenhuma notícia da fera, até que no final de dezembro, perto do Natal, mais uma mulher desapareceu. O grupo de busca localizou os seus restos terrivelmente mutilados em uma ravina: o pesadelo continuaria. A credibilidade do Capitão Duhamel caiu por terra e ele foi destituído depois que um dos seus homens de confiança quase foi linchado por uma multidão furiosa. 


Em Paris, as notícias foram recebidas com reprovação. Críticos da monarquia diziam que a fera estava fazendo o Rei de tolo e que o monarca não era capaz de cuidar da segurança de seus súditos e se livrar de um simples animal selvagem. Insuflando os rumores, alguns afirmavam que um nobre renegado estava por detrás das mortes, controlando um lobo selvagem. Para outros, o tal nobre seria o próprio lobo demoníaco, no qual se transformava nas noites de lua cheia.

Uma recompensa foi prometida para quem matasse a fera e apresentasse o seu corpo. Um emissário real viajou até a região de Gevaudan levando a notícia de que o caçador que eliminasse a fera receberia uma verdadeira fortuna. O Rei ordenou que a Fera de Gevaudan fosse morta e seus restos expostos em Paris como forma de acalmar a população.

O montante oferecido atraiu não apenas caçadores da França, como homens de todas as partes da Europa que convergiram para Gevaudan ávidos pela glória e pela riqueza. A caçada durou meses, e mais de cem lobos foram abatidos, mas nenhum deles foi reconhecido como sendo a fera responsável por aquela situação. Os habitantes locais estavam cansados da presença de tantos estrangeiros comendo a sua comida, remexendo os campos e invadindo suas propriedades. Alguns caçadores agiam de má fé tentando ludibriar as autoridades reais. Um homem chegou a apresentar a carcaça de um animal estranho e incomum, alegando que havia abatido a criatura após uma épica caçada. O mestre de caça, reconheceu os restos pelo que eles de fato eram, uma hiena, que aparentemente havia sido trazida do norte da África.     

Após a morte de duas crianças em tenra idade, o Rei comovido pela situação, contatou um normando chamado Denneval, que fora Guarda Caça de um marquês e que tinha a reputação de ser o maior caçador da França. O monarca depositou no sujeito suas últimas esperanças e prometeu a ele um título de nobreza caso fosse bem sucedido na perigosa empreitada.

Em fevereiro de 1765. Denneval chegou a região de Gevaudan acompanhado de cinco ajudantes de sua inteira confiança, sendo um deles um nativo americano que ele havia encontrado em uma expedição a colônia de Manitoba e que era famoso pelas suas qualidades como rastreador. A entourage contava ainda com um verdadeiro arsenal de 50 mosquetes militares pesados, lanças com mais de dois metros de comprimento, bestas que disparavam setas de ferro, bombas explosivas de pólvora negra, armadilhas e correntes para capturar ursos e outros equipamentos modernos. Os homens do Guarda Caça, usavam armaduras negras de couro batido e eram uma visão aterrorizante, em especial o selvagem do Novo Mundo com o cabelo moicano e pintura de guerra. Denneval vestia uma armadura de couro e metal cheia de espinhos e dizem havia matado uma loba no cio e espalhado seu sangue em todo traje. O fedor que exalava era nauseante, mas ele estava confiante de que isso atrairia a presa.

O grupo de Denneval logo ganhou a companhia do jovem Jacques Denis, um rapaz de dezesseis anos que conhecia como ninguém a floresta e que provou não estar intimidado pela tarefa e nem pela aparência do bando. Jacques explicou que desejava se vingar da fera uma vez que ela havia matado sua irmã mais velha meses antes. O rapaz havia testemunhado o horrível ataque e visto o corpo sem vida da irmã ser arrastado como um boneco para a floresta de onde jamais foi recuperado. O rapaz foi aceito na companhia dos caçadores que vasculharam cada canto da floresta. O plano de Denneval era forçar a fera para cada vez mais perto de Gevaudan a fim de fazer o abate.

Em meados de maio, o plano do Guarda Caças teve êxito, mas não da maneira que ele esperava. A fera foi atraída para a cidade, durante as comemorações da Feira da Primavera. Durante seu ousado ataque, a besta matou várias pessoas incluindo uma jovem de nome Marguerite, que estava enamorada de Jacques Denis. Furiosos, aldeões se armaram com ferramentas, paus, pedras e qualquer coisa que pudessem usar como arma para matar o monstro. Jacques e um grupo penetrou na floresta seguindo o rastro do lobo, mas acabou caindo em uma armadilha. Os homens acabaram morrendo e se não fosse a chegada providencial de Denneval e seus homens, Jacques também teria sido morto pela fera. Apesar de sobreviver, diz a lenda que os cabelos do rapaz ficaram totalmente rancos e que ele pareceu envelhecer décadas com a experiência. Pouco depois desse ataque, que teria deixado mais de doze mortos, Denneval desistiu da perseguição.

"Não há o que fazer" teria escrito ao Rei se desculpando. Ele continuou: "A fera nos iludiu a entrar na floresta a fim de atacar impunemente o vilarejo. Claramente estamos diante de algo que desafia a razão e que age impelida pelo desejo de matar. Temo que nossa presença aqui apenas a torna mais selvagem e vingativa".


Perturbados pela desistência do Guarda Caça, a maioria dos caçadores também partiram. Livre para agir impunemente, a fera prosseguiu impiedosa. Ele matou um rapaz de quatorze anos e uma mulher que carregava um recém nascido. Furioso com a carta do Guarda Caça, o Rei ordenou que Denneval fosse trazido à sua presença, mas ele escapou para outro país desaparecendo da história. Um dos conselheiros de Luis XV indicou um homem para assumir o lugar do Guarda Caça, seu nome era Antoine de Beauterne, um renomado taxidermista parisiense que havia caçado todo tipo de presa na Europa e na África.

Beauterne chegou sem estardalhaço e fez aparentemente pouco no início. Explorou a floresta, desenhou mapas e assinalou neles onde a besta havia sido vista. Em uma de suas expedições encontrou com o nativo de Manitoba que ficou para traz após a desistência de Denneval. O homem, que passou a ser chamado de Mani, ofereceu suas habilidades como rastreador.

Em 21 de setembro, Beauterne organizou um grupo de caça formado por quarenta caçadores locais especialmente escolhidos para a tarefa, e uma dúzia dos melhores cães farejadores. Unindo o seu conhecimento do terreno aos valiosos conselhos de Mani, os homens se concentraram em uma área rochosa isolada, repleta de ravinas próxima ao vilarejo de Pommier. Parecia lógico para o taxidermista que o lobo usasse esse lugar, cheio de cavernas como covil por ele proporcionar um bom esconderijo e dispor de água potável. O plano era levar a caçada até um lugar em que a fera se sentisse segura, e onde ela não esperava ser confrontada.

Logo que chegaram ao local os cães captaram um cheiro e começaram a latir como loucos. Não demorou para a besta emergir de uma caverna para investigar. Um dos homens deu alerta e Beauterne disparou seu mosquete acertando em cheio o dorso da fera. Ela ainda saltou derrubando um dos homens, mas imediatamente os outros abriram fogo crivando o lobo com tiros certeiros. Um deles teria arrancado seu olho esquerdo e se alojado no crânio. A criatura ganiu e caiu morta, mas enquanto os homens comemoravam, ela de repente se ergueu e investiu novamente com uma ferocidade sobrenatural. Uma segunda saraivada de balas foi disparada e finalmente a fera acabou tomando. O golpe final foi desferido por Mani. Armado com uma afiada machadinha o nativo saltou sobre a fera, sua arma descreveu um giro no ar e caiu pesadamente despedaçando o crânio da besta. Aproximando-se cautelosamente os homens se colocaram a golpear a carcaça com baionetas e lanças compridas até reduzi-lo a uma coisa grotesca e sanguinolenta.

Os caçadores amarraram o que havia restado da fera em um estrado e o arrastaram até Pommier. Beauterne examinou cuidadosamente os restos da fera e concluiu que se tratava de um magnífico lobo medindo um pouco mais do que 1,80 m e pesando algo em torno de 90 quilos, com uma boca cheia de presas com mais de uma polegada de comprimento. Beauterne tentou preservar a criatura a fim de levá-la até o Rei, mas apesar de seus esforços, a carcaça havia recebido muitos danos durante a caçada. Tudo o que ele conseguiu salvar foram as orelhas, os dentes e o rabo, todo o resto foi queimado e enterrado nos arredores do vilarejo.


Por mais de um ano, as coisas ficaram tranquilas em Gevaudan e a vida foi voltando ao normal. Então, na primavera de 1767 as mortes reiniciaram. Duas crianças haviam desaparecido e o corpo de uma mulher sem a cabeça foi achado em um descampado. Beauterne foi chamado para retornar a Gevaudan, mas ele afirmou que aquelas mortes não eram o trabalho de um lobo, e sim de um maníaco.

Em 19 de junho do mesmo ano, um nobre local, o Marques d'Apcher organizou a maior beate já vista para encontrar o rastro do animal. Mais de trezentos homens a pé e montados vasculharam cada centímetro do bosque. Nada foi encontrado.
   
Na época, um homem misterioso chamado Jean Chastel passava pela região. Ele era um conhecido de Jacques Denis e se ofereceu para exterminar a fera. Ao contrário dos outros ele não era um caçador experiente, mas um especialista em folclore e superstições. Chastel afirmava que o responsável pela nova onda de mortes não era um simples lobo, mas uma besta sanguinária aprisionada no corpo de um homem. A luz fazia com que a fera no interior do culpado viesse à tona com um incontrolável desejo de matar. O espírito do lobo de Gevaudan havia contaminado esse homem o transformando em um assassino. Ele era um loup-garou.

O especialista conseguiu convencer as pessoas de Gevaudan a doar objetos de prata e quando tinha o suficiente mandou derreter tudo a fim de produzir projéteis que foram abençoadas pelo pároco local. O plano de Chastel era atrair o lobisomen para os limites do bosque. Ele preparou o lugar cuidadosamente e acompanhado de Denis recitou uma série de orações. Na alta madrugada, os dois perceberam movimento na mata e ficaram alerta. De repente uma besta em forma de lobo irrompeu da floresta e avançou na direção dos dois. Chastel disparou com suas pistolas e os projéteis de prata pura vararam o corpo da besta que caiu fulminada.

Assim como a fera morta por Antoine de Beauterne essa criatura era um enorme lobo, consideravelmente maior do que os outros que habitavam a floresta. O monstro foi estripado e dentro dele encontrou-se os restos de uma criança que havia desaparecido na véspera. A besta foi embalsamada e levada de cidade em cidade para que as pessoas pudessem vê-la, em troca de uma pequena contribuição, é claro. Infelizmente para a ciência moderna, os métodos de preservação da época não eram bons o bastante e o que restou da fera acabou chegando até Paris em um estado deplorável. O fedor incomodou o Rei de tal forma que ele ordenou que os restos fossem levados de sua presença imediatamente. Há informações contraditórias a respeito do que aconteceu com a Besta então. Para alguns ela foi queimada e suas cinzas espalhadas ao vento, apesar dos protestos de Chastel. Outros dizem que a carcaça chegou a ser levada até o genial taxidermista Beauterne que restaurou a fera e a vendeu para um nobre colecionador.

Seja como for, os restos da lendária Besta de Gevaudan jamais foram recuperados, causando mais de dois séculos de controvérsia a respeito de sua real identidade. Em 1960, após estudar a transcrição de Antoine de Beauterne a respeito do processo de dissecção da fera por ele abatida, uma comissão de zoólogos concluiu que o animal descrito era realmente um lobo. Franz Jullien, taxidermista do Museu Nacional de História Natural de Paris, encontrou amostras dos dentes da Besta de Gevaudan guardadas no arquivo do Museu e as submeteu a testes, concluindo que se tratavam realmente de presas de um lobo de grande porte. Em 1979, restos de um animal empalhado foram encontrados guardados no depósito do museu em uma caixa. Segundo boatos, seriam os restos do espécime que Jean Chastel abateu com suas balas de prata. O animal foi aparentemente identificado como uma hiena nativa do Norte da África, Oriente Médio, Paquistão e Oeste da India.  

Seria a Besta de Gevaudan uma enorme hiena e não um lobo? A ideia foi contemplada entre outros pelo novelista Henri Pourrat e pelo naturalista Gerard Menatorv que propuseram a hipótese de uma hiena ter sido trazida por negociantes de naimais e uma vez recusada em um zoológico, libertada na floresta. Há ainda outra hipótese que coloca em xeque a credibilidade de Jean Chastel. Segundo rumores, o pai de Chastel possuía uma hiena em sua menageria (um termo do século XVII usadopara coleções de animais mantidos em cativeiro). Alguns pesquisadores acreditam na possibiliadde de Jean Chastel ter inventado a estória a respeito do loup-garou e usado a hiena que pertencia a menagerie de seu pai para se auto-promover.

Isso levanta a questão a respeito de quem seria então o responsável pelas mortes após Beauterne ter eliminado o grande lobo. Para alguns, Chastel ou alguém muito próximo a ele teria deliberadamente assassinato inocentes para criar a impressão de que a Besta ainda vagava por Gevaudan fazendo vítimas. Para muitos, o misterioso Chastel era um homem de moral dúbia, ganancioso e ávido por riquezas. Uma das razões pelas quais o Rei Luis XV se negou a recebê-lo foi justamente por ele ter tentado vender ao monarca, por um preço exorbitante, os restos da fera abatida. Chastel morreu em relativa obscuridade, mas não é totalmente surpreendente que alguns afirmem que ele teria se tornado um algoz da nobreza e que desempenhou o papel de perseguir nobres após a Revolução.

É claro, tudo isso é mera especulação uma vez que não há como determinar historicamente se houve mais de uma Besta de Gevaudan. O que se sabe é que o sentimento de terror que tomou conta da região entre 1764 e 1767 foi muito bem documentado na época. A população de lobos também foi drasticamente reduzida chegando praticamente a extinção por conta das caçadas empreendidas naqueles três anos.

O que levou um lobo a emergir das floresta para matar indiscriminadamente os habitantes de uma pequena província na França continua sendo um mistério. Mas um marco de pedra foi construído no local, lembrando a todos daqueles dias de medo.

  

sábado, 15 de setembro de 2018

Cinema Tentacular: A Freira - "Deus termina aqui"


Eu estudei em colégio de freiras minha infância e adolescência inteiras.

Na época em que eu estava no colégio, freiras já eram bem diferentes da ideia que boa parte das pessoas tem delas. Elas não eram amargas, ressentidas, fanáticas religiosas vestidas de pinguim e armadas com poderosas e devastadoras réguas usadas para disciplinar as crianças. Elas jogavam vôlei e dirigiam, sem falar que a maioria delas eram bem simpáticas e nem usavam hábito. É provável que a visão que muitas pessoas tem das freiras, seja uma visão um tanto estereotipada, posteriormente suavizada por simpáticas Noviças Rebeldes e/ou voadoras.

Minha mãe que também estudou em colégio de freiras sempre contou como elas eram severas, enérgicas e muitas vezes apavorantes. Talvez para a minha mãe, o filme "A Freira" (The Nun) surtisse mais efeito do que em mim. Talvez para ela fosse mais fácil associar a Freira Monstruosa do filme com as religiosas que mandavam no colégio que ela estudou.

Sem dúvida o filme "A Freira" aposta em uma imagem de Severidade e Isolamento para contar sua história de Horror. E cria um personagem bem macabro, como é possível atestar no trailer e nas fotos emoldurando essa resenha.


Mas falemos do filme em si, "A Freira" (The Nun/2018) é a quinta produção da franquia iniciada por Conjuração do Mal, que introduziu o casal de Investigadores e Demonologistas Ed e Lorraine Warren. Desde o primeiro filme, os dois se meteram com fantasmas, bonecas malditas, demônios e tiveram um entrevero com a própria freira que é a personagem central nesse capítulo. Sabendo que os Warren do mundo real estiveram na ativa e nas manchetes de tabloides por boa parte dos anos 70 a 90, é provável que ainda tenhamos mais filmes envolvendo o universo do casal. Enquanto estes estiverem rendendo uma boa bilheteria é razoável assumir que veremos outros casos paranormais seguindo o mesmo esquema.

"A Freira" é uma espécie de prequel na qual a história do macabro demônio chamado Valek é aprofundada. Ficamos sabendo mais alguns detalhes a respeito dessa criatura maligna, seus objetivos, de onde ele veio e como ele foi contido.

A história se passa no ano de 1952, no interior da Romênia, uma nação que sofreu profundamente com a Segunda Guerra e que ainda se reconstruía. Como um dos personagens comenta, viajar pelo interior do país é como retornar a Era Medieval, uma verdadeira colcha de retalhos de tradições, folclore e superstições.


Os primeiros dez minutos criam a atmosfera que vai acompanhar o espectador durante todo o filme. Não vou estragar as surpresas contando do que trata, mas a abertura é excelente, de fato, uma das melhores coisas do filme. Nela conhecemos a sinistra Abadia de St. Carta, a morada de uma rígida ordem de freiras que se dedicam a rezar e meditar sem qualquer contato com o mundo exterior. Mesmo as entregas de suprimentos para a abadia são feitas através de uma porta giratória para que ninguém entre e, mais importante, nenhuma das freiras saia. Quando o encarregado de levar os tais suprimentos chega a abadia e se depara com uma cena medonha do que parece ter sido um suicídio, ele corre para avisar.

Ciente do ocorrido, o Vaticano despacha para a região um religioso badass, Padre Burke (Demian Beshir) uma espécie de investigador sobrenatural com experiências desagradáveis durante a guerra. A missão do Padre é avaliar o que motivou o suicídio e se o local ainda pode ser considerado "sagrado". Para auxiliá-lo nessa importante tarefa, decidem enviar para acompanhá-lo uma noviça de mente aberta e atitude progressista, Irmã Irene (Tessa Farmiga). As razões para ordenar que uma jovem noviça tome parte em algo tão incomum permanecem à princípio desconhecidas, até mesmo mesmo para a própria mocinha. Depois de encontrar o sujeito que descobriu o corpo, um franco-canadense apelidado de Frenchie (Jonas Bloquet), os três acabam seguindo para a Abadia a fim de dar início a investigação e desvendar seus muitos segredos.

Um dos méritos do filme é que ele não perde tempo... assim que o grupo chega a abadia coisas bizarras começam a acontecer quase que de imediato. Uma sombria Madre Superiora os convida para passar a noite no alojamento do convento e explorar os arredores de maneira mais completa. De vultos macabros a ruídos inexplicáveis, passando por presenças invisíveis e espectros furiosos, o filme ao longo de 96 minutos de duração oferece toda sorte de manifestações sobrenaturais com o objetivo de pegar o público de surpresa e assustá-lo.


Aí está um dos problemas: ao recorrer repetidas vezes ao expediente do jump scare, o filme quase derrapa, tornando-se repetitivo. Quem realmente gosta de filmes de horror sabe que nada, nem mesmo a cena mais bem elaborada ou efeito especial mais mirabolante, consegue superar uma boa dose de horror psicológico. A Freira em alguns momentos repete a fórmula de tentar surpreender o público custe o que custar, mas não chega a realmente assustar. Por sinal, se essa for uma condição essencial para que você assista esse filme, então é possível que saia do cinema desapontado. Com todos seus jogos de câmera, sombras furtivas, gritos estridentes, o filme não chega a causar qualquer sensação de medo ou desconforto.

O que parece é que o roteiro joga para a torcida. Em um filme mais profundo e denso algumas cenas talvez conseguissem incomodar, mas o diretor parece tentar agradar a todos: aos que vieram assistir um filme de horror tradicional e aqueles que não tem muita certeza se deveriam estar na platéia. Para estes, o roteiro quebra o clima de horror inserindo aqui e ali algumas pontas de humor e piadinhas que atenuam a atmosfera de medo. Para os fãs mais hardcore isso pode ser um pecado mortal, mas a suavização deve agradar ao pessoal menos afeito ao gênero.

Visualmente "A Freira" é impecável! O filme possui uma fotografia escura, com sombras que parecem adquirir vida própria dependendo do ângulo em que elas são enquadradas. A equipe de direção de arte se esmerou em criar os ambientes soturnos da abadia nos mínimos detalhes: cada aposento, cada estátua, cada espelho e detalhe de afresco ajudam a passar uma ideia de isolamento e confinamento. Mesmo do lado de fora, o cemitério, com as suas lápides e cruzes de todos os tamanhos e formas, criam a ilusão de ser impossível escapar. Para quem aprecia os antigos clássicos da Hammer/Amicus, é possível perceber que o visual rende uma homenagem a esses velhos filmes góticos com seus castelos medievais e mansões assombradas, aqui transformados em um convento maldito. Os efeitos visuais e especiais são sólidos, mas não chegam a encher os olhos.


O elenco consegue estabelecer uma boa química: a dupla de protagonistas religiosos (padre e noviça) são suficientemente confiáveis e entregam aquilo que se espera. Tanto Beshir quanto Farmiga são bons atores e estão à vontade em seus papeis - por sinal Tessia Farmiga é irmã mais nova de Vera Farmiga que vive Lorraine Warren. O terceiro protagonista, Jonas Bloquet, serve como um alívio cômico um tantinho exagerado, mas que felizmente não chega a comprometer.

Talvez a maior decepção infelizmente seja justo o "monstro" do filme, que não rende o esperado. Embora seja um spinoff centrado em Valek, o roteiro é bastante econômico a respeito das motivações do Demônio. No fim, ele é mal, porque trata-se de um demônio, e espera-se que um demônio seja malvado. Quando ele aparece na tela existe a expectativa de que a cena vai ser assustadora, mas fica apenas nisso: Expectativa. Nenhuma das aparições chega a ser tensa ou particularmente memorável. Uma pena, pois a aparência cadavérica da Freira Demoníaca tinha tudo para causar apreensão e alçá-la a um lugar de honra na galeria de monstros memoráveis.


"A Freira" é um filme que consegue entreter, mas está longe de ser uma montanha russa de emoções e surpresas. Está mais para um passeio indolor num trem fantasma, daquele que quando termina você diz "foi isso"? Sem dúvida, aqueles que conseguirem manter as expectativas baixas vão aproveitar muito mais e sair com uma sensação de ter assistido uma matinê. Quem for esperando algo mais profundo, provavelmente vai reclamar e querer seu dinheiro de volta.

De uma forma ou de outra, a Freira está longe de ser "O capítulo mais assustador de Invocação do Mal" como promete o cartaz. Ele é divertido, mas perfeitamente esquecível.

Trailer:



quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A Besta (continua) entre nós - Mais histórias reais de Lobisomens


Leia aqui a primeira parte do artigo: A Besta entre Nós

Na história européia, há muitos casos documentados de pessoas que cometeram o crime de Licantropia e que foram condenados por serem Lobisomens. 

Em suas confissões, muitos acusados descreviam a transformação sendo causada por algum objeto mágico: um cinturão ou manto de pelo de lobo, um unguento mágico, uma poção encantada ou algum outro instrumento místico. Historiadores acreditam que tais objetos faziam parte da ilusão experimentada por mentirosos patológicos ou esquizofrênicos limítrofes que sofriam alucinações capazes de alterar a realidade. De certa forma eles falavam a verdade ao dizer que eram lobisomens, uma vez que acreditavam realmente serem lobos. Sua percepção assim interpretava e reconhecia os seus delírios. A psiquiatria compreende nos dias atuais que vários esquizofrênicos agudos realmente experimentam alucinações vívidas, sendo que a "transformação do homem em besta" é um dos relatos mais frequentes.

Mas o que dizer dos casos que possuem testemunhas que presenciaram homens se transformando em lobo? É preciso lembrar que a existência da licantropia e de lobisomens era um fato incontestável, mesmo para estudiosos e acadêmicos do período que davam por certa a possibilidade da transformação. É possível que os testemunhos decorressem de mera fabricação, de loucura ou mais provável da histeria em massa, motivada pelas muitas superstições.

Afinal, lobisomens não existem... ou será que existem?

Aqui estão mais alguns casos chocantes e verdadeiros envolvendo Lobisomens.

O Lobo Magistrado de Ansbach



A maioria dos casos envolvendo Lobisomens acabam sendo descobertos após uma pessoa cometer os crimes e confessá-los diante de um tribunal.

Mas nem sempre é assim... às vezes o Lobisomem veste a Toga de Magistrado.

Em 1685, um terrível lobo descrito como uma "besta feroz e incontrolável" aterrorizou a cidade de Neuses no Principado de Ansbach no que hoje e a Alemanha. A fera fazia vítimas e parecia determinada em caçar e matar suas presas com requintes de crueldade. O medo era tanto que as pessoas se trancavam em casa assim que escurecia e ninguém ousava sair. Havia o rumor de que a criatura não era um lobo comum, mas um lobisomem tamanha sua ousadia ao adentrar o vilarejo para aplacar sua sede de sangue.

Na época, o Chefe dos Magistrados de Neuss era um homem cruel e odiado por todos chamado Michale Leicht. Ocorre que esse sujeito acabou morrendo de repente - oficialmente de causas naturais, mas a família não permitiu que ninguém visse o cadáver que foi enterrado. Logo, um estranho boato se espalhou por Neuss, o de que o lobisomem havia sido visto nos arredores da casa do Juiz Leicht espreitando em mais de uma ocasião. Isso fez com que as pessoas passassem a acreditar que o espírito do juiz havia reclamado o corpo do lobo pelos seus muitos pecados.

Certo dia, um grupo de caçadores chegou a cidade e se comprometeu a caçar a fera. Eles conseguiram emboscar o lobo perto de um poço onde o mataram. Até aí, nada de mais, contudo, o que se seguiu a isso foi deveras macabro. O povo de Neuss levou a carcaça do enorme animal até a praça central da cidade onde o prepararam para ser apresentado. Eles colocaram no animal uma toga negra, chapéu e peruca semelhantes às usadas pelos magistrados e um óculos que lembrava o que o juiz usava. Então penduraram o corpo da fera antropomorfizada em uma forca para que toda cidade pudesse apreciar a visão. Dizem que ao longe, a criatura realmente parecia um homem animalesco. Gente de toda região viajava para ver a criatura que muitos acreditavam ter sido morta vestindo aquelas roubas em uma medonha paródia de homem e fera.

Depois de algum tempo, o lobo foi removido da trave de madeira e os restos cuidadosamente empalhados por um taxidermistas. Eles ficaram em exibição na prefeitura local até 1910. Eventualmente foram colocados no museu da cidade por serem considerados excessivamente bizarros.

O terrível caso de Jacques Roulet



Dentre todos os incidentes envolvendo licantropia na França, um se destaca pela natureza absurdamente bizarra e perturbadora dos detalhes. Trata-se do incidente de Jacques Roulet, um caso que nos faz pensar se realmente não haveria algo sobrenatural nos mitos do Homem Lobo.

O ano era 1598 e o lugar, os arredores da cidade de Angiers, na França.

Dois caçadores encontram os restos destroçados de um rapaz de 15 anos. Um enorme lobo está se alimentando do cadáver, arrancando a carne que ainda se agarra aos ossos. Um dos homens atira, mas o animal foge para a floresta. Um deles decide persegui-lo pela mata, lá acaba encontrando um homem semi-nu tentando se esconder atrás de uma moita. Ele está coberto de sangue, sua boca e barba cerrada estão manchados de vermelho com restos de pele, seus olhos são ferozes e animalescos... imediatamente os caçadores decidiram levá-lo até as autoridades.

O homem foi identificado como sendo um vagabundo chamado Jacques Roulet. A investigação a respeito do sangue concluiu que se tratava de sangue humano e depois de ser interrogado ele admitiu ter matado o rapaz de 15 anos. Jacques explicou então que era um lobisomem e que havia contraído licantropia através de uma bebida mágica dada pelos seus pais que eram feiticeiros. Jacques afirmava que seu irmão e primo também se tornaram licantropos da mesma maneira. A seguir, voluntariamente ele começou então a relatar os muitos crimes que o trio havia cometido sob influência da licantropia. 

Além do rapaz recém assassinado, Roulet confessou pelo menos mais uma dúzia de assassinatos brutais. As vítimas em geral eram crianças que andavam sozinhas pela floresta ou recolhidas em aldeias isoladas. O trio costumava capturar essas crianças, soltá-las na floresta e então "caçá-las" da mesma forma que fazia os predadores. Roulet afirmava que o trio assumia a forma de lobos e então perseguiam as vítimas até encontrá-las e matá-las. A excitação da caçada terminava com uma orgia de sangue, na qual a presa era morta e então devorada. O vagabundo contou que o grupo preferia jovens, pois estes tinham a carne mais tenra e saborosa. As descrições de Roulet eram tão minuciosas que as autoridades não tiveram dúvidas de que eram verdadeiras.

Roulet foi condenado por todos os crimes que admitiu ter cometido, a despeito de que apenas o corpo da vítima de 15 anos tenha sido comprovado. Ele foi condenado por assassinato, licantropia, bruxaria e canibalismo e a sentença foia  morte. Contudo um magistrado apelou à Corte de Justiça em Paris alegando que o homem era meramente insano. Ele foi então confinado em uma instituição mental.

O caso de Jacques Roulet é considerado o caso mais documentado a respeito de lobisomem na história da França. Existem dezenas de documentos e precedentes legais no arquivo de Paris à  respeito desse caso em especial. Historiadores acreditam que Roulet sofria de surtos condizentes com um quadro agudo de esquizofrenia e que teria cometido vários crimes nessas circunstâncias. Ele é considerado um precursor dos assassinos em série, e extremamente prolífico para sua época.

O Lobisomem de Allariz


Mas as histórias de Lobisomem não acontecem apenas na França e Alemanha e não estão confinadas apenas ao século XV e XVI.

Notório na Espanha como o primeiro assassino em série daquele país, Manuel Blanco Romasanta foi um lobisomem ativo durante a metade do século XIX. De fato, Romasanta é um caso extraordinário de muitas maneiras.

Nascido em 1809, ele foi criado como menina por uma mãe extremamente autoritária até completar aproximadamente seis anos de idade. Essa condição gerou nele um profundo ressentimento que seria carregado por toda a vida. A mãe havia ameaçado repetidas vezes cortar seu pênis com uma tesoura, o ridicularizava e diminuía. Quando um médico descobriu  que ela estava fazendo, a afastou e Manuel foi morar com tios. Ele cresceu e se casou, arranjando emprego como tecelão. Quando sua esposa faleceu em 1833, ele assumiu o trabalho de vendedor, fazendo frequentes viagens para Portugal e interior da Espanha.

As viagens ajudavam Romasanta a ocultar suas atividades criminosas. Ele era um assassino em série extremamente frio e calculista que usava de sua educação e aparência frágil para se aproximar e matar. Não bastasse as mortes, Romasanta também canibalizava as vítimas, cortava pedaços de pele e buscava órgãos internos que pudesse comer aos bocados. Acreditava ser um lobisomem, quando matava, sentia-se livre de culpa pois era um predador da natureza e como tal não tinha porque atender às leis. Seus crimes eram tenebrosos e entraram para o imaginário popular das nações Ibéricas.

Logo depois, descobriu que poderia remover a gordura dos cadáveres para com ela fabricar sabonetes. Um de seus clientes perguntou como o sabão de qualidade era feito e Romasanta contou em tom de brincadeira que aquela gordura havia vindo de uma menina de determinada cidade. Ocorre que o cliente havia ouvido falar desse crime e preocupado resolveu denunciar o sujeito.

Depois de 12 dias na masmorra ele pediu para ver o delegado responsável pela investigação e disse que queria fazer uma confissão. Manuel Romasanta contou que era culpado de 13 assassinatos. Ele descreveu cada um deles em detalhes, mas afirmou que não poderia ser considerado culpado pois não tinha controle sobre suas ações pois havia cometido os crimes usando a pele de um lobo. Disse também que a última morte havia terminado com sua maldição e que portanto não representava mais um perigo.

Romasanta foi julgado e considerado culpado de quatro mortes. As evidências forenses haviam determinado que os demais crimes que ele assumiu teriam sido cometidos por lobos de verdade, e para não aceitar a teoria de que ele era um Lobisomem, o juízo não admitiu que ele era o responsável. Um exame à luz da Frenologia (um tipo de exame criminalístico muito em voga no período) apontou que Romasanta era insano e não não podia ser culpado pelas suas ações.

Ele foi condenado a pena de morte com garrote, mas esta acabou sendo transformada em prisão perpétua a pedido de um famoso hipnólogo francês. A teoria colhida sob hipnose era de que ele sofria alucinações nas quais acreditava realmente ser um lobo. Em uma das sessões, Romasanta chegou a se comportar como uma fera, sendo inclusive acorrentado para não morder as pessoas que acompanhavam o experimento. Médicos franceses e espanhóis fizeram uma petição para estudar cientificamente o caso de Romasanta, considerado então um legítimo licantropo.

Anos depois de sua prisão, ele recebeu um indulto especial assinado pela própria Rainha  graças a médicos que acreditavam tê-lo curado. Ele passou os seus anos finais em um vilarejo sem que ninguém soubesse de sua verdadeira identidade e do que ele havia feito.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A Besta está entre nós - Histórias apavorantes e reais envolvendo Lobisomens


Acusações de Licantropia eram algo relativamente comum na Europa entre os séculos XV e XVII.

A histeria com a presença maléfica de lobos e bruxas se tornou uma epidemia na qual qualquer pessoa podia ser acusada. Muitas pessoas acabaram sendo acusadas das duas coisas e terminaram seus dias exilados, punidos ou executados.

Existia uma forte ligação entre crimes de assassinato e licantropia. Um homem que confessava ter matado crianças ou mulheres podia ser chamado de lobisomem, se o crime tivesse sido cometido em determinadas datas, em noites de lua cheia ou por meio de violência desmedida. Canibalismo, desmembramento ou necrofilia também eram tidos como indícios da atividade de um lobisomem.

É perfeitamente possível que alguns dos primeiros Assassinos em Série documentados tenham sido acusados de se transformarem por intermédio da licantropia. O Lobisomem era considerado um monstro e atribuir aos acusados atributos sobrenaturais, era uma forma de explicar a maldade que alguns eram capazes de produzir.

Aqui está uma lista de lobisomens documentados ao longo da história.

O Lobo da Livônia


As confissões envolvendo pessoas acusadas de serem lobisomens podiam ser bastante peculiares. 

Tomemos como exemplo um tal Thiess de Kaltebrun que viveu em uma região chamada Livônia na Suécia no século XVII. As pessoas tinham muito medo de Thiess e o evitavam à todo custo. O homem tinha mais de 80 anos de idade e habitava uma cabana isolada. Ele raramente ia até o vilarejo, pois havia sido avisado para não fazê-lo, do contrário seria linchado. Mesmo seus filhos, netos e bis- netos detestavam o ancião e haviam mudado de nome para não ter qualquer ligação com ele.

Você pode se perguntar o que esse octogenário poderia ter feito para ser tão desprezado por todos os seus vizinhos e parentes. A resposta é simples: Ele afirmava ser um lobisomem.

Thiess teria contraído licantropia depois de passar um inverno inteiro sozinho. Desesperado de frio e fome ele aceitou uma barganha com o diabo que apareceu diante dele. O tinhoso ofereceu a chance de sobreviver, desde que aceitasse a maldição de se transformar em lobo. O velho não apenas afirmava que a história a seu respeito era verdade, mas se orgulhava da sua Licantropia.

As autoridades locais não se importavam muito com o velho, já que o consideravam louco e inofensivo. Que mal poderiam fazer as sandices de um velho eremita? Entretanto, em algum momento de 1691, três juízes visitaram a casa de Thiess para fazer perguntas a respeito de um roubo que havia ocorrido na Igreja do povoado. O velho recebeu os juízes e disse não saber nada a respeito do roubo, mas que gostaria de confessar uma série de outros crimes que havia cometido quando se transformava em lobisomem. A princípio, os juízes não levaram o sujeito à sério, mas acabaram concordando em levá-lo para a aldeia e ouvir o que ele tinha a dizer.

O problema é que, quando começou a falar, ele simplesmente não parava mais.

De acordo com o testemunho, Thiess afirmava ter vivido com a licantropia e usado os poderes que ela lhe concedia para fazer todo tipo de perversidade. Ele afirmava que se transformava em lobo em dias sagrados como o Dia de S. lúcia, Pentecostes e Páscoa como uma forma de renegar a Deus. Sua transformação acontecia quando ele vestia uma pele de lobo que jogava sobre as costas e que lhe concedia a fúria e a força daqueles animais selvagens.

O velho confessou que uma vez transformado em lobisomem vagou pelos campos e fazendas matando animais e os devorando. Declarou também ter atacado fazendeiros inocentes, tomado suas esposas e filhas, matado seus herdeiros e derramado seu sangue. Até então as histórias do velho não pareciam muito coerentes, contudo a medida que ele ia falando um dos juízes lembrou de casos semelhantes ocorridos na sua infância em que inocentes foram assassinados pelo que se julgou tratar-se do ataques de lobos.

Os relatos começaram a se tornar cada vez mais impressionantes e repletos de detalhes sanguinolentos, atraindo a população dos vilarejos próximos que disputavam um lugar na sala de audiência para ouvir as medonhas confissões.

Em determinado momento, as histórias foram se tornando ainda mais bizarras. O velho afirmava que embora ainda fosse um lobisomem e tivesse feito coisas horríveis, havia traído a barganha com o diabo e abraçado novamente a fé cristã. Para se redimir, Deus deu a ele a tarefa de caçar outros lobisomens e bruxos. Por muitos anos ele teria matado esses monstros como uma espécie de agente divino o que o reabilitou.

As pessoas mudaram o julgamento a respeito do velho e começaram a acreditar que ele realmente poderia ter se arrependido e que, portanto, merecia o perdão da justiça. Os juízes ficaram sem saber o que fazer a respeito do caso do estranho lobisomem. Finalmente, foi revelado que o velho não era um luterano devoto, e que praticava um tipo de magia camponesa baseada em amuletos e bençãos. Os juízes decidiram então que por esse crime, ele deveria ser exilado da região sob pena de ser executado caso retornasse.

Não se sabe o que aconteceu depois disso com Thiess de Kaltebrun, mas até o século seguinte algumas lendas afirmavam que ele ainda vivia na floresta e que continuava sendo um lobisomem a serviço de Deus.

O Lobisomem de Dole


Bem menos divertido é o Lobisomem de Dole, Gilles Garnier um camponês que vivia nos arredores da cidade de Dole na Província francesa de Comté.

A crueldade de Garnier se tornou lendária e alimentou por muitos anos a imaginação dos franceses a respeito de lobisomens. Segundo a história, Garnier havia casado há pouco tempo e decidiu se mudar com a sua jovem esposa para uma cabana isolada na floresta. Acostumado a sustentar apenas uma pessoa ele achou extremamente difícil providenciar comida para sua esposa. Mais ou menos nessa época, várias crianças pequenas começaram a desaparecer ou foram encontradas mortas, supostamente vítimas de lobos. As autoridades da Província lançaram um édito para que interessados em matar ou apreender lobos se apresentassem. Já então, corria entre os camponeses supersticiosos o rumor de que o responsável pelas mortes era um lobisomem. 

Certo dia, um grupo de aldeões estava voltando do trabalho no campo, quando avistaram ao longe um enorme lobo negro. Eles atiraram pedras e afugentaram a fera, mas infelizmente acharam o corpo destroçado de uma menina ali perto. Um grupo de homens se armou e fez uma busca pelo bosque sem encontrar sinal da besta. Entretanto, acharam um homem suspeito vagando pelo mesmo local. Era Giles Garnier, com as roupas sujas de sangue e aparentemente confuso. O sujeito não foi capaz de explicar o que fazia ali e acabou preso pela turba.

Mais tarde na aldeia, ele foi interrogado e acabou revelando uma história bizarra de morte e crueldade que chocou a todos. Giles contou que no início do inverno estava caçando sem sucesso na floresta, tentando encontrar comida para ele e a esposa. Foi quando ele avistou um tipo de espectro espreitando atrás das árvores. A assombração ofereceu a ele um unguento que acabaria com todos os seus problemas, bastando para isso passar o líquido em seu corpo. Dessa forma ele conseguiria caçar e suprir a casa com comida suficiente para garantir sua sobrevivência. 

Acreditando que aquilo era um milagre ele afirmou tê-lo feito conforme instruído. O unguento, nas palavras do próprio acusado, fez com que ele se transformasse em em um lobo, e como tal, conseguia caçar e obter sustento. Entretanto, vestindo a pele da fera ele também se tornava um terrível matador que não tinha controle nenhum sobre sua sede de sangue. Garnier confessou ter atacado e matado ao menos cinco crianças entre 9 e 12 anos de idade. 

Em Outubro de 1572, ele fez sua primeira vítima, uma menina de 10 anos que foi arrastada até uma videira perto de Dole. O lobisomem disse que a estrangulou, removeu suas roupas e comeu sua carne dos braços e cintura. Quando se satisfez, removeu parte da carne e levou para sua esposa. Semanas mais tarde, Garnier ferozmente atacou outra garotinha, mordendo e arranhando até derrubá-la, mas ele foi interrompido por um transeunte e teve de abandoná-la. A menina acabou sucumbindo aos ferimentos dias depois. Em novembro, Garnier matou um menino de 10 anos, e novamente canibalizou o seu corpo, levando para a mulher uma parte da perna para que ela fizesse um ensopado. Ele estrangulou um outro menino um mês depois, mas também teve de abandonar o corpo na floresta por ter ouvido a aproximação de alguém. No final do ano, ele matou um menino de 12 anos com uma mordida no pescoço, cortou o corpo da vítima e levou seus braços e parte da barriga para que a mulher servisse com cebolas e aspargos em uma ceia. A seguir, o lobisomem fez sua derradeira vítima, uma menina de 13 anos que ele estrangulou, e de quem chegou a cortar a carne. Antes de devorá-la, contudo, teve de fugir de uma turba. Pouco depois, ele acabou sendo capturado logo depois de reverter a forma humana.

Garnier foi julgado culpado dos crimes de licantropia e feitiçaria. Em janeiro de 1573 ele foi conduzido até uma estaca de madeira colocada no centro de uma grande fogueira. Seus crimes foram considerados tão tenebrosos que o juiz ordenou que ele fosse queimado sem o benefício de ser previamente estrangulado. Para o caso do lobisomem de Dole, era preciso ouvir seus gritos para saber que ele havia sido realmente morto. Para se certificar disso passaram em seu corpo piche e óleo. Quando as chamar lamberam seus pés ele se incendiou por inteiro em um espetáculo descrito como medonho. Sua esposa também foi capturada, mas morreu em uma masmorra antes da sentença ser cumprida. O cadáver também foi queimado até ser reduzido a cinzas.

Após a execução, mais de 50 pessoas se apresentaram dizendo que seus filhos e filhas haviam sumido e que possivelmente o lobisomem também era responsável por estas mortes. Até os dias de hoje não se sabe quantas pessoas o loup-garou matou.

Hans o Lobisomem


O julgamento de Hans, o lobisomem é um típico exemplo de como julgamentos de lobisomens podiam se combinar aos famosos julgamentos de bruxos. Este caso em especial ocorreu no século XVII, na atual Estônia, uma nação que foi varrida pela caça às bruxas e que sofreu muito com a superstição e fanatismo.

Em 1651, um rapaz chamado Hans foi trazido diante da Corte de Justiça na cidade de Idavare, acusado de ser um lobisomem desde os dezesseis anos de idade. Ele tinha na ocasião apenas 18 anos e segundo seus acusadores havia se convertido em um Agente de Satã.

Hans confessou caçar na forma de um lobisomem, cruzando as florestas e matando qualquer animal que pudesse encontrar, geralmente devorando-os, mas em algumas ocasiões apenas pelo prazer de causar a morte. Ele reconheceu ter matado ao menos uma dúzia de ovelhas e cabras, para beber seu sangue quente, coisa que lhe dava muito prazer.

Quando questionado como se dava a transformação, se ela era física ou meramente espiritual (uma preocupação comum na época), ele disse que todo seu corpo se transmutava e que ele podia demonstrar para a corte se eles quisessem assistir a transformação. Os juízes ordenaram que Hans fosse preso em uma corrente para que então realizasse a transformação. Como é de se imaginar, fisicamente o rapaz não mudou, mas produziu o que foi descrito como uma "apresentação desagradável" na qual rosnou, uivou, babou e se urinou enquanto tentava se ver livre dos grilhões que o prendiam.

Depois do espetáculo, os juízes cogitavam que o rapaz simplesmente fosse louco e que deveria ser libertado. Contudo um detalhe na confissão acabou chamando a atenção dos magistrados. Hans havia dito que sua transformação em lobo ocorreu graças a um malefício realizado por um "homem negro". Esse homem misterioso apareceu para Hans em uma madrugada e ofereceu a ele um presente na forma de uma bebida mágica, que uma vez ingerida, concederia poderes mágicos ao custo de sua alma imortal. Quando perguntado se aceitou de bom grado a barganha, ou foi enganado, Hans disse que aceitou pois achou que teria muito a ganhar com a oferta.

A corte considerou então que o rapaz não apenas havia cometido o crime de licantropia - ou seja, se tornar um lobo, mas que, muito mais grave, tinha firmado conluio com o próprio Satã, disfarçado como o tal Homem de Negro. Hans foi julgado como bruxo e condenado.

É triste que a vida de um rapaz de apenas 18 anos, possivelmente com problemas mentais, tenha terminado dessa maneira, fosse ele um lobisomem ou não. O pior é que o caso de Hans, embora estranho, está longe de ser o único. Embora ele seja o mais conhecido dos lobisomens da Estônia, julgamentos similares eram comuns. Ao menos duas dúzias deles aconteceram no mesmo período. É possível que acusados fossem convencidos a confessar seus "crimes", principalmente bruxaria, na esperança de receber perdão. Ao invés disso, acabavam executados já que nos países Bálticos essa era a sentença comum.

domingo, 9 de setembro de 2018

Fera Selvagem - O caso do Lobisomem Demoníaco de Southend


Nos reinos do estranho, existem alguns casos que são simplesmente difíceis de classificar.

Alguns parecem transcender as fronteiras e tentativas de interpretá-los nos diferentes ramos do oculto. Por exemplo, existem casos de fenômenos inexplicáveis envolvendo fantasmas, possessão demoníaca e lobisomens, mas muito poucos conseguem a proeza de misturar todos estes elementos em algo incrivelmente bizarro. Ainda assim, um dos mais surpreendentes e incríveis incidentes paranormais conseguiu isso, e mais. 

Em uma tranquila região costeira da Inglaterra, um homem de família normal encontrou-se repentinamente envolvido em uma trama horrenda e absurda na qual uma força não-identificada juntou assombração, possessão e licantropia num mesmo caso estarrecedor.

A história do que ficaria conhecido como o Caso do Lobisomem de Southend começa no vilarejo litorâneo de mesmo nome, no condado de Essex, em um quente e ensolarado domingo de 1952. Nesse dia, William Ramsey então com 9 anos estava no jardim de sua família brincando sozinho. Ele era um garoto cheio de imaginação, que havia acabado de assistir um filme a respeito de pilotos da Segunda Guerra e que por isso, fazia de conta que conduzia seu caça Spitfire pelos céus. Corria de braços abertos pelo quintal para diversão de sua mãe. Após uma hora correndo pelo gramado, Bill Ransey sentiu um estranho e repentino arrepio. Depois disso, ele começou a tremer incontrolavelmente dos pés à cabeça, ao mesmo tempo que sentiu um forte odor trazido pelo vento. Mais tarde ele lembraria do sentimento:

"Você já abriu a porta de um congelador num dia quente? Era essa a sensação. Eu estava brincando em um dia ensolarado e agradável quando de repente um frio absurdo me atingiu, como se de um momento para outro a temperatura de meu corpo tivesse caído 20 graus. O suor congelou no meu corpo e eu comecei a tremer. Era como se alguém tivesse aberto a porta desse congelador e me empurrado para dentro. E havia aquele fedor! Um cheiro horrível, insuportável. Eu jamais senti algo como aquilo, e pensei que iria vomitar a qualquer momento".        


A medida que o jovem William lutava para controlar os tremores e o mal estar causado pelo cheiro, ele sentiu que alguma coisa havia mudado dentro de si. William voltou para casa e se fechou no seu quarto. Dali em diante ele não tinha mais interesse em brincar ou usar sua imaginação, nada daquilo fazia sentido. Bill passava a maior parte de seu tempo quieto e contemplativo. Seus olhos assombrados, como se fosse capaz de enxergar algo invisível. Daquele dia em diante seus pais sentiram uma severa mudança no filho, algo difícil de explicar. O menino sequer parecia o mesmo!

Ele ainda ficava a maior parte de seu tempo sozinho no quintal, mas permanecia observando o céu. De repente, como se tomado de um surto irracional emitia um lamento que os pais achavam parecido com um uivo. Mais estranho era quando o garoto de repente corria de quatro chocando todos que assistiam aquela cena inusitada.

Os meses passaram e o jovem William ia desenvolvendo um comportamento cada vez mais peculiar. O menino havia começado a perambular pelas estradas que margeavam o bosque. Por vezes entrava na floresta fechada e ficava horas sozinho, sem que ninguém soubesse o que estava fazendo. Também havia adquirido uma mania inconveniente, a de seguir as pessoas e pregar nelas sustos saltando da mata e correndo na direção delas gritando, segundo alguns, rosnando. Alguns vizinhos se queixaram de ter encontrado o menino naquelas circunstâncias. Um descreveu como o menino correu na sua direção com os olhos injetados e a boca aberta mostrando os dentes.     

Em determinado momento, os pais preocupados com tudo o que haviam ouvido, chamaram o jovem e tentaram entender pelo que ele estava passando. Foi então que Bill, tomado de uma fúria cega investiu contra os pais. Ele começou a rosnar, arranhar e morder ferozmente. Os pais ficaram compreensivamente aterrorizados: o menino mordeu a mãe e quando o pai conseguiu afastá-lo ele se atirou no chão, rosnando e babando como se fosse uma besta selvagem. Aterrorizados com aquilo, o casal correu para fora de casa esperando que o menino recobrasse o controle antes que eles pudessem retornar. Uma vez sozinho, William deu início a uma destruição de móveis e objetos, derrubando até mesmo um armário d emadeira maciça que um menino de seu tamanho e peso dificilmente conseguiria mover.

A medida que ouviam os ruídos animalescos que seu filho produzia no interior da casa, os dois se perguntavam o que estava acontecendo. Finalmente, o pai de William decidiu entrar na casa e dominar o filho. Com o menino rosnando e uivando como uma fera, ele conseguiu contê-lo, mas não sem receber várias mordidas e sofrer escoriações. Enfim, depois de impor sua força, o menino começou a se cansar arfando como um cão raivoso. Sangue escorria pelo seu queixo e havia sofrido vários machucados provocados pela luta com o pai. O menino então desmaiou, acordando horas depois sem entender o que havia acontecido. Ele dizia não lembrar de seu frenesi selvagem e que por alguns instantes tudo havia escurecido. Era como se ele tivesse dormido profundamente e despertado apenas naquele momento.

Os pais temiam que o filho tivesse desenvolvido algum tipo de doença mental, mas uma vez que nos dias seguintes ele passou a se controlar, parecendo seu filho novamente, acreditaram que o pior havia passado. Decidiram não insistir em questionamentos e esquecer o que houvera, esperando que ele se recuperasse sem a necessidade de envolver médicos psiquiatras.


A vida da família voltou ao normal sem maiores incidentes. Bill Ramsey daquele dia em diante experimentou uma vida perfeitamente normal: terminou seus estudos, casou e teve três filhos. Ele se tornou um respeitável homem de família que deixou para trás aqueles meses estranhos nos quais chocou aos pais. 

Poucos meses depois de seu casamento ele começou a ser atormentado por pesadelos vívidos nos quais corria pela floresta, rosnando como um animal selvagem. Os estranho sonhos e episódios eventualmente pararam bruscamente em 1967, depois que Bill e a família se mudaram para outra casa. A vida voltou ao seu curso normal, até que em 1980 uma série de bizarros incidentes provariam que ainda havia algo muito errado com sua personalidade. 

No início de 1983, Bill estava em um bar bebendo com um grupo de amigos quando ele afirmou sentir um arrepio gelado em seu corpo, muito semelhante ao que havia experimentado quando criança. Sentindo-se nauseado, ele correu para o banheiro e lá captou aquele fedor nauseante uma vez mais. Assustado, com as memórias que inundaram a sua mente, ele lavou o rosto esperando que a água o fizesse recobrar os sentidos. Nesse momento olhou seu reflexo no espelho e atordoado viu que sua face estava distorcida: mais animalesca e com traços grosseiros. "Claramente lupina" ele disse mais tarde.

Assustado com todo o incidente, Bill pediu que o levassem para casa. No caminho ele se curvou no banco de trás do carro e começou a murmurar e rosnar como se o seu corpo estivesse acometido de dores agudas. Seus amigos perguntavam o que ele estava sentindo, mas Bill já não era capaz de responder de maneira racional. Acometido de uma fúria cega ele começou a rosnar e uivar. O motorista foi capaz de encostar o carro no acostamento. Os quatro homens que estavam no automóvel conseguiram segurar Bill que perdera totalmente o controle, gritando e tentando mordê-los. Eles descreveram o ataque como o frenesi de um louco que parecia ter adquirido uma força sobre-humana. De fato, foram necessários os esforços combinados dos quatro para contê-lo. Bill acabou desmaiando e quando acordou dizia não lembrar de nada a respeito do estranho incidente.

Mais tarde, naquele mesmo ano, as coisas se tornaram ainda mais estranhas. 

Perto do Natal de 1983, Bill começou a sofrer crises agudas e quase incapacitantes de uma forte pressão no peito, algo que ele jamais havia tido antes. O temor é que estivesse sofrendo um ataque cardíaco e por isso imediatamente foi levado até um hospital. Uma vez lá, ele foi conduzido a uma ala de emergência para ser examinado, mas quando estava aguardando atendimento foi acometido por aquela onda de frio extremo. Em determinado momento uma enfermeira se aproximou e ele soltou um rosnado gutural seguido de uma mordida em seu braço. A mulher conseguiu se desvencilhar, enquanto Bill recuou para a parede e de quatro começou a rosnar e babar como uma fera acuada. A polícia foi chamada e com a ajuda de enfermeiros do hospital, ele foi dominado. Ainda assim lutou como uma besta selvagem, até ser sedado com uma dose maciça de tranquilizantes.  

Testemunhas mais tarde descreveram a cena como algo aterrador. Bill estava completamente irracional, absolutamente animalístico, com as mãos curvadas como garras, dentes à mostra e rosnando de maneira incompreensível. Para todos que viram a cena ele parecia mais um animal do que um ser humano. Um dos policiais que ajudou a conter Bill diria mais tarde que os olhos do homem pareciam os de um lobo feroz.


Uma vez sedado, o homem foi levado para o Hospital Mental Runwell, e quando os efeitos das drogas diminuíram, Bill alegava não se recordar de nada do que havia acontecido ou a razão pela qual havia sido levado para um sanatório. Embora os médicos tenham sugerido que Bill passasse por novas avaliações e testes, ele abriu mão disso, e uma vez que apresentava um quadro de normalidade, permitiram que ele deixasse o local. Era opinião do médico psiquiatra que o atendeu que ele estava propenso a ter um novo episódio e que era necessário compreender o que se passava em sua mente. Bill entretanto ignorou os conselhos e decidiu voltar para casa, afirmando que se sentia bem e que precisava apenas descansar. Infelizmente, o médico estava certo em seu prognóstico.

Em janeiro de 1984, Bill foi visitar a sua mãe e enquanto conduzia seu carro teve um novo e devastador episódio. Imaginando o que poderia acontecer, ele dirigiu o mais rápido possível para um hospital, dando entrada na mesma emergência em que estivera antes. Entretanto, no momento em que ele chegou, a selvageria já o dominava por inteiro. Quando um enfermeiro disse que ele deveria esperar até o atendimento, Bill o empurrou no chão, subiu sobre ele e começou a arranhar e morder sua face. O ataque foi tão selvagem que as pessoas que estavam próximas ficaram sem ação. Foi necessário a intervenção de cinco enfermeiros para remover o homem-fera de cima de sua presa que tentava afastá-lo sem sucesso. 

A polícia chegou logo a seguir e dois oficiais conseguiram com muita dificuldade imobilizá-lo com algemas. Ainda assim, Bill continuava a morder, espumar e rosnar. O comportamento dele era tão errático que os policiais ficaram sem saber o que fazer a seguir. Declararam que jamais haviam visto uma resistência tão feroz, nem mesmo em indivíduos sob influência de drogas pesadas. Eles chegaram a temer que a algema não fosse capaz de contê-lo.

Os policiais decidiram então transportá-lo para a delegacia. Ele recebeu uma dose de tranquilizante e foi carregado desacordado para a viatura. Na cadeia ele dormiu por mais algumas horas, acordando sem qualquer lembrança do que havia ocorrido depois de sua chegada ao hospital. Depois de despertar e ser informado do que havia acontecido, Bill Ransey disse que não tinha qualquer memória de que havia ferido uma pessoa e resistido à prisão. Após pagar fiança ele foi liberado.


Por algum tempo, sua personalidade animalesca ficou sob controle, mas ela iria aflorar novamente em 22 de julho de 1987. Bill participou de uma festividade no White Horse Inn, um bar local onde ele encontrou com amigos e bebeu consideravelmente. No fim da festa, os amigos aconselharam que Bill pedisse um taxi para voltar para casa, mas ele disse que preferia ir andando. No caminho para sua casa, Bill passou por uma prostituta em uma esquina escura. A mulher disse que não o abordou, uma vez que ele parecia claramente embriagado, mas que ele se aproximou dela. A mulher afirmou que ele então começou a tremer por inteiro como se estivesse tendo um tipo de ataque e de repente começou a rosnar furiosamente. A mulher se afastou assustada, mas Bill então começou a persegui-la rosnando furiosamente. 

Por sorte, um grupo de pessoas passava pela rua e veio em socorro da mulher. O grupo conseguiu afugentar Bill que correu para a rua e foi atropelado por um carro que passava. Apesar do impacto, ele se recobrou e correu de quatro até um beco onde se escondeu. As pessoas chamaram a polícia e imediatamente uma viatura respondeu. A essa altura Ransey soltava uivos agudos que deixavam as pessoas aterrorizadas. Os policiais entraram no beco e encontraram o homem-fera acuado contra o muro. Ele havia rasgado suas roupas e estava completamente nu. Seus olhos injetados, a boca aberta mostrando os dentes e as mãos como garras. 

Ele não respondeu à ordem de prisão e tentou escapar, mas foi contido pelos policiais que acharam melhor chamar reforços. Foram necessários seis homens fortes armados com cassetetes para dominar o sujeito e retirá-lo daquele beco escuro. Todos os envolvidos em depoimento disseram jamais ter visto nada parecido. A prostituta, identificada apenas como "Lauren" disse ter certeza de que o homem iria mata-la se não tivesse sido ajudada. 


O ocorrido fez com que o caso de Bill Ransey ganhasse as manchetes de jornais sensacionalistas que o chamaram de "Lobisomem de Southend". Uma ordem cautelar foi emitida para que ele fosse hospitalizado e passasse por vários testes, mas infelizmente nenhum deles conseguiu determinar o que havia causado o surto de violência extrema. 

Enquanto estava hospitalizado Bill teve mais dois surtos de violência animalesca, que foram controlados através de drogas e calmantes. A essa altura, o caso ganhava exposição graças a jornalistas que apresentaram o incidente em cadeia nacional. O tormento de William Ransey capturou a atenção da população e atraiu os famosos investigadores sobrenaturais Ed e Lorraine Warren que aceitaram viajar até Londres para analisar a situação. Depois de contatar as autoridades locais, os Warren conversaram com a Família Ransey que permitiu uma entrevista com Bill. 

Enquanto o casal Warren a princípio suspeitava de que o caso inteiro não passasse de uma fraude, após diversas conversas julgaram que alguma coisa sobrenatural pudesse realmente estar causando os surtos de violência incontrolável. Os Warren acreditavam que de alguma forma Bill estava sendo possuído por uma espécie de entidade demoníaca animalesca. Depois de várias entrevistas, Bill concordou que os Warren o levassem até uma igreja em Connecticut para que lá realizassem um exorcismo feito pelo Reverendo Robert McKenna, que havia realizado uma cerimônia semelhante em um rapaz que se dizia afligido por um espírito semelhante. Em 1989, Bill e sua esposa receberam autorização para deixar a Inglaterra e viajar para a América, esperando que o religioso fosse capaz de tirar de seu corpo a influência maligna.  


Nos dias antes do exorcismo, houve um incidente bizarro em que Bill tentou sufocar a sua esposa enquanto esta dormia ao seu lado. As pessoas ouviram o barulho e conseguiram salvá-la. Ao acordar o marido afirmava não se lembrar de nada e que não podia acreditar no que havia acontecido. 

No dia do Exorcismo, estavam presentes na Igreja o Reverendo McKenna, os Warren, William Ransey, sua esposa, o investigador paranormal John Zaffis, jornalistas de uma revista especializada no sobrenatural, que haviam patrocinado a viagem e vários indivíduos contratados para fazer a segurança como guarda-costas. Quando o Ritual de Exorcismo se iniciou, Bill parecia cético e pouco impressionado a medida que o religioso professava as palavras em latim. Ele começou a imaginar que toda a viagem havia sido uma perda de tempo, e mais tarde reconheceu ter pensado que aquilo não passava de "mumbo jumbo". Mas quando o Reverendo pressionou sua estola sagrada contra a testa de Bill, exigindo que o demônio se identificasse, as coisas se tornaram estranhas.  

O comportamento de Ransey mudou abruptamente, ele começou a rosnar e sua face se contorceu em uma máscara bestial, com olhos injetados, dentes à mostra e baba escorrendo pelos cantos da boca. Suas mãos se curvaram na forma de garras e ele começou a tremer por inteiro. Lorraine Warren afirmou mais tarde que até suas características físicas apresentaram mudanças, com as orelhas parecendo pontudas, seu rosto mais animalesco e seus dentes mais longos que antes. De repente, Bill saltou sobre McKenna tentando morder e arranhar, mas foi contido pelos seguranças que estavam presentes. Ele foi colocado em uma cadeira e amarrado com uma corda resistente.

McKenna retornou ao Ritual e ergueu seu crucifixo exigindo que o demônio que estava no corpo saísse imediatamente. Isso pareceu apenas enfurecer a besta. Bill tentava se soltar se atirando para frente e para trás bruscamente. Um dos guarda-costas correu então para reforçar a corda e evitar que ele se livrasse. Completamente fora de controle, Bill tentou mordê-lo e quando não conseguiu começou a uivar como um lobo. Quando o Reverendo McKenna terminou de falar, Bill ficou imediatamente em silêncio e seu corpo começou a tremer. Seus olhos se viraram nas órbitas, sua boca se abriu e ele soltou um último rosnado que ecoou pela igreja inteira. Então ele perdeu a consciência por várias horas. Mais tarde, Bill contou o que havia acontecido:

 "Era como se o veneno que estava em meu corpo estivesse sendo drenado. A coisa me dominava por inteiro e quando ele começou a ser arrancada, e sentiu que ia perder, tentou me levar junto. Eu tentei resistir, eu sei que ele queria me matar... mas eu suportei aquilo tudo. As palavras do Reverendo McKenna ajudaram a suportar aquela pressão".


O exorcismo inteiro foi filmado, e todos os que testemunharam os acontecimentos permaneceram crentes de que seria virtualmente impossível encenar aquilo. Bill Ransey dali em diante não sofreu mais nenhum incidente de violência e levou uma vida pacífica. Ed e Lorraine Warren escreveram um livro sobre o caso com o título "Werewolf: A True Story of Demonic Possession" (Lobisomem: Uma História Real de Possessão Demoníaca).

É difícil dizer exatamente o que afligia William Ransey e dependendo a quem você perguntar, você irá obter diferentes opiniões.

De acordo com os Warren e o Reverendo McKenna, ele estava possuído por uma entidade demoníaca e animalesca. Uma espécie de fera diabólica que agia apenas por instinto e que por isso tinha um comportamento totalmente inumano. Tal fera raramente se manifesta em uma pessoa, mas quando o faz, segundo o casal, enseja a maioria dos casos de violência e brutalidade extrema que não raramente acabam sendo atribuídos a Licantropia, a crença na transformação de um homem em fera. Os Warren afirmaram que esse tipo de incidente é provavelmente similar a outros casos de famosos lobisomens registrados ao longo da história.

Outra possibilidade é que Ransey sofresse de uma condição médica conhecida como "licantropia clínica", na qual a vítima realmente acredita que seu corpo está sofrendo uma transformação e se tornando um animal, na maioria das vezes um lobo, urso ou outro animal selvagem, incluindo javalis, cães e lagartos. Ele também poderia exibir uma série de desordens psicóticas e problemas mentais. Alguns surtos psicóticos produzem uma enorme quantidade de adrenalina que confere o que poderia ser interpretado como uma força sobre-humana, como era o caso de Ransey segundo várias testemunhas. É possível que ele tenha manifestado mais de um sintoma, como por exemplo o frio extremo e o odor que ele afirmava sentir sempre que a "transformação" ocorria.  

Mas o que aconteceu com Bill Ransey no final das contas?

Seria o homem atormentado por uma série de problemas psiquiátricos que o levaram às raias da loucura? Poderia tudo isso ser explicado pela ciência médica, como uma condição atroz que suplantava a sua consciência e o transformava em uma fera? Ou haveria algo mais terrível e assustador operando? Poderia tudo ser o resultado de uma manifestação demoníaca de um demônio animalesco que invadia o seu corpo e o reclamava como seu? Tudo o que sabemos vem através de testemunhas que participaram dos incidentes e que viram em primeira mão o horror de um homem ser reduzido a uma fera.

Considerando que Bill Ransey não manifestou mais nenhum episódio desde o fatídico exorcismo e simplesmente decidiu sumir do mapa é possível aferir que ele tenha encontrado uma cura. O estranho caso de William Ransey continua sendo um dos mais bizarros e estarrecedores casos de possessão demoníaca e de transformação em lobisomem de todos os tempos. Fartamente documentado e estudado por parapsicólogos, demonólogos e ocultistas como um incidente realmente inexplicável.

E é provável que ele continue a dividir opiniões, para sempre.