segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Quem colocou Bella na Árvore? - Um crime misterioso sem solução


Há poucas coisas que capturam mais a imaginação das pessoas do que mistérios e assassinatos jamais resolvidos. Ao longo da história ocorreram mortes inexplicáveis que resistem a qualquer investigação e escrutínio, pistas que embora examinadas exaustivamente continuam nubladas a despeito de métodos modernos de análise. Certos casos parecem envoltos por um manto indevassável de sombras que não podem ser removidas, enigmas que permanecem enraizados profundamente criando mistérios insondáveis.

Um caso infame de crime nunca resolvido ocorreu nos dias sangrentos da Segunda Guerra Mundial, um tempo que não era estranho à morte. Nele está condensada a triste saga de uma mulher não identificada que parece ter surgido do nada e cujo corpo sem vida apareceu de forma bizarra no interior de uma árvore nas profundezas de um bosque ermo, com fama de assombrado. É um caso de homicídio cercado de rumores sobre bruxaria, espiões e outras esquisitices destinadas a jamais encontrar uma solução adequada.  

Tudo ocorreu em meio a Segunda Guerra Mundial, quando batalhas decisivas eram travadas em terras distantes e o mundo prendia sua respiração temeroso quanto ao desfecho. Um grupo de quatro rapazes do interior da Inglaterra tropeçaram em uma aterradora descoberta no interior do Bosque Hagley, região rural de Worcestershire, próximo da cidade de Birmingham. Por volta do anoitecer de 18 de abril de 1943, Robert Hart, Thomas Willetts, Bob Farmer e Fred Payne, haviam cruzado uma cerca que delimitava uma propriedade particular para caçar coelhos. Os rapazes de 12 a 15 anos estavam nervosos, pois já haviam sido avisados para não invadir aquela área cercada. Além disso, naquele dia em especial tudo estava escuro, silencioso e sinistro. O Bosque era conhecido como um lugar isolado, com uma fama desagradável que suscitava boatos sobre velhas bruxas, assombrações e fadas malignas habitando o seu interior. Desde a Idade Média, aquele lugar era conhecido como fonte de histórias fantasmagóricas e muita superstição. A medida que a noite se aproximava e tudo era banhado em sombras, as velhas árvores, com seus galhos retorcidos ganhavam uma aparência ainda mais maligna. E tudo piorou quando os rapazes tropeçaram em algo chocante que se tornaria um mistério debatido até os dias atuais. 


Durante sua excursão secreta, eles avistaram um grande olmeiro de aparência sinistra. A árvore tinha galhos secos e retorcidos parecendo braços erguidos em direção ao céu quase como se estivessem implorando a um Deus Profano. A árvore era bem conhecida, batizada pelas pessoas que residiam nos arredores de Wych Elm, ou Olmeiro das Bruxas, um nome que ninguém sabia quando havia sido dado. Impressionados pela aparência sinistra da enorme árvore destacada pelo brilho do fim de tarde, os rapazes começaram a desafiar uns aos outros a respeito de se aproximar para tocar em seu tronco nodoso. Bob Farmer, o mais velho dos rapazes aceitou o desafio e se aproximou cautelosamente contornando o solo irregular coberto de mato e raízes expostas. A medida que ele chegava mais perto, ele percebeu que a árvore possuía um espaço vazio que muitas pessoas afirmavam ser um portão para o inferno ou para reinos subterrâneos. O nicho oco lembrava uma enorme bocarra aberta, prestes a engolir quem fosse tolo bastante para entrar no seu alcance. Farmer percebeu então que havia algo brilhando no interior do buraco e cedendo a curiosidade estendeu a mão para agarrar. Chocado ele percebeu então que havia desalojado um crânio humano perfeito com dentes arreganhados e longos cabelos loiros ainda presos ao escalpo. A carne havia apodrecido há muito tempo, desgrudado dos ossos amarelados, ainda assim, estava claro que se tratava de um cadáver cuidadosamente depositado naquele espaço exíguo. O rapaz gritou e os demais cederam à curiosidade e vieram ver, aterrorizados decidiram fugir e não contar a ninguém a respeito daquela descoberta macabra.  

Por algumas semanas os rapazes cumpriram seu acordo de não falar a respeito do que haviam encontrado, mas o fardo se mostrou pesado demais para Tommy Willetts, o mais jovem dos meninos.  A experiência de ter visto aquele esqueleto no coração do bosque, ainda mais daquela maneira arrepiante, fez com que ele começasse a sofrer com pesadelos cada vez mais vívidos. Tommy acordava aos gritos, banhado de suor e ofegante: sonhava com o esqueleto ganhando vida e o perseguindo pelas trilhas do bosque assombrado. Depois de um tempo, ele decidiu revelar o segredo e as autoridades foram imediatamente informadas. O que a polícia encontrou ajudou bem pouco a lançar uma luz sobre o mistério, e de fato, pode ter servido apenas para aprofundar ainda mais o enigma.  

Quando a polícia convergiu para a cena, eles encontraram o esqueleto intacto no exato lugar em que os rapazes o descobriam. Ele vestia os trapos restantes de um vestido simples, sapatos de solado de borracha, uma aliança de ouro na mão esquerda e um chale de tricô jogado sobre os ombros. Na boca acharam um pedaço de tecido amarelado, enrolado em um tubinho e cuidadosamente depositado ali dentro. A mão direita do cadáver estava faltando e as marcas no pulso eram condizentes com o uso de uma serra que teria sido usada para removê-la. A mão havia sido levada pelo assassino. Os investigadores encontraram ainda cinco tocos de velas que foram consumidas até o fim no interior da árvore. Não havia qualquer indício do motivo pelo qual o corpo foi colocado naquele lugar, mas as velas e a ausência da mão pareciam sugerir um tipo de assassinato ritualístico.  


Os restos foram reunidos e enviados para o Laboratório Forense para exame, onde o Professor James Webster realizou a análise preliminar. Ele determinou que o cadáver pertencia a uma mulher, provavelmente de 35 anos de idade, dentes irregulares, que havia dado a luz a pelo menos uma criança e que havia morrido a aproximadamente 18 meses. Uma vez que não haviam sinais claros de qualquer violência presente nos ossos, a causa da morte parecia ser asfixia causada pelo pedaço de pano encontrado em sua boca. Também foi determinado que o corpo havia sido posto no Olmeiro da Bruxa logo depois da morte ou enquanto ela ainda estava agonizando. Não haviam outras evidências além destas e a identidade da mulher permaneceu desconhecida. A polícia realizou uma pesquisa cuidadosa quanto a pessoas desaparecidas, enviaram os registros dentários a delegacias da região e descreveram os objetos achados na cena do crime. Os dentes tortos do cadáver poderiam dar alguma informação a respeito de quem ela foi em vida, mas nada disso deu em nada. A mulher achada no interior do olmo parecia ter surgido do nada.

A única pista veio na forma de uma denúncia anônima feita através de uma carta deixada na porta de uma delegacia 20 meses depois da descoberta. O remetente afirmava trabalhar em um grande centro industrial e que havia estado no Bosque Hagley na época aproximada da morte da mulher. Na ocasião, ele teria ouvido gritos e corrido para verificar. Teria então encontrado com outro homem que também disse ter ouvido os mesmos gritos. A polícia até teria sido chamada na ocasião para verificar os estranhos gritos, mas nada foi encontrado. Quanto ao homem misterioso se é que existiu e o sujeito que disse tê-lo visto, ninguém soube mais nada.

A continuação da investigação foi frustrada pela Guerra que trouxe um influxo de pessoas desaparecidas que tornaram as coisas ainda mais complicadas. A tecnologia limitada disponível e o fato de muitas pessoas simplesmente se mudarem de um canto para o outro, tornavam tudo mais difícil. Apesar disso, a imprensa havia eleito a história como um assunto recorrente, chamando o incidente de "Assassinato Enigmático", falando de cultos, magia negra e superstições que estariam ressurgindo entre os locais. De fato, as antigas lendas a respeito do Bosque forneciam material de primeira para os diários sensacionalistas. Diziam que Cultos de Druidas teriam ressurgido no coração da floresta e que a morte da mulher teria sido parte de um sacrifício bizarro. Outros afirmavam que o assassino não era sequer um homem, mas uma criatura sobrenatural que habitava as profundezas da mata: uma assombração, um morto vivo, um demônio. Em meio à guerra, as histórias se multiplicavam e eram amplificadas: "os bombardeios em Birminghan haviam despertado os mortos", "uma coisa sepultada no abismo havia chegado à superfície", "os nazistas teriam lançado algo bem mais horrendo que uma bomba".

Apesar da enxurrada de notícias sensacionalistas, as manchetes macabras sobre o assassinato começaram a ser deixadas de lado já que haviam ameaças maiores do outro lado do canal para se preocupar. Aos poucos as conjecturas sobre a identidade do cadáver no Olmeiro das Bruxas e a razão para sua morte foram sendo abandonadas e o caso esfriou.


Isso durou até o final de 1944 quando o caso sofreu uma nova e inesperada reviravolta. 

Em uma manhã de domingo um prédio importante no vilarejo próximo de Old Hill amanheceu grafitado com giz branco. Nas palavras cuidadosamente desenhadas lia-se a seguinte pergunta: "Quem colocou Luebella dentro da árvore"?

Nos dias seguintes mensagens similares começaram a aparecer em outros vilarejos próximos, com dizeres como "A donzela do Bosque Hagley continua esperando" e "As bruxas não podem escapar com isso". Em várias mensagens a mulher era chamada apenas de "Bella". Ninguém sabe quem escreveu as mensagens, mas todas elas tinham o mesmo estilo e caligrafia. Por vezes, a pessoa se referia ao local macabro onde o cadáver foi achado como "Witch", mas em outros como "Wych", duas grafias diferentes para a palavra inglesa "Bruxa", sendo que uma delas no modo arcaico. Seja lá o que a pessoa pretendia, as perguntas ressuscitaram o incidente e revigoraram a curiosidade do público. Serviu também para criar uma identificação da pobre mulher encontrada morta. Desse ponto em diante ela passou a ser conhecida como Bella. Mais interessante ainda, as palavras "Quem colocou Bella na árvore" continuaram aparecendo de tempos em tempos no obelismo da praça central de Old Hill e em lugares próximos ao Bosque de Hagley. Sendo que a última vez que a inscrição surgiu foi em 2016.

Enquanto as autoridades oficiais buscavam por um culpado e tentavam encontrar o responsável pelas mensagens enigmáticas, teorias pipocavam aqui e ali. Uma das idéias mais aterrorizantes (ainda que improváveis) veio da Professora Margareth Murray do Kings College de Londres, uma eminente antropóloga e antropóloga conhecida pelo seu controverso trabalho estudando Cultos de Feitiçaria na Europa Ocidental. Murray estava convencida de que "Bella" havia realmente sido vítima de uma conspiração presidida por indivíduos ligados a um Culto de Magia Negra e que sua morte teria ocorrido em uma espécie de Ritual de Sacrifício. Em uma entrevista extremamente controversa dada a um jornal de Londres, ela afirmou que a mão da vítima teria sido cortada fora para que os ocultistas pudessem construir um poderoso artefato místico chamado "Mão da Glória".

[NOTA: Vejam como as coisas são... o artigo anterior foi exatamente a respeito desse macabro talismã mágico cujas propriedades conferem ao utilizador uma série de poderes. Eu comecei a pesquisar o caso de Bella e apenas pelo acaso escolhi ele para ser o artigo seguinte sem imaginar que haveria uma menção direta a Mão da Glória. Coincidência, diria qualquer um. Se bem que "coincidência" às vezes não é uma palavra que a gente possa usar livremente. Não em face de certas coisas... A sincronicidade de vez aqui no Mundo Tentacular me surpreende um bocado. Coisas como palavras que estou escrevendo que se repetem na TV, artigos que somem e reaparecem, emails que eu recebo sobre um determinado assunto logo quando penso em escrever a respeito dele... Bobagem? Provavelmente, se bem que... bem, deixemos assim.]

Outra evidência que poderia indicar o caminho de uma conspiração de bruxos é a antiga crença de que espíritos de pessoas assassinadas poderiam ser aprisionados - evitando assim uma vingança, se colocados no interior da parte oca de uma árvore. Essa superstição, surgida na época pré-romana era usada pelos druidas como uma forma de se proteger contra as pessoas utilizadas em sacrifícios. Murray levantou essa hipótese e citou um outro misterioso assassinato ocorrido na mesma região algum tempo antes envolvendo um fazendeiro chamado Charles Walton. O homem foi encontrado morto com o corpo atravessado por um forcado. Ele foi cuidadosamente apoiado na ferramenta de tal maneira que se manteve de pé. Para Murray, o componente místico e o elo entre os dois casos era claro, sem falar no uso do forcado, uma ferramenta semelhante a um tridente demoníaco, usado para colocar o homem naquela posição incomum. Com base nessas teorias, as suposições a respeito de bruxaria e magia negra ganharam a opinião pública e capturaram a atenção de todo país. 


Outra teoria muito discutida nos anos que se seguiram envolveu uma carta enviada para um jornalista do Wolverhampton Express and Star chamado Wilfred Byford-Jones em 1953. Uma mulher que assinava como "Anna Claverley" afirmava ter informações fidedignas a respeito do crime e as razões para ele ter ocorrido. Segundo ela, Bella seria uma espiã alemã enviada para a região em 1940 com o objetivo de mapear a floresta e preparar uma invasão de paraquedistas. A mulher teria vindo para a região acompanhada de um circo itinerante usando o disfarce de artista. De acordo com Anna, Bella era na realidade uma holandesa que atendia pelo nome Clarabella Dronkers, esposa ou namorada de um agente alemão infiltrado. Ela teria se comprometido a fazer seu trabalho, mas em algum momento decidiu mudar de lado, o que fez seus superiores ordenarem sua morte. Bella sabia a identidade de outros espiões e poderia entregá-los para ganhar indulto do governo por isso foi eliminada.

A polícia eventualmente descobriu a identidade de "Anna", ela era Una Mossop uma imigrante holandesa que realmente teve um primo acusado de espionagem nos tempos da guerra. Em um interrogatório, ela revelou que esse primo, Jack Mossop, teria matado a mulher para evitar que ela revelasse o nome de outros espiões. Jack a matou e colocou seu corpo dentro da árvore achando que assim ninguém a acharia. Verdade ou não, Jack jamais poderia confirmar, nos dias finais da Guerra ele cometeu suicídio em um campo de prisioneiros enforcando-se com cadarços. Uma investigação oficial foi realizada pelo MI5, mas nada foi encontrado a respeito de uma mulher chamada Clarabella Dronkers e sua alegada participação como espiã nazista. 

Em 1941 um outro agente nazista chamado Josef Jakobs foi preso pelo Serviço Secreto. Ele havia chegado à Inglaterra de paraquedas, saltando em Cambridgeshire e conseguindo emprego como operário em uma fábrica próxima. Em um interrogatório, Jakobs contou que havia vários agentes nazistas infiltrados que estavam disfarçados operando na Inglaterra com o objetivo de verificar a localização de complexos industriais e áreas vitais para bombardeios. Jakobs entregou muitos de seus colegas o que ajudou a desarticular os planos nazistas na região, mas ele não conseguiu lembrar de todos os seus comparsas, um destes ele descreveu como "uma holandesa usando disfarce de imigrante e que chegou com um circo" e sobre sua aparência física se limitou a dizer "loira e com os dentes tortos".

Teria sido uma coincidência ou Bella foi realmente uma espiã? Mas se é esse o caso por que cortar sua mão direita? E por que escondê-la daquela maneira macabra dentro de uma árvore e num bosque considerado assombrado? É provável que nos jamais saibamos ao certo. Apesar de sua ajuda para desmontar o círculo de espiões, Josef Jakobs tornou-se o último indivíduo executado na Torre de Londres pela Lei Britânica. Seus segredos morreram com ele no momento em que um machado separou a cabeça de seu corpo em 15 de agosto de 1941.


Outras ideias sobre a identidade da vítima surgiram nos anos seguintes. Ela seria uma prostituta imigrante, uma cigana morta em um ritual, uma atendente recém chegada a uma taverna que foi morta por um cliente, ou uma mulher que simplesmente estava se escondendo no Bosque buscando proteção contra os bombardeios nazistas e que acabou encontrando coisa pior na forma de um maníaco. Mas embora existissem muitas teorias, nenhuma delas parecia se encaixar perfeitamente nos acontecimentos e o caso aos poucos foi sendo esquecido. Tudo o que restou foram as especulações. 

Ah sim, a última reviravolta a respeito desse caso ocorreu em 2009 quando autoridades pediram que o corpo de Bella fosse exumado para que os dentes fossem analisados por um grupo de dentistas forenses. O objetivo era comparar os dentes e retirar material de DNA para análise. Quando a sepultura foi escavada, os médicos ficaram em choque, o corpo havia desaparecido. Dentro do caixão encontraram apenas pedras e um item macabro, os ossos de um pássaro que não poderia ter chegado ali a não ser pelas mãos da pessoa que desenterrou e sumiu com os restos. Na ausência de qualquer material de DNA, exames modernos foram impossibilitados. Na mesma semana, rumores afirmavam que a polícia havia recebido um estranho envelope anônimo contendo apenas um pedaço de tecido amarelado enrolado na forma de um tubo. As autoridades nunca confirmaram ou negaram essa informação. 

O Mistério de Bella e de quem a colocou na árvore permanece como um dos casos mais enigmáticos e impenetráveis da Inglaterra. A polícia de hoje não sabe muito além do que sabia na data em que ela foi descoberta. Quem a matou ou porque, permanece uma questão que provavelmente jamais será respondida, o mesmo valendo para a identidade da mulher, passando por quem escreveu as mensagens. Tudo isso, contudo, serviu para construir uma duradoura lenda que continua fascinando e provocando aqueles que se debruçam sobre ela.

4 comentários:

  1. Artigo muito bom. Dá muitas idéias para histórias de CoC. Parabéns!

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  2. Materia excelente, agora as fotos estão ausentes.

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  3. Não consigo visualizar as fotos em nenhum navegador. Seria bom dar uma verificada.

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  4. ótimo material e ótima leitura... mas assim como o Elvys não consigo visualizar as fotos em nenhum navegador.

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