sábado, 17 de abril de 2010

"Ele irrompeu em chamas!" - Combustão Humana em Call of Cthulhu

O Fenômeno Paranormal da Combustão Humana Espontânea (doravante C.H.E) em essência nada tem a ver com os Mitos de Cthulhu. Mas indubitavelmente pode ser fonte de idéias para cenários de Call of Cthulhu.

Afinal, nada mais intrigante do que um mistério praticamente inexplicável para aguçar a curiosidade dos jogadores e impulsionar sua investigação. Por experiência própria, posso afirmar, que criar cenários relacionando mistérios reais com os Mitos rende ótimas sessões, pois os jogadores adicionam aquilo que sabem a respeito do assunto ao jogo, estabelecendo um terreno fértil para o roleplay.

Um cenário sobre C.H.E, provavelmente vai envolver a descoberta de uma ou mais vítimas do fenômeno. No tópico anterior, podem ser encontradas várias fotografias verídicas do fenômeno. Para criar uma descrição envolvente e perturbadora sugiro que o keeper estude essas imagens (algumas bem chocantes, é verdade).

Uma descrição de tal cena poderia conter as seguintes informações:

"O cadáver parece ter sido consumido por uma chama que ardeu ferozmente, queimando quase sua totalidade. Os restos foram calcinados deixando apenas ossos escuros e dentes. O odor que se ergue desses restos é nauseante uma mistura de gordura animal e fumaça de lenha. Contudo, não há nenhum indício da queima de óleo combustível o que seria evidente num caso de destruição intencional de cadáver empregando catalizadores voláteis como gasolina ou benzeno. Mais estranho é que a chama não destruiu as extremidades do corpo concentrando-se no torso e dali espalhando-se para a cabeça. As mãos e parte dos braços, bem como os pés e pernas, se encontram intocados, ainda que despreendidos dos ossos caídos em meio às cinzas.

Por mais estranho que possa parecer, o corpo parece ter queimado de dentro para fora, deixando no chão uma marca enegrecida, que não se alastrou pelo ambiente, embora fosse lógico que outros objetos também tivessem sido afetados pela intensa fonte de calor. Marcas de fumaça e fuligem podem ser vistas no teto, mas não há sinal dele ter sido "lambido" pelas labaredas. É intrigante também que após ter consumido o corpo, as chamas tenham simplesmente se apagado.

Há uma grande concentração de cinzas e material resultante de queima carbônica, algo que se esperaria encontrar na pira de um crematório. Esse material residual está restrito em uma área de mais ou menos um metro e meio correspondendo exatamente a silhueta deixada por um corpo humano".


Uma descrição vívida cria espectativa e estabelece a sensação de estranheza que deve acompanhar os investigadores ao longo do cenário. Eu diria que a perda de sanidade por descobrir um corpo nesse estado seria de 1/1d4 pontos, talvez 1d4+1 caso o odor ainda seja ofensivo aos sentidos.

Estar presente quando o fenômeno de Combustão ocorre acarreta em uma perda de sanidade bem maior. O custo de 2/1d8 pontos de sanidade é adequado, uma vez que envolve testemunhar uma horrenda, agonizante e inexplicável morte.

As chamas que consomem a vítima durante o fenômeno não podem ser apagadas, uma vez que ardem de dentro para fora. Indivíduos acometidos pela combustão provavelmente terão uma reação extrema que pode ser confundida com um ataque, isso até as chamas se alastrarem para fora queimando pele, cabelos e roupas. A vítima perde 1d3 HP no primeiro round e 1d6 nos rounds seguintes a medida que o fogo se intensifica.

As chamas se concentram na vítima, não se alastrando para o ambiente. Porém, é razoável supor que tocar nessa chama com as mãos nuas cause uma queimadura (1d3 pontos de dano). Uma fonte de calor dessa natureza, é capaz de consumir um corpo em menos de 50 segundos.

Parapsicólogos acreditam que a C.H.E possa ter relação com a faculdade psíquica conhecida como Pirocinese. A pirocinese é a capacidade de acelerar as moléculas a um estado de fricção que ocasiona o surgimento de fogo, utilizando apenas o poder da mente.

Os estudiosos acreditam que os pirocinéticos podem manifestar essa capacidade de forma involuntária, ocasionando incêndios e acidentes. A C.H.E seria um efeito da pirocinese levada ao estágio crítico de descontrole.

Na ficção dos Mitos de Cthulhu, a combustão humana pode ser causada por diferentes elementos.

Em primeiro lugar, existem magias (descritas no Grimório do Livro Básico) cujo efeito final se assemelha a Combustão Humana Espontânea. O mais terrível desses encantamentos é conhecido pelo sugestivo nome de "Magia da Morte" (Death Spell). Trata-se de uma das mais temidas e poderosas magias existentes, capaz de incendiar o alvo de dentro para fora, condenando-o a uma morte medonha. O que resta pode ser interpretado como uma vítima de C.H.E.

Felizmente não se trata de uma magia comum, muito pelo contrário. Apenas feiticeiros extremamente poderosos e profundos conhecededores dos segredos arcanos, tem acesso a essa magia que demanda controle e enorme quantidade de energia mística para ser realizada.

Cenários envolvendo Combustão Espontânea, no entanto, me parecem remeter diretamente a entidades como Cthugha e seus servos, os Vampíros de Fogo (Fire Vampires). Eles são afinal criaturas compostas de chama viva.

Cthugha é uma divindade óbscura que habita a distante estrela de Formalhaut e assim como os outros Grandes Antigos encontra-se aprisionada "até as estrelas estarem certas". Cthugha é uma entidade formada por gás incandecente e plasma, que se assemelha a uma colossal bola de fogo primordial que flutua no espaço como um sol. Dessa massa serpenteiam tentáculos de plasma super aquecido.

Os poderes de Cthugha envolvem controle sobre o calor, o fogo e radiação solar. August Derleth, criador dessa entidade, postulava que Cthugha representava o elemento fogo na controversa Teoria Elemental que relaciona os Mitos com os quatro elementos essenciais da criação.

Cthugha raramente atende a invocações, e se o faz é por poucos instantes, sempre ocasionando destruição generalizada. A entidade possui poucos cultos humanos, os Nestarianos estão entre os únicos maníacos o bastante para fazê-lo. Um ataque de Cthugha poderia se passar por uma ocorrência de C.H.E.

Em Formalhaut, Cthugha é servido por uma raça de criaturas que se convencionou chamar Vampiros de Fogo.

Estes seres se assemelham a pequenas chamas que flutuam e agem de forma consciente atacando ou perseguindo pessoas com o intuito de consumi-las. Os vampiros de fogo se alimentam da queima de material combustível orgânico incluíndo árvores, animais e pessoas.

Eles podem ser invocados através de magias conhecidas pelos cultos devotos do fogo e recebem sacrifícios em nome de Cthugha. Vítimas de vampiros de fogo são totalmente consumidas pelas chamas, mas em alguns casos os restos podem ser confundidos com indivíduos que sofreram combustão humana espontânea.

Cultistas epecialmente cruéis são capazes de invocar Vampiros de Fogo dentro de suas vítimas que são assim cremadas internamente. Essa é uma das mais severas punições impingidas pelos Nestarianos aos seus inimigos.

Combustão Humana Espontânea - Um Enigma da Paranormalidade


Qual a explicação para os mais de 300 casos documentados ao redor do mundo de indivíduos que tiveram seus corpos incinerados de dentro para fora?

O Fenômeno da Combustão Humana Espontânea tem desafiado estudiosos da paranormalidade há séculos e tornou matéria de discussão para cientistas, parapsicólogos e céticos, mas até hoje existem mais dúvidas do que certezas.

O que ocasionaria esse fenômeno? Ele é real ou algum tipo de engodo?

O artigo a seguir foi compliado a partir das excelentes informaçõe contidas no programa "How Stuff Works", a respeito de Combustão Humana Espontânea.

ATENÇÃO: O srtigo à seguir contém algumas fotos que podem ser chocantes, portanto estejam avisados.

Introdução


Em dezembro de 1966, o corpo do Dr. J. Irving Bentley, de 92 anos, foi descoberto na Pensilvânia, ao lado do medidor de consumo de eletricidade de sua casa. Na realidade, apenas parte da perna dele e um pé, ainda com o chinelo, foram achados (foto ao lado). O restante do seu corpo tinha se transformado em cinzas. A única evidência do fogo que causara sua morte, era um buraco que havia no piso do banheiro: o resto da casa estava intacto e não sofrera nada.

Como se explica que um homem pegou fogo – sem nenhuma origem aparente de faísca ou chama – queimando completamente o próprio corpo, sem espalhar as chamas para nenhum objeto próximo? O caso do Dr. Bentley, e centenas de outros casos semelhantes, ficaram conhecidos como eventos de “combustão humana espontânea” (Spontaneous Human Combustion – SHC). Embora ele e outras vítimas do fenômeno tenham sofrido combustão quase total, as redondezas de onde se encontravam, ou as próprias roupas, muitas vezes não sofriam dano algum.

Os seres humanos podem ser consumidos espontaneamente pelo fogo? Muitas pessoas acreditam que a combustão humana espontânea seja um fato real, mas a maioria dos cientistas não estão convencidos.

O que é a combustão humana espontânea?


A combustão espontânea ocorre quando uma pessoa rompe em chamas por causa de uma reação química interna aparentemente não provocada por uma fonte externa de calor.


A primeira combustão humana espontânea conhecida foi divulgada pelo anatomista dinamarquês Thomas Bartholin, em 1663, quando descreveu como uma mulher em Paris “foi reduzida a cinzas e fumaça” enquanto dormia. O colchão de palha onde ela estava deitada não foi danificado pelo fogo. Em 1673, um francês chamado Jonas Dupont, publicou uma coleção de casos de combustão espontânea na sua obra “De Incendiis Corporis Humani Spontaneis”.


As centenas de casos de combustão espontânea ocorridas desde aquela época tiveram uma característica comum: a vítima sempre era consumida quase completamente pelas chamas, usualmente dentro da própria residência, e os médicos legistas presentes relatavam ter sentido cheiro de uma fumaça adocicada nos cômodos onde os eventos tinham ocorrido.

A peculiaridade que os corpos carbonizados apresentavam era o fato das extremidades terem permanecido intactas. Ainda que o dorso e cabeça tivessem sido carbonizados de forma irreconhecível, as mãos, pés e/ou parte das pernas não tinham se queimado. Além disso, o cômodo onde o corpo fora encontrado mostrava pouco ou nenhum sinal de fogo, salvo por um pequeno resíduo que tivesse ficado na mobília ou nas paredes. Em raros casos, os órgãos internos da vítima permaneciam intactos, enquanto a parte externa era carbonizada.

Nem todas as vítimas de combustão humana espontânea eram simplesmente consumidas pelas chamas. Algumas desenvolviam estranhas queimaduras no corpo, embora não houvesse nenhuma razão para isso, ou emanavam fumaça sem que existisse fogo por perto. Nem todos os queimados sucumbiam: uma pequena porcentagem de pessoas que tinham passado pela combustão espontânea sobrevivia.

As teorias


Para entrar em combustão, o corpo humano precisa de duas coisas: alta intensidade de calor e uma substância inflamável. Sob circunstâncias normais o corpo humano não possui nenhuma dessas características citadas, mas alguns cientistas têm especulado sobre a possibilidade desses acontecimentos ao longo dos séculos.


No século XIX, Charles Dickens despertou grande interesse na combustão humana espontânea, usando-a para matar um personagem de sua novela “A casa abandonada (”Bleak House”). Krook, o personagem alcoólatra, compartilhava da crença comum nessa época de que a combustão humana espontânea era causada por quantidades excessivas de álcool no corpo.

Hoje existem diversas teorias. Uma das mais populares sugere que o fogo é iniciado quando o metano (gás inflamável resultante da decomposição de vegetais) acumulado nos intestinos entra em ignição estimulado por enzimas (proteínas no corpo que atuam como catalisadores para induzir e acelerar as reações químicas). Entretanto, muitas vítimas da combustão humana espontânea, sofrem mais danos na parte externa do que dentro de seus corpos, aparentemente contrariando essa teoria.

Outras teorias especulam que a origem do fogo poderia ser resultado de um acúmulo de eletricidade estática dentro do corpo, ou que proviria de uma força geomagnética externa exercida sobre o corpo. Um perito em combustão humana espontânea, Larry Arnold, sugere que o fenômeno resulta de uma nova partícula subatômica chamada ‘pyroton’ que, segundo ele, interage com as células para criar uma micro-explosão. Mas não existe nenhuma evidência científica provando a existência de tal partícula.

Até março de 2005, ninguém ainda havia provado cientificamente uma teoria que pudesse explicar a combustão humana espontânea. Qual a explicação para as histórias e fotos de pessoas que aparentemente se queimavam com um fogo vindo do interior do corpo, se os seres humanos não podem entrar em combustão espontânea?

Combustão Humana x Ciência



A validação da combustão humana espontânea é vista com ceticismo pela comunidade científica. Mas já foi provado cientificamente que alguns objetos romperam em chamas sem que houvesse uma fonte externa de calor. Por exemplo, uma pilha de trapos oleosos guardados juntos a um recipiente aberto, como um balde. O oxigênio do ar incidindo sobre os trapos pode gradualmente elevar sua temperatura interna até um ponto tal que o óleo inflamável entre em ignição. Sabe-se também que uma certa quantia de feno ou palha também entram em combustão espontânea. Durante a decomposição, bactérias no interior desses volumes são responsáveis pelo processo de degradação, sendo capazes de gerar calor suficiente para provocar uma fagulha.


Se a combustão humana não é real, o que de fato ocorreu com os corpos carbonizados de tantas fotos? Uma das possíveis explicações é o efeito pavio, que afirma que um corpo em contínuo contato com uma brasa, um cigarro aceso ou outra fonte de calor intenso, atua de forma semelhante a uma vela.

A vela é composta de um pavio envolto por uma cera de ácidos inflamáveis. A cera acende a vela e conserva a sua chama. No corpo humano, a gordura atua como substância inflamável e as roupas da vítima ou seus cabelos como pavio. A gordura, derretida pelo calor, ensopa as roupas e atua como cera, mantendo a queima lenta do pavio. Os cientistas dizem que é por isso que os corpos das vítimas são destruídos sem que a chame se espalhe para os objetos ao redor.



Como se explicam as fotos dos corpos queimados, mas com as mãos e os pés intactos? A resposta a esta pergunta pode ter alguma coisa a ver com o grau de temperatura - a idéia de que a parte superior de uma pessoa sentada é mais quente do que a sua parte inferior. Basicamente, o mesmo fenômeno ocorre quando seguramos um fósforo com a chama na parte inferior. A chama muitas vezes apagará por si mesma, porque a parte debaixo do fósforo é mais fria do que a parte de cima.


Finalmente, como a ciência explica as manchas oleosas deixadas nas paredes e tetos depois dos casos de combustão espontânea? Podem simplesmente ser resíduos da queima dos tecidos gordurosos das vítimas.

Ninguém ainda desmentiu ou provou conclusivamente a combustão humana espontânea, mas a maioria dos cientistas afirma existirem explicações mais plausíveis para os restos mortais carbonizados. Muitas das chamadas vítimas da combustão espontânea eram fumantes e morreram, como se descobriu posteriormente, por terem dormido com o cigarro, charuto ou cachimbo acesos. Acredita-se que muitos vitimados estavam sob influência do álcool ou haviam sofrido de enfermidade restritiva de movimentos, que os impedia de fugir rapidamente do fogo. Outra possibilidade é a de que, em alguns casos, os corpos queimados e o estranho estado das vítimas se expliquem como resultantes de atos criminosos e as posteriores tentativas de se apagar os rastros do crime.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

The Whisperer in Darkness - Novo filme da H.P. Lovecraft Historical Society


Em 2005, a H.P. Lovecraft Historical Society produziu aquele que é considerado pelos fãs o mais fiel e autêntico filme baseado na obra imortal do criador dos Mitos ancestrais.

Uma produção bem cuidada do conto "The Call of Cthulhu" que rendeu uma bela homenagem também aos clássicos filmes mudos do início do século como "Nosferatu" e "O Gabinete do Dr. Caligari".

Call of Cthulhu é um divisor de águas. Jamais um conto de Lovecraft foi tratado com tanto respeito e dedicação e se os recursos para a feitura do filme eram escassos, todas as dificuldades foram superadas pela paixão dos envolvidos no projeto.

Passados cinco anos, a HPLHS está de volta aos negócios.

Dessa vez com um projeto ainda mais ousado envolvendo um filme de quase duas horas de duração e sonorizado.

A produção é totalmente inspirada no conto "The Whisperer in Darkeness" (Um Sussurro nas Trevas) e narra a investigação sobre um terrível segredo nas florestas de Vermont. A estória, uma das mais conhecidas é um verdadeiro clássico do horror e da ficção, apresentando criaturas clássicas, entidades tenebrosas e magníficas cenas de terror.

O teaser e o trailer abaixo deixam claro que Sussurro nas Trevas terá a mesa qualidade de Call of Cthulhu.

Ou seja, mais uma prova de que é possível fazer filmes de qualidade baseados nos Mitos.

Teaser:




Trailer 1:


terça-feira, 13 de abril de 2010

Revisitando o Horror de Red Hook - Referências e Lugares Assustadores


"O Horror em Red Hook" foi publicado em Janeiro de 1927 em uma edição da clássica revista Weird Tales. Ele foi escrito, segundo o próprio Lovecraft em meros dois dias de trabalho.

Para muitos é um conto menor na carreira de Lovecraft e um de seus trabalhos mais polêmicos. Ao retratar as condições de vida, costumes e tradições dos habitantes de Red Hook, Lovecraft deixa escapar arroubos claros de preconceito racial e xenofobia.

Vale lembrar que em 1924, época em que o conto foi escrito, ele e sua esposa, Sonia Greene, haviam recentemente se mudado para Nova York e Howard se mostrava constantemente incomodado pelo caldeirão étnico que compunha a população da metrópole. Sonia teria escrito em uma de suas correspondências: "Sempre que andamos pelas ruas apinhadas de gente com diferentes identidades étnicas, Howard fica lívido de raiva. Ele parece quase a ponto de perder as estribeiras!"

É provável que a mudança de panorama tenha causado uma reação adversa em Lovecraft. Providence sua amada terra natal era pequena e provinciana em comparação com Nova York. O barulho, a sujeira e o movimento constante irritavam Lovecraft e o deixavam incomodado.
Notavelmente "Red Hook" é um de seus único contos que se passa inteiramente em um ambiente urbano. As impressões de Lovecraft a respeito da vida na cidade teriam sido tão profundas que fizeram com que ele escrevesse um conto de horror claustrofóbico?

É possível que a resposta seja sim...

Desde que passou a viver na cidade grande, Lovecraft não escondia seu descontentamento. Seu desejo de retornar a Nova Inglaterra, pode ter sido uma das razões para o divórcio.

Mas não vamos desvirtuar do tema...

"O Horror em Red Hook" se passa na vizinhança de Red Hook (Gancho Vermelho) no Brooklyn, NY, onde Lovecraft residiu brevemente (de 1924 a 1926) no número 169 da Clinton Street. Red Hook foi estabelecido em 1636 por colonos holandeses, e as primeiras construções de frente para o mar, ajudaram a tornar a área um dos centros de comércio mercantil mais movimentados até o século XIX. O constante fluxo de mercadorias trazidas de terras distantes, atraía também estrangeiros que passaram a residir nos cortiços que compunham a vizinhança portuária.

Os residentes de Red Hook vinham de todas as partes do mundo: portugueses, italianos, espanhóis, poloneses, alemães e irlandeses, além de ocasionais habitantes de Barbados, Haiti e Guiné. Além dos idiomas, havia diferenças quanto a cor da pele, crenças religiosas e tradições.
Lovecraft reconhecidamente não aprovava o caos, e o movimento caótico de estrangeiros, com seus "costumes incomuns", causava nele uma profunda repulsa. A descrição dele dos hábitos dos estrangeiros nesse conto, é tudo menos simpática.

Praticamente todos os locais referidos em "O Horror em Red Hook" existem e são lugares com os quais Lovecraft estava bem familiarizado:

Pascoag e Chepatchet são dois vilarejos no norte de Rhode Island que o autor visitou em meados de 1923 e onde considerou residir.

Governor Island é uma ilha próxima da costa de Red Hook e a meio caminho de Ellis Island; ela serviu como residência oficial do governador colonial até 1698. Nos tempos de Lovecraft lá estava sendo construída uma base da Guarda Costeira que atualmente se encontra desativada. Ellis Island por muitos anos foi a porta de entrada para imigrantes nos Estados Unidos. O posto da autoridade alfandegária se encontrava nessa ilha que contava com um presídio e alojamentos para quarentena.

Borough Hall é o mais próximo da prefeitura do Brooklyn; trata-se de um impressionante prédio situado no número 209 da Joralemon Street. Lovecraft escreveu a respeito de sua arrojada arquitetura em uma carta a um amigo.

Flatbush é outra região do Brooklyn, estabelecida em 1652; Lovecraft se mudou para essa vizinhança e viveu no 269 da Parkside Avenue depois que se separou de sua esposa. Curiosamente os dois dividiram o apartamento até que ele decidisse retornar a Providence, deixando a mulher com a escritura da casa.
As "lápides de holandeses" citadas por ele, se referem ao cemitério e igreja que serviram de inspiração para o conto entitulado "The Hound", e corresponde a uma Igreja Reformadora erguida pelos colonos holandeses em Flatbush. O lugar em escombros já na época parecia causar arrepios em Lovecraft que andava por ali repetidas vezes e que pode ter sido atraído pela aura decadente das ruínas.

A Rua Martense (do conto "Lurking Fear") se encontra a poucas quadras dali ao sul do Hospital Universitáro do Brooklyn, e nas proximidades de Prospect Park.

Gowanus é outra vizinhança do Brooklyn, notória pelo movimento de estrangeiros e pelo funcionamento de bares clandestinos, tavernas e prostíbulos sórdidos. Lovecraft se refere ao lugar em outra de suas cartas como um formigueiro humano de péssima reputação.

Diferente de outros contos de horror, Lovecraft aqui quase não se refere aos Grandes Antigos, focando o horror nas ações de um bando que se assemelha a um grupo de satanistas. Em uma correspondência que Lovecraft trocou com Clark Ashton Smith, ele afirmava que a idéia para "O Horror em Red Hook" surgiu de um questionamento à cerca da existência de velhos cultos e religiões que ainda seriam praticadas secretamente por homens e mulheres de terras distantes. Crenças essas que teriam sido trazidas para o novo mundo e que ainda encontrariam seguidores nos porões, longe de olhos curiosos.

É provável que Lovecraft tenha se inspirado em rumores sobre igrejas clandestinas frequentadas por estrangeiros na sua própria vizinhança. Ele era uma ateu convicto e a prática de ritos estranhos, com cantorias e tambores, por detrás de portas cerradas, foi aproveitado por ele em "O Horror em Red Hook".

O conto é também conhecido por conter diversas citações ao mundo do ocultismo e do sobrenatural. Lovecraft afirmava que empreendeu pesquisas sobre o tema na Biblioteca de Nova York onde encontrou a maior parte das referências usadas nesse conto. Para muitos a familiariadde com que Lovecraft usava esses termos demonstra que ele tinha um certo conhecimento de ocultismo. Conhecimento este que preferia manter em sigilo.

Contudo, é mais provável que ele meramente pesquisasse esses temas para utilizá-los em seus contos sem jamais levá-los a sério.

O livro "Culto das Bruxas na Europa Ocidental" escrito pela antropóloga Margaret Murray realmente existe e deve ter sido consultado pelo autor em suas pesquisas. Publicado em 1921, o livro destaca a existência de uma raça pré-Ariana expulsa da Europa em virtude de suas crenças profanas. Murray afirmava que as fadas do folclore europeu, seriam uma sub-cultura derivada dessa raça ancestral. A despeito de suas conjecturas improváveis, o livro serviu como base para doutrinas neo-paganistas décadas mais tarde.

A Kabbalah também é citada no conto. O sistema teosófico judaico é um método de interpretação das escrituras, envolvendo um complexo código numérico. Lovecraft faz alusão a Kabbalah, mas não se aprofunda no tema, talvez por não estar familiarizado com seu intrincado funcionamento.

Os nomes Sephiroth, Ashmodai e Samael pertencem a entidades judaicas presentes também na Kaballah. Sephiroth representa o atributo pelo qual o infinito se relaciona com o finito. Ashmodai é outro nome de Asmodeus, um espírito maligno. Na Grécia ele é conhecido como Astarte. Samael é a encarnação de Leviathan, o demônio que convenceu Eva a cometer o pecado original. Se Lovecraft sabia o significado desses nomes, não se sabe ao certo, contudo é mais provável que ele os tenha usado pela identificação oculta deles e pela sonoridade.

A "Lenda de Fausto" é uma fábula do século XVI a respeito do Dr. Johann Fausto, que vendeu sua alma ao diabo em troca de juventude, poder e conhecimento. O dramaturgo elizabetano Christoper Marlowe (1564-1593) adaptou Fausto em uma peça, assim como o alemão Goethe (1749-1832). Mais tarde a história do Dr. Fausto inspirou compositores como Schubert, Schumann, Berlioz, Mahler e Gounod, além do novelista Thomas Mann (1875-1955). Lovecraft era um entusiasta dessa peça, e lamentava jamais ter podido assistir sua execução.

Não se sabe ao certo a natureza do termo Gorgo, embora seja aceito que é uma variação do nome "Górgona", as fêmeas amaldiçoadas com cabelos em forma de serpentes, tão hediondas que a mera visão tornaria um homem em pedra. Das três, Medusa é a mais conhecida.

Mormo também se refere a uma figura extraída da Mitologia Grega. Esta entidade era uma espécie de carniçal que servia a Hécate perseguindo crianças, mordendo-as e deixando cicatrizes em seus corpos. A Hécate por sua vez é uma deusa grega que habita as encruzilhadas. Ela é normalmente representada com três faces distintas, representando as três idades da mulher: jovem, mãe, e anciã. Mais tarde na história, sua imagem foi transformada de deusa do destino para entidade do submundo, patrona da magia e associada na Mitologia de Cthulhu a Shub-Niggurath.

A Magna Mater é um aspecto de Cybele, uma deusa da fertilidade na antiga Frígia, também associada a Cabra Negra com 1000 crias. O culto dedicado a Cybele existiu por volta de 6000 anos até ser eliminado nos primeiros séculos da cristandade. Por volta do ano 200 A.C. a sagrada pedra negra de Cybele foi levada como prêmio para Roma, onde um culto se estabeleceu. Os seguidores de Cybele eram em geral mulheres, mas sacerdotes do culto eram homens que realizavam a própria castração diante da imagem da deusa. Apenas mulheres e eunucos podiam permancer nas celebrações mais importantes. O culto da Magna Mater também é citado em "The Rats in the Walls".

Lovecraft também usou outros elementos do antigo testamento em seu conto. Moloch é uma divindade dos amonitas. Ele era reverenciado através do sacrifício de crianças atiradas às chamas. Ele é mencionado no "Paraíso Perdido" de John Milton como "..um horrível rei, sujo pelo sangue dos inocentes e lágrimas de seus pais..." Historiadores sugerem que a divindade era glorificada na forma de uma estátua representando um boi de latão.

"Walpurgis" se refere a Walpurgisnacht, também chamada de Noite de Beltane. A data marca uma das mais importantes reuniões de bruxas, o Sabbath. Ele é mencionado várias vezes na obra de Lovecraft em especial "The Dunwich Horror" e "The Dreams in the Witch House".

Não foram poucas as citações colhidas por Lovecraft em "O Horror em Red Hook", o que o torna um dos contos com maior número de referências. Ainda que não faça parte dos Mitos de cthulhu, e que seja colocado em um segundo plano , sobretudo por aqueles que se ofendem pela visão precinceituosa, "Red Hook" continua sendo uma estória assustadora envolvendo fanatismo e loucura, temas sempre recorrentes na obra de Lovecraft.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Criptozoologia do Mythos | O verme gigante da Mongólia

Ok, o título desse artigo parece uma brincadeira, mas não é.

A Criptozoologia, é um ramo pouco conhecido da ciência biológica que se refere ao estudo, pesquisa e reconhecimento de animais incomuns e tidos como lendários. Nisso podemos incluir o pé grande, serpentes gigantescas, chupacabra, monstro de LochNess e outras criaturas que ocupam a fronteira entre o fato e a ficção.

Especialistas tentam estabelecer através de relatos e análises de laboratório similaridades entre animais já conhecidos e criaturas que fazem parte do folclore. Foi assim que alguns alegados ossos de dragões, foram identificados como fósseis de dinossauros e como os restos de krakens foram identificadas positivamente como uma espécie de lula gigante.

Os estudiosos da criptozoologia buscam há décadas a comprovação da existência de um animal que habitaria as planícies remotas do Deserto de Gobi, na Mongólia. A criatura em questão é conhecida como o Verme Gigante da Mongólia, também chamado de Mongolian Death Worm ou no idioma local pelo nome de olgoi khorkhoi (que pode ser traduzido como "verme de intestino", nome derivado do fato da criatura se assemelhar a um intestino de vaca).

O Verme Gigante chamou a atenção de estudiosos a partir da pesquisa do Professor Roy Chapman Andrews que recolheu relatos sobre a criatura em sua expedição paleontológica em 1926. Trata-se de um mito bastante difundido entre as tribos nômades que habitam essa região, uma das mais inclementes do mundo.

O animal é descrito como um verme de coloração avermelhada ou ferruginosa, que mede algo entre 1 e 5 metros de comprimento e se move por baixo do terreno arenoso. A criatura seria conhecida por atacar animais e até seres humanos brotando da terra de surpresa e se fixando com grandes pinças na vítima. A lenda afirma ainda que o verme possui uma característica única: ele regurgita uma mistura corrosiva, uma espécie de ácido bilear. Para alguns, o ácido pode até ser cuspido á distância tornando o verme ainda mais perigoso.


A existência do verme, jamais foi documentada, contudo os povos que vivem no Gobi acreditam que ele existe e habita as regiões mais insalubres ao sul do Deserto. Ele passaria a maior parte de seu ciclo de vida enterrado no solo em estado de hibernação, despertando apenas para se alimentar. O animal tiraria seu sustento de depósitos subterrâneos de sais minerais e água, mas também seria capaz de se alimentar de animais e até de pessoas.


Os nômades tem um profundo respeito e medo desses vermes. Tocar um desses animais segundo o mito é uma atitude temerária, uma vez que ela é coberta pela substância ácida extremamente venenosa. Há lendas bastante antigas que mencionam vermes enormes surgindo no solo para derrubar cavalos para depois se alimentar deles, deixando o cavaleiro no meio do deserto. Para alguns, o movimento dos vermes poderia ser sentido no solo e seria capaz de provocar deslizamentos e abrir fissuras. Terremotos também estão associados a eles.

Uma das hipóteses, muito contestada, para a existência do Verme é que ele seria um descendente de enguias elétricas que teriam habitado o deserto de Gobi na pré-história, quando ali existia um mar interno que se estendia até os Urais. Outras possibilidades aviltadas envolvem relacionar o Verme com uma espécie de serpente cuspidora ou lagarto sem patas.

Várias expedições procuraram a comprovação da existência desse estranho animal, a mais recente ocorreu em 2009 e foi patrocinada por um canal de TV da Nova Zelândia. Embora narrativas detalhadas sobre o verme tenham sido obtidas, provas factuais no entanto não foram encontradas.

O mais provável é que esse animal não exista, contudo trazendo-o para a ficção é possível vê-lo sob uma perspectiva bem interessante... como um monstro dos Mitos de Cthulhu.

O animal se assemelha a uma típica criatura lovecraftiana. Um verme incomum, que povoa o imaginário coletivo das pessoas em uma região totalmente isolada e num ambiente hostil? Sua descrição remete diretamente aos horrores subterrâneos de Brian Lumley, os Cthonians, e os gigantescos monstros em forma de verme, os Dholes.

Abaixo elaborei uma ficha dessa criatura e algumas idéias de como usá-lo em um cenário de Call of Cthulhu.

Vermes Gigantes da Mongólia, Raça Independente Menor

"Era um enorme verme projetando-se do solo como uma torrente encarnada. Ele se movia rapidamente, com as pinças abrindo e fechando, gotejando uma espécie de bile amarelada, a mesma que recobria seu corpo avermelhado conferindo-lhe uma aparência molhada e oleosa. O fedor que emanava dele era hediondo. Apenas olhar para a criatura causava um misto de pavor e repulsa indescritíveis".

STR 3d6 x2
CON 3d6 +10
SIZ 3d6 +10
INT 1d6 +6
POW 3d6
DEX 2d6

Movimento: 6
Av. Damage Bonus: +2d6
Ataques: Mordida 55%, dano 1d4 +db
Regurgitar Ácido 40%, dano 1d10 (por 1d6 rounds, ou até ser removido)
Armor: 2 pontos de músculos e carapaça.
Habilidades: Captar ondas 85%, Listen 30%

Sanidade: 1d2/1d6 pontos de sanidade por ver um Verme Gigante da Mongólia, espécimes muito grandes podem ter um custo de 1d3/1d20

Essas criaturas são parentes distantes dos gigantescos vermes gigantes conhecidos como Dholes. É possível que eles sejam originários da Terra dos Sonhos, invocados através de magias e rituais conduzidos por feiticeiros no Deserto de Gobi e presos em nossa realidade incapazes de retornar ao seu local de origem.

Adaptando-se muito bem ao ambiente hostil do Deserto de Gobi, os vermes gigantes passaram a viver em regiões distantes. Como precisam de muito pouco para garantir a subexistência eles raramente são encontrados. Dotados de uma inteligência rudimentar, essas criaturas são capazes de formular planos e de executar estratégias de caça. Extremamente territoriais, os vermes atacam invasores detectando ondas de choque no solo. Um verme gigante é capaz de sentir a aproximação de um humano adulto pelos seus passos ou de um veículo motorizado há quilômetros de distância. Uma vez atraídos dessa forma eles buscam atacar o invasor e depois arrastar seu corpo para dentro da terra.

Entre os ataques dos Vermes, nenhum é mais temido que o ácido que pode ser "cuspido" a uma distância igual a destreza da criatura em metros. A substância é incrivelmente corrosiva e grudenta, fixando-se à pessoa, causando dano contínuo até ser removido (raspado de preferência) ou até seu efeito cessar. O verme é capaz de acumular uma quantidade de ácido suficiente para cuspir duas ou três vezes a cada hora.

Estes animais podem se alimentar de carne e preferem arrastar suas presas para câmaras subterrâneas onde as devoram regurgitando o ácido sobre os restos que depois é sugado. Encontrar uma vítima cujo corpo foi dissolvido dessa forma ocasiona a perda de 1/1d8 pontos de Sanidade.

Ganchos para Cenários:

- Na década de 20, a Mongólia disputava com a África o título de Berço da Humanidade. Muitos antropólogos acreditavam que no Deserto de Gobi poderiam ser encontrados fósseis humanos que comprovariam essa teoria. Uma Expedição da Miskatonic University (ou qualquer outra instituição ocidental) segue para o Sul do Deserto de Gobi em busca de indícios. Infelizmente a expedição descobre algo mais terrível do que fósseis.

- Uma tribo de nômades, descende dos cultistas e bruxos que trouxeram os primeiros vermes gigantes da Terra dos Sonhos. esses fanáticos continuam realizando seus ritos profanos sacrificando vítimas às criaturas. O plano deles é atrair com sacrifícios um enorme Dhole, que eles veneram como sua divindade. Ajudando o governo chinês em uma expedição de prospecção de petróleo, os investigadores terão de lutar pela sua vida enfrentando cultistas e monstros no deserto.

- Os investigadores seguem o rastro de uma expedição desaparecida e descobrem qual o destino de seus membros ao se confrontar com a descoberta de um complexo subterrâneo infestado pelos vermes gigantes.

- O grupo descobre vestígios do que parece ser uma cidadela perdida no meio do deserto. Na verdade, o lugar é uma ruína que no passado distante foi um posto avançado usado pelos Elder Things. No lugar existe um portal desativado que se for acionado permitirá uma exploração do passado pré-histórico da região. Um velho livro cita a existência desse lugar, mas falha em mencionar que ele atraiu a presença de Vermes Gigantes que se tornaram guardiões das ruínas.