sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Caçando Mortos Vivos - Fórmulas e Compostos alquímicos (Parte 3)


E chegamos ao artigo final à respeito do Arsenal do Caçador de Mortos Vivos e outras criaturas sobrenaturais.

Neste derradeiro artigo, cobrimos as Fórmulas e Compostos alquímicos, usados para os mais diversos efeitos no ofício da caçada.

Estes compostos possuem um grau de raridade variado, alguns são bastante corriqueiros, mas outros demandam conhecer os fabricantes certos e os indivíduos que detém o segredo da destilação dessas fórmulas, muitas das quais, guardadas há gerações. Um bom Caçador conhece fornecedores e com o tempo desenvolve uma capacidade impar de diferenciar produtos de qualidade de meros placebos de utilidade questionável.

O custo de certos compostos pode atingir cifras elevadas, dependendo sobretudo da raridade dos ingredientes e da complexidade da sua concatenação. O conhecimento de algumas formulações constituem verdadeiro tesouro de família, guardado em absoluto sigilo.  


Os frascos de vidro ficam guardados em um compartimento especial da valise, onde eles se mantém protegidos contra choques que possam danificá-los. Apesar disso, dada a natureza volátil de algumas substâncias, o Caçador é aconselhado a tomar máximo cuidado e conhecer as implicações perigosas de expor estas fórmulas a condições adversas.

Cada frasco pode ser reconhecido através do rótulo de seu fabricante.

Elixir Fúngico (Toadstool)


Fungos possuem uma longa história associada ao misticismo esotérico.

Cogumelos constituem um ingrediente comum usado nos caldeirões de bruxas em todo o mundo. Centenas de anos atrás, o fungo foi responsável direta e indiretamente por muitas pessoas executadas sob a acusação de feitiçaria. Fungos são a causa de ataques e convulsões, distorções faciais e todo tipo de comportamento incomum e muitas vezes assustador. Seu consumo está associado a alucinações. O contato com substâncias como o ergot, um tipo de mofo que cresce no pão e no centeio, levou ao episódio de Salem.

Espécimes de Cogumelos selvagens, em especial os que crescem nos Anéis de Bruxa (Witch ring) possuem uma ligação íntima com o mundo das fadas e com entidades da natureza. Eles podem ser usados para invocar forças elementais, potencializar rituais silvestres e para ganhar acesso a reinos secretos.

Os cogumelos contidos no frasco são bastante incomuns, uma variedade obtida nos bosques das Ilhas Britânicas. Foram especialmente tratados para manter sua potência mesmo depois de removidos de seu ambiente. Dada sua raridade, eles podem ser usados como moeda de barganha com seres que os tem em alta conta. 

Se consumidos, cogumelos especialmente potentes como estes, podem abrir a percepção para visões, augúrios e profecias. O Caçador pode interpretar essa experiência e obter respostas para questões pertinentes. É preciso, contudo, estar ciente que essa modalidade de contato pode representar um grave risco e trazer sérias repercussões. 

Pó de Crânio (Skull Powder)


Produzida a partir de uma série de ingredientes obscuros, incluindo ervas, raízes raras, ossos e órgãos  humanos reduzidos a poeira, essa substância faz parte da valise, mas seu uso divide opiniões, sendo muito criticado por alguns.

A poeira fina de coloração branca-acinzentada deve ser aspirada para seus efeitos serem sentidos.

Uma vez na corrente sanguínea, a substância age de imediato como um estimulante, potencializando a força e resistência a níveis sobre-humanos na medida que aumenta o ritmo cardíaco e respiratório. Ela promove ainda um grau aprimorado de foco e concentração. Finalmente, a fórmula diminui consideravelmente as necessidades básicas de seu usuário, fazendo com que ele não sinta - ou tenha mitigado, os efeitos do sono, fome ou sede por longos períodos. Em face de seus benefícios imediatos, o Pó de Crânio é muito útil para Caçadores que estão empreendendo uma missão longa ou que consome suas reservas físicas e mentais.

Infelizmente, os benefícios produzidos podem acarretar posteriormente em sérias desvantagens. Cessados os efeitos, o utilizador experimenta um período de torpor, cansaço, confusão mental e irritação. Para escapar desses efeitos, alguns decidem fazer uso contínuo da substância. Há boatos a respeito de dependência, mas estes são tratados por alguns caçadores como tabu, na medida que outros preferem ignorá-los por completo.

Para todos os efeitos é preciso compreender que o Pó de Crânio é perigoso e seu uso desaconselhado.  

Estricnina


Nem todos os componentes da Valise tem origem mística, alguns são bastante corriqueiros, mas nem por isso deixam de ter sua utilidade prática.

Alguns oponentes na caçada são suficientemente humanos para serem afetados por substâncias venenosas e toxinas. Bruxas e Feiticeiros, por exemplo, ainda que tenham pactos e acordos diabólicos firmados com as forças das trevas, podem ser afetados por uma dose de estricnina corretamente ministrada.

A estricnina tem origem na natureza, ela é produzida a partir de plantas especialmente tratadas, mas seu preparo é complicado e demanda várias etapas complexas nas quais a exposição pode ser fatal. Quando uma pessoa é exposta aos seus efeitos segue-se uma longa lista de sintomas entre os quais 
espasmos musculares incontroláveis, espuma na boca e severas câimbras, eventualmente vem a asfixia quando os músculos tensionam e se tornam incapazes de permitir a respiração. Não havendo um antídoto ou se este não for dado o mais rápido possível, a estricnina tende a ser mortal.

Raiz de Mandrágora (Mandrake)


Nenhuma outra planta foi tão associada a atividade de feitiçaria através dos tempos quanto a famosa Raiz de Mandrágora (mandragora officinarum). Ela é conhecida por botânicos e místicos desde tempos imemoriais e tem sido amplamente utilizada em poções medicinais e fórmulas mágicas. Rumores bons e ruins estão associadas à raiz e seu emprego benéfico ou maligno depende apenas de quem a utiliza.

Mandrágora foi muito receitada como afrodisíaco e como auxiliar para a impotência, para induzir visões e libertar o espírito, para acalmar os nervos e para sedar pacientes com dores causadas por feridas graves. Tudo isso é verdade, mas ela também tem sido amplamente utilizada em rituais místicos.

A raiz é uma espécie de catalizador que aumenta as propriedades mágicas de poções e fórmulas por ela temperada. Objetos, regalia e talismãs também podem ter seus poderes amplificados quando lavados com extrato de Mandrágora e deixados repousar sob a lua cheia.

A raiz quando mascada em pequena quantidade fornece certo grau de proteção contra maldições e maus olhados, podendo afastar malefícios lançados por bruxas. O extrato deve ser mascado e então cuspido para que o mal seja purgado antes de ter efeito. Se dado a uma pessoa previamente amaldiçoada, a raiz pode drenar a potência do malefício e expelir seus efeitos nocivos através de ondas de vômito.

Finalmente, a raiz de Mandrágora é uma planta associada aos espíritos. Uma pequena quantidade colocada na boca de um cadáver recente pode estabelecer com ele uma comunicação limitada permitindo ao espírito emitir algumas poucas palavras.

Elixir de Sangue (Elixir Sanguinis)


Destilado com diferentes ingredientes, sendo o mais famoso três gotas de sangue de vampiro, o Elixir Sanguinis é uma fórmula mística de grande potência.

São poucos os alquimistas que conhecem seu segredo e menos ainda os que concordam em compartilhar esse saber. A substância de um escarlate vivo é ingerida via oral, desencadeando efeitos imediatos em seu consumidor.

O indivíduo se torna temporariamente imune ao controle mental exercido por vampiros e outros não-mortos que são capazes de estabelecer domínio psíquico. Nesse ínterim, o indivíduo pode sentir a influência do poder sobrenatural agindo sobre si, o compelindo e instigando, mas se tiver suficiente força de vontade será capaz de conter seu ímpeto.

Ademais, o Sanguinis age como uma espécie de coagulante que diminui o risco de sangramentos e hemorragias no corpo. O sangue se torna temporariamente denso e escuro, com um forte odor de ferro. Essa peculiaridade vem imbuída de um problema, já que vampiros e outros monstros hematófagos sentem-se atraídos por esse aroma pronunciado. 

Alguns Caçadores, no entanto, aprenderam a tirar vantagem disso, usando o Elixir como uma forma de atrair os vampiros para suas armadilhas. Da mesma forma, vampiros usando disfarce podem ser obrigados a revelar sua natureza pérfida quando expostos diretamente à substância.

Dada sua raridade e a dificuldade em reunir os ingredientes que o compõe, um frasco de Elixir Sanguinis, pode atingir um altíssimo valor de mercado. 

Erva de Acônito (Wolvesbane)


Outra planta sagrada na tradição pagã, Acônito é devotada a Hécate e intimamente associadas à feitiçaria.

Os gregos e romanos antigos a chamavam de Capacete de Marte, por causa da forma de suas flores de onde a substância é destilada. Bruxas usavam o acônito colhido em seus jardins para criar uma potente beberagem que uma vez ingerida provocava alucinações e revelações. Em mais de uma tradição, tribos pagãs cobriam dardos ou flechas com uma camada de acônito para impingir em seus alvos delírios e terror.

Seu nome decorre do uso que povos germânicos faziam dele, empregando uma infusão de Acônito misturada com carne de ovelha, para matar lobos. Daí seu nome - mata-lobo (Wolvesbane).

Acônito é universalmente conhecida como uma planta associada a Maldição da Licantropia. Ela pode ser usada para reverter a forma selvagem em forma humana ou ainda obrigar um humano a vestir a pele de uma fera. Para isso, é preciso fazer com que o acônito tenha contato com a pele do indivíduo, que ele sinta seu odor ou que consuma uma determinada quantidade da planta. Nesse caso, o acônito age quase que imediatamente, deflagrando a transformação.

Caçadores já empregaram acônito em dardos de besta ou flechas. Ela também pode ser transferida através de arranhões produzidos por lâminas tratadas ou por munições.

O Acônito é uma erva usada no tratamento de indivíduos feridos por licantropos, em especial lobisomens. Uma vítima ferida por tais criaturas pode receber a maldição e para evitar tal coisa, acônito pode ser um o único remédio. Uma quantidade de acônito espalhada na ferida, com uma camada de poeira de prata tampando como um curativo trocado a cada 12 horas, pode reverter a maldição. Há de se lembrar, entretanto, que o tratamento é extremamente arriscado já que o acônito em estado puro é tóxico.

Vítimas fatais de licantropos podem ser tratadas com um banho de acônito diluído em água. Também é comum que uma quantidade de acônito seja colocada na boca de uma vítima de lobisomem, o que previne dele se erguer como uma besta feroz. 

Arsênico


Outra substância bastante perigosa, o Arsênico ganhou o apelido de Rei dos Venenos pela sua letalidade.

Encontrado na natureza na forma de metal, ele é bastante similar ao mercúrio. O Arsênico ganhou fama entre assassinos e foi por muito tempo o instrumento favorito da poderosa Família Bórgia, que o usava extensivamente para remover oponentes de seu caminho. Anéis especiais com um nicho oculto podiam ser usados para esconder e dispor do veneno em cálices ou jarros. Uma dose calculada era suficiente para eliminar um inimigo de forma discreta, sem deixar muitos indícios.

Os grãos de arsênico podem ser dissolvidos em água quente e uma pequena quantidade pode ser espalhada sobre lâminas e até munições para que seja transferida para a corrente sanguínea no caso de perfuração. Armas com uma camada de arsênico ganham uma coloração levemente amarelada e se tornam especialmente letais, podendo matar com um simples arranhão.

Obviamente, criaturas sobrenaturais possuem resistência ou até imunidade a esse tipo de substância, contudo seus companheiros, os fanáticos cultistas e mesmo algumas bestas que servem a feiticeiros podem ser afetadas pela substância.  

Elixir da Vida (Panacea Vitae)


Conhecido como Panacea Vitae, essa é uma substância incrivelmente rara e valiosa.

Extraído de diferentes fontes e destilada com ingredientes secretos, esse líquido de coloração azul é uma das poções medicinais mais poderosas. Filósofos discutem que em sua formula possui traços da água sagrada do paraíso terreno, o Eden. Sua origem é obviamente mística e seus efeitos, uma vez no organismo, se fazem sentir de imediato.

Em primeiro lugar ele age como um antídoto para todos os venenos conhecidos, naturais e não-naturais. Substâncias tóxicas que poderiam matar um homem em segundos são anuladas pela sua ingestão, diluindo e perdendo sua potência em instantes. Doenças também são anuladas pelo Elixir que devolve o vigor e a saúde, mesmo em indivíduos desenganados e moribundos. A efetividade é tamanha que dizem as lendas, vítimas da Praga Negra, praticamente mortas pela manhã se sentiam refeitas no meio da tarde.

O Elixir da Vida também é usado para cicatrizar ferimentos e sanar danos sofridos. A poção não pode ser dividida, ela deve ser bebida em sua integralidade para que os efeitos se espalhem pelo corpo que se sente renovado a cada bater do coração. Os ferimentos mais graves e letais são curados e em poucos momentos o corpo se sente revigorado e cheio de ânimo.

Há boatos de que aqueles que bebem dessa poção tem uma vida extremamente longa e plena e que experimentam uma existência saudável e lúcida. Reis e Rainhas devotaram sua existência a obter essa fórmula, dedicaram fortunas à sua busca. A maioria falhou...

O pequeno frasco na Valise é uma dádiva, um milagre e uma maldição. Se a existência dele for descoberta, o Caçador que o detiver poderá esperar todo tipo de indivíduo o desejando avidamente.  

Suco de Cérebro (Brain juice)


Fabricado pelo obscuro Laboratório vitoriano Champlin & Doughert de Londres, o Suco de Cérebro é um composto extremamente raro.

Destilada com a fervura e coagem do cérebro fresco de um reputado gênio, o extrato é misturado a ervas e uma série de outras substâncias insalubres e potencialmente perigosas. O Suco constitui um tipo incomum de poção para ser ingerida via oral ou ministrada via injeção diretamente na nuca para obtenção de efeitos mais rápidos. 

Uma vez no organismo, o suco começa a fazer efeito em poucos segundos. O indivíduo tem a sua mente invadida por pensamentos, memórias e lembranças de pessoas ao seu redor. O fluxo de vozes não articuladas, captadas por sua mente é tamanho que seus fabricantes aconselham a pessoa que o usa fazê-lo num lugar remoto onde não há grande público. Mais de um indivíduo que usou o suco acabou enlouquecendo com a cacofonia de pensamentos por ele captados. 

O suco não é simplesmente uma forma de "ler a mente" de outras pessoas, embora possa ser empregado para extrair segredos. Seu uso, no entanto, não é garantia de obtenção daquilo que se deseja. De fato, a experiência pode ser perigosa se realizada sem o devido cuidado. Como efeito secundário é possível assumir memórias pertencentes a outras pessoas, o que pode ser extremamente traumático dependendo de quem é o indivíduo lido.

Curiosamente a fórmula tem problemas quando usada para ler a mente feminina que parece especialmente resistente a seu emprego.      

A valise contém um frasco, suficiente para três doses. 

Elixir do Encantamento (Elixir de Jouvence)


Outra substância extremamente rara e difícil de ser obtida pelas vias normais.

O Elixir é um óleo supostamente descoberto pelo Conquistador espanhol Ponce de Leon, quando este esteve no Novo Mundo em busca da Mítica Fonte da Juventude. Uma pequena quantidade da fórmula teria sobrevivido e foi negociada com o obscuro Dr. Saban de Paris que conseguiu reproduzir seus efeitos em laboratório.

A fórmula não é nem 1/10 tão poderosa quanto a original retirada da fonte, contudo ela produz efeitos benéficos indiscutíveis. A pessoa que usa o óleo, que é passado e esfregado na pele sente um bem estar imediato. Com efeito, torna-se encantadora para qualquer um que a observe ou tenha com ela interação, não importa o quão breve. A voz, a aparência, a eloquência e a postura parecem ser imediatamente alteradas pela substância. A fórmula desencadeia um efeito dramático sobre o carisma, fazendo com que a pessoa transborde com um ar de confiança e superioridade sobrenaturais. As pessoas sentem uma atração inexplicável pelo indivíduo e querem estar ao lado dele, partilhar de sua atenção, quase como se dependessem fisicamente dessa interação.

É claro, esse efeito pode ser uma faca de dois gumes, já que é impossível enquanto o efeito está ativo se livrar dessa atenção exagerada. Um Caçador no entanto, pode ser valer dele para obter de pessoas afetadas vantagens e extrair delas benefícios.

Há de se tomar cuidado: existem relatos de que o óleo tenha sido empregado como perfume na Paris pré-revolução e que a pessoa que dele se valeu foi literalmente devorada pelos que o adoravam.

Espírito do Demônio - Poção Voodoo 


Outra fórmula extremamente rara e perigosa cujo uso pode trazer sérias consequências.

Preparada com ingredientes estranhos a poção emprega um verdadeiro coquetel de toxinas e substâncias conhecidas apenas pelos mais poderosos Bokor do Haiti. O resultado da concatenação é um líquido negro e fino que rescende a energia negativa.

Uma dose colocada na boca de um cadáver recente, seguida da recitação de seu nome, faz o indivíduo se levantar, assumindo a forma de um morto vivo conhecido na tradição haitiana como zumbi. O zumbi é um morto obediente, ele irá atender as ordens da pessoa que o  criou e irá demonstrar por este lealdade inquebrantável. As ordens dadas a um zumbi, mesmo as que envolvam a sua destruição iminente são acatadas prontamente. O zumbi pode ser usado como um servo, como trabalhador braçal ou como assistente. Essas criaturas não são providas de inteligência ou vontade própria, mas conseguem acatar ordens diretas da maneira mais fiel possível. 

Um zumbi constitui uma anátema e portanto sua criação é compreendida como uma séria transgressão ética e moral. Muitos Caçadores, entretanto, tem uma visão mais ampla de seu trabalho e consideram que para enfrentar o mal, por vezes é preciso usar quaisquer armas ao seu alcance.

É por essa razão que o frasco está na valise. Talvez ele esteja lá para testar a fibra moral de seu dono, para jamais ser usado, não importa a tentação. Contudo, o fato dele ter um dosador e de que 4 das 12 doses já terem sido usadas, levanta questionamentos sobre o pilar moral/ necessidade.

Seja como for, muitos caçadores poderiam considerar que um colega enveredando pelo escuro caminho da Necromancia é uma falta demasiadamente pesada, passível até de excomunhão...

*     *     *

E assim chegamos ao fim de nossos artigos sobre a Valise do Caçador de Mortos Vivos.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Caçando Mortos Vivos - Itens do Arsenal contra as Trevas (parte 2)


Dando continuidade ao artigo a respeito da Maleta do Caçador e seus itens.

Props e material que o próprio Van Helsing, o mais famoso caçador de vampiros da história ia querer ter para destruir seus odiados inimigos mortos vivos. 

Este artigo é a segunda parte da apresnetaçã do Kit do Caçador de Mortos Vivos, para ler a primeira parte clique aqui - Caçando Mostos Vivos parte 1

Água Benta


A Água Benta é considerada como o fluido sacramental por excelência, através do qual energia positiva é concentrada e compartilhada. Ela pode ser usada com o intuito de oferecer purificação espiritual ou como proteção contra as forças do mal em todas as suas formas e disfarces.

A Água Benta produz efeito imediato sobre criaturas diabólicas e entidades espúrias, provocando queimaduras e extremo desconforto quando em contato com a pele de tais seres.

Para abençoar a água, um sacerdote devidamente investido precisa recitar sobre ela o "Rituale Romanum":

"Exorcizo te, creatura aquæ, in nomine Dei Patris omnipotentis, et in nomine Jesu Christi, Filii ejus Domini nostri, et in virtute Spiritus Sancti: ut fias aqua exorcizata ad effugandam omnem potestatem inimici, et ipsum inimicum eradicare et explantare valeas cum angelis suis apostaticis, per virtutem ejusdem Domini nostri Jesu Christ: qui venturus est judicare vivos et mortuos et sæculum per ignem.

Deus, qui ad salutem humani generis maxima quæque sacramenta in aquarum substantia condidisti: adesto propitius invocationibus nostris, et elemento huic, multimodis purificationibus præparato, virtutem tuæ benedictionis infunde; ut creatura tua, mysteriis tuis serviens, ad abigendos dæmones morbosque pellendos divinæ gratiæ sumat effectum; ut quidquid in domibus vel in locis fidelium hæc unda resperserit careat omni immunditia, liberetur a noxa. Non illic resideat spiritus pestilens, non aura corrumpens: discedant omnes insidiæ latentis inimici; et si quid est quod aut incolumitati habitantium invidet aut quieti, aspersione hujus aquæ effugiat: ut salubritas, per invocationem sancti tui nominis expetita, ab omnibus sit impugnationibus defensa. Per Dominum, amen. †

A Água Benta pode ser usada para abençoar devotos, conferindo a eles proteção contra o mal e para limpar feridas produzidas por certas criaturas. 

Um banho com Água Benta é uma espécie de tradição para Caçadores antes e depois de concluir uma caçada. O intuito é eliminar e neutralizar quaisquer resquícios de impurezas que podem ter sido transferida durante o embate com seres das trevas. Da mesma forma, lavar um cadáver com água benta é uma precaução para evitar que o corpo seja revitalizado ou utilizado por necromantes para suas atividades nefastas.

A Maleta possui dois vasilhames com água benta, um frasco abençoado pelo Santo Papa de Roma e uma ampola que pode ser usada como aspersor para lançar a água à distância.

Rosários Bentos


O Rosário é um objeto consagrado pela Fé Cristã.

Ele é um item comum na tradição romano católica que consiste em um guia para a recitação seriada de orações e passagens da vida de Cristo e da Virgem Maria.

Para o Caçador de Monstros e Exorcista, o Rosário é uma ferramenta para canalizar o poder sagrado que pode ser utilizado então com o intuito de repelir Seres das Trevas, em especial aqueles que constituem anátema para Deus - vampiros, demônios e feiticeiros. Desse modo, o Rosário tem uma função semelhante ao crucifixo como objeto para invocar o poder da fé verdadeira.

As orações ligadas ao rosário, repetidas em forma de mantra, também podem ser empregadas para romper controle mental e encantamentos. Ainda pode ser útil para reverter maldições e maus olhados direcionados por bruxos e feiticeiros.
   

O Rosário abençoado também pode ser vestido ao redor do pescoço como uma espécie de proteção contra o ataque de vampiros que direcionam suas presas a essa área sensível. Um rosário abençoado pode ser colocado em volta do pescoço de uma vítima de vampirismo para afastar o visitante indesejado que tenta se alimentar do seu sangue.

Os dois rosário na Maleta foram confeccionados na Terra Santa e consagrados em água benta. As contas que compõem a corrente são abençoados e em contato com certos monstros podem produzir ferimentos e queimaduras. Alguns Caçadores após destruir um Vampiro através da decapitação depositam um rosário no interior de sua boca com o propósito de evitar sua regeneração. Esse método por vezes também é empregado para dispor dos restos de feiticeiros e necromantes.

Breviário de Exorcismo


Nas páginas do Breviário de Exorcismo o Caçador encontra os Rituais consagrados utilizados para purgar o mal, libertar o possesso e expulsar entidades nefastas.

Ele apresenta os complexos métodos e registra em detalhes o processo reconhecido ela Igreja Católica através do qual o Exorcista esconjura e expulsa espíritos possessores e demônios que afligem uma vítima. O procedimento inclui uma ação constituída de palavras e gestos (imposição das mãos, sinais religiosos, aspersão de água benta), através da qual ocorre a libertação e proteção do mal em nome de Nosso Senhor. 

O objetivo do Ritual descrito é romper com a influência nefasta e rechaçar a presença que se manifesta, fazendo com que ela retroceda e parta. Nem sempre é algo fácil! Muitas entidades se agarram à vítima e lutam vigorosamente para permanecer no controle, tornando o Ritual um desgastante embate entre luz e trevas. Nem todos resultam em vitória, e muitos exorcistas colecionam amargos fracassos.


O Breviário  inserido na Maleta é do século XVII, ele foi impresso em latim por uma gráfica do Vaticano. O livro contém termos e apontamentos procedimentais com notas de rodapé e conselhos de exorcistas e caçadores que o empregaram. Constitui assim um arca bolso não só de conhecimento teórico, mas de vivência e prática dentro do perigoso ofício de enfrentar as trevas.

Entre as memórias transcritas por diferentes caçadores nas páginas desgastadas estão relatos aterrorizantes. Alguns falam de encontros com demônios no Norte da África, de um cabal de feiticeiras na Sicília, um Horror ancestral nos subterrâneos de Paris e de um caso bizarro de possessão no Novo Mundo.

O Breviário constitui uma ferramenta extremamente útil para os Caçadores, um reservatório de conhecimento e depositário de sabedoria. O estudo contínuo e a compreensão de seu conteúdo se fazem necessários para todo e qualquer Caçador de Monstros. 

Medalha Milagrosa


A Medalha Milagrosa adicionada ao conteúdo da maleta foi confeccionada em prata maciça e apresenta em relevo a efígie da Virgem Maria com o Menino Jesus em seu colo.

O objeto foi abençoado por três Papas e tocado por pelo menos um santo católico. Sua origem é desconhecida, mas há rumores de que ele seria bastante antigo, um presente ofertado ao Imperador Constantino pelo Bispo Eusébio de Cesaréia para protegê-lo após sua conversão. O objeto teria posteriormente passado de mão em mão por gerações de Caçadores de Monstros e Exorcistas que o utilizaram em seu perigoso ofício.

A medalha pode ser utilizada como um poderoso item de esconjuração, para repelir e afastar entidades nefastas afetadas por símbolos da cristandade, assim como ocorre com o crucifixo e o rosário bento.

Além disso, por ser triplamente abençoada pelo Santo Padre e tocada pelas mãos de um Santo, a medalha possui a faculdade de quebrar maldições, pragas e maus olhados rogadas por feiticeiros e bruxos. Ela pode ser usada como um talismã em volta do pescoço afastando os malefícios lançados por esses servos do Grande Inimigo.

As propriedades purificadoras da prata também são de grande importância para Caçadores que perseguem o rastro destrutivo de licantropos e outros trocadores de pele. Supostamente, o objeto se aquece quando um licantropo está nas proximidades, alertando o caçador de uma ameaça iminente. 

Pergaminho Mágico de Não-detecção


Obtido com sábios em Alexandria, esse antigo Pergaminho foi imbuído com um encantamento que pode ser invocado em momentos de grande necessidade ou com o intuito de receber uma vantagem sobrenatural.

As Palavras de Poder que compõem a magia, quando proferidas corretamente em voz alta ativam seus efeitos imediatamente. Ao mesmo tempo, o frágil linho no qual elas foram escritas - supostamente bandagens de uma múmia com mais de 2 mil anos, se desfazem. 

As palavras foram escritas em grego clássico e o Caçador deve ter conhecimento de seu significado e a correta pronuncia para que o efeito almejado seja alcançado.


O encantamento contido no papiro permite que aquele que o invocou se torne imperceptível. Com efeito, o indivíduo se torna indetectável, não podendo ser visto, percebido ou mesmo farejado por criaturas sobrenaturais. O encantamento se mantém ativo por aproximadamente 180 segundos período em que o indivíduo simplesmente desaparece sem deixar rastro. O poder não envolve invisibilidade ou algo similar, seu funcionamento está ligado a ilusão e dissimulação.

Movimentos agressivos, que envolvam movimentos bruscos podem romper a ilusão e dar sinais que podem ser captados. Por esse motivo, a não-detecção é empregada com o intuito de garantir uma forma de retirada diante de um perigo.        

Sino de Prata


Esse pequeno Sino foi abençoado no momento em que a prata pura que lhe daria forma era colocada no molde. O artífice esfria o sino recém criado em água benta e grava no badalo runas de natureza mística. Como resultado o sino produz um timbre puro que lhe é característico. 

Ao reverberar com seu tom metálico, o sinete provoca um efeito de disrupção que aflige certos seres e causa neles estupor. Fantasmas, espectros e assombrações são afetados pelo som e se vêem imediatamente incomodados. Há casos em que alguns são repelidos, afastando-se de imediato, enquanto outros se vêem momentaneamente impossibilitados de atravessar superfícies sólidas.

A disrupção produzida pelo sino também impede que seres imateriais consigam interagir com o ambiente, seja erguendo objetos ou os lançando, como costumam fazer certos espíritos espúrios.

Supõe-se que o timbre produzido pelo sinete também pode ser usado para afastar licantropos afetados pela prata. Se o ruído for produzido próximo o bastante da criatura, ele pode causar um efeito atordoante, suficiente para deixar a criatura surda por alguns instantes. Há de se saber, entretanto, que tais seres reagem furiosamente quando sujeitas a esse tratamento, podendo se tornar ainda mais agressivas. 

Sal Grosso


Desde tempos imemoriais, o Sal Grosso é empregado na luta contra o mal.

Na Grécia antiga, Platão reputou a ele função importante, sendo uma substância ligada aos deuses e ao mundo exterior. No Egito, o sal era tido como um repelente de espíritos e entidades diabólicas. Os romanos adotaram seu uso cotidiano, como forma de expulsar e repelir o mal de suas casas. Nos primórdios da Cristandade, o sal era usado como elemento purificador, colocado nos lábios de recém nascidos como forma de selar a aliança com Deus. O Sal Grosso também ganhou fama como um elemento capaz de cortar feitiços e remover maldições.

Na Idade Média, um punhado de sal grosso era lançado em portas, janelas e chaminés, como uma forma de lacrar e impedir o acesso de criaturas malignas ao interior das moradias. Era comum colocar uma pequena porção de sal grosso sob a cama e berços, em especial de recém nascidos, como forma de proteção. 

No meio místico-esotérico, o Sal Grosso é usado para absorver Energias Negativas. Fantasmas, espectros e sombras são incomodadas pela sua presença, podendo ser enfraquecidas e até repelidas. O Sal também filtra energias canalizadas pelos feiticeiros quando estes as conjuram para criar malefícios. Ele é capaz de diminuir ou até anular o efeito de certos feitiços. Muitos caçadores mantém punhados de grosso em seus bolsos ou o colocam na boca.

Na valise há um frasco com pedras de sal grosso do Mar Morto.

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E teremos uma parte 3 que encerra a postagem e apresenta uma variedade de compostos e fórmulas alquímicas.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Caçando os Mortos Vivos - O Arsenal do Caçador (Parte 1)


Esses tempos em uma feira de antiguidades e artesanato, encontrei um sujeito vendendo um tipo de Maleta de Caçador de Vampiro.

O cara tinha criado uma maleta cheia de cruzes, estacas e água benta. O negócio era meio tosco, mas achei a ideia bem interessante. Um colega então disse que na internet haviam várias versões dessas valises com props que simulavam os objetos que um caçador de vampiros como o célebre Van Helsing carregaria. 

Eu sempre adorei props e depois de ver esses kits considerei fazer uma Maleta parecida para usar como recurso visual em alguma mesa de RPG ou para ter na prateleira.

Ano passado, decidi colocar o Projeto em movimento e depois de algum tempo reunindo material, criando outros e procurando objetos adequados em feiras de velharia e brechós, consegui completar minha Valise com tudo que julgava necessário para rastrear, localizar, combater e eliminar esses seres das trevas. 

Mas como tende a acontecer, a coisa foi crescendo, ganhando corpo e dimensões inesperadas.

Ideias foram surgindo e no fim inclui objetos que teoricamente serviriam não apenas para eliminar vampiros, mas outras criaturas e monstros. Também comecei a ponderar a respeito da utilidade prática de certos itens, como eles poderiam ter sido incluídos na maleta, qual seria a função e qual a origem de cada um deles. 

Isso tudo deu origem a esse artigo com fotos da Maleta e dos itens que a integram, bem como um resumo de sua utilidade e história.


No final das contas, a Maleta de Madeira, pintada de marrom e envernizada de forma bem grosseira ficou pesada, com mais ou menos 4 quilos de material em seu interior.

Felizmente, tudo ficou bem acondicionado e compartimentalizado, de modo que mesmo virando ou mexendo, as coisas no interior não saem do lugar, nem ficam soltas ou entornam.

Minha preocupação era tentar manter o mínimo de autenticidade, fazer com que os itens realmente parecessem reais. Nisso, acredito eu, consegui obter sucesso. Envelheci parte do material usando betume e borra de café, desgastei algumas peças para que parecessem ter sido usadas previamente e fiz com que o material tivesse um ar de fabricado para a macabra função de destruir criaturas malignas.



Nas fotos é possível ver a disposição do material no interior da Maleta. Conseguir fazer com que tudo coubesse e ficasse no lugar correto.

O material embora pareça um pouco solto acaba se ajustando e nada fica fora do lugar depois de fechar a tampa, onde fixei crucifixos e regalia religiosa.

Criei uma história para cada item e uma função específica das ferramentas. O texto a seguir consta no "Manual do Caçador" que também acompanha a Maleta e serve como um guia de referência de seu conteúdo e a serventia dele.

Estaca e Marreta


A estaca através do coração na mitologia de Vampiros é a maneira mais adequada de eliminar o perigo dos mortos-vivos. A haste de madeira deve ser guiada através do coração do vampiro, de preferência com um único golpe, forte e certeiro, capaz de trespassar o órgão que é inútil no peito da criatura, mas que representa sua força de vontade e animus.

Ao contrário da crença comum, uma estaca cravada dessa maneira não mata o Vampiro, mas o paralisa, deixando-o incapaz de qualquer reação. Após estacar o vampiro, o caçador procede em sua eliminação, arrancando a cabeça do monstro e aí sim o destruindo de uma vez por todas. Vampiros imobilizados podem eventualmente voltar a viver se a estaca for removida do local. Vampiros poderosos ou especialmente diabólicos são capazes de superar essa imobilização. Há casos em que estes conseguem remover a estaca por conta própria antes de serem paralisados.

As estacas são criadas com madeira maciça de cedro ou carvalho. Elas são afiadas até adquirirem uma ponta aguçada, de preferência com uma faca cuja lâmina foi temperada com prata. A estaca pode ter entre 20 e 30 centímetros de comprimento com uma cabeça oposta chata, onde a marreta deve incidir.

A marreta tem a cabeça arredondada e é feita de madeira de Pinheiro do Líbano, reforçado com faixas de ferro frio. Ele pode ser usado como arma contra fadas e seres encantados que são afetados por esse material.

Tanto o Martelo quanto a Marreta foram abençoados e carregam um entalhe da Cruz de Nosso Senhor.

Símbolo Sagrado de Proteção


Na tampa da Maleta foi fixado o símbolo consagrado da Ordem da Nossa Senhora da Paz.

A Santa é considerada a Protetora dos Objetos Sagrados e das Regalias Religiosas. Com esse símbolo a Maleta fica protegida contra as depredações e intrusão de seres profanos. O material em seu interior é preservado de deterioração e da mácula de entidades que manipulam energias negativa e que poderiam afetar seu conteúdo.

A tranca é tratada com óleo bento e três vezes abençoada com runas sagradas para que não possa ser tocada pelas mãos de seres profanos.

Crucifixos


O crucifixo é uma das armas mais poderosas no Arsenal do Caçador de Monstros.

Muitas entidades não conseguem tolerar a divina imagem de Nosso Senhor que serve como uma poderosa ferramenta para afugentar essas entidades. Contudo, é preciso compreender que um crucifixo não passa de um objeto inanimado e inútil nas mãos de uma pessoa que não acredita em seu poder ou que não comunga com sua fé.

A visão do Crucifixo nas mãos de um devoto é capaz de canalizar poder divino e repelir certas entidades, em especial aquelas renascidas do além túmulo. Fantasmas, assombrações e outros mortos vivos animados por necromancia podem ser repelidos por crucifixos, mas a peça está mais ligada a mitologia dos Vampiros. Estes são, em essência, criaturas cuja existência configura uma anátema diante de Deus. Quando confrontados pela imagem de seu Filho que padeceu na Cruz, eles podem reagir com temor.

Há de se compreender, no entanto, que nem todos os Vampiros são afetados por essa imagem sacra ligada a cristandade. Alguns vampiros não possuem qualquer envolvimento com a doutrina Cristã e dessa forma não esboçam reação diante de seus símbolos. Contudo, outras representações de imagens religiosas podem obter o efeito desejado, como por exemplo a Estrela Hebraica ou o Ankh Egípcio.

A maleta possui quatro cruzes abençoadas de madeira que podem ser removidas da tampa e utilizadas separadamente.


A citação acima é uma oração pertencente ao célebre "Manual do Exorcista".

Ela é proferida antes do Exorcista - ou Caçador, iniciar seu ofício, como uma oração para conjurar força, coragem e determinação.

Alternativamente ela é utilizada como uma espécie de mantra para limpar a mente e ganhar proteção contra tentativas de controle ou manipulação mentais exercidas pelas forças nefastas.

A tradução literal é:

"Das Profundezas eu clamo a Ti, ó Senhor
Senhor, ouvi minha voz, que seus ouvidos escutem com atenção minha súplica
Se o Senhor mantém um registro de iniquidades, ficai ao me lado
Minha alma está com o Senhor, como aqueles que anseiam pelo sol e pelo amanhecer".   

Espelho de Bolso


Os espelhos são ferramentas úteis para discernir a verdadeira natureza de alguns seres sobrenaturais.

Existem entidades que não registram reflexo em espelhos e podem assim ter sua natureza revelada. Vampiros são conhecidos por não possuir reflexo, de modo que um espelho é capaz de revelar a natureza de tal criatura. 

Por outro lado, a presença de alguns fantasmas e assombrações pode ser revelada em superfícies reflexivas, mesmo que sejam eles normalmente invisíveis. Um espelho pode ser usado para refletir a forma hedionda de certas manifestações, fazendo com que elas sejam afetadas pela atroz visão de sua condição inumana.  

Há relatos de espelhos sendo usados para estabelecer conexão ou contato com entidades que habitam outras realidades ou planos do além. Um caçador treinado nesse tipo de comunicação pode acessar espíritos e obter deles as informações que julgar necessárias, embora tal método possa oferecer riscos inerentes. 


Ademais um espelho pode ser de extrema utilidade para o Caçador quando este persegue uma presa que possui algum tipo de poder que carece de contato visual. Por vezes, estes seres exercem domínio ou controle mental firmado através do olhar.

Como na Lenda Grega da Górgona, espelhos podem ser usados para desviar esse olhar pérfido e afastar assim o risco de influências maléficas.

Finalmente, há relatos de maldições que podem ser quebradas ou rompidas usando para isso um espelho. Para tanto, o Caçador usa o espelho para capturar as energias negativas ou então devolver estas mesmas energias para quem as proferiu. O espelho tende nesses casos a trincar, demonstrando que  malefício foi neutralizado.

O kit possui um pequeno espelho com fecho.

Compostos da Terra Santa


É sabido que Compostos Sagrados afetam seres sobrenaturais.

A natureza benéfica de tais compostos age como um bálsamo sobre os devotos, mas é como um veneno letal para entidades nefastas que não suportam sua proximidade.

De todos os Compostos Sagrados, geralmente destilados pelas mãos de servos de Deus, os melhores e mais eficazes são aqueles provenientes da Terra Santa. No kit há quatro vidros contendo compostos sagrados obtidos por peregrinos e produzidos especialmente para o Ofício da Caça.

São eles:

Incenso Sagrado da Terra Santa - Produzido por uma Ordem de Monges que vive em um monastério nos arredores da Igreja do Santo Sepulcro. Quando queimado, o incenso produz uma fumaça beatífica de cor azulada que purifica o ar e anula efeitos maléficos pesando sobre um ambiente conspurcado. Se queimado durante a noite ele alivia os pesadelos de quem dormir sob seu manto, remove influências negativas e pode até negar possessões diabólicas. 

Água Sagrada do Rio Jordão -  O Rio Jordão é onde Cristo foi batizado e suas águas tem a reputação de lavar os pecados do corpo e da alma. Uma pequena quantidade desse líquido funciona como água benta, ferindo e produzindo queimaduras quando em contato com entidades demoníacas ou espúrias. Além disso, ele é um purificador natural, capaz de limpar ferimentos produzidos por garras ou presas de seres sobrenaturais, vetores de terríveis doenças.

Terra da Sagrada Belém - O próprio solo no qual Jesus Cristo pisou é abençoado e age como um elemento purificador. Ele pode ser usado para vedar salas e aposentos, impedindo a entrada de seres diabólicos que não conseguem cruzar uma linha traçada com esse composto. A Terra Sagrada também serve para limpar o solo impuro sobre o qual vampiros precisam descansar durante o dia afim de recobrar suas forças.

Óleo Sagrado da Terra Santa - Outro composto de purificação criado pelos Monges do Mosteiro do Santo Sepulcro. Essa substância extraída do mais puro óleo de oliva pode ser empregada para proteger uma pessoa meramente espalhando sobre o corpo. Ele ameniza os efeitos de doenças sobrenaturais, neutraliza vários venenos e pode ser usado para repelir entidades possessivas.     

Velas Bentas


Velas são um símbolo de iluminação e de luz. Elas afastam a escuridão e representam a luz e o calor que protege e conforta a humanidade.

As duas velas contidas no kit são abençoadas e foram produzidas com cera de abelhas criadas em um antigo Monastério em Jerusalem. Quando acesas, elas brilham com um fulgor intenso que repele algumas entidades sobrenaturais, fazendo-as recuar diante de sua luz sagrada. 

Além disso, seu brilho permite que a forma verdadeira de criaturas e entidades possessoras, seja percebida nas sombras projetadas por seus disfarces. 

Em quantidade suficiente, as velas podem ser acesas para criar um círculo de proteção, no qual criaturas malignas se vêem impedidas de adentrar.

Alho em Flocos


O Alho é universalmente conhecido por suas propriedades medicinais e purificadoras.

Ele é usado desde a antiguidade como uma substância preservativa que atua sobre impurezas. Não por acaso, a sabedoria ancestral reputou a ele um papel importante no combate contra as forças das trevas.

Uma determinada variedade de alho nativo do Leste Europeu produz bulbos cruciformes que podem ser utilizados para criar o mais eficaz dos repelentes contra vampiros. A planta devidamente tratada e desidratada assume a forma de flocos de cor rósea e fragrância acentuada. Após arrancar a cabeça de um vampiro ou de um serviçal, muitos caçadores enchem a boca destes seres com alho. 

O odor dos flocos de alho constitui um repelente eficaz que provoca uma náusea profunda em Vampiros e seus servos. Ele também pode ser usado para limpar ferimentos produzidos por tais criaturas, oferecendo um efeito cicatrizante e benéfico contra cortes, perfurações e lacerações.

Se uma quantidade significativa desse alho estiver presente na corrente sanguínea de um humano, o Vampiro que dele tentar se alimentar pode ser repelido ao provar seu sangue. 

Punhal de Prata


Prata é tida como o metal que simboliza pureza.

Ela é universalmente utilizada como matéria prima para forjar objetos de proteção com propriedades místicas. Tradicionalmente ela também é empregada no combate e eliminação de criaturas sobrenaturais, constituindo uma substância letal para certos seres. O folclore consagra a crença de que armas de prata são especialmente eficazes contra feiticeiros, vampiros e alguns tipos de mortos vivos (revenants, por exemplo). Nas culturas orientais, prata também desempenha um papel importante, sendo o único metal capaz de matar Djinns e Lamias. Uma arma de prata quando usada contra estes seres provoca ferimentos que não podem ser sanados através da regeneração sobrenatural.

Esse efeito ocorre porque, em teoria, a prata interfere com a matéria conspurcada desses seres. Em certos casos, mesmo fantasmas e assombrações, entidades incorpóreas podem reagir dramaticamente quando atravessadas por uma arma forjada com prata maciça.

No entanto, de todos os seres sobrenaturais, nenhum é mais afetado pela prata do que os licantropos, em especial lobisomens. Armas forjadas com prata são conhecidas como as mais eficazes para eliminar a ameaça dessas criaturas selvagens. De fato, apenas armas de prata podem causar danos permanentes nessas criaturas e matá-las.


O Punhal de Prata contido na valise e encerrado em uma bainha rígida em 25 centímetros de comprimento e foi forjado na Alemanha no século XVIII.

A prata que reveste a lâmina temperada foi moldada com uma dúzia de crucifixos derretidos e esfriada em água benta. No cabo de marfim está gravado o Selo de Armas do Guarda Caça e Taxidermista francês Antoine de Beauterne, cujo nome está ligado a eliminação da famosa Besta de Gevaudan, criatura que aterrorizou a região de Pommier em meados de 1764.

O punhal é usado principalmente para desferir estocadas diretas com sua ponta aguçada, não se trata de uma arma especialmente afiada. Ela pode ser calada na ponta de rifles como uma baioneta ou empregada manualmente como uma arma de curta distância. Para efeito completo, a lâmina pode ser coberta com substâncias nocivas ou mesmo com água benta, dependendo da presa que se busca abater. 

Manual de Caça e Procedimento


O Manual de Caça possui informações necessárias para o Ofício.

Em grande parte as informações aqui descritas a respeito das ferramentas foram transcritas em suas páginas.

O Manual constitui uma espécie de guia procedimental e metodológico para o Caçador.

As gravuras pertencem a Vampiros conhecidos pela sua atrocidade e abominação, seres perseguidos por todos caçadores, igualmente odiados e temidos pelos homens e mulheres que devotaram sua existência a eliminá-los.

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Já que o artigo ficou maior do que eu pensava, vou dividir em duas partes.

A Maleta ainda tem muitos itens, fiquem conosco para a parte 2.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Carmilla - A primeira e mais transgressora vampira da História


Vampiros.

Nas últimas décadas a cultura popular parece ter sido invadida por eles em todas as formas, cores e modalidades possíveis e imagináveis. De inúmeras versões de Drácula até as Crônicas vampirescas de Anne Rice, de Crepúsculo (argh!) a True Blood, os vampiros estão em todo canto, em filmes, séries, literatura, desenhos animados, quadrinhos... literalmente, em todo canto!

Retratados originalmente como monstros impiedosos e seres das trevas, os vampiros mudaram e se tornaram heróis românticos, então, figuras trágicas, para voltarem a ser rebeldes indomáveis e mais recentemente, namorados modelos (argh de novo!). A sede de sangue foi se dissipando. O desejo de abraçar a escuridão da alma - um presente questionável que vinha com a imortalidade foi se tornando menos denso. Vampiros deixaram de ser predadores assassinos e se tornaram indivíduos complicados e com problemas bem humanos.

Depois de tantas reviravoltas e interpretações, será que ainda vale a pena pensar em vampiros?

A resposta mais provável seria não.

Mas então, que tal buscar nas origens do vampirismo algo diferente? Particularmente em um romance victoriano. 

Hmmm.... pode ser interessante!

Claro, quando pensamos em vampiros, o que vem na mente é Drácula, só que antes da obra de Bran Stoker ser escrita outro autor já havia trilhado esse caminho obscuro... seu nome Joseph Sheridan Le Fanu. Provavelmente poucos tenham ouvido falar desse "outro autor irlandês" envolvido com vampirismo, mas a história não mente. Vinte e dois anos antes de Drácula (1897), lá estava Carmilla (1871).

Na época, Le Fanu era um autor relativamente popular, um escritor que explorava o sobrenatural e ficção de mistério com maestria. Seus trabalhos eram geralmente reunidos em edições especiais, antologias ao lado de contos de Mary Elizabeth Braddon e Wilkie Collins. Sua popularidade infelizmente decaiu no século XX. Mas muitos de seus trabalhos ainda estão por aí e continuam ótimos.


Le Fanu foi o pioneiro em explorar o mito ancestral dos vampiros e trazê-lo para o que então chamavam "tempos atuais". Contudo, Carmilla era moderna demais para sua época, incrivelmente avant garde e transgressora. Ela era, afinal de contas, a primeira história protagonizada por uma Vampira Lésbica. O que, francamente, não é pouca coisa em pleno século XIX.  

O conto Carmilla é narrado em primeira pessoa por Laura, uma das vítimas da criatura. Ela começa relatando um estranho incidente de sua infância, no qual desperta e encontra uma jovem mulher ajoelhada ao lado de sua cama. Ela acaba adormecendo, apenas para acordar mais uma vez com a sensação de ter sido mordida. Anos mais tarde, a adolescente Laura e seu pai um General, acolhem uma estranha em sua casa, uma mulher que diz se chamar Carmilla. 

Laura acredita que ela é a aparição que surgiu em seu quarto e que ela acreditava ser parte de um sonho. Ela decide ignorar a suspeita e as duas acabam se tornando íntimas, dando início a uma forte amizade. Carmilla é uma criatura peculiar - dorme durante todo o dia, se recusa a falar de seu passado, e alterna períodos de incrível preguiça com outros marcados por explosiva energia e disposição. Ninguém parece especialmente incomodado pelo seu comportamento, exceto Laura, que oscila entre repulsa e atração no que diz respeito à sua nova amiga:

"É como o ardor de um amante; algo que me deixa embaraçada; algo que odeio e que me domina. Com seus olhos ela me atrai até ela, e seus lábios quentes viajam até minha face em beijos. E ela sussurra, quase em lamento: "você é minha, você será minha, nós seremos uma para sempre".


Mas o conto é uma novela de terror gótica que, é claro, tinha de conter uma boa dose de tragédia. A medida que a amizade entre Carmilla e Laura se aprofunda, outras jovens mulheres da vizinhança acabam adoecendo e morrendo de forma misteriosa pelo que se acredita ser uma nova doença. Laura é frequentemente visitada em seus sonhos por um "gato monstruoso" e "duas estranhas presas que dardejam na escuridão até se enterrarem em seus seios". Laura vai enfraquecendo, e seu pai teme que ela também possa ter contraído a misteriosa doença. Em desespero, o General pesquisa casos semelhantes e descobre o relato de um homem cuja sobrinha foi morta por um tipo de criatura das trevas que apareceu na forma de uma mulher chamada "Millarca". 

Eventualmente, o pai de Laura forja uma aliança com um vingativo caçador de vampiros. Os dois acabam rastreando os passos de Carmilla e descobrem que ela faz parte de uma espécie de predador sobrenatural que se alimenta do sangue dos inocentes - um vampiro!

Encurralando a criatura em sua tumba oculta, eles conseguem cravar uma estaca em seu coração, a decapitam e queimam seus restos, só por precaução. Mas o romance termina de forma inconclusiva: Será que Laura está salva ou a memória de Carmilla continuará a atormentá-la para sempre? 

Infelizmente, a novela Carmilla jamais foi um sucesso de crítica ou consenso entre os leitores. A razão para isso é simples. 

Ela foi escrita no auge da Era Victoriana, um período conhecido pela sua estrita moralidade e pela severa repressão sexual. Apresentar como protagonista uma vampira charmosa, sedutora, com um inegável sex-appeal e desejo por uma jovem britânica de boa família, era incrivelmente ousado. Quando a história foi publicada causou furor e despertou a reação de editores. Muitos taxaram o livro como subversivo e detestável. É provável que isso tenha contribuído para que Le Fanu fosse preterido, fazendo com que sua fama declinasse consideravelmente. 


Carmilla, no entanto, teve enorme influência para a criação de Drácula e lançou as bases para o mito do vampirismo.

É possível traçar na história de Bran Stoker vários acenos positivos, sobretudo na construção da mitologia dos vampiros, na ambientação e até mesmo em alguns personagens. Stoker parece ter tomado emprestado vários conceitos, ao mesmo tempo que criou outros tantos.   

No entanto, Stoker foi mais cuidadoso. Ele tratou de apresentar seu vampiro como um monstro bem menos agradável que a sensual Carmilla. Em Drácula, o vampiro é um horror que tenta desestabilizar os pilares da bem construída Sociedade Britânica, um elemento exterior indesejado e aterrorizante. Ele se planta no seio da Capital do Império, em plena Londres, e começa a criar caos e confusão, ao mesmo tempo que perverte a ordem estabelecida. Embora o Conde Drácula seja uma figura fascinante, ele é claramente um monstro e visto desde o início como o vilão pelo qual não se deve sentir simpatia e menos ainda torcer. A premissa do romance é que para sobreviver ao exótico Conde, seria preciso ter um coração puro e fibra moral. Já em Carmilla não há como resistir à sedução sobrenatural encarnada na vampira, ela é poderosa demais, mesmo para uma moça de coração puro como a jovem Laura.

Críticos podem argumentar que Le Fanu usa a homossexualidade de Carmilla como um símbolo de monstruosidade aberrante. Os sentimentos "não naturais" colocariam lesbianismo e maldade num mesmo patamar. Entretanto, a complexidade da personagem nega essa interpretação. A vampira é inegavelmente um monstro e uma assassina impiedosa, mas ela também parece querer desesperadamente o amor da amiga. Ainda que seu amor seja pervertido pelo desejo de sangue, ela não quer destruir Laura e sim se tornar uma com ela. Ao longo de toda história, as duas demonstram sentimentos uma pela outra, incompreensivo é bem verdade, por vezes repleto de repulsa, vergonha e claro, inegável desejo.

Hoje em dia, Carmilla pode não chocar. Os tempos são outros, mas no final do século XIX, aquilo era inusitado e perigoso.


Carmilla é frequentemente citada como o protótipo de um subgênero do horror gótico tradicional, as histórias de Vampiras Lésbicas, que se tornaram populares sobretudo nos anos 1970 através de produções britânicas. O mais conhecido desses filmes foi "Carmilla - a Vampira de Karstein" (The Vampire Lovers) estrelada por Ingrid Pitt e Kate O´Mara. Mas é difícil reconhecer esse filme como uma adaptação fiel do que Le Fanu tentou discretamente construir com sua personagem. 

Com apenas 70 páginas, o conto Carmilla é uma obra estranha, repleta de cenas sinistras, uma narrativa complexa e plena de ambiguidade moral. Confesso que ele tem um certo bolor do romantismo do século XIX, mas ainda é poderoso. Trata-se de uma leitura interessante para quem deseja saber onde os vampiros surgiram originalmente e como eles foram mudando para se ajustar a cada público.

Hoje com quase 150 anos, Carmilla continua confinada em sua tumba esperando o momento de despertar.