terça-feira, 1 de abril de 2025

Últimas notícias sobre a produção do filme vindouro baseado em Chamado de Cthulhu

Acompanhamos recentemente o anúncio oficial da produção do filme "O Chamado de Cthulhu" obra baseada no conto de mesmo nome escrita pelo pioneiro do Horror Cósmico H.P. Lovecraft.

As notícias até então davam conta de que James Wan, o criador da franquia Invocação do Mal e de produções de sucesso como Aquaman seria o diretor. Wan sempre se mostrou um entusiasta do gênero e em entrevistas recentes deixou claro ser também um fã ardoroso dos Mythos de Cthulhu.

Entretanto, como em Hollywood nada é certo, temos atualizações surpreendentes sobre a pré-produção e elementos que colocam a proverbial pulga atrás da orelha dos entusiastas do gênero. São notícias polêmicas que causaram um misto de apreensão e dúvida entre os fãs do cultuado autor, gerando debates acalorados sobre como o filme será tratado e em que bases a história será contada.

Um dos pontos mais preocupantes é justamente a saída de James Wan do projeto. Ele que seria o Produtor e Diretor da produção acabou se afastando alegando dificuldades irreconciliáveis com o roteiro e escolha de elenco ainda em fase de escolha. Wan era visto por alguns como uma boa opção para capitanear o projeto, mas outros o enxergavam com reservas, alegando que outros diretores como Guilhermo del Toro poderiam assumir a direção e tratar a obra com o respeito merecido. 

A reportagem abaixo é da Revista Variety que estampou essa reportagem em sua edição deste mês:

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Adaptação de Filme de Horror ganha sinal verde 

por Les Dan Hill

Nessa segunda -feira, Hollywood anunciou oficialmente a adaptação cinematográfica de O Chamado de Cthulhu. O projeto será desenvolvido pela Sony Pictures, conhecida por suas tentativas controversas de revitalizar franquias clássicas nos últimos anos. A produção está sendo descrita como "um filme de terror e aventura", com uma abordagem com mais ação que o aproxima de produções como "A Múmia".

O escolhido para dirigir o longa é Zack Snyder, nome conhecido na indústria do entretenimento com a adaptação competente de blockbusters como Madrugada dos Mortos, 300 e Watchmen. Snyder fez seu nome à frente das produções do Universo de Heróis da DC Comics pela Warner Bros. Um nome que divide opiniões, Snyder possui defensores fiéis que o veem como um visionário na mesma medida que outros o criticam por excessos cometidos em suas produções. Ele é conhecido por filmes como O Homem de Aço, Batman versus Superman e Liga da Justiça, que tiveram obviamente grande repercussão, mas que não lograram o êxito financeiro esperado. 

Os filmes de Snyder possuem os requisitos necessários para criar um horror intimista e questionamentos morais sobre a história relatada. Isso e longas sequências em câmera lenta que tornaram sua marca registrada. Na reunião de anúncio da produção em Los Angeles, o diretor disse: 

"Meu objetivo é trazer algo novo para Lovecraft, algo com terror e perguntas existenciais. É claro haverá espaço para os elementos essenciais típicos da obra, mas planejo aprofundar as discussões existencialistas que estão entranhadas nas palavras de Lovecraft. Por isso o filme deve ter algo em torno de 3 horas e meia de duração", declarou Snyder.

No elenco, as escolhas foram bastante surpreendentes senão inesperadas. 

A estrela Jason Strathan interpretará o protagonista, um detetive cético que investiga uma série de assassinatos em Nova Orleans. Kevin Hart foi escalado como seu parceiro, vivendo um personagem que não está na trama original. No papel de vilão, a produção optou por Jared Leto, que já sinaliza com uma atuação "imersiva e perturbadora nos moldes de seu Coringa". Ele fará o papel de um cultista excêntrico com uma pesada maquiagem facial.

Completam o elenco Ezra Miller e Ray Fisher que trabalharam com Snyder em Liga da Justiça nos papéis de Barry Allen (Flash) e Vic Stone (Cyborg). Fecham o grupo principal Amber Heard (Aquaman) e Amandla Stemberg (Star Wars: O Acólito) cujos papéis ainda não foram definidos na trama, mas que provavelmente serão escrito especialmente para ela a fim de corrigir a ausência de protagonistas femininas fortes na obra escrita em 1928.

Também foram feitos anúncios quanto a equipe responsável pela parte técnica da produção.

Em vez de efeitos práticos e CGI sutil, a produção deve optar por um Cthulhu completamente digital. Algumas artes conceituais vazadas mostram a criatura com traços mais estilizados e olhos expressivos, o que gerou certo burburinho nas redes sociais. Um dos elementos narrativos mais importantes para o personagem é Morgan Freeman escalado para ser a voz da entidade. 

As locações para as filmagens também foram divulgadas, além de cenas gravadas na Islândia, Azerbaijão e Kiribati, a Sony escolheu sets digitais e gravações as erem realizadas em Los Angeles. 

Uma das principais mudanças é a modernização da trama que será adaptada para os dias atuais, se passando quase inteiramente em Nova Orleans, mas com parte da ação transferida do Pacífico Sul para a região do Havaí que deve ser o novo lar da cidade submersa de R'Lyeh. 

Um dos objetivos da trama envolve repaginar a história e dar uma imagem mais contemporânea a ela, focando também em questões ecológicas que são uma tendência atual. Assim a história passará a transcorrer em 2025, seguindo a descoberta de uma grande conspiração envolvendo cultos ao redor do mundo que planejam trazer de volta uma entidade ancestral adormecida. 

Entre as principais preocupações do roteiro, escrito por S.J Clarkson (de Madame Teia), está suavizar as polêmicas à cerca da relação de H.P. Lovecraft com minorias e estrangeiros que são motivo de grande controvérsia. O filme irá se concentrar em fazer uma reparação histórica mais do que necessária nesse sentido. 

A estreia do filme está prevista para junho de 2027, com um lançamento no verão americano, acompanhado por uma linha de brinquedos colecionáveis, incluindo um "Mini Cthulhu Falante", que dirá frases icônicas como "Ia Ia, parceiro!".

Será que a produção será um sucesso? 

A Sony acredita que sim!

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As reações dos fãs foram majoritariamente negativas, com muitas reclamações sobre a direção do filme. "Isso não tem nada a ver com Lovecraft!", comentou um usuário indignado. No entanto, os produtores garantem que o filme agradará ao grande público. "Queremos que O Chamado de Cthulhu seja para os filmes de horror aquilo que Velozes e Furiosos foi para os filmes de corrida", declarou um executivo da Sony.

O tempo dirá se essa abordagem ousada será um sucesso ou um desastre cósmico. 

quarta-feira, 26 de março de 2025

Os Ressurretos - Vida, Morte e Ressurreição ao redor do mundo

Concluindo nosso artigo sobre a Ciência da Ressurreição e casos de pessoas que voltaram à vida.

A partir da década de 1950, uma nova forma de ressuscitar os mortos fez sua primeira aparição; o novo campo da criobiologia, que consiste em usar temperaturas extremamente baixas para congelar os cadáveres após o que eles são trazidos de volta à vida. 

Um dos pioneiros desse campo foi um cientista chamado James Lovelock, que faria uma das primeiras tentativas de usar a criobiologia em uma série de experimentos realizados no Instituto Nacional de Pesquisa Médica Mill Hill da Grã-Bretanha na década de 1950. Nos experimentos, hamsters foram congelados por imersão em um banho de menos 5 graus Celsius por 60 a 90 minutos, essencialmente congelando-os e tornando-os para todos os efeitos clinicamente mortos. Após verificar se os animais estavam completamente congelados, muitas vezes cortando-os com uma faca, o coração era aquecido pela aplicação de água morna, enquanto o corpo também era gradualmente aquecido. Tais esforços foram bem-sucedidos e, mais tarde, o uso de água morna para trazer o coração de volta à vida, o que às vezes queimava os animais, seria substituído pelo uso mais humano de transmissores de radiofrequência para gerar micro-ondas.

Este procedimento inovador se tornaria quase comum na década de 1960 e serviu ao propósito de demonstrar que os organismos poderiam ser levados a temperaturas abaixo de zero e revividos com sucesso. Ele se tornaria a base da tecnologia médica usada até hoje para o armazenamento de órgãos destinados a transplantes, cirurgias de baixa temperatura e alguns tipos de técnicas experimentais de ressuscitação cardíaca, que levaria à descoberta das propriedades crio preservativas como o glicerol usado até hoje. Também formaria a base do campo da criogenia, que envolve o congelamento de animais maiores, como humanos, em cubas para futura reanimação. Mas há experimentos um pouco mais medonhos envolvendo criogenia. Este foram realizados pelo pesquisador Isamu Suda na Universidade de Kobe, no Japão, na década de 1960. Suda congelou os cérebros de gatos em misturas de glicerol e então relatou que a atividade das ondas cerebrais foi detectada após aquecê-los até dois anos e meio depois.


Embora um senso mais rígido de ética tenha se consolidado nos últimos anos, essencialmente colocando um fim a muitos desses experimentos com animais, houve pelo menos um caso notável de experimentos dramáticos ocorrido em 2002, em Pittsburgh, Pensilvânia. Liderado pelo Dr. Patrick Kochanek, os experimentos um tanto perturbadores envolviam cães que foram completamente drenados de sangue e suas veias preenchidas com uma solução salina gelada que colocou os espécimes em um estado de hipotermia extrema. Isso os deixou clinicamente mortos, sem sinais de batimento cardíaco, respiração ou atividade cerebral, mas preservou os tecidos em um estado de animação suspensa frígida. Os animais foram então trazidos de volta à vida com sucesso até 3 horas após a morte, retornando gradualmente o sangue aos corpos enquanto se fornecia oxigênio puro e estimulava o coração com choques elétricos. Os experimentos tiveram resultados mistos, com alguns dos cães não ficando piores pelo desgaste de sua provação, enquanto outros apresentavam danos cerebrais graves ou "problemas comportamentais". 

Algumas das histórias mais dramáticas e fantásticas de pessoas retornando dos mortos têm a ver com aqueles que parecem ser nada menos que zumbis da vida real. Muitos desses relatos vêm da nação caribenha do Haiti, onde há muito tempo existe uma crença na reanimação de cadáveres por meio da magia de poderosos feiticeiros conhecidos como bokor. De longe, o caso mais conhecido de um zumbi é o de um homem chamado Clairvius Narcisse.

Tudo começou com ele sendo declarado morto em 2 de maio de 1962, no Hospital Schweitzer em Deschapelle, no Haiti, após sofrer de uma doença desconhecida. Posteriormente, ele recebeu um funeral e sepultamento. Esse seria o fim de tudo por 18 anos, quando a irmã de Narcisse o encontrou vagando sem rumo em um mercado, aparentemente em um estado confuso entre a vida e a morte. A irmã chocada e espantada o confrontou e Narcisse tinha uma história bizarra para contar.

Ele alegou que havia sido colocado sob o feitiço de um bokor e que foi essa magia negra sinistra que o matou e depois o trouxe de volta à vida. Segundo ele, depois que ele foi enterrado, o bokor veio para desenterrá-lo e então forçá-lo à escravidão fazendo trabalho braçal em uma plantação. Supostamente outros zumbis também eram usados ​​como mão de obra, algo não particularmente incomum no Haiti. Depois de dois anos trabalhando na plantação, ele conseguiu escapar, depois disso vagou sem rumo pelo interior enquanto as memórias de sua vida lentamente voltavam para ele. Ele finalmente se viu no mercado e encontrou sua irmã por puro acaso. Quando perguntado por que ele não voltou antes, ele explicou que suspeitava que seu irmão era o responsável por contratar o bokor para zumbificar ele e por isso estava com medo de voltar para casa.

Há outros relatos semelhantes no Haiti que parecem ser notavelmente semelhantes ao de Narcisse. Em 1996, uma mulher de 30 anos morreu de uma doença grave e foi enterrada em um túmulo de família ao lado de sua casa. Três anos depois, a mulher "morta" foi encontrada por um amigo da família andando em transe perto da vila. Ela estava muda e descoordenada, supostamente incapaz até de se alimentar, e não parecia ter nenhuma lembrança de quem era. Quando o túmulo foi aberto, foram encontradas pedras onde o corpo da mulher deveria estar. A família suspeitou que seu marido a havia transformado em zumbi após suspeitar que ela era infiel, e ela foi deixada aos cuidados de um hospital psiquiátrico em Porto Príncipe. Não está claro o que aconteceu com ela depois disso.


Outro caso estranho é o de um homem de 26 anos conhecido apenas como WD. Filho de um policial que aos 18 anos contraiu uma doença misteriosa que lhe deu febre, deixou seus olhos amarelos, causou inchaço intenso no corpo e o fez "cheirar a morte". Ninguém conseguia descobrir o que era a estranha doença, e a família começou a suspeitar que o homem havia sido alvo da magia negra criada por um bokor. Eles buscaram o conselho de um feiticeiro para ajudá-los a combater a maldição, mas WD morreu alguns dias depois e foi enterrado. O pai de WD reconheceria seu filho 19 meses depois em uma rinha de galos. Não está claro o que ele tinha feito durante aquele tempo no seu estado zumbificado. Havia uma forte suspeita de que o tio do jovem era o responsável por tê-lo transformado em um morto vivo.

Também no Haiti temos o caso de uma garota de 18 anos que também adoeceu de uma doença desconhecida que a matou em poucos dias. Sua família suspeitou de feitiçaria negra como a causa. A garota posteriormente apareceria vagando pelo campo 13 anos mais tarde. Ela alegou ter sido reanimada e tomada como escrava de um bokor em uma vila distante. Ela conseguiu escapar quando o feiticeiro morreu. A mulher alegou que havia se arrastado para a natureza selvagem a pé tentando voltar para casa. Esses tipos de histórias de zumbis envolvem casos de amnésia grave, alucinação induzida por drogas, mas se supõe que eles sejam o resultado de neurotoxinas potentes. Os bokor são considerados mestres na criação de misturas e extratos que afetam a percepção. Uma vez administrados eles criam a ilusão de morte, de doença mental, dano cerebral e até mesmo casos de identidade equivocada. 

Semelhante aos contos de zumbis haitianos, há um estranho ritual realizado pelo povo Toraja, um grupo étnico de indígenas que vivem nas montanhas da Indonésia. Os Toraja são famosos por suas esculturas em madeira e suas peculiares casas tradicionais com telhados pontiagudos que se erguem como um barco, conhecidas como tongkonan. No entanto, são seus elaborados e bizarros ritos funerários e locais de sepultamento que chamam mais a atenção. Esse fascínio macabro pela morte pode ser visto em todos os lugares nas aldeias Toraja. Seus elaborados cemitérios são esculpidos diretamente em penhascos escarpados decorados com chifres de búfalos, peles de animais e runas místicas. São os ritos funerários que mostram a cultura Toraja e seu interesse pela morte.

Os Toraja têm uma forte crença na vida após a morte, e o processo de sepultamento é muito elaborado. Quando uma pessoa morre, o cadáver é normalmente lavado e mantido no tongokonan enquanto aguarda seu funeral e subsequente sepultamento. Em famílias mais pobres, o corpo pode simplesmente ser mantido em outro cômodo da própria casa. Como a cerimônia fúnebre Toraja é tipicamente um evento extravagante ele exige que todos os parentes estejam presentes, não importa quão longe estejam. Os corpos são geralmente sepultados em caixões colocados em cavernas funerárias meticulosamente escavadas nos penhascos de calcário. Semanas ou até meses podem se passar entre a morte e o sepultamento. Esse tempo é necessário para que os arranjos sejam feitos, parentes sejam reunidos e para que o dinheiro seja economizado para pagar o funeral e o sepultamento caros. Isso não é incomum, nem desagradável para os moradores. Na sociedade Toraja, acredita-se que o processo de morte é longo, pois a alma gradualmente faz seu caminho para a vida após a morte, conhecida como Puya; o País das Almas.


Cavernas funerárias de Toranja

Durante o período de espera, o cadáver é tratado como se ainda estivesse vivo, pois acredita-se que a alma permaneça aguardando sua jornada para o Puya. O corpo é vestido, preparado e limpo, e até recebe refeições todos os dias, como se ainda fosse um membro vivo da família. Não é incomum que os convidados agradeçam ao cadáver por ser um anfitrião gracioso. Quando todos os arranjos foram feitos e todos estão presentes, a cerimônia fúnebre finalmente começa.

Dependendo do nível de riqueza que o falecido desfrutou em vida, o ritual pode ser incrivelmente extravagante, o que inclui festas que duram dias. Durante a cerimônia, centenas de parentes e familiares expressam sua tristeza com cantos, execução de música e cânticos. Uma característica comum nesses eventos, especialmente para os ricos, é a oferta de búfalos e porcos para sacrifício. Acredita-se que esses animais sejam necessários para o espírito do falecido quando ele passa para a vida após a morte. Quanto mais animais são sacrificados, mais rápida é a jornada. Para esse fim dezenas de búfalos e centenas de porcos podem ser abatidos, com o evento atraindo uma fanfarra de foliões que dançam ou tentam capturar o sangue dos animais em bacias. Depois que os animais são mortos, as cabeças dos búfalos são alinhadas em um campo para aguardar seu dono morto. Acredita-se que o derramamento de sangue na terra seja um componente importante da transição da alma para o Puya.

Quando as festividades do funeral terminam, o corpo está pronto para o enterro. Normalmente, o cadáver é colocado dentro de uma caixa de madeira, após o que será enterrado não no chão, mas sim em uma caverna funerária especialmente esculpida para esse propósito. A razão para colocar os mortos tão alto é que os Toraja acreditam que eles devem ser posicionados entre o Céu e a Terra. Assim o espírito encontrará seu caminho para a vida após a morte. Dentro das cavernas funerárias são colocadas as ferramentas e equipamentos que o espírito da pessoa pode precisar após a morte, incluindo dinheiro e caixas de cigarros. Também são dispostas fileiras de efígies de madeira em tamanho real do falecido que são destinadas a protegê-lo de maus espíritos. Alguns túmulos têm mais de 1.000 anos, com os caixões completamente apodrecidos e nada além de ossos e crânios restantes.

No entanto, esta não é a última vez que alguém verá os corpos, pois é após o enterro real que os Toraja realizam seu ritual mais incomum em relação aos mortos. Uma vez por ano, em agosto, os moradores retornam às cavernas funerárias para remover os corpos e trocar suas roupas, escová-los e banhá-los, bem como reparar o máximo possível qualquer dano que os caixões possam ter sofrido. Este ritual é conhecido como Ma'nene, ou "A Cerimônia de Limpeza de Cadáveres", e é realizado no falecido, não importa há quanto tempo ele esteja morto ou qual seja sua idade. Alguns dos cadáveres estão nas cavernas há tanto tempo que foram mumificados. Depois que os cadáveres são refrescados, os moradores os seguram em pé e "caminham" com eles pela aldeia até o local da morte. Depois disso, o corpo é colocado de volta em seu caixão e devolvido à sua caverna até o ano seguinte, quando todo o processo mórbido será repetido.

Embora tudo isso possa parecer um tanto macabro e bizarro, algumas áreas remotas praticam uma cerimônia ainda mais antiga e estranha, na qual se diz que os mortos literalmente andam por conta própria. Uma coisa comum a todas as cerimônias Toraja é que, para que o espírito possa passar para a vida após a morte, certas condições devem ser atendidas. Se essas condições não forem atendidas, diz-se que a alma permanecerá para sempre em torno de seu corpo em um estado de limbo, e incapaz de viajar para Puya. Até que o façam, uma crença que nos velhos tempos de total afastamento dissuadia a maioria de viajar muito longe de sua aldeia para que não ficassem presos e amarrados ao seu corpo morto em algum lugar distante. Tudo isso representou alguns desafios no passado, pois antes do século XX e da subsequente colonização pelos holandeses, os Toraja viviam em aldeias remotas e autônomas que eram completamente isoladas umas das outras e do mundo exterior. Quando um morador morria longe de seu local de nascimento, era difícil para a família resgatar o corpo e carregá-lo de volta por terrenos montanhosos até seu local de origem. A solução para esse problema era única, para dizer o mínimo.

Para garantir que o cadáver pudesse ser devolvido à sua aldeia natal, xamãs foram procurados, os quais supostamente tinham o poder de trazer os mortos de volta à vida temporariamente. A magia negra usada pelos feiticeiros trazia os mortos de volta à vida no sentido mais rudimentar. Os cadáveres ambulantes eram em grande parte inconscientes de seus arredores e não respondiam, eram inexpressivos e descoordenados, capazes apenas de realizar as tarefas mais básicas, como andar. Ao ser trazido de volta à vida, o morto vivo cambaleava em direção à sua aldeia natal, geralmente guiado pelo xamã ou por uma procissão de familiares. Corredores especiais saíam na frente do grupo para avisar os outros que um cadáver estava passando. A caminhada de volta à aldeia é um assunto sombrio, e dizem que se alguém se dirigisse ao cadáver diretamente pelo nome, ele imediatamente entraria em colapso e perderia qualquer poder que o animasse.


Agora, antes que alguém lendo isso entre em pânico e comece a se preparar para um inevitável surto de zumbis, é importante notar que o processo é apenas temporário, e os efeitos duram apenas até que o cadáver chegue ao seu local de nascimento. Durante todo esse tempo, o "zumbi" não é uma criatura descerebrada que ataca os vivos, mas um ser passivo que não demonstra interesse ou reconhecimento de seus arredores. Uma vez que o morto-vivo chega à sua aldeia, ele volta a ser um mero cadáver para aguardar seu funeral. Em algumas tradições, o corpo será reanimado mais uma vez para chegar ao caixão em que será enterrado.

Os xamãs que ressuscitam os mortos não se restringem apenas aos seres humanos. Dizem que em algumas cerimônias fúnebres, magia é usada sobre as carcaças de animais abatidos para sacrifício. Há histórias de xamãs trazendo búfalos sem cabeça à vida para andar por aí, ou para fazer as cabeças decapitadas se moverem, olharem ao redor, fazerem caretas ou gritarem. Às vezes, diz-se que a mesma coisa é feita com porcos e galinhas abatidas. Muitas vezes, o propósito dessa exibição macabra era para que o xamã pudesse demonstrar suas habilidades em uma exibição pública de poder.

Hoje em dia, o suposto ritual dos mortos-vivos é amplamente visto como desnecessário e a prática diminuiu, sendo rara de se encontrar mesmo na sociedade Toraja. De fato, muitos da geração mais jovem não acreditam em tais histórias. No entanto, algumas aldeias remotas ainda supostamente a praticam. Uma vila isolada chamada Mamasa é particularmente conhecida por sua prática desse rito macabro, e há relatos ocasionais de pessoas avistando esses zumbis andando pela natureza ou entre uma procissão de familiares. Nos últimos anos, fotos desses supostos zumbis circularam e provocaram debate e controvérsia. Embora os cadáveres nessas fotos certamente pareçam reais, eles são frequentemente descartados como nada mais do que uma farsa ou talvez sejam pessoas sofrendo de alguma doença como a lepra, que causa uma ilusão de morte.

Alguma coisa disso é real ou é tudo mero folclore e trapaça? Os Toraja têm o poder de ressuscitar temporariamente os mortos e fazê-los andar? Seja qual for o caso, certamente há uma forte tradição que sustenta essa crença. De qualquer forma, é sem dúvida uma tradição assustadora nesta sociedade fascinante que levou a morte e os funerais a um nível totalmente novo.

Mas há casos ainda mais estranhos. Um número assustador de pessoas acordam após serem declaradas mortas, despertando em seus caixões, em seus próprios funerais, ou mesmo enquanto estavam passando por uma autópsia. 

Um caso surpreendentemente ocorreu nas Filipinas em 2014, quando uma menina de 3 anos morreu tragicamente após sofrer de febre intensa por vários dias. A menina foi declarada clinicamente morta e seu corpo foi colocado em um caixão para seu funeral em uma igreja em Aurora, nas Filipinas. Durante o processo, um amigo da família levantou a tampa do caixão para arrumar o cadáver e notou a cabeça da menina se mover levemente, depois disso ela se sentou e olhou ao redor. A menina recebeu um copo de água e foi levada ao hospital para ser cuidada antes de se recuperar totalmente e voltar para casa com seus pais.


Um caso emblemático ocorreu em 1915 envolvendo uma mulher de 30 anos chamada Essie Dunbar, que morreu após uma grande crise epilética e foi colocada em um caixão para seu funeral. O funeral foi adiado por vários dias enquanto sua irmã, que morava longe, fazia arranjos para comparecer, e o tempo todo o cadáver de Essie permaneceu morto e imóvel em seu caixão. No dia do funeral, a irmã chegou atrasada, durante os procedimentos. O caixão já havia sido fechado, mas a irmã exigiu que fosse aberto para que ela pudesse ver sua irmã morta uma última vez. Quando a tampa foi aberta, o cadáver imóvel supostamente sentou-se ereto e Essie Dunbar sorriu para sua irmã estupefata. Os participantes do funeral ficaram tão assustados com o que aconteceu que muitos fugiram em pânico. Essie teve que voltar para a cidade sozinha, onde muitos a consideravam um zumbi. Essie Dunbar viveria uma vida longa, finalmente morrendo permanentemente em 1962 aos 77 anos.

Em outro caso, um homem acordou dos "mortos" depois de ter sido colocado em uma caixa de metal no necrotério. Em 1993, Sipho William Mdletshe, de Joanesburgo, África do Sul, se envolveu em um acidente de carro enquanto dirigia com sua noiva, o que causou ferimentos tão graves que ele foi declarado morto. Seu corpo foi colocado em uma caixa de metal em um necrotério enquanto os preparativos para o funeral estavam sendo feitos e ele ficou lá por 2 dias antes de acordar de repente. Não é de surpreender que acordar em uma caixa de metal tenha sido um caso bastante assustador, e ele imediatamente começou a gritar, o que alertou os trabalhadores sobre sua presença. Depois de ser libertado de sua provação horrível, ele voltou para sua noiva, mas ela estava aparentemente tão convencida de que ele era um zumbi que não queria nada com ele.

Talvez ainda mais aterrorizante do que acordar dos mortos em um funeral ou dentro de um caixão seja voltar à vida após ser enterrada. Em 1937, um jovem de 19 anos chamado Angelo Hayes sofreu um terrível acidente de moto na vila de St. Quentin de Chalais, França, durante o qual bateu a cabeça em uma parede e foi declarado morto. Ele foi posteriormente enterrado, mas quando os inspetores de seguros exumaram o corpo 3 dias depois, Hayes foi encontrado ainda respirando em estado de coma. O jovem finalmente foi trazido de volta à vida e se tornou uma celebridade na França devido à sua incrível provação.

Se voltar à vida no solo já é ruim o suficiente, que tal durante sua própria autópsia? Em 2007, um venezuelano de 33 anos chamado Carlos Camejo foi declarado morto após sofrer um terrível acidente de trânsito. Ele acordou algum tempo depois com uma dor excruciante enquanto os médicos cortavam seu rosto com um bisturi para iniciar uma autópsia. Quando Camejos acordou bruscamente. 

Um homem que evitou por pouco um destino semelhante foi Walter Williams, de 77 anos, de Lexington, Mississippi. Em 2014, Williams foi declarado morto por um legista após nenhum pulso ou batimento cardíaco ser detectado. Seu corpo estava fechado em um saco mortuário e estava sendo preparado para embalsamamento quando seus pés de repente começaram a chutar e ele foi levado para o hospital. O legista não tinha explicação para isso e o xerife, disse: "Perguntei ao legista o que aconteceu, e a única coisa que ele conseguiu dizer é que foi um milagre." O próprio gerente da funerária disse sobre o incidente desconcertante: "Nunca experimentei nada parecido." Outra pessoa que voltou à vida bem a tempo, dessa vez para evitar a cremação, foi um homem na Libéria que morreu de Ebola. Após ser declarado morto, o corpo foi carregado e levado para um crematório para evitar a propagação da doença, onde o homem começou a recuperar a consciência bem quando se preparavam para queimá-lo até virar cinzas.


Embora alguns desses casos possam provavelmente ser atribuídos a simples erros e negligência médica ao declarar uma pessoa morta, há pelo menos um caso estranho em que a pessoa em questão estava inequivocamente morta, ao menos, até acordar novamente. Em 2008, Val Thomas, de 59 anos, de Charleston, sofreu um ataque cardíaco fulminante e foi levada ao hospital, onde foi conectada a um ventilador e a uma máquina que induz hipotermia, mas considerando que ela já estava sem batimentos cardíacos por cerca de 20 minutos, não se esperava que ela sobrevivesse. De fato, embora um batimento cardíaco tenha sido detectado, a mulher sofreu mais dois ataques cardíacos antes de ficar imóvel. No entanto, Thomas foi mantida no ventilador apenas por precaução. A mulher permaneceria assim, sem nenhum sinal de atividade cerebral detectável com rigor mortis se instalando, antes que o plugue fosse retirado. A família estava tratando da remoção de seus órgãos para doação, quando Thomas de repente se sentou e começou a falar como se nada tivesse acontecido. Sua recuperação incrível não pode ser explicada por médicos e é considerada um milagre por sua família.

A ideia de ser capaz de trazer os mortos de volta à vida é sedutora. Talvez não seja de se admirar que a humanidade tenha se esforçado tanto para perseguir tal coisa; quem não gostaria de ganhar um pouco mais de tempo e ter mais uma chance de viver novamente? A ideia de viver mais uma vez é quase inebriante, mas é realmente possível vencer a morte? A morte chega para todos no final. Ou não? 

Parece que em alguns casos há pessoas que conseguiram se esquivar da investida da morte. Mas ela pode apenas ser enganada, pois o destino final parece ser inevitável, apesar da ciência, pelas forças do acaso ou mesmo pela magia negra. A morte é uma perseguidora implacável, e embora possa ser ludibriada de vez em quando, ela nunca falha.

terça-feira, 18 de março de 2025

A Ciência da Ressurreição - Reanimação, Experimentos, Zumbis e outras histórias macabras de volta dos mortos


Uma coisa que parece ser inevitável na vida é a morte, certo? 

Bem, alguns discordam!

Haveriam maneiras de enganar a morte, aquilo que muitos acreditam ser a única certeza da vida? Ao longo dos séculos, surgiram muitas tentativas bizarras e métodos perturbadores para driblar o fim definitivo. Alguns pesquisadores envolvidos nesse estudo afirmaram ter conseguido ludibriar a morte e evitar seu abraço frio por meio de ciência estranha, magia negra ou milagres absolutos.

Não é de hoje que as pessoas têm tentado intencionalmente vencer a morte e reviver os mortos usando quaisquer meios que estejam ao seu alcance, muitas vezes sem se importar com os limites éticos e morais de seus experimentos. No fim, o que importa é chegar ao resultado final e provar que a morte não é o fim, mas apenas um obstáculo a ser superado. Vejamos alguns desses proponentes que desafiam a natureza.

Esforços científicos sérios visando confrontar clinicamente a morte datam pelo menos do século XVIII. Na década de 1700, um padre católico e professor de história natural na Universidade de Pavia chamado Lazzaro Spallanzani ficou obcecado com a ideia de reanimar tecidos mortos depois de perceber que algumas formas de vida microscópicas aparentemente pareciam voltar à vida após adicionar água a elas. Spallazani se convenceu de que era possível ressuscitar organismos mortos dessa maneira simplória. Ele recorreu ao famoso filósofo francês Voltaire para obter orientação sobre essa teoria. Voltaire acreditou nas alegações de Spallazani e, quando perguntado sobre sua opinião sobre para onde as almas iam após a morte, ele teria respondido que cabia ao cientista descobrir por conta própria. Tomando isso como um incentivo ele seguiu em frente com seus experimentos. Ele deu início as suas observações cortando as cabeças de caracóis, lulas, polvos e insetos para ver se voltariam a crescer. Embora ele nunca tenha descoberto o segredo para ressuscitar os mortos que tanto esperava encontrar, sua pesquisa o levou a ser o primeiro a descobrir substâncias químicas no corpo que auxiliavam na digestão, bem como estabelecer o propósito dos glóbulos brancos.


Em 1794, a Royal Humane Society de Londres realizou uma série de experimentos buscando restaurar a vida daqueles considerados "aparentemente mortos", argumentando que em alguns casos os cadáveres não estavam realmente mortos, mas sim em algum tipo de estado de suspensão do qual poderiam ser trazidos de volta à vida. Esses esforços foram uma resposta ao medo generalizado na época do que chamavam sepultamento prematuro. Esse temor era algo desenfreado no período, com muitas pessoas temendo ser enterradas vivas. 

A Royal Humane Society buscou não apenas estabelecer métodos para reanimar cadáveres, mas também espalhar a conscientização e compartilhar seu conhecimento de tais procedimentos em todo o mundo. Seus métodos no entanto, eram rudimentares para dizer o mínimo. Na maioria das vezes, as técnicas envolviam usar eletricidade, massagem e até mesmo bebidas alcoólicas forçadas pela garganta, bem como fumaça de tabaco sifonada pelo reto dos defuntos.

Por mais duvidosos que esses métodos pareçam para nós agora, tais experimentos chamaram muita atenção e foram amplamente discutidos. A Sociedade Médica da Carolina do Sul chegou a adquirir equipamentos da Royal Humane Society em 1793 e tentou conscientizar o público sobre a possibilidade de ressuscitar os cadáveres "aparentemente mortos". Os esforços foram tão convincentes que, eventualmente, uma lei foi aprovada em agosto de 1793, para que produtores de álcool fornecessem matéria prima para fazer tentativas de reanimação. A lei também determinou que esses estabelecimentos produzissem substâncias alcoólicas com graduação elevada com fins medicinais. 


No início do século XIX a eletricidade ganhou notoriedade como meio mais popular de "despertar os mortos". Esta foi uma época em que a eletricidade e seus efeitos ainda eram pouco compreendidos. A influência das correntes elétricas sobre organismos vivos tinham um efeito difícil de desconsiderar, era algo quase mágico. Muitos experimentos foram realizados  para medir os efeitos de correntes elétricas atravessando plantas, animais e até mesmo seres humanos. Supôs-se até que a eletricidade tinha o poder de criar vida do nada! Uma teoria de 1837, estabelecida pelo físico Andrew Crosse, afirmava que uma descarga elétrica poderia dar origem a pequenos organismos. As misteriosas forças da eletricidade começaram a ser vistas como um possível meio de reanimação dos mortos.

Na década de 1800, um físico chamado Giovanni Aldini realizou uma série de experimentos distorcidos envolvendo o uso de eletricidade sobre animais mortos. Filho do famoso cientista e pioneiro da eletricidade Luigi Galvani, Aldini era um fervoroso crente nas teorias de seu pai sobre a aplicação da eletricidade para trazer os mortos de volta à vida. Aldini começou usando correntes elétricas para fazer sapos mortos terem espasmos. Contudo ele não parou por aí! Seus experimentos rapidamente escalaram para algo bem mais mórbido. Em uma exibição macabra, ele descarregou uma corrente elétrica na cabeça decapitada de um boi, que, para o horror dos espectadores, começou a convulsionar e ter espasmos com a língua pendurada na boca como se estivesse viva. Aquilo foi visto como algo notável e pensava-se que tais movimentos eram um sinal de vida.

Aldini logo passou de animais para humanos, à medida que seus experimentos aumentavam em morbidade. Por meios nefastos ele conseguia acesso a cadáveres de criminosos recém-executados que eram matéria prima em seus experimentos. Aldini realizou um procedimento doentio no cadáver de um homem de 30 anos recém-morto. Uma incisão foi feita na nuca do falecido e um choque foi dado com um bastão alimentado por bateria. Aldidni descreveu o experimento da seguinte maneira:

"A metade posterior da vértebra Atlas foi exposta por fórceps, deixando a medula espinhal à vista. Um fluxo abundante de sangue jorrou da ferida, inundando o chão. Uma incisão considerável foi feita ao mesmo tempo no quadril esquerdo através do grande músculo gutural para trazer o nervo ciático à vista, e um pequeno corte foi feito no calcanhar. A haste metálica com extremidade conectada à bateria foi colocada em contato com a medula espinhal, enquanto outra haste foi posta em contato com o nervo ciático. Cada músculo do corpo foi imediatamente agitado com movimentos convulsivos que lembravam tremores violentos de frio... Ao mover a segunda haste do quadril para o calcanhar, a perna se moveu com tanta força que os assistentes, tiveram de segurá-la."


Assustador, com certeza, mas na época visto como um resultado muito promissor. Contudo, Aldini não estava satisfeito e continuaria a levar seus experimentos a patamares ainda mais elevados de depravação. Ele estava tão convencido de que a eletricidade era a chave para restaurar a vida após a morte que tentou provar que nem mesmo um corpo era necessário para que sua teoria funcionasse. Ele elevou o horror um nível acima ao aplicar corrente elétrica nas cabeças recém-decapitadas de criminosos, molhando suas orelhas com solução de salmoura e, em seguida, enfiando eletrodos em seus ouvidos. Isso teve o efeito previsível de fazer com que as cabeças desencarnadas fizessem caretas, convulsionassem e se contorcessem violentamente. Aldini ficou particularmente fascinado pelos movimentos das pálpebras durante os procedimentos, escrevendo: "A ação das pálpebras era extremamente impressionante, embora menos sensata na cabeça humana do que na de um boi".

Tais experimentos bizarros ganharam notoriedade quando Aldini levou seus testes ao público para que todos pudessem ver as "maravilhas" que ele era capaz de produzir. Em 1803, em uma exibição pública na Inglaterra, ele foi capaz de criar movimentos realistas através de descargas elétricas em um criminoso recém-executado chamado George Forster. A demonstração foi feita em um palco na frente de uma plateia de espectadores chocados que assistiram o assassino convulsionar e se mover em espasmos. Aldini obteve o reconhecimento que buscava quando o Royal College of Surgeons de Londres lhe entregou a Medalha Copley por suas realizações. Além de tentar trazer os mortos de volta, Aldini também afirmou que poderia usar eletricidade para ressuscitar pessoas quase mortas, como aquelas que quase se afogavam. Seu trabalho serviu como base para o uso de eletricidade na reativação cardíaca, técnica usada até os dias atuais na defibrilização.

Tal reconhecimento pela comunidade médica pareceu consolidar o legado da eletricidade como meio de enganar a morte. Ela continuou muito em voga até os anos 1900. Um professor chamado Albert Hoche estava convencido de que a eletricidade poderia devolver aos mortos a centelha de vida e se tornou um fiel seguidor de Aldini. Hoche conseguia obter cadáveres de criminosos recém-executados para seus experimentos perturbadores. Ele realizava decapitações sem perda de tempo afim de enganar o animus mortis. Hoche descarregava uma forte descarga elétrica através da medula espinhal exposta. O resultado era algo alucinante, e os observadores ficavam perplexos com a forma como os corpos convulsionavam espasmodicamente por quase 10 minutos antes de ficarem imóveis. O efeito era visto como uma prova milagrosa da vida após a morte. Hoche entretanto desejava estender os efeitos. No final, ele teorizou erroneamente que o resfriamento do corpo e a perda de sangue eram os culpados pela perda de movimento, mas nunca foi capaz de superar esses obstáculos.

A partir da década de 1930, experimentos assustadores de reanimação começaram a surgir, principalmente usando cães como cobaias. Uma figura bastante infame no campo de tentar ressuscitar cães foi o biólogo americano Robert Cornish, da Universidade da Califórnia. Antes que seu campo de interesse tomasse um rumo macabro, Cornish já havia acumulado a reputação de ser um pouco estranho, projetando invenções estranhas, como óculos de leitura subaquáticos. Entretanto quando ele começou seus experimentos de reanimação é que ele ganhou o título de cientista louco.


Cornish ficou obcecado com a ideia de vida após a morte. Após uma série de testes empregando uma variedade notável de técnicas bizarras, ele acreditou ter encontrado  uma maneira de fazê-lo. A teoria era que um sujeito morto poderia ser trazido de volta à vida se o corpo fosse balançado para cima e para baixo em uma engenhoca apelidada de Gangorra Cornish que tentava simular a circulação sanguínea. Ao mesmo tempo o cadáver era alimentado com oxigênio por um tubo e injetado com um coquetel de adrenalina, extrato de fígado, goma arábica, sangue e anticoagulantes. Cornish estava tão convencido de que a técnica funcionaria que imediatamente começou a testar a teoria em animais, principalmente cães.

Ele adquiriu fox terriers para seus experimentos macabros, todos os quais ele chamou de Lázaro, em homenagem à figura bíblica que havia ressuscitado dos mortos. O médico asfixiava os animais com gás nitrogênio, esperava 10 minutos após a morte e então dava início ao processo de reanimação. Lázaro I, II e III provaram ser fracassos, permanecendo tão mortos quanto estavam antes do processo, mas ele teve mais sorte com Lázaro IV e V.

Alega-se que Lázaro IV acordou com um "gemido e um latido fraco" 5 minutos após seu coração ter parado. Embora o cão tenha ficado cego e sofrido danos cerebrais graves, Cornish relatou que, após vários dias, Lazarus IV conseguiu mancar, sentar-se sozinho, latir e até comer. Encorajado por resultados tão promissores, Cornish passou para Lazarus V, que ele considerou um sucesso ainda maior. Foi relatado que Lazarus V foi trazido de volta à vida 30 minutos inteiros após ter parado de respirar e, mesmo assim, exibiu amplitude de movimento e cognição. Ambos os "cães zumbis" viveram por meses, e foi dito que outros cães demonstraram um medo acentuado deles.


Cornish ficou extremamente animado e encorajado por seus resultados bem-sucedidos foi à comunidade científica com suas descobertas. Contudo seus experimentos se tornaram muito controversos e foram ridicularizados como algo grotesco e distorcido. O público achou a ideia de matar e zumbificar cachorros algo absurdo e o clamor contra os experimentos de Cornish levou a Universidade da Califórnia a expulsá-lo do campus. Posteriormente ele continuou seu trabalho sozinho em um galpão alugado, perturbando a vizinhança com os vapores e ruídos odiosos que seus experimentos produziam. O cientista louco continuou a aperfeiçoar suas técnicas, passando por sabe-se lá quantos cães até que finalmente em 1947 ele teve a oportunidade de finalmente fazer experimentos em um ser humano.

Cornish foi contatado pelo assassino de crianças condenado Thomas McMonigle, que tinha ouvido falar muito sobre os experimentos e estava disposto a oferecer seu cadáver para experimentação após sua execução na Penitenciária de San Quentin. Cornish estava em êxtase por finalmente ter a oportunidade de testar seus métodos bizarros em um cadáver humano real e começou a trabalhar na melhor maneira de fazê-lo. Ele acreditava que sua máquina caseira poderia ter sucesso. Embora tenha feito todos preparativos o grande plano de Cornish seria frustrado por vários obstáculos. Além da oposição fervorosa que ele encontrou do diretor da prisão na época, Clifton Duffy, havia também o problema de que McMonigle seria executado em câmara de gás, o que exigia cerca de uma hora após a morte para arejar todo o gás venenoso antes que o corpo pudesse ser removido com segurança, o que era muito tempo para Cornish, que precisava de acesso imediato ao corpo. Havia também o dilema moral do que fazer com o criminoso se o experimento bizarro funcionasse; afinal, se o criminoso fosse morto e depois revivido, isso significaria que ele já havia cumprido sua sentença e seria libertado como um morto-vivo? 

No final, Cornish nunca teve a chance de trazer uma pessoa de volta dos mortos. Ele acabaria desistindo de seus experimentos e seguiria para a ocupação menos interessante de produzir e vender pasta de dente até sua morte em 1963.

As décadas de 1940 e 50 também não foram uma boa época para os cachorros da então União Soviética. Os soviéticos estavam envolvidos em uma grande variedade de experimentos para reviver membros decepados e restaurar órgãos removidos, então parecia um passo natural que eles passassem para a reanimação completa dos mortos. O infame Dr. Bryukhonenko do Instituto de Fisiologia e Terapia Experimental foi o mais famoso cientista envolvido nesse projeto. Sua meta era a reanimação de animais mortos, principalmente cães, por intermédio de máquinas misteriosas e assustadoras. Em seu experimento mais famoso, a cabeça decapitada de um cão foi conectada a uma máquina de aparência sinistra que foi chamada de "autojetor". A cabeça aparentemente recuperou a consciência, moveu a boca e piscou os olhos. Em um esforço para provar que o animal estava realmente acordado e consciente, Bryukhonenko começou a atormentar o cão, batendo-lhe na cabeça e até esfregando o interior de sua narina com ácido, que a cabeça do cão então começou a tentar lamber. O cão supostamente permaneceu acordado e vivo por um bom tempo, até mesmo comendo e bebendo coisas que lhe foram oferecidas, que passaram a se mover pela boca e vazaram do esôfago cortado. 


A mesma engenhoca foi usada para supostamente reanimar vários cães, bem como uma grande variedade de órgãos e membros cortados, embora não esteja claro como exatamente isso funcionou. Tudo o que temos são bizarros vídeos dos experimentos que muitos afirmam serem fraudes grosseiras e montagens.

Bryukhonenko foi superado em depravação e crueldade alguns anos depois. Outro cientista soviético chamado Vladimir Demikhov conduziu um experimento macabro para criar o que só pode ser descrito como um cão zumbi de duas cabeças. Demikhov estava convencido de que a chave para reviver os mortos era enxertar os mortos com os órgãos dos vivos. Para provar sua teoria, ele pegou um cão e o cortou ao meio, depois prendeu a metade do corpo ao pescoço de outro cão vivo. Inacreditavelmente, a parte morta do cão voltou à vida olhando ao redor e balançando a língua na boca, como um tumor horrível em seu hospedeiro. Encorajado por esse sucesso, Demikhov criaria 20 dessas abominações, que às vezes viviam por até um mês antes que a rejeição do tecido os fizesse morrer.

Nos anos seguintes, os Estados Unidos também participariam de experimentos sinistros visando trazer os mortos de volta à vida.

Uma série de experimentos foi realizada em 1967 na Divisão de Tecnologia da Base Aérea Wright-Patterson em Ohio. Os registros não corroborados dão conta de que vários cães foram trazidos de volta da morte usando um sistema de circulação artificial desenvolvido por uma equipe local. Esses cães foram revividos pelas engenhocas e sobreviveram. As cobaias supostamente se recuperaram e levaram vidas normais por anos depois, não mostrando anormalidades físicas ou diferenças no comportamento de cães normais. Oficiais militares esperavam que a técnica pudesse ser empregada em soldados que um dia se tornariam imortais.

Outro experimento militar financiado pelo governo dos EUA ocorreu em meados de 1970, quando o cientista Robert White desenvolveu uma técnico que envolvia cortar a cabeça de um macaco e a reanimar enxertando-a no corpo decapitado de outro macaco. O experimento supostamente foi realizado em conjunto com a Universidade de Chicago e tinha aprovação governamental. 

Os boatos dão conta de que a cabeça ressuscitada "viveu" por um dia inteiro. White afirmou que o macaco podia ver, ouvir, saborear e cheirar devido ao fato de que os nervos do cérebro e da cabeça estavam totalmente intactos. Ele chegou a pedir autorização do governo para prosseguir em seus experimentos até os anos 1980, mas as técnicas não foram empregadas em seres humanos. Ao menos até onde se sabe...

Outras formas de reanimação, ainda mais macabras foram tentadas e vocês saberão à respeito delas na continuação desse artigo. Fiquem conosco para mais histórias macabras de volta dos mortos.

quarta-feira, 12 de março de 2025

RPG do Mês: Resenha de Cthulhu by Gaslight - O Horror de Lovecraft na Era Vitoriana


O período conhecido como Era Vitoriana se entendeu da metade do século XIX até o início do século XX e foi uma época de grandes mudanças, avanços, descobertas e progresso global.

Tudo estava em transformação, e os alicerces para o mundo atual, na forma como conhecemos hoje em dia, estavam sendo erguidos. As nações se tornavam Impérios, a Revolução Industrial estava em marcha, modernizando e permitindo avanços tecnológicos impensáveis até então. As grandes cidades se convergiam em metrópoles de concreto, vidro e cristal, com parques, monumentos e linhas de trem as conectando. A sociedade se adaptava aos novos ditames de seu tempo com inovações, direitos e conquistas marcantes. A ciência se encontrava no seu ápice, com o homem assumindo o papel de único Senhor da Criação e não mero habitante do mundo à sua volta. As fronteiras caíam e espaços vazios nos mapas finalmente eram preenchidos. Para muitos foi a Aurora de um novo e glorioso tempo. 

Mas nem tudo era perfeito! 

A sanha de conquista dos Impérios deu ensejo ao colonialismo e a imoral exploração dos povos nativos. Muitas nações foram tomadas, roubadas e devastadas, deixando cicatrizes que se mantém até hoje. Os movimentos sociais foram forjados por pensadores que mais tarde iriam dar ensejo a revoluções, crises e genocídio sem precedente. As inovações tecnológicas permitiram o êxodo dos campos, a expansão das cidades e o surgimento de grandes centros populacionais. Mas estas inovações também forneceram métodos mais eficazes de matar. Em uma época de grande avanço, a miséria, a doença, a guerra e a fome jamais foram erradicadas. O crime e a injustiça se tornaram comuns nas grandes cidades escurecidas pela fumaça das chaminés e cobertas pelos refugos de uma população desesperada. 

A Era Vitoriana,  que recebeu esse nome graças a Rainha Britânica Victoria que governava o "Império onde o Sol nunca se punha", foi um caldeirão de contrastes profundos e uma época de grandes extremos. Nela a humanidade experimentou o seu melhor, mas também foi confrontada pelo pior que dela poderia aflorar. É um período histórico perfeito para ambientações de RPG. Uma época fascinante de conhecer e interagir, repleto de dualidade e oportunidades dramáticas, não por acaso um cenário bastante popular em diversos jogos.


Chamado de Cthulhu não é exceção! Não é de hoje que nosso amado RPG de Horror Lovecraftiano estabeleceu uma espécie de ponte que liga os investigadores da Londres Vitoriana aos horrores do Mythos de Cthulhu.

Curiosamente a época clássica de Chamado, os anos 1920, estão mais próximos da Era Vitoriana do que de nós hoje em dia. Se temos atualmente um mundo que deixaria qualquer cidadão do início do século XX assombrado, por outro, eles sentiriam certa familiaridade com o fim do século XIX. A tecnologia que os separava não era tão dispare. Carros existiam, ainda que raros. Eletricidade era conhecida, mesmo que nem de longe, fosse algo corriqueiro. O abismo social era imenso, mas não muito diferente do período entre as Guerras Mundiais. Os ricos formavam uma aristocracia coberta de luxo e regalias, enquanto os pobres lutavam para sobreviver no dia a dia. 

Talvez por isso, entender a Era Vitoriana seja um tanto difícil para nós. Mas se esse período possui nuances e complexidades, não se aflija, pois temos um novo livro que cobre o tema e promete esmiuçar cada detalhe e criar aquilo que pode ser considerado o manual definitivo sobre a Era Vitoriana.

A Editora Chaosium lançou suplementos sobre o período a partir da quarta edição de Chamado de Cthulhu e estes sempre foram livros muitíssimo elogiados. O título escolhido nunca mudou: CTHULHU BY GASLIGHT - em uma referência a forma de iluminação típica da época, que criava uma aura sombria de mistério nas cidades.  


Era razoável supor que mais cedo ou mais tarde, uma nova edição de Cthulhu by Gaslight seria adaptada para a sétima edição, então, não é o lançamento que surpreende, mas sim o formato escolhido. A diferença mais notável está no tamanho - os livros anteriores eram consideravelmente modestos quando comparados com este livrão de quase 300 páginas. E enquanto os suplementos anteriores se limitavam a um volume único, agora, o material está dividido em duas partes: o Guia do Investigador e o Guia do Guardião. 

Nesta resenha vamos nos concentrar no Guia do Investigador, enquanto aguardamos ansiosamente pela sua contraparte dedicada ao Guardião que está programada para ser lançada no primeiro trimestre de 2025.

Se você é um fã de Chamado de Cthulhu, provavelmente já está familiarizado com a qualidade dos produtos da Chaosium Inc nos últimos anos. Visualmente o Guia do Investigador de Gaslight é um livro de capa dura, totalmente colorido, com excelente valor de produção e arte sensacional. O projeto gráfico segue a linha dos livros anteriores e a diagramação é muito eficiente. O material inclui também um mapa desdobrável de Londres em meados de 1890. Tudo é muito bem feito com o cuidado e capricho característicos dos últimos suplementos com o selo Call of Cthulhu.

Um aspecto curioso deste livro é que um de seus apêndices tem uma cópia condensada das regras básicas do sistema na 7ª edição, permitindo que este livro sirva como um manual de regras. Não tenho certeza de quantas pessoas usariam este livro de forma independente, mas é uma opção curiosa — se você estiver levando o livro para narrar em um evento ou num encontro de RPG, será um livro físico a menos que você irá precisar levar com você.


O suplemento tem um objetivo bastante ambicioso. Ele busca oferecer ao jogador todas informações necessárias para construir personagens inseridos na Era Vitoriana. A proposta é que o jogador consiga usar as informações aqui contidas não apenas em cenários de Chamado de Cthulhu, mas em qualquer ambientação que se passe no período. Isso torna Cthulhu by Gaslight uma espécie de suplemento coringa, valiosíssimo em qualquer ambientação centrada no século XIX, não necessariamente apenas as que tratam dos Mythos de Cthulhu.

Geralmente eu não gosto muito de ler e escrever resenhas que descrevem um livro capítulo por capítulo, mas acredito que nesse caso é a forma mais apropriada de expor tudo o que está contido nesse suplemento e o que o leitor encontrará ao abrir esse livro e folhear suas páginas. Então vamos a eles.

Capítulo 1: Land of Hope & Glory (Terra da Esperança e Glória) fornece uma visão geral abrangente da sociedade no final da Era Vitoriana. Inclui tópicos que cobrem temas como o sistema de classes, a dinâmica da vida urbana e rural, as principais religiões, costumes, a vida política, a importância de fatores como raça, sexo e identidade sexual. O material é de fácil compreensão e tem uma bela descrição.


O capítulo também trata de comunicações e tecnologia fornecendo informações compreensivas para que os jogadores saibam ao que os personagens podem ter acesso durante uma investigação. Isso é algo bastante útil já que uma preocupação recorrente em aventuras com temática histórica é saber se determinada coisa existia ou não no período. Também é bem vinda uma seção que cobre o funcionamento da lei e da ordem na época, com uma apreciação de como opera a polícia, o setor investigativo e as principais ramificações do crime.  

Abrangendo cerca de quarenta páginas, é um capítulo que provavelmente será útil tanto para jogadores, quanto para os e narradores e não apenas os de Chamado de Cthulhu já que essas informações podem ser aproveitadas em qualquer ambientação vitoriana.

Capítulo 2: Creating Gaslight Investigators (Criando Investigadores Gaslight) é provavelmente o capítulo que contém mais crunch de regras específicas do BRP (o sistema de Chamado de Cthulhu). Nele temos as regras de construção de personagens voltadas especificamente para a criação de investigadores vitorianos. A maior parte desse material é reproduzido no Guia do Investigador de Chamado, embora obviamente haja diferenças específicas para essa época, bem como algumas novas habilidades e ocupações. O capítulo também se esforça em explicar como cada ocupação e habilidade era compreendida no período vitoriano e as diferenças para a época clássica. É interessante como as ocupações se relacionam com as classes sociais e como algumas profissões acabam sendo exclusivas para um determinado tipo de pessoa, praticamente vedando que outras ingressem nelas.


Uma seção importante diz respeito aos Antecedentes dos personagens com uma boa lista de exemplos que devem atender aos jogadores que querem dar uma dimensão mais profunda aos seus personagens. O livro também faz um aceno ao Cthulhu Pulp fornecendo uma lista de Talentos adequados para os investigadores pulp.  

Finalmente temos uma pequena discussão sobre o papel de Organizações, Sociedades e Clubes de Cavalheiros, um elemento central na dinâmica social das pessoas na Era Vitoriana. Todos que "eram alguém" faziam parte de algum clube social e recebiam certos benefícios de acordo.

Capítulo 3: Money, Equipment & Weapons (Dinheiro, Equipamento e Armas) detalha todas as coisas que um Investigador do final do século XIX pode desejar comprar. Sendo um jogo de RPG, isso, é claro, inclui um imenso sortimento de armas (e estatísticas de armas). Impressiona a lista de armas de fogo que estavam disponíveis na época vitoriana, bem como as armas brancas. 


A listas incluem ainda veículos casuais, com todo tipo de carruagens, carroças e coches usados pelas pessoas que desejavam se mover de uma ponta para outra das cidades. Há informações sobre automóveis primitivos, balões e claro, trens, bem como o custo do transporte. Temos também uma lista criteriosa de equipamentos e objetos que podem ser adquiridos pelos seus investigadores. 

Sendo um livro muito voltado para a Grã-Bretanha, ele naturalmente oferece uma visão geral da estonteante e complexa variedade de moedas que se pode encontrar circulando no país. Realmente são muitas as moedas, nomes e taxas de conversão. Os autores fizeram uma bela pesquisa do assunto. 

Capítulo 4: Victorian Exploration (Exploração Vitoriana) oferece uma pletora de detalhes sobre como atuavam e eram organizadas as famosas expedições de descoberta. O capítulo faz todo sentido uma vez que a Era Vitoriana foi uma época em que as últimas fronteiras do mundo estavam sendo vasculhadas por aventureiros e exploradores cujos nomes se tornaram lendários.


O capítulo fornece informações sobre as principais expedições ativas, quem eram os personagens principais, assim como uma longa cronologia de expedições ano à ano cobrindo de 1870 a 1900. É impressionante a quantidade de expedições que esquadrinharam o mundo e ajudaram a definir a geografia do globo. 

Capítulo 5: Science, Pseudoscience and the Occult (Ciência, pseudociência e o oculto) abrange o funcionamento da Ciência Médica (ópio para fins medicinais ou recreativos), saúde mental e instituições de saúde no período o que sempre é útil já que muitas aventuras terminam em manicômios.

Há uma apreciação de algumas das chamadas ciências marginais com uma descrição de como era o funcionamento e as bases de coisas bizarras como Mesmerismo, Eletroterapia, Frenologia e Eugenia. Sendo uma época de muita experimentação, a Era Vitoriana encontrou sua parcela de médicos loucos.   


Uma vez que estamos no universo de Chamado de Cthulhu temos uma fartura de tradições, misticismo e superstições ligadas às crenças dos vitorianos. O livro dispensa especial atenção às tradições milenares tipicamente britânicas com druidismo e paganismo, mas também há espaço para contar como a secreta fraternidade da Maçonaria e os eméritos Rosacruzes que deixaram marcas na sociedade européia. 

Como não poderia deixar de ser, atenção especial é dada à Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn) que sem dúvida foi a mais influente Sociedade Mística do período. Uma espécie de instituição de ensino para aprimoramento místico, a Golden Dawn era uma ordem filosófica que visava o aperfeiçoamento místico - grosso modo, uma Escola de Magia moderna. Os membros mais ilustres são apresentados através de uma biografia que é claro, inclui o infame Aleister Crowley

O capítulo também oferece uma visão sobre o Espiritualismo que estava muito em voga na época, a crença em Fantasmas e as confusas doutrinas da Teosofia da renomada Madame Blavatsky. Essa é uma seção muito interessante que se encaixa perfeitamente na proposta de Cthulhu, mas que pode ser aproveitada para outros tantos RPG que exploram o misticismo.

O livro evita fornecer novos feitiços, tomos esotéricos e parafernália mágica, mas imagino que o Guia do Guardião deva cobrir cada um desses elementos. É um tanto quanto frustrante a ausência desses itens, mas compreendo que eles devem estar presentes no outro volume.    

Capítulo 6: Victorian London (Londres Vitoriana) serve como referência à cidade em si com uma riqueza de detalhes que cobre os principais aspectos da maior e mais imponente metrópole da Era Vitoriana. Londres, a Capital do Império Britânico, é o cenário ideal para uma campanha de Cthulhu by Gaslight, não apenas pelas referências e pela riqueza de opções, mas porque quando se fala do período Vitoriano uma das primeiras coisas que vem à mente são as ruas cobertas de fog do East End Londrino.


O capítulo fornece um panorama completo do que os investigadores encontrarão ao explorar a cidade - da gloriosa Westminster aos distritos miseráveis repletos de crime e perversidade. Londres oferece uma infinidade de possibilidades e o capítulo reforça alguns aspectos situando o Guardião nessa grande paisagem urbana.

O Guia da Cidade é um trabalho incrível de pesquisa, com detalhes e imagens belíssimas que são incrivelmente evocativas. O capítulo também oferece informações sobre transporte público, bairros, atrações, monumentos, museus, instituições, clubes, etc. É um capítulo bastante extenso e repleto de informações úteis para os Investigadores. Se um deles precisar fazer pesquisas numa biblioteca, encontrar um pub em busca de testemunhas ou contratar informantes, esse capítulo fornecerá tudo isso e muito mais.

Chapter 7: Beyond London (Além de Londres) começa com uma visão geral do restante das Ilhas Britânicas, incluindo como se pode viajar até elas de trem, por estradas ou pelo mar. Escócia, Gales e Irlanda, os países que compõem a Grã-Bretanha, possuem mapas com as regiões e províncias que os integram. Essa é uma novidade interessante em relação às demais edições do Gaslight onde a maior parte do destaque ficava por conta da Inglaterra, com um foco ainda maior em Londres. O capítulo aprecia as regiões vizinhas fazendo uma bela apresentação de como era a vida no interior e nas demais cidades inglesas.


Em seguida, o capítulo cruza o Oceano Atlântico para fazer uma visita ao leste dos Estados Unidos, com a ressalva de que o Oeste nesse período é coberto pelo suplemento Down Darker Tales. Os Estados Unidos do final do século XIX figura com detalhes sobre organização, sociedade, vida urbana e política. Isso inclui uma discussão criteriosa sobre o quão racista os Estados Unidos eram nesse período. Também há uma apresentação das principais cidades da costa leste, dedicando um bom espaço para Nova York, Boston, Chicago e é claro, as cidades do Vale de Miskatonic

A América na chamada Gilded Age raramente figura em ambientações de RPG uma vez que uma maior ênfase acaba sendo dado a expansão para o oeste. Talvez por isso esse capítulo seja tão interessante ao abrir uma possibilidade para os personagens britânicos viajarem até a América e quem sabe participarem de uma investigação. 

Capítulo 8: The British Empire (O Império Britânico) é outra grande inovação bem vinda nesse suplemento. Ele nos leva em uma jornada ao redor do mundo para todos os lugares que o Império Britânico reivindica, incluindo uma visão geral das diferenças entre coisas como Colônias, Colônias da Coroa e Domínios. Houve um tempo em que o Império Britânico estava representado em todos os continentes e sua orgulhosa bandeira tremulava em todos cantos do globo. A lista dos países que fazem parte do Império inclui Canadá, Caribe, Guiana Britânica, África do Sul, Quênia, Nigéria, Afeganistão, Burma, Índia, Nova Zelândia e Austrália.


O capítulo oferece uma seção intitulada "Somos nós os vilões?" sobre o colonialismo e o legado das conquistas imperialistas que marcaram a Era Vitoriana. É claro, se você vai conquistar e dividir o mundo em fatias, é necessário ter um exército, então temos uma visão geral das forças armadas da Grã-Bretanha, com destaque para a marinha e uma discussão sobre seus aliados e adversários na Europa.

Uma excelente linha de tempo oferece uma cronologia dos principais acontecimentos entre 1870 e 1900 que permite situar suas aventuras em meio a eventos reais e acontecimentos dramáticos.

O livro fecha com dois apêndices, um fornecendo o resumo das regras básicas conforme mencionado anteriormente e o outro fornecendo recursos que podem ser úteis como inspiração para jogos situados no final da Era Vitoriana. Temos dezenas de sugestões válidas em livros, páginas da internet, filmes e séries.

Ufa! Então vamos às considerações finais.

Cthulhu by Gaslight: Investigators’ Guide é um suplemento absolutamente fantástico, possivelmente um dos melhores livros de ambientação lançados para a sétima edição de Chamado de Cthulhu. Ele fornece uma visão ampla de como era a vida nesse período e garante aos jogadores opções quase infinitas para criar seus personagens concedendo a eles características e cores únicas.

O Guia é um manual inestimável com aproximadamente 300 páginas repletas de informações e dados que ajudam a evocar a aura da Era Vitoriana. A leitura corre fluida e fácil, num ótimo trabalho gráfico que inclui arte e cartografia brilhantes. 

Suponho que o "Cthulhu by Gaslight Guia do Guardião" irá focar consideravelmente mais em mistérios e segredos, monstros e cultos, criaturas e deuses do que esse primeiro volume que é muito mais voltado para a dinâmica dos jogadores. Não espere, portanto, encontrar muito a respeito do Cthulhu Mythos.  Ainda assim, este livro talvez seja o guia definitivo do período, uma ferramenta imprescindível para qualquer narrador que pretende rodar uma campanha vitoriana fundamentada e correta.

O livro foi publicado pela Chaosium em Outubro de 2024 e até o momento não há nenhuma previsão dele ser traduzido em português, mas eu não ficaria surpreso se isso acontecer em breve quando o segundo volume também estiver disponível. A New Order que detém os direitos sobre o selo Chamado de Cthulhu no Brasil já deve estar de olho nesse excelente suplemento. 


segunda-feira, 3 de março de 2025

Isolamento Total - Ponto Nemo o lugar mais remoto do planeta