sexta-feira, 28 de junho de 2019

A Pata de Elefante - O monstro nascido em Chernobyl


Um monstro nasceu após o desastre na Usina Nuclear de Chernobyl

Espreitando nas profundezas das ruínas do reator, esse monstro é uma das coisas mais perigosas no mundo. Nos momentos que se seguiram ao derretimento, ficar 5 minutos na sua presença, a uma distância de menos de 20 metros causava morte certa. Imagine seu corpo sendo atravessado por 10 mil roentgen por hora, sua carne sendo corrompida, seus ossos, tecidos e órgãos bombardeados com o equivalente a centenas de raios X por segundo. 

Em poucos instantes seu corpo iria se rebelar contra essa dose maciça de energia nociva, você iria gritar e gritar a medida que as suas células perdessem a coesão, se desfazendo. Sua pele iria derreter rapidamente, seus ossos se tornariam quebradiços como giz e seus órgãos entrariam todos em múltipla falência. Fluidos seriam expelidos para fora de seu corpo e você tarde demais perceberia que estava vomitando seus pulmões, fígado, rins, baço... a morte viria rápido, mas de uma forma dolorosa e inacreditável. Em segundos, seu corpo seria uma massa informe, como uma pasta borbulhante e gotejante.  

O poder desse monstro é tamanho que mesmo hoje, 33 anos depois do incidente, ele ainda emana calor e pode matar. Seu poder diminuiu, mas ele ainda pode ser letal.


O desastre de Chernobyl, foi o maior e mais grave acidente nuclear da história. Ele ocorreu à 1:23 da madrugada de 26 de abril de 1986, quando combustível nuclear extremamente aquecido foi mergulhado em água fria, gerando uma quantidade colossal de vapor que - por conta das falhas do equipamento, criou uma reação em cadeia inimaginável no reator número 4. O resultado foi uma imensa explosão que deslocou a placa de proteção do reator, que pesava mais de mil toneladas. Uma vez arrancada de sua posição, nada protegia o maquinário que ficou escancarado, liberando radiação pura na atmosfera e cortando o fluxo de água que deveria resfriar o reator. Poucos segundos depois, uma segunda explosão ainda maior que a primeira destruiu o que restava do prédio e lançou fragmentos de grafite e partes do equipamento em toda estrutura, responsáveis por iniciar incêndios isolados.

O pânico foi imediato! Os técnicos, operários e engenheiros que ironicamente estavam realizando um teste de segurança correram para verificar os danos causados. Temiam que o reator pudesse ter sido danificado, mal podiam imaginar que ele simplesmente não existia mais! No seu lugar, havia uma cratera fumegante de onde emanava radiação como jamais havia sido registrada na história. O equivalente a várias bombas de Hiroshima por minuto.           

Depois que os incêndios causados pelo material nuclear foram controlados por bombeiros, estes começaram a descobrir o perigo invisível do reator. Os fragmentos eram tão perigosos que a mera exposição se provaria mortal. Para piorar, muitos bombeiros manipularam os fragmentos radioativos sem saber que aquelas pedras escuras iriam matá-los nos dias seguintes. Alguns sofreram queimaduras que atravessavam seus trajes de proteção. As luvas de borracha simplesmente derretiam, assim como as máscaras com mangueiras de ar. Alguns passaram a vomitar jatos de sangue, os olhos ardiam, a pele coçava e os cabelos caíam.

Eles haviam tocado na morte e os que receberam a maior carga tiveram sorte pois morreriam em poucas horas. Os outros, sofreriam por dias ou mesmo semanas, um fim doloroso e agonizante em leitos de hospital. A dose recebida era tão alta que os trajes, descartados no porão do hospital de Prypiat, continuam irradiando energia até hoje - e continuarão assim por décadas.


Os técnicos ainda tentavam entender o que havia acontecido e conscientes da radiação a que haviam sido expostos se resignavam com o que lhes esperava. As emanações tóxicas de Chernobyl com certeza os condenaria a morte ou a doença. Alguns tentavam escapar do cenário caótico, outros buscavam uma solução, incrédulos diante da tragédia que haviam liberado no mundo.

O gênio do Horror Atômico havia saído da garrafa e dificilmente conseguiriam colocá-lo de volta.

Nas semanas que se seguiram, o mundo segurou sua respiração e atônito assistiu os esforços dos soviéticos de conter a tragédia que haviam deflagrado. Sacrifícios foram feitos e apenas um comprometimento completo com o bem maior conseguiu conter o envenenamento do leito do rio e a consequente disseminação do veneno radioativo pela Europa. O custo humano e ecológico, no entanto foi incalculável.  

Mas embora o pior tenha sido evitado, algo aterrorizante começou a se formar nas entranhas da Usina devastada. O concreto por baixo do reator começou a se desfazer graças ao calor colossal que dele ainda emanava. Os restos derretidos do reator, transformados em lava super-incandescente  começaram a escorrer através do piso de concreto e foram cair no porão da unidade 4. Lá ele se solidificou em uma espetacular forma cristalina que recebeu o nome de "chernobilita".

Esse foi o monstro gestado no coração do reator. Como um bebê recém nascido, ele escorreu para fora do ventre profano onde se formou indo se aninhar na escuridão.   


Com a ajuda de aparelhos de controle remoto, essa massa intensamente radioativa foi localizada meses depois. Dela emanava tanta radiação que a primeira câmera içada derreteu e parou de transmitir mostrando apenas uma silhueta da coisa blasfema medindo dois metros de comprimento e pesando algumas centenas de toneladas. Sua aparência enrugada e coloração acinzentada lhe valeram um apelido instantâneo: "Pata de Elefante".

A coisa se tornou uma massa solidificada de combustível nuclear misturado a concreto, areia, grafite e selante. Ela escorreu através do concreto, como se fosse óleo quente atravessando uma toalha de papel, fazendo nela buraco. Encontrou seu caminho gotejando, assumindo uma forma amorfa. Em 1986, o nível de radiação da Pata de Elefante era tão intenso que se aproximar dela ocasionava a descrição acima. 

A primeira fotografia tirada da Pata de Elefante foi feita apenas 10 anos depois do desastre e naquela ocasião a massa ainda emitia 1/10 da radiação original. Pouco mais de 8 minutos em sua presença poderia ser muito perigoso. As imagens da Pata de Elefante, como a que emoldura esse artigo, possuem uma qualidade inferior já que a exposição a essa quantidade de radiação causa uma granulação no filme e efeitos luminosos.

Em maio de 1986, um sarcófago começou a ser construído - uma gigantesca estrutura de concreto armado para selar as ruínas do prédio e isolar a Pata de Elefante para sempre. Assim o mundo poderia respirar aliviado, sabendo que a coisa mais mortal jamais criada pelo homem ficaria contida nesse "berço".


Entretanto o Sarcófago de Chernobyl não foi totalmente vedado e alguns acessos foram mantidos para que pesquisadores pudessem estudar a massa radioativa e compreender seu significado. Alguns chegaram a ficar lado a lado com ela, usando trajes protetores, mas mesmo assim apenas por poucos segundos. Arriscar-se mais que alguns minutos poderia ser uma experiência mortal.

O conteúdo do Sarcófago de Chernobyl ficará ativo por pelo menos 100,000 anos, um duradouro lembrete do terror nuclear cuja tragédia afetou a vida de mais de 7 milhões de pessoas e matou milhares. Até os dias de hoje, partes da Ucrânia, Biolorússia e Rússia sofrem com os efeitos da radiação disseminada e seus efeitos ainda serão sentidos por gerações.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

O Diário do Terror - Relato de uma trágica Expedição ao Norte Gelado


O relato a seguir foi feito por exploradores no ano de 1909 que informaram de forma dramática os acontecimentos de que tomaram parte. 

Esses acontecimentos foram registrados no diário oficial da expedição liderada por William Leydell Sandhurst, antropólogo da Universidade de Montreal e explorador com ampla experiência no norte do Canadá. Os demais membros da expedição eram o médico Richard Musgrave, o Tenente Joseph Benson da Polícia Real Montada, o botânico e geólogo Dieter Kunrad e o Professor Stanley Fredericks especialista em zoologia. 

A expedição partiu de Manitoba seguindo para os territórios do Norte com objetivo de mapeamento e exploração da flora e fauna local. Também visava fazer um reconhecimento das tribos nativas e assentamentos além da fronteira.

O caderno de notas a seguir foi transcrito na íntegra a partir do vigésimo terceiro dia de exploração que até então transcorria sem incidentes. Ele marca a chegada do grupo ao território norte de Nunavut, província mais setentrional do Canadá. 

12 de Julho de 1909

Deixamos a aldeia Iqaluit, habitada majoritariamente por esquimós (Inuit) com quem conseguimos estabelecer uma relação cordial. Os nativos ficaram bastante curiosos a respeito de nossa presença em seu território. De fato, poucos deles pareciam já ter tido contato com indivíduos de descendência européia, e mesmo assim através de postos na fronteira mais ao norte de Manitoba. 

Os Inuit nos trataram com gentileza e permitiram que ocupássemos uma de suas cabanas onde pudemos descansar e nos refazer da árdua jornada. Quando perguntamos a respeito de guias para nos ajudar em nossa exploração, a maioria dos nativos se entreolhou e tentou nos dissuadir de seguir pelo caminho que pretendíamos - e que não foi mapeado. Muitos se mostraram extremamente contrariados quando mencionamos nossos planos, e por isso, achamos melhor não insistir.

Crianças e mulheres da vila Iqaluit

14 de Julho de 1909

Fizemos amizade com Igoolik, um homem da tribo, já de meia idade mas com enorme energia e disposição. Trata-se de um sujeito extremamente jovial, que demonstra curiosidade a respeito de nossos modos quase tão grande quanto nós a respeito dos dele. O Dr. Musgrave parece fascinado pelas tradições e fez vários registros e exames dos membros da tribo, inclusive mulheres e crianças.

Após alguma negociação, Igoolik concordou em nos guiar pelo território. No entanto, ele estabeleceu a condição de não seguir pelo caminho que havíamos traçado, afirmando que isso nos levaria através de uma área considerada perigosa pelos locais. Igoolik, disse que poderia nos conduzir por uma trilha margeando uma floresta de coníferas, cerca de 5 dias para o noroeste. Ele se mostrou irredutível a esse respeito e temendo que nossa insistência pudesse prejudicar nosso acordo acabamos concordando. 

Estamos à disposição dele e quando ele escolher partir seguiremos viagem.

Igoolik em foto fita por Kunrad
15 de Julho de 1909

Ficamos na casa de Igoolik e hoje pela manhã, três membros da tribo apareceram na cabana de nosso anfitrião. Uma vez que falavam em um dialeto próprio, não consegui entender tudo que disseram, contudo foi possível captar um certo grau de animosidade. Os três pareciam contrariados a respeito de alguma coisa e acredito que nós, enquanto forasteiros, possamos ser o motivo dessa altercação.

Em tempo, conseguimos extrair de Igoolik que a razão do debate envolvia o fato de terem descoberto que ele iria nos acompanhar. Alguns pareciam especialmente irritados com isso. Felizmente nosso guia, conseguiu tranquilizar os demais membros de sua tribo. Ele explicou que o território ao norte é uma área de caça tradicionalmente usada por membros de uma tribo rival, os Puytevah que estabeleceram um equilíbrio delicado com o povo da aldeia.

Segundo o guia não haverá problemas, desde que não entremos no território dos Puytevah.

18 de julho de 1909

Depois de uma longa espera, partimos, conduzidos pelo nosso guia. O Tenente Benson ficou responsável pelos suprimentos e ele conseguiu repor a maioria de nossos recursos. Os cães e trenós são de ótima qualidade e estamos plenamente motivados.

Kunrad registrou nossa partida com uma fotografia pouco antes de deixarmos o vilarejo.

20 de julho de 1909

Encontramos rara beleza selvagem nessas terras raramente exploradas ou trilhadas. Trata-se de um território isolado, no qual o povo Iqaluit raramente coloca os seus pés. Nosso guia afirma ter passado por aqui há 12 anos e que conhece o caminho. As diferenças entre seu povo e os Puyvetah se referem principalmente a religião, sendo que eles veneram divindades diferentes, ou foi isso, o pouco que consegui extrair dele.

William Sandhurst e Dr. Musgrave

22 de julho de 1909

Os dias tem sido de marcha forçada e pouco descanso.

Seguimos pela imensidão gelada nos trenós puxados pelos huskies, encontrando nada a não ser neve, coníferas e de tempos em tempos formações rochosas no horizonte. A vastidão dessa terra nos faz pensar a respeito dos pontos ainda não explorados ou conhecidos do planeta. É um privilégio estar aqui e ver em primeira mão aquilo que se abre diante de nossos olhos atônitos. 

O céu de um azul escuro está límpido e ainda que exaustos pelo esforço, estamos confiantes de que nosso guia sabe por onde está nos conduzindo.

23 de julho de 1909

Nosso guia nos trouxe até a margem de uma floresta de coníferas conforme havia prometido. Seu plano é tangenciar essa floresta  composta de magníficos Abetos, Chamaciparis, Ciprestes da Caledônia e Cedrus da Nova Escócia. Kunrard, nosso botânico está maravilhado com a flora do ambiente e recolheu algumas folhas para analisar posteriormente. Fredericks também demonstrou interesse na tímida fauna local. 

De um modo geral, estamos satisfeitos com o progresso e agradecidos pelo tempo estável.

24 de julho de 1909

Igoolik ficou preocupado a respeito de um avistamento ontem. 

Ele acredita ter visto homens da tribo Puytevah nos observado do alto de uma ravina. Sua preocupação era clara, e para evitar problemas, decidiu nos guiar para o leste. Ele espera que assim evitemos qualquer contato. 

Quando o antropólogo dentro de mim apelou para fazer contato com essa tribo, explicando nosso interesse de barganhar com eles, o homem me olhou com incredulidade. Ele sequer quis pensar no assunto e disse que a expedição deve evitar qualquer aproximação. Uma vez que dependemos dele, não quis argumentar.

William Sandhurst escrevendo em seu diário
26 de julho de 1909

Uma descoberta inusitada!

Encontramos uma clareira vasta com aproximadamente 400 metros de diâmetro na borda da floresta. É um espaço onde a neve parece ter sido profundamente remexida, talvez por uma tempestade ou vendaval. Não apenas os arbustos e a vegetação mais frágil foi afetada, mas árvores de tamanho considerável foram arrancadas da terra com raízes e tudo. O fato mais surpreendente é que a área fustigada pela tempestade parece ter se confinado nesse ponto em especial, com o entorno dos limites da clareira preservados ou pouco incomodados pela estranha perturbação climática que aqui se abateu. Não sou glaciologista, mas minha suposição é que a tempestade deve ter desancado há menos de 72 horas. Seria difícil não captar esse grau de atividade climática, mas ainda assim, nada percebemos.

Igoolik não parecia interessado em revistar a área. De fato, ele tentou nos afastar dela e apenas com grande negociação concordou em nos conceder algumas horas para explorá-la. Ainda assim, ele preferiu se afastar e fazer um reconhecimento do terreno adiante à pé, prometendo voltar antes do anoitecer.

Mais tarde - Escavamos a área e descobrimos atônitos alguns objetos enterrados - uma bolsa rústica e uma cacimba de água feita de terracota. Essas descobertas nos levaram a outro achado muito mais impressionante, provavelmente o dono desses itens. Encontramos o cadáver de um homem de 30-35 anos que estava soterrado sob a neve a uma profundidade de 1,20 metros. Trata-se obviamente de um nativo, e o Dr. Musgrave supõe que ele esteja morto há pelo menos um ano. O corpo apresenta, segundo seu exame preliminar, sinais evidentes de hipotermia e tudo indica ele tenha sido apanhado por uma forte nevasca. Não se trata de algo estranho, visto que aqui, as condições climáticas oferecem variações perigosas. 

Ainda assim, havia outro detalhe no mínimo peculiar no que diz respeito a causa da morte. O Doutor acredita que ele tenha sofrido impacto condizente com uma queda. Sem um exame mais profundo, não havia como saber com certeza, mas o Doutor insiste que as fraturas no corpo remetem a uma queda de uma altura considerável. Como tal coisa pode ter ocorrido em uma região de planícies nos escapa à percepção. 

Outro detalhe a respeito do pobre diabo é sua aparência geral, que não condiz com a de nenhuma tribo local. Francamente, tudo me leva a crer, e o Tenente Benson partilha dessa opinião, que não se trata de um Inuit, mas de um Cree Naskapi, habitante dos Grandes Lagos. Ainda que a distância crie dúvidas sobre essa presunção. Além disso, os objetos incomuns que ele carregava, nos deixaram desconcertados. Os trajes do homem não se assemelham ao das tribos que encontramos na área e o couro do animal que do qual confeccionou a roupa não condiz com o de animais aborígenes. Para falar a verdade, nem mesmo Fredericks foi capaz de determinar de que couro batido suas roupas eram feitas. Os calçados dele também parecem impróprios para a neve densa dessas paragens perpetuamente congeladas. Mais estranho (!), em suas roupas haviam sinais de grãos que não existem nessa região. Por estranho que possa parecer, tudo indica que o homem é proveniente de terras muito distantes, o que o tornaria tão forasteiro nessas paragens quanto nós.

Em seu pescoço, Fredericks encontrou um estranho colar ou amuleto onde pendia uma pedra escura - uma turmalina bruta em formato de bala, que nos chamou a atenção por claramente ter sido talhada e polida. Ainda que trabalhada de forma rústica, a peça denotava talento artístico, permitindo intuir que se refere a face de um homem com evidentes traços antropo-zoomórficos - "algo ferais", como sugeriu o Dr. Musgrave.

Enquanto estudava-mos o objeto, Igoolik retornou e ao perceber que havíamos encontrado um corpo reagiu com nervosismo. Compreendo que os costumes tribais podem ter falado mais alto e que ele viu nosso ato como um tipo de profanação. Contudo foi quando viu o amuleto que que realmente ficou inquieto. Entre gestos e passes de proteção, exigiu que colocássemos a coisa no lugar e enterrássemos o cadáver sem demove-lo de suas posses. Eu e Fredericks tentamos argumentar com nosso guia, mas ele se mostrou irredutível. À contra gosto, meu colega devolveu o objeto ao cadáver e este à sua cova natural que foi coberta.

Uma visão do vazio ártico
28 de julho de 1909

Houve uma mudança acentuada no clima e estamos em uma corrida para buscar abrigo. Não consegui arranjar muito tempo para escrever nesses últimos dias. Os cães tem agido de moo arredio e parecem incomodados pela mudança súbita.

Ontem pela manhã ficamos incapacitados de prosseguir devido a uma forte nevasca que surgiu do nada e nos forçou a montar acampamento. Igoolik nos incentivou a continuar assim que a tempestade diminuiu, ele afirma que estamos atravessando um território perigoso e percebi repetidas vezes que ele olha com uma expressão preocupada para o céu. Parece estar estudando as nuvens cinzentas que se formaram de uma hora para outra. 

Francamente nunca vi uma mudança climática acentuada assim, em tão pouco tempo.

Sem data

Avançamos sem parar, com o guia nos forçando a andar rápido. Ele espera chegar a um local onde afirma ter encontrado abrigo na última vez que passou pela área. O som dos trenós e dos cães em esforço é tudo que ouvimos por horas.

Os homens estão cansados, e a marcha acelerada tem causado danos ao moral. Fredericks reclama constantemente de Igoolik, referindo-se a ele como "nosso cruel feitor". 

Sinto como se algo estivesse errado, eu tenho sonhado com...

A equipe da Expedição 1909 - Sandhurst, Musgrave, Kunrad e Fredericks 
30 de julho de 1909

Kunrad desapareceu!

Uma forte nevasca nos atingiu em cheio e ficamos temporariamente perdidos, sem conseguir ver um palmo diante de nossos olhos. A geada surgiu repentinamente! Tivemos de preparar um acampamento às pressas, proteger os animais e graças à presteza dos homens conseguimos nos refugiar nas barracas corta-vento, mas fomos divididos em dois grupos. 

Quando a tempestade amainou, cerca de 7 horas depois, descobrimos que Kunrad não estava conosco! Cada grupo achava que ele estivesse com o outro. Como pudemos ser tão descuidados?

Quando a nevasca cedeu, fizemos um reconhecimento e procuramos pelo Professor, mas não encontramos sinal dele. Lamentável, um homem tão capaz provavelmente enterrado nesse lugar esquecido por Deus. A despeito dos pedidos de Igoolik para continuarmos, dei ordens para que os homens continuassem a busca pelo corpo dele. 

Mais tarde: Nada encontramos... Fizemos um enterro simbólico. O Tenente Benson tomou a câmera de Kunrad e disse que assumiria o papel de fotógrafo no lugar de nosso colega. 

1 de agosto de 1909

Uma discussão acalorada entre o Dr. Musgrave e Fredericks. Por pouco não chegaram às vias de fato. 

Nenhum dos dois quis explicar as razões para essa ríspida discussão e o Tenente teve de separá-los. Depois de discutir nossa situação, decidimos retornar para a aldeia Iqaluit de onde partimos e lá esperar por condições melhores. Nessa época do ano o tempo não deveria estar tão ruim, essas nevascas são atípicas e quem sabe no mês que vem, já tenham melhorado. 

Creio que todos ficaram aliviados com essa decisão. 

Mais tarde - A nevasca continua forte e impede nosso progresso. Estamos fazendo uma distância cada vez menor, a cada dia. O retorno deve demorar mais do que imaginamos... 

 2 de agosto de 1909

Ontem vimos nativos da tribo Puytevah, estavam nos observando novamente em cima de pedras. Tentei sinalizar para eles, mas não me devolveram o sinal, ficaram observando por mais algum tempo e quando fizemos menção de nos aproximar (a despeito dos protestos de nosso guia), eles se esconderam. Eu os estudei pelo binóculo: são Inuit, mas de uma tribo diferente, mais baixos e corpulentos, com a pele escura e cabelos lisos. Seus trajes são rudimentares e percebi que carregavam lanças e arpões.

Ao chegar ao local onde estavam, não achamos sinal deles. Contudo, encontramos uma curiosa formação rochosa na forma de pedras empilhadas formando o que parecia ser um tipo de totem. O estranho monumento media quase dois metros de altura e foi erguido com pedras empilhadas e troncos atados com cordames. A figura era estranha, um animal selvagem, ou espírito protetor de algum tipo. É inegável que guarda semelhança com a coisa representada no amuleto do homem que achamos morto dias atrás. Haviam símbolos estranhos desenhados na coisa, espirais em sua maioria.

Pode parecer tolice, mas não quis me aproximar ainda que a descoberta fosse notável. A coisa me deixou apreensivo! Havia manchas de sangue em sua base, em quantidade considerável.

Benson se aproximou para examinar aquela maldita coisa. Cavando na base do ídolo grosseiro, fez uma descoberta aterradora, um cachecol que parecia muito com o que Kunrad usava quando sumiu. Estava enrolado e ensanguentado. Foi impossível pensar no pior. 

Igoolik assumiu uma expressão taciturna e não se pronunciou a respeito, apesar de eu tentar extrair dele alguma coisa. Ele apenas disse uma palavra em seu idioma e se afastou fazendo seus passes de proteção.

O estranho Totem de pedra
Madrugada - Algo medonho ocorreu. Algo para o qual não tenho explicação e nem sou capaz de fazer conjecturas.

Enquanto descansávamos no acampamento, o silêncio noturno foi quebrado por um som aterrorizante que preencheu todo o vale e congelou nosso sangue. Um tipo de grito ou uivo, como jamais ouvi e que ecoou como um mau agouro. Benson apanhou seu Lee-Enfield e disparou para o alto, sem enxergar nada na escuridão completa. Os cães, grandes huskies e mongrels habituados ao mundo selvagem, latiam e ganiam aterrorizados. O Dr. Musgrave pareceu igualmente afetado pelo ruído e caiu de joelhos dizendo tolices, como se de um momento para o outro sua sanidade tivesse desmoronado. Ele começou então a fazer acusações contra Fredericks. Entendi o motivo de sua briga: Fredericks havia guardado consigo aquela maldita peça de turmalina escura que encontramos com o cadáver e que mandei ele deixar para trás. O Dr. Musgrave havia visto a coisa com ele e ficou furioso!

Igoolik ao entender o que se passava, assumiu uma postura derrotada em grave silêncio por longos minutos. Quando Fredericks reconheceu que havia desobedecido minha ordem direta, ele me acusou de dar ouvidos demais a "superstições dos selvagens". 

Nosso guia então se levantou e colocou-se de joelhos no solo repetindo alguma ladainha em um dialeto que eu não consegui entender. Me pareceu que ele estava pedindo perdão ou desculpas ao céu, com os braços erguidos em uma posição de absoluta submissão. Tentei despertá-lo daquele transe, mas ele continuou balbuciando aquelas palavras, olhando para o alto, enquanto lágrimas corriam de seus olhos e congelavam em suas bochechas.

4 de agosto de 1909

Correndo contra o tempo. 

A nevasca cai pesada e não cessa. É um risco seguir nessas condições climáticas, mas o guia afirmou que nos deixaria para trás se não fossemos com ele. A expressão do homem me levou a crer que ele falava a verdade.

Noite - O maldito uivo novamente! Uivo, grito, brado ou seja lá o que for... que animal produz tal som? Nada que eu conheça seria capaz disso! Alguns cães fugiram, correndo para a imensidão gelada como loucos.

Se havia ainda uma parcela de razão no Dr. Musgrave esta também se esvaiu por completo. Ele começou a gritar como um demente e passou a repetir algumas das estranhas palavras que Igoolik mencionou na noite de ontem. 

"Itaqua, Itaqua!" gritava e babava, olhando para as nuvens que se tornavam cada vez mais densas e volumosas. Parecia um demente!

Mandei que ele fosse amarrado pois temia que pudesse ferir a si mesmo, ou quem sabe algum de nós. 

Fredericks enterrou a peça de turmalina negra na neve e disse que não falaria mais a respeito do assunto. Ele mencionou que "esse maldito lugar não o deixa dormir e que causa pesadelos". Imagino se ele também tem sonhado com vales de gelo negro, ventos inclementes e algo que vive na nevasca. 

A imensidão e desolação

5 de agosto de 1909

Fredericks também desapareceu. Simplesmente sumiu de nossa barraca como se tivesse sido subtraído na calada da noite. Vi o homem se deitar em seu saco de dormir na noite passada e considero absurdo ele ter levantado e saído por conta própria. Não o faria em meio a essa escuridão e nevasca. Não obstante, ele sumiu sem deixar sinal!

Musgrave não conseguia parar de rir. Uma gargalhada histérica que depois se transformou em um lamento. "É o gigante silencioso, ele nos observa do alto!". Ninguém disse nada.

Não havia rastros ao redor da barraca, a neve e o vento poderiam desfazer uma trilha de pegadas que indicassem a saída de Fredericks, mas ainda assim, teria de haver algo... Igoolik não quis sequer procurar por algum indício e o Tenente Benson nada encontrou. 

Quando indaguei o que poderia ter acontecido o Inuit apenas olhou para o céu e Musgrave explodiu em nova gargalhada histérica.

Tarde - Ouvimos o uivo novamente, mais uma vez... aquele maldito som profano! Benson carrega seu rifle e a espingarda que pertencia a Musgrave e diz ter a impressão de ver coisas se movendo na nevasca. Eu gostaria de dizer que é apenas a sua imaginação pregando peças, mas também estou vendo... há algo nos seguindo por essas planícies e nada que se diga pode mudar essa certeza tétrica.

Outro sonho estranho enquanto descansávamos. Despertei em um sobressalto. Eu escrevi sobre isso, mas é absurdo... arranquei as páginas do diário para não ter de colocar no papel tais pensamentos. Não quero pensar em tais coisas! Não devo, em nome de minha sanidade!

O Tenente Joseph Benson em 1906
Noite - Igoolik libertou o Dr. Musgrave das cordas que o amarravam e os dois nos abandonaram.

Quando tentei argumentar com o guia e detê-lo, ele explicou que não conseguiríamos retornar: "A Tempestade vem vindo! O Andarilho do Vento está chegando", ele disse, ou ao menos foi o que consegui entender. Musgrave, com uma expressão febril, apenas repetiu aquela palavra estranha no dialeto local, que se refere provavelmente a algum Deus, demônio ou espírito temido pelos Inuit: 

"Itaqua".

Por algum motivo não tentei detê-los... nem que quisesse, poderia fazer algo para impedi-los, exceto atirar neles e isso não faria. Os dois se meteram na mata, penetrando na floresta de coníferas que os engoliu rapidamente.

Uma forte tempestade está se formando! O Tenente Benson, meu único companheiro agora foi até lá fora fotografar as nuvens densas que se formaram com a câmera que pertencia a Kunrad. Eu ainda encontrei forças para admirar seu zelo em registrar nossa triste situação. 

Quando enfim retornou percebi que sua expressão estava perdida e sua face pálida como a neve. A constatação de nossa condição lastimável o atingiu em cheio. Desde então se manteve silencioso. 

Depois eu o ouvi rezando. 

Não tenho grandes esperanças! Estou trilhando esses caminhos selvagens a tempo suficiente para saber que nossa situação é desesperadora. Será muito difícil atingir a civilização com os poucos e cansados animais que restaram. Sem um guia, temo que acabamos nos desviando de nossa rota. Talvez tenhamos entrado no território dos Puytevah e precisaremos negociar com eles. 

A tempestade já recomeçou... não sei se o que ouço é o vento ou aquele maldito uivo. Os dois parecem a mesma coisa, cada vez mais alto.

Deus tenha piedade.

A equipe ainda em Manitoba, em uma estação da Polícia montada, se prepara para a viagem

NOTA FINAL

O diário da expedição foi encontrado em 1947 por prospectores, que acharam o caderno nas mãos do cadáver congelado do Professor William Leydell Sandhurst.

O corpo apresentava extensivos ferimentos condizentes com um forte impacto causado por uma queda de altura considerável. De fato, ele foi identificado apenas após a realização de exames que confirmaram se tratar do Professor Sandhurst. A grande dúvida quanto a identificação residia no fato de que o cadáver foi encontrado nos arredores do vilarejo de Kirkland, cerca de 1200 quilômetros de distância da última posição assinalada pelo professor em seu diário. Não se sabe como o cadáver teria chegado a essa localização tão afastada.

O paradeiro do Tenente Joseph Benson da Real Polícia Montada do Canadá e dos demais membros permanece desconhecido.

Contudo, o estojo da máquina fotográfica Weiss que pertencia a Dieter Kunrad e que ficou em poder do Tenente foi achado após uma busca nos arredores. Por milagre a câmera em seu interior ainda estava intacta e foi possível revelar o filme. As fotografias que ilustram essa narrativa foram obtidas nessa câmera.

A imagem mais notável é justamente a última, que supostamente foi tirada pelo Tenente Benson segundo a derradeira anotação do diário. A fotografia está reproduzida abaixo e há mais de 60 anos divide opiniões no que diz respeito ao que ela mostra.      

A fotografia final da expedição.

domingo, 23 de junho de 2019

Wendigo - Uma Terrível besta com um insaciável apetite por carne humana


O Wendigo é uma besta selvagem, mas não é como nenhum animal da floresta. Ele é como um espírito, mas feito de carne. Sua pele é esticada sobre os ossos, como um cobertor cinza pálido. Seus olhos fundos brilham na escuridão, reluzindo com um vermelho sobrenatural. Ele parece um esqueleto que foi desenterrado de sua cova. Ele não tem lábios e seus dentes estão sempre sangrentos. Seu corpo é sujo e sua carne coberta de feridas que rescendem a podridão, corrupção e morte.

Basil Johnston, Professor da Tribo Ojibwe, Ontario, Canadá

Nas montanhas do extremo norte do Continente americano, as florestas que circundam os Grandes Lagos parecem não ter fim. As árvores são altas e antigas, as matas fechadas e a neve perpétua. É um lugar de belezas inenarráveis, mas de lendas estranhas e terríveis. Na região central do Canadá há uma lenda desse tipo. Ela fala de uma criatura maligna que lança o medo no coração de todos que ouvem a respeito dela. Os nativos a conhecem, através de velhas tradições e histórias orais, contadas pelos pais de seus pais, e pelos pais destes. Eles chamam esse ser de Wendigo, a besta que tem fome de carne humana.

Essa criatura de pesadelos é um monstro, mas tem algumas características comuns aos homens. Muitos acreditam que ele seja na verdade um homem cujo corpo foi possuído e então transformado em algo monstruoso, pela ação de um espírito maligno. As lendas tendem a variar para cada tribo, entretanto há pontos em comum: historicamente os Wendigo estão associados a canibalismo, assassinato, crueldade e a quebra de tabus culturais. Poucas coisas são mais ofensivas para as tribos que habitam o Extremo Norte do que romper com as tradições e conscientemente quebrar os tabus de seus antepassados. O Wendigo talvez seja um mito criado para ensinar aos jovens a respeito dos perigo de agir contra as tradições. Contudo, muitos acreditam que ele não é uma mera referência, mas uma criatura que de fato existe, habitando as profundezas da floresta onde a civilização jamais adentrou.

Conhecido por muitos nomes - Windigo, Witigo, Witiko e Wee-Tee-Go — cada um deles pode ser traduzido de maneira semelhante como "O espírito impuro que devora o homem". O nome diz muito a respeito da lenda e define exatamente o que ele é: um espírito que perverte a carne, de dentro para fora.

O Mito é especialmente difundido entre as tribos Algonquian, Ojibwe, entre os Cree do Norte e Cree do Pântano, os Saulteaux, Naskapi, e Innu. Todos estes povos descrevem os Wendigo como gigantes, muito maiores do que o mais alto dos homens. Embora a descrição geral possa variar, é comum para todos os povos a noção de que os Wendigo são criaturas perversas, canibais, nascidas de uma forma não natural e fortemente associadas com o inverno, o norte, o frio e a fome.

Os Algonquin descrevem o monstro nos seguintes termos: 


"Um gigante com o coração de gelo; por vezes, alguns o descrevem como um monstro totalmente feito de gelo. Seu corpo é esquelético e deformado, sem os lábios ou dedos, partes que o frio se encarregou de arrancar-lhe. Por vezes possui galhadas no topo da cabeça, chifres recurvos como o dos grandes alces.".

Os Ojibwa acrescentam: 

"Ele é uma criatura grande, tão alta quanto um pinheiro no coração da floresta. A boca não possui lábios e não conseguem esconder os dentes afiados como facas. Suas pegadas deixam um rastro sangrento, pois o sangue sempre o acompanha, onde quer que ele espreite. Se o monstro encontra um homem, uma mulher ou uma criança, ele os devorará. O Wendigo tem seu próprio território e não admite invasores. Morrer vítima do Wendigo não é tão ruim, pois aquele que morre pelas suas garras ou presas descansa. O pior acontece quando o Wendigo escolhe uma pessoa para possuir, e esta se torna, ela própria, um Wendigo. Ela então passa a viver apenas para a caça, e para devorar a carne de seus semelhantes". 

De acordo com as lendas, um Wendigo é criado sempre que um homem recorre conscientemente ao canibalismo para sobreviver. Trata-se de uma maldição, uma punição que se manifesta quando um dos maiores tabus das tribos - o consumo de carne humana, é quebrado. No passado, essa horrenda transgressão ocorria mais frequentemente, pois nativos acabavam perdidos na imensidão gelada, com neve para todo lado e nenhum sustento. Levados ao desespero extremo, eles acabavam cedendo e terminavam saciando sua fome com a carne de outras pessoas. Quando um homem nessas florestas místicas recorre a tal atrocidade, os espíritos malignos que habitam o local são atraídos e tendem a entrar em seu corpo. Aos poucos ele vai se transformando em uma besta atroz - o Wendigo.

Há outras versões da lenda que citam homens que são especialmente gananciosos, gulosos ou que cedem aos excessos para se satisfazer plenamente, sonegando todo o resto. São indivíduos que matam seus companheiros para ter lucro, que consomem porções extras de suprimentos mesmo sabendo que isso irá impactar nos demais, ou indivíduos que submetem ou forçam outros aos seus caprichos. Aqueles que cometem atos perversos, tortura ou assassinato, também tendem a atrair os espíritos malignos e se tornam propensos a serem possuídos por eles. Fica claro que o mito age como um alerta para que certas condutas e comportamentos sejam evitados. Cooperação e moderação são virtudes que praticamente todas as tribos do norte gelado estimulam.

A transformação é descrita como algo tenebroso. A primeira mudança, no entanto, ocorre na mente do indivíduo. Este perde o controle e a capacidade de refrear os seus instintos animalescos. Uma lenda especialmente perturbadora entre os Cree, descreve um homem faminto que em desespero assassina seu irmão e depois corta um naco de carne para dele se alimentar. O ato acaba convidando os espíritos da floresta a possuir seu corpo e quando eles o fazem, o sujeito perde o controle. Ele afunda seus dentes na carne do irmão, a rasga vorazmente, mordendo pedaços inteiros e engolindo com um prazer medonho. Em outro exemplo, um caçador mata seu companheiro para ficar com valiosas peles que foram coletadas na floresta ao longo de meses. O ato de traição atrai os espíritos e condena sua existência para sempre. Sob influência dos espíritos malignos ele arranca a pele de seu antigo companheiro, como se ele fosse um dos animais que ambos caçavam até recentemente.

Há um momento único de sanidade que se segue à loucura que acomete o indivíduo tomado pelos espíritos. Após um período de selvageria e sanguinolência, o indivíduo acorda na manhã seguinte capaz de entender o que se passou. Esse é o momento em que ele pode encontrar a redenção, optando por romper a maldição que dele se apossou. Para tanto, ele precisa tirar a sua própria vida. Se o indivíduo amaldiçoado não aproveitar essa oportunidade para se redimir, ele estará condenado para sempre e quando o sol se puser será uma vez mais tomado pelos espíritos, dessa vez para sempre.

Curiosamente a lenda se refere a qualquer pessoa como um candidato a se tornar um Wendigo. Não há impedimentos raciais para que uma pessoa venha a se transformar no monstro: nativos e colonos estavam sujeitos à maldição. Por ironia, após a chegada dos colonos brancos, os nativos acreditavam que o número de Wendigos em seu território havia aumentado, sem dúvida em função da presença de forasteiros que não compreendiam os mistérios daquelas terras.


As lendas que falam do Wendigo o descrevem minuciosamente. Ele é tratado como um espírito de grande altura, com mais de três metros, mas podendo ser ainda maior, grande como um pinheiro. O corpo parece estranhamente emaciado, como se tivesse de alguma forma secado e então esticado. Os membros se tornam muito longos e finos, com braços e pernas compridas que dão a ele uma aparência esquelética. A pele vai se tornando pálida, bem como os cabelos que ficam brancos e continuam crescendo em fios longos e lisos. Em muitas representações ele surge com uma grande galhada na cabeça ou uma máscara de crânio de alce, que realça seu aspecto selvagem. Os olhos passam a emitir um brilho avermelhado que pode ser visto na escuridão, como se fossem duas pedras incandescentes. As presas vão se alongando e aparecem entre os lábios rachados que também vão rescindindo até desaparecer por completo. A aparência é absolutamente animalesca!

Ainda assim, a fera é dotada de uma afiada inteligência que trai a sua aparência bestial. O monstro domina inúmeras habilidades que lhe permitem se esconder, caçar e conhecer perfeitamente os limites de seu território. O Wendigo é um predador no sentido mais completo da palavra, ele vive para caçar e se delicia com o prazer da chacina e com o frenesi da matança. O cheiro de sangue fresco o atiça a ponto de torná-lo incontrolável. Segundo as lendas, apesar de grande, o Wendigo é capaz de se esgueirar sem fazer um som sequer, agarrar suas presas e levando-as consigo, sem ser percebido. Por vezes, ele se propõe a fazer esse jogo, mas em outras ocasiões se contenta em simplesmente atacar sem aviso, matando todos invasores que tiveram o azar de entrar em seu território em um verdadeiro banho de sangue.

Algumas tribos acreditam que os Wendigo são capazes de controlar o clima, causar nevascas repentinas e usar magia negra à seu favor. Eles são retratados como seres desprezíveis que acabaram aceitando a maldição causada pelos espíritos e que de alguma forma extraem dessa vil existência prazer. Os Wendigo, entretanto, jamais estão satisfeitos e sua existência é marcada por uma busca perpétua por saciar suas vontades, sejam elas fome, fúria ou ganância. 

Não há cura para a maldição do Wendigo, a condenação é pela eternidade já que os espíritos são imortais. Um indivíduo possuído está condenado a vagar para sempre pela terra tentando preencher seus apetites vorazes.  

A lenda emprestou seu nome ao termo médico Psicose do Wendigo, que é considerado por alguns psiquiatras como uma perturbação mental ocasionada pelo isolamento e que frequentemente gera a necessidade de se tornar um canibal. Ironicamente essa estranha psicose é bastante comum nos povos que residem nos arredores dos Grandes Lagos no Canadá e nos Estados Unidos, justamente onde a lenda do Wendigo surgiu. A Psicose de Wendigo tende a se desenvolver no inverno em indivíduos isolados por longos períodos e sob determinadas condições de restrição. Os sintomas iniciais são falta de apetite, náusea e comportamento anti-social. Subsequentemente, o indivíduo passa a experimentar alucinações e acredita estar se transformando em algo não humano, geralmente algo animalesco e primitivo. Pessoas com essa psicose tendem a desenvolver desejos por consumir carne crua, por vezes, carne humana. Ao mesmo tempo eles se tornam paranoicos, acreditando que outros estão tentando devorá-los.

Há casos de Psicose de Wendigo em que as vítimas apresentam mudanças físicas, assumindo uma expressão inegavelmente animalesca. Há casos documentados com uma inquietante riqueza de detalhes que se encaixam perfeitamente na maldição descrita pelas tribos do norte. Há casos de psicose do Wendigo relatados há séculos. Em 1661, um missionário jesuíta descreveu o seguinte caso ocorrido nos arredores da Província de Manitoba:

"O que nos causou grande preocupação enquanto estávamos entre os povos nativos foi tomar conhecimento de suas estranhas superstições. Uma delas se referia a homens transformados em monstros pelo ato de canibalizar seus semelhantes. Nas Nações do Mar do Norte, ouvimos tais histórias de chefes respeitados. Soubemos que um homem havia sido capturado e estava esperando para ser executado pela tribo. O pobre diabo era acusado de ter matado e devorado um vizinho no auge do inverno, quando ele não tinha de onde obter sustento. Segundo os chefes, esse homem estava amaldiçoado e se fosse posto em liberdade se tornaria um monstro selvagem determinado a matar e comer outras pessoas. Acreditavam que essa doença não tinha cura e que a única maneira de evitar mais infortúnios era matá-lo antes que sua fome se tornasse incontrolável. Quando retornamos de nossa viagem pelo interior e passamos novamente pela mesma tribo soubemos que o homem havia sido executado conforme planejado e que a tribo estava aliviada. Para eles, haver um canibal entre os seus era a suprema transgressão. Mata-lo seria a única maneira de restaurar a normalidade da tribo".

Outro caso amplamente documentado ocorreu em 1878 quando um caçador Cree de Alberta chamado Swift Runner, sofreu de um caso de loucura crônica. Runner costumava fazer comércio com a Companhia Hudson Bay que atuava na região empregando nativos e comprando deles peles de animais selvagens. O homem era casado, tinha seis filhos e era respeitado tanto pelo seu povo quanto pelos homens com quem negociava. Ele chegou a servir como guia para a Polícia Montada Canadense em missões oficiais em Alberta e foi condecorado pelos serviços prestados.


Durante o inverno de 1878-1879, Swift Runner e sua família acabaram ficando isolados em sua propriedade. Seu filho mais velho foi o primeiro a morrer de fome e em algum momento do confinamento na casa, Swift Runner teve um episódio de Psicose do Wendigo. Ele matou os demais membros de sua família a facadas e porretadas, consumiu a carne de cada um e esperou por quase dois meses. Quando o socorre enfim chegou no final do inverno, os Policiais canadenses encontraram uma cena aterrorizante. Havia cadáveres semi-devorados em toda cabana. Swift Runner então apareceu: estava nu, coberto de sangue e rosnava feito um animal selvagem. Com muito custo, os policiais conseguiram detê-lo. Eventualmente ele confessou seus crimes hediondos e foi executado no Forte Saskatchewan.

Um Wendigo alegadamente também apareceu em uma pequena cidade chamada Rosesu no norte de Minnesota no final do século XIX. Ele deixou um rastro de cadáveres que aterrorizaram as autoridades locais, até desaparecer tão misteriosamente quanto havia surgido.

Outro caso bastante famoso sobre Psicose do Wendigo envolve um sujeito chamado Jack Fiddler, um chefe tribal e curandeiro da tribo Oji-Cree conhecido por ter no passado enfrentado ele próprio um Wendigo. Fiddler afirmava ter matado a criatura em uma caçada. Ele dizia que era constantemente perseguido por outros Wendigo que desejavam extrair dele vingança.

Em 1907, Fiddler e seu irmão Joseph foram presos pelas autoridades canadenses  sob acusação de terem cometido um horrível assassinato. A vítima havia sido desmembrada e partes de seu corpo desapareceram, supostamente tendo sido atirados em um rio. Jack cometeu suicídio na cadeia. Antes de se enforcar, deixou uma longa carta na qual relatava as circunstâncias em que havia matado o homem e reconhecia sua culpa. Ele afirmava ter se tornado um Wendigo após ter matado um capataz para ficar com a esposa deste. Ele acabou sendo amaldiçoado, tornando-se um Wendigo e sob a loucura da besta havia junto com o irmão matado um inocente e devorado partes de seu corpo. Envergonhado e temeroso, ele decidiu por fim a sua existência.   


Joseph foi julgado pelo crime e condenado a prisão perpétua. Ele recebeu um perdão oficial quase 15 anos mais tarde e foi enviado para uma Instituição Psiquiátrica. Lá, ele acabou matando um outro interno (a mordidas) e acabou retornando para a Cadeia comum. Há rumores de que ele teria escapado ou então que os outros presos o teriam assassinado em uma emboscada, ninguém jamais soube ao certo.  

Entre os Assiniboine, os Cree e os Ojibwe, existe uma cerimonia que é encenada durante tempos de escassez e fome. Esse ritual existe para fortalecer os laços de amizade e companheirismo entre os membros da tribo através do qual os alimentos são partilhados para que ninguém passe por necessidades. O objetivo segundo antropólogos é evitar que um Wendigo possa surgir na comunidade em face do desespero causado pela fome.  

Atualmente, casos de Psicose de Wendigo são bastante raros e muitos psiquiatras acreditam que a condição foi erradicada. Entretanto, o mito do Wendigo continua bastante disseminado entre as populações nativas que habitam o Norte do Canadá e a fronteira do Alasca. Há pessoas que acreditam que os Wendigo e os espíritos malignos responsáveis por criá-los continuam espreitando na floresta, atentos para tabus sendo quebrados.  

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Itaqua - The Wind Walker, God of Winter and the Arctic Wastes


The cold has always been considered a scourge of humanity.

It is associated with hunger, disease, and death. From the beginning of time, the human race is subject to the weather and its oscillations caused countless misfortunes for the men. Whether in the form of harvests and plantations being devastated, in the hunger that follows these tragedies and obviously in their icy touch. The cold has been a cruel companion in our long walk.

In the universe of the Mythos, there is a deity that gathers in its figure all the elements of the primordial cold and the most severe winter. In ancient times, he was the incarnation of the winter itself, descending relentlessly, mowing everything in Its path. This perverse entity inhabits the dark skies, traveling through the firmament in the icy winds, causing blizzards and frosts. Venerated and feared in the northern latitudes of the planet he claimed as his home, this Great Old One is intimately associated with temperature and climate.

He is called Itaqua, the Wind Walker, the Storm Eater, the Lord of the Blizzard, the White Silence and Walker in the Wastes... there are many names for this powerful and especially cruel entity. Certainly, the fact that countless peoples and civilizations associate the fury of nature with supernatural forces, contributed to Itaqua becoming the embodiment of most of the tempestuous Gods of the distant past. Scholars of the Mythos drew parallels between Itaqua and various entities, such as the Aztec god Quetzalcoatl, Thor, the Norse God of Thunder and Enlil, a Sumerian / Babylonian deity responsible for storms. In the northern hemisphere of the planet, the real nature of Itaqua is better understood by cultists who worship him with awe and submission.


Itaqua is considered one of the most important entities in the Pantheon of Inuit gods, known by Eskimo peoples as Sila. With that name, He was revered by native tribes scattered across reaches of the Arctic desert, from Siberia to Greenland. The cult of Sila also had enclaves of cultists inhabiting the most inhospitable territories of the extreme north of Canada and Alaska where His influence was unquestionable. Cultists try to placate his fury with bloody offerings and rituals. Sacrifices were offered at certain dates, with the chosen victims being tied up in stakes and abandoned on plains and deserted lands where the God materialize, accompanied by an immense storm. With these offers, the cultists believed that Sila / Itaqua would be satisfied and convinced to not send his punishment. Sometimes he was satisfied with the sacrifices, but sometimes, in anger, he bury entire villages under the snow, making them disappear forever.


Not by chance, Itaqua was always much more feared than adored, and his cults almost completely disappeared in the early nineteenth century. However, bastions still resisted in certain isolated parts of the far north in little town as Stillwater in the Territory of Manitoba, Canada or Cold Harbor, Alaska. His followers do not build temples, preferring to conduct their rites on the open plains. Worship brought few benefits to those involved since the God rarely offer artifacts or share spells, and when he did so, it was only to strengthen a priest who could control the rest of a community. In any case, Itaqua never cared for the well-being of his cultists and not rarely did exterminate them after some unrestrained fury.

As other Great Old Ones, Itaqua had his freedom restricted by cosmic principles that compel him to manifest only for short periods of time and in predetermined areas. The oral traditions shared by Siberian shamans and Sorcerers of the Cree tribesmen of the Great Lakes claim that Itaqua is not native to our planet and comes from a world, dimension or reality called Borea, a dark land with vast plains of black ice, constantly whipped by storms and furious gales. He have been drawn to Earth for unknown reasons countless millennia ago, settling into the North Pole, which became his Domain and Hunting Area.


When the stars reached their fateful alignment, Itaqua found himself trapped by these powerful cosmic chains, unable to break the prison built to capture the Great Old Ones. Like his brethren, he was prevented from manifesting freely beyond certain geographical limits. In the case of Itaqua he can not leave the area between the North of Manitoba and the North Pole, although in certain favorable circumstances and dates, he is able to manifest temporarily in other parts of the globe. Since cults devoted to him have flourished in regions of Mexico, Japan, and Persia, it is presumed that he has the tolerance to travel to milder climes, albeit in rare instances. In order to move from one place to another, Itaqua draws on colossal storms and other climatic phenomena of substantial intensity that seem to carry Him across the planet. It is possible that He also uses portals and other magical methods, even if its cultists adopt the notion that the God simply flies through the Winds. His moniker "Wind Walker" comes from this characteristic in particular, since the traditions affirm that "he is able to walk in the wind, as men walk on the land."

Little is known about the origin and history of Itaqua. Even by the standards of the obscure entities that form the Mythos, knowledge about Him is minimal. This is probably due to the fact that most of His cultists come from cultures and peoples who do not have written records. Much of the information about the God has remained confined within small isolated communities, orally transmitted. Thus, very little has been learned about him. What is known has been extracted by anthropologists and explorers who have had contact with inhabitants of these remote regions who have told legends about their gods. And even these stories certainly contain dubious information whose truthfulness can not be corroborated in whole or even in part.

Not by accident, Itaqua is one of the most mysterious Old Ones, an enigma obscured by a dense fog of rumors and whispers.


It is assumed that Itaqua is responsible for countless disappearances in the icy kingdon that makes His domains. In most cases, the god's victims simply disappear amidst a particularly violent storm. Nothing of their whereabouts is heard for days, months, years or sometimes forever. Eventually, some of these people are found buried in the snow or trapped in ice, with signs of falling from a great height. It is disconcerting that some of these victims bring with them strange objects that seem to belong to other civilizations separated by long distances. Some victims are still found alive, babbling about a colossal creature flying in the clouds. Not infrequently these victims are found miles from the point where they supposedly to have disappeared, without being possible to determine how they came about in such disparate places.

It is rare, but some can survive this traumatic experience. Among the Inuit people, those who "Wandered in the Wind" are regarded as individuals touched by the God. They experience maddening visions and prophecies to the end of their lives. They are still avoided by tribes and live as hermits. It is said that those who endured the proximity of Itaqua develop a supernatural ability to withstand extreme cold temperatures without the slightest discomfort. In the Siberian taiga, there are rumors about shamans who share this fate and are regarded as insane prophets.


Another curious legend about Itaqua concerns the Wendigo, a well-known myth, spread among the Native American peoples of the north. The myth originally refers to men who turn into wild beasts of grotesque appearance after consuming human flesh. The Wendigo are monsters feared by the Inuit tribes, ferocious creatures who live alone and who give up reason to become terrible predators.

The Wendigo are supposed to be a servant race created by the power of Itaqua. Transformation affects people who are chosen by the God and live in His company as prisoners. How he chose a person to become Wendigo is unknown. What is known is that transformation involves a series of stages in which the victim's body is slowly perverted in a form more or less similar to Itaqua itself, albeit smaller and less powerful. In the final stage, the victim completely loses consciousness, becoming savage. However, they remain entirely subject to the will of the God.

There is rumors that some remote places in Canada or Alaska, are still inhabited by Wendigo servants of Itaqua. As such, they serve His master and perform any tasks without question. It is possible that these beings are the basis for various legends about anthropoid creatures such as the sasquatch, yeti and the big foot. Those in warmer lands who are supposed to be safe, away from Itaqua grasp, may be visited by these servants of the Wind Walker. Arctic boundaries do not apply to the Wendigo, who can be sent anywhere in the world to extract vengeance on behalf of their master.

Unlike most of the Mythos horrors, Itaqua is clearly a humanoid entity. In a simplistic comparison, some might try to describe His general appearance as simiesque, but a second observation removes the notion that He bears similarity to any terrestrial life form. For all intents and purposes, Itaqua is totally alien in appearance.

His form is described as that of a polyphemic giant, more than 30 meters high, thin and emaciated. Many describe him as a colossus of pale, almost cadaverous appearance, with very long limbs ending in hands and feet endowed with claws. His face is a disfigured scowl, lean and angular, with a powerful jaw and a lip-less mouth. His white, pointed teeth protrude outwardly, like knifes. From its throat emerge misty puffs of ice crystals. The hairs on the top of his head are long and fall over his broad shoulders like a chalk white cascade. The eyes have a pale bluish coloration, strangely blurred and without iris. When furious, those wild eyes turn a reddish hue. It is supposed, that he has a acute scent, being able to perceive His prey at considerable distances. Itaqua is described as terrible predator, dedicated to the pleasure of the hunt. Strictly carnivorous, its voracity is well known.

The giant is covered with a rough coat of grayish-white or beige-gray color. This hair that grows in battens seems to offer a natural protection, accumulating in greater quantity in the neck, chest, back and genitals. Underneath this coat, his skin is pale and rigid, lining a solid musculature with tissues that resemble tendons. It is not easy to hurt that sturdy skin that has the texture of hard leather. Normal weapons find extremely difficult to pass through hair, skin and muscle. Firearm are generally diverted, except for projectiles with high penetration power, which can deflect this natural armor, without, however, producing great damage. A shotgun shot is more likely to merely irritate Itaqua.

    
Itaqua's body is supported by two legs, assuming a completely erect posture. It moves with long strides that cover an arch of at least 15 meters in each step. Its feet are palmed, endowed with six fingers, with a thick and rough soles that assures him adherence in the snow or ice. For some, the God does not really touch the ground, yet this notion seems to be false, since he often leaves his trail in the snow. His stride is powerful and the creature does not seem to care about whatever is in its path. Despite its colossal size, Itaqua can float in the air, covering hundreds of meters. The Entity is also capable of flying as long as there is a storm or blizzard in the vicinity. To take flight, Itaqua simply floats in the direction of the storm and lets Himself be engulfed by the clouds. He is able to move quickly this way, making miles in a few seconds.

A freezing aura seems to emanate from his body and individuals who got close enough to the God have described a freezing sensation that leads to hypothermia. In fact, all who have been close enough, and have survived the experience, claim that the cold emanating from God is almost unbearable. Loss of fingers, whole limbs and mucous membranes are a sad trophy carried by these survivors. Some believe that around Itaqua there is a kind of icy fog that seems to accompany Him. In general, the God chooses to manifest physically only when there is a strong storm or blizzard, and is rarely encountered under a clean sky.

Of all the horrendous characteristics of Itaqua, one deserves to be highlighted. This is described by many who crossed His path and became some kind of trademark. Itaqua produce a terrible noise, which, in the absence of a better interpretation, sounds like a howl. The Hunter Howl, as he is known among his cultists, seems to have a poignant effect on those who hear it for the first time. The howl is described as a snarling growl, but it can not be compared to any sound produced by animals of nature. This exasperating sound seems to affect its victims with a primal fear so monumental that many simply lose their reason. Faint, hysteria, and uncontrollable panic are frequent reactions. There are cases of individuals who never recover from the experience; they end up being consumed by an overwhelming sense of despair and desolation that invariably leads them to physical and mental ruin.  Those who go crazy, commit suicide or just start walking north to surrender themselves to the God.

Itaqua knows no mercy, offers no consolation, and is cruel in her disinterest for all that is around her. A true force of nature, he does not care about the fragile beings that are crushed beneath his feet.

In many ways, Itaqua is like the winter itself: Relentless and terrible.