sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Lizzie Borden: o machado, duas mortes e um mistério sem solução

Na manhã de 4 de agosto de 1892, a casa da família Borden, em Fall River, Massachusetts, tornou-se cenário de um dos crimes mais célebres da história americana. Andrew Jackson Borden, um próspero homem de negócios de 70 anos, estava sentado no sofá da sala quando foi atacado. Seu rosto havia sido violentamente golpeado repetidas vezes, deixando-o irreconhecível. Pouco depois, no andar superior, sua esposa Abby Borden foi encontrada morta no quarto de hóspedes. Ela havia sofrido uma sequência ainda mais brutal de golpes na cabeça e no rosto. O que inicialmente parecia ser um duplo homicídio cometido por um intruso logo se transformaria em um dos grandes mistérios criminais do século XIX.

A pessoa que daria ao caso seu nome e sua fama era Lizzie Andrew Borden, filha mais nova de Andrew e enteada de Abby. Nascida em 1860, Lizzie vivia na casa com o pai, a madrasta e a irmã Emma. A família, entretanto, estava longe de ser completamente harmoniosa. Existiam ressentimentos relacionados ao patrimônio e à administração da fortuna de Andrew, e Lizzie mantinha uma relação particularmente difícil com Abby. Emma, a irmã mais velha, estava fora da cidade no dia dos assassinatos. Naquela manhã, Lizzie e a empregada Bridget Sullivan estavam na residência, enquanto Andrew havia saído para tratar de seus negócios.

Andrew foi o primeiro a morrer. Por volta das 11 horas da manhã, seu corpo foi encontrado no sofá da sala, coberto por sangue. Os ferimentos indicavam que o ataque havia sido extremamente violento: seu rosto e cabeça tinham sido golpeados repetidamente por um instrumento semelhante a um machado ou machadinha. O detalhe mais perturbador era que o assassino aparentemente não precisara lutar com a vítima durante muito tempo. Andrew estava descansando quando foi surpreendido e golpeado. A posição do corpo e a quantidade de sangue espalhada pela sala transformaram imediatamente a residência em uma cena de crime particularmente chocante para os padrões da época.

O corpo de Abby seria descoberto pouco depois, e sua morte parecia ainda mais horrível. Ela estava no quarto de hóspedes, deitada de bruços, e havia sido atacada repetidamente na cabeça. A violência era tamanha que os ferimentos apresentavam características que tornavam evidente que o assassino não havia parado após o primeiro golpe. Posteriormente, os exames médicos seriam utilizados para determinar a extensão das agressões. Abby recebera cerca de dezenove golpes, enquanto Andrew apresentava aproximadamente dez ou onze ferimentos. A brutalidade dos assassinatos seria um dos elementos que mais impressionariam o público durante o julgamento.

A pergunta que imediatamente dominou Fall River era simples: quem poderia ter feito aquilo? A princípio, um criminoso desconhecido parecia a explicação mais provável. A casa não apresentava uma resposta óbvia e a polícia começou a procurar um intruso. Mas a investigação rapidamente voltou-se para dentro da própria residência. Lizzie apresentou versões sobre seus movimentos naquela manhã que seriam examinadas cuidadosamente pelos investigadores. Havia também uma questão que se tornaria central para a acusação: como alguém poderia ter cometido dois assassinatos tão violentos dentro da casa sem que os demais moradores percebessem? A atenção da polícia começou gradualmente a concentrar-se sobre a filha de Andrew.

A investigação criminal de 1892, naturalmente, não dispunha das ferramentas que hoje consideramos indispensáveis. Não havia DNA, bancos de dados modernos, câmeras de segurança ou métodos sofisticados de reconstrução de cenas de crime. A polícia dependia de depoimentos, objetos encontrados na residência, exames médicos e contradições nos relatos dos envolvidos. Uma machadinha encontrada no porão acabou entrando na investigação como possível arma do crime, embora não fosse possível estabelecer de maneira definitiva que aquele instrumento tivesse sido usado para matar Andrew e Abby. A ausência de uma prova física conclusiva seria um dos maiores problemas da acusação.

As suspeitas sobre Lizzie, contudo, foram crescendo. Um dos episódios mais comentados ocorreu quando veio à tona que ela teria tentado adquirir ácido prússico, uma substância extremamente venenosa, pouco antes dos assassinatos. A acusação considerou o episódio potencialmente significativo, embora a evidência relacionada a essa tentativa não pudesse ser apresentada da maneira desejada durante o julgamento. Outro acontecimento seria ainda mais explorado pela imprensa: poucos dias depois dos crimes, Lizzie foi vista queimando um vestido. Para a acusação, poderia tratar-se da destruição das roupas que ela teria usado durante os assassinatos; para a defesa, era simplesmente uma peça velha que precisava ser descartada.

Em 11 de agosto de 1892, apenas uma semana depois dos assassinatos, Lizzie Borden foi presa e formalmente acusada da morte de seu pai e de sua madrasta. O caso rapidamente ultrapassou as fronteiras de Fall River. Os jornais americanos acompanharam cada etapa da investigação, publicando relatos sobre as testemunhas, os objetos encontrados e as suspeitas contra a jovem. Quando o processo avançou para o grande júri e posteriormente para o julgamento, a imprensa já havia transformado Lizzie em uma das mulheres mais famosas — e controversas — dos Estados Unidos. A própria documentação preservada pela Library of Congress mostra como o caso recebeu uma cobertura extraordinária nos jornais da época.

O julgamento começou em 5 de junho de 1893, em New Bedford. A acusação precisava convencer os jurados de que Lizzie havia matado primeiro Abby e depois Andrew, apesar da ausência de uma arma inequivocamente vinculada aos crimes e de nenhuma testemunha que tivesse presenciado os assassinatos. O processo adquiriu contornos quase teatrais. Um dos episódios mais macabros ocorreu quando a violência dos ferimentos foi apresentada ao júri através das evidências médicas. A cobertura contemporânea registra que a própria Lizzie passou mal quando a acusação apresentou uma machadinha e discutiu os ferimentos provocados nos mortos.

A defesa explorou precisamente as fragilidades da investigação. As versões de Lizzie sobre seus movimentos foram discutidas minuciosamente, assim como os depoimentos de empregados, vizinhos e policiais. A acusação tentava construir uma sequência lógica baseada em circunstâncias: o conflito familiar, as relações difíceis com Abby, as declarações consideradas suspeitas, o possível descarte do vestido e outros episódios. Mas circunstância não era o mesmo que prova. O júri precisava concluir que Lizzie havia cometido os assassinatos além de uma dúvida razoável, e a defesa conseguiu transformar as lacunas da investigação em uma barreira difícil de superar.

Em 20 de junho de 1893, depois de pouco mais de uma hora de deliberação, o júri retornou com seu veredicto: Lizzie Borden era inocente. A absolvição provocou enorme repercussão. O público que acompanhara durante meses os detalhes macabros do caso agora precisava aceitar que, juridicamente, a mulher que havia sido colocada no centro da investigação não era culpada pelos assassinatos. A Library of Congress registra a data como o encerramento formal do processo. Há inclusive ilustrações contemporâneas preservadas em seus arquivos mostrando Lizzie no tribunal ao lado de seus advogados, evidência do enorme interesse público que o julgamento despertou.

Lizzie passou o restante da vida sob a sombra daqueles crimes. Embora tenha sido absolvida, a opinião pública jamais chegou a uma conclusão tão definitiva quanto o júri. Ela morreu em 1927, e os assassinatos de Andrew e Abby Borden continuam oficialmente sem uma solução judicial. Nenhuma outra pessoa foi condenada pelos homicídios. 

Com o passar das décadas, o caso deixou de ser apenas uma investigação criminal do século XIX e tornou-se uma espécie de lenda americana, cercada por livros, filmes, teorias e inúmeras tentativas de reconstruir o que realmente aconteceu naquela casa de Fall River. E talvez seja justamente essa ausência de uma resposta definitiva que mantenha a história viva: duas pessoas morreram de maneira brutal dentro de uma casa aparentemente segura, uma mulher foi acusada, julgada e absolvida — e, mais de um século depois, ainda não sabemos quem empunhou o machado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário