Entre outubro de 1891 e abril de 1892, uma série de assassinatos assolou a Metrópole de Londres com um terror que lembrava o medo que cercou os assassinatos de Jack, o Estripador, ocorridos apenas três anos antes. Uma vez mais, as vítimas eram prostitutas, mas desta vez o método utilizado pelo assassino era o envenenamento. E apesar do que muitos podem imaginar, uma morte ocasionada por uma substância tóxica pode ser incrivelmente dolorosa, cruel e aterrorizante.
Diferente dos crimes do Maníaco de Whitechapel, as mortes perpetradas pelo infame Envenenador de Lambeth tiveram uma solução resultando em sua captura.
O assassino foi capturado e identificado como o Dr. Thomas Neill Cream, que já havia sido condenado por assassinato com estricnina nos Estados Unidos. De fato, se ele não tivesse sido libertado antecipadamente da prisão de Joliet, em Chicago, quatro jovens londrinas teriam sido poupadas de uma morte excruciante em suas mãos.
Thomas Neill Cream nasceu em Glasgow, Escócia, em 1850 e emigrou para o Canadá em 1854. A família tinha uma boa condição financeira e o pai, William Cream, tornou-se gerente de uma empresa madeireira e de construção naval em Quebec. O jovem Thomas era uma criança curiosa, ainda que solitária, sempre interessada em explorar o ambiente que o cercava. Não raramente ele vagava sozinho pelas florestas onde descobriu um tipo perturbador de passatempo que tratou de manter em segredo: torturar animais. Com apenas 9 anos o rapazinho atraía gatos, cães, pássaros e esquilos com alimento que levava consigo quando passeava pelas matas. Embora a mãe de Thomas pensasse que o menino tinha bom coração, ele costumava misturar veneno ao alimento que oferecia aos pobres animais. Ele adorava vê-los se contorcer, espumar e morrer. Aquilo dava ao menino um prazer secreto que ele jamais esqueceu.
O sucesso da família permitiu enviar o promissor Thomas para a Universidade McGill, em Montreal. Lá ele estudou medicina com ênfase em produtos farmacêuticos. Ele se formou em 1876 após concluir uma tese sobre os efeitos do clorofórmio no organismo humano. Por volta da mesma época, ele ficou noivo de Flora Eliza Brooks, cujo pai, Lyman Henry Brooks, era dono de um hotel nos arredores da cidade de Quebec. Em setembro daquele ano, Flora adoeceu e seu pai a levou a um médico, que lhe disse que Eliza havia feito um aborto recentemente. Enfurecido, Lyman Brooks obrigou Thomas a se casar com sua filha sob a mira de uma arma.
O casamento obviamente foi marcado por abuso e descaso. Eventualmente ele abandonou a esposa e se refugiou nas Ilhas Britânicas para concluir seus estudos. Em 1878, Thomas obteve uma licença em obstetrícia pelo Royal College of Physicians and Surgeons em Edimburgo. Enquanto estava fora, Flora contraiu bronquite e, em agosto de 1877, morreu de tuberculose. Sua morte seria posteriormente vista com suspeita, já que Cream havia prescrito medicamentos para ela antes de partir e a instruído a não deixar de tomar os remédios.
Tendo concluído seus estudos e encontrando-se livre e desimpedido Cream retornou ao Canadá onde havia crescido. Ele abriu um consultório particular nos arredores de Ontário onde se tornou um médico bastante respeitado pela comunidade local. De fato, Cream chegou a ganhar comendas e homenagens por oferecer auxílio a pessoas pobres que não teriam como pagar pelos seus serviços.
Mas em maio de 1879, Kate Gardener, uma das pacientes do Dr. Cream foi encontrada morta em um anexo atrás de seu consultório. Uma autópsia foi conduzida e o resultado foi estranho: overdose de clorofórmio. No inquérito, Sarah Long, uma colega de quarto testemunhou que Kate estava grávida e havia procurado o Dr. Cream para "corrigir a situação". Cream alegou que a estava tratando de "senescência" e que não lhe havia administrado nenhum medicamento abortivo. Ele concluiu que a morte foi decorrente de suicídio. Como não havia provas suficientes para indiciar Cream, ele acabou se livrando sem maiores questionamentos.
Contudo Sarah Long testemunhou que o Dr. Cream não apenas tratou sua colega como também sugeriu que ela poderia ganhar dinheiro acusando algum médico residente de tê-la engravidado. Sarah suspeitava que o próprio Dr, Cream poderia ser o pai da criança. Os rumores continuaram se espalhando e o escândalo prejudicou o jovem médico. Em meio a várias teorias, um médico experiente procurou a polícia alegando que seria virtualmente impossível uma pessoa ter uma overdose de clorofórmio sem ajuda externa. Um novo júri foi convocado para analisar as provas oferecidas, mas antes que ele pudesse expressar sua decisão o acusado desapareceu.
Ele se mudou para a cidade de Chicago onde abriu um consultório perto da notória zona de prostituição no West Side. Em 1880, o Dr. Cream já era conhecido pela polícia como abortista, às vezes auxiliado por uma parteira afro-americana chamada Hattie Mack. A reputação de Cream entre as mulheres da área era terrível. Algumas o acusavam de ter realizado abortos sem as mínimas condições para garantir a integridade das gestantes. Seu consultório não raramente era descrito como um "açougue" ou então "abatedouro". Rumores davam conta de que mais de uma mulher havia morrido em sua mesa de cirurgia e que ele costumava preservar os fetos abortados em potes de geleia. Ele tinha enorme prazer em mostrar sua "coleção" aos que visitavam seu consultório.
Pouco depois, outro boato tenebroso correu pela vizinhança afirmando que Cream oferecia uma espécie de poção abortiva para as mulheres e que a misteriosa fórmula havia sido a causadora de óbitos. Finalmente, circulava um persistente mexerico sobre ele aceitar favores sexuais como pagamento pelos seus serviços. Apesar de tudo, o Dr. Cream ainda conseguia equilibrar suas finanças atendendo em hospitais locais e oferecendo suas habilidades como obstetra.
Em agosto de 1881, Hattie Mack, a ajudante do Dr. Cream mudou-se às pressas da Rua Madison e passou a residir em um pequeno apartamento alugado pelo seu empregador. Algumas semanas mais tarde, vizinhos sentiram um cheiro ofensivo na casa que ela havia deixado vazia. A polícia encontrou um corpo em avançado estado de decomposição no porão. Ratos a haviam devorado parcialmente, mas ela foi identificada como Mary Ann Faulkner uma prostituta que trabalhava no West Side.
Hattie Mack foi presa e rapidamente se voltou contra Cream. Ela confirmou que ele era um abortista que havia realizado até quinze abortos em um único bordel. Ele lhe disse que havia realizado pelo menos 500 abortos em pouco mais de um ano. Mack alegou que Cream a havia forçado a acolher Faulkner enquanto ela se recuperava de um aborto com complicações. Cream rebateu dizendo que Mack o havia procurado em busca de ajuda depois dela ter tentado o procedimento em Faulkner. Cream foi julgado por assassinato, mas o júri não estava disposto a aceitar a palavra de uma mulher negra contra a de um jovem e belo médico. Cream foi absolvido.
Mais tarde naquele mesmo mês, outra paciente de Cream morreu após tomar um medicamento que ele havia prescrito. Ele tentou culpar e extorquir dinheiro do farmacêutico, Frank Pyatt, mas este foi à polícia denunciar a conduta do médico. A investigação não foi conclusiva. Algum tempo depois, Cream tentou chantagear um de seus pacientes que não havia pago a conta e quando esta se negou a pagar, ele alegadamente a estuprou e depois tentou esganá-la. Ele novamente se livrou da acusação recorrendo ao seu charme e simpatia.
Em fevereiro de 1882, a Sra. Julia Stott, de Belvidere, Illinois, foi ao consultório do Dr. Cream para obter comprimidos para seu marido, Daniel, depois de ver um anúncio sobre um remédio para a epilepsia. Daniel começou a apresentar sinais de melhora, e Julia retornou várias vezes para obter mais comprimidos. Em junho, Daniel morreu e a causa da morte foi determinada como convulsão epiléptica. Cream telegrafou ao legista dizendo que a verdadeira causa da morte foi um erro cometido pelo farmacêutico que dispensou a receita. Ele também ajudou Julia Stott a entrar com um processo contra o farmacêutico. O legista cético deu uma amostra da receita a um cachorro e quinze minutos depois, o animal estava morto. O corpo de Daniel Stott foi exumado e descobriu-se que seu estômago e intestinos continham estricnina suficiente para matá-lo três vezes.
Quando a polícia foi até a casa do Dr. Cream descobriu o lugar vazio. Avisado por um escrivão que trabalhava na delegacia, ele fugiu novamente retornando ao Canadá. Mas o médico foi preso em Ontário tentando vender alguns títulos falsificados. Ele foi escoltado de volta a Chicago para ser julgado.
Thomas Cream utilizou seus recursos restantes para contratar um dos melhores advogados de Chicago e se dedicou a transformar o caso em um acontecimento da mídia. Julia Stott tornou-se testemunha da acusação e contou ao tribunal que Cream a havia seduzido. Ele teria arquitetado o plano para envenenar seu marido e chantagear a empresa farmacêutica. Cream adulterou os comprimidos e, quando seu marido os tomou, morreu quase instantaneamente. Outra testemunha, Mary McClellan, testemunhou que ouviu Cream falando sobre o assassinato de Stott antes que o caso fosse divulgado. Não era de conhecimento público, mas Cream havia seduzido, abortado e abandonado a filha de Mary McClellan.
O médico argumentou que as acusações eram absurdas e partiam de pessoas que guardavam um rancor injustificado contra ele. Em suas palavras Julia Stott era uma mulher vingativa que havia feito ameaças contra seu marido e adulterado os comprimidos ela mesma. Os argumentos de Cream pareciam convincentes e ele os sublinhava com um charme inabalável. Mas desta vez, o júri não acreditou em suas desculpas e o considerou culpado de assassinato.
Thomas Neill Cream foi mandado para a Penitenciária Estadual de Illinois em Joliet onde deveria cumprir pena de prisão perpétua. Até onde se sabe, ele foi um prisioneiro modelo que auxiliava na enfermaria da prisão e que havia salvo ao menos dois colegas realizando neles procedimentos médicos emergenciais. O médico residente da prisão ficou tão impressionado com a façanha que chegou a escrever um artigo no qual louvava a habilidade do médico e seu zelo.
Após cumprir dez anos de sua pena, o Cream herdou US$ 16.000 como herança pela morte de seu pai. Logo em seguida, ele foi declarado “um sujeito apto e adequado para clemência executiva”. Sua pena foi reduzida para 17 anos e, com o bom comportamento, ele foi libertado no ano seguinte. Presume-se que o irmão de Cream tenha feito pagamentos a políticos influentes de Illinois para garantir sua libertação.
Algumas pessoas afirmam que o Dr. Cream tentou encontrar Julia Stott para se vingar, chegando a contratar a famosa Agência de Detetives Pinkerton para determinar seu paradeiro, mas ele acabou desistindo da busca. Aqueles que o conheceram mais intimamente afirmaram que o período na prisão havia tornado o médico um homem amargo e com um desequilíbrio flagrante, sobretudo quanto a mulheres que ele culpava pela sua derrocada.
Há boatos de que Cream teria exercido a medicina sem os documentos necessários em um quartinho alugado numa pensão sórdida de Chicago. Ele teria retomado sua prática como abortista, tendo conduzido dezenas de procedimentos. Um número chocante de suas clientes teriam morrido de hemorragia severa na mesa de cirurgia - o velho açougueiro estava de volta. A um amigo ele teria confidenciado certa vez: "Não importa quantas vadias vem até mim, sempre haverão outras. Eu faço um favor à sociedade deixando que elas e suas crias imundas simplesmente morram."
A polícia investigou a denúncia de um médico realizando abortos na região e temendo ser capturado novamente, Cream decidiu se mudar para a Inglaterra.
O médico se estabeleceu em Londres, atendendo no caótico East End da capital do Império, oferecendo "toda sorte de atendimento médico, tratamento e cirurgia especializada", ou ao menos era isso que dizia a tabuleta na entrada de seu consultório. O lugar, uma sala imunda sobre uma loja de artigos de couro, era a fachada perfeita para a especialidade do médico: abortos.
Aqueles que conheceram o Dr. Cream naquele período o descrevem como um sujeito estranho, irritadiço e com uma obsessão patológica contra mulheres. Um misógino contumaz, ele costumava fazer discursos quando embriagado de gim, nos pubs da região. Em várias ocasiões havia destilado seu ódio contra as mulheres em especial as que chamava de meretrizes. Certa vez jogou um copo e feriu o rosto de uma mulher que estava apenas passando quando ele falava. Cream também desenvolveu um grave vício em drogas que custaram a ele boa parte do controle necessário para realizar cirurgias. Apesar dos tremores ele continuava exercendo a medicina de forma errática, usualmente bêbado, frequentemente delirante.
O senhorio que alugava o espaço para seu consultório descreveu o comportamento de Cream da seguinte maneira:
"As mulheres eram sua obsessão, e suas conversas sobre elas eram tudo menos agradáveis. Ele carregava consigo fotografias pornográficas, que estava sempre disposto a exibir. Mostrava também livros médicos com desenhos chocantes de procedimentos cirúrgicos. Estes sempre mostravam mulheres abertas como peixes numa feira. Ele disse certa vez que comeu um feto que extraiu de uma cliente. Contou isso rindo até se urinar. Tinha o hábito de tomar comprimidos que, segundo ele, eram compostos de estricnina, morfina e cocaína, e cujo efeito, declarava, era afrodisíaco. Em suma, era um degenerado de hábitos e práticas imundas que eu me arrependo de ter conhecido".
Em 13 de outubro de 1891, Ellen Donworth, uma prostituta de 19 anos, foi morta com uma dose maciça de estricnina. Uma semana depois, Matilda Clover, outra prostituta de 27 anos, também morreu intoxicada. Seu corpo foi achado num beco atrás do consultório do médico. Na época nada ligava Cream a essas mortes, mas as duas eram clientes dele.
Em dezembro Cream fez uma estranha viagem de volta ao Canadá. Na ocasião ele comprou 500 comprimidos de estricnina de uma empresa farmacêutica em Saratoga, Nova York. Ele retornou a Londres com sua carga mortal e imediatamente os envenenamentos recomeçaram.
A primeira vítima foi Louise Harvey que recebeu dois comprimidos de estricnina e os tomou acreditando que eram pílulas para dor de cabeça. Alguns dias depois duas jovens prostitutas, Alice Marsh e Emma Shrivell, foram envenenadas depois de passarem uma noite na companhia de Cream. Ele lhes prescreveu comprimidos "para que pudessem dormir de forma mais tranquila". As duas morreram experimentando horríveis convulsões e crises de vômito crônico. Outras mulheres foram intoxicadas por doses de veneno colocadas em remédios comuns para dor de cabeça. O caso ganhou publicidade e o assassino misterioso passou a ser conhecido pela imprensa como o "Envenenador de Lambeth".
Os crimes denotavam os sintomas de um comportamento errático que beirava a insanidade. Posteriormente Thomas Cream teria dito que planejava envenenar todas as mulheres do East End e "causar o maior número possível de mortes entre as vadias". Mas seu plano acabou falhando quando a notícia sobre um criminoso utilizando Pílulas de Estricnina chegou até a empresa que vendeu o medicamento nos Estados Unidos. Desconfiados do sujeito que realizou uma enorme compra, eles entraram em contato com a Scotland Yard. A essa altura, a polícia já estava perto de capturar o criminoso após investigar cartas enviadas a alguns farmacêuticos que vinham sendo chantageados.
Em 21 de outubro de 1892, após uma breve investigação o médico recebeu ordem de prisão e se entregou com um sorriso cínico no rosto. O julgamento foi notavelmente rápido, dado seu histórico horripilante, hiper dimensionado pela imprensa da época. Não foi surpresa contudo que o júri o sentenciou à forca. Há conjecturas de que Cream sofria com os efeitos de um tumor cerebral e que isso pode ter ocasionado seu comportamento homicida, a suspeita, entretanto, nunca foi confirmada. Na época ele também foi apontado como um caso real do personagem fictício Dr. Jeckyl, que se transformava na sua contraparte criminosa o bestial Mr. Hyde. A imprensa do período comparou o infame médico a novela "O Médico e o Monstro" de Robert Louis Stevenson, popular na época.
O Dr. Thomas Neill Cream foi enforcado na prisão de Newgate em 15 de novembro de 1892. Segundo o carrasco, James Billington, as últimas palavras do médico, antes de ser interrompido pela corda que partiu seu pescoço teriam sido:
“Espere! Eu sou Jack, o est…”
A implicação era de que o Dr. Cream seria Jack, o Estripador, mas isso seria impossível, pois o médico ainda estava na prisão de Joliet em 1888, quando os assassinatos de Whitechapel ocorreram. Alguns acreditam nessa teoria, dizendo que Cream tinha um sósia que cumpriu o final de sua pena e que ele teria se refugiado em Londres justamente na época dos crimes algo bem pouco provável.
A vida, a carreira e a morte do Dr. Cream o colocaram no Hall dos assassinos mais infames da Era Vitoriana.






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