Entre as substâncias conhecidas pelos mais calejados praticantes das artes proibidas, nenhuma é tão detestável quanto aquela que os tomos esotéricos chamam simplesmente de Escuro. Não se trata de tinta, resina, veneno ou qualquer outra matéria conhecida pelos homens, embora tenha sido confundido com todas elas. Os tomos de magia afirmam que o Escuro é o sangue de Yibb-Tstll, o Paciente, e que cada gota contém algo da natureza daquela entidade que contempla o tempo de sua morada na Terra dos Sonhos. Alguns autores, contudo, são mais cautelosos e afirmam que chamá-lo de sangue é apenas uma aproximação grosseira, pois a anatomia de Yibb-Tstll não obedece às leis que governam os organismos terrenos. O Escuro pode ser seu sangue, mas também pode ser sua essência, sua memória ou alguma outra substância para a qual não possuímos palavra adequada.
Sua origem permanece obscura, embora os textos conhecidos como Sathlattae (fala-se Saf-LA-ta) sejam inequívocos quanto à existência de um ritual destinado a convocá-lo. O Sexto Sathlatta, preservado no Cthäat Aquadingen e em fragmentos atribuídos aos antigos Ptetholitas, contém os procedimentos necessários para invocar O Escuro, estando associado simultaneamente ao contato e à invocação de Yibb-Tstll. A tradição é tão antiga que alguns de seus caracteres foram preservados em escritas anteriores às civilizações humanas conhecidas. É provável que os primeiros homens que empregaram o ritual não tenham compreendido a natureza daquilo que estavam chamando. Talvez nenhum deles tenha compreendido até ser tarde demais.
À primeira vista, O Escuro é uma matéria de aparência impossível. Quando manifesta-se sobre o mundo desperto, costuma assumir a forma de minúsculos flocos negros, semelhantes a neve ou cinza, que parecem cair de lugar algum. Contudo, aquilo que parece seco e leve ao primeiro olhar revela-se pegajoso e úmido quando toca a carne. Os flocos aderem à pele, acumulam-se sobre o corpo e rapidamente formam uma camada escura, viscosa e sufocante. Não devem ser confundidos com fuligem ou matéria orgânica queimada: O Escuro parece possuir uma coesão própria, como se cada partícula soubesse onde deve se depositar. Uma vez convocado, ele não simplesmente permanece onde caiu ou se dissipa.
Seu uso mais terrível é também o mais conhecido. O Escuro pode ser empregado como uma arma sobrenatural, sendo convocado por meio de ritos cuja execução exige conhecimentos encontrados em grimórios que poucos homens sensatos abririam. Uma vez chamado, ele envolve o alvo, aderindo ao corpo e obstruindo progressivamente a respiração. Não é necessário golpe, lâmina ou instrumento algum. A própria substância transforma-se em uma mortalha viva. A tradição afirma que a vítima é sufocada pelo Escuro e que sua essência pode ser levada para além do mundo conhecido. É uma das razões pelas quais os feiticeiros que conhecem esse poder são temidos mesmo por outros praticantes da feitiçaria.
Não se deve imaginar, entretanto, que qualquer ocultista possa simplesmente possuir uma ampola de Escuro. Obtê-lo é uma operação ritual, e não simples coleta. Os textos associados ao Sexto Sathlatta indicam que sua convocação depende de procedimentos específicos e de conhecimentos complementares preservados em outros volumes, incluindo uma fórmula conhecida como Canto de Hoy-Dhin. Isso significa que O Escuro não é encontrado em frascos escondidos em criptas, nem pode ser recolhido do corpo de Yibb-Tstll como se fosse sangue ordinário. Ele precisa ser chamado. E talvez essa distinção seja fundamental: aquilo que o feiticeiro possui não é uma reserva da substância, mas uma maneira de persuadir o universo a manifestá-la.
Há registros de experimentos nos quais cultistas tentaram conservar pequenas quantidades de Escuro em recipientes de vidro, cerâmica ou chumbo. Os resultados, quando acreditamos nos relatos, foram invariavelmente insatisfatórios. A substância parece perder rapidamente as propriedades que apresenta quando encerrada, ou simplesmente desaparece sem deixar resíduo. Em outros casos, permanece depositada no recipiente durante meses, apenas para vazar ou escapar. Tal comportamento seria inexplicável para qualquer químico terrestre. Uma hipótese mais interessante é que O Escuro não seja inteiramente matéria, mas matéria apenas quando observado sob determinadas condições. O recipiente não o contém; no máximo, convence-o temporariamente a permanecer ali.
As tentativas de realizar uma análise química revelariam uma segunda impossibilidade. Amostras submetidas a aquecimento, dissolução, centrifugação ou reagentes conhecidos não apresentam comportamento consistente. Em alguns relatos, a substância parece possuir propriedades semelhantes às de proteínas e pigmentos orgânicos; em outros, não apresenta decomposição mesmo quando submetida a condições que destruiriam qualquer tecido conhecido. Seu pigmento não reflete simplesmente a luz: parece absorvê-la. Sob iluminação intensa, uma amostra pode adquirir uma tonalidade azulada ou arroxeada nas bordas, enquanto permanece absolutamente negra no centro. Não foram encontrados elementos químicos que expliquem satisfatoriamente sua capacidade de aderir à carne ou sua aparente reação à presença de seres vivos. Naturalmente, um químico que tivesse oportunidade de realizar tais experiências teria primeiro de explicar por que estava examinando o sangue de uma divindade alienígena.
Mais perigosas ainda são as histórias sobre a ingestão do Escuro. Os textos não recomendam semelhante prática e, de fato, poucos afirmam que ela possa ser realizada de maneira deliberada. Aqueles que o fizeram descrevem inicialmente uma ausência completa de sabor, seguida por uma sensação de frio que se espalha pelo corpo. O sangue parece tornar-se pesado, os sentidos sofrem alterações e o indivíduo começa a perceber movimentos que não estão realmente presentes. Alguns relatam enxergar os acontecimentos de uma sala em diferentes momentos simultaneamente; outros afirmam ouvir vozes vindas de lugares onde não há ninguém. O resultado mais perturbador não é necessariamente a morte, mas a possibilidade de que o indivíduo passe a perceber o tempo como Yibb-Tstll o percebe. Se tais relatos forem verdadeiros, ingerir O Escuro não seria envenenamento. Seria uma alteração da própria posição do homem diante da realidade cósmica.
Os efeitos posteriores são ainda menos confiáveis. Alguns manuscritos mencionam homens que, depois de ingerir a substância, sofreram alterações físicas aparentemente incompatíveis com a anatomia humana. Outros descrevem mudanças exclusivamente mentais: memórias de acontecimentos que nunca ocorreram, conhecimento de idiomas jamais aprendidos ou a convicção de que determinadas pessoas já haviam morrido apesar de continuarem vivas. Há também referências a indivíduos que passaram a sonhar continuamente com a Selva de Kled, onde contemplavam Yibb-Tstll sem jamais conseguir aproximar-se dele. É impossível determinar quanto dessas histórias é fato e quanto é superstição dos próprios cultistas. Talvez seja justamente essa incerteza que preserve sua utilidade como elemento de horror.
Sua relação com Bugg-Shash torna O Escuro ainda mais misterioso. O Cthäat Aquadingen coloca Yibb-Tstll e Bugg-Shash entre os chamados Afogadores, entidades parasitárias relacionadas de alguma maneira aos Grandes Antigos. Bugg-Shash, por sua vez, é uma criatura que se alimenta de suas vítimas por meio de um ritual profano conhecido como seu "Beijo". A proximidade entre os dois seres levou alguns estudiosos a especular que O Escuro não seja exclusivamente propriedade de Yibb-Tstll, mas parte de uma natureza compartilhada por essas entidades parasitárias. Talvez o Escuro seja uma espécie de alimento, secreção ou mecanismo de reprodução. Talvez seja a matéria através da qual esses seres transportam aquilo que roubam das criaturas que devoram. O Cthäat Aquadingen oferece poucas respostas e muitas advertências.
Do ponto de vista místico, entretanto, a interpretação mais inquietante é outra. O Escuro seria uma substância que circula por uma criatura que não possui verdadeira carne, mas que existe simultaneamente em diferentes pontos do tempo. Nesse sentido, cada gota poderia conter uma diminuta porção da percepção do Paciente. O feiticeiro que o utiliza não estaria simplesmente manejando uma arma: estaria colocando em contato com nosso mundo uma parcela daquilo que Yibb-Tstll é. Talvez seja essa a razão pela qual O Escuro procura a carne humana quando convocado. Talvez não esteja atacando o homem. Talvez esteja tentando retornar para aquilo de que veio.
É por isso que os antigos tratados recomendavam que o Sexto Sathlatta jamais fosse pronunciado levianamente. Há encantamentos que invocam criaturas, outros que abrem portas e alguns que permitem conversar com os mortos. O Sexto Sathlatta faz algo muito pior: permite que uma parte de Yibb-Tstll atravesse para cá. E, uma vez manifestado, O Escuro não parece distinguir entre aquele que o chamou e aquele que deveria ser sua vítima. Para ele, todos os seres vivos podem ser simplesmente recipientes temporários. Talvez seja essa a verdadeira lição preservada pelos velhos grimórios: não há diferença entre beber o Escuro e chamá-lo. Em ambos os casos, alguma coisa de Yibb-Tstll passa a existir dentro de você.
E se os relatos forem verdadeiros, ela sempre percebe quando isso acontece.



