Em diversas religiões, filosofias e crenças ao redor do mundo, sempre existiu uma figura considerada a personificação absoluta do mal. Longe de estar restrita ao cristianismo, esse arquétipo das trevas e do mal está presente desde tempos imemoriais. Nos tempos modernos, ideias como a existência de um Diabo literal são tratadas como mero folclore e mitologia, uma metáfora para os males da humanidade, mas muitos o consideram uma força muito real e presente, além da nossa compreensão. A isso se somam vários relatos de encontros reais com algo que só pode ser descrito como o próprio Diabo encarnado. Aqui estão alguns relatos ao longo dos séculos de pessoas que se depararam com a manifestação física e o avatar do mal.
Alguns dos supostos encontros mais dramáticos e frequentes com o Diabo ao longo da história envolvem santos, que muitas vezes são descritos não apenas como tendo se deparado com o Senhor das Trevas, mas também como tendo lutado contra ele. Um dos relatos mais antigos é o de São Dunstan, um clérigo inglês do século X. Ele se tornou Arcebispo de Canterbury e era considerado por muitos um homem piedoso e respeitado na Igreja, além de músico, artista e habilidoso metalúrgico. Dizia-se também que ele teve vários encontros com o próprio Diabo.
Um dos primeiros encontros de São Dunstan com Satanás teria ocorrido enquanto ele vivia como eremita em Glastonbury. Certo dia, um misterioso estranho o abordou e pediu que usasse sua destreza na metalurgia para fazer um cálice para ele. Dunstan concordou e começou a trabalhar na peça solicitada, mas, passou a desconfiar daquela figura enigmática. Certo dia, decidiu segui-lo e constatou que ele não apenas era capaz de mudar de forma, passando de homem para mulher e depois para criança, como se transformava em um enorme corvo de olhos vermelhos. Ficou claro que se tratava de um demônio, mas Dunstan fingiu que não sabia de nada. Ele prosseguiu em seu trabalho como se nada estivesse errado. Então quando estava com o cálice pronto, ele atraiu o demônio até sua oficina devidamente protegida com símbolos religiosos e sal grosso. O demônio percebeu tarde demais que havia caído numa armadilha. São Dunstan armou-se com uma tenaz em brasa que usava em seu trabalho. Ele enfiou a ferramenta nas narinas do intruso, o que provocou gritos de dor e fez o diabo reverter a sua forma real e então fugir em desespero.
Mas o mesmo demônio retornaria em outra ocasião para um acerto de contas, desta vez enquanto São Dustan tocava harpa. O Diabo veio na forma de um vagabundo imundo e fedorento, mas Dunstan imediatamente percebeu quem era ele. Quando o estranho se aproximou, Dunstan teria o agarrado pela perna e começado a ferrá-lo como se fosse um cavalo, pregando uma ferradura em seu casco fendido. O Diabo teria gritado de agonia e concordado em ser libertado com a condição de nunca mais se aproximar de uma casa com uma ferradura pendurada na porta. Assim nasceu a lenda de que ferraduras dão sorte.
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| Uma iluminura medieval tratando da luta de St. Dustan |
São Dunstan se tornou uma espécie de Santo padroeiro daqueles que enfrentam lutas e conflitos. Foi canonizado entre outras coisas por conseguir enfrentar demônios no mano a mano.
Outro santo que supostamente teve encontros assustadores com o Diabo foi o italiano São Pio de Pietrelcina (1887-1968), também conhecido simplesmente como Padre Pio, que era particularmente famoso por exibir estigmas persistentes durante a maior parte de sua vida. Padre Pio teve violentas batalhas com o Diabo e seres sobrenaturais. Em uma ocasião, Frei Alessio um assistente que auxiliava Padre Pio, o encontrou ensanguentado e machucado em seus aposentos, e quando questionado ele contou que havia sido atacado por um demônio na forma de bode preto, que lhe quebrou três costelas. Em 1906, certa noite, Padre Pio ouviu passos vindos do quarto ao lado, que ele supôs serem os de seu amigo Frei Anastasio. Ele foi até a janela e tentou chamá-lo para conversar, mas nenhum som saiu de sua boca. Foi então que ele notou um grande cão preto sentado ameaçadoramente no parapeito de uma janela próxima. Ele relatou o que aconteceu em seguida:
"Vi o cachorro grande entrar pela janela e saía fumaça da boca dele. Senti um forte cheiro de enxofre e ouvi uma voz dizendo: "É ele, é ele. Mate-o!". O animal tentou me matar, mas eu o espantei clamando pela intercessão de Deus todo poderoso. A fera então saltou para o parapeito da janela, depois para o vazio e desapareceu numa nuvem preta".
Alega-se que esse tipo de encontro teria ocorrido ao longo de toda vida de Padre Pio, com o Diabo e outros demônios frequentemente o atacando, arrastando-o da cama, golpeando-o ou jogando-o de um lado para o outro no quarto. Em outras ocasiões, ele era impedido de dormir por batidas nas paredes ou no chão, ou até mesmo por cusparadas de uma presença invisível. Esses ataques se intensificaram a ponto de se tornarem quase diários, e o Diabo vinha buscá-lo disfarçado de várias maneiras, aparentemente com o propósito de enganá-lo, tentá-lo ou seduzi-lo. Um padre, o famoso exorcista italiano Gabriele Amorth, diria sobre essas variadas formas:
"O demônio aparecia para ele como um gato preto, ou na forma de um animal verdadeiramente repugnante como um sapo com asas e olhos amarelos. A intenção óbvia era enchê-lo de terror. Outras vezes, os demônios vinham como jovens moças, nuas e provocantes, realizando danças obscenas, para testar sua castidade. O demônio era dissimulado e perverso! Fazia de tudo para enganá-lo".
Supostamente, os demônios ficavam particularmente enfurecidos com o trabalho de Padre Pio como exorcista, já que ele alegadamente expulsou centenas de entidades diabólicas durante sua carreira. Um fato curioso é que as pessoas possuídas frequentemente reconheciam Padre Pio quando ele chegava e ficavam furiosas, insultando-o e amaldiçoando-o com palavrões e xingamentos. Era como se os demônios conhecessem bem o seu adversário e dirigissem contra ele sua fúria. Um dos colegas de Padre Pio, o Padre Tarcisio de Cervinara, diria sobre isso:
"Mais de uma vez, vi isso acontecer. Padre Pio era reconhecido pelo espírito possessor que o provocava e ameaçava. E antes de deixar o corpo possuído, os demônios gritavam: “Padre Pio, maldito seja, você e sua devoção”; e também: “Padre Pio, libere os corpos e almas e não o incomodaremos mais”.
A certa altura, Padre Pio cansou de "dar a outra face" e passou a confrontar o demônio com sua fé, sua devoção, e quando necessário com armas sagradas. Assim teria acontecido em uma ocasião em que o Padre usou um grande crucifixo para paralisar e enforcar um demônio que vinha lhe atormentando. A criatura foi capturada e sufocada até desaparecer em uma nuvem de enxofre. Em outra ocasião, um demônio formado por milhares de moscas foi esconjurado por ele graças a um aspersor com água benta. O Padre supostamente teria mandado fazer para ele uma lâmina de prata que ele levava no tubo oco de sua bengala. Essa arma branca tinha símbolos sagrados entalhados e era usada para esconjurar ou ferir os diabos em suas diversas formas.
Juntando-se às fileiras de santos que relataram encontros bastante dramáticos com o Diabo está Santa Gemma Galgani, do final do século XIX, que realmente acreditava que Satanás estava travando uma guerra pessoal contra ela. De acordo com a Vida de Santa Gemma Galgani, do Venerável Padre Germanus, e seus próprios diários, o Diabo era muito obcecado por ela e determinado a atacá-la. Uma das táticas favoritas do Diabo contra ela era, supostamente, atacá-la com terríveis dores de cabeça que a atormentavam a ponto de ela não conseguir se concentrar para rezar, mas ele não se furtava a atacá-la fisicamente. Em uma ocasião, o Diabo teria se aproximado dela enquanto ela escrevia sozinha e a arrastou da mesa pelos cabelos com "tanta violência que eles se soltaram em suas garras brutais". Ela escreveria sobre outros ataques assim:
"O demônio, na forma de um grande cão negro, pôs as patas sobre meus ombros, fazendo cada osso do meu corpo doer. Às vezes, eu acreditava que ele me mutilaria; então, certa vez, enquanto eu tomava água benta, ele torceu meu braço com tanta crueldade que caí no chão com muita dor. Depois de um tempo, lembrei-me de que tinha ao redor do pescoço a relíquia da Santa Cruz. Fazendo o Sinal da Cruz, fiquei calma e repetindo salmos o Demônio gritou e desapareceu".
Um encontro particularmente aterrador e violento com o Diabo foi relatado em seu diário da seguinte forma:
"O demônio se manifestou diante de mim como um cadáver de pele pálida e ameaçou: “Para ti não há mais esperança de salvação. Estás em minhas mãos!”. Respondi que Deus era misericordioso e, portanto, não temia nada. Ele ficou furioso, desferiu-me um forte golpe na cabeça e disse: “Maldita sejas!” e desapareceu. No dia seguinte ocorreu um segundo ataque, mas eu me preparei sabendo que ele retornaria. Mantive junto a mim uma pequena cruz de prata abençoada e a usei para afugentar o demônio que apareceu como uma nuvem de gafanhotos. Ao ver o brilho da cruz a forma se desfez e o demônio sumiu".
Não são apenas os santos que supostamente se depararam com a sinistra face sombria do próprio Diabo; de fato, tais relatos podem ser encontrados ao longo da história. Em 1683, ocorreu um incidente peculiar no qual um visitante misterioso, vestido todo de preto e aparentemente com cascos fendidos no lugar dos pés, chegou à Pensão Tavistock Inn, em Poundsgate, Inglaterra, montado em um cavalo preto com fogo saindo pelas narinas. Ele pediu informações sobre como chegar a Widecombe-in-the-Moor, em Dartmoor pois tinha um encontro com bruxas naquele lugar. Os funcionários, assustados, indicaram um caminho errado e o sujeito partiu. Alguns dias depois, uma bola de fogo aparentemente atingiu a igreja de St. Pancras, nas proximidades, ricocheteando violentamente e supostamente matando algumas pessoas. Embora a tragédia tenha sido atribuída a um raio, muitos acreditam que foi obra do Diabo furioso com a informação errada que recebeu.
Outro relato do século XII, narra a história de um monge aprisionado, condenado a ser emparedado dentro do edifício, a menos que conseguisse concluir uma enorme obra religiosa em uma única noite. Naturalmente, a tarefa provou ser impossível, e o monge, exasperado, invocou o próprio Diabo para ajudá-lo. Convenientemente, o Diabo apareceu e ofereceu-se para terminar todo o texto dentro do prazo em troca da alma do monge e de uma ilustração de seu semblante sombrio em suas páginas. O monge aceitou e o texto foi concluído a tempo. Este tomo ficou conhecido como Codex Gigas, ou também como "A Bíblia do Diabo", um livro de proporções enormes com 92 cm de altura, 50 cm de largura, 22 cm de espessura e pesando 75 kg, o que o torna o maior manuscrito medieval conhecido.
O livro é feito com cerca de 160 peles de animais e contém 310 páginas conhecidas, incluindo textos da Vulgata, diversos textos médicos, uma espécie de enciclopédia, um calendário, feitiços e um texto sobre exorcismos, entre outros, escritos principalmente em latim, mas também com alfabetos hebraico, grego e eslavo. A ilustração do Diabo, notória, destaca-se, com várias páginas anteriores apresentando uma tonalidade enegrecida em forte contraste com as demais páginas do livro. Embora as lendas afirmem que foi escrito em uma única noite, análises mostram que, na verdade, teria levado cerca de 5 anos de escrita contínua para ser concluído, aumentando ainda mais o mistério.
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| O misterioso Codex Gigas |
O conteúdo do Codex Gigas guarda muitos enigmas. A caligrafia meticulosa que o compõe é surpreendentemente uniforme do começo ao fim, sugerindo que foi escrito por um único escriba. Esse detalhe torna-se ainda mais misterioso ao considerarmos que se especula que toda a gigantesca coleção de textos contida nas páginas do livro, incluindo as iluminuras e ilustrações, teria exigido de uma única pessoa cerca de 5 anos de escrita contínua e ininterrupta, dia e noite, para ser concluída, e que uma estimativa realista para a criação de toda a obra, incluindo as páginas e a capa em pele de animal, seria de cerca de 25 anos para um único indivíduo. Isso é particularmente impressionante, visto que a caligrafia não apresenta sinais de deterioração ou influência da idade, doença ou humor do escritor, mantendo-se sempre consistente ao longo do vasto tomo de textos.
A natureza bizarra do manuscrito é ainda mais acentuada pelo fato de que cerca de 10 páginas estão faltando, aparentemente removidas intencionalmente ao longo dos séculos, embora o propósito seja desconhecido. Há teorias de que essas páginas faltantes poderiam conter informações consideradas perigosas demais para caírem nas mãos de meros mortais, que as páginas foram roubadas para algum propósito nefasto, ou que simplesmente foram consideradas ofensivas por algum antigo proprietário do livro. Diz-se que este texto misterioso é amaldiçoado e portador de infortúnio e morte, tendo ido parar misteriosamente na Biblioteca Nacional da Suécia, em Estocolmo. É uma história verdadeiramente bizarra.
Mas existe outro texto que supostamente contém a caligrafia do próprio Diabo. Data de 1523 um manuscrito italiano que narra um encontro entre o Diabo e um certo Ludovico Spoletano, que supostamente o invocou para ajudá-lo a escrever uma série de respostas a perguntas que lhe haviam sido feitas. Embora o Diabo devesse usar Spoletano apenas como um receptáculo, ele teria ficado frustrado e tomado a pena para escrever tudo ele mesmo. O resultado é uma estranha mistura de caracteres e letras que não foram decifradas até os dias atuais, embora tenham sido encontrados indícios de que contenha amárico, um idioma falado em sua forma pura na província de Amhara, na Etiópia.
No século XVIII, viveu um certo Giuseppe Tartini, violinista, compositor barroco, filósofo, cientista e teórico musical, contemporâneo de grandes nomes da música como Vivaldi e Veracini, que compôs e apresentou mais de 200 concertos e sonatas para violino ao longo de sua vida. Em 1765, Tartini teve um sonho no qual afirmava ter encontrado o Diabo. Nesse sonho, o Diabo ofereceu-lhe a oportunidade de se tornar um músico renomado em troca de sua alma. Para provar sua legitimidade, o Diabo pegou um violino e começou a tocar uma melodia assombrosa com magnífico virtuosismo, sobre a qual Tartini descreveu o seguinte:
"Uma noite, sonhei que havia feito um pacto com o diabo pela minha alma. Tudo correu como eu desejava: meu novo servo antecipava todos os meus desejos." Tive a ideia de lhe dar meu violino para ver se ele tocaria algumas melodias bonitas para mim, mas imagine meu espanto quando ouvi uma sonata tão incomum e tão bela, executada com tamanha maestria e inteligência, num nível que eu jamais imaginara ser possível. Fiquei tão extasiado que prendi a respiração e acordei ofegante. Imediatamente, peguei meu violino, na esperança de me lembrar de algum fragmento do que acabara de ouvir; mas em vão. A peça que compus em seguida é, sem dúvida, a minha melhor, e ainda a chamo de "A Sonata do Diabo", mas fica tão aquém daquela que me impressionou no sonho que eu teria quebrado meu violino e desistido da música para sempre apenas para ouvi-la novamente."
Tartini ficaria obcecado com a música que ouvira o Diabo tocar em seu sonho e finalmente conseguira, ao menos, aproximar-se de alguma semelhança com ela no papel, embora sempre lamentasse o quão pálida ela era em comparação com o que ouvira o Diabo tocar. Ele criaria uma composição que se aproximasse dela. A Sonata do Diabo é conhecida, ainda hoje, como uma peça incrivelmente difícil de executar tecnicamente, a ponto de ter havido um rumor de que Tartini precisaria de seis dedos para tocá-la da maneira como o fez, e que quem a tocasse por completo teria a alma possuída pelo Diabo. Chegou-se a dizer, na época, que a canção havia sido banida do Reino dos Céus por ser contrária a Deus. A chamada "Sonata do Diabo" permanece envolta em mistério desde então.
Há também o estranho relato do evangelista itinerante inglês George Whitefield, que em 1740 se encontrava na Nova Inglaterra, na igreja de Ipswich, Massachusetts. Nessa ocasião, Whitefield teria proferido um sermão inflamado e fervoroso, atacando Satanás com tanta veemência que o Diabo teria enviado um demônio para matá-lo. Segundo os relatos, Whitefield enfrentou a entidade diabólica e os dois lutaram ali mesmo, à vista de todos.
O Pastor Whitefield executou uma ordem poderosa para que seu inimigo fosse embora, após o que a besta supostamente caiu de um penhasco, aterrissando nas rochas lá embaixo. Mas esse não foi o fim da história: posteriormente a população de Ipswick descobriu estranhos rastros de cascos fendidos que saiam do penhasco e circulavam a cidade demonstrando que o demônio não havia morrido. E assim nasceu a lenda das “Pegadas do Diabo” de Ipswich.
Ao analisarmos tais relatos, voltamos à questão essencial: existe um Diabo, Satanás, ou como você quiser chamá-lo, de fato, fisicamente? Trata-se de uma entidade real que se infiltrou em nossas religiões e que se revela a nós de tempos em tempos? Ou tudo isso não passa de lenda, mito e conjectura? Para os verdadeiramente religiosos, provavelmente não há muita reflexão sobre essa questão, pois é um fato consumado. Mas e o restante das pessoas? O Diabo realmente existe ou é um personagem das lendas?
Dizem que o maior truque realizado pelo diabo foi fazer com que as pessoas deixassem de acreditar em sua existência. Se assim for, você que diz não acreditar na existência Dele, pode estar sendo enganado.






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