quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Mão da Glória - Um Talismã Macabro para abrir portas e passagens


Quem já ouviu falar da Mão da Glória, levante a... mão.

Desculpem, não deu para resistir. 

Dentre os muitos objetos peculiares e bizarros do submundo oculto, a Mão da Glória talvez seja um dos mais conhecidos, em parte por figurar em filmes e histórias de horror que a tornaram bastante conhecida. O macabro talismã já apareceu em Dungeons and Dragons e Pathfinder, já figurou no background de filmes e romances como Coração Satânico, Hellboy e Harry Potter, além de ser um item equipado nos personagens de Diablo.

A Mão da Glória, no entanto, é um objeto bastante real, com uma longa história de mito e fato que se misturam criando um confuso folclore cheio de superstições e crendices. O termo "mão da glória", acredita-se deriva do francês "main de glorie", o nome mágico da raiz de mandragore (mandrágora). Essa raiz que os alquimistas e feiticeiros consideravam um potente ingrediente místico, crescia em lugares onde criminosos e malfeitores eram executados. A mandrágora também era usada como combustível para lamparinas, criando uma luz tênue utilizada por ladrões por não chamar a atenção. 

A sinistra Mão da Glória é citada em grimórios de feitiçaria como o Petit Albert de 1722 e no Compendium Maleficarum, um manual italiano escrito por Caçadores de Bruxas e publicado em Veneza no ano de 1608. É provável que a crença nos poderes mágicos desse talismã seja ainda mais antiga, remontando ao Império Romano, ou mesmo antes dele. Sabe-se que os etruscos acreditavam que pedaços do corpo de pessoas poderosas retinham parte de seu poder. Usando essas partes cuidadosamente embalsamadas acreditavam obter sua força, vitalidade ou as habilidades do dono original. Essa crença também era comum entre os celtas que preservavam crânios, ossos, línguas, dentes e até a genitália de indivíduos notáveis como verdadeiros tesouros. Mesmo os romanos colecionavam partes de inimigos vencidos em suas campanhas que eram contrabandeadas para o Coração do Império e mostradas como mórbidos troféus conquistados em território bárbaro.


No Norte da Inglaterra existem muitas narrativas a respeito da criação e do uso da Mão da Glória por feiticeiros, bruxos e ladrões que se valiam das suas capacidades. Em 1590, um certo John Fian confessou sob tortura durante um Julgamento de Bruxos ocorrido na Escócia, ter invadido uma igreja usando uma Mão da Glória. Fian, claro, foi condenado por heresia e bruxaria.

A Mão da Glória clássica é uma mão de homem cortada na altura do pulso, devidamente seca e mumificada para melhor conservação e manipulação. O processo de secagem deixa a mão curtida; ela adquire uma coloração cinzenta e um aspecto de couro rústico. Uma camada de cera é aplicada nos dedos para que eles endureçam em uma posição esticada. Na ponta de cada dedo acrescenta-se um pavio de acendimento, feito de cabelo, preferencialmente de uma jovem mulher virgem. Cada ponta de dedo se torna dessa maneira uma vela que pode ser acesa para invocar suas propriedades místicas.

Algumas Mãos da Glória se diferem quanto a sua aparência, algumas possuem uma corda para que possa ser colocada em volta do pescoço, enquanto outras são ajustadas para permanecer de pé sobre uma superfície plana, como um bizarro castiçal. Em alguns modelos, a mão permanece fechada segurando uma única vela, esta geralmente feita de gordura humana extraída da barriga ou das nádegas de uma criança não batizada.

A confecção desse medonho talismã místico depende de algumas condições que devem ser observadas. Em primeiro lugar, a mão deve ter uma origem específica, ela deve ser cortada de um assassino que foi enforcado pelos seus crimes. A mão deve ser extraída do corpo enquanto este ainda estiver pendendo na ponta da corda. Usualmente, a mão escolhida é a direita, especialmente se essa foi a mão utilizada pelo assassino quando ele produziu sua vítima. Em alguns casos, a mão esquerda pode ser obtida se o assassino reconhecidamente era canhoto. O Petit Albert adverte para que jamais sejam tomadas as duas mãos da mesma fonte.


A mão deve ser serrada à noite, de preferência durante uma madrugada sem lua, sendo que na eminência de um eclipse os poderes da Mão da Glória são amplificados. O sangue residual deve ser drenado e os dedos precisam ser posicionados. Ela é enrolada em um tipo especial de linho fino e depositada em um jarro contendo uma solução de salitre (nitrato de potássio), pimentas pulverizadas e pedras de sal grosso. Depois de duas semanas, a mão é removida e deixada para secar naturalmente, o que pode demorar alguns meses. Se o objetivo for torná-la uma vela, os dedos são mergulhados em cera, se não, uma vela adequada é posicionada como se estivesse sendo segura. O processo inteiro é acompanhado de certos rituais, incluindo a leitura de poemas e a recitação de cânticos para consagrar o talismã.  

O Petit Albert - Grimório que inspirou as lendas de St. Albertus Magnus apresenta esse método para a criação da Mão da Glória, conforme citado por Grillot De Givry em seu livro "Bruxaria: Mágica e Alquemia" ("Witchcraft: Magic and Alchemy"). Mas parecem haver vários outras formas de criação da mão, envolvendo entre outras coisas o uso de uma serra de ferro frio, a exposição do talismã à luz da lua cheia e a imersão da mão em uma panela contendo ervas cuja beberagem deve ser consumida pelo bruxo.

Nos dias atuais, praticantes de magia podem achar difícil reproduzir a receita em suas casas. Não apenas por que ser complicado encontrar cadáveres de assassinos pendendo num cadafalso, mas também pela dificuldade de duplicar certas fórmulas que envolvem gordura humana, isso sem falar de cabelos de virgens, um item que não se encontra em qualquer mercado. Dada a raridade dos ingredientes, Mãos da Glória podem ser encomendadas a feiticeiros que confeccionam os objetos seguindo uma regra de "não pergunte onde ou como ela foi feita". Acreditem ou não, o mercado para esse tipo de talismã místico é enorme e alguns praticantes de magia oferecem a criação deles por um preço elevado.

Mas qual seria a razão para justificar a criação e o uso de uma coisa tão macabra?


Segundo a crença, a Mão da Glória possui poderes e capacidades sobrenaturais que podem ser invocadas pelo seu proprietário. Essas capacidades sobrenaturais envolvem sempre o princípio de
"abrir as portas e passagens"  e "garantir adentrar uma casa sem oposição". 

Existem muitas descrições quanto aos poderes do objeto, entre os quais se encontram a faculdade de ficar invisível pelo tempo que uma vela se mantiver acesa, enxergar na completa escuridão, não produzir som algum ao se mover ou ainda provocar um estado de sonolência tamanho nas pessoas a ponto delas não perceberem sua presença. O folclore da Mão da Glória também envolve a descrição de trancas e fechaduras sendo desmontadas ou se abrindo quando tocadas pela Mão da Glória.  

Em alguns relatos, cada vela/dedo aceso represneta uma pessoa no interior de uma casa ou habitação que será afetada pelo talismã. A pessoa é imediatamente afetada tornando-se sonolenta e desatenta, incapaz de perceber a presença do indivíduo que usou a Mão. Se a qualquer momento, uma das velas se apaga, uma pessoa desperta e pode perceber a presença de um invasor. Essa parte da lenda é importante, pois em muitas narrativas o utilizador comete o erro de não saber quantas pessoas estão na casa ou simplesmente deixa o fogo apagar. Em certas versões, a luz emanando de uma Mão da Glória brilha com uma luminosidade azulada quando esta fica próxima de um tesouro ou objeto de valor.

Havia, no entanto, maneiras de se proteger dos efeitos e poderes da Mão da Glória. Beber um copo de leite fresco era uma maneira de diminuir os efeitos mágicos do talismã. Mas a forma mais confiável de proteger a casa era espalhar um tipo de unguento no batente da porta e nas janelas. O preparado místico tinha de ser produzido com a fervura de bexiga de um gato preto, a gordura de uma galinha branca e um pouco de sangue de coruja. Essa mistura precisava ser preparada numa noite de lua cheia e espalhada na primeira noite do verão protegendo a casa e seus habitantes por um ano inteiro. Segundo uma narrativa britânica, a precaução ajudou a capturar um bruxo em 1797 que teria usado uma Mão da Glória para roubar uma pensão em North Stainmore. A macabra relíquia teria sido recolhida pelo dono da taverna e preservada até ser encontrada em 1935 por um antiquário que a comprou e mais tarde doou para o Museu em Whitby. De acordo com muitos historiadores essa é a última Mão da Glória original.


Mas o que levava as pessoas a acreditar nos poderes de objetos mágicos como a Mão da Glória?

As raízes dessa lenda, sem dúvida estão atreladas a crença de que certos objetos, ou coisas vivas, tinham poderes que podiam ser roubados e usados pelas pessoas. Estudiosos compreendem essas crenças como um tipo de "magia complacente". As pessoas se perguntavam o que poderia proporcionar melhores condições para passar desapercebido por guardas e vigias? E a resposta era a mão de um assassino, alguém que atuou sua vida inteira de forma discreta. Da mesma maneira, a mão do assassino também permitia abrir portas e fechaduras.

Objetos imbuídos com "magia complacente" foram usados largamente até o início da Era da Razão, sendo que alguns continuaram presentes como amuletos de boa sorte, os trevos de quatro folhas, pés de coelho e patuás. Antes de recriminar aqueles que empregavam o poder da Mão da Glória, talvez seja o caso de perguntar se você mesmo, caro leitor, não tem um objeto de estimação que lhe dá sorte.

5 comentários:

  1. Muito massa, curti demais ler esse artigo. :D

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  2. Excelente, não conhecia a página. Tá nos favoritos já!

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  3. Excelente. Acompanho o blog há muito tempo e esse artigo foi um dos melhores.

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  4. Este artefato se assemelha bastante à mão da nova criatura de insidious 3

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