Pode parecer estranho e absurdo para nós, em pleno século XXI, acreditar que tal coisa já foi considerado um temor real e uma preocupação justificável. Na Idade Média, haviam feiticeiros e bruxas que podiam ser contratados para praticar malefícios com o intuito de matar os desafetos de quem os contratava.
A prática parecia ser incrivelmente comum e a magia parecia uma maneira rápida e letal de eliminar os inimigos. Claro, a eficácia dependia muito de quem era o mago contratado e de quem seria a vítima. Os métodos também poderiam variar, bem como os custos... Curiosamente há registros detalhados daquele que é reconhecido como um dos mais famosos casos de assassinato por magia da Inglaterra.
Nossa história começa numa noite de novembro de 1323. Um grupo de 27 cavalheiros de Coventry e Warwickshire se reuniu e foi até a casa de um certo John de Nottingham. O homem que vivia afastado tinha fama de ser um renomado curandeiro e um conhecedor de plantas e raízes que prescrevia para a cura de uma infinidade de males. Mas segundo os rumores da época, ele também era conhecedor de certas técnicas misteriosas que incluíam o contato com os mortos, a leitura da sorte, a criação de poções mágicas e a intermediação junto de forças diabólicas com o objetivo de firmar pactos. Para todos os efeitos John de Nottinghan era um homem com acesso ao mundo sobrenatural, um feiticeiro e um necromante renomado.
O grupo era liderado por Robert Latoner, que servia de porta-voz para seus companheiros. Ele explicou a Nottingham que eles tinham inimigos nos mais altos escalões do país: o Prior de Coventry, o Conde de Winchester, o "favorito" real Hugh le Despenser e — por último, mas certamente não menos importante — o próprio Rei Eduardo II. Latoner disse que pagaria a Nottingham o total de 20 libras e ao assistente do feiticeiro, Robert Mareschal, 10 libras, se eles conseguissem usar suas artes de bruxaria para matar o Rei e os outros inimigos mencionados. Eles também prometeram a Nottingham que, uma vez consumado o feito, ele teria hospedagem em qualquer casa religiosa que escolhesse. Após assassinar o rei, supostamente receberia uma identidade falsa de sacerdote e ficaria escondido num mosteiro de sua escolha.
Após algumas semanas realizando rituais ocultos e preparando as imagens, Nottingham convidou alguns dos conspiradores para testemunhar a cerimônia. Ele ergueu a imagem de Sowe e entoou um encantamento de gelar o sangue enquanto seu assistente cravava uma estaca na cabeça da figura. Na manhã seguinte, Nottingham enviou Mareschal à casa de Sowe para observar os resultados.
O que Mareschal encontrou foi de fato muito satisfatório. Da noite para o dia, Sowe enlouqueceu completamente, como se dominado por uma força diabólica. Ele gritava histericamente, havia perdido a razão e não reconhecia ninguém ao seu redor. O pobre Sowe permaneceu nesse estado por alguns dias, até que Nottingham removeu o alfinete da cabeça de cera do boneco e a enfiou no coração. Sowe morreu cerca de uma semana depois.
Os clientes de Nottingham ficaram muito impressionados e aliviados de que o dinheiro investido valia a pena. O necromante era realmente poderoso e capaz de matar à distância, exatamente como eles desejavam.
O grupo decidiu então agir sem perda de tempo. Sua próxima vítima seria o próprio Eduardo II, Rei da Inglaterra. Felizmente para o monarca, antes que o plano pudesse ser executado, Mareschal ficou receoso. Matar algumas pessoas era fácil, mas o Rei da Inglaterra era outra história. Ele não estava disposto a arriscar uma acusação de regicídio por míseras 10 libras. Marechal foi até o Xerife de Warwickshire com uma bela história para contar. O resultado foi que o Xerife, sob as ordens pessoais do Rei, ordenou a imediata prisão de Nottingham. Sob tortura, o feiticeiro revelou quem eram os 27 conspiradores. Como era de se esperar eles negaram tudo. Alguns conseguiram se eximir, outros pagaram multas ou foram banidos, mas nenhum deles, nem mesmo Robert Latoner chegou a ser formalmente acusado.
Nottingham e Mareschal foram colocados sob a custódia do Xerife Robert de Dumbleton, um homem famoso pela sua violência e crueldade. Quinze dias após a Páscoa, Dumbleton recebeu ordens para levar John de Nottingham perante o Rei como cabia nas acusações de regicídio. Infelizmente, suspirou o Xerife, isso era impossível. O prisioneiro havia morrido repentinamente, talvez devido às torturas que havia sofrido na masmorra para revelar os nomes dos conspiradores, mas possivelmente por suicídio. Os registros oficiais afirmam que este é o fim da história, Nottingham morreu e sem o seu depoimento não foi possível acusar formalmente seus contratantes.
Contudo, há lendas que cercam esse caso misterioso e que conferem a ele toda uma aura macabra que inclui a pérfida "vingança além do túmulo".
Diz a lenda que John de Nottingham morreu sussurrando uma maldição contra os traidores que o contrataram e que escaparam convenientemente pelos meandros do processo. Por serem poderosos eles se sentiam intocáveis e inatingíveis. O Necromante teria escrito o nome de cada um dos 27 conspiradores na parede de sua cela, usando o sangue de suas veias. Em seguida, ele cuspiu nos nomes e os amaldiçoou implorando às forças do inferno que respondessem ao seu pedido para que eles não escapassem de sua ira.
E assim, segundo os boatos, a Maldição do Feiticeiro começou a agir logo após a sua morte.
Acidentes estranhos, quedas, doenças repentinas e outros estranhos acontecimentos teriam atingido os 27 homens jurados de morte pelo bruxo. Um a um, num espaço de menos de um ano, eles foram morrendo ou desaparecendo. A história registra que Robert Latoner, o chefe dos conspiradores teria perecido após um inexplicável acidente de caça. Um teria sido jogado de seu cavalo quebrando o pescoço, outro contraiu uma moléstia desconhecida e outro ainda, morreu vítima do amante de sua esposa. Vinte e Sete mortes no período de um ano, atingindo todos envolvidos na conspiração parece ser algo grande demais para ser tratado como mera coincidência.
Segundo as lendas, a Maldição de John de Nottingham foi ainda mais potente, atingindo as gerações seguintes, vitimando o filho mais velho de cada um dos conspiradores, que também estaria fadado a morrer em estranhos acidentes e acontecimentos inusitados.
No entanto, a vingança mais terrível seria direcionada ao antigo ajudante do Necromante, Robert Mareschal, aquele que denunciou a conspiração e o trabalho de seu mestre.
A lenda menciona que após o ocorrido, Mareschal tentou se proteger de todas as formas possíveis, sabendo que a maldição começava a corroer o círculo de conspiradores um a um. Ele teria buscado proteção em um monastério e pedido a ajuda de um monge que conhecia toda sorte de encantamento.
Mas de nada adiantou... eventualmente a morte o encontrou de maneira terrível e aterrorizante. Há relatos de que o corpo de Robert Mareschal foi devorado por lobos e outros dizem que ele teria morrido esganado em um quarto trancado por dentro. Finalmente, alguns supõem que ele teria cedido à loucura e, atormentado por pesadelos, se lançou do alto de uma torre para a morte certa.
Infelizmente não há como precisar esse relato, os acontecimentos são muito antigos e já é um milagre que os registros sobre o caso tenham sobrevivido. O que transcorreu depois do procedimento é mera especulação e rumor, mas não deixa de ser fascinante imaginar que um Feiticeiro poderia ser capaz de matar usando para isso uma maldição proferida pouco antes dele próprio morrer.




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