
Nos vastos corredores do Metropolitan Museum de Nova York há peças de todos os tipos, vindas de todos os cantos do mundo. Algumas dessas peças são incomuns, raras e valiosas, mas outras se encaixam em uma categoria muito especial, a dos itens simplesmente bizarros e estranhos.
Nesse grupo de peças incomuns está incluída uma peça adquirida por antropólogos norte-americanos nos últimos anos do século XIX e que entrou para o catálogo da instituição em 1906. Trata-se de um instrumento musical obtido junto de mercadores espanhóis que traziam curiosidades para os agentes do museu. A princípio, acreditava-se que o item era procedente do Novo Mundo, pois estava junto com uma coleção de peças da América do Sul, contudo, os antropólogos determinaram que ela era oriunda da África Central.
Os espanhóis não sabiam muito sobre a peça e de fato não faziam questão de saber.
Para todos os efeitos a consideravam algo maligno e repleto de maus agouros. Seu proprietário, um homem conhecido como Medina, o havia adquirido em um lote fechado e enojado pela aparência da coisa cogitou jogá-lo fora ou queimá-lo. Mas um colega de Medina recordou que "os gringos gostavam de coisas estranhas" e que aquilo poderia render algum dinheiro. Estava certo... dentre os itens da coleção aquele sem dúvida era o mais incomum, raro e portanto valioso.
A foto que emoldura esse artigo não faz jus a peça.
Ela é uma espécie de lira primitiva, um instrumento musical que não é totalmente incomum na África Subsaariana. Mas o que mais chama a atenção no objeto é como ele foi confeccionado. Ele é totalmente orgânico, a caixa acústica foi feita a partir de um crânio humano ainda com os cabelos cuidadosamente colados ao escalpo. Dois chifres de antílope presos na parte posterior servem como os braços nos quais as cordas de tendões humanos esticados foram amarradas. O instrumento foi construído de forma meticulosa com o crânio e as cordas, recebendo um tratamento de cera de âmbar que o preservou tão bem quanto um verniz.
Restos humanos e de animais, ossos e crânios têm sido associados desde o começo dos tempos a instrumentos musicais, seja como decoração ou, como no caso desta Lira, como um de seus componentes principais. Os instrumentos musicais mais antigos do mundo ainda em funcionamento são flautas de osso de grou-de-coroa-vermelha — relíquias que datam do Neolítico, há cerca de 7.500 a 9.000 anos. Crânios de guerreiros mortos em batalha eram pendurados em tambores reais Ashanti (Asante) em Gana e na Costa do Marfim. Trombetas de fêmur humano ou animal (rkangling) e tambores de crânio (damaru) eram usados no Tibete em tradições de meditação focadas na impermanência da vida e da existência material. Também eram considerados ferramentas poderosas de proteção contra o mal.
Mas não são os únicos instrumentos desse tipo. Nas ilhas do Bornéu, por exemplo, caçadores que se mostravam incompetentes podiam ser mortos pelos seus companheiros, sua pele era removida, curtida e esticada sobre um tambor que uma vez batido apaziguava os deuses. Nas selvas do Pantanal Mato-grossense no Brasil, moringas confeccionadas com o crânio de inimigos eram usadas para afastar espíritos, dentro delas, chacoalhavam os dentes dos mortos.
Há uma associação primitiva entre instrumentos musicais dessa natureza e sons capazes de afetar o mundo sobrenatural. Os lendários apitos dos Astecas eram conhecidos por levar o terror ao coração de seus inimigos que temiam o som por eles produzido. As matracas dos povos bascos também causavam um horror nos estrangeiros, inclusive os romanos que conquistaram a Península Ibérica.
Algumas culturas acreditam que o som produzido por uma peça construída com matéria prima retirada dos mortos é mágico. O sopro que passa através de um desses instrumentos ou que reverbera em suas cordas afeta o mundo sobrenatural.
Esse pode ser o caso da Lira em exposição no Met Museum,
Embora a cultura que a confeccionou seja desconhecida é razoável supor que ela tivesse um uso simbólico ritualístico. Nas culturas da África Central, o som desempenha papel fundamental na maioria dos rituais e é através do som que as forças sobrenaturais são contatadas. Muito provavelmente, a Lira era um objeto especial, construído para o uso de um feiticeiro tribal que lidava diretamente com os espíritos e divindades.
Apesar de não se saber a origem exata da peça, há uma história macabra associada a ela que perdura até os dias atuais.
A Lira estaria associada a uma espécie de maldição ancestral. Dedilhar as cordas e delas extrair sons só seria permitido a um feiticeiro africano. Nos anos 1930, dois professores de antropologia da Universidade de Colúmbia supostamente ignoraram essa regra e fizeram uma gravação em fonógrafo dos sons extraídos do instrumento. Diz a lenda que os dois homens morreram no período de dois meses, em acidentes incomuns, um deles tendo caído no poço de um elevador e outro atingido por um andaime que despencou enquanto obras eram realizadas na fachada do Museu. Mais estranho ainda, o engenheiro de som que produziu a gravação e deveria fazer cópias dela, cometeu suicídio usando a matriz de vinil para cortar os próprios pulsos. Os três mortos associados a "maldição" teriam experimentado horríveis pesadelos antes de encontrar a punição pela sua ousadia.
Nos anos 1950, a Lira da África Subsaariana, como ficou conhecida a peça, atraiu a atenção de muitos curiosos e chegou a figurar em um quadro do popular programa de rádio "Ripleys Believe it... or not" (que deu origem ao clássico "Acredite se Quiser" no Brasil). A peça posteriormente foi removida de exposição, retornando apenas na década de 1980.
Em 1989, o Met Museum contratou um suposto feiticeiro vindo da Guiné Equatorial (de onde alguns supunham vir a peça) para tocar o instrumento acreditando que ele seria imune a qualquer maldição. Os jornais sensacionalistas repercutiram a notícia e a maioria considerou que o Museu estava apenas tentando ganhar as manchetes e atrair público. Uma gravação do som da Lira, obtido com o dedilhar de um legítimo Feiticeiro africano foi obtido, mas este jamais foi divulgado. Segundo alguns porque o místico advertiu que tal coisa poderia ser potencialmente perigosa, espalhando a maldição para quem quer que a ouvisse.
Verdade ou não, a Lira Subsaariana continua em exposição na ala dedicada a Arte Africana no Metropolitan Museum, não espere entretanto que alguém venha a tocá-la um dia. Seu som único não é para ouvidos humanos e está reservado para os espíritos.
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